QUARENTA anos de Bye Bye Brasil!

“FLORESTA amazônica. Nunca ouviu falar?” Por duas vezes no filme Bye Bye Brasil, de Cacá Diegues, se ouve essa emblemática indagação. É verdade que muita gente na década de 1970 desconhecia a Amazônia. Por incrível que pareça, até hoje, em pleno século 21, há quem não conheça a imensa Hileia. Também é fato que muitos brasileiros não conheciam – como não conhecem até hoje – o próprio Brasil, ou os diferentes brasis existentes dentro do mesmo país.

Betty Faria, estrela de Bye Bye Brasil (fonte: Internet)

DENTRE a extensa filmografia nacional, para mim um filme merece relevante destaque. “Bye Bye Brasil”, a icônica película de Cacá Diegues, está a fazer quarenta anos, vez que, produzido em 1979, foi lançado ao público em fevereiro de 1980. 

Para nós, paraenses, em particular, creio que a obra se reveste de maior significância, tendo em vista ter sido filmada em Belém, entre outras cidades brasileiras. 

Por essa razão, considerando o quadragésimo aniversário do filme, tomei a iniciativa de produzir um vídeo-documento sobre esse premiado trabalho, que contou com o protagonismo de José Wilker (talvez a seu trabalho mais importante), acompanhado de Betty Faria, Fábio Júnior e Zaira Zambelli.
Bye Bye Brasil está longe de ser apenas mais uma comédia.

O filme vai mais além ao apontar a imensa problemática social que aflige a nossa população humilde. Questões econômicas e sociais que perduram até hoje são habilmente exploradas pelo nordestino Cacá Diegues. Isso tudo, este humilde blogueiro aborda nesse trabalho de vídeo em que, entremeado de imagens cinemáticas e estáticas,e da trilha sonora utilizada no filme, procura demonstrar ao público de hoje (século 21) as situações sofridas por que passam o povo brasileiro, que, infelizmente, estão longe de seu fim.

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UFA!

OS VIZINHOS são os amigos mais próximos. Bernardete havia jogado na churrasqueira alguns pedaços de madeira para queimar e assim nós assarmos uma carne. Com tempo seco e vento, as tímidas chamas não tardaram a se formar numa grande labareda. Tudo estava tranquilo quando, passados alguns minutos, nosso vizinho, cuja casa fica mais embaixo, a uns trinta metros de distância da nossa, alarmado, dá um grito:

O dano material foi mínimo

“O beiral está pegando fogo!”

Entre surpreso e assustado com a informação, corri ao quintal e olhei para cima. O fogo já queimava o beiral, rente à chaminé da churrasqueira, que é de PVC, um material é altamente inflamável. Nesse instante, dei um grito à patroa, que imediatamente foi ao telefone para acionar os bombeiros.

Ao mesmo tempo, peguei uma mangueira d’água e apaguei o foco de origem, que era o material existente na churrasqueira. Sem saber em quanto tempo viriam os nossos heróis, e temendo que até lá o fogo já estivesse descontrolado, corri para cima com outra mangueira para, em vão, tentar apagar o fogo. Não adiantava, pois a água não tinha força suficiente para chegar até onde o fogo já ameaçava se alastrar.

Outra providência imediata por parte da patroa foi desligar a energia elétrica. Essas ações básicas foram possíveis porque, cerca de dois meses antes, ela e outras professoras haviam sido treinadas para essa emergência. Foi uma iniciativa salutar da parte da corporação de bombeiros da cidade, em convênio com a prefeitura municipal, a fim de remediar focos de incêndio nas instalações escolares. Toda a instrução dos bombeiros ainda estava fresca na cabeça da Bernardete, portanto. Santa instrução!

Logo eles chegaram e se puseram em ação, tomando todas as providências que uma emergência desse porte requer.

Agradecemos a Deus pelo nosso vizinho e por esses heróis, caros amigos soldados Gisele e Aparecido.

Ufa! Só um susto.

L.s.N.S.J.C.!

MENSAGEM ao Alemão!

PACOBAHYBA chega apressadamente ao Serviço de Suprimento Técnico, do qual é o chefe, sobe a escada a passos rápidos, quase que a pular os degraus, abre a porta da chefia e vai direto ao reservado. À parede da sala uma única testemunha: o retrato do presidente, que posa garboso para a Nação.

O Alemão

Urge passar um importante radiograma para o Alemão, ainda que ele próprio esteja ali na parede com seus olhos azuis. Alguns segundos depois e seria tarde demais para pagar esse imposto que a natureza não dispensa e que, de uma forma ou de outra, cada sujeito tem que compulsoriamente pagar não importando a hora e lugar.

Isola-se enfim nesse momento único, necessário, aliviante e prazeroso de plena solidão. 

Aaahh! 

É exatamente aí onde a natureza se faz implacável a todos indistintamente, sendo rico ou pobre, homem ou mulher, jovem ou velho, magro ou gordo, preto ou branco, santo ou pecador, ilustre ou ordinário, comandante ou soldado. Todos — absolutamente todos — se apresentam iguais neste mundo porque ninguém, não importando classe social, sexo, idade, etnia, crença religiosa, conhecimento, patente, é capaz de sonegar tão sagrado imposto.

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CINQUENTA e nove!

DEVEIS estar sempre embriagados. Aqui reside tudo. É a única questão. Para não sentir o horrível fardo do Tempo que vos esmaga os ombros e vos verga para a terra, é imperativo embriagar-se sem descanso.

Mas de quê?

De vinho, de poesia ou de virtude, a vosso gosto. Mas embriagai-vos.

E se por acaso, sobre os degraus de um palácio, sobre a relva verde de uma vala, na morna solidão  do vosso quarto, acordardes de embriaguez diminuída ou desaparecida,

perguntai ao vento, à onda, à estrela, ao pássaro, ao relógio, a tudo o que foge, a tudo o que geme, a tudo o que roda, a tudo o que canta, a tudo o que fala,

perguntai que horas são; e o vento, a onda, a estrela, o pássaro, o relógio vos responderão:

 “É hora de vos embriagardes! Para que não sejais escravos martirizados do Tempo, embriagai-vos; embriagai-vos sem cessar!

De vinho, de poesia ou de virtude, a vosso gosto.”

Charles Baudelaire

***

O ANO de 2019, malgrado a calamitosa situação política pela qual passa o nosso país, tem sido bom para mim. Esse período, que, pelo calendário, ainda não findou, é um tempo em que algumas portas me foram abertas, amizades são construídas e outras, já existentes, vem sendo estreitadas.

Os novos amigos Emmanuel e Paula. Na foto também dona Alice, minha sogra; Bernardete e Alice Maria, além da dona Teresa, uma amiga.

Dentre as amizades feitas, podemos citar aqui a família de Emmanuel Beauchard, com sua esposa Paula Pierre e o menino Ricardo. Emmanuel e Paula, sobreviventes, são do Haiti, e o Ricardo, brasileiro. Em razão da difícil realidade de seu país, decidem emigrar para a América do Sul, chegando em primeiro no Chile, ainda no governo da democrata Michelle Brachelet. Assumindo um governo de outra orientação ideológica, e com o povo chileno tendo que comer o pão que o Diabo amassou com o rabo, sobra naturalmente para os imigrantes, mormente imigrantes pretos e pobres, como é o caso dessa família de guerreiros e de seus compatriotas. Por essa razão, decidem sair do Chile em direção ao Brasil, que é um país acolhedor de todos os povos. Chegaram a Santa Catarina e, de lá, finalmente encontram abrigo definitivo em nossa cidade, aqui no Paraná. Tiveram, portanto, que contar com o coração acolhedor e solidário de nosso povo, e muito facilitou a intervenção dos amigos Claudiovane Corrêa e sua esposa, Dani Corrêa, que, em primeira mão, acolheram a família de imigrantes.

O Ensino foi outra porta que se abriu. Atendendo a uma vocação de décadas, estou às portas das salas de aula. Neste ano, pude ministrar alguns estágios, do sexto ao nono ano. Agradeço ao bom Deus pelas portas e braços que se me abrem neste ano.

Nós e o bebê Ricardo. Agora ele já está bem forte, com quase sete meses de idade.

Neste 20 de novembro, dia consagrado por lei à Consciência Negra, fui honrado com o convite para falar sobre o assunto. Graças a intervenção do amigo Juca, professor de História, estive no Colégio José de Anchieta para dar nosso humilde recado sobre as injustiças sociais porque sofrem nosso povo, notadamente negros, pardos e indígenas. Imensamente feliz quedei-me ao notar aqueles olhinhos sedentos de conhecimento que são os dos alunos do nono ano do ensino fundamental e dos primeiro ao terceiro ano do ensino médio que nos escutavam atentos.

Eu e o amigo Juca, o professor de História que me honrou com o convite para a fala sobre a Consciência Negra

Mas isso não foi tudo. No dia seguinte, em postagem de minha esposa, Bernardete Kleinibig Moreira, em honra a minha data natalícia, houve mais de meia centena de mensagens carinhosas. Uma delas me calou fundo o coração:

” Ontem o Antonio esteve na escola de meu filho, ele chegou em casa empolgado com a história de vida que ouviu.
Feliz aniversário!
Obrigada por despertar sonhos. “

No dia 20 de novembro, contribuímos com a nossa fala sobre a Consciência Negra. O evento fez parte da formação dos alunos de nono ano do ensino fundamental e de todos os anos do ensino médio.

Que vitória, meu Deus!

Outro dia, quando em estágio para o oitavo ano, no Colégio Estadual de Dois Vizinhos, no intervalo uma aluno me parou:

“Professor, o senhor vai dar aula para a nossa turma?”

Respondo que sim, e ela manifesta sua alegria:

“Obaaa!!!”

São razões mais que suficientes para, aos 59 anos de idade, lançar-me de corpo e alma à docência. São as coisas boas que a vida, incluindo as mídias sociais, nos proporcionam. Ainda, falando sobre rede social, não posso esquecer de mencionar a visita em dezenove de junho passado do amigo José Augusto Moita Soares, acompanhado de sua esposa Ivone e do filho Dimitri. Já tive oportunidade de me manifestar neste blogue sobre a surpresa que essa amizade, que antes era apenas virtual, causou em minha alma e na de Bernardete. Agora, vamos nos programar para retribuir a visita e viajar para a bela Fortaleza nesse 2020 que se aproxima, querendo o bom Deus.

A visita surpresa que nos proporcionaram os amigos José Augusto Moita, sua esposa Ivone e o filho Dimitri

Deixamos para festejar e receber os amigos com um jantar e algumas cervejas e vinho (esse não pode faltar a este adepto de Baudelaire) somente dois dias depois. 23 de novembro é a data da Flaviane, minha enteada e filha. Assim, a gente economiza e faz uma festa só.

Como passatempo, além deste blogue, do Facebook e do Twitter, agregamos o canal do YouTube “BLOGUE do Valentim!“, onde neste ano postamos alguns vídeos caseiros. Tudo conciliado com a casa, a família, o curso de Letras e suas múltiplas exigências. No YouTube, postamos recentemente o trabalho sobre “Dom Casmurro”, clássico de Machado de Assis, uma paixão desde a adolescência. Fizemos isso com a ajuda da voz melodiosa de Léo Garcia, que muito contribuiu para a beleza dessa singela resenha. Agora, sobre a Consciência Negra, fechamos a nossa apresentação com o vídeo por nós produzido a respeito da data. Por sinal, muito agradou a nossos diletos alunos e assistentes na ocasião. Ei-lo aqui:

Fechando com chave de ouro (para usar um clichê surrado) a semana de festejos, encerramos ontem (sábado, 23) com uma grande festa com direito a música ao vivo com a participação do competente Luiz Pompeo (outra grande amizade construída em 2019) e sua esposa Mariza, muitos amigos, uma culinária deliciosa das mãos habilidosas da minha esposa Bernardete, muita bebida e bastante alegria, com a embriaguez do costume à moda de Charles Baudelaire, o poeta simbolista francês.

O casal amigo Claudiovane e Dani, cuja amizade se faz mais forte neste 2019

Aqui faço o registro da recepção com algumas fotografias:

Ao lado de minha enteada (filha) Flaviane, que ontem completava 21 primaveras
Ao lado de minha querida esposa Bernardete
Também a presença do talentoso músico Luiz Pompeo

Por isso tudo, consideramos 2019 um ano de vitórias pessoais, pelo que só agradecemos a Papai do Céu.

E que venha o meia zero!

L.s.N.S.J.C.!

BELA surpresa!

CONHEÇO o Pedro Brugnara e a Ondina, sua esposa, há aproximadamente dez anos. Esse é o tempo decorrido em que estou aqui nesta aprazível cidade, região Sudoeste do Paraná.

O tempo é um mistério; parece que foi ontem. Também parece que foi ontem quando cheguei a Guaratinguetá. Bem, mas aí já é outra história.

Esse casal bonito era dono da antiga Rosa Móveis, loja popular, barateira e simples, que vendia móveis estofados, roupeiros, televisores, rádios, e tudo o mais que uma casa precisa para funcionar. Pedro e Ondina sempre nos atenderam com aquele sorriso e o caloroso abraço, vendendo sem exigências de muito papel e tudo o mais por um preço que cabia no nosso orçamento. Pena que tiveram que fechar a loja e agora vivem de outro ramo.

Neste domingo encontrei o Pedro e a Ondina no posto de gasolina, o mesmo em que sempre abasteço desde que aqui cheguei, depois de percorrer quase 3.500 quilômetro de Norte a Sul rodando por sete estados brasileiros.

Pois bem.

Neste domingo passado, enquanto os respectivos automóveis eram abastecidos, principiamos a papear. Ele, que ia à sua chácara, falava sobre a pinha, que também pode ser ata ou fruta de conde, conforme a região do Brasil. Disse-me que falara antes com um amigo de Facebook, residente no Ceará.

— Do Ceará?

— Sim, do Ceará. Estávamos na missa campal de Corpus Christi, que foi realizada ali entre o mercado Vizi, atual Ítalo e o Hotel Silver Gold, naquele espaço espremido sob um friozinho de junho — continuou. — Esse amigo começou do nada a falar comigo, puxando assunto. Logo fizemos amizade e hoje nos falamos pelo Facebook.

— Mas eu sei de quem você está falando. — Disse-lhe, e antes que ele dissesse o nome, falei-lhe: Você está falando do Moita, José Augusto Moita.

Tal foi a surpresa desse amigo ao saber que o Moita é também meu amigo, e que veio a Dois Vizinhos, desviando a rota planejada, exatamente para visitar-me, a mim e a minha família.

Mas as coincidências não ficam por aí.

Estávamos praticando o habitual ritual diário, ou seja, o sagrado chimarrão. O relógio marcava mais ou menos sete horas. Alguns minutos e os derradeiros raios de sol haviam se escondido atrás da coxilha de oeste, cedendo seu lugar à noite que se iniciava, quando uma caminhonete se aproxima de nosso portão. O automóvel vem despacito e seu condutor direciona o olhar para nós como a procurar um endereço, parando dois metros adiante já em frente ao prédio vizinho.

— É aqui que inauguraram um fogão à lenha?

Eu e essa minha mania de postar tudo no Facebook. Dias antes, orgulhoso do fogão à lenha (também conhecido por estas bandas como borralho), postei a foto nas redes sociais como a fazer inveja a muitos.

Fiquei pensando quem seria aquela figura. Por já estar escuro, a primeira pessoa em que pensei ser foi exatamente o Pedro (aí está o mistério e a coincidência), esse amigo que encontramos no posto de gasolina. Ambos, à distância e ao escuro, passam um pelo outro, a não ser que abra a boca. Assim que me indagou sobre o tal borralho, fica claro que não era o Pedro, não tinha lógica a visita do Pedro a essa hora, assim sem avisar… Não, não era o Pedro, mas era, já sob a noite sulina, que em junho costuma vir mais cedo, sim, alguém cuja semelhança não fica distante dele. Depois de alguns segundos, clarearam-me as ideias:

— José Augusto Moita!

Sempre tive esse costume de chamar as pessoas pelo nome completo. Isso vem desde quando passei a trabalhar com gente, pessoal, recursos humanos na nomenclatura atual.

— Faltou o Soares!

Era o próprio. Abraçamo-nos, apresentou a esposa, Ivone, e o filho, Dimitri.

O restante da história o próprio Moita já contou através da dita rede social, essa ferramenta que possibilitou a nossa amizade fraterna, como se de fato a gente a fosse amigo desde décadas.

Foi uma baita surpresa. A patroa improvisou um café acompanhado de queijo, salame e pão caseiro, que os amigos, depois de dez horas de estrada, comiam com gosto. Quem mandou não avisar? Se tivesse avisado, a janta estaria feita. Mas, em compensação, estragamos os planos deles em partir para Foz do Iguaçu logo na manhã seguinte. Foram devidamente intimados a retardar a viagem e ficar para o almoço, e aí sim a coisa foi mais farta.

O texto seguinte é do próprio Moita, que, à medida que viaja por este país, vai relatando tudo, a fim de deixar babando os amigos com a inveja santa:

O sol de Dois Irmãos , diferente do seu povo laborioso, é preguiçoso, só acordou depois das sete e meia. Levamos sorte quanto ao frio, não estava muito intenso, deu para colocar a cara fora do hotel às seis e testemunhar duas comunidades católicas espalhando artisticamente serragem colorida pelo asfalto. Dia de Corpus Cristhus, houve uma procissão que terminou em missa campal bem próxima ao hotel em que estávamos.


Já falei do amigo que deixou de ser apenas virtual, o Antônio — é assim que carinhosamente sua esposa Bernadete o chama. Pois bem, eles frustaram nosso plano de sair cedo de Dois Vizinhos para Foz do Iguaçu com um convite para a inauguração de um fogão a lenha , por aqui chamado de borralho. Pensem numa frustração farta e deliciosa! Essa estória de que cearense passa mal devido a seca nos é até benéfica em certas horas, Bernadete preparou comida que dava para uma leva de retirantes: picanha, costela, carne de porco, peixe, risoto de frango, sem contar da macaxeira de desmanchar na boca, da sobremesa de creme de abacaxi e do tempero do ‘muito carinho’ com o qual tudo nos foi preparado e servido. Porém fomos imprudentes ao convidá-los para uma temporada em Fortaleza, vamos passar uma vergonha danada, mas…


Viagens longas de carro não permitem que se faça reserva em hoteis, a imprevisibilidade, por motivo bom ou mau, é fator que se deve levar em consideração. Só que nunca dormimos na rua, sempre encontramos alguma estalagem que nos abrigasse, em Foz do Iguaçu não foi diferente: depois de perambular pela cidade encontramos um RC, ruím e caro, que, por incrível que pareça, se salva no café da manhã, diversificado e lauto.

Chegar em Foz é sinônimo de ir à Ciudad del Este, a meca dos muambeiros brasileiros. Atravessamos a Ponte da Amizade a pé, o modo mais seguro de não ser barrado por falta de documentos, nosso caso, já que a imigração paraguaia exige passaporte ou identidade atualizada — não possuo o primeiro e a segunda é do tempo em que eu parecia com o Raul Seixas. Se juntar àquela multidão de consumidores, enfrentar o caos provocado pelos carros e pelos transeuntes, pode não valer a pena, depende muito do produto a ser comprado. Sem contar que a toda hora tem um fela a lhe importunar oferecendo um serviço de guia ou uma mercadoria. Comigo aconteceu um negócio chato pra cacete, uns oito camelôs me ofereceram viagra e um me ofereceu maconha, o que fez minha patroa me sair com essa: eles estão adivinhando teu presente e o teu passado!

PS ia esquecendo, não se chega e não se sai de Foz do Iguaçu sem pagar um pedágio de R$ 16,40…só para não perder o costume. 

A vida tem dessas belas surpresas. É nisso que reside todo esse combustível que nos movimenta dia a dia.

Vira e mexe o amigo Moita nos cobra a visita. Quem sabe fica para julho do ano que vem. Janeiro já temos uma para Minas.

A Bernardete manda um abraço. Também eu para vocês, nossos grandes amigos. Se bobear, até o Pedro e a Ondina vão querer ir também.

L.s.N.S.J.C.!

BENTINHO e Capitu!

Tinha-me lembrado a definição que José Dias dera deles, “olhos de cigana oblíqua e dissimulada. ” Eu não sabia o que era oblíqua, mas dissimulada sabia, e queria ver se podiam chamar assim. Capitu deixou-se fitar e examinar. Só me perguntava o que era, se nunca os vira; eu nada achei extraordinário; a cor e a doçura eram minhas conhecidas. A demora da contemplação creio que lhe deu outra ideia do meu intento; imaginou que era um pretexto para mirá-los mais de perto, com os meus olhos longos, constantes, enfiados neles, e a isto atribuo que entrassem a ficar crescidos, crescidos e sombrios, com tal expressão que… (Machado de Assis in Dom Casmurro, capítulo 32)

***

NA PRIMEIRA vez que li Dom Casmurro juro que pensei ser apenas um caso de adultério. Sim, pensei ser Capitu, de olhos de ressaca e de cigana oblíqua e dissimulada, a vilã da história. Com efeito, em busca pela internet, a maioria das capas das muitíssimas edições desse romance realista de Machado de Assis retratam a imagem de Capitu e não a de Bentinho. Talvez porque mulher na capa de livro vende mais que homem.

De tanto falarem nessa história e na polêmica se Capitu foi infiel ou não a Bentinho, de tanto dizerem que a história é subjetiva porque conta somente o ponto de vista do narrador-personagem e que esse modo de ver as coisas contém parcialidades, é que resolvi reler a obra. Diga-se: a obra merece ser relida muitas vezes. Machado de Assis, esse autodidata fantástico, não à toa, é considerado por muitos como o maior escritor brasileiro, pois soube, como ninguém, aí deixar a dúvida eterna nas mentes de seus leitores ainda que cento e tantos anos depois de publicado o romance.

Afinal, Capitu traiu ou não traiu Bentinho?

Vamos ao livro.

Dom Casmurro, juntamente com Memórias Póstumas de Brás Cubas e Quincas Borba, forma a trilogia de romances realistas de Machado de Assis, que consagrou esse autodidata como o maior escritor brasileiro de todos os tempos.

Narrado em primeira pessoa e ambientado no Rio de Janeiro do Segundo Reinado, o romance conta a história de Bento Fernandes Santiago, o Dom Casmurro, que, na velhice escreve um livro contando a história de sua vida, focando a narrativa em seu romance com Capitolina, a Capitu, que, segundo conta ele, lhe teria sido infiel ao ter um caso extraconjugal com Escobar. Em segundo plano, Machado de Assis mostra com os olhos de Bento Santiago a sociedade brasileira de então, com seus costumes e indiferenças sociais, incluindo o clero na figura do vaidoso Padre Cabral, tudo com a ironia fina que era peculiar ao Bruxo do Cosme Velho.

Ao escrever o livro, Bento Santiago pretende atar as duas pontas da vida. O título do romance foi em homenagem a um jovem poeta de trem, que, ao recitar um de seus poemas, não obtendo a atenção que julgava merecer por parte de Santiago,  difunde, como retaliação, o apedido de Dom Casmurro. A vizinhança, por não gostar dos hábitos reclusos do narrador, dá curso à alcunha. Dom Casmurro pretende também, a fim de preencher o tempo ocioso, escrever a história dos subúrbios.

Fonte: Internet

Bentinho, filho único, fora objeto de uma promessa feita por sua mãe, dona Glória, que o destinaria ao seminário para fazê-lo padre, ainda que não tivesse vocação religiosa, como de fato não veio a ter.

A família de Capitu é vizinha à família de Bentinho. Naturalmente, os dois pequenos tornam-se amigos desde sempre, pois a diferença de idade é pequena, sendo Capitu um ano mais nova que Bentinho, enquanto a distância social é apenas coisa dos adultos. À medida que chega para ambos a adolescência, descobrem-se apaixonados, e isso vem a se tornar um empecilho para as pretensões de Dona Glória. Todavia, ela própria, ao ver o filho já adolescente, aos quinze anos, em idade de ser enviado ao seminário, intimamente reluta em cumprir a promessa, porém se dá por irremediavelmente presa ao compromisso espiritual.

Outros personagens fazem parte da trama. Um deles é o agregado José Dias, que julgamos de altíssima importância para se compreender a débil formação psicológica do narrador-personagem.

Dias, charlatão de boa lábia, bajulador, mora de favor com a família de Bentinho. É, portanto, devedor de favores a Dona Glória. Na verdade, trata-se de um sujeito astuto e preconceituoso, uma vez que ele próprio se considera membro da família e não meramente um agregado. Por essa razão, julga-se pertencente às classes abastadas e influentes da sociedade carioca do segundo reinado, a que pertence sua protetora. A Dona Glória serve incondicionalmente, moldando seu discurso ao dela; tem ótimas relações com Cosme, tio de Bentinho, advogado criminalista, a quem trata de doutor. Só não é querido pela mal-humorada Prima Justina, que percebe o caráter enviesado de José Dias. Ela faz companhia a Dona Glória, a matriarca, senhora rica, escravocrata e religiosa, que abriga a todos. Ao total são cinco pessoas na casa, além da escravaria: Dona Glória, Cosme, Justina, José Dias e Bentinho. Na casa ao lado: Pádua, Fortunata e Capitu. Padre Cabral frequenta a casa de Dona Glória.

            “Era nosso agregado desde muitos anos; meu pai ainda estava na antiga fazenda de Itaguaí eu acabava de nascer. Um dia apareceu ali, vendendo-se por médico homeopata; levava um manual e uma botica.

            Havia então um andaço de febres; José dias curou o feitor e uma escrava e não quis receber nenhuma remuneração.”

Dias naturalmente centra suas atenções e gentilezas em Dona Glória, sua protetora, mãe viúva de Bentinho, riquíssima, a quem ele busca agradar a todo custo. Para apressar a decisão da mãe de Bentinho, conspira para mandar o quanto antes o rapaz ao seminário, denunciando que o adolescente andava aos namoricos com a filha do Tartaruga (Pádua, pai de Capitu), contra quem nutre aversão. Mais tarde, em passeio com Bentinho descreve Capitu como tendo “olhos de cigana oblíqua e dissimulada”, expressão que o adolescente, facilmente influenciável, leva para o restante de sua vida.

Fonte: Internet

O desinteresse de José Dias na aproximação sentimental de Bentinho de Capitu, nessa fase da história, reside em duas razões: Primeiramente, por preconceito de classe ao pai de Capitu, um simples funcionário público; e por segundo, para não contrariar as pretensões de Dona Glória, que prometera o pequeno ao seminário. No entanto, a essa altura, a própria mãe de Bentinho já não tem tanta convicção, haja vista que a promessa fará separar-se do único filho.

José Dias sabe se fazer influente e querido por quase todos da família.

“Tinha o dom de se fazer aceito e necessário; dava-se por falta dele, como de pessoa da família. Quando meu pai morreu, a dor que o pungiu foi enorme (disseram-me, não me lembra). Minha mãe ficou-lhe muito grata e não consentiu que ele deixasse o quarto da chácara…”

É elevada, portanto, a influência de José Dias sobre a família de Bentinho, que sempre o tem em alta conta. Oportunista, mais tarde, percebendo a mudança dos ventos, ajuda o rapaz a sair do seminário sob o interesse de fazer uma viagem para a Europa, pretensão dele de muitos anos. Nada de se estranhar, afinal o jovem é o herdeiro.

Antes disso, porém, em visita a Bentinho, no seminário, perguntado sobre Capitu, Dias responde em aparente casualidade:

“Tem andado alegre, como sempre; é uma tontinha. Aquilo enquanto não pegar algum peralta da vizinhança, que case com ela…”

Essa informação, somada à descrição desfavorável anterior que o agregado fizera de Capitu, que ele, Bento Santiago, jamais esquece, produz um fortíssimo efeito no espírito do seminarista.

Outros episódios futuros igualmente vêm a contribuir para a formação de um quadro de ciúme doentio, que Bento Santiago faz questão de alimentar, e cuja gota d’água foi no velório de Escobar, quando percebe uma lágrima caindo dos olhos de Capitu. Pronto! Bento passa a ter, a partir do episódio, certeza absoluta de que foi traído pela esposa com seu colega de seminário e melhor amigo, em que pese não haver, em momento nenhum da própria narrativa, comprovação alguma do adultério. Sendo ele, de profissão, advogado, não dá em nenhum momento a Capitu o benefício da dúvida.

As brigas entre o casal tornam-se frequentes. Carregado por essa dura certeza, foca suas observações ao pequeno Ezequiel, que, a seu ver, vai, à medida que cresce, assemelhando-se cada vez mais ao falecido. Não por acaso há um capítulo em que Gurgel, pai de Sancha, esposa de Escobar, mostra um retrato da esposa em que ele comenta a semelhança com Capitu. Machado quis demonstrar que há semelhanças inexplicáveis entre pessoas sem relações de sangue.

Em atitude de evidente masoquismo, mantém o retrato de Escobar em sua mesa. O gesto tem o fim de comprovar as semelhanças entre o falecido e Ezequiel, com isso alimentando sua mágoa em relação à esposa, que ele estende para o pequeno a quem tentou matar por envenenamento. Em plena crise conjugal, certa noite, ao acaso, foi ao teatro e a peça que se encenava era a sheakespiriana Otelo. Não deu importância ao fato de Otelo ter, por ciúme, matado Desdêmona, e mas tarde descoberto que ela era inocente. Afinal, com o ciúme turvando sua mente, Bento Santiago não tinha olhos para a neutralidade da vida, sendo incapaz de enxergar outra coisa a não ser a pretensa infidelidade da esposa com o falecido.

Para manter as aparências diante da sociedade, manda Capitu e Ezequiel para viverem na Suíça. Dando a impressão de que não abandonou a família, viaja para a Europa algumas vezes; no entanto, nem se aproxima dos dois.

Na velhice, Bento Santiago torna-se um homem amargurado, infeliz e solitário. Sempre foi, conforme se sabe pela sua narrativa, superprotegido, por isso tímido e inseguro. Primeiro protegido pela mãe, sendo ele filho único, depois pelo agregado José Dias, que habilmente o manipula, influenciando negativamente o rapaz quanto à imagem de Capitu, com cuja família ele tem aversão.

Há outra questão.

Bentinho descreve Capitu como uma mulher resolvida, de opiniões próprias, capaz de sair-se facilmente de dificuldades, ao contrário dele, que era tímido e inseguro.

“Capitu era Capitu, era ela mais mulher que eu homem”.

Fonte: Internet

Esses atributos psicológicos de Capitu – supomos – contribuem em parte para a formação negativa da imagem que ele, inseguro e ciumento, faz dela, considerando-se que tais comportamentos femininos não eram bem aceitos na sociedade patriarcal de então.

Também contribuem  as suspeitas (que ele toma por convicção) as condições sociais dela e de sua família, o que leva o leitor a imaginá-la como uma mulher interesseira. Nesse quadro de ciúmes, Bento é incapaz de sopesar os aspectos favoráveis à honestidade de Capitu, concentrando-se nas condições contrárias, que apontam para o adultério. Em certo capítulo, Capitu surpreende Bentinho apresentando-lhe uma economia de dez libras esterlinas, que reunira a partir do dinheiro que o marido lhe dava regularmente. Não era uma mulher perdulária, portanto, como geralmente são as pessoas frívolas. Mais natural seria ela ter consumido o dinheiro em jóias e vestidos finos e em outros supérfluos.

Por ser subjetiva, ou seja, narrada em primeira pessoa, o maior mérito da narrativa é deixar a dúvida no leitor se Capitu foi ou não foi infiel a Bentinho. Afinal de contas, temos só a versão de Bentinho, que é o narrador.

Sabe-se que Bentinho torna-se um adulto inseguro e, por conseguinte, ciumento. Logo, o assunto principal não é o possível adultério e sim o ciúme, este foi sendo aos poucos formado pelas condições materiais e psicológicas que cercaram o personagem de Bentinho, além da imagem – real e imaginária – que ele vai fazendo, também aos poucos, de Capitu.

Fonte: Internet

Dom Casmurro, um romance metalinguístico, é a obra-prima de Machado, esse genial autodidata. Construiu uma narrativa subjetiva, enquanto ponto de vista do narrador-personagem, que visa, com o livro, atar as duas pontas da vida

Fonte: Internet

Vamos à história dos subúrbios!

L.s.N.S.J.C.!

CLARICE Lispector!

Banhos de mar

Clarice Lispector (fonte: Google)

MEU pai acreditava que todos os anos se devia fazer uma cura de banhos de mar. E nunca fui tão feliz quanto naquelas temporadas de banhos em Olinda, Recife.


Meu pai também acreditava que o banho de mar salutar era o tomado antes do sol nascer. Como explicar o que eu sentia de presente inaudito em sair de casa de madrugada e pegar o bonde vazio que nos levaria para Olinda ainda na escuridão?

Fonte: Google

De noite eu ia dormir, mas o coração se mantinha acordado, em expectativa. E de puro alvoroço, eu acordava às quatro e pouco da madrugada e despertava o resto da família. Vestíamos depressa e saíamos em jejum. Porque meu pai acreditava que assim devia ser: em jejum. Saíamos para uma rua toda escura, recebendo a brisa da pré-madrugada. E esperávamos o bonde. Até que lá de longe ouvíamos o seu barulho se aproximando. Eu me sentava bem na ponta do banco: e minha felicidade começava. Atravessar a cidade escura me dava algo que jamais tive de novo. No bonde mesmo o tempo começava a clarear e uma luz trêmula de sol escondido nos banhava e banhava o mundo. Eu olhava tudo: as poucas pessoas na rua, a passagem pelo campo com os bichos-de-pé. “Olhe um porco de verdade!” gritei uma vez, e a frase de deslumbramento ficou sendo uma das brincadeiras de minha família, que de vez em quando me dizia rindo: “Olhe um porco de verdade”.

Passávamos por cavalos belos que esperavam de pé pelo amanhecer.Eu não sei da infância alheia. Mas essa viagem diária me tornava uma criança completa de alegria. E me serviu como promessa de felicidade para o futuro. Minha capacidade de ser feliz se revelava. Eu me agarrava, dentro de uma infância muito infeliz, a essa ilha encantada que era a viagem diária. No bonde mesmo começava a amanhecer. Meu coração batia forte ao nos aproximarmos de Olinda. Finalmente saltávamos e íamos andando para as cabinas pisando em terreno já de areia misturada com plantas. Mudávamos de roupa nas cabinas. E nunca um corpo desabrochou como o meu quando eu saía da cabina e sabia o que me esperava.

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O mar de Olinda era muito perigoso. Davam-se alguns passos em um fundo raso e de repente caía-se num fundo de dois metros, calculo.
Outras pessoas também acreditavam em tomar banho de mar quando o sol nascia. Havia um salva-vidas que, por uma ninharia de dinheiro, levava as senhoras para o banho: abria os dois braços, e as senhoras, em cada um dos braços, agarravam o banhista para lutar contra as ondas fortíssimas do mar.


O cheiro do mar me invadia e me embriagava. As algas boiavam. Oh, bem sei que não estou transmitindo o que significavam como vida pura esses banhos em jejum, com o sol se levantando pálido ainda no horizonte. Bem sei que estou tão emocionada que não consigo escrever. O mar de Olinda era muito iodado e salgado. E eu fazia o que no futuro sempre iria fazer: com as mãos em concha, eu as mergulhava nas águas e trazia um pouco de mar até minha boca. Eu bebia diariamente o mar, de tal modo queria me unir a ele. Não demorávamos muito. O sol já se levantara todo, e meu pai tinha que trabalhar cedo. Mudávamos de roupa, e a roupa ficava impregnada de sal. Meus cabelos salgados me colavam na cabeça.
Então esperávamos, ao vento, a vinda do bonde para Recife. No bonde a brisa ia secando meus cabelos duros de sal. Eu às vezes lambia meu braço para sentir sua grossura de sal e iodo.

Chegávamos em casa e só então tomávamos café. E quando eu me lembrava de que no dia seguinte o mar se repetiria para mim, eu ficava séria de tanta ventura e aventura.


Meu pai acreditava que não se devia tomar logo banho de água doce: o mar devia ficar na nossa pele por algumas horas. Era contra a minha vontade que eu tomava um chuveiro que me deixava límpida e sem o mar.
A quem devo pedir que na minha vida se repita a felicidade? Como sentir com a frescura da inocência o sol vermelho se levantar?

Nunca mais?
Nunca mais.
Nunca.

( http://claricelispector.blogspot.com/2008/01/banhos-de-mar.html )


“A quem devo pedir que na minha vida se repita a felicidade? Como sentir com a frescura da inocência o sol vermelho se levantar?” Lindo. Simplesmente lindo!

L.s.N.S.J.C.!