CLARICE Lispector!

Banhos de mar

Clarice Lispector (fonte: Google)

MEU pai acreditava que todos os anos se devia fazer uma cura de banhos de mar. E nunca fui tão feliz quanto naquelas temporadas de banhos em Olinda, Recife.


Meu pai também acreditava que o banho de mar salutar era o tomado antes do sol nascer. Como explicar o que eu sentia de presente inaudito em sair de casa de madrugada e pegar o bonde vazio que nos levaria para Olinda ainda na escuridão?

Fonte: Google

De noite eu ia dormir, mas o coração se mantinha acordado, em expectativa. E de puro alvoroço, eu acordava às quatro e pouco da madrugada e despertava o resto da família. Vestíamos depressa e saíamos em jejum. Porque meu pai acreditava que assim devia ser: em jejum. Saíamos para uma rua toda escura, recebendo a brisa da pré-madrugada. E esperávamos o bonde. Até que lá de longe ouvíamos o seu barulho se aproximando. Eu me sentava bem na ponta do banco: e minha felicidade começava. Atravessar a cidade escura me dava algo que jamais tive de novo. No bonde mesmo o tempo começava a clarear e uma luz trêmula de sol escondido nos banhava e banhava o mundo.Eu olhava tudo: as poucas pessoas na rua, a passagem pelo campo com os bichos-de-pé: “Olhe um porco de verdade!” gritei uma vez, e a frase de deslumbramento ficou sendo uma das brincadeiras de minha família, que de vez em quando me dizia rindo: “Olhe um porco de verdade”.

Passávamos por cavalos belos que esperavam de pé pelo amanhecer.Eu não sei da infância alheia. Mas essa viagem diária me tornava uma criança completa de alegria. E me serviu como promessa de felicidade para o futuro. Minha capacidade de ser feliz se revelava. Eu me agarrava, dentro de uma infância muito infeliz, a essa ilha encantada que era a viagem diária.No bonde mesmo começava a amanhecer. Meu coração batia forte ao nos aproximarmos de Olinda. Finalmente saltávamos e íamos andando para as cabinas pisando em terreno já de areia misturada com plantas. Mudávamos de roupa nas cabinas. E nunca um corpo desabrochou como o meu quando eu saía da cabina e sabia o que me esperava.

Fonte: Google


O mar de Olinda era muito perigoso. Davam-se alguns passos em um fundo raso e de repente caía-se num fundo de dois metros, calculo.
Outras pessoas também acreditavam em tomar banho de mar quando o sol nascia. Havia um salva-vidas que, por uma ninharia de dinheiro, levava as senhoras para o banho: abria os dois braços, e as senhoras, em cada um dos braços, agarravam o banhista para lutar contra as ondas fortíssimas do mar.
O cheiro do mar me invadia e me embriagava. As algas boiavam. Oh, bem sei que não estou transmitindo o que significavam como vida pura esses banhos em jejum, com o sol se levantando pálido ainda no horizonte. Bem sei que estou tão emocionada que não consigo escrever. O mar de Olinda era muito iodado e salgado. E eu fazia o que no futuro sempre iria fazer: com as mãos em concha, eu as mergulhava nas águas e trazia um pouco de mar até minha boca: eu bebia diariamente o mar, de tal modo queria me unir a ele.Não demorávamos muito. O sol já se levantara todo, e meu pai tinha que trabalhar cedo. Mudávamos de roupa, e a roupa ficava impregnada de sal. Meus cabelos salgados me colavam na cabeça.
Então esperávamos, ao vento, a vinda do bonde para Recife. No bonde a brisa ia secando meus cabelos duros de sal. Eu às vezes lambia meu braço para sentir sua grossura de sal e iodo.
Chegávamos em casa e só então tomávamos café. E quando eu me lembrava de que no dia seguinte o mar se repetiria para mim, eu ficava séria de tanta ventura e aventura.


Meu pai acreditava que não se devia tomar logo banho de água doce: o mar devia ficar na nossa pele por algumas horas. Era contra a minha vontade que eu tomava um chuveiro que me deixava límpida e sem o mar.
A quem devo pedir que na minha vida se repita a felicidade? Como sentir com a frescura da inocência o sol vermelho se levantar? Nunca mais?
Nunca mais.
Nunca.

( http://claricelispector.blogspot.com/2008/01/banhos-de-mar.html )


“A quem devo pedir que na minha vida se repita a felicidade? Como sentir com a frescura da inocência o sol vermelho se levantar?” Lindo. Simplesmente lindo!

L.s.N.S.J.C.!

LUÍS Fernando Veríssimo!

A Brincadeira

L. F. Veríssimo (imagem: Google)

COMEÇOU como uma brincadeira. Telefonou para um conhecido e disse:

– Eu sei de tudo.

Depois de um silêncio, o outro disse:

– Como é que você soube?

– Não interessa. Sei de tudo.

– Me faz um favor. Não espalha.

– Vou pensar.

– Por amor de Deus.

– Está bem. Mas olhe lá, hein?

Descobriu que tinha poder sobre as pessoas.

– Sei de tudo.

– Co- como?

– Sei de tudo.

– Tudo o quê?

– Você sabe.

– Mas é impossível. Como é que você descobriu?

A reação das pessoas variava. Algumas perguntavam em seguida:

– Alguém mais sabe?

Outras se tornavam agressivas:

– Está bem, você sabe. E daí?

– Daí nada. Só queria que você soubesse que eu sei.

– Se você contar para alguém, eu…

– Depende de você.

– De mim, como?

– Se você andar na linha, eu não conto.

– Certo.

Uma vez, parecia ter encontrado um inocente.

– Eu sei de tudo.

– Tudo o quê?

– Você sabe.

– Não sei. O que é que você sabe?

– Não se faz de inocente.

– Mas eu realmente não sei.

– Vem com essa.

– Você não sabe de nada.

– Ah, quer dizer que existe alguma coisa pra saber, mas eu é que não sei o que é?

– Não existe nada.

– Olha que eu vou espalhar…

– Pode espalhar que é mentira.

– Como é que você sabe o que eu vou espalhar?

– Qualquer coisa que você espalhar será mentira.

– Está bem. Vou espalhar.

Mas dali a pouco veio um telefonema.

– Escute. Estive pensando melhor. Não espalha nada sobre nada daquilo.

– Aquilo o quê?

– Você sabe.

Passou a ser temido e respeitado. Volta e meia alguém se aproximava dele e sussurrava:

– Você contou para alguém?

– Ainda não.

– Puxa. Obrigado.

Com o tempo, ganhou uma reputação. Era de confiança. Um dia, foi procurado por um amigo com uma oferta de emprego. O salário era enorme.

– Por que eu? – quis saber.

– A posição é de muita responsabilidade – disse o amigo. – Recomendei você.

– Por quê?

– Pela sua descrição.

Subiu na vida. Dele se dizia que sabia tudo sobre todos, mas nunca abria a boca para falar de ninguém. Além de bem-informado, um gentleman. Até que recebeu um telefonema. Uma voz misteriosa que disse:

– Sei de tudo.

– Co-como?

– Sei de tudo.

– Tudo o quê?

– Você sabe.

Resolveu desaparecer. Mudou-se de cidade. Os amigos estranharam o seu desaparecimento repentino. Investigara. O que ele estaria tramando? Finalmente foi descoberto numa praia remota. Os vizinhos contam que a voz que uma noite vieram muitos carros e cercaram a casa. Várias pessoas entraram na casa. Ouviram-se gritos. Os vizinhos contam que mais se ouvia era a dele, gritando:

– Era brincadeira! Era brincadeira!

Foi descoberto de manhã, assassinado. O crime nunca foi desvendado. Mas as pessoas que o conheciam não têm dúvidas sobre o motivo.

Sabia demais.

L.s.N.S.J.C.!

OSCAR Niemeyer!

Mas, que vos parece? Um homem tinha dois filhos, e, dirigindo-se ao primeiro, disse: Filho, vai trabalhar hoje na minha vinha.
Ele, porém, respondendo, disse: Não quero. Mas depois, arrependendo-se, foi. // E, dirigindo-se ao segundo, falou-lhe de igual modo; e, respondendo ele, disse: Eu vou, senhor; e não foi.
Qual dos dois fez a vontade do pai? Disseram-lhe eles: O primeiro. Disse-lhes Jesus: Em verdade vos digo que os publicanos e as meretrizes entram adiante de vós no reino de Deus. //Porque João veio a vós no caminho da justiça, e não o crestes, mas os publicanos e as meretrizes o creram; vós, porém, vendo isto, nem depois vos arrependestes para o crer.” (Mateus 21, 28-32).

***

Oscar Niemeyer e sua primeira obra em Brasília: o Palácio da Alvorada (imagem: Google)

CONVIVE na mesma pessoa um sem número de sentimentos, emoções, formas de pensar, maneiras de agir, modos diversos de ver a vida, tudo isso variando conforme a sociedade e cada indivíduo. Em nosso país o sentimento de brasilidade, o amor pelo Brasil, o patriotismo, é erroneamente evocado em épocas de copa do mundo de futebol e em períodos eleitorais, além dos tradicionais desfiles de sete de setembro. Findando o campeonato mundial, a semana da pátria e os dias de eleição, tudo volta ao normal e ninguém mais se veste de amarelo nem desfila de automóvel com a bandeira do país.

Em parte por causa da minha carreira profissional, razão pela qual cruzei o país, esse sentimento de brasilidade me é aflorado com maior intensidade — ao menos assim considero. Malgrado suas mazelas, vejo um Brasil grande e bonito, com um povo alegre e diverso, que, em sua simplicidade, não compreende as verdadeiras razões pelas quais nossa sociedade é tão desigual.

Acompanhando os fatos históricos e enxergando o cotidiano da vida, verifico que, entre seus filhos, de quando em vez nasce um ente abençoado, um ser diferenciado dos demais, alguém capaz de destacar-se de seus compatriotas por conta do espírito inventivo de que é dotado pela natureza, somado ao seu esforço individual por que se lança à consecução dos objetivos propostos.

Outra vez falei sobre Edson Arantes do Nascimento, o Pelé, mencionando no mesmo documento outro grande brasileiro: Alberto Santos-Dumont, o Pai da Aviação. Pretendo falar oportunamente sobre outro grande homem nascido neste país: Juscelino Kubitschek, um dos homens mais fabulosos que o país já teve como chefe da Nação.

Deixemos Santos-Dumont e JK para depois.

Por perceber os grandes e verdadeiros heróis brasileiros, que por uma razão ou outra, poucos são reverenciados, a brasilidade me leva a dedicar esta página ao genial arquiteto brasileiro Oscar Ribeiro de Almeida Niemeyer Soares Filho, ou tão-somente Oscar Niemeyer, não só o maior nome da arquitetura brasileira, mas sobretudo uma grande figura humana, como pretendo demonstrar.

Contrariando os preceitos da Medicina, que preconiza vida saudável, Niemeyer, apesar de fumante desde adolescente, ultrapassa os cem anos de idade (imagem: Google)

Niemeyer nasce a 15 de dezembro de 1907 no Rio de Janeiro, morrendo a 5 de dezembro de 2012 na mesma cidade. Foi, portanto, um homem centenário que — por uma grande ironia da vida — desafiou os preceitos da medicina que recomendam ao indivíduo praticar vida saudável: era inveterado fumante, apreciava bons vinhos, além de ter perdido sono por noites e noites a dentro, imerso em seus projetos… No entanto, talvez se explique a longevidade pelo fato de Niemeyer ter amado profundamente o que fazia, ter amparado a tantos quantos dele precisasse, sem apegos excessivos ao dinheiro e às preocupações fúteis. Era o artista apaixonado pela Arquitetura; o homem amante da vida; adepto do “viva e deixe viver”.

Logo entende-lo-ão.

Oscar Niemeyer aos 10 anos de idade (imagem: Wikipédia)

O avô materno de Niemeyer, Antonio Augusto Ribeiro de Almeida, foi ministro do Supremo Tribunal Federal, cuja probidade veio a marcar profundamente o menino Oscar.

Recorda Niemeyer:

Meu avô era intrinsecamente honesto e, tendo ocupado cargos importantes, morreu pobre, deixando para seus quatro filhos apenas aquela casa das Laranjeiras. E isso foi muito importante para mim.

Em 1928, casa-se com Annita Baldo; ele, 21, ela com dezoito anos. Ainda estudante do terceiro ano do curso de Engenharia e Arquitetura da Escola Nacional de Belas Artes do Rio de Janeiro, em vez de trabalhar nas firmas de engenharia, como era a praxe entre os estudantes de engenharia da época, procura o escritório de Lúcio Costa e de Carlos Leão e oferece-se para trabalhar de graça.

O ainda jovem arquiteto Oscar Niemeyer (imagem: Google)

Do agradecido Niemeyer:

A partir do terceiro ano senti, como todos os companheiros, a conveniência de procurar emprego numa firma construtora. O trabalho paralelo que leva os estudantes a conhecerem melhor a profissão, além do salário que lhes dá outras facilidades. Resisti, não queria, como a maioria dos meus colegas, me adaptar a essa arquitetura comercial que vemos por aí. E, apesar das minhas dificuldades financeiras, preferi trabalhar, gratuitamente, no escritório de Lúcio Costa e Carlos Leão, onde esperava encontrar as respostas para minhas dúvidas de estudante de arquitetura. Era um favor que me faziam. E minha decisão, prova de que não era um espírito vazio e imediatista, que, ao contrário, tinha como objetivo ser um bom arquiteto. Como me foram úteis esses queridos amigos! Com eles aprendi a respeitar o nosso passado colonial, a sentir como são belas as velhas construções portuguesas, sóbrias, rijas, com suas grossas paredes de pedra ou taipa de pilão. E os telhados derramados a contrastarem com suas brancas paredes caiadas. Como arquitetos só me deram bons exemplos, honestos, irrepreensivelmente honestos, como aliás todos deveriam ser. (Marcos Sá Corrêa em Oscar Niemeyer, p. 103/104)

Oscar Niemeyer e Lúcio Costa, em cujo escritório o estudante se propôs a trabalhar de graça. Foi a partir dessa experiência que Niemeyer sentiu que não seria um arquiteto medíocre (imagem: vivadecora.com)

Mesmo passando por dificuldades financeiras, Niemeyer vem a formar-se engenheiro-arquiteto (denominação da época) em 1934. O contato profissional com Lúcio Costa viria a ser de extrema importância para o amadurecimento do jovem arquiteto, e Niemeyer sabia disso, pois tudo o que queria então era apenas ser um bom arquiteto.

Niemeyer e a maquete do Palácio da Alvorada, que foi inaugurado em 30 de junho de 1958 para ser a residência oficial do presidente da República. Segundo Juscelino Kubitschek, “um palácio para daqui a cem anos ser admirado”. Teve projeto estrutural do engenheiro Joaquim Cardozo e sua execução teve o acompanhamento do engenheiro Darcy Amora Pinto (imagem: Google)

Além da influência de Lúcio Costa, as ideias do franco-suíço Le Corbusier (Charles-Édouard Jeanneret-Gris, nos documentos de identidade), arquiteto, urbanista, pintor e decorador, idealizador da arquitetura moderna na Europa, serviriam de base para a arte de Niemeyer.

Esse moço tem as montanhas do Rio nos olhos”, disse Le Corbusier a respeito de Niemeyer. (Ronaldo Costa Couto em Brasília kubitschek de Oliveira, p. 76)

Le Corbusier, apelido de Charles-Édouard Jeanneret-Gris, um dos maiores arquitetos do século 20, a partir de cujas ideias Oscar Niemeyer se inspira e aperfeiçoa (imagem: Wikipédia)

Le Corbusier traçou mais que um prédio. Esboçou um projeto de vida para Oscar Niemeyer, que havia batido na porta do escritório de Lúcio Costa para trabalhar de graça — assevera Marcos Sá Correa (p. 103)

É como ajudante de Le Corbusier, que Niemeyer participa de um grupo de arquitetos chefiados por Lúcio Costa, durante a ditadura Vargas, cuja missão é projetar o edifício-sede do então Ministério da Educação e Saúde, atual Palácio Gustavo Capanema.

Sobre a experiência embrionária, diz Niemeyer:

Foi durante o desenvolvimento do projeto de Le Corbusier que me senti mais confiante. Primeiro, ele projetou a Universidade e eu, por decisão de Lúcio Costa, o assessorei como desenhista. Toda tarde ele vinha ver meus desenhos. Perguntava-lhe se estavam bem e ele, a sorrir, dizia irônico: “Très bien, Oscar. Si tu veux des compliements, je te fécilite.” Em seguida, o projeto do MEC estava sendo desenhado na base do segundo projeto do velho mestre. O mesmo bloco junto ao Ministério do Trabalho, a mesma rua-corredor e os mesmos pilotis com quatro metros de altura e o brise vertical da ABI. Curioso, fiz um croqui diferente, em função do primeiro estudo de Le Corbusier. Carlos Leão gostou da solução, Lúcio quis vê-la e eu, que nenhuma pretensão tinha de mudar o projeto em execução, joguei o croqui pela janela. Lúcio mandou buscá-lo e o adotou. Nesse momento, senti que não seria um arquiteto medíocre, que compreendia a arquitetura contemporânea e nela podia atuar corajosamente. (Marcos Sá Corrêa em Oscar Niemeyer, p. 106/107)

Edifício-sede do Ministério da Educação e Saúde, atual Palácio Gustavo Capanema, a cujo projeto o jovem arquiteto Niemeyer agrega elementos inovadores (imagem: Google)

Receber elogios de uma autoridade como Le Corbusier não era coisa para qualquer um. Niemeyer então, despretensiosamente, agrega elementos ao projeto original a ponto de impressionar profundamente o mestre Lúcio Costa.

Mais tarde, em 1939, fazendo parte de um grupo de arquitetos com a missão de projetar o pavilhão brasileiro na Feira Mundial de Nova Iorque, o projeto de Niemeyer é considerado por Lúcio Costa como mais moderno e inovador que o seu, propondo-lhe então uma parceria. Numa época em que Estados Unidos da América e Europa estavam concentrados na Segunda Grande Guerra, o Brasil investia na arquitetura, o que coloca o país na vanguarda da arquitetura modernista internacional, com o nome de Niemeyer apontado como o maior representante dessa fase.

Em 1940, Niemeyer é convidado por Juscelino Kubitschek, então prefeito de Belo Horizonte, para projetar aquilo que viria a ser conhecido como o Complexo Arquitetônico da Pampulha, cujo destaque é a Igreja de São Francisco de Assis. Oscar Niemeyer fez experimentos em concreto armado, aproveitando todas as suas potencialidades plásticas, sendo o mais bem-sucedido arquiteto a usar tal técnica.

A igrejinha da Pampulha foi inaugurada em 16 de maio de 1943. Faz parte de um conjunto que é composto de casa de baile, hotel, cassino…

É no bairro da Pampulha, Belo Horizonte, que Niemeyer faz a arquitetura brasileira tremer nas bases, conhecer algo novo, diferente, moderno, arrojado, revolucionário. O conjunto arquitetônico da Pampulha, de formas inesperadas e poderosa originalidade plástica. Leveza e liberdade de invenção, ruptura com padrão racionalista. Primeiro projeto individual de vulto de Niemeyer. E primeira obra pública de Kubitschek, executada no triênio 1942-44. Integra arquitetura com escultura, pintura e paisagismo. Niemeyer repete sempre que Brasília é a continuação da Pampulha. (Ronaldo Costa Couto em Brasília Kubitschek de Oliveira, p. 75)

É a partir daí, como diz o biógrafo, que surge o Niemeyer de Brasília, e de lá o genial brasileiro para o mundo.

Oscar Niemeyer e a Catedral Metropolitana de Brasília. Esta obram que teve projeto estrutural do engenheiro Joaquim Cardozo, viria a ser inaugurada somente em 1970 (imagem: Google)

... Lá se foram os arquitetos cariocas a desbravar o sertão. Arquitetos? Niemeyer, que por essa época circulava pelo Rio em dois Cadillac rabo-de-peixe, havia acertado com Israel Pinheiro, o político mineiro que o presidente Juscelino Kubitschek tirou da Câmara para chefiar a companhia de urbanização da nova capital, um salário estipulado pela tabela do funcionalismo público federal. Era, para usar a moeda corrente da época, uma mixaria. Ou, mais precisamente cinquenta mil mixarias por mês que, atualizadas, não valem cinco mil reais. Levou um tombo financeiro, mas comprou com esse prejuízo a prerrogativa de compor seu time, durante a construção de Brasília, com quem lhe deu na telha. Constavam da turma, como ele mesmo especifica, “vários amigos que estavam na merda.” (Marcos Sá Correia em Oscar Niemeyer, p. 38/39)

De todas as edificações e monumentos de Brasília, a obra mais enigmática e original de Niemeyer é a Catedral Metropolitana com suas dezesseis colunas hiperboloides a sustentarem a edificação, lembrando mãos postas em oração. Niemeyer, ateu e comunista, é autor de mais de duas dezenas de igrejas e outros templos religiosos ao longo de sua prolífica carreira. A primeira, como se sabe, é a da Pampulha, cuja arquitetura revolucionária não é bem compreendida pelo arcebispo de Belo Horizonte. O religioso não concorda em sagrá-la e com isso nega conforto espiritual à comunidade católica que se forma em volta da lagoa da Pampulha. Foi preciso esperar o prefeito JK tornar-se presidente para, já na gestão de outro bispo, o templo ser finalmente destinado à sua missão religiosa.

Mais tarde, a Catedral Metropolitana apresenta-se como a obra-prima de Niemeyer, como uma espécie de bênção divina ao talento brasileiro. O projeto lhe dá o Prêmio Pritzker, equivalente ao Nobel de Arquitetura, em 1988.

No entanto, o ateu Niemeyer, primo de Dom Luciano Mendes de Almeida, que foi arcebispo de Mariana e uma referência no catolicismo brasileiro, vira santo quando o núncio apostólico foi conhecer a catedral:

Esse arquiteto deve ser um santo para imaginar tão bem essa ligação esplêndida da nave com os céus e o Senhor. (Costa Couto, Brasília Kubitschek de Oliveira, p. 138)

Mais tarde, no ano de 1968, sentindo que sua carreira e sua vida corriam perigo em vista do novo governo instalado no país, decide partir rumo à Europa, onde, a partir de então, sua arquitetura torna-se mundialmente reconhecida e requisitada. A essa altura o governo militar vem a endurecer as ações políticas passando a perseguir seus adversários, reais ou imaginários. Em entrevista à revista Manchete, Niemeyer faz questão de mostrar sua lealdade aos amigos de sempre, mais ainda aos que passam por momentos adversos, como os então perseguidos pelo regime de exceção.

Relata ele em suas memórias:

Oscar Niemeyer com o amigo Juscelino Kubitschek, a quem é solidário (imagem: Google)

… era entrevistado pela revista Manchete. Pedi ao repórter: “Pergunte quem são meus melhores amigos”. E respondi: “Luís Carlos Prestes, Juscelino Kubitschek, Darcy Ribeiro e Marcos Jaymovitch”, acrescentando: “Cito-os porque, além de serem meus amigos, estão na adversidade e neste momento é que a amizade deve estar presente e se manifestar”. Revoltava-me o silêncio conivente que pesava sobre eles. (p. 122)

Niemeyer, cujo imenso prestígio poderia lhe ter garantido grande fortuna, na verdade nunca ligou para economizar dinheiro. Preferia ajudar os amigos em dificuldade que o procuravam. E não foram poucos.

Esse era o ateu Oscar Niemeyer.

Atendendo ao maior preceito cristão, sua vida vai muito além da Arquitetura — de cuja genialidade todos podem apreciar — consistindo também em ajudar a seu próximo. Embora não sendo religioso, está claramente demonstrado pela sua biografia que Niemeyer fazia igual ou talvez mais — muito mais — que muitos cristãos ou crentes. Sendo uma sumidade na Arquitetura, não faz da arte um meio para ganhar dinheiro ou conquistar fama. Esta veio naturalmente sem que ele a buscasse. Quanto ao dinheiro, não faz dele um fim em si mesmo senão um meio de ajudar a quem o procurasse.

Oscar Niemeyer e seu grande amigo Juscelino, a quem foi sempre leal principalmente nos momentos mais adversos (imagem: Google)

Sempre humilde, independente de posição social de quem por seu caminho cruzasse. Do livro de Marcos Sá Corrêa registramos:

Não há tabuleta anunciando o arquiteto, mas a uma esquina de distância o flanelinha José Luiz da Silva, lavando carros no calçadão, aponta o escritório com o dedo: “É aquele ali, ó.” ‘Como sabe?’ “Conheço muito o doutor Niemeyer. Ele pára para conversar comigo quase todo dia e dá dinheiro aí na rua para todo mundo.” Mais uns passos e o porteiro José Manoel da Silva, com a autoridade de quem começou a carreira na administração do prédio cuidando da faxina lá pela década de 1950, completa as indicações: “Pode subir. ele é pessoa muito simples, Brinca com a gente, diz besteira. Uma vez eu falei sobre ele com um repórter, sem saber que o sujeito estava gravando. No dia seguinte, saiu tudo no jornal e ele me chamou no escritório para me assustar: “Olha aqui ô filho da puta, você fica falando de mim para os outros por aí. Mas a entrevista ficou boa, hein”. (p. 14)

Um pouco mais nas palavras do desapegado Niemeyer, já idoso e consagrado:

Meus compromissos pessoas e familiares, assumidos em época de fartura, foram se multiplicando, e o que eles me preveniam, aconteceu. Minha filha Anna Maria ficou incumbida de controlar as despesas familiares, advertindo-me assustada: ‘Papai, pára de ajudar todo mundo!’. O que fazer? É um desejo que não consigo refrear. Quando dei um apartamento para o Prestes, queria evitar que ele, desprotegido como era, enfrentasse problemas de moradia. Quando dei uma casa ao motorista… mas isso tudo representa o passado. Agora, o mesmo desprendimento dificulta-me adotar a posição realista tão lógica e generosamente defendida por todos. (Oscar Niemeyer em As curvas do tempo, p. 243)

O já centenário Oscar Niemeyer, comunista e ateu, uma vida dedicada à Arquitetura, aos amigos, aos irmãos e a quem dele precisasse. Um exemplo de figura humana, que em vida foi muito além do genial arquiteto brasileiro conhecido mundialmente (imagem: Google)

E isto é um pouco da vida de Oscar Ribeiro de Almeida Niemeyer Soares Filho, muito além do genial arquiteto brasileiro que o mundo respeita — cuja figura humana e ações vão muito além de qualquer prática cristã — mas que poucos conhecem. Um grande ser humano, um idealista que aceitou a tarefa de ajudar a construir Brasília por acreditar no gênio inventivo brasileiro. Se o brasileiro é capaz de construir uma cidade, a capital do país, a partir do zero, então pode mudar a sociedade — acreditava.

Precisamos conhecer melhor nossos verdadeiros heróis, e reverenciá-los.

Quem fez a vontade do Pai?

L.s.N.S.J.C.!

PELÉ insuperável!

Cheguei na esperança de parar um grande homem, mas eu fui embora convencido de que eu tinha sido desfeito por alguém que não nasceu no mesmo planeta como o resto de nós.” Alberto Pereira, goleiro do Benfica, após a derrota de 5 a 2 para o Santos em 11out1962.

***

A DATA de 23 de outubro remete a dois grandes brasileiros. Em 1906, Alberto Santos-Dumont maravilha a multidão que se aglomerava nas proximidades da torre Eiffel ao fazer voar, pela primeira vez na história da humanidade, por meios próprios um objeto mais pesado que o ar. Graças ao gênio inventivo do brasileiro estava inventado o avião, meio de transporte que tornou o mundo mais pequeno ao aproximar as pessoas.

Em 23 de outubro de 1906, o gênio inventivo do brasileiro Alberto Santos-Dumont lega à humanidade a possibilidade de voar num objeto mais pesado que o ar, tornando as distâncias mais próximas e os povos mais unidos (fonte: Google)

Nessa mesma data, 34 anos depois, nasce em Três Corações, Minas Gerais, aquele que viria a ser o maior futebolista de todos os tempos; nasce um afro-brasileiro que seria mais tarde aclamado como o Rei do Futebol; o único futebolista a parar uma guerra. Em 23 de outubro de 1940, chega ao mundo o menino Edson Arantes do Nascimento, filho do senhor João Ramos do Nascimento, o Dondinho, e de dona Celeste Arantes, que mais tarde o mundo viria a chamar simplesmente de Pelé.

Em 23 de outubro de 1940, nasce Edson Arantes do Nascimento, ou simplesmente Pelé. Nesta imagem, o instrumento musical atrás de Pelé dá a impressão de uma aura que santifica o mito. Na verdade, apenas rara felicidade do fotógrafo (fonte: Google)

Diferente de outros povos, o brasileiro pouco valoriza seus verdadeiros heróis. Infelizmente nosso povo não tem memória, ou, no máximo, possui memória seletiva. Santos-Dumont, por exemplo, teve que migrar para a França por saber que na Europa encontraria as condições ideais, que aqui no Brasil, sua pátria, não teria para legar à humanidade o engenho que criou. Seria, ademais, incompreendido.

Nesta imagem a transpiração de Pelé forma uma imagem semelhante a um coração. Outro feliz flagrante fotográfico (fonte: Google)

Pelé, em pouco mais de dois decênio em que praticou futebol de excelência, foi bastante homenageado e reconhecido tanto aqui no Brasil como no exterior. Reis, rainhas e presidentes reverenciaram o Rei do Futebol, o mais fabuloso futebolista que o mundo jamais conheceu. Pelé, com seu futebol magistral, levou o nome do Brasil ao planeta inteiro, elevando sobremaneira a autoestima de nossa gente.

O Brasil era Pelé e Pelé era o Brasil.

Em 28jun1975, nos jardins da Casa Branca, Pelé é recepcionado pelo presidente Gerald Ford, que, nesta imagem, brinca com a bola (fonte: Google)

Todavia, o tempo é implacável até mesmo com os gênios. À medida que se vão os anos e décadas, o povo brasileiro vai se esquecendo de Pelé e de tudo o que ele fez e representou. Hoje, para as gerações mais jovens, ele é considerado apenas mais um ex-futebolista, que — dizem os mais velhos — brilhou faz muito tempo.

É preciso dar o real valor que esse grande brasileiro fez por merecer.

Diante da grandeza de Pelé, nomes contemporâneos como Ronaldo Nazário, Romário, Neymar, Ronaldo Gaúcho, Kaká, Cristiano Ronaldo e Leonel Messi, entre tantos outros, foram (são) apenas bons jogadores. No mar de mediocridade e de muito dinheiro em que se transformou o esporte bretão, alguns acabam por se destacar dos demais, já que as grandes mídias transformam qualquer futebolista razoável em ídolo das massas, a peso de salários altíssimos.

E se Pelé tivesse nascido em outro país?

Se Pelé fosse argentino, teria uma estátua em cada cidade, haveria no país centenas de ruas, avenidas e praças com o seu nome; o busto de Pelé também se faria presente por muitos lugares; o nome de Pelé estaria eternizado em escolas e praças esportivas distribuídas pelo país; Pelé seria marca de artigos esportivos. Semelhantes homenagens faria jus se Pelé tivesse nascido norte-americano ou europeu.

Mas no Brasil, um país de dimensões continentais, as homenagens são raras. Precisamos mostrar quem foi Pelé e o que ele significa para o país enquanto ainda está entre nós. Depois de morto certamente será, por um tempo escasso, lembrado, mas — sabemos — com intenções meramente capitalistas. Os telejornais dedicarão um programa inteiro a reviver seus lances e gols, a narrar a sua história… Filmes sobre Pelé serão relançados, livros falando sobre sua vida serão reeditados, fotos do Rei vão ser largamente difundidas, todas as mídias relembrarão seus feitos. O governo decretará luto oficial.

De que adiantaria isso? Depois de uma semana, ninguém mais lembraria de de Pelé, tampouco de Edson Arantes do Nascimento.

Pelé recebe a taça das mãos da Rainha Elizabeth II (fonte: Google)

Tornou-se corriqueiro hoje muitos tentarem diminuir o nome de Pelé, apanhado às vezes em declarações eventuais — por vezes equivocadas, é bom dizer — quando é chamado a opinar sobre este ou aquele assunto, a respeito de futebol ou não. Em suas declarações vivem a procurar uma polêmica aqui e ali. O mesmo comportamento ocorre em relação à sua vida privada em que se esforçam por expor seus erros do passado.

Não tentemos reduzir Pelé ao acerto ou erro de suas declarações, nem a aspectos poucos lisonjeiros de sua vida particular. Guardemos a sua imagem como o futebolista incomparável que foi. Julguemo-lo pelo gênio inigualável que Deus lhe concedeu.

Um pouco de sua história incomum.

Ironicamente, o apelido Pelé, o maior goleador de todos os tempos, remete a um goleiro, posição cujo objetivo é evitar que gols sejam feitos.

“Pega essa, Belé!” “Pega mais essa, Belé!”

Bilé, goleiro vascaíno, cujas atuações o menino Edson acompanhava pelas ondas da Rádio Nacional, era um dos ídolos daquele garoto de Bauru, cidade para onde sua família migrou poucos anos depois de seu nascimento. Edson pronunciava a seu modo o nome do goleiro do Vasco da Gama, marcante em sua infância. Bilé então se transformou em Pelé, nome pelo qual o jovem Edson — também Dico e Gasolina — viria a ser conhecido pelo mundo inteiro.

João Ramos do Nascimento, seu pai, que fora centroavante Dondinho, do Atlético de Três Corações, e que teve rápida passagem pelo Atlético Mineiro, ao ver a destreza do filho chutando uma bola de meia ou uma laranja, incentiva o menino Edson a jogar futebol, ensinando-lhe algumas técnicas. Pelé passou pelo futebol de salão (é futsal que chamam hoje esse esporte) jogando pelo Radium, de Mococa. Logo depois, já em campo, vem a atuar pelas categorias de base do Bauru Atlético Clube, clube onde o próprio Dondinho foi jogador.

Em 1956, o treinador do Bauru é Waldemar de Brito, ex-centroavante que jogara por clubes como Botafogo, Flamengo, Palmeiras e San Lorenzo. Brito, com seu olhar clínico, logo observa o futebol daquele jovem, levando-o para o Santos Futebol Clube.

João Ramos do Nascimento, o futebolista Dondinho, com a camisa do Atlético Mineiro. O pai de Pelé foi jogador também pelo Fluminense e pelo Bauru Atlético Clube. (fonte: Google)

Brito, ao apresentar o jovem Pelé aos diretores do Santos, faz o seguinte vaticínio:

“Este será o maior jogador do mundo”.

Sábias palavras.

Pelé, com apenas quinze anos de idade, estreia em 7 de setembro desse ano num amistoso em que o Santos goleia o Corinthians de Santo André por 7 a 1. Pelé faz seu primeiro gol como profissional, inaugurando a mais bem sucedida carreira que um futebolista jamais teve. Esse foi o seu primeiro de um total de 1.282 tentos, uma marca inigualada.

Pelé, aos 15 anos, estreia pelo Santos F. C.

Conta Pelé que o período em que passou pelo futebol de salão o ajudou, pois o esporte exige raciocínio rápido já que os espaços são curtos e as jogadas devem ser executadas com celeridade, talentos inatos que foram aí aperfeiçoados pelo jovem atleta.

Mas isso não é tudo.

Além do talento inato, herdado de Dondinho, foi necessário que outras condições houvessem se reunido em Pelé. O fato de seu futebol ter sido descoberto e levado por Waldemar de Brito ao Santos é uma delas. Permanecendo em Bauru, dificilmente seria notado, correndo o risco de sua carreira inexistir ou, na melhor das hipóteses, retardar-se a ponto de ser prejudicada irremediavelmente. Nessa hipótese, como qualquer jovem de família pobre Edson seguiria outra ocupação humilde e o mundo não teria conhecido Pelé.

Estava no momento certo e no lugar exato. Essa é uma das exigências para que tudo dê certo em qualquer atividade da vida.

Foi assim com Santos-Dumont, com Chaplin, Oscar Niemeyer e outras figuras geniais. Pelé iniciou sua vida profissional numa época em que o rádio já se mostrava bem desenvolvido e popular, diferente de Dondinho, em cuja época as comunicações eram precárias. Soma-se a isso o fato de Pelé ter sido detentor de uma condição física invejável, além de ter sido um profissional aplicado, cuidando sempre de sua forma física e treinando de forma intensa. Pelé, além de craque de bola, logo torna-se um atleta.

Waldemar de Brito, aqui com a camisa do San Lorenzo (Buenos Aires, Argentina). Ao pendurar as chuteiras, torna-se treinador de futebol. Foi treinando o Bauru Atlético Clube, que Brito descobre o jovem Dico, levando-o ao Santos.

O Santos Futebol Clube ajudou Pelé, e Pelé ajudou o Santos. Sem Pelé, o Santos provavelmente teria sido apenas um clube de segunda linha, à semelhança de seus conterrâneos Portuguesa Santista e Jabaquara Atlético Clube, que estagnaram. Na era Pelé, o Santos passa rivalizar em condições de igualdade com Corinthians, Palmeiras, São Paulo, em nível estadual. Em nível nacional, equipara-se a grandes equipes como Botafogo, Flamengo, Fluminense, Vasco da Gama, Atlético Mineiro, Cruzeiro, Grêmio e Internacional, chegando a desbancar grandes potências como Benfica e Milan na década de 1960.

Aos dezesseis anos, Pelé é convocado para a seleção brasileira e, no ano seguinte, com apenas 17 anos é campeão mundial, feito que viria a conquistar por mais duas vezes, feito inigualado até agora. Pelé foi seguidamente artilheiro do campeonato paulista por nove anos, entre 1957 e 1965, além de ter sido, no período, também artilheiro nas outras competições em que participou.

Pelé tinha apenas 21 anos e dez meses quando marcou seu gol de número 500. O milésimo veio aos 34 minutos do segundo tempo naquele jogo memorável entre Vasco da Gama e Santos. Na noite de 19 de novembro de 1969, no estádio Mário Filho, o Maracanã (então o maior palco esportivo do mundo) 65.157 pessoas pagantes testemunharam Pelé marcar o milésimo gol de sua carreira, que era o segundo naquele Santos 2, Vasco 1.

Conta Sylvio Ruiz:

… Houve invasão de repórteres, fotógrafos. Eram profissionais de todo Brasil e do exterior, imprensa estava lá, rádios de todo Brasil, como do exterior. Dificilmente será igualado na história do futebol. E improvisando, Pelé fez um apelo em favor das criancinhas pobres e dos necessitados no Brasil. Isto logo após o gol. E, lá foi o moço de Bauru (Três Corações), o filho de Dondinho (já faleceu), dona Celeste para o momento tão divino, o máximo: o gol, do “Rei”, e marcado no segundo tempo, mas é bom lembrar que no primeiro período dava Vasco 1 a 0, gol de Benneti, aos 16 minutos: cruzou o lateral Fidélis para o aproveitamento de Benetti. Aguinaldo (goleiro, falhou). O capitão Carlos Alberto Torres, deu “força” ao goleiro. O lateral Rildo apoiava o camisa 1. Não podia perder o entusiasmo. Havia uma corrente forte,o coração estava na ponta das chuteiras. A raça era uma coisa só. Emocionante.  O Vasco ficava nervoso, o “Peixe” apertava. Mas aos 34, eis o gol número 1.000 esperado por toda torcida brasileira. Clodoaldo passou por Eberval, entrou na área; na cobertura estavam Fernando e Renê, e um lance, alavanca faltosa de Fernando: Pênalti!. PELÉ foi lá, e “faturou” no canto raso, na esquerda de Andrada. E, após a explosão de policiais, cronistas, torcedores que invadiram o gramado, eis que ele pede: “Antoninho não dá mais, vou sair”…O Edson chorou muito, foi emocionante.” (fonte: Santaportal.com.br)

Pelé vai pegar a bola que se acomodou no canto esquerdo nas redes do argentino Andrada. (fonte: Google)
Em momento apoteótico, uma multidão de repórteres, fotógrafos e cinegrafistas cercam Pelé, que, emocionado, agradece a Deus e ao público presente. O Rei pede pelas crianças pobres, para que as autoridades cuidem delas (fonte: Google)
Pelé ostenta um de seus muitos recursos futebolísticos num lance que é conhecido por “bicicleta”. Pelé usou de todos os recursos proporcionados pelo futebol, sendo hábil em todos os fundamentos (fonte: Google)

Pelé foi um jogador completo. Driblava com inigualável destreza, praticava bom passe, cabeceava firmemente, chutava forte com ambos os pés, batia faltas e penais como ninguém. Pelé fazia gols de todos os tipos: de cabeça, de bicicleta (foto acima), batendo faltas com maestria, gols feios e bonitos. Versátil, jogava em todas as posições. Sim, Pelé jogou até como goleiro, e isso ocorreu em quatro ocasiões.

Pelé atua pelo goleiro pela primeira vez. Foi a 4 de novembro de 1959, substituindo o goleiro titular Lalá, que sofrera lesão. Naquele tempo, não era permitido substituições. Pelé jogou como goleiro a partir dos 19 minutos do segundo tempo, não sofrendo gol. Nessa partida, contra o Comercial F.C., de São Paulo (time já extinto), o Santos venceu por 4 a 2. Pelé atuaria também no gol em ainda três partidas. (fonte: página do Santos F.C.)

Depois de quase duas décadas de um futebol profissional invejável e inigualável até agora, o grande Pelé despede-se dos gramados em 2 de outubro de 1974 numa partida em que o Santos venceu a Ponte Preta por dois tentos a zero. Assinalou pelo time santista 1.091 tentos de um total de 1.282. Jogou pelo time santista 1.116 vezes.

Pelé despede-se dos gramados. Despedia-se apenas do Santos, clube que o projetou para o mundo, onde marcou 1.091 tentos em 1.116 jogos. (fonte: página do Santos F.C.)

Aos 21 minutos do primeiro tempo, o treinador santista promove a substituição de Pelé por Gilson Beija-flor. Pelé então, com os olhos marejados, ajoelha-se agradecendo ao bom Deus por tê-lo dotado desse dom genial, além de ter-lhe dado todas as condições para sagrar-se a figura pública que se tornou, levando o nome do Brasil ao mundo. Dá a volta olímpica acenando emocionado para a multidão que lá se encontrava.

Pelé e sua esposa são recebidos pelo presidente Richard Nixon. Portas de reis, rainhas e presidentes eram abertas para receber o Rei do Futebol. (fonte: Google)

Pelé pensou que seria a sua despedida definitiva do futebol. Enganava-se. Em 1975, atendendo a apelos do governo norte-americano, voltaria a atuar profissionalmente pelo New York Cosmos, sendo este seu segundo clube profissional. Foi para a América do Norte para ensinar os estadunidenses a jogar futebol association. De lá despediu-se, desta vez para sempre da bola e dos gramados, em 1º de outubro de 1977.

Pelé envergando o uniforme do N. Y. Cosmos (fonte: Google)

Dondinho passa a bola para Edson, que passa para Pelé, passando de passagem por Bauru e de Bauru para Santos. Do Santos para o Brasil e o mundo e…

gooooooooooooooolll!!

Um pouco mais sobre Pelé se pode ver neste vídeo.

Obrigado, Senhor Deus! Obrigado, por ter nos dado Pelé, fazendo dele — um menino afro-brasileiro num país em que o negro é considerado gente de terceira categoria — um rei, o Rei do Futebol.

L.s.N.S.J.C.!

NÃO VOS escandalizeis!

APÓS mais uma sessão de instrução física, rotina que na Base Aérea ocorria às terças e quintas, capitão Pacobahyba chega ao Serviço de Suprimento Técnico, setor do qual é chefe. Nessa terça-feira vem em caminhada tranquila, procurando recuperar-se do esforço físico praticado até minutos antes. Anseia agora por chegar ao prédio, a fim de tomar banho e fardar-se para o restante do expediente. Aproximando-se, vê que lá no armazém do térreo já estão dois de seus graduados, que, provavelmente faltaram à instrução; a saber mais tarde porque razão. Anotou de cabeça para depois saber o porquê.  Geralmente o oficial, homem sereno, não é de dar a mínima para o fala-fala da turma, com suas brincadeiras e causos, mas não lhe pode escapar, de quando em vez, que ouça sem querer a conversa de seus subordinados.

O blogueiro

É o caso de agora. Deteve-se um pouco reduzindo a passada.

— Estava aqui relembrando um caso, J. Pereira, que você contou outra vez, acho que quando era cabo. Faz tempo… — Gentil provocava assim, como quem não quer nada, que o João Pereira relembrasse um episódio antigo, sabendo da necessidade que as pessoas têm de conversar e de serem reconhecidas pelos seus feitos e testemunhos.

— Diga, homem, onde quer chegar.

— Sabe aquele caso do capelão, esse episódio bem que poderia dar um capítulo do meu próximo livro.

— Eu era já terceiro-sargento nesse tempo e servia noutra Unidade, numa outra cidade. Mas veja, Gentil, tornar público uma situação particular, que realmente aconteceu com um cristão, acho que não é uma boa ideia. Pode dar rolo, dar processo de justiça, essas coisas, no mínimo melindrar a família…

— Qual nada. Dou nomes fictícios, acrescento detalhes burlescos, invento provérbios engraçados, ponho um advérbio aqui e outro ali. No final, nem vai parecer que foi fato verídico, que aconteceu mesmo. Esses truques de escritor.

Truques de escritor, mas um escritor de meia-tigela, dizia de si para si João Pereira. Mas, o sargento, notando a aproximação furtiva do capitão Pacobahyba, meio que lisonjeado, começou a narrar com empolgação o seguinte:

Lembro de tudo perfeitamente como se o fato que principio a narrar houvesse acontecido ontem. Nesse tempo, eu trabalhava na Ajudância. Um de meus trabalhos era a parte de inclusão e alteração de dependentes e beneficiários, recebia as certidões, fazia o item para publicação em boletim, mandava a mensagem-rádio para a diretoria de saúde, aprontava declaração de beneficiários, depois fazia o ofício, e ainda alterava a ficha individual e o fichário de dependentes de cada um dos militares da Unidade, do coronel comandante ao cabo mais recruta. Ao que parece, essas tarefas não davam trabalho. Era o que eu pensava quando comecei lá, mas, veja que todo santo dia tinha alguém nascendo, alguém casando, alguém morrendo, alguém se divorciando, alguém completando maioridade, de forma que esse trabalho rotineiro me ocupava desde logo após o fora-de-forma da chamada até ao toque de reunir para a formatura de final do expediente, indo, não raro, além desses horários para deixar a papelada em ordem e em dia.

Era chefe da Casa das Ordens o suboficial Jerônimo, quase trinta anos de serviço. Nesse dia em particular, uma sexta-feira, o chefe estava mais calmo, ele que, geralmente, era por natureza intransigente e autoritário. De lá do alto de sua mesa, que realmente situava-se num patamar superior, a partir do qual podia visualizar toda aquela turma de sargentos antigos, sargentos medianos e sargentos novinhos, cabos datilógrafos e soldados auxiliares, além de um taifeiro fora de função e três funcionários civis escreventes, sendo duas mulheres, o suboficial ia dando as ordens ou encaminhando, por meio de um soldado estafeta, os documentos que, aos montes, chegavam à seção a toda hora. Diversos eram os assuntos da rotina diária: partes pedindo férias ou afastamentos temporários, comunicação de viagens, escalas de serviço, ofícios externos vindos de algum comando superior ou diretoria, ofícios oriundos de algum juiz solicitando informações pessoas acerca de um ou outro militar, boletins externos com ordens e notícias diversas e tantos outros encaminhamentos, que faziam parte da rotina administrativa de pessoal militar. Jerônimo, após uma rápida vista, direcionava os expedientes para um ou outro responsável, sempre com uma recomendação ou orientação resumida conforme cada caso.

Igualmente, encaminhava as pessoas, militares ou civis que ali chegavam procurando solução para seu problema. Em meio àquele ruidoso matraquear daquelas vinte e tantas máquinas de escrever, num certo momento, ao olhar para a porta de entrada, vislumbra aquele senhor, já ido pelos seus cinquenta, à paisana, barba por fazer. O suboficial então, após uma breve cogitação, reconhecendo-o enfim, levanta-se, prestando-lhe a continência regulamentar, e lhe indica a direção em que ficava a minha mesa, apontando a minha figura com o braço direito.

Aproximando-se de mim o capitão José Ladeira Sobrinho — esse era seu nome completo — estendeu-me a mão para cumprimentar-me, ao que, disciplinadamente, respondi levando a mão direita em continência regulamentar, para, em seguida, lhe indicar a cadeira que estava à frente da minha mesa.

“Bom dia, meu irmão J. Pereira. Como vai?”. Cumprimentava-me como a um amigo de longa data.

“Peço que você não se escandalize com o que vou tratar agora”. Tirou do bolso uma carteira porta-cédula e dela extraiu dois retratos. Uma das imagens era a de uma jovem que aparentava, quando muito, uns quinze anos de idade, bastante graciosa. A segunda era a fotografia de outra jovem aparentando talvez mais dois ou três anos que a primeira; tinha no máximo dezoito anos. Era mais bonita que a primeira.

“São minhas filhas”. Elogiei a beleza das filhas do capitão Ladeira. Como sempre procurava fazer bem o meu papel, atendendo a todos sem distinção, não demonstrei nenhuma surpresa diante daquela revelação inusitada. Naquela época era pouco assíduo à religião. Sim, sabia de quem se tratava. Ladeira serviu por quatro ou cinco anos antes como capelão naquela Unidade. Depois fora transferido para Brasília e a última notícia, que vi no boletim da Diretoria de Pessoal, é o religioso havia sido reformado no posto em que ocupava. Ainda que não lhe fizesse pergunta alguma, continuou a conversa comigo como se a justificar.

“A verdade é que tenho essa família maravilhosa: filhas e uma companheira há quase vinte anos. Quando fui transferido, comprei uma casa lá no bairro das Laranjeiras, onde deixei instalada a família. Segui eu para Brasília a fim de exercer minhas funções lá.  Ocorre que um vizinho, sabendo de minha condição de religioso e também do meu vínculo militar com a Força, após algumas arengas, acabou por denunciar-me às autoridades religiosas. Estas, por sua vez, denunciaram-me à Força Aérea, que instaurou conselho de justificação contra mim. Acabei sendo reformado proporcionalmente ao tempo de serviço, que não era mais de vinte anos. Assim, o soldo que recebo não vem cobrindo as despesas de família, subsistência, colégios para filhas, saúde…”. Nesse momento, aproveitando a pausa que fez para tomar fôlego, pedi ao capitão Ladeira que fosse direto ao assunto.

“Preciso de médico e hospital para as filhas”, disse-me.

“Aqui estão as certidões de nascimento delas”, mostrando-me esses documentos que estavam numa pasta de papelão. De posse das certidões, pedi licença ao meu datilógrafo que, ao meu lado datilografava um ofício, e eu mesmo me pus à tarefa de incluir oficialmente as filhas do capitão Ladeira no catálogo de dependentes e beneficiários do Ministério da Aeronáutica. Fiz o item de boletim, fiz a mensagem-rádio em três vias, a declaração de beneficiários, que ele conferiu e assinou, e também o ofício de envio. Peguei essa papelama toda e, aproveitando-me da ausência do suboficial Jerônimo, que havia se ausentado para tomar um café, segui direto à sala do major Pinheiro, comandante do Esquadrão de Pessoal.

— E o major não disse nada? — interrompe Gentil.

O major apenas olhou os papéis que pus à sua frente e pôs a assiná-los, um a um. Provavelmente não era surpresa para ele dessa condição particular do capitão Ladeira. Ou talvez não, já que era novato na Unidade. O fato é que assinou sem pedi-me uma palavra de explicação, nem ao menos sobre a ausência do suboficial Jerônimo, pois levar documentos à apreciação do major era uma de suas funções. Voltei com os expedientes chancelados pela autoridade competente, destaquei uma cópia da mensagem rádio à qual apus um carimbo da Unidade como uma espécie de autenticação.

“Meu capitão, com essa cópia de mensagem o senhor tem suas filhas habilitadas ao atendimento médico em qualquer unidade de saúde da Força. É, porém, um documento provisório, mas assim que chegar da Diretoria de Saúde o cartão, eu pessoalmente telefono para o senhor”. O capitão, não se contendo, abraçou-me e, quase a chorar, falou-me assim:

“Você não sabe, meu irmão, o grande fardo que me tira dos ombros. Para sobreviver, instalei na frente de minha casa um boteco. Vá lá, no bairro das Laranjeiras, beber umas cervejas por minha conta”.

Ao chegar à porta, ainda voltou a face para mim, acenando-me efusivamente. Tal episódio, que o tempo não me fez esquecer, deixou-me também alegre, feliz, gratificado, fazendo-me achegar finalmente Àquele que a todos perdoa e acolhe indistintamente o justo e o ímpio. Tal como ao capitão Ladeira, Ele haveria de também me redimir.

— Que história interessante! — falava o capitão Pacobahyba, que estava a poucos metros do sargento J. Pereira.

Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo!  

O PODEROSO Titanic!

“Muitas coisas valentes aconteceram naquela noite, mas nenhuma foi mais corajosa do que aquela feita pelos homens, tocando minuto após minuto, enquanto o navio afundava silenciosamente mais e mais no mar. A música que eles tocaram serviu como seu próprio réquiem mortal e seu direito de serem lembrados nos pergaminhos da fama eterna.”

Gravura do Titanic naufragando (fonte: Google)

ÀS ONZE e quarenta da noite de 14 de abril de 1912, domingo, uma imensa pedra de gelo sela a sorte daquele que era considerado o maior — e mais seguro — navio de passageiros do mundo, levando mais de 1.500 vidas consigo para o sono eterno nas profundezas geladas do Atlântico Norte. É a sua viagem inaugural.

Mas o que (ou quem) afundou o Titanic?

Muitos atribuem o feito a Deus. Assim acontece porque surgiu a lenda de que seus construtores teriam dito que “Nem Deus consegue afundar o Titanic”. Na verdade, não há comprovação alguma de que isso seja verdadeiro.

Sendo lenda ou fato, será mesmo que Deus quereria a morte de tanta gente inocente? Eu, na minha insignificância terrena, acredito que não.

O poderoso e inaufragável RMS Titanic (fonte: Wikipédia)

Digo mais.

Não foi simplesmente o iceberg a razão do naufrágio do Titanic, senão uma conjunção de fatores humanos. Entre eles, resumidamente, podemos considerar a vaidade, a arrogância, a ganância e a negligência.

No início do século XX, os Estados Unidos da América já emergiam como a maior potência mundial, ferindo os brios dos soberbos britânicos e outras potências. Era preciso dar uma resposta, portanto.

Vídeo do BLOGUE do Valentim sobre o assunto

O Titanic e seu irmão gêmeo, o Olympic, pertenciam à empresa White Star Line, de propriedade de Joseph Bruce Ismay. Os dois grandes navios foram fabricados em Belfast (Irlanda do Norte) pela Harland and Wolf, de propriedade do lorde William Pirrie. Em 1907, eles decidem construir três navios: o Olympic, o Titanic e o Brittanic. Essas embarcações seriam as maiores, mais luxuosas e mais seguras construídas até então, já que para os dois homens a melhor aposta era competir com seus rivais britânicos, alemães e norte-americanos em elegância em relação à velocidade. Foi decidido também que o Olympic e o Titanic seriam construídos ao mesmo tempo, lado a lado.

O Titanic, ainda em fase final de construção (fonte: Google)


Para construírem cada um desses navios são necessárias mais de duas mil placas de aço, que mediam três por quatro metros, unidas por mais de três milhões de rebites. Portanto, são aplicados mais de nove milhões de rebites.

O Titanic, o Brittanic e o Olympic (fonte: Google)

Mais de cem mil pessoas, entre empregados da White Star Line (proprietária) e da Harland and Wolf (construtora), jornalistas e público em geral, testemunham o lançamento do Titanic às águas em 31 de maio de 1911. Na verdade, à essa altura o navio é apenas um grande casco vazio, que, a partir daí, receberia todas as máquinas, equipamentos e decoração até ficar pronto. Logo após o seu lançamento ao mar, três mil profissionais, entre mecânicos, pintores, eletricistas, encanadores, carpinteiros e decoradores, trabalham de junho de 1911 a março de 1912, equipando o navio com as mais recentes tecnologias e inovações navais, além de instalarem suntuosas mobílias e objetos de decoração.

Segundo o jornalista britânico Senan Molony, estudioso do caso Titanic por trinta anos, o navio, antes da viagem inaugural e fatídica, sofria, por dez dias ou mais, um incêndio interno. Outras fontes apontam para três semanas a duração do fogo. Num dos compartimentos onde havia grande quantidade de carvão surge um incêndio espontâneo, que, na impossibilidade de ser extinto totalmente antes da partida inaugural, permanece ativo, porém sob controle. Consultado, Joseph Bruce Ismay decide não determinar o retorno do navio para os estaleiros pois o atraso significaria danos na reputação da empresa. Para evitar especulações, o navio ancora no porto de Southampton de forma que o casco onde age insistentemente o fogo fique para o lado do mar, devidamente a salvo dos olhares do público e dos jornalistas presentes.

É mantida a viagem inaugural para a data prevista: 10 de abril de 1912.

Titanic sob olhares de curiosos, familiares e jornalistas (fonte: Google)

Naquela quarta-feira, o Titanic parte de Southampton, levando a bordo 1.316 passageiros: 706 deles na terceira classe, 285 na segunda, e 325 na primeira classe. A tripulação, sob o comando do experiente capitão Edward Smith, quarenta anos de mar, é composta de 892 profissionais.

No dia 13, o equipamento de rádio do navio sofrera uma pane, que só é sanada no dia seguinte, o domingo fatídico. Com as comunicações interrompidas, ocorre um grande acúmulo de mensagens de interesse dos passageiros, que seriam transmitidas aos continentes. Durante o dia 13 e também no dia seguinte, como regra do mar, alguns navios enviam mensagens alertando a tripulação do Titanic sobre a existência de extensas camadas de gelo sobre o mar e também da presença de icebergs. Nesse mesmo dia, à tarde, a tripulação finalmente consegue extinguir o fogo. Muitas mensagens são transmitidas no dia anterior. No entanto, devido ao defeito do rádio, não são recebidas, e as eventualmente recebidas são subestimadas. No próprio dia 14 também são reiterados os alertas sobre o risco do gelo e de icebergues. Nesse dia, porém, os radiotelegrafistas, assoberbados pelo grande número de telegramas a serem transmitidas, ignoram totalmente as mensagens que chegam de outros navios, inclusive novos alertas sobre os riscos de iceberg naquela área do Atlântico.

“Calem-se e nos deixem trabalhar!”

Naquela época, a tecnologia ainda não permitia, como hoje, o uso de radares e de outros equipamentos capazes de detectar a presença de obstáculos. Isso era feito a olho nu. Por isso, um marinheiro, munido unicamente de binóculo, ficava ao alto com a missão de verificar quaisquer problemas ou objetos que representassem ameaça à marcha do navio. Na véspera da partida, no entanto, o homem responsável pelo compartimento onde estavam armazenados os binóculos é, de última hora, substituído por outro oficial, considerado mais experiente, esquecendo de lhe passar as chaves. Ninguém, porém, dá muita importância ao fato. Os equipamentos existiam, porém, inúteis, já que se encontram trancados e ninguém tem as chaves para abrir o compartimento. Na verdade, quando dão pelo problema, o Titanic já singra a pleno o oceano, de forma que nada mais pode ser feito, a não ser os marinheiros se revesarem a olho nu na observância visual da imensidão do mar.

Era um domingo de noite estrelada e sem luar quando, aos 41 minutos para a meia-noite, alarmado, o marinheiro da hora aciona a sirene:

Iceberg à frente!”

A gigantesca pedra de gelo está a apenas 37 segundos. Surpreendidos, o capitão e seus oficiais titubeiam nas ordens, perdendo alguns segundos preciosos, que poderiam salvar o navio do desastre que se aproxima inexorável. Não é mais possível evitar que o enorme navio, com os seus 269 metros de comprimento, se choque contra a gigantesca pedra de gelo.

A sorte está selada.

É questão de apenas duas horas e mais quarenta minutos para aquele navio, que levou três anos para ser construído, considerado o mais seguro do mundo, ser lançado às profundezas geladas do Atlântico Norte.

Diante do corre-corre, muitos passageiros não compreendem exatamente o que se passa. Alguns pensam tratar-se de um treinamento. Os músicos, que viajam na segunda classe, são acionados para, no convés principal, acalmarem os passageiros enquanto os marinheiros descem os botes salva-vidas. Esses heróis, os músicos, permanecem no campo de luta até o último instante, numa demonstração inconteste de grande ato de heroísmo e bravura diante da morte certa.

Um dos heróis, e um dos mais jovens, é John Law Hume. O jovem, violinista, natural de Dumfries, Escócia, tem apenas 21 anos e era noivo. Sua família, todavia, não concorda com o relacionamento, de forma que ele e sua noiva casam-se anonimamente. Os dois decidem que na volta da viagem que Hume faria como músico do Titanic, revelariam como um fato consumado o casamento à família do noivo. Esperam um filho. Há no caso, a despeito da família do jovem músico, toda uma história de amor e de luta, antes e depois do desastre, até que a justiça britânica finalmente venha a reconhecer a paternidade de Hume sobre a criança que viria a nascer alguns meses depois da morte de um dos heróis do Titanic. É importante dizer que os músicos não faziam parte da folha de pagamento da White Star Line, mas de uma firma contratada.

A bordo, entre os passageiros ilustres estão, além do dono da White Star Line, Joseph Bruce Ismay, o milionário norte-americano John Jacob Astor IV e sua jovem esposa, Madeleine, que retornam da Europa por lua-de-mel. Madeleine, grávida, e sua enfermeira embarcam num bote salva-vidas, salvando-se, enquanto o marido, ainda que tente embarcar ele próprio no bote, é impedido, tendo que ceder seu lugar a duas crianças. Outro passageiro ilustre seria um outro milionário, o banqueiro estadunidense John P. Morgan, que, no entanto, acabou por cancelar a passagem na véspera. Deixa de embarcar no Titanic para participar da festa de aniversário de uma amante.

Os heróis, os músicos do Titanic. John Law Hume, violinista, é o penúltimo (fonte: Wikipédia)

Na segunda classe, um dos passageiros é o eslovaco Michel Navratil, que acompanha seus dois filhos menores. Ao embarcar, Navratil mente às autoridades alegando ser viúvo que, em companhia dos filhos, tentaria a sorte no Novo Mundo. Na verdade, ele se divorciara da esposa, sequestrando as crianças. A ex-esposa, a italiana Marcelle Caretto, somente vem a saber da localização dos filhos dias semanas depois, ao ver as fotos dos meninos estampadas num jornal francês.

Ao acomodar os meninos a um bote, Navratil lhes diz:

“Amem muito a sua mãe, pois ela também ama muito vocês.”

Os meninos, Michel Marcel Navratil, Jr. (três anos) e Edmond Navratil (dois anos), passam a ser conhecidos como os “Órfãos do Titanic”.

Edmond e Michel Navratil, os órfãos do Titanic (fonte: Wikipédia)

Em meio a todo o desespero, Joseph Bruce Ismay comporta-se de forma cavalheiresca ao acomodar crianças e mulheres a descerem nos botes salva-vidas, que ele próprio sabe serem insuficientes. No entanto, ao final, quando resta apenas o último bote, ele próprio, acovardado, desce, deixando para trás mais de mil e quinhentas pessoas, entre tripulantes e passageiros, das quais ele era o maior responsável.

Esse foi o maior dos vilões dessa tragédia. Um covarde!

O milionário John Jacob Astor IV, uma das vítimas do naufrágio, e sua esposa Madeleine, sobrevivente (fonte: Wikipédia)

Portanto, não é a Deus a quem se deve atribuir tamanha desgraça, e sim aos homens. Há em todo o processo, desde a construção do navio até o choque contra o iceberg, uma sucessão de negligências e vaidades.

Senão vejamos:

A construção de dois navios (Titanic e Olympic) e mais tarde de um terceiro (o Brittanic) consomem esforços tais que os nove milhões de rebites usados não são de boa qualidade. As firmas de metalurgia contratadas, não conseguindo fornecer na quantidade exigida, apela para a terceirização, para poderem cumprir os prazos exigidos pela Harland and Wolf. Ademais, ressalta-se que havia no período uma greve de mineiros, o que acabou por precarizar ainda mais a qualidade dos rebites aplicados na fabricação dos navios. A qualidade dos rebites foi considerada um dos fatores para a entrada de água no navio quando do choque contra o iceberg.

O fogo contínuo, alimentado por uma grande quantidade de carvão, que castiga um compartimento do navio durante uma dezena de dias ou talvez mais tempo, fragiliza consideravelmente uma parte do casco, justamente o lado direito da parte da proa, local onde ocorre o choque fatal contra o iceberg. Esse incidente, o do incêndio contínuo, acaba por ser subestimado por Ismay e pelos engenheiros responsáveis da White Star Line.

Os binóculos, equipamentos de segurança essenciais na época, ficam trancados num compartimento, cuja chave foi esquecida, certamente detectariam em tempo hábil a presença do iceberg, dando condições para para o navio ser desviado totalmente.

O equipamento de rádio ficou inoperante na véspera do acidente. Como se não bastasse, não foi dispensada a devida atenção a um fato grave: a existência de placas de gelo na região, além de icebergs, fato alertado exaustivamente por navios que cruzavam a área. Ainda que cientes do problema, o comandante e tripulação não determinaram a redução da velocidade do navio, sob a explicação de que o atraso seria danoso para a imagem da White Star Line.

O número reduzido de botes salva-vidas, apenas dezesseis, pois, alertado de que o número deles não seria suficiente para a capacidade total de passageiros do navio, Joseph Bruce Ismay, alegando que a presença de muitos botes seria ruim para a imagem do Titanic, pois seria visto como falta de confiança na segurança do transatlântico, permite a instalação apenas do número mínimo previsto de botes, exigido pela legislação marítima da época. O pensamento predominante era que, em caso de acidente, os barcos serviram apenas para transportar os passageiros para um navio de socorro, porque, segundo pensavam, o Titanic jamais submergiria.

Pobre do homem!

Portanto, contribuíram, além da vaidade e arrogância humana, os rebites de má qualidade, o incêndio interno, os binóculos trancados, o equipamento de rádio defeituoso, a hesitação do comandante, a velocidade do navio…

Ou seja, era perfeitamente evitável o naufrágio do Titanic, um enorme navio de aço, em sua primeira e última viagem, que veio a chocar-se contra um elemento na natureza, que já estava no local desde antes de Cristo.

A essa altura, todos os botes disponíveis já estão no oceano. A bordo deles, mulheres, crianças e um ou dois homens para comandá-los. De lá observam, atônitos, o desespero a bordo do RMS Titanic.

Às duas horas e vinte minutos de 15 de abril, aquele que era para ser o navio mais seguro do mundo, parte-se ao meio. A metade que fica para a popa empina-se, e rapidamente mergulha no oceano gelado, seguindo uma viagem vertical até a quase quatro mil metros de profundidade. O que se ouve então, segundo relatam mais tarde os sobreviventes, são gritos aterrorizantes, indescritíveis, apavorantes, que viriam a provocar nos setecentos e poucos sobreviventes pesadelos horrorosos, até o último dia de vida de cada um deles.

Salvaram-se mais homens da primeira classe que crianças e mulheres da terceira classe. Mais de 1.500 pessoas, com o maior número recaindo sobre os mais pobres, perdem a vida por hipotermia, a maior parte delas, e por afogamento.

Tudo isso foi causado pela arrogância, pela vaidade, pela ganância e pela negligência. Portanto, esqueçam o filme, que foi produzido apenas para seus produtores ganharem muito dinheiro.

L.s.N.S.J.C.!

O PIEDOSO Manuel Pinto!

QUANDO se fala em Manoel Pinto da Silva, o nome do magnata português que fez fortuna em território paraense, imediatamente se remete à sua obra mais conhecida: o imponente edifício Manoel Pinto da Silva. O prédio foi construído na década de 1950, e durante anos foi o mais alto de toda a Amazônia. Morar no prédio mais alto do Norte torna-se o grande sonho de consumo das elites paraenses de então, um sinal de inconteste prestígio.

Facsímile de um jornal de Belém – PA louvando o edifício Manuel Pinto da Silva (fonte: Internet)


Manoel ou Manuel Pinto da Silva? A grafia pouco importa.

Na verdade pouco restou registrado sobre sua passagem pelo planeta Terra. Nenhum livro, nenhuma página na Wikipédia, nada. Nada de interessante, mui provável, tenha deixado o magnata para que servisse de ensinamento aos que ficaram. Prova de sua pequena importância, ao contrário do que ele próprio se considerava.


Mas que essa escassez de notícia sobre Manoel Pinto da Silva não seja razão para o nome do português ficar restrito apenas ao famoso edifício que construiu e que, por vaidade, deu seu próprio nome. Que fique registrado então seu nome, porém não em função de sua importância, bom exemplo ou coisa assim. Ao contrário, o portuga foi um tirano em vida.

Morando na zona rural ainda garoto, não conhecia o prédio histórico batizado em homenagem a seu construtor vaidoso; apenas ouvia falar. Logo cedo, porém, travei conhecimento do nome de Manoel Pinto por meio de meu saudoso pai, um outro Manoel, o Valentim Moreira, que trabalhava como operário num dos empreendimentos do poderoso empresário português, uma de suas olarias. Lá meu pai e dezenas (centenas, provavelmente) de trabalhadores, moldando o barro, fabricavam tijolos aos milheiros para a  construção do gigantesco edifício, e também, com o excedente, para compor as casas e prédios das cidades do estado, ajudando o luso a ficar cada vez mais rico, por conseguinte.

O pai falava bastante sobre o xará milionário, que teria chegado pobre ao Brasil aportando em Belém duas décadas antes. Devia ser jovem ainda e o patriarca era o senhor Camilo Pinto da Silva, pai de Manuel.

Acidentalmente um dia ouvi, entre as conversas dos adultos, minha mãe, dona Maria Ferreira, falando sobre alguém que teria enriquecido.

Difícil ficar rico se nunca explorou ninguém”.

Nunca me esqueci daquele comentário. Riqueza — pobreza — exploração. A partir de então, carrego comigo uma indagação: Seria possível alguém, não tendo recebido polpuda herança ou participado de algum grande negócio  com o governo, ficar rico sem não explorar seu empregado?

Voltando ao portuga.

Como dizia antes, ouvi da boca de meu pai muito sobre o megalomaníaco lusitano. Entre outras histórias, a de que o portuga teria lesado seu próprio pai, o velho Camilo Pinto da Silva, analfabeto, transferindo significativa parcela do patrimônio paterno para seu próprio nome. 

Pinto teria sido um dos primeiros empresários de ônibus na cidade de Belém, além de ter também fornecido material para a construção do aeroporto de Val-de-Cães.

Um patrício seu, estando em situação financeira difícil, foi-lhe bater às portas a pedir emprego. Manoel Pinto, meio que indiferente à presença do conterrâneo, admitiu o compatriota semianalfabeto em uma de suas empresas. Ao contrário do que se esperava, empregou-o num trabalho braçal em vez designá-lo para um cargo de relevância, como desejava o português pobre. Era português, era patrício, mas era pobre, não fazendo jus, portanto, a tratamento melhor. E lá foi o conterrâneo para o rabo da enxada, de nada adiantando a sua condição de conterrâneo do patrão.

Outra.

Certa ocasião, cavalgando por numa estrada vicinal, Manoel Pinto avista um homem  que carregava um feixe de lenha nos ombros. Era seu empregado, por coincidência, mas o patrão não o reconheceria entre centenas de outros que serviam sob suas ordens.


— Onde pegaste essa lenha, ó rapaz?


— Peguei aí… na sua mata, seu Manoel. — responde o mulato, hesitante, trêmulo de medo, apontando com a cabeça a floresta em redor, ao reconhecer o arrogante patrão.

O ricaço mandou imediatamente o caboclo devolver a lenha onde tinha pego. De nada faria diferença para o rico português a lenha colhida pelo operário para queimar no rudimentar fogão. Tomou tal atitude imperativa e antipática com o fito de meramente exercer poder. Era ele o dono, era ele quem mandava e pronto.

Mas a minha mãe deu-me, sem notar, uma aula de sociologia.

Sim, hoje vejo que, por sentirem na própria pele o problema social, a dona Maria e o seu Manoel, desde aquele tempo, possuíam noção de como alguns prosperam materialmente. Muitas vezes se valem do suor alheio, pagando salário vil. Se não querem, tem quem queira. Simples assim.

Mas um belo dia o seu Manoel Valentim Moreira, sendo um homem que lia tudo o que viesse às mãos, ao comprar sabão em pedra, desembalando-o, leu no jornal que servia de embrulho a seguinte manchete:

“Falece o piedoso Manoel Pinto da Silva”

Cumpria assim o poderoso português nosso destino comum. Com certeza não fez falta alguma. 


Que a terra lhe tenha sido leve, como dizia Machado de Assis.


E foram eles, minha mãe e meu pai, os primeiros mestres a me ensinarem que o mundo se divide em dois grupos: o dos que mandam e o dos que obedecem; o dos que usufruem e o dos que apenas sobrevivem; o dos que governam e o dos que apenas servem e pagam imposto.


Mas ao final pobres e ricos têm um destino comum.

L.s.N.S.J.C.!