JOSÉ Augusto Moita!

Anotações estradeiras II (Belém, Pará)

A IDEIA de ter procurado um hotel perto do porto mostrou-se por demais inteligente, o escolhido não tem luxo mas é bastante agradável e fica perto de tudo. No café da manhã outra grata surpresa: nos aparece uma senhora idosa, muito distinta e educada, pergunta como tinha sido a noite e se estávamos gostando da estadia. Era Dona Odete, uma portuguesa que chegou no Brasil por volta de 1974 e há 16 anos é a proprietária do Hotel Unidos — agora entendemos o nome, pois sua filha está nesse exato momento na recepção.

O cronista José Augusto Moita (fonte: Facebook)

Aqui abro um parêntese para dizer que já fomos servidos por uma primeira dama do município. Foi numa cidade de Goiás que agora nos falta o nome, onde o prefeito (descendente de italiano) era dono do hotel, a família toda trabalhava na manutenção do mesmo hotel e de um restaurante vizinho; a esposa servia o café e os filhos e sobrinhos eram garçons e recepcionistas. Mas isso tudo são coisas de imigrantes, nosso orgulho de senhor feudal não nos permite tamanha vergonha.

Tínhamos marcado com um primo, Moita da gema, que só conhecíamos do feicebuque, mas que se prontificou a nos levar onde quiséssemos.

Vou ter que abrir outro parêntese para falar sobre a Família Moita. Meu tetravô materno chegou de Portugal em meados do Século XIX, instalou sua família no alto da Serra da Ibiapaba, foi tão prolífero que contaminou todo País com sua carga genética, parecemos hoje o mosquito da dengue, existimos no Brasil todo.

Já a ideia de aceitar o convite do primo Clóvis Nunes Moita logo mostrou-se não ter sido inteligente, foi muita “AUMILHAÇÃO” do começo ao fim do passeio. Vou explicar porquê. Nós tínhamos dito que Belém é uma cidade linda, mas nos enganamos, é lindíssima. E quando nosso primo começou a nos mostrar os prédios, as praças, as ruas arborizadas, os monumentos históricos preservados, inevitavelmente nos veio a comparação com Fortaleza, aí bateu aquele desgosto… E tome o primo a nos mostrar os palacetes… e o desgosto aumentando. Chegou um momento em que ele sugeriu que fossemos conhecer as praias do Pará, de imediato eu pensei comigo: é melhor que não, a vergonha pode ficar maior, vamos nos enganar que pelo menos no quesito praia ganhamos deles.

Palacete Bolonha, Belém – Pará (fonte: Google)

São muitos os casarões e palacetes frutos das riquezas que essa Terra já produziu e produz, a maioria bem preservados, felizmente. Dentre os segundos se destaca o Palácio do Amor, uma obra de uma beleza estonteante construída pelo arquiteto italiano Antônio Bolonha, contratado a peso de ouro por um barão paraense para cuidar da criação de suas edificações.

Só que sua amada não quis vir do Rio de Janeiro para dentro da selva. O ardoroso esposo, como pássaro que capricha no ninho para atrair a companheira, deu de presente a ela e à cidade de Belém, uma verdadeira maravilha arquitetônica — história muito parecido com uma que ocorreu na “loura desprezada pelo sol”, só que a nossa teve um final trágico, botaram abaixo o palacete (poupamos nosso primo de mais uma vitória sobre nós, não contamos que o Castelo do Plácido, que viveu a mesma epopeia de amor, já não faz mais parte do mundo dos vivos).

Basílica de Nazaré, Belém – Pará (fonte: Google)

Quando estávamos pensando que nossa vergonha tinha passado, meu primo nos leva para conhecer o Santuário do Círio de Nazaré. Aí foi a gota d’Água. A AUMILHAÇÃO foi grande demais. A Catedral toda é uma obra de arte de fino trato, não tem como descrevê-la, só se fôssemos Vítor Hugo, é simplesmente linda, até pensei que meu ateísmo havia se acabado. Passamos tanto tempo a contemplar a magnificência dos detalhes das colunas, dos vitrais, do fabuloso órgão de tubos longos, das pinturas de ouro, que os crentes do grupo esqueceram de rezar.

A pá de cal veio quando o primo nos levou até a Casa Salomão, que tem apenas 110 anos em atividade — fichinha para o comércio fortalezense, onde nem Romcy existe mais. É um imenso bazar onde se encontra de tudo, do tecido ao parafuso, com os longos balcões de madeira e vitrines da época da inauguração, apenasmente deslumbrante.

Mercado e feira do Ver-o-Peso (fonte: Google)

Nós já tínhamos sentido que aquela tortura não iria ter fim se continuássemos naquele ponto da cidade, então alguém teve a feliz ideia de pedir ao primo para nos levar ao Ver o Peso. Ufah, enfim em alguma coisa empatávamos com eles, em sujeira de mercado somos iguais. O famoso Ver o Peso é um imenso São Sebastião sem paredes e com o mesmo aspecto de mal cuidado. Tem tudo que um mercado tem: produtos regionais. Mas começamos a notar que dessa vez o primo tinha uma certa pressa em nos mostrar tudo com muita rapidez, parecia que estava querendo chegar logo em algum lugar da feira. E não nos enganamos, ele queria nos levar no setor das ervas medicinais com suas garrafadas afrodisíacas, quando rapidamente as vendedoras passaram a demonstrar as maravilhas miraculosas de cada uma delas.

Para nossa surpresa o primo perguntou se poderíamos levar para Fortaleza duas encomendas, um presente para Raimundão e outro para Paulim. Aí eu disse: ué, e o primo conhece as peças? Se conheço…são as figuras mais badaladas das redes sociais. E o que é que meu primo quer que a gente leve? São apenas duas garrafinhas: uma para Raimundão que é composta de copaíba, raiz de pimba de macaco, banha de cupuaçu, casca do pau preto, seiva de jatobá, raspa da andiroba e leite de sucuba, conhecida aqui como viagra natural; e a do Paulim tem apenas chá de aroeira, para banhos de assento. Eu fiquei sem entender nada..

Ao Clóvis Nunes Moita nossos mais sinceros agradecimentos.

O texto acima em que J. A. Moita escreve sobre suas experiências em Belém, por suas peculiaridades de escrita e de descrições, nos deixa, como paraense que somos, bastante desconcertado, apesar de orgulhoso.

Quanto as descrições de alguns pontos turísticos de Belém, é claro que o amigo foi muito bondoso. Com certeza, há muitas coisas lindas e diferentes que podem ser encontradas na capital paraense. Há também coisas imateriais, como a deliciosa e exótica culinária paraense, que, com certeza, o Moita já ouviu falar e até provou.

Mas é claro que comparar a nossa simpática cidade à capital alencarina, devo dizer, a bem da verdade, que Belém — a antiga Santa Maria de Belém do Grão-Pará — sairia perdendo. Nenhuma vergonha em admitir. Por razões estratégicas, em 1616, Francisco Caldeira Castelo Branco mandou construir o Forte do Presépio (edificação que deu origem à cidade) na entrada da Amazônia e não em frente ao mar, tal qual a capital de todos os cearenses e outras belas cidades nordestinas.

Há outra questão, que independe da história, da natureza e da localização: infelizmente, a cidade, Porta de Entrada da Amazônia, vem sendo mal cuidada há décadas. Maus governantes. Não vou nem entrar no assunto favela, palafitas, sub-moradias… Aí sim, é vergonhoso. Mazelas do capitalismo que as grandes cidades brasileiras não estão impunes.

Menos mal que o Clóvis Moita, seu parente, o levou somente aos melhores lugares. Há, além da beleza arquitetônica, toda uma história de amor por trás da construção do Palacete Bolonha. Quanto ao Ver-o-Peso, é um lugar único. Muito interessantes as barracas de ervas com seus nomes pra lá de exóticos e até divertidos: Comigo-ninguém-pode, pega-rapaz, catinga-de-mulata, chama-dinheiro, amansa-corno… Não sei se o Clóvis levou o J. Moita à barraca da Bete Cheirosinha.

Para não deixar de lado a criticidade de que nenhum de nós, brasileiros, devemos nos apartar, atrás da história romântica da construção do palacete há também uma dose alta de exploração dos operários que o construíram, que derramaram ali seu suor e lágrimas. O mercado, o porto e a feira do Ver-o-Peso devem esse nome ao fato de os produtores terem obrigatoriamente de pesar seus produtos para daí a Coroa Portuguesa extrair o imposto que mantinha o luxo e o conforto dos reis e nobres lusitanos. Também aí muito suor, lágrimas e sangue dos cabanos da região. Há aí — como se vê — todo um campo de estudos farto, digno de pensadores como Karl Marx; o materialismo histórico vigendo desde sempre.

Quanto ao estilo literário peculiar do autor, que habilmente se utiliza de linguagem simples e popular, é dificultoso definir. Simplesmente maravilhoso, vamos ficar só aí. Qualquer outra seria redundante, desnecessária, podendo ser injusta.

L.s.N.S.J.C.!

RUFINA, a jovem que morreu duas vezes!

UM DIA desses vejo na tevê que o turismo funerário é mais comum do que se imagina. Chama a atenção as vezes em que o turista é levado para visitar cemitério. Lembro imediatamente de duas viagens que fiz.

Uma foi para São João del-Rei, Minas, terra de Tancredo Neves. Ano de 2001, quando estava no CIAAR em Belo Horizonte. Como não poderia deixar de ser, o guia nos leva à Igreja de São Francisco de Assis, cujo projeto arquitetônico leva a assinatura de Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho. Também é dele algumas obras de escultura, como, por exemplo, o Cristo do Amor Divino, em uma das laterais, em que se pode ver o olhar sofrido de Jesus, uma marca desse grande artista brasileiro, que, se fosse estadunidense, sobre a vida dele teriam feito ene filmes e não sei quantos livros.

Cristo do Amor Divino, obra de Aleijadinho, São João Del Rei, Minas Gerais (fonte: Wikipédia)

“Olhem para o chão! Para o chão”.

Entre tantas coisas interessantes para se contemplar, o guia nos chama a atenção para o assoalho da igreja. É de madeira e embaixo dele, faz muito tempo, eram sepultadas as pessoas ricas, muito ricas, os barões e baronesas da cidade, bem como seus filhos e demais parentes. Benfeitores, faziam questão de ser sepultados no solo sagrado da igreja, já que assim era certeza sua alma repousar no paraíso — era o que acreditavam. Ricaços, perpetravam em vida sórdidas ações, explorando, violentando, inclusive escravizando; uma vez mortos, por terem seus ossos repousando em solo sagrado, o céu lhes estaria garantido. Muito fácil! Coitadas das outras infelizes almas, as dos pobres, que em vida não possuíram honra, dinheiro e poder. Enterrados em qualquer lugar, bem longe da igreja, com certeza tinham por destino os braços esqueléticos do Capiroto!

No entanto, um belo dia o papa — cujo nome não guardei — resolve proibir tal prática macabra. Pudera. O cheio já se manifestava insuportável, ficando proibitivo aos cristãos da cidade frequentar a igreja e participar das missas dominicais. Tem nada não! Não podendo usar o solo sagrado da igreja, o cemitério passa a funcionar bem pertinho: no quintal.

Assim, fomos levados a visitar, nos fundos da Igreja de São Francisco de Assis, os túmulos em que jazem os restos mortais do quase presidente Tancredo Neves (aquele que era para ser mas acabou não sendo) de sua esposa Risoleta Neves.

Igreja São Francisco de Assis, São João Del Rei – Minas Gerais (fonte: Wikipédia)

Vistar cemitério. Belo programa!

Quanto não fazem para agradar? Sempre com a mesma história na ponta da língua, pronta para impressionar turista. A outra viagem foi para a Argentina. Ano de 2013.

Relembro que quando estivemos por Buenos Aires acompanhou-nos uma figura muito simpática, o Esteban Ríos, guia argentino que, segundo ele, morou em três cidades do Brasil: Fortaleza, São Paulo e Porto Alegre. Grande cara esse argentino torcedor do Boca Júniors, que nos proporciona momentos marcantes e histórias insólitas na capital argentina.

Esteban no nosso ônibus indicava os pontos de destaque da cidade. A cada monumento ia a nos dizer de quem e de que se tratava, sempre ilustrando com uma história que justificava a existência do tal monumento, estátua, obelisco ou que fosse. Muito cívico e patriota o povo argentino.

“Cuando vean a un hombre a caballo. ¡Es un general!”

Diz-nos ele com seu sotaque forte. Foi aí que passamos por mais um dos heróis portenhos. Tratava-se de um monumento que homenageava o general Urquiza, um dos primeiros presidentes do país vizinho. Pensei: “Já vem aí uma relação dos feitos heroicos desse general.”. Nada. Em vez disso, o guia nos vem com essa:

“General Urquiza es responsable por el poblamiento de la argentina. Fue padre de 105 hijos.”

Estátua do General Urquiza, Buenos Aires – Argentina (acervo do BLOGUE do Valentim!)

Acrescentou, enfatizando, que o grande guerreiro povoou a metade do país. 105 filhos, não entrando nessa conta os não reconhecidos. Uau!

Logo chegaríamos ao cemitério da Recoleta para vermos o mausoléu de Evita Perón, a protetora dos pobres, até hoje venerada pelo argentino.

Incrição à entrada do mausoléu de Evita Perón, Cemitério da Recoleta, Buenos Aires – Argentina (acervo do BLOGUE do Valentim!)

Paramos para ouvir o que Esteban tinha a dizer sobre a mulher do caudilho Juan Domingo Perón. Pouco me interessou porque, a bem da verdade, muito já li sobre Maria Eva Duarte de Perón, atriz e primeira-dama.

O que realmente roubou a cena e chamou a atenção do grupo foi a história surreal que ele conta sobre o próximo túmulo a ser visitado. É o túmulo de Rufina Cambaceres, a jovem que morreu duas vezes.

Esteban Ríos conta-nos a nefasta história de Rufina, a que morreu duas vezes. Cemitério da Recoleta, Buenos Aires – Argentina (Acervo do BLOGUE do Valentim!)

Rufina morreu no dia em que completava dezenove anos. Para comemorar a data, sua mãe faria uma grande festa e a levaria ao Teatro Colón, onde a apresentaria à alta sociedade da capital. Um acontecimento para poucas jovens da sociedade portenha de então.

Todavia, antes de sair, a jovem foi encontrada morta, rígida no chão. O médico atestou sua morte e ela foi enterrada no dia seguinte. Alguns dias depois os empregados do cemitério encontraram seu caixão aberto e com a tampa quebrada. Rufina teria sofrido um ataque de catalepsia e acordado dentro do esquife.

Por trás dessa história há outra.

Depois que o pai de Rufina Cambaceres, o escritor Eugenio Cambaceres morreu, ela tornou-se uma menina solitária, reclusa. Uma vez jovem, recusava sistematicamente a aproximação e interesse de qualquer jovem de sua faixa etária. Um dia, Rufina, filha de Luiza Bacichi, ex-bailarina italiana, viúva e bonita, recebe proposta de namoro por parte de Hipólito Yrigoyen, um homem bem mais velho que ela (ele, 49; ela, 19), que viria a ser presidente da Argentina por duas vezes. Talvez por projetar a imagem de seu pai, que morreu quando ela tinha apenas cinco anos de idade, é este o único homem por quem ela de fato passa a se interessar. Ocorre que, nos poucos encontros que tiveram, na casa de Rufina, a jovem, mal o recebe, acaba por passar mal, recolhida a seus aposentos, dorme, desapontando Hipólito. Isso ocorre várias vezes.

Um dia alguém lhe abre os olhos.

“Rufina, você não acha estranho que, justamente, nos dias de visita de seu noivo, você passe mal?”

31 de maio de 1902, nesse exato dia, em que completa dezenove anos, ela finalmente descobriria a verdade nua e crua. Toda vez que Hipólito vinha a sua casa para lhe ver, sua mãe serve à filha chá com alguma substância que lhe fazia dormir. Hipólito era amante de sua mãe, na verdade.

Nessa noite fatídica, diante de revelação tão chocante, Rufina não resiste. Um médico, presente na casa, atesta sua morte. É sepultada.

No entanto, dia seguinte chega da Europa uma parenta sua. Tarde demais. Ela era a única pessoa a saber que a jovem Rufina sofria de catalepsia. O caixão tinha as portas arranhadas e o corpo com o rosto machucado pelo desespero da infeliz que morreu duas vezes. Oficialmente a família declarou que foi um roubo pois a jovem foi sepultada com as suas joias.

Estátua de Rufina Cambaceres (foto: Luiza Tenan)

Diante disso, a família mandou esculpir uma estátua em que Rufina tenta abrir uma porta; a porta para o céu para uns, a porta do caixão para outros.

Pensa numa consciência pesada a de Luiza Bacichi, sua mãe.

L.s.N.S.J.C.!

O ÁLCOOL revela o caráter!

Luzes da Cidade é caracterizado, também, pelo desenho recorrente de um abismo social perverso. Enquanto o personagem de Myers é apenas amigo do vagabundo quando ébrio, ostensivamente provendo coisas como forma de mitigar a própria tristeza por ter perdido a esposa, o pobretão faz das tripas coração para ajudar a amada em situação tão precária quanto a dele. A drástica mudança de comportamento do endinheirado deflagra, de maneira ora melancólica, ora cômica, a alienação burguesa diante dos que padecem à margem. Marcelo Müller

HÁ ARTISTAS que não morrem jamais; suas obras são eternas, nunca serão esquecidas. É o caso do imortal Charles Spencer Chaplin, e sua extensa e magnífica obra, que legou à humanidade por meio das telas iluminadas.

Harry Myers e Chaplin (fonte: Papo de Cinema)

Charlie (a versão norte-americana para Charles) fez de quase tudo no cinema: escritor, ator, diretor, dançarino, músico, roteirista e empresário. Assim, ele próprio escreveu, atuou, dirigiu, compôs músicas, cantou, produziu e financiou seus próprios filmes. Também foi, juntamente com mais três personalidades famosas de Hollywood, fundador da companhia de cinema United Artists, hoje sob controle da MGM. Eterno inconformado, o fez com o objetivo de dar liberdade ao artista, preso a esquemas dos grandes chefes de estúdio. Consta que tenha sido também talentoso enxadrista.

O ator britânico é, sem nenhuma dúvida, o maior nome do cinema mundial, o mais homenageado cineasta de todos os tempos, um cidadão do mundo, como o próprio Charlie se considerava.

Pois bem!

Nesta mesma semana estava a rever pela enésima vez a película clássica Luzes da Cidade, de 1931, filme do genial Chaplin, considerado por muitos como a sua obra-prima. Nessa época o cinema mudo já se encontrava em declínio, vez que havia quatro anos, com “O Cantor de Jazz”, o mundo entra na era do cinema falado. Incorporando elementos sonoros, o filme foi campeão de bilheterias, com o melhor final de toda a história cinematográfica.

Há obras de arte que precisam e merecem ser vistas, ouvidas ou lidas por mais de uma vez. E no caso dessa extraordinária película não é suficiente ver uma ou duas, mas por toda uma existência. Não está presente nela apenas a comédia em si mesma — como se isso fosse pouco, pois, como diz o adágio popular, rir é o melhor remédio. Há em “Luzes da Cidade”, além do riso e da mera diversão, a mensagem, a poesia, o lirismo, o onírico, cabendo à subjetividade poética do expectador captá-las.

Por essas razões — também — as obras de Chaplin me encantam, merecendo ser apreciadas por uma existência inteira. E a cada vez que se aprecia tal beleza de arte, reapresentam-se a poesia e o sonho, como que em mágica, revelando-se a cada vez faceta diferente da anterior, mostrando ai expectador maravilhado uma nova silhueta ou perfil.

São clássicos e clássicos não morrem jamais.

Chaplin e Virginia Cherrill (fonte: Papo de Cinema)

O enredo gira em torno do Vagabundo, que, como sempre, não tendo onde morar, vagueia pela cidade, a dormir em qualquer lugar e a comer do que conseguir. Numa tarde, uma florista cega acaba por confundi-lo com um milionário, resultando que Carlitos se apaixona por ela. Por não ter coragem de desfazer a ilusão da moça, ele, um andarilho, um pobre-diabo acaba se passando por homem de classe social abastada.

Como manter a representação?

A solução lhe vem à noite, quando ele acaba salvando do suicídio um homem bêbado, ricaço, milionário, magnata. Por ironia, um pobretão que salva um milionário, apelando para a beleza da criação.

“Amanhã, os pássaros cantarão”.

 O magnata, depois de muitas trapalhadas que quase levam os dois à morte, mas que geram no público um mar de gargalhadas, acaba por desistir do suicídio. Agradecido, oferece-lhe sua eterna amizade.

“Amigos para sempre”.

Dois homens, duas vidas, classes sociais opostas. Um, que tudo possui — bens a usufruir, conforto a desfrutar, empregados para mandar — apresenta, na verdade, um grande vazio de alma; busca preencher esse vazio com a bebida, luxo, diversões fúteis e viagens. No entanto, à menor contrariedade, vê-se inclinado a acabar com a própria vida, não suportando o sofrimento, por pequeno que seja. Outro, que nada tem, possui, todavia, o principal: a esperança e o amor, valores que nem a sociedade cruel é capaz de destruir. A uma, oferece o amor e o carinho — platônico e desinteressado — de um homem, buscando prover-lhe, ainda que faça das tripas coração, o que lhe falta para sua felicidade. Assim, procura mitigar-lhe o sofrimento, primeiro em relação ao aluguel vencido, que promete saldar, e, por fim, a própria cura da cegueira; a outro, salva-lhe a vida, procurando mostrar-lhe o belo, a criação extraordinária do Supremo.

O milionário, que acaba de ser abandonado pela esposa — eis a razão imediata da tentativa de suicídio –, leva o Vagabundo, a quem promete amizade, para sua mansão, e de lá, condignamente trajados, vão para um elegante clube de danças, onde Carlitos, por não estar acostumado a ambientes de luxo, acaba por protagonizar várias trapalhadas, que o faz ao transgredir as normas sociais. É a pantomina habitual, receita infalível nos filmes de Chaplin que leva o público às gargalhadas.

Ocorre, porém, que, na manhã seguinte, ao acordar sóbrio, o homem não o reconhece, mandando que o mordomo expulse Carlitos da casa.

“Quem é esse homem?”

Há pessoas volúveis neste mundo cruel. O homem, por vezes, comporta-se em função de seu estado de ânimo, alterando sua forma de agir ou mesmo de pensar conforme as normas impostas pela sociedade, que tem seus instrumentos de controle dos indivíduos.

Indivíduos que, uma vez embriagados, se mostram mais falantes, quando em estado normal são em geral taciturnos; mais risonhos, em vez de sisudos ou melancólicos; generosos, quando são em geral seguros, econômicos e mesquinhos; egoístas, podem de uma hora para outra se mostrarem solidários e gentis; intrépidos e corajosos, ao invés de medrosos; viris, ousados e galanteadores, em vez de tímidos e retraídos. Alguns quebram as regras sociais e outros apresentam alteração de voz, cantam e até recitam. Há inclusive aqueles que desmunhecam, quando em condição de normalidade se apresentam discretos e másculos.

O álcool revela o caráter, costumava dizer o próprio Chaplin.

Quero crer que, como regra geral, os efeitos do álcool acabam por liberar nas pessoas o seu verdadeiro eu, pondo a nu a real personalidade do indivíduo. Desaparecem as diferenças e o freio imposto pela sociedade, sumindo o patrulhamento cultural que os homens estabeleceram uns aos outros. Relativiza-se a noção do que é certo ou errado conforme os ditames sociais, convencionados em função de aspectos culturais, dogmas e crenças religiosas, peculiaridades geográficas, fatores históricos. O adulto, tal qual a criança, tende então a romper as barreiras dos códigos sociais, passando a ignorar o abismo que o separa do irmão, num faz de conta que diferenças inexistem. A partir daí, as muralhas da  etnia, da religião, da convicção política, da classe social deixam de representar obstáculos.

Chaplin, em Luzes da Cidade, nos relembra do oceânico abismo social entre o magnata e o vagabundo, entre o rico e o pobre, um mundo extremamente desigual e perverso. Um homem, o pobre-diabo, nada tem de seu, enquanto a outro nada lhe falta. Possui confortável mansão, empregados, automóveis de luxo, ostenta posição social e títulos, além de dispor de muito dinheiro no banco. Falta-lhe, entretanto, algo que nenhum dinheiro é capaz de comprar: a felicidade. Quanto ao vagabundo, ainda que não se possa dizer que seja feliz, por resignado, nada tem a perder, porquanto nada possui com que se preocupar.

Chaplin nos brinda com um personagem, que, uma vez melancólico e infeliz pelo abandono da esposa, trata de refugiar-se na bebida. É como em busca de um antídoto para a infelicidade. Seu rico patrimônio de nada adianta, pois nada resolve o fato de ele ser um magnata, milionário, ricaço, respeitado, bacana. Como em tantas vezes, resolve então apelar para os efeitos do álcool desta vez a fim de obter a necessária coragem para matar-se, cometer o suicídio, tirar sua própria vida, sair de vez do mundo dos vivos, libertar-se deste mundo cruel.

De outro lado, em posição diametralmente oposta, Chaplin cria um outro personagem da vida: o Vagabundo. Ainda que reconheça a utilidade do vil metal, o Vagabundo, apesar de nada ter, de ser um necessitado, um mendigo, um andarilho, um pobretão, um pobre-diabo, ainda assim conduz no peito um coração capaz de amar, de praticar o verdadeiro amor cristão. Para ele, a vida é importante e bela, que precisa ser vivida — Amanhã, os pássaros cantarão –, reconhecendo no outro um necessitado de amor. Salva-lhe a vida. Não tire sua própria vida, meu irmão, porque vale a pena viver. Quem te diz isso não é um homem rico, a quem nada falta, mas sim um mendigo de rua.

E agora, como nas flores, nos pássaros, no mar, no crepúsculo e na alvorada, nas canções, nas obras líricas, no amor, no sorriso verdadeiro de uma criança, na amizade incondicional, na maternidade e na paternidade, dize-me: há ou não também poesia aí? É bela ou não a mensagem exposta na película de Chaplin? E quanto a obra, ela merece ou não merece ser apreciada por muitas e muitas vezes?

Na segunda vez em que se encontram as duas personagens, na porta do tal clube elegante, o milionário lhe dá uma grande soma em dinheiro. Carlitos, então, movido pelo verdadeiro amor, doa todo o dinheiro para a florista cega, a fim de que ela pague o aluguel atrasado e custeie o tratamento para a recuperação da vista. É um gesto de extrema abnegação, ele um faminto que nada tem. Logo em seguida é preso, passando muito tempo na cadeia, porque, o milionário, novamente, uma vez sóbrio, não reconhece a amizade. Trata-se, afinal, de apenas um vagabundo, reles, ordinário, muito possivelmente um ladrão, e o dinheiro — que a polícia encontra na posse de Carlitos — só pode ser roubado.

Chaplin proporciona em Luzes da Cidade o melhor final de todos os filmes até hoje (fonte: Google)

Ébrio, um sujeito bonachão, alegre, feliz e generoso; sóbrio, há lá fora uma sociedade — por hipócrita que seja — a lhe cobrar coerência com a sua classe, e as convenções sociais mandam que observe a distância enorme que separa o rico do pobre, o doutor do iletrado, a autoridade pública do povo, o homem de Deus do ímpio, o branco rico do preto pobre, o cidadão de bem do tipo marginalizado.

A aparência precisa ser preservada. Estamos condenados a viver numa prisão construída por uma sociedade podre.

Luzes da Cidade, 1931

Mas amanhã os pássaros cantarão!

L.s.N.S.J.C.!

A HORA e a vez de Augusto Matraga!

Guimarães Rosa

A Hora e a Vez de Augusto Matraga” é o nono e último conto de Sagarana, livro que em 1946 marcou a estréia de Guimarães Rosa em nossa literatura e expressa a força e o espírito do sertão de Minas Gerais e conta a história da queda de um homem poderoso em busca de sua redenção: “P’ra o céu eu vou, nem que seja a porrete!…” (Enem virtual)


João Guimarães Rosa (fonte: Google)

ERA noite de novena no arraial e havia uma procissão. Quando a reza acabou, aconteceu um rápido leilão. Depois disso toda a gente foi embora, mas o leiloeiro ficou na barraca, comendo amendoim, no meio do povo bêbado do fim da festa. Além deles, havia duas prostitutas, Angélica (negra) e Siriema (branca).

Os homens começaram a disputá-las, como se elas também estivessem em leilão. Nesse momento, Nhô Augusto (Augusto Matraga) berrou para o leiloeiro, oferecendo 50 mil réis por Siriema.

O povo, então, incentivou-o a levar a prostituta branca. Ele pegou-a pelo braço e os dois saíram. Ela quis ficar com outro homem e até ameaçou um choro, mas acabou se rendendo a ele. Quando a levou para casa e acendeu a luz, percebeu que ela era muito magra e disse: “Que é? – Você tem perna de Manuel-Fonseca, uma fina e a outra seca!” , mandando a rapariga embora.

Depois disso, desceu a ladeira sozinho e esbarrou com Quim que trazia um recado de Dona Dionóra, sua esposa, pedindo que ele voltasse para casa. Ele disse a Quim Recadeiro que não iria lá.

Quando Dona Dionóra soube a resposta, teve vontade de chorar pelo desprezo do marido e por sua desdita. Ela conhecia e temia os repentes de Nhô-Augusto que não se importava nem com a filha Mimita de dez anos.

Guimarães Rosa (fonte: Google)

Ela sabia que ele tinha outros prazeres e outras mulheres, mas aceitava, pois havia contrariado toda a família para se casar com ele. Outro homem já tinha aparecido em sua vida, mas ela sabia que se fugisse Matraga a mataria. Depois de pensar, ela dormiu e, de madrugada ainda, partiu com a filha e com o camarada Quim, parando na fazenda de um tio.

De manhã, continuaram a andar. No meio do caminho, encontraram Seu Ovídio Moura, o homem com quem ela decidiu fugir, mesmo com medo de ser assassinada pelo marido. Quim voltou para contar a Nhô-Augusto o que acontecera.

Quando recebeu a notícia, Matraga decidiu ir atrás, mas seus homens não quiseram ir com ele, pois ele devia dinheiro para todos. Além do mais, sua fama no lugar não era muito boa. Apesar de tudo isso, ele decidiu matar Ovídio, mas antes quis vingar-se do Major Consilva e de seus capangas que não quiseram acompanhá-lo na busca da esposa.

Chegou, então, à chácara do major, porém, os capangas o espancaram até que ele caísse. No meio desses homens, estava o camarada de quem ele havia ganhado a prostituta Siriema. Quando ele já estava caído, o major mandou que o matassem. Eles o arrastaram até o rancho do Barranco.

Antes de matá-lo, esquentaram o ferro dos gado e marcaram sua pele com as iniciais do Major Consilva. Nessa hora, ele levantou gritando e se jogou do barranco. Os capangas o consideraram morto e colocaram uma cruz no local.

Um homem negro que morava perto dali foi até ele e o levou para seu casebre. Nhô-Augusto pediu que o matassem, mas, dias depois, retomou a consciência. Lembrou-se da mulher e da filha, chorou e chamou o nome de sua mãe. O homem que o acudiu pediu que ele rezasse para Deus e para Nossa Senhora do Rosário. A tristeza tomou conta de Matraga.

Os negros trouxeram um padre para que ele pedisse perdão por seus pecados e, após ouvir do padre que sua hora e sua vez iam chegar, considerou que sua vida já acabara e esperava apenas a salvação da sua alma. Tomara tão grande horror às suas maldades que nem podia mais se lembrar delas. Parecia se converter a Deus aos poucos.

Quando ficou bom, pensou em ir para o sertão com o casal samaritano que o socorreu e viajaram para o povoado do Tombador. Lá, ele pedia trabalho e conversava pouco. Às vezes, ficava sozinho e se lembrava das últimas palavras do padre: “Cada um tem a sua hora e a sua vez: você há de ter a sua.” Desse modo, passaram-se quase seis anos. Ele não fumava nem bebia; não olhava para as mulheres nem discutia.

Um dia, passou pela região Tião de Thereza, um velho conhecido de Nhô-Augusto, dando notícias de sua família: Dona Dionóra, continuava amigada com Seu Ovídio e sua filha caíra na vida com um homem desconhecido. O Quim Recadero havia morrido de “morte matada” porque tentou vingar-se dos capangas que pensava terem matado Nhô. Ao ouvir tudo isso, Matraga repetia para si mesmo que sua hora havia de chegar. Por causa disso, no dia seguinte, fez muita caridade para não perder seu lugar no céu.

Com o tempo, ele voltou a ter muito sono e muita fome. Pensou que Deus o havia perdoado e mãe Quitéria louvou a Deus por isso. Acordou mais cedo e diante de tanta felicidade que sentia, teve vontade de fumar e não se sentiu pecando por isso.

Um dia, chegou ao lugarejo um bando de homens valentões. Nhô foi até o chefe, Joãozinho Bem-Bem, e ofereceu sua casa para que ele ficasse bem hospedado. Todos conversaram muito durante a noite e o chefe do bando, na hora de ir embora, convidou Nhô para ir com eles, mas ele recusou.

Apesar disso, os invejou depois, porque não tinham que pensar na salvação da alma e podiam andar no mundo sem vergonha.

Pensou bem e considerou que essa história de andar em penitência era andar pra trás e, por isso, decidiu retornar aos seus antigos caminhos. Voltou a beber e a sentir saudades das mulheres. Alguns dias depois, despediu-se e foi embora em um jegue emprestado pelo amigo Rodolphio Merêncio.

Onde o jegue o levou ele foi e entraram em um arraial onde, por coincidência, estava a jagunçada de Joãozinho Bem-Bem. Nhô foi recebido pelo grupo com muita satisfação.

João ia matar um homem para vingar a morte do Jumentinho, seu colega de bando. O homem implorou pela vida, clamando por Deus e, quando viu essa cena, Nhô interveio, alegando que pedido em nome de Nosso Senhor e da Virgem tinha que ser respeitado. Joãozinho sentia-se preso a Nhô por respeito e não soube o que fazer.

Seu bando, entretanto, liderado por Teófilo Sussuarana, caminhou para cima de Matraga. João também foi para a briga se agrediram. Por fim, Nhô-Augusto cortou a barriga do chefe do bando da púbis à boca do estômago, condenando-o à morte.

Preocupado com a salvação de Joãozinho, Matraga pediu que ele se arrependesse de seus pecados, mas não ouviu resposta, pois este morreu em seguida. Nhô estava muito machucado, mas pediu que chamassem um padre.

O povo, por sua vez, agradecia, dizendo que Deus o mandou ali para salvar as famílias. Diziam: “Foi Deus quem mandou esse homem no jumento, por mor de salvar as famílias da gente!…”. Por isso, era chamado de herói e santo por todos, pois ninguém antes tivera coragem para enfrentar Joãozinho Bem-Bem.

Um primo de Matraga estava no lugar e o reconheceu. Ele pediu a esse parente que colocasse a bênção em sua filha e que dissesse a Dionóra que estava tudo em ordem.

Depois disso, morreu.

(www.enemvirtual.com.br, acesso em 02mar2019)

L.s.N.S.J.C.!

FLORESTA Amazônica. Nunca ouviu falar?

O filme de Cacá Diegues faz o espectador mergulhar de cabeça no Brasil profundo, enfiar-se, chafurdar-se no coração deste país gigantesco demais, sem jeito demais, eternamente promessa de um futuro que jamais chega. (…)
Tanta coisa nasceu, tanta coisa acabou, ao longo destas quatro décadas – e, no entanto, tanta coisa continuou tão parecida com a realidade que Bye Bye Brasil mostra. Sérgio Vaz (50anosdefilmes.com.br)

O malandro Lorde Cigano (José Wilker) lidera a Caravana Rolidei em suas apresentações pelo interior do Nordeste ao final da década de 1970. Detalhe no pára-brisas do caminhão. (fonte: Google)

“FLORESTA Amazônica. Nunca ouviu falar?” Por duas vezes no filme Bye Bye Brasil, de Cacá Diegues, se faz essa emblemática pergunta. É verdade que muita gente na década de 1970 desconhecia a Amazônia. Muitos não a conhecem até hoje, em pleno século 21. Também muita gente não conhecia — e não conhece até hoje — o próprio Brasil, os diferentes brasis existentes dentro do Brasil de alguns. Quem vive no Sul acha que no Norte e no Nordeste só tem miséria; quem é do Norte e do Nordeste tem a ilusão de que o Sul é uma maravilha.

A pergunta acontece no final da década de 1970. No entanto, permanece atual.

Cartaz do filme Bye Bye Brasil, em inglês (fonte: Google)

Atenção, senhoras e senhores, digníssimas autoridades civis, militares e eclesiásticas! Depois de prolongada ausência, devido a compromissos em São Paulo e no resto do sul do país…”

Procurando na internet sobre o filme, diz lá que Salomé, Lorde Cigano e Andorinha são três artistas mambembes que cruzam o país com a Caravana Rolidei, fazendo espetáculos para o setor mais humilde da população brasileira e que ainda não tem acesso à televisão. Mais tarde se juntam a eles o sanfoneiro Ciço e sua mulher Dasdô.  A paupérrima sinopse do filme não faz justiça à película, não dando a ninguém a ideia da dimensão do que o enredo se propõe a alcançar, mostrar, denunciar… Há, portanto, um contexto de exploração.

Lorde Cigano e a Caravana Rolidei (fonte: Google)

A história se passa no final da década de 1970, o que é possível identificar pela indumentária da época, além de ser apresentada a telenovela Dancing Days, da rede Globo. Inicia-se no Nordeste brasileiro, pois se pode ver o rio São Francisco a banhar uma típica cidadezinha do interior.

A Caravana Rolidei é um grupo de artistas que circulam pelas cidades mais pobres do interior brasileiro apresentando sua decadente arte mambembe. Seu líder é Lorde Cigano (José Wilker), o “imperador dos mágicos e dos videntes” e mestre de cerimônia do grupo. Salomé (Betty Faria) é a rainha da rumba, “aquela que já foi amante de um presidente dos Estados Unidos”, a principal atração junto ao público masculino por conta de seu charme de seus atributos físicos. Além de atuar como dançarina, complementa a renda do grupo com o seu próprio corpo, deitando-se com quem tem dinheiro para pagar. É assim com o prefeito, um típico político demagógico do interior, que é cliente antigo dos espetáculos familiares — e não familiares — da Caravana Rolidei.

“…a Caravana Rolidei, que tem orgulho de apresentar a esse distinto público as suas grandes atrações: o fabuloso Andorinha, o rei dos músculos; a internacional Salomé, a rainha da rumba; e o extraordinário e inimitável Lorde Cigano, o imperador dos mágicos e dos videntes.”

“Mas o espetáculo continua familiar, como no ano passado, não é verdade?” Pergunta com ironia o prefeito.

Quando na vida o importante é a sobrevivência, tudo o mais pode ser relativizado. Assim, também as convenções sociais tendem a ser postas em plano secundário. E é em nome dessa sobrevivência que Salomé utiliza seu do corpo de modo a engordar o lucro da trupe. Lorde Cigano e Salomé, pelo que mostra a produção de Cacá Diegues, formam um casal unido. Assim, a moral da sociedade, em que o homem e a mulher se devem mútua fidelidade, está longe de ser uma regra respeitada por eles. Há um pacto: a vida profissional (em nome da sobrevivência) vem em primeiro lugar, e isso é sim, para eles, também uma forma de amor.

Amor é lorota. Quem manda é a nota”

É frase que ostenta o pára-brisas do caminhão, expressando o modus vivendi do grupo. Não apenas uma frase de efeito que provoca risadas a quem sabe ler (e aí são poucos), sobretudo uma profissão de fé, onde a sobrevivência neste mundo concorrido se sobrepõe às convenções.

Dasdô e Ciço (fonte: Google)

Numa determinada cidade, Salomé observa que no ano passado deu mais gente. Constatam que a Caravana Rolidei tem um forte concorrente: a televisão, uma tecnologia que vem para ficar, deixando para trás as formas tradicionais de lazer, como o cinema, o teatro e arte mambembe. Assim, nem mesmo a malandragem de Lorde Cigano e a sensualidade latina de Salomé conseguem competir de igual para igual.

Andorinha (Príncipe Nabor), afrodescendente, mudo e musculoso, é quem faz todo o trabalho pesado. Apresenta-se como engolidor de fogo (pirofagia), além de executar outros números circenses, gêneros que ainda conseguem impressionar a gente simples do interior, ainda que em número cada vez menor. Além disso, por ser fisicamente forte, é explorado por Lorde Cigano competindo no braço-de-ferro, invariavelmente vencendo a seus oponentes. Também é o motorista do caminhão, um surrado fenemê.

Príncipe Nabor (fonte: Google)

Tudo certo.

Sendo negro e analfabeto, é do senso comum que não lhe cabe outra tarefa a não ser o trabalho pesado, a subalternidade e a subserviência. É natural o negro ser visto como apenas um monte de músculos, explorado por outro homem. E é assim que mostra o filme.

À mulher (Salomé), cabe tão somente apresentar como atributos a beleza, a arte (cantora e dançarina) e a sensualidade. Nada mais que isso.

“Venham ver Andorinha, o rei dos músculos, o homem mais forte do mundo. Venham ver Salomé, a rainha da rumba, a princesa do Caribe, que já foi amante de um presidente dos Estados Unidos…”

Muita gente, pelo interior do país, costuma impressionar-se com esses títulos: imperador, rei, princesa, rainha… Isso não passou despercebido por Cacá Diegues. O fato de a Caravana ter estado em São Paulo e no restante do sul do país, aliado ao de Salomé ter sido amante de um presidente dos Estados Unidos, faz impressionante efeito na cabeça das pessoas mais simples.

Ao homem branco (Lorde Cigano) cabe, naturalmente, a liderança e o trabalho intelectual. A questão de gênero e de raça, que Cacá Diegues mostra em Bye Bye Brasil, é sutilmente denunciada. Todavia, a exploração do trabalho braçal (Andorinha) e da prostituição (Salomé) é vista com naturalidade pela sociedade brasileira e, por isso, nenhuma estranheza é provocada.

Betty Faria no papel da internacional Salomé, a rainha da rumba, que já foi amante de um presidente dos Estados Unidos (fonte: Google)

Bye Bye Brasil, mais que comédia e sensualidade, traz em seu cerne a reflexão social sobre as mazelas sociais brasileiras que poucos conseguem enxergar. Quase ninguém. Além disso, procura mostrar um Brasil em fase de transição, em mudança, ao mesmo tempo que permanece igual. A tecnologia que chega consegue mudar costumes, impor novos hábitos, mas não muda o modo de ser do brasileiro mais simples, que continua ignorante, ingênuo e explorado. Muda a roupagem apenas, os instrumentos. Entra o Brasil da calça Lee, do óculos Ray-ban, do toca-fitas Road Star e da televisão.

Impressionado com a beleza de Salomé, o sertanejo Ciço (Fábio Júnior) implora para ser admitido pelo grupo. Dasdô (Zaira Zambelli) faça o que achar melhor, e a ela, grávida nos últimos meses, não resta opção a não ser, resignada, acompanhar o marido, de quem depende. Ele, na verdade, apaixona-se por Salomé, que, ao olhos do sertanejo simplório, apresenta-se como uma mulher resolvida, elegante, bonita e sensual, bem distinta das interioranas comuns, características femininas que provocam cobiça nos homens e inveja nas mulheres. Soma essa razão à de fugir da vida miserável a que estão condenados ele, esposa e filha por nascer.

A Caravana segue Nordeste a dentro, levando sua arte mambembe a um público cada vez menos interessado, isso porque prefeitos instalam televisão pública, o poderoso circo eletrônico que fascina, impressiona, enfeitiça, prende e aliena o público, um concorrente desleal a que nem a beleza sensual, diferenciada e estonteante de Salomé é capaz de vencer.

Decidem, pois, migrar para a Amazônia, onde abacaxi é do tamanho de uma jaca e as árvores são tão altas quanto arranha-céus.

“Floresta Amazônia. Nunca ouviu falar?”

É um caminhoneiro (Carlos Kroeber) que diz, enquanto disputa cana-de-braço com Andorinha, sob a supervisão do “fominha” Lorde Cigano. Ele cai na conversa. A Amazônia, na fala do caminhoneiro, é apresentada como uma espécie de eldorado, o que era senso comum a muitos que na época para lá migraram em busca da fortuna, que só veio para poucos.

Diante da decadência que se lhes apresenta inexorável por conta de tecnologias como a tal televisão, Lorde Cigano decide que a Caravana Rolidei seguirá para Altamira, às margens do rio Xingu, no centro da rodovia Transamazônica. Lá vão dar espetáculos para os índios, porque, com certeza, lá naquele fim de mundo não há televisão e os indígenas não têm onde gastar seu dinheiro.

Índios são forçados a abandonar sua cultura e a abraçar precariamente a cultura do invasor (fonte: Google)

Mas antes Ciço expressa desejo de ver o mar. Seguem rumo a Maiceió. Chegando lá, as cenas mostram a vida agitada das cidades, o trânsito infernal, os engarrafamentos, a poluição sonora, a poluição visual…, tudo de ruim. As cidades — até mesmo as medianas como a Maceió de 1979 — estão inchadas devido ao êxodo rural. Por não obterem apoio na roça, migram para a cidade, que, por sua vez, não os contempla porque não têm qualificação, resultando desse círculo vicioso mais misérias, violências, insegurança, desempregos, problemas habitacionais, enfim, toda uma sorte de problemas sociais.

“Mar de cidade é cheio de cocô. Altamente poluído.”

Mas conhecer o mar é objeto de desejo de todo brasileiro que nasceu e se criou no interior. Por isso, a Caravana Rolidei estaciona numa praia distante da cidade grande, com muitas belezas naturais, ventanias, palmeiras, uma beleza. Lá Ciço, finalmente, põe os pés no mar, realizando um de seus grandes sonhos.

O velho fenemê adentra a floresta.

Uma vez em plena Amazônia, cenas mostram a estrada rasgando a selva, sugerindo desmatamento desordenado. Tinha-se o pensamento na época de que eram necessárias ao país estradas, fábricas, extração de minérios, desmatar, explorar… Fazer o bolo crescer para só depois dividir. Essa era a ideia de modernidade, e o homem que se adaptasse ao progresso numa época em que não se falava em defesa do meio-ambiente.

Dasdô sente as dores do parto. Nasce a filha, a quem é dada o nome de Altamira, em homenagem à cidade promissora, que, para eles, é uma espécie de terra prometida, onde corre leite e mel.

“Vai se chamar Altamira!” Diante do olhar de reprovação por parte de Salomé, Lorde Cigano, segurando o bebê, atenua: “Legal, quem não gostar por chamar de Mirinha”;

Segue o filme.

A certa hora aparecem os índios. Todos vestidos, alguns de óculos escuros, escutando rádio. Diante da invasão cultural a que sofreram, os indígenas não têm outro caminho a não ser adaptar-se à cultura do invasor, ainda que de forma precária.

“Depois que os brancos chegaram, minha aldeia se acabou. Agora eu vou pra cidade, pacificar os brancos… Minha mãe quer ir pra Altamira pra viajar de avião.”.

Diz o cacique (Rinaldo Gines), para completa surpresa de Lorde Cigano.

“De avião em Altamira? Isso aqui é Floresta Amazônica, meu amigo. Nunca ouviu falar?”

Depois de algum tempo, finalmente chegam a Altamira. Lá, desapontados porque, além da televisão que já chegou aos rincões amazônicos, nada do que o caminhoneiro disse é verdade. Em vez do eldorado prometido, encontram uma cidade desorganizada, bois circulando nas ruas, muito barro e lama, gente vinda de todo lugar. Uma confusão dos diabos.

Meio desnorteado, Lorde Cigano, de diferente, encontra um agenciador de empregados (Marcos Vinícius), ele também um elemento a serviço do grande capital, encarregado de recrutar trabalhadores para um grande empreendimento estrangeiro de exploração, uma fábrica de papel. O empreendimento realmente existiu com o nome genérico de Projeto Jari, do bilionário estadunidense Daniel K. Ludwig.

“Isso é uma moderníssima fábrica de papel, a maior do mundo, trazida do Japão até aqui inteirinha, pelo mar. … Coisa de gringo, bicho! Paga bem e em dia. Luxo e conforto…” 


Propagandeia. O cacique e sua família se mostram então interessados, pois é a chance de viajarem de avião. Ao interesse do índio, o agenciador, dirige-se a seu assistente:

“Atende esse aí, Moreno. Índio é mais barato.”

Diante disso, só resta à trupe contar com o talento do fabuloso Andorinha, o homem mais forte do mundo, até então invencível. Mas desta vez encontrou um mais forte e perdem tudo, inclusive o caminhão. Andorinha, julgando-se culpado pela ruína do grupo, vai embora. A presença do negrão na história não é mais necessária; não há mais caminhão para guiar, nem equipamentos para carregar, nem fogo para engolir, nada mais para ele fazer.

Extinta a Caravana Rolidei, falidos, somente resta a eles Salomé, para, prostituindo-se mais uma vez, lhes dar o sustento e o necessário para que possam recuperar-se do revés noutro lugar. O destino escolhido é Belém, uma cidade grande, onde, durante algum tempo Salomé continua a se “virar”. Dasdô oferece-se prostituir-se também, mas, na hora agá, numa crise de ciúme por amor e machismo, Ciço não consente.

Nas cenas em Belém, é interessante o ambiente do bordel em que aparece um cantor interpretando uma música em inglês (Walter Bandeira), enquanto as pessoas dançam freneticamente. Há também o diálogo entre Lorde Cigano e um contrabandista de minérios. A exploração do homem (prostituição), a apropriação cultural, a exploração desordenada da riquezas naturais, que se vão, deixando em troca somente a miséria.

Salomé e Lorde Cigano ainda ficam em Belém por algum tempo. Ela se “virando”, ele metido num negócio de minérios em sociedade com o tal contrabandista. Enquanto isso, Ciço, Dasdô e a pequena Altamira partem para tentar a sorte em Brasília.

“Hum milhão de habitantes, mais de um milhão de habitantes. Cabe mais alguém? Não cabe, e no entanto continua a chegar gente como vocês… Agora nós, da assistência social, nós cuidamos de vocês, nós abrigamos toda família. Bem. Não aqui, no centro da cidade”

Peça publicitária do filme, em inglês (fonte: Google)

Diz a assistente social (Marieta Severo) à família de migrantes, enquanto mostram cenas de Brasília, no Plano Piloto. São deixados na periferia, uma rua com esgoto a céu aberto, crianças brincando de bola, e casebres improvisados. Mas lá, passados alguns anos, a família de sertanejos nordestinos adapta-se ao meio. Não abandonando suas origens culturais, porém, logram viver dignamente com o necessário para sua sobrevivência.

Bye Bye Brasil, 1979

Bye Bye, Brasil do passado, viva o Brasil do progresso! No entanto, a vida continua igual. Pouco ou nada mudou para a maioria de nossa gente nesses quarenta anos. Rico Brasil, pobre povo brasileiro. Apesar disso, Bye Bye Brasil continua até hoje o melhor filme já produzido no país.

L.s.N.S.J.C.!

A VIDA é um sopro!

“Em pouco tempo formamos um grupo coeso e amigo. Todos juntos no correr das casas populares já construídas. O conforto era pouco: sala, dois quartos, banheiro e cozinha. Meu quarto era pequeno: um catre, um pequeno armário provisório e um banco como mesa-de-cabeceira. O resto era terra vazia, desprotegida, coberta de poeira nos tempos de inverno e de água e lama nos meses de verão. É claro que esses pequenos desconfortos se diluíam diante do trabalho que tanto nos ocupava. Mas ficava aquela sensação de fim de mundo, a lembrar a família e os amigos distantes, sem estradas e telefone. Apenas um pequeno rádio de campanha a nos servir. E tudo se agravava para os que lá estavam sozinhos, a imaginar como seria bom ter uma mulher do lado, com quem pudessem dividir suas angústias, e abraçá-la um pouco. E isso explicava muita coisa. Muita união escondida que aquele abandono justificava. (…) E as obras seguiram nos prazos contratados e Israel, seu braço direito, as comandava sem vacilações nem burocracia, com a coragem dos que sabem estar agindo bem. E nós a trabalhar de sol a sol, acompanhando JK altas horas da noite pela obras em andamento. Não havia tempo a perder e as construções se iniciavam, tendo apenas calculadas suas fundações. O resto, os detalhes das estruturas e da própria arquitetura, vinha depois, acompanhando o ritmo programado. E a ideia de JK — nossa, inclusive — não era de uma cidade qualquer, pobre, provinciana, mas de uma cidade atualizada e moderna, que representasse a importância de nosso país.” COUTO, Ronaldo Costa. Brasília Kubitschek de Oliveira, p. 128, 129

Oscar Niemeyer e o Palácio do Planalto (fonte: Google)

OUTRA vez, aqui nestas páginas, escrevi sobre a viagem ao Planalto Central que fizemos agora em janeiro último. Estivemos em Goiás e Brasília. Como sempre faço, costumo observar tudo através da lente da humanidade, incluindo aí o olhar crítico e sócio-político sobre as pessoas, sobre a paisagem e sobre a influência destas sobre aquelas. Vou anotando tudo mentalmente de forma que, ao regressar, não sou mais o mesmo homem da ida, eis que a bagagem cultural e intelectual se avoluma de tal maneira que enriquece o meu ser. Acredito que, de uma forma ou de outra, ocorra o mesmo com todos que passam por tais experiências, embora – por óbvio – nem todos se apercebam do fenômeno. Há, queiramos ou não, percebamos ou não, uma mudança interior. O indivíduo, ao sair de seu meio, regressa com um maior volume de bagagem cultural, intelectual ou até espiritual, ainda que não assim queira admitir.

O fato é que retornei de alma renovada ao sudoeste paranaense. Isso em mim é evidente, perceptível, claro e óbvio.

Faço esse longo introito para falar de crentes e não crentes como o grande brasileiro Oscar Ribeiro de Almeida Niemeyer Soares Filho, ou simplesmente Oscar Niemeyer. Dessa mesma viagem já falei da Trindade dos pioneiros religiosos como o devoto Constantino Xavier, que percorreu a pé 120 quilômetros conduzindo a medalha da Santíssima Trindade, dando assim início à devoção do Pai Eterno que já dura quase 180 anos; assim como também falei da Caldas Novas da megaempresária Magda Mofatto, declarada a parlamentar mais rica do Congresso Nacional, e que começou a vida como uma simples camareira de hotel. Bastante já escrevi sobre a Brasília de Juscelino, de Lúcio Costa e dos candangos pioneiros, uma saga, uma grande aventura, uma luta pela sobrevivência.

Mas é sobre a simplicidade, é a respeito da humanidade desse célebre arquiteto brasileiro, renomado nos quatro cantos do planeta, que gostaria de me ocupar nestas linhas de agora. Menos do arquiteto, que o mundo inteiro conhece, mais do homem simples, do irmão solidário e do amigo generoso.

É impossível visitar Brasília e ignorar suas obras. Conhecendo as obras é natural se interessar pela vida do profissional que as criou. Não se contente com apenas isso, mas – indo mais além – é necessário chegar ao homem, ao brasileiro e ao grande ser humano que foi Niemeyer. É assim que me debruço sobre muito do que já foi escrito e falado sobre ele. Volto, então, a reler os livros, a rever os vídeos e consultar a internet, após ter revisto parte de sua estonteante arquitetura, que fala por si mesma. No entanto, sobre suas obras, cito-as apenas como apoio argumentativo.

Niemeyer (fonte: Google)

Niemeyer era ateu. Isso todos sabemos.

Como já disse antes nestas páginas, chama-me a atenção a fala da guia de turismo que nos acompanha naquele 21 de janeiro, ocasião em que visitamos a Catedral Metropolitana de Brasília. Parece-me uma forma de depreciar o nome de Oscar Niemeyer quando ela enfatiza as convicções do arquiteto. De fato, é do conhecimento público que Oscar Niemeyer se declarava ateu. Ateu e comunista. Nenhuma novidade aí. Sobre ser comunista, leio que certa feita declara Fidel Castro:

Sólo quedaron dos comunistas en el mundo: Oscar e yo”.

Uma declaração desse quilate, vindo de quem veio, atesta o inarredável grau de convicção política de Niemeyer. Fidel queria muito levar Niemeyer em visita a seu país. Oscar nunca foi. Duas dificuldades: Cuba é uma ilha e ele – Oscar – morria de medo de viajar de avião. Talvez de navio, mas o fato é que o comunista brasileiro jamais visitou Havana.

Outra sobre o Niemeyer comunista:

“Sou convocado novamente pela Polícia Política. Iniciava-se a construção de Brasília. Comunico o fato a JK, que reage: ‘Você não pode ir. Tiram o seu retrato e não posso recebê-lo mais no Palácio’. Na minha frente, telefona para o general Kruel: ‘ O Niemeyer não pode ir à Polícia Política. É meu elemento-chave em Brasília’. Apesar disso, no mês seguinte, fui chamado a me apresentar. Sou levado para a sala de interrogatório, toda almofadada. Fazem-me as perguntas de praxe, PCB etc; no final indagam: ‘O que vocês pretendem?’ Minha resposta: ‘Mudar a sociedade’. ‘Escreva aí’, disse o policial ao negrinho que bate à máquina a entrevista: ‘Mudar a sociedade’. E este, voltando-se para mim: ‘Vai ser difícil’. Quanta ignorância!”

Voltando à guia de turismo. A pretexto de esclarecer sobre a forma inovadora da catedral, que deu ao seu autor o Prêmio Pritzker, equivalente ao Prêmio Nobel de Arquitetura, comenta ela:

Alguns guias, fantasiando, falam que lembra duas mãos postas, em oração, indicando algum significado religioso para o desenho da catedral, eu digo que nada tinha a ver com fé ou religião. Aí é apenas estilo de arquitetura. Dezesseis colunas que se apoiam, só isso. Gente, Niemeyer era ateu. Infelizmente, era ateu.”

Catedral Metropolitana de Brasília. Projeto arquitetônico de Oscar Niemeyer, cálculo estrutural do engenheiro Joaquim Cardozo (fonte: BLOGUE do Valentim)

Opa! Será que estou ouvindo direito? Não escuto um mero comentário, uma inocente declaração, um simples esclarecimento. Escuto um juízo de valores, pior, uma condenação.

Tento reproduzir o comentário o mais fielmente possível. Se ela não disse exatamente essas palavras, foi próximo disso. Eu, porém, na qualidade de católico fervoroso, digo que, ainda que tenha sido ateu, isso não impede de ter sido a obra (essa e tantas outras) inspirada por Deus. Por esses mistérios insondáveis, que a nós não é lícito compreender, ao conceber em sua mente genial a catedral, embora por provável inconsciente, há um lampejo da inspiração divina.

Tento demonstrar aqui que uma coisa é uma coisa, e outra coisa é outra coisa. Muitas vezes há mais solidariedade cristã na porta de um boteco ou dentro de um bordel que à saída de uma igreja, ouso dizer. Traduzindo: um ateu pode ser melhor cristão que tanto religioso por aí. Talvez seja difícil para alguém como ela conceber tal ideia.

Vamos aos fatos.

Leio que o ateu Niemeyer, durante sua longa e profícua carreira profissional, desenha mais de duas dezenas de templos religiosos. O primeiro deles foi a igrejinha de São Francisco, junto com mais outros prédios, naquilo que veio a ser conhecido como o Complexo Arquitetônico da Pampulha, a convite de Juscelino Kubitschek, prefeito de Belo Horizonte. Isso foi por volta de 1943.

Igreja de São Francisco de Assis, Pampulha, Belo Horizonte. Projeto arquitetônico de Oscar Niemeyer e cálculo estrutural do engenheiro Joaquim Cardozo (fonte: Internet)

Niemeyer, homem probo e livre, gosta de curvas. Com certeza inspirado pela a paisagem do Rio de Janeiro, onde nasceu durante o governo de Rodrigues Alves, e se criou em Laranjeiras e Copacabana. Em menino, costuma ver nas nuvens objetos das mais diversas formas. Formado na Escola Nacional de Belas Artes, considera um desperdício não aproveitar a técnica do concreto armado na arquitetura, eliminando o uso da alvenaria. Passa a adotar em seus desenhos curvas e detalhes arredondados. A igrejinha de São Francisco de Assis é, nesse contexto histórico, a primeira a fugir do padrão de igrejas já construídas, apresentando a abóbada em parábola concretada, técnica só então utilizada em hangares. Inaugura assim aquilo que é o padrão de suas obras, aproveitando a plasticidade e a potencialidade do concreto armado – até então pouco explorado –, que permite formas ousadas, insinuantes, marcantes.

Sobre isso, diz Niemeyer:

“Para mim a Pampulha foi o começo da minha vida de arquiteto. (…) A curva me atraía. A curva livre e sensual que a nova técnica sugeria e as velhas igrejas barrocas lembravam.”

Vamos especular um pouco.

Talvez pela igrejinha lembrar um galpão ou hangar é que o conservador arcebispo de Belo Horizonte, Dom Antônio dos Santos Cabral, tenha se negado a sagrar o local destinando-o a sua finalidade. Apesar da insistência de JK, recusa-se a nomear pároco, em consequência, privando os habitantes católicos do bairro do conforto espiritual. Ou talvez tenha sido porque Dom Cabral, simpatizante da UDN, não simpatizasse com o prefeito Juscelino, neto de ciganos (Boa coisa não devia ser!) e alinhado politicamente com Getúlio Vargas. Ou mesmo porque a obra vem assinada por um ateu, além de comunista – ou melhor, por dois comunistas. Os murais e painéis são de Cândido Portinari, um comunista de carteirinha, embora católico. Como último recurso de forma a vencer a resistência de Dom Cabral, JK convida o religioso a visitar o complexo. Tudo vai indo bem, o arcebispo encanta-se e elogia tudo. Ao entrar na igreja, acaba por implicar com um simpático cachorrinho bem brasileiro, o irmão-cachorro, que Portinari desenha junto a São Francisco, e não o irmão-lobo, espécie pouco conhecida pelo povo.

“Um cachorro na casa de Deus? Isso é um escárnio à religião!”

É o que diz, escandalizada, a autoridade eclesiástica a Juscelino. Vira-lhe as costas e retira-se imediatamente do local. Por essa razão ou por outras, não declaradas — mas aqui consideradas –, o obstinado Juscelino, prefeito, governador, deputado e presidente, finalmente consegue a sagração da igrejinha somente em 1957, catorze anos depois, quando o sucessor do zeloso Dom Cabral, assume a arquidiocese de Belo Horizonte.

Catorze anos!

Apesar de Dom Cabral, o amigo-cachorro permanece lá a fazer companhia a Francisco.

Niemeyer, irmão e amigo generoso. Um dia pensa no que seria na vida, que profissão seguir. Nascido em família de classe média, natural que fosse médico, advogado, engenheiro, até mesmo militar. Se nascido de família pobre, nada disso lhe seria reservado. Mas, desde cedo inclinado às artes, opta pela profissão de engenheiro-arquiteto. O dinheiro, que poderia vir mais fácil por outras profissões, não é prioridade para Oscar. Em vez do feijão, escolhe o sonho. Não concebe a ideia de uma vida limitada a seguir ordens ou marcar ponto. A vida livre, as curvas e não retas. Contribuiu para esse modo de ver a vida o fato de ter nascido em família estruturada, neto que é de Antônio Augusto Ribeiro de Almeida, ministro do Supremo Tribunal Federal, que morre pobre e deixa de herança unicamente a casa em que morava com filhos e netos. Não fosse assim, teria sido o anônimo Oscar, igual a milhões de brasileiros.

Quanto ao futuro, como imaginar que seu nome chegaria a tão longe? Se Niemeyer está no lugar certo e na hora certa, somente o senhor tempo viria a dizer. No entanto, além das circunstâncias sociais, para as quais Oscar não contribui, suas decisões pessoais dão uma forcinha para o destino promissor, que, mal sabe ele no momento, chegaria com o passar dos anos.

Uma delas.

Formado arquiteto e com família constituída, Niemeyer procura Lúcio Costa e se oferece para estágio. Não precisava lhe pagar nada, bastando a aprendizagem. Desprendido, trabalha de graça, mas procura aí aprender com um de seus mestres, que inclusive foi diretor da Escola Nacional de Belas Artes. Sabe desde cedo que o livro é mais importante que o metal; o saber se sobrepuja ao dinheiro. Sem o saber, Lúcio Costa levaria Niemeyer a Juscelino, prefeito e idealizador da Pampulha, para mais tarde também levá-lo a Juscelino, o presidente construtor de Brasília.

Da Pampulha a Brasília; de Brasília para o mundo!

Como o menino Oscar podia saber o que viria? Não estaria Deus guiando os passos desse ateu e comunista convicto? Somente Ele dita seus próprios desígnios, por nós, meros mortais, insondáveis. Como todos nós, Oscar também não sabe o que virá. Não procurou por isso, e os acontecimentos sobrevém naturalmente.

Voltando à espiritualidade, esse ente por incompreendido. No episódio da Pampulha, quem faz a vontade do Senhor? Juscelino, o neto de ciganos, Niemeyer e Portinari, os comunistas, ou o arcebispo Dom Cabral? A resposta Deus o sabe, mas – ouso dizer cá comigo – creio que os primeiros.

Oscar, o amigo simples e generoso.

No escritório ele próprio, já uma figura consagrada, atende o telefone:

“Alô. É o Oscar!”

Um arquiteto mundialmente reconhecido como ele poderia simplesmente deixar a tarefa para a secretária ou para algum auxiliar. Não. Niemeyer, homem simples, nunca foi de frescuras.

“Conheço muito o doutor Niemeyer. Ele para para conversar comigo quase todo dia e dá dinheiro aí na rua para todo mundo.”

É depoimento de José Luiz da Silva, o flanelinha, que a uma esquina de distância, lavando carros no calçadão, aponta o escritório com o dedo.

Conta José Manoel da Silva, porteiro do prédio:

Pode subir. Ele é pessoa muito simples. Brinca com a gente, diz besteira. Uma vez eu falei sobre ele com um repórter, sem saber que o sujeito estava gravando. No dia seguinte, saiu tudo no jornal e ele me chamou no escritório para me assustar: ‘Olha aqui, ô filho da puta, você fica falando de mim para os outros por aí. Mas a entrevista ficou boa, hein’.”

Seu escritório é uma bagunça só, um festival, uma alegria. O centenário Niemeyer contraria a todos os médicos e profissionais da vida saudável, pois, apesar de fumante inveterado, amante do bom uísque e muitas noites de trabalho, chega a mais  de cem anos. 104, quase 105. Morre faltando apenas dez dias para 15 de dezembro de 2012. Talvez tenha sido porque não se preocupa com nada, além do essencial. Nem com dinheiro, não exigindo nada além do necessário para viver. É encarando a vida dessa maneira que arranja tempo para ajudar os amigos.

“Meu avô era intrinsecamente honesto e, tendo ocupado cargos importantes, morreu pobre, deixando para seus quatro filhos apenas aquela casa das Laranjeiras. E isso foi sempre muito importante para mim”

O trecho acima está no livro de Marcos Sá Corrêa. Convocado por JK, montou escritório em Brasília e chamou para acompanhá-lo “vários amigos que estavam na merda”.

Ainda do mesmo livro:

O centenário Niemeyer (fonte: Google)

“Levei dois jornalistas, o José Guilherme Mendes, que era médico, Eça, que não era nada, mas era meu amigo, um advogado, um oficial da Aeronáutica, um goleiro do Flamengo e outros ainda de profissões indefinidas. E foi muito bom, porque eles trabalharam e ainda me ajudaram a passar aquele tempo. Todos me foram úteis e a equipe se fez mais variada, a conversa mais versátil, o trabalho mais completo, cada um atuando dentro de suas próprias aptidões. Em pouco tempo formamos um grupo coeso e amigo. Naquele fim de mundo eu precisava de boa conversa. Com eles batia papo sobre outros assuntos, não precisava falar só de arquitetura. Todos juntos, num correr das casas populares já construídas. O conforto era pouco: uma sala, dois quartos, banheiro e cozinha. Meu quarto era pequeno: um catre, um pequeno armário provisório e um banco como mesa de cabeceira.”

Isso é um pouco – apenas um pouco — do ateu e comunista Oscar Ribeiro de Almeida Niemeyer Soares Filho. Tentei enfocar aqui sobretudo o humanista generoso, o amigo solidário, o grande brasileiro, para o quem a vida é apenas um sopro, mas que levou consigo essas virtudes, deixando para a humanidade, em concreto armado, suas obras imortais.

L.s.N.S.J.C.!

TRÊS homens em conflito!

No inóspito oeste americano, a paisagem árida e pouco receptiva serve de alegoria para o que se passa na mente dos protagonistas. O ser humano colocado contra o meio ambiente na verdade reflete o ser humano contra ele mesmo. Os longos silêncios, pontuados pela bela trilha sonora de Ennio Morricone, demonstram que suas ações pouco necessitam de palavras.Isabel Wittmann

Cartaz do filme, em inglês (fonte: Google)

DURANTE muito tempo o gênero Western, também conhecido por Faroeste ou Bang-bang, dominou a sétima arte. Um filme de Western era garantia de cinema lotado, milhões em bilheteria por conseguinte. Contavam a história, em geral fantasiada, da chamada conquista do oeste, em que o homem civilizado do leste dos Estados Unidos segue à procura de ouro, levando assim a civilização a um oeste selvagem, repleto de índios perigosos e de mexicanos ignorantes e inferiores. Por meio do rifle e do revólver, cruzam desertos em diligências, fundam cidades empoeiradas com seus saloons de madeira, cadeia, cavalos, xerifes e bandidos, enredos previsíveis que fascinavam e divertiam multidões mundo a fora.

Cena final, no cemitério (fonte: Google)

O Faroeste tornou milionários e mundialmente famosos atores como John Wayne, Gary Cooper, Gregory Peck, Cary Grant, Burt Lancaster, Yul Brynner e tantos outros caubóis, mocinhos e artistas, que, nas telas, encarnavam heróis altos, fortes, indômitos, rápidos no gatilho, justiceiros, paladinos da justiça e da ordem, vingadores, todos se apresentando sempre bem barbeados, bonitões e elegantes, conquistando com isso milhões de fãs. Ao mesmo tempo, fizeram época histórias de aventureiros reais como Buffalo Bill, Jane Calamidade, Wild Bill Hickok, Billy The Kid, entre outros vultos, que, retratados em ficção, ganham ares de heróis românticos.

Clint Eastwood (fonte: Internet)

Público garantido.

Tudo, porém, tem seu final. Na década de 1960, o gênero Western já se encontrava na descendente; o filão milionário se exauria deixando preocupados os grandes de Hollywood. Para alguns anos de sobrevida, era necessário que o gênero passasse por novas configurações. É nesse quadro de declínio que surge em cena o diretor italiano Sergio Leone, um entusiasta da história do velho Oeste.

É também por uma dessas ironias que o destino costuma pregar que surge fora do País Sem Nome uma espécie de imitação do romântico e fantasioso Western original, que passou a ser conhecida pejorativamente por Western Spaghetti. É exatamente com Sergio Leone que esse subgênero vem a superar o gênero original.

Leone, pragmático ao explorar a temática genuinamente norte-americana, com a chamada Trilogia dos Dólares, deixou a todos embasbacados principalmente com o terceiro filme da série, de longe o melhor deles: Três Homens em Conflito, título pouco inspirado em português para “O Bom, o Mau e o Feio”.

Do romantismo norte-americano para o realismo de Leone.

O italiano procura assim desconstruir a aura romântica dos velhos filmes americanos de Western mostrando uma época o mais aproximadamente possível do que de fato tenha sido — portanto mais violenta –, em que apresenta pistoleiros sujos, feios, mal barbeados, pele castigada pelo efeito solar, homens brutos, ignorantes e ambiciosos; mulheres, em geral prostitutas. Nem de longe lembrando o glamour, a fantasia e os clichês romantizados que até então as produções norte-americanos apresentavam, Leone mostra, enfim, algo mais próximo da bruteza histórica.

Eli Wallach, o Feio (fonte: Google)

Em Três Homens em Conflito, história que tem como cenário a Guerra de Secessão, temos três protagonistas: Clint Eastwood, o Bom (que de bom não tem muita coisa), inteligente, o Pistoleiro Sem Nome, a que Tuco chama de Lourinho, Lee Van Cleef, o Mau, e Eli Wallach, o Feio, um bandido debochado, mas ainda assim um bandido cruel. Portanto, três personagens à margem da lei, todos exímios pistoleiros, mas cada um com seu estilo, destaque para o Feio, Tuco Benedito Pacífico Juan Maria Ramírez, um mexicano acusado de muitos crimes, procurado pela justiça de vários estados, por cuja cabeça há gorda recompensa. O Bom, também bandido, recebe esse nome por ser menos sanguinário que os demais, dentro de uma ética relativa. O Mau é o vilão no sentido real do termo, sem ética nem compaixão, cruel ao extremo. Do Bom — que não tem nome — e do Mau, nada se sabe sobre eles. Só sobre o passado de Tuco, o Feio, sabe-se que tem um irmão padre e que se tornou bandido em razão das circunstâncias sociais em que sua família vivia; nas condições em que foi criado só havia duas opções de vida: ser padre ou bandido. Também é o único que tem nome, ao menos que se é mencionado no filme, os outros só sabemos por meio de apelido, que o próprio Tuco diz: “Lourinho”, para o Bom, e “Olhos de Anjo”, o Mau.

Lee Van Cleef, o Mau (fonte: Google)

Paralelamente à história dos três pistoleiros, que entram em conflito pela busca de duzentos mil dólares enterrados num cemitério (cujo nome só é sabido por um) e num túmulo (que é só conhecido pelo outro), há uma guerra como cenário: a Guerra Civil Americana.

Aí o grande diferencial.

Leone mostra no filme a estupidez de uma guerra em que há desperdício de homens, gente mutilada, campos de prisioneiros torturados, terríveis condições de pobreza em que vivem os soldados, miséria do povo em geral, destruição… Comenta o Pistoleiro Sem Nome:

“Nunca vi tantos homens serem desperdiçados desse jeito”

Nesse quadro de horror há pessoas capazes de se aproveitar do sofrimento humano para prosperar materialmente. O homem explorando o homem. Isso magistralmente denuncia Sergio Leone em sua obra.

Cena de Três Homens em Conflito (fonte: Google)

Completa o filme o magistral tema sonoro, uma obra-prima de Enio Morricone, composição que transcende o próprio filme, vez que muitos a conhecem mesmo sem jamais terem visto a película para a qual foi composta. Passado já mais de meio século, passarão milênios e não haverá outra igual.

Três Homens em Conflito, 1966

Três Homens em Conflito, o melhor filme de Western.

L.s.N.S.J.C.!