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CLASSE desunida!

MAIS uma vez voltei os olhos para o papel que estava ali deitado na mesa de trabalho. Ele olhava para mim como que dissesse: “Me assina logo! Quero virar um documento”. Havia datilografado aquelas palavras 24 horas antes. Eram letras bem elaboradas em português castiço. Sem coragem de assinar e dar termo à redação, lia e relia o expediente como a ganhar coragem. A cada vez que o relia, resolvia mudar uma palavra, substituindo-a por um sinônimo, acrescentava uma vírgula, invertia um termo ou até mesmo uma oração inteira.

Era uma forma de protelar a expedição do documento. Dirigia-se ao comandante da unidade e o teor era sobre a criação de dois descontos internos de cinco por cento do soldo, cada um deles.

Eu disse criação? Imposição.

Pela situação aflitiva em que vivíamos, vinha remoendo aquela situação.

Eram tempos duros naquela década de 1980. Governava o país o senhor Ribamar Sarney, ele e o doutor Maílson, que ditavam o rumo da economia, que, na verdade, vinha desgovernada e sem rumo desde não sei quando. Era o país da inflação fora de controle e dos escândalos financeiros, que impunha arrocho salarial à faixa mais sofrida da população brasileira. Cada ano que se findava era festejado de forma entusiástica pelo povo na vã esperança de que o próximo viesse a trazer melhores dias, já que na cabeça de todos o janeiro seguinte não tinha como trazer um ano pior que o seu predecessor. Qual nada! A situação do brasileiro ia a cada ano novo bem mais apertada que no outro. 

Tal era a conjuntura político-econômica nacional. Tais eram os problemas, que também se estendiam sobre as costas dos militares de baixa patente. 

Se, por necessidade, alguém decidisse comprar a crediário uma geladeira, um aparelho de tevê ou um fogão, além de ver comprometida parte de seu minguado salário por meses e semestres, era certo ser sumariamente humilhado ao preencher e responder uma série de perguntas  embaraçosas por parte do funcionário analista de crédito: salário, quantos filhos, se possuía ou não bens imóveis, quem seriam os avalistas…

E agora essa decisão, que representava um golpe nas nossas já combalidas finanças. 

O boletim interno dizia sobre a determinação de sua excelência em descontar do soldo de cada um de nós, suboficiais e sargentos da localidade de Manaus, a importância financeira correspondente a dez por cento do soldo. Cinco destinavam-se à Prefeitura de Aeronáutica, a título de taxa de recolhimento de lixo da vila dos suboficiais e sargentos. Os outros cinco eram para ajudar as finanças do clube, o CASSAM, que frequentávamos. Os caixas de ambas as subunidades seriam, portanto, socorridos por nós, suboficiais e sargentos da área de Manaus.

Dez por cento! E em tempos de vagas magérrimas.

E por que Sua Excelência não pedia repasse ao comando superior em Brasília? Não, para que incomodar seus superiores com problemas que poderiam ser facilmente resolvidos internamente? Vai que aí prejudiquem a sua carreira. Não. Mais fácil onerar mais ainda a tropa, fazendo carga no soldo. A tropa não reclama, a tropa aceita, a tropa tem amor à Pátria, a tropa parece não ter família para sustentar… Ora pois!


Não tínhamos anuênios nessa época, tampouco adicional natalino. Precisávamos esperar sete anos para, se as fichas de avaliação estivessem conforme e o alto comando permitisse, obtermos uma promoção que, ao final, rendia poucos cruzeiros ou cruzados de aumento no salário. A cada cinco anos o quinquênio, e tendo dez anos (era o meu caso), dois quinquênios, ou seja, 10% sobre o soldo. 

E o CASSAM?

O CASSAM era o clube que congregava os suboficiais e sargentos da área. O clube dispunha do maior espaço físico na cidade de Manaus na época. Além disso, possuía uma privilegiada área de estacionamento. Os bailes que promovia eram bastante concorridos, uma vez que geralmente abertos à comunidade manauara. 

Falava-se que na temporada de carnaval o CASSAM chegava a admitir em suas dependências de cinco a dez mil pessoas, senão mais. (imagem: Internet)

Concorridos e rendosos.

Falava-se que na temporada de carnaval o CASSAM chegava a admitir em suas dependências de cinco a dez mil pessoas, senão mais.  Nessas ocasiões, corria dinheiro à farta com ingressos, venda de bebidas e tudo o mais. Era o carnaval mais animado da capital amazonense. O estacionamento lotado e automóveis em fila indiana quilométrica do lado externo.

Havia — falavam à boca miúda — uma forte concorrência à sua diretoria na época de eleições. Muita gente boa querendo ser presidente ou diretor. As eleições eram raras na verdade; havia mesmo era indicação da autoridade, o brigadeiro de três estrelas; eleição era uma palavra considerada perigosa, mais ainda no meio militar. O fato é que havia muita vontade de se pertencer à diretoria do cassino. 

Por que?

Não sei. Havia colegas que, mesmo de férias ou até de licença especial, não abriam mão do cargo de diretor do clube. Eu sei de um suboficial da diretoria, que fora transferido para Anápolis, sendo desligado de sua unidade para seguir destino em janeiro, mas estranhamente só se desligou da diretoria do CASSAM um dia depois do baile de carnaval, já meados de fevereiro. Muito trabalhador certamente e a comunidade de suboficiais e sargentos, na época, lhe foi mui grata por tamanha abnegação.

Muita gente boa “brigava” para ser diretor do clube. Talvez por idealismo, não sei.

E agora, sua excelência mandava fazer carga na tropa para tapar rombo do CASSAM?

Diante de todas as dificuldades e suspeitas,  após muito meditar e remoer tal decisão administrativa, e mediante detalhada pesquisa na lei de remuneração, decidi fazer um documento à autoridade, pedindo que revisse a determinação, pois não havia respaldo legal.

Ao chegar na mesa do chefe, ele me chamou: “Valentim, você tem certeza que quer despachar esse documento?”. Não, Pedro Bó! É só pra gastar meu latim! É claro que não disse essas palavras, mas deu uma baita duma vontade. É que o chefe, o chefe do chefe, o comandante, todos eles possuíam a seu favor um argumento fortíssimo: o regulamento disciplinar. Diante de minha negativa, o chefe mandou o documento em frente.

O documento circulava fisicamente de um setor para outro e, como não era sigiloso, veio a cair no conhecimento de todo o quartel. O soldado para o cabo, este para o sargento e o sargento para a todo o mundo. Correu o bizu inclusive para as outras unidades de Manaus que eu estava a encabeçar um movimento contra sua excelência, o brigadeiro de três estrelas, pela extinção da cobrança mensal daqueles famigerados dez por cento.

Eu ficara famoso na área.

Naquela noite quase não dormi. Virava pra cá, pra lá… quando finalmente adormeci já lá pela madruga, sonhei que me punham uma venda nos olhos e o oficial dizia ao pelotão de fuzilamento: “Preparar! Apontar! …”. Num sobressalto e com o corpo suado, acordei um pouquinho antes do “fogo”. 

Mas no dia seguinte o documento já, depois de tramitado por mais duas ou três mesas, estava nas mãos de sua excelência, que, sem se dar o trabalho de examinar seu mérito, o repassa para a resolução do chefe do estado-maior, que era um coronel no cargo remunerado de brigadeiro.

De todo o efetivo indignado, surgiram somente dois companheiros a me fazer companhia nessa reivindicação justa. Era o Soares, primeiro-sargento, e o Brandão, terceiro. Foi marcada uma data e hora para falarmos com o chefe do estado-maior, quando, gentilmente e com toda aquela boa-vontade, sua senhoria dedicaria uma parcela de seu precioso tempo para nos ouvir.

Chegou o dia. Na hora marcada, estavam lá o Brandão e o Soares na minha seção de trabalho a convidar-me para subirmos a escada e falarmos com a autoridade. Fomos lá seguindo a ordem hierárquica, com o Soares à minha frente e o Brandão, logo atrás de mim. 

Nesse caminho interminável, entre a base da escadaria e seu topo, mil pensamentos se passariam na minha cabeça. 


Claro. Era uma decisão política e a autoridade não mudaria o que já havia decidido. Eu era um renitente, um indisciplinado, um rebelde, um fora-da-lei. A autoridade era um coronel e nós, humildes sargentos, o que poderíamos fazer? Tinha contra nós e a favor dele um argumento fortíssimo, que era o tal regulamento disciplinar. Quantos dias de cadeia, caberia a mim, o cabeça do movimento? E se a punição que certamente me seria imposta me levasse a ser expulso da Força? No meio da escada me deu ímpeto de descer, sair correndo. Seja homem, eu dizia para mim mesmo. Éramos três e eu estava entre os dois companheiros. Do nada pensei: “Caramba! Caí numa cilada. Esses dois aí não estão do meu lado coisa nenhuma. É tudo uma conspiração para me levar ao verdugo. Eles são, na verdade, a minha escolta. Certamente sairei algemado da sala do homem”.  

 Pensando assim e me imaginando um prisioneiro levado ao cadafalso, mirava a furto ao dois colegas, avaliando-os. Soares e Brandão eram bem fortes e altos. Não. Eu não teria chance de fugir. Sairia do gabinete direto para uma cela.

Chegamos à sala do coronel, que, após as continências regulamentares, nos mandou sentar nas poltronas que estavam ali para visitantes. Foi o Soares, sendo ele o mais antigo, que argumentou junto à autoridade, ficando eu e o Brandão todo o tempo em silêncio. Até então, tudo bem. Eu respirava aliviado, embora o meu semblante denunciasse a minha contrariedade com relação ao abuso de autoridade que o desconto ilegal revelava. A autoridade, embora falando baixo e calmamente, dava a entender nas entrelinhas uma ameaça velada, dizendo-nos diplomaticamente que teríamos, a partir de então, toda a má vontade do comando e coisas do gênero. 

Soltei um suspiro bem grande de alívio, quando saí da sala. Desci a escada com celeridade e voltei para a minha seção de trabalho. Foi quando o Barros, olhando para mim com curiosidade mórbida, fez uma indagação:

“E aí, quantos dias de cadeia?”.

Ora, minha cabeça a prêmio em nome de um prejuízo financeiro que se sobrepunha a toda uma coletividade, e o colega querendo saber se eu seria punido.

Isso para mim doeu forte. Que classe desunida, meu Deus! Hoje bem tenho consciência de que os comandos agem assim, contando com a desunião da classe em que cada um tenta levar vantagem em relação ao outro. É uma boca rica aqui, uma promessa de missão relevante ali, uma condecoração que pode abrir portas para uma missão futura no exterior, e assim vai. 

Nem me dei o trabalho de lhe responder. Dois meses depois fui transferido e só fiquei sabendo que o tal desconto foi reduzido à metade, cinco por cento. 

Sem perceber, envolvi-me numa ação política que, ao final, beneficiou (ao menos reduziu o prejuízo original) a toda uma comunidade. 

Isso foi no segundo semestre de 1989.

Não permaneci na unidade para sofrer da parte do comando a ameaçadora má vontade. 

L.s.N.S.J.C.!

(Postado originalmente em 14jan2019)

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PRECARIZAÇÃO das relações de trabalho!

QUANDO residia em Manaus, travei conhecimento da existência na cidade de um empresário chamado Baiano, proprietário de uma frota de táxi, não sei se trinta, quarenta ou mais automóveis. Nunca o vi. Quem me falava sobre ele era o seu Melo, um servidor público do então Ministério da Aeronáutica, colega de sala de trabalho, já então com os seus cinquenta e tantos anos.

Baiano teria iniciado a vida profissional como taxista, daí, com o tempo, comprado outro carro, depois mais um, para, ao longo de trinta ou mais anos, tornar-se dono de uma frota fabulosa, virando capitalista. Isso foi lá pela década de 1980, em plena recessão econômica. Sua fama, no entanto, não era boa entre os taxistas da cidade. 

Não é tão simples viver da profissão.

Não basta possuir um automóvel e sair dirigindo por aí apanhando passageiros. O número de permissões exaradas pela prefeitura é limitado, daí o candidato a taxista, não tendo dinheiro suficiente para comprar de terceiros uma licença de táxi, deve sujeitar-se a dirigir em forma de aluguel, pagando a diária estabelecida pelo dono do veículo. 

Quem é mais poderoso impõe a regra do jogo. É assim que a banda toca.

Baiano exigia os olhos da cara dos pobres taxistas. Tinham de virar bicho, rodando pela cidade de dia e de noite, inclusive aos sábados, domingos e feriados, quando o preço da corrida fica mais elevado, a chamada bandeira dois.

A grita era alta, de forma que um dia os coitados, não suportando mais a carga, tiveram que bater às portas do Serviço de Proteção ao Consumidor.

Relembrando esse episódio de trinta e tantos anos atrás para introduzir um outro.

O blogueiro estava na antessala do dentista e, como nada tinha a fazer, deteve-se assistindo a um programa de televisão. Costumo selecionar o que vejo, mas aí não havia outra coisa senão, passivamente, aceitar o que o aparelho me oferecia.

A matéria falava sobre empreendedores individuais, desses que perdem emprego e, sem opção, acabam por decidir montar um negócio pequeno. No caso, o negócio, que era vender hambúrgueres artesanais, funcionava na própria casa. Mostravam o sucesso, o êxito de pessoas ousadas, de iniciativa, dessas que não se conformam com a passividade e a crise. Vão à luta.

Até aí, tudo bem.

De fato, há pessoas que, sem opção de emprego formal, acabam por descobrir um nicho de mercado vindo a prosperar, ganhar dinheiro, ascender socialmente, ter muitos empregados e tudo o mais. Resumindo: ficam ricos!

O que está errado aí?

Essa rede de televisão querer convencer o povo brasileiro de que o caminho tem que ser esse aí. Ora, nem precisa sacar muito de Matemática para saber que não há lugar para todos no ramo dos negócios, das vendas, do empreendedorismo. Não há consumidor para todos.


Lembrando do caso Baiano, pego os táxis como exemplo.


Alguém, por opção ou por falta de emprego mesmo, com algum esforço talvez consegue um táxi para dirigir. Legal! Sem patrão, sem ordens de cima, sem horário rígido para cumprir. Basta conhecer bem a cidade e pegar passageiro aqui e deixar ali, e assim vai. No início dirige de aluguel, mais tarde — sempre com algum ou muito esforço e bastante economia — passa a conduzir seu próprio táxi, aproveitando taxas menos ferozes, embora a especulação que existe no ramo quanto às permissões. 


Todavia, por mais que lute e economize horrores, tendo esposa e filhos para sustentar, vestir e educar, não conseguirá muita coisa e, é provável, que ao final de trinta ou quarenta anos, ainda seja taxista, quando muito com dois táxis. Seus filhos, vendo a profissão do pai, se não estimulados a estudarem, tenderão a também se ocuparem como taxista. As exceções são poucas.

Nada contra a profissão, pois cito o caso apenas como exemplo.

Mas, ainda no exemplo exposto, o taxista ignora (ou finge não ver) os riscos de uma profissão das ruas, exposto à violência urbana. Se adoecer, nenhuma renda nesse período. É torcer e cuidar para a saúde não falhar. 

De um grupo de cem ou, em hipótese melhor, cinquenta taxistas, é possível que um ou dois venham a prosperar e, ao final de dez, vinte anos, sejam proprietário de uma frota de táxis, alocando-os a outros condutores. Isso será uma exceção, não a regra. A regra é iniciar-se numa profissão e continuar nela ao resto de sua vida.

No caso dos vendedores de hambúrgueres, outros tentarão seguir o mesmo empreendimento, mas não terão a mesma sorte.

Quem inicia dirigindo um táxi, sonha ser proprietário de uma grande frota para, a exemplo de Baiano, então explorar outros que se iniciam nessa vida. Quem começa vendendo hambúrguer, deseja prosperar e tornar-se dono de uma rede de lanchonetes, e aí sim ter sob sua direção dezenas de empregados, ainda que mal remunerados. Idem em relação às lojas de confecções, mercearias ou mercadinhos, botecos, e assim por diante. “Quando a educação não é libertadora, o sonho do oprimido é ser opressor”, conforme sentenciava Paulo Freire.

Mas de tantos, somente uns poucos conseguirão. É a lei do mercado, e nem se precisa entender de Economia para saber disso.


Por trás de uma inocente matéria televisiva, a emissora procura passar uma mensagem: crises e desempregos podem ser vencidos com iniciativas, negócios próprios, vendas, serviços, coisas assim.


Você é demitido do emprego. Depois de procurar outra ocupação, ou não encontra ou o salário é muito aquém daquele que recebia anteriormente, então decide instalar uma mercearia (outro exemplo, pode ser outro negócio qualquer), aplicando a indenização trabalhista recebida, investe em equipamentos, locação de imóvel, alvarás e licenças, estoque e tudo o mais, você gasta a grana que tem e, sendo insuficiente, a que não tem, pedindo dinheiro emprestado a bancos e parentes. No final, corre sério risco de ver que o que entra não supera o dinheiro investido. Se der certo, tudo bem, mas isso é uma exceção, não a regra.


A emissora tem lado político. Sempre vai atrás dos vencedores, daqueles que se deram bem. Ela não se interessa em entrevistar os que perderam, endividaram-se, ficaram em situação pior do que antes.

Por trás disso, está a precarização trabalhista, proposta pelo Governo Federal e aprovada pelo Congresso recentemente. Outras “reformas” estão aí para serem impostas ao povo brasileiro. 

A questão do Ensino Médio é uma delas. O povo vem sendo doutrinado diariamente pelas grandes redes de comunicação — tevê, rádio, mídia impressa e internet — a aceitar que a tal reforma de ensino será uma boa para a nossa gente. Dos filhos de pobre o sistema formará técnicos para, uma vez técnicos e operários, se acomodarem nesse estágio, deixando as vagas nos cursos universitários para os filhos de pessoas mais abastadas. 


Sabe-se que, uma vez acomodado a uma determinada situação, o cidadão, já por ser chefe de família, filhos para criar, sair cedo de casa e chegar tarde, vicissitudes tais não permitem que volte aos bancos escolares a fim de deslumbrar ascensão social. Nasceu tatu, morreu cavando, como dizia Eloy Santos, um radialista paraense.

Essa forma elitista e discriminatória de pensar difere do que vem sendo praticado a partir do ano de 2003, quando foram promovidas políticas de ensino inclusivas, que permitiram ao filho do porteiro, da empregada doméstica, do taxista, do operário, estudar ao lado da filha do médico, do juiz, do professor universitário, do engenheiro, do gerente de banco. Outras políticas inclusivas também foram promovidas, gerando qualidade de vida e, sobretudo, esperanças a uma camada da população brasileira que sempre foi lembrada somente na hora do voto. Mas essa esperança, ao que parece, está com os dias contados.

No mesmo diapasão vieram as novas leis trabalhistas, que mutilaram os direitos dos trabalhadores brasileiros, duramente conquistados no decorrer de décadas com muito sangue, suor e lágrimas. Igualmente tentam nos impor a tal “deforma” previdenciária, que imporá ao trabalhador brasileiro mais tempo de trabalho e menor provento, isso se sobreviver até lá. 

É necessário que o povo brasileiro acorde, deixe de lado as fantasias das telenovelas; saibam que o dono da rede de televisão (e outros) não está nem aí para o povo, a não ser interessado em sua audiência porque isso rende mais dinheiro, muito dinheiro, e também a influenciar o seu voto. 

Acorda, minha gente!  

L.s.N.S.J.C.! 

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A FINA flor da juventude brasileira!

QUANDO eu digo que nós da Tarjeta Branca, turma 171, fazíamos parte de uma espécie do jardim da infância pode parecer exagero a muitos que não viveram na condição de aluno da Escola de Especialistas naquele biênio, final da década de 1970. Noutras palavras também dizia-nos o Professor Evandir (essa profissão e nome devem ser grafados por extenso, tal era a grandeza daquele profissional que nos ministrava Educação Física, e que ia além desta): “Vocês são a fina flor da juventude brasileira!”.

Nossa turma!

Pois bem.

Estávamos todos no galpão de escreventes. Entre uma aula e outra, o intervalo se constituía em festa, tal a algazarra (ainda se diz assim?) que promovíamos. Uma delas era os apelidos que eram atribuídos (e o autor da maioria dos apelidos era o Délio, o nosso zero um) a vários de nós.

O que mais sofria era com certeza o Vieira Lima, cuja alcunha era “porcolino” por causa da sua fisionomia que lembrava vagamente um suíno. A turma não perdoava! Também havia o “mula”, que era o Antunes por causa do seu queixo volumoso. Outro era o Maia, que ganhou do Délio o apelido de “caranguejo”. Eu levei o apelido de “pato”, talvez em razão do formato de nariz. Por fim, havia o “lua”, e o Cosme foi premiado com esse nome por causa do seu rosto redondo que lembrava a lua cheia.

Mas não ficava só aí, entre nós, alunos.

Sobrava também para os sargentos (sem que eles soubessem, evidentemente). O sargento Expedito foi batizado com o nome de “bule” devido ao seu jeito de fazer a posição de sentido, sempre com as duas mãos juntas ao corpo à altura do umbigo, igual ao utensílio doméstico de café. O Délio, mal dava o intervalo, e fazia a imitação do primeiro-sargento, e nós ríamos muito. O Reis, por ser meio gago, e por dar aula de Contabilidade Financeira, era o “fic-fat”.   Uma vez, dado o horário de intervalo, ficamos na sala fazendo a costumeira bagunça e zoando uns dos outros, quando alguém soltou um. Por azar, foi justamente aí que o sargento Vesaro, instrutor de Investigação e Justiça, entrou na sala a pretexto de alguma coisa e, passando a mão em frente a cara como que na tentativa de afastar o mal cheio característico e inevitável, censurou-nos:  

“O Délio, mal dava o intervalo, e fazia a imitação do primeiro-sargento, e nós ríamos muito.”

— Vocês não sabem conviver em coletividade.

Valdemir Vesaro era o sargento mais azedo e antipático do Curso de Escreventes. Depois que ele virou as costas, demos muita risada e continuamos na bagunça.

Vocês lembram disso, colegas e amigos Jeronimo Giglio Lopes, Adão Paulino da Silva, Paulo Sergio Silva, Nilton Clemente, Delmo Gonçalves Rocha e Délio Gonçalves Rocha?

Ou vão me deixar mentir sozinho?

L.s.N.S.J.C.!

(Postagem original em 06jan2015)

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O QUE escrever agora?

DEPOIS de 180 páginas formato A4, senti no peito um grande vazio. E agora, o que fazer? Qual seria a minha próxima empreitada?

Escrever está no meu sangue.

No fecho das páginas que me proponho a transformar em livro carquei lá: “Vamos à história dos subúrbios”. Significa dizer que farei uma releitura sobre a obra de Machado de Assis, focalizando especialmente a metalinguística Dom Casmurro. Afinal, há mais de um século é de interesse público saber se Bento Fernandes Santiago foi – ou não foi – atraiçoado por sua esposa Maria Capitolina e por seu compadre Escobar.

Mas uma das grandes dificuldades para mim é achar o fio da meada. Não é fácil. Outra: é me convencer de que realmente o assunto me apaixona. Isso porque, além de conhecer o assunto, para mim, o escritor deve ter paixão pelo tema.

Minha obra recente foi sobre a Força Aérea Brasileira em seus primórdios. Isso vai de 1941 a 1959. Aí vão algumas razões: primeiro, sou da Aeronáutica; segundo: os aviadores de então fizeram e aconteceram, de início indo às frentes de batalha, cumprindo a missão para a qual foram preparados, depois envolvidos em política e revoluções. De tudo isso, além de inúmeras fontes a abastecer-me, há a experiência nada desprezível de trinta anos de quartel.

Agora, além das histórias de subúrbio, fico também entre outros dois assuntos, ambos relacionados direta ou indiretamente à FAB. Um é o crime do tenente Bandeira, até hoje uma incógnita, tal qual o adultério de Capitu. Outra é sobre o tenente Danilo e outros heróis de guerra.

Literatura ou História? Tal é a questão – como diria Machado.

Mas, além da verve, não basta a vontade de escrever. Diferente de “O País dos Militares e dos Bacharéis”, que está no prelo, para esses três assuntos há pouca literatura. Em todo o caso, pretendo que sejam releituras, nas quais terei que conduzir o leitor a outros “senões”.

Mas, decidido a iniciar, preciso achar o tal fio da meada. Vamos ver!

L.s.N.S.J.C.!

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MEMÓRIAS de um escriba velho!

Continuação da postagem de 27jan2021.

EDMILSON, garoto pobre, era um candidato do Piauí que, chegando a Belém para um concurso à Escola de Especialista, apesar de muito dedicar-se, não conseguiu na ocasião ser aprovado. Sem dinheiro para voltar à terra natal, é levado à presença do comandante da Base, a quem pede para permanecer hospedado na Base Aérea até a data do próximo certame, quando, aprovado ou não, deixaria a unidade. Magnânimo, o coronel autoriza a permanência com condição (justa, por sinal) de o jovem ajudar nos trabalhos de rancho ou de outra subunidade. No rancho, o negrinho fica lá trabalhando, a ajudar nos afazeres diários do rancho das praças, civis e sargentos, enquanto nas horas vagas disciplinadamente queima as pestanas nos livros e apostilas. A dormida precária  era no alojamento dos taifeiros.

Pobre rapaz!

Diariamente era humilhado pelos taifeiros, que, aproveitando-se do reforço inesperado e da necessidade dele, destinavam às suas mãos as tarefas mais duras e insalubres. Não bastasse, os vocativos mais frequentes que dirigiam ao rapaz eram imbecil, burro, abestado, jumento, filho de puta e outros vocábulos elogiosos. Extravasando seus recalques, destinavam também ao jovem petelecos e cascudos.

Mas, como já citei, o teatro da vida impõe o seu próprio roteiro.

Decidido a dar fim nesse rosário de humilhações a que era todos os dias submetido, apegava-se com mais afinco aos estudos. Além da Escola de Especialistas, também candidatou-se à Escola de Aeronáutica (somente mais tarde era criada a Academia da Força Aérea). No entanto, foi novamente reprovado no concurso da Escola, mas… por ironia, logrou êxito no da Escola de Aeronáutica.

Em quatro anos voltaria oficial.

Numa fase da história brasileira em que um oficial das Forças Armadas tinha a prerrogativa de mandar recolher ao xadrez, os taifeiros do rancho passaram a preocupar-se com a boa sorte do piauiense, e também, principalmente, com a deles. Se não fosse reprovado que saísse aviador – era desejo deles; jamais saísse oficial intendente, mas, se por acaso formasse oficial da Intendência, que não regressasse a Belém. Se viesse de volta a Belém, que fosse classificado no QG da 1ª Zona e não na Base Aérea, onde provavelmente seria chefe de rancho, cargo em que seus algozes lhe deveriam obediência hierárquica incondicional.

Oh sociedade hipócrita e vil! Ela exalta o poderoso e pisa o mais fraco.

A vida é pródiga em mostrar que as pessoas tratam as outras em função do status social que possuem, e este, embora raro, às vezes se modifica. A nova condição de Edmilson, futuro oficial da Força Aérea, muda da água para o vinho o tratamento nada cavalheiresco que até então lhe é dispensado; os taifeiros agora já não mais pegam pesado com o rapaz e até lhe permitem comer junto com eles da comida que sobra dos oficiais, em vez da babugem que restava dos pratos dos soldados como antes.

Matriculado, Edmilson, movido pela mágoa do período em que era cotidianamente humilhado, não pensava noutra proa a não ser a da Base Aérea de Belém. Ademais, sendo do Piauí, Belém era rota natural. Findo o curso, foi exatamente essa unidade que lhe coube. Volta então à Base Aérea de Belém, onde é designado chefe de rancho. Houve muito taifeiro a sentir na pele as voltas que dão os ponteiros do relógio da vida.

Voltando ao meu caso.

O prazo para a matrícula na Escola fatalmente teria se esgotado, vez que eu já estava duas semanas defasado em relação ao restante da turma, que seguia plenamente adaptada à rotina do Corpo de Alunos.

Cinco minutos. Que teria sido de mim?

Afastadas tais inquietações, que felizmente não se efetivaram pela ação piedosa do meu benfeitor anônimo, quedei-me a imaginar a tal escola enquanto o veículo seguia tranquilo seu curso rotineiro. Apesar do esforço mental, a única imagem que me vinha a mente era de um prédio quadrilongo de três ou quatro andares, salas de aula de um lado e de outro do corredor, escadas, pilotis, acrescido talvez de uma quadra de esportes e piscina. A mente não ia além disso. Com efeito, a imagem feita era exatamente a colégio Augusto Meira, onde fazia o segundo grau.

Impossível imaginar uma coisa que os olhos jamais viram antes. Sem nunca se ver ao menos uma fotografia, a imagem desenhada pela mente sempre será em função do que já se conhece, as experiências anteriormente vividas.

O ônibus passava por algumas cidades: Resende, Cruzeiro… Em cada uma delas este escriba se mantinha arisco, imaginando que poderia Guará, atento para não passar direto sem imaginar que Aparecida, o destino final do Viação Sampaio, fica bem próxima, bastando pegar um ônibus urbano, detalhe que só ficaria sabendo depois. No entanto, o motorista, experiente, não permitiria acontecer semelhante descuido.

Corriam as horas e nada de chegar a Guará.

“Lorena!”, avisa o condutor. Informado, Guará era a próxima estação. Ao desembarcar, imediatamente fui à procura de informações sobre como chegar à Escola. Deveria pegar o “Escola”. Isso já mais de onze da noite. De camisa mangas curtas, passo a senti frio enquanto aguardava o tal “Escola”, que nada de chegar. Não vinha. Havia naturalmente outros ali a aguardar seu ônibus, entre eles alguns militares; soldados em sua maioria. Logo deduzi que iam também para lá a fim de pernoitarem e dia seguinte cumprirem o expediente. Nada do tal “Escola”, e passei a imaginar que essa linha já teria encerrado a sua atividade diária, o que me deixou angustiado. Vi então ao longe, aproximar-se de nós um coletivo cujo letreiro parecia ser “Vila dos Sangrentos”. Nome estranho! Era uma espécie de dislexia motivada provavelmente pelo cansaço e ansiedade, coisa natural a um garoto sozinho em terra estranha àquela hora de uma noite fria. Por frações de segundo, hesitei, mas enfim, antes que o “Vila dos Sargentos” arrancasse, decidi imitar os soldados e embarquei no ônibus cuja pintura externa indicava ser da empresa “Pássaro Marrom”.

E se houvesse na cidade outro quartel da Aeronáutica? Foi um pensamento que me ocorreu repentinamente e que durou pouquíssimo tempo. Já embarcado, o cobrador me informa que de fato a Escola fazia parte do itinerário daquela linha. Ufa! Estava chegando lá. Fiquei de olho nos movimentos dos soldados e nas placas de sinalização. Avistando já o portão da guarda onde os soldados de serviço cumpriam seus quartos de hora e o letreiro “Bem-vindo à Escola de Especialistas de Aeronáutica”, a minha preocupação agora era tão somente chegar ao local previsto para apresentar a documentação indicando a finalidade da minha presença na instituição.

Desconhecendo as instalações da Escola, desci junto com os soldados e, barrado no prédio onde eles entraram — a companhia IG –, o soldado de plantão orienta-me sobre o local exato onde eu deveria me apresentar, um tal de “Corpo de Alunos”. Agradeci e rumei para lá passando em frente ao prédio que logo no dia seguinte identificaria como Rancho dos alunos.

“Bati na porta errada. Era do outro lado.”

Estava lá: “Corpo de Alunos”, dizia o letreiro. Bati. Bati novamente e nada. Ninguém atendia. Já quase no desespero, eis que sou surpreendido por uma fala firme: “Alto lá, identifique-se!”.

O sentinela, um aluno de segunda série, me apontava um fuzil. Sem ter tido tempo de sentir medo ou algo assim, informei-lhe que estava lá para ser matriculado na Escola, ao que o futuro colega me manda apenas dar alguns passos e depois dobrar à esquerda, e ali me atenderiam. Estava batendo na porta que dá acesso à administração do Corpo de Aluno, na lateral do prédio (foto abaixo), onde funcionava as seções e o comando da subunidade.

Atendido pelo aluno-de-dia e seu auxiliar, apresentei a documentação informando-lhe, com palavras confusas, o motivo da minha presença. Creio que foi acionado o sargento-de-dia, que por sua vez, deve ter falado com o oficial-de-permanência ao CA (naquele tempo havia um oficial de serviço somente para cuidar dos assuntos do Corpo de Alunos). Considerando o avançado da hora (já passava da meia-noite), providenciaram para mim cama e cobertor na própria companhia de Infantaria, onde em princípio me apresentei.

***

Era a minha primeira noite de centenas na Escola de Especialistas de Aeronáutica nos dois próximos longos anos. Dormi muito bem, enfim recuperando as energias da extenuada viagem de mais de doze horas em que cruzei o país de norte a sul.

Acordei com a alvorada. Chamou-me a atenção a estatura elevada dos soldados, em comparação à minha figura, um franzino de um metro e sessenta e dois, 51 quilos. Talvez ali se alojasse uma companhia de PA.

Depois do café, ao iniciar o expediente administrativo da unidade, encaminham-me ao sargento Juliano, um primeiro-sargento, que me acompanha à Seção Mobilizadora, para a entrega dos papéis, coleta de impressões digitais e fotografia. Estava matriculado. Logo eu entraria na rotina dos meus futuros colegas, que já aclimatados, treinados e fardados, comportavam-se, a meu ver, como se veteranos fossem.

Tentaria sobreviver.

L.s.N.S.J.C.!

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MEMÓRIAS de um escriba velho!

Continuação da postagem de 25jan2021.

ERA o bilheteiro que, por meio da vidraça do guichê, antes me observava.

“Esse rapaz vai perder a droga desse ônibus…”.

Leia também: Era uma vez

Notando que peguei no sono, o funcionário, preocupado, se deu o trabalho de sair do seu posto de trabalho para me alertar sobre o horário. Não posso esquecer jamais esse herói anônimo, um bom samaritano, que, vendo um irmão em dificuldade, não hesita em socorrê-lo. Já havia feito a sua obrigação que era me vender o bilhete de passagem. Muito obrigado, meu bom homem. Jamais me esqueci de ti, meu irmão. Deus te abençoe sempre, onde quer que estejas, amigo.

Viação Pássaro Marrom (fonte: O Especialista em Revista, jul1979)

À semelhança de um louco, sob os olhares espantados de todos que estavam próximos à minha trajetória, corri até a plataforma e, esbaforido, embarquei naquele Viação Sampaio que me conduziria até Guaratinguetá, Estado de São Paulo. Encontrava-me prestes a entrar num processo de molde para, dentro de dois longos anos, adquirir os requisitos exigidos para tornar-me uma minúscula peça de uma máquina gigantesca e poderosa que convencionou-se chamar de Estado.

Enquanto o Viação Sampaio rodava pela Via Dutra rumo ao Vale do Paraíba, distraía-me observando a paisagem de campos e cidades.  Apesar do cansaço pela longa e agitada jornada, não tinha sono. Ainda mais em razão do susto do Rio de Janeiro, quando, sem querer, vencido pela exaustão, cochilei e logo estava totalmente entregue, prestes a perder o horário do transporte.

Embora desagradável, o medo é algo necessário à sobrevivência animal. E eu era um animal que precisava sobreviver a qualquer custo na selva em que então fora lançado.

Não fosse o gesto cristão daquele bom homem, fatalmente eu perderia o ônibus, contratempo que me faria também jogar no mato aquela oportunidade que, já nem esperando, se avizinhava ao alcance de minhas mãos. Sim. Sem dinheiro para mais uma passagem, nem imagino o que seria de mim naquele mato sem cachorro. Diante dum infortúnio de tal magnitude, que seria desse jovem de outro estado, sem parente nem derente ou conhecidos numa cidade grande como o Rio de Janeiro, pouco dinheiro no bolso, e ainda por cima tímido? Imaginei depois que, pedindo apoio aqui e acolá e informando da minha condição de candidato a um concurso da Aeronáutica, a menção do nome dessa instituição acabaria por me conduzir ao quartel da FAB mais próximo, talvez o III COMAR. Ficaria por lá — imagino — vagando, filando a boia e dormindo onde pudesse por conta da caridade do comandante ou de algum chefe de gabinete por dias ou semanas, até que me mandassem de volta no próximo avião com destino ao Pará.

Provavelmente me fariam trabalhar em troca de comida e pouso, como, anos depois fui saber, acontecera com o piauiense Edmilson.

Foi assim:

Continua…

L.s.N.S.J.C.!