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PODEMOS elogiá-los à vontade!

DURANTE os três decênios em que estivemos na Força Aérea Brasileira muitos  acontecimentos  presenciamos e de tantas outros travamos notícias por meio das redes sociais da época, que funcionava de boca a ouvido. Chegamos a ver capitão desafiar major para o desforço físico e coronel com a ficha individual  mais suja que pau de galinheiro, a matar de inveja o praça mais alterado do quartel.

De tantos episódios extraordinários, pitorescos, divertidos ou fora de série, lembramo-nos de alguns em especial envolvendo autoridades. Passo então a registrá-los sob pena de caírem no vão inescrutável do esquecimento.

Um deles é este:

Uma vez, em palestra do comandante da aeronáutica, tenente-brigadeiro Bueno, vimos com os olhos que a terra haverá de comer um dia um sargento receber um lance (uma bronca, uma mijada, um esporro) dessa autoridade. Era uma manhã e o local era o cine-teatro Brigadeiro Camarão, que fica ao lado ao Colégio Rego Barros, Belém, Pará.

O novinho temerário teve a coragem — ou falta de juízo — de dormir na palestra do brigadeiro. O comandante-mor, talvez por ocultar uma conjuntivite ou qualquer outro problema ocular, palestrava usando  óculos escuros. Por isso a autoridade simplesmente “filmava” a audiência enquanto falava.

“Você aí, que está dormindo!” — bradou Sua Excelência, apontando na direção do sargento. “Você acha que eu vim de Brasília até aqui pra ver alguém dormir durante a minha palestra?”.

Foi nessa hora que o infeliz sargento dorminhoco se viu como o centro das atenções, eis que todos viraram o olhar para a sua direção para saber quem era. Incluam-se os comandantes de unidades e outros oficiais superiores, a fim de conferir se o militar em questão era ou não seu subordinado.

Nesse mesmo dia o dorminhoco foi devidamente catrapado.

Vamos a outro episódio.

Foi numa das vezes em que o presidente Lula da Silva visitou Belém, tendo ele e dona Marisa se hospedado no hotel de trânsito dos oficiais da guarnição. Eu lembro bem, foi início de seu primeiro mandato presidencial.

Foi o chefe do Pessoal, na época capitão Omar, quem contou-nos os detalhes. Depois de um almoço à base da exótica gastronomia paraense, a saber, maniçoba, pato-no-tucupi, vatapá, iguarias acompanhadas de sucos de taperebá e muruci; como sobremesa, açaí e musse de cupuaçu, além de outros quitutes da região, havia grande chance de passar mal quem não estava habituado à peculiar culinária amazônica.

Não deu outra.

Depois que toda a comitiva presidencial já estava de saída, o chefe do Pessoal já mencionado, pessoalmente, propôs-se a realizar  vistoria nas dependências do hotel-cassino, incluindo apartamentos, refeitório e sanitários. Numa das toaletes, o oficial observou que este fora apressadamente frequentado por alguém, porque a natureza não lhe deu tempo suficiente para que chegasse ao assento. Era um fedor dos diabos, além de, visivelmente estar lá, para quem quisesse ver, o produto do almoço no chão, formando uma espécie de trilha que se iniciava talvez um metro antes do vaso.

Quem teria feito aquela merda? – literalmente falando.

“Parece que alguém andou abusando da maniçoba”, falou o capitão Omar, dirigindo-se a um dos seguranças que ainda guardava o salão.

“Acho que foi o Ciro Gomes, chefia!”, respondeu baixinho o militar, com uma espécie de sorriso à Monalisa, como quem conta uma confidência. “Eu vi o ministro entrando aí às pressas”.

É claro que o autor da proeza podia ter sido qualquer um. Mas, Ciro Gomes, ministro de Lula, era a personagem mais conhecida entre eles. Ficava mais divertido atribuir a culpa ao célebre político, que mais tarde viria dar outras cagadas por aí.

Mas não é sobre Ciro ou Lula que vamos ocupar o restante desta página, pois não era a primeira vez que o T1 recebia um presidente da República.

Falemos então de um terceiro caso.

Pouco mais de duas décadas atrás o mesmo hotel de trânsito, o T1, foi cenário de uma situação divertida, ao tempo que embaraçosa e constrangedora, envolvendo um outro presidente da República, o extinto general João Batista de Figueiredo, aquele que preferia o cheiro do cavalo que o fedor do povo.

Era o ano de 1980. Ou seria 1981? Isso, porém, não vem ao caso. Por razões políticas que desconhecemos, o general-presidente encontrava-se em litígio com o governador do Pará, que, contrariamente aos preceitos da caserna, era apenas um coronel, o Alacid da Silva Nunes. Devido a essa razão, Figueiredo e sua comitiva hospedou-se no T1, já que o governador ignorava a sua presença em Belém.

O comandante da Base Aérea de Belém era o coronel-aviador Próspero Púnaro Barata Neto, oficial que marcou para o bem (segundo uns) e para o mal (na opinião de outros) a história daquela unidade militar. Naquela época era o costume serem nomeados para comandantes de base aérea os coronéis já muito antigos, quase prontos a ser promovidos. Era o caso. Mas, na realidade, Barata já tinha idade para ser brigadeiro ou até mesmo major-brigadeiro. Ocorre que o oficial teve seu tempo de serviço interrompido por conta de um episódio de que tomou parte pouco mais de vinte anos antes, somente sendo reintegrado à FAB no governo Jânio Quadros.

Em 1959, esse mesmo oficial participou de um episódio histórico. Nesse tempo o capitão Barata envolveu-se numa rebelião (uma tentativa, ao menos) que pretendia derrubar o governo Juscelino Kubistchek. Barata Neto e seus correligionários de ideais, os tenentes-coronéis Haroldo Coimbra Veloso e João Paulo Moreira Burnier, já são mortos. Podemos elogiá-los à vontade, pois.

Veloso era então já reincidente na prática rebelde contra JK, que, num gesto magnânimo e bondoso, o anistiara após a frustrante rebelião histórica conhecida como a Revolta de Jacareacanga. Inconformado, Haroldo Coimbra Veloso juntava-se desta vez a outros udenistas (que também eram lacerdistas, eduardistas, e outros istas), entre militares e civis, incluindo os dois oficiais citados, para, mais uma vez, tentar derrubar o governo de Juscelino num episódio conhecido como a Rebelião de Aragarças, que durou somente 36 horas, de que – por sinal – poucos historiadores se ocupam. Apesar de pouco a História registrar, ambos os episódios nós destacamos aqui no BLOGUE do Valentim.

Mas voltemos ao Figueiredo e ao Barata Neto, então comandante da Base Aérea, naquele Círio de Nazaré de 1980. O general não mais está entre os vivos, por isso, podemos também elogiá-lo à vontade, como dizia Machado de Assis.

Nessa tarde, com a agenda presidencial livre, foi programado um coquetel na área da piscina do T1 em homenagem à autoridade máxima do país, que honrava Belém e a Aeronáutica com a sua presença. O brigadeiro comandante do Primeiro Comando Aéreo, demais oficiais-generais da área de Belém, a totalidade dos oficiais superiores da guarnição, além de as principais autoridades civis federais, todos acompanhados pelas respectivas madames esposas, se faziam presentes em trajes informais.

É evidente que, do baixo clero, obrigatoriamente — e aí por dever de ofício. Por isso, encontravam-se também presentes motoristas, seguranças, taifeiros e a Banda de Música. A vida divide a humanidade em duas: os que usufruem e os que servem; os que tocam e os que carregam o piano; a casa grande e a senzala. Foi por estes que o caso nos chegou ao conhecimento.

Banda de Música?

Sim. Não raro os militares músicos em ocasiões como essa eram solicitados a demonstrar sua arte, mormente nessa tarde em que o mandatário máximo visitava pela primeira vez o Estado do Pará. Ademais, Barata Neto, ainda que muito caxias, conservador, sangue azul e militar rígido, com seu inseparável cachimbo,  apreciava muito o trabalho dos componentes dessa subunidade, tendo, inclusive renovado e ampliado toda a instrumentação musical, atendendo a uma reivindicação antiga. Em contrapartida, a Banda, em sua administração, era, por conseguinte, frequentemente convocada. Em tais ocasiões, além de música, o uísque, a vodka, a gelada, ou mesmo a manguaça rolavam soltos.

Banda e Rancho possuíam agenda cheia, portanto.

Naquela tarde ensolarada de outubro estava lá, à borda da piscina, Figueiredo em trajes sumários. Rodeado por oficiais-generais, ministros e o coronel Barata, o presidente, entre uma dose de uísque e outra, degustava uvas, como a lembrar a imagem de um imperador romano ou uma espécie de semideus.

Depois de o suboficial Mirabeau, mestre da Banda, reger algumas músicas populares, com ênfase às da cultura regional, era agora a vez de alguns músicos brindarem o excelentíssimo com os respectivos talentos artísticos, cada um com seu instrumento musical em apresentação solo.

Entre eles havia artistas de elevada qualidade, dos quais queremos destaca o talentoso S1 Benjamim. A maioria dos militares da Banda se chamava assim: Amós, Mozaniel, Daniel, Ezequiel, Miqueias, Ozark, Davi, Zaqueu, Josué… Por que será? Ganha um doce quem acertar.

João Figueiredo, o general que preferia o cheiro dos cavalos ao fedor do povo (imagem: Internet)

Chegando a sua vez, Benjamim aproxima-se à distância respeitosa do presidente e passa a exibir seus dotes. Com seu flautim executava as notas mais melodiosas que só o extraordinário talento de raros artistas era capaz de apresentar. O músico, como efeitos especiais, levava o flautim ao ouvido esquerdo, em seguida ao nariz, logo depois ao ouvido esquerdo… Mostrava trejeitos tais que passavam ao público a ilusão de que as notas musicais que todos ouviam, não se eram na verdade produzidas pelos lábios do músico.

Profundo silêncio reinava entre a plateia, que, embevecida, não perdia um só segundo do show particular que o jovem soldado proporcionava à seleta audiência ali presente.

Terminada a apresentação, Figueiredo, então, voltando-se ao anfitrião, se sai com essa:

“Barata, esse teu militar toca pra caramba. Parabéns!”

O comandante, que a essa altura já havia ingerido uma quantia para lá de razoável de uísque e de outros líquidos destilados, assim responde ao presidente:

“Presidente, esse é o Benjamim. Ele toca por tudo o que é buraco. Ele toca até pelo …!” Disse uma palavra monossílaba tônica.

Nisso, entre surpreendidos e chocados pela resposta pouco convencional do coronel, muitos baixaram a cabeça, outros viraram o rosto para o lado, e as mulheres, ruborizadas, não sabiam onde se meter de tanta vergonha. Eu ouvi isso mesmo? O presidente vai mandar prender o coronel! Produziu-se suspense e curiosidade à espera da reação do general Figueiredo.

Que nada.

Figueiredo, também já ébrio, não ligou a mínima. Em vez disso, pediu a um de seus ajudantes-de-ordem que anotasse o nome do Benjamim. O praça, que meses antes havia feito exame para sargento, no mês seguinte teve sua promoção publicada em boletim da DIRAP. Mas o coronel Barata findaria a carreira como coronel.

L.s.N.S.J.C.! 

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LIMA, o Barão de Maracanaú!

NESTES nossos trinta anos de Força Aérea presenciamos diversas situações insólitas, além de tantas outras que chegaram ao nosso conhecimento. A bem da verdade, nós mesmos chegamos a protagonizar alguma delas. De fato, a FAB abriga em suas fileiras uma variada fauna e flora, cujos atores são os milicos mais versáteis, criativos e heterogêneos. Dos mais sérios e empenhados em fazer da forma mais correta possível o seu trabalho aos come-e-dorme, chama-nos a atenção os que encaram a caserna como um grande teatro de comédias, procurando levar a rotina na flauta ainda que não seja músico. Há, ainda, aqueles que frequentam todos os lados, ora procurando trabalhar bem, ora praticando efeitos especiais a la Spielberg.

Com efeito, as severas exigências cotidianas do sistema, por vezes, não merecem ser levadas a sério, resultando que, a fim de não enlouquecer, os praças das Forças Armadas e parte de seus oficiais precisam encará-las a força de larga dose de escárnio e picardia. Era o caso do suboficial Carlos Alberto Siqueira de Lima, cujo nome verdadeiro agora, por ética, não podemos revelar; não achando outro até o final desta leitura, fica esse mesmo. Lima era, por assim dizer, um gozador, um tirador de sarro por excelência, posto que, tecnicamente, um grande profissional, não raro recebendo elogios da Subdiretoria de Pagamentos por cem por cento de acertos a cada mês na função de coordenador de saques da subseção de finanças da Base Aérea de Fortaleza.

Vejam agora o suboficial Lima. Encontra-se nesta tarde ensolarada a cotejar com atenção o boletim financeiro mensal com as fichas de atualização financeira de cabos, soldados e taifeiros. É claro que o leitor sabe o que significa o verbo cotejar, que nada mais é do que conferir os dados do primeiro documento com os do segundo, certificando-se dos acertos do sacador, ao mesmo tempo que aponta alguns erros. Era assim naquele tempo em que o computador era a máquina de escrever ou mesmo a munheca a lançar manualmente números e cifras no formulário.

Pois bem. Está concentrado nesse trabalho quando toca o telefone. “Barão, quando sai o pagamento do mês?” Lima dá uma risada sarcástica: “Deixa de ser lascado, hômi!”. Depois completa: “Dia 29 que vem.”. Repôs o velho aparelho no gancho e toca outra vez: Dessa vez é a secretaria do comandante do Esquadrão de Intendência. “Sub Lima, o major Deocleciano quer falar com o senhor agora”. “Caramba, o que será que esse fela quer comigo dessa vez?”, resmunga o velho sub.

O sub velho ao entrar na sala junta os dois calcanhares fazendo, ao mesmo tempo, uma continência relaxada quase ao nível de uma misura: “Não me pergunte se sou capaz, meu bom major, dê-me a missão”, repetia já quase mecanicamente a frase de efeito, que em geral provocava disfarçadas risadas em quem estivesse por perto. O major já o conhece, porque ele próprio é um veterano na Base Aérea de Fortaleza, tendo chegado à Unidade aspirante e, como tenente e capitão, passado por todos os cargos da Intendência. Quanto a Lima, agora um veterano, adentrou o portão das armas da Base Aérea como segundo-sargento, a partir de então segue percorrendo todas as funções na Tesouraria. Foi sacador de pagamento de soldado, depois de sargento, mais tarde de oficiais e agora, considerando a sua antiguidade e experiência na área, vemo-lo no cargo de coordenador de saque. Não, não estranhe o leitor a rotina à qual a maioria dos humanos acomoda-se. Tem gente que, marcando passo, permanece a vida inteira fazendo a mesmíssima coisa. Obrigado, Senhor, por essa rotina e pelo pão certo garantido a cada dia e soldo sagrado no final do mês. Querem ver um exemplo. Foi o próprio Barão de Maracanaú, como era conhecido o suboficial nas rodas de cerveja, samba e cachaça, que nos contou:

Base Aérea de Fortaleza (imagem: Google)

No mesmo ano em que Lima graduou-se sargento na Escola, o soldado Bezerra, seu vizinho de rua, havia sentado praça na polícia. Isso havia sido há mais de vinte anos. Já decorrido esse tempo todo, numa de suas frequentes idas a Maracanaú, o suboficial percebe extraordinário movimento na casa do soldado Bezerra, por sinal seu conterrâneo. “O que houve hômi, por que não me convidou?” A razão da festa era a promoção de Bezerra a cabo. “Mas jaááá?!!” Ao que o pobre homem, radiante e em sua simplicidade longe de perceber a ironia explícita do amigo, responde-lhe, faceiro, com outra pergunta: “E eu drumo?!”

“Sub Lima, eu o chamei aqui para parabenizá-lo pelos seus excelentes serviços e, em nome do comandante, quero dizer-lhe que o indicamos para receber a medalha Mérito Santos-Dumont”. Lima, enquanto escuta do major a notícia, vai dizendo para seus botões: Esse fíi de quenga vai me fazer comprar um quinto A novo!. Por um instante pensa em expressar a ideia, mas em vez disso, agradece a escolha e, já fazendo menção da continência, ouve ainda o major Deocleciano, ao medir o suboficial de alto a baixo, complementar: “Então, meu suboficial, de agora em diante você trate de andar com essa camisa bem engomada, a calça vincada, o cabelo cortado no padrão regulamentar e os sapatos bem engraxados”. Aí já é demais. “Mas, major, se eu fui escolhido pra receber essa medalha, é sinal de que eu estou bem assim mesmo.” Disse assim e saiu da sala, deixando o superior hierárquico sem palavras.

Mas o sistema, que possui boa memória, também tem das suas. Vejam só.

Na semana seguinte, Deocleciano chama o velho suboficial novamente à sua presença. Que será que esse corno quer agora? “Não me pergunte…”, ao que o major faz um gesto reprovador com a mão, interrompendo-o. “Lima, nós avaliamos melhor e o comandante achou por bem retirar o seu nome da relação dos condecorados”. Com o rosto espelhando satisfação, o sub assim se dirige ao major: “Muito obrigado, major, muito obrigado mesmo. Eu ia ter que fazer o treinamento e, como faz tempo que não faço essas coisas, ia acabar errando o protocolo. O major, comandante do Batalhão de Infantaria, ia me dar mijada, e ainda ia ter que mandar fazer um quinto A novo… Muito obrigado, major”.

Eis que nessa mesma época o Alto Comando determinava ao Comando-Geral de Pessoal que transferisse pessoal para as novas bases aéreas que estavam sendo construídas e prestes a ser inauguradas: Boa Vista e Porto Velho. A fim de compor o efetivo das respectivas seções de finanças dessas unidades necessário era reunir profissionais experientes. Devido aos elogios que Lima havia recebido, e não se sabe porque outras razões, o nome do Barão foi o primeiro da lista. Seria transferido para a Base Aérea de Boa Vista. O leitor amigo, do meio civil, pode até imaginar que uma movimentação como essa jamais seria um problema, vez que o militar das Forças Armadas recebe soldo também para isso: servir o Brasil em qualquer ponto do território brasileiro, onde necessário for a sua presença. Não é bem assim. A diferença entre o milico e o civil, via de regra, é que um é fardado, faz continência e faz desfile militar: um dois, três, quatro… No caso, o suboficial tem esposa com atividade remunerada em Fortaleza, filhos fazendo curso superior em Fortaleza, uma casa humilde no subúrbio, vida toda enraizada em Fortaleza. Transferir alguém nessas condições seria como cortar as duas pernas do velho milico.

Não era a primeira vez que tentavam transferi-lo. Anos antes, publicou-se a movimentação de Lima para Brasília. Ele não foi. Naquela época, uma das condições para a efetiva transferência era ter disponível moradia funcional na Capital Federal. Na Prefeitura de Aeronáutica de Brasília, órgão que administra os imóveis da Aeronáutica, um colega de turma envia uma mensagem-rádio dizendo que não havia imóveis disponíveis. Passa-se um mês, dois… seis meses, e nunca havia imóvel disponível. Assim sendo, tudo indicava que o Barão de Maracanaú terminaria seus dias de FAB no seu velho Ceará querido. Não. O comando faz publicar em boletim um extenso elogio agradecendo os excelentes serviços prestados pelo veterano militar tanto à Unidade quanto ao pessoal efetivo da guarnição. “Coronel, eu vim aqui pedir para o senhor anular esse elogio”. “Por que, sub?”. “É o mesmo que o senhor mandar me darem vinte chicotadas no lombo e depois mandar me elogiar por ter resistido”.

Mas não teve jeito. Foi para ficar por longos dois anos em Boa Vista e assim o efetivo da Base Aérea ficar bem seguro em relação às respectivas folhas de pagamento. E Maracanaú sentiu a falta do velho Barão.

L.s.N.S.J.C.!

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PARA um bom entendedor!

HÁ CINCO décadas atrás trabalhava na Base Aérea de Belém um oficial bem peculiar, cuja vocação, além da farda, era enxergar o escândalo e a indiscrição. Essa história entendedores entenderão — como se diz hoje. Para um bom entendedor meia palavra basta.

Vou nomeá-lo, para fins desta leitura, como Sinclair Bastos de Gouvêa. Já não anda mais sobre a Terra; podemos elogiá-lo, pois, à vontade — como dizia Machado. Sobre ele costumava contar um oficial conhecido nosso, contemporâneo na mesma Unidade, que, em toda oportunidade que o oficial fazia sindicâncias, em vez de focar no fim propriamente das investigações, tendia a demonstrar algum outro vício, problema ou situação de uma ou mais pessoas envolvidas, geralmente direcionando para fatos delicados. Explicando melhor, se a sindicância destinava-se a apurar um furto na vila residencial, Sinclair somente levemente mencionava o objeto em si: o furto. Em vez disso, procurava vasculhar a vida íntima das pessoas e famílias por ventura envolvidas. “E aí, Sinclair, o que descobriu?” Não havia descoberto nada conclusivo sobre o furto, mas que alguém da história era homossexual. Noutra oportunidade, sobre um quiproquó entre a família de um suboficial e a de um primeiro-sargento, sendo indagado pelo comandante, responde que “Nada consegui apurar sobre a briga, senhor comandante, a não ser que o suboficial é corno”. E assim ia.

Era o que esse amigo contemporâneo falava sobre o tal Sinclair, cria eu que com alguma dose de exagero a título de humor. Chegaria o tal oficial com muito custo a tenente-coronel, último posto possível a oficial especialista, na época. Ele, quando capitão, levou uma carona de três ou quatro anos. Explico: carona é quando alguém deixa de ser promovido na época própria, ficando atrasado em relação aos colegas de mesma turma. Isso se torna motivo de vergonha para o caroneado, já que se vê ultrapassado por militares mais modernos que ele. Sinclair somente conseguiu a sonhada promoção a major quando a sua própria turma já estava nas bocas de tenente-coronel. Qual foi a razão para tal vexame? Vejamos.

Sinclair, formado em Direito, fora designado para mais uma de suas famosas sindicâncias. Desta vez era sobre uma quadrilha de agiotagem que vinha agindo no âmbito da Aeronáutica de Belém. Nessa oportunidade, porém, não conseguiu, embora muito houvesse se esforçado, encontrar no curso das investigações nem problemas conjugais, nem opções sexuais, nem mocinhas namoradeiras, nem sargentos e soldados indiscretos, nada. No entanto, abusando do juridiquês — sabem aquele gênero textual usado e abusado pelos advogados e juízes? Isso –, causa boa impressão ao comandante que, maravilhado com o rebuscamento vernacular do oficial, dirige-lhe rasgados elogios. Tendo vagado o cargo de chefe da Seção de Investigação e Justiça da Base, convida-o a assumir o posto. Convite de comandante — como se sabe na caserna — é ordem.

Vaidoso, o capitão declina do convite. “Não, senhor, esse é um cargo de tenente e eu sou capitão”. Naquele tempo, se levava bastante a sério essas coisas de cargo, e normalmente um tenente assumiria sem problemas um cargo de capitão, e a razão é bem simples: o salário vinha junto com o cargo, representando no final do mês um contracheque mais gordo. Havia filas e rodízios até de capitães querendo assumir postos de major e assim por diante. Até que alguma autoridade, decentemente, acaba com essa farra, revogando o artigo da lei de remuneração dos militares que tratava da regalia.

Tornando ao vaidoso oficial.

Desconcertado, o comandante, desfazendo o sorriso, naturalmente não gostou nada da negativa, melindrando-se. Onde já se viu tanto atrevimento? Quedou-se mais brabo ainda quando Sinclair, piorando a situação, complementa: “De baixo pra cima só o bidê!”. Era o que faltava! Em nome da disciplina, o comandante lhe aplica oito dias de detenção e, como pena acessória muito comum na época, expede ofício dirigido ao comandante da Primeira Zona expondo os motivos para que o capitão Sinclair fosse transferido para outra localidade, preferência bem distante de Belém. Depois de algumas semanas, o boletim da Diretoria de Pessoal publica a portaria de movimentação de Sinclair para Canoas, região de Porto Alegre, Rio Grande do Sul.

“E agora?”, diz de si para si mesmo Sinclair. Ele, divorciado há anos, naturalmente possuía seu vasto círculo de amizades em Belém desde que, dez anos antes, havia chegado de Curitiba ostentando nos ombros a estrela de aspirante-a-oficial. “E agora, como vai ser?”. Mas é com o andar da carroça que se ajeitam os jerimuns. Bastando um mês em terras riograndenses, o nosso bravo capitão consegue um apartamento que passa a dividir com um amigo gaúcho. Esse amigo — fiquei sabendo por terceiros porque o próprio Sinclair assim o disse — geralmente era visto em companhias masculinas em número bem maior que de femininas. Cala-te boca! Precisando de alguém para repartir as despesas de moradia, convida Sinclair para ocupar o tal apê. “Opa!”, Sinclair logo, logo está a recompor um círculo de amizades tal que o de Belém, que ficou para trás, não fazia inveja.

Ocorre que, tendo falecido esse amigo, em circunstâncias que a própria família discretamente não divulga, com dois anos Sinclair resolve pedir transferência de volta. O comandante anterior já estava noutra comissão.Parou no Pará, parou; tomou açaí, ficou.

Todavia, as caronas foram se sucedendo de forma que a tendência natural seria vê-lo hoje no posto de o capitão mais antigo do mundo — como costuma dizer o velho capitão Sebastião, capelão da Escola na minha época. Resolveu apelar ao ministro. Chegando ao gabinete da autoridade, expõe as suas razões num expediente de oito laudas. O ministro, ciente de várias histórias circulantes na FAB sobre Belém, não querendo deixar barato, lhe declara: “Pode deixar, capitão, que na próxima data você será promovido. Mas, olhe! Não vá fazer igual ao capitão De Sá.”. A autoridade, de certo, era municiada pelos agentes do A2 sobre a diversa fauna e flora que povoam a FAB, em particular na tal base aérea de então. Devo explicar que o capitão Carlício Ramos de Sá, nome de guerra De Sá — Carlício para os íntimos — não era nada discreto em suas amizades, em geral rapazes altos e bonitos. “O senhor me desculpe, Excelência, mas eu não sou desse tipo”, devolve Sinclair, para não deixar a autoridade sem resposta.

Enfim, promovido. Ao cabo de mais quatro anos, chega a última promoção ao posto de tenente-coronel com a qual encerraria a carreira. Com uns dois meses no novo posto, chega-lhe um major que, de olho na vaga, dá o azar de propor a Sinclair que peça reserva e com isso lhe dê a oportunidade de também ele ser promovido. Era assim que geralmente funcionava: o oficial especialista, uma vez promovido a tenente-coronel, logo metia requerimento, abrindo vaga na fila para os oficiais mais modernos também chegarem ao posto final. “Veja bem, coronel Sinclair”, atalhou o temerário major, “Veja se pede logo a reserva.”. O velho oficial, do alto de sua vaidade, retruca: “Eu estou gostando de ser chamado de coronel. Já até mandei fazer o quinto A novo”. “Mas existe um pacto de que a gente assim que chega a tenente-coronel, dá logo a vez para os outros”. “Ocorre, major, que eu não assinei esse pacto.”. E assim, tomando gosto pela nova patente, o coronel Sinclair, embora já com seus 35 anos de serviço, cinco a mais do que a legislação lhe dava, ainda teima em permanecer na ativa por dois anos. Numa ocasião, ele recebe uma ficha de recomendação. Era comum nesse tempo o oficial superior preencher ficha abonando ou não outros oficiais que estavam próximos em tempo à promoção. Chega-lhe às mãos justamente a ficha desse major para que Sinclair recomende ou não a sua promoção. Ele, em sua face espelhando um sádico prazer, dá como negativo, ou seja, preenche bola preta. E mais: acrescenta a seguinte observação: “O referido oficial transgrediu a ética militar ao abordar-me sugerindo que eu pedisse reserva para que ele pudesse ser promovido, atentando assim contra a ética militar que o Estatuto dos Militares bem recomenda ao oficial da ativa”.

De fato, o major termina seus tempos na FAB como major. Quanto a Sinclair, tendo ele finalmente atingido a data limite que era estabelecida pela legislação, se vendo como oficial da reserva, dedica-se à advogacia. Tinha um escritório ali próximo à Praça da Bandeira.

Mas a história não termina aqui.

Já estabelecido há anos como advogado, os casos que lhe chegavam às mãos envolviam militares, em maioria. Um desses foi o de um taifeiro que, numa brincadeira entre eles, sofre uma queimadura no antebraço e mão. Era um trote que, por pouco, não atinge proporções maiores. O colega lhe ateia álcool, risca um fósforo e, perdendo o controle da brincadeira, fazendo menção de atirar em direção ao amigo, acaba por atingi-lo. O resultado é que, após sindicância e inquérito, o caso chega à Justiça Militar.

Um amigo, cujo nome não posso expor aqui, também tinha por advogado o mesmo Sinclair. E este, conversador e saudoso do ambiente fabiano de outrora, se põe a falar e — nisso — indiscretamente fala sobre o caso do taifeiro. “Ah, mas esse aí é!”, e prossegue, “Pela voz, pelo andar, pelos trejeitos…”.

Diante disso, voltamos ao caso das sindicâncias indiscretas e chegamos à conclusão de que o colega contemporâneo, por sinal alencarino, dizia a verdade. Há uns que têm vocação ao escândalo. Ocorre que essas pessoas mais falam sobre si do que sobre os outros.

L.s.N.S.J.C.!

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QUANDO ao preconceito social se junta o ciúme!

TRABALHAR em Base Aérea não é coisa das mais simples. No caso, base aérea localizada na mesma cidade de quartel comandado por brigadeiro. Em Belém, testemunhei mais de uma vez o murmúrio de comandantes sobre o infortúnio de estar próximo a oficiais estrelados. Não têm muita autonomia para exercer o comando – queixavam-se.

Com efeito, um sem número de vezes vi, com alguma dose de insatisfação, sargento, cabo ou taifeiro desfalcarem o efetivo da Unidade para completarem o já farto efetivo do Comando Aéreo local, a mando de seu comandante, o major-brigadeiro de plantão. Ao comandante da Base Aérea só restava mesmo dizer amém, em nome da hierarquia e da disciplina e, é claro, da própria carreira. Jamais os censurei por isso, porque, na verdade, eu procederia da mesma forma. Sendo um pedido ou convite do brigadeiro, é uma ordem.

Numa dessas, o brigadeiro resolveu criar uma escala de “diretor-de-dia” ao cassino de oficiais, o COAGB1. Criou assim, de supetão, sem consulta nem algum estudo, por simples que fosse. “Quem manda aqui sou eu”. Vossa Excelência falou, tá falado. Assim, todos os tenentes e capitães das unidades da área concorreriam ao serviço de escala recém-criado, que, por sinal, não durou muito. Foi só o dito cujo virar às costas, passando o comando para outro estrelado, e o serviço foi extinto. Mas a ideia era aliviar a carga dos tenentes, capitães e majores, diretores do clube social. Era uma sexta-feira, dia de meio expediente, quando quase lá pelas doze horas, me toca o telefone. Era a minha vez.

Não tendo nenhum impedimento e nem a cara-de-pau para inventar alguma desculpa, como muitos tenentes faziam, disse ao escalante que domingo às nove estaria lá no COAGB para exercer as funções. No meu íntimo, fiquei insatisfeito com aquilo, não pela escala em si, já que dentre tantas funções a que me propus, uma delas era exatamente essa: serviço de escala. Todo prazer me diverte. O que me contrariava era o fato de não ter participado de nenhuma instrução a respeito, nem mesmo uma NPA havia sido divulgada entre a tenentada, cuja classe eu me incluía então. Em suma, não me encontrava devidamente preparado para a missão e isso — sendo eu um perfeccionista — me incomodava.

COAGB, também conhecido por T1, Belém – PA (imagem: Google)

Fui. Naquele domingo ensolarado, típico de Belém, uma vez lá no clube, procurei conhecer as instalações circulando pela extensa área do COAGB. Depois disso, não conseguindo ler nem mesmo uma NPA2 ou instruções correlatas, resignei-me, procurando uma mesa para aguardar o tempo passar, rezando, porém, para não dar nenhum bochincho. Levando um livro para ler, de vez em quando me levantava e circulava em torno da piscina,o lugar mais frequentado, além do próprio salão de refeições em que me encontrava. Tudo normal: pessoas se refrescando na piscina, crianças se divertindo nos toboáguas, homens e mulheres no restaurante, enfim, tudo a contento.

Notei que, à tarde, numa mesa próxima à minha encontravam-se quatro mulheres que, entre petiscos e doses de caipirinha ou de cerveja, divertiam-se em gostosas risadas por conta da alegre conversação entre elas. Era quase cinco horas, quando, já prestes a encerrar meu horário, uma delas, por sinal a mais animada, chamou-me: “Você é o diretor-de-dia?”. Respondi que sim. “Olhe lá na piscina”. Olhei e não consegui ver nada de anormal. “Lá tem uma menina, uma morena de cabelos crespos, que não é sócia do clube”. Como eu ia saber. O bom senso não orientava a sair pedindo carteirinha de sócio a toda a gente presente, centenas provavelmente, que eu não conhecia exatamente por não ser membro da diretoria. Se aquelas pessoas estavam lá é porque foram admitidas; simples assim. Mas, diante da certeza da senhora que me abordara, tendo ela caracterizado a pessoa estranha ao ambiente, fui até lá e indaguei de um rapaz que a acompanhava. Disse-lhe sobre a queixa da senhora e ele, demonstrando surpresa e alguma dose de contrariedade, respondeu-me tratar de uma moça de seu conhecimento, que fora por ele convidada. Ele era filho de um major do DTCEA-BE3, que nesse dia não estava presente no clube. Mas, para mim, vale a palavra e, se ele convidou a amiga, tendo ela na portaria admitida ao ambiente, não seria eu quem discordaria, porque, na verdade, não havia problema algum..

Voltando à senhora, ela passou a contar que a moça era “uma qualquer”, indigna, portanto, de frequentar o clube e que, no domingo anterior, ela havia proporcionado um “espetáculo” diante dos homens presentes no salão, sambando e, com isso, os divertindo, tendo eles ao final dado vivas e batido palmas, além de outras manifestações verbais. Mais tarde, fiquei sabendo à boca miúda que um dos homens, a que a moça divertia com o samba, era exatamente o marido da senhora, que, neste domingo seguinte, estava viajando pela Amazônia. Na minha mente formou-se de imediato a imagem da moça, como centro das atenções masculinas, sambando e os homens, em sua volta, formando um círculo, batendo palmas, numa roda de samba tipicamente carioca. Era um major, cujo nome omito aqui, o esposo da tal senhora. Mas não foi só isso. Já “alta”, por causa das doses acumuladas de caipirinha, ela, sem que eu perguntasse, continuou a dizer em voz alta, entre tantas coisas, que era esposa do major fulano e que seu pai era um brigadeiro. “Tenente, você já ouviu falar do major-brigadeiro Moreira?”. Eu na verdade sabia quem era o brigadeiro Moreira, exatamente o paraninfo da minha turma de formação em Belo Horizonte, tendo sido comandante do Corpo de Alunos em Guaratinguetá nos anos 1970. Foi exatamente de suas mãos que recebi o diploma de conclusão do curso. No entanto, simplesmente respondi que não conhecia o aludido oficial-general, ilustre sogro do major apreciador de sambas e de morenas trigueiras.

Diante do tumulto que já não era possível esconder, a moça, tendo escutado a conversa que eu, com alguma dose de cuidado, tivera com o amigo, disse-me assim constrangida: “Pode deixar, que eu vou embora”. Nisso, o rapaz, por sinal bastante educado, aparentando seus dezoito ou dezenove anos, foi até à senhora e explicou que ele havia convidado a moça e que, de acordo com o regulamento do clube (que eu desconhecia pelas razões já mencionadas), isso não se constituía em infração… A senhora, interrompendo-o e não querendo saber de conversa, foi destilando ao rapaz, e também para quem quisesse, ouvir toda a sorte de impropérios.

Eu fiquei ali, sem saber ao certo o que fazer. Ainda bem que a humilde moça, apanhando seus pertences, vestiu-se e se mandou, sem maiores problemas. Chegando em casa, peguei do telefone e relatei o problema ao meu comandante.

Legendas:

  1. Cassino dos Oficiais da Aeronáutica da Guarnição de Belém, também conhecido como T1;
  2. Norma-Padrão de Ação, espécie de instruções para determinado procedimentos ou serviço;
  3. Destacamento de Controle do Espaço Aéreo de Belém.

L.s.N.S.J.C.!

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CANUDOS e o outro olhar de José Augusto Moita!

FOI por meio do Facebook que mantive contato pela primeira vez com José Augusto Moita. Seu sobrenome incomum chamou-me a atenção por ter eu, em 1979, travado conhecimento de um sargento em Anápolis, provavelmente parente. Havia em Belém outro sargento Moita. Descubro, enfim, que a família Moita é numerosa. A postagem que focou para a sua figura era uma em que aparecia ao lado do Silva Filho, outro colega de farda de Anápolis conhecido por Marinheiro, que, segundo dizem, foi um exímio centroavante, tendo até jogado pelo Calouros do Ar Futebol Clube, de Fortaleza. Sei que até o Marinheiro pegou uma punição disciplinar por ter jogado em time profissional sem autorização. Mas isso é outro assunto.

Tornemos ao Moita.

“Então, você foi um dos poucos militares que não perdeu o juízo?”, foi o primeiro contato por meio do sistema de mensagens do Facebook. Daí em diante, tornou-se para mim — como também para centenas de amigos — uma rotina diária travar contato virtual com essa grande figura, um extraordinário e sincero amigo, por meio de suas mensagens super bem-humoradas no Facebook.

Homem de palavra, prometeu nos visitar aqui no Sudoeste Paranaense, Dois Vizinhos, cidade distante à beça da Capital do Estado e de outros centros. De posse do nosso endereço, exatamente no dia 19 de junho de 2019, lá pelas sete da noite, quando eu e a patroa estávamos sorvendo o sagrado mate amargo da noitinha, que ele, dona Ivone e Dímitri, um de seus filhos, chegam à nossa humilde residência, numa viagem de mais de 10 mil quilômetros em que buscavam conhecer vários rincões brasileiros e pavimentar amizades, que, por sinal, são muitas e sinceras.

Na manhã de 18 de julho de 2020, recebemos o livro de J. A. Moita. Ele ainda, conforme seu divertido senso de humor, ainda me batizou de “Antonio Valentim Mendes Maciel”, fazendo-me, de certa forma, parente do Conselheiro

Dentre nossos assuntos em comum, um dos preferidos de Moita é sobre a vida de Antônio Vicente Mendes Maciel, que a História trouxe à baila com o nome de Antonio Conselheiro. Aliás, não só essa saga desse grande homem como a de outros severamente combatidos por um sistema perverso estão entre os temas de interesse desse inteligentíssimo amigo, que, aliás, dedica-se também à bela arte da música.

Uma das caricaturas de Antônio Conselheiro disponíveis na Internet (imagem: Google)

A visitação dessa querida família constituiu-se numa bela surpresa para nós, ao mesmo tempo que não. Logo, estávamos à mesa em debates políticos, assunto de nosso largo interesse por termos correndo nas veias o sangue do inconformismo. E era uma prosa de velhos amigos. Na verdade, nunca antes havíamos nos visto pessoalmente, para a estupefação de minha esposa Bernardete Kleinibig. “Meu Deus, como é possível?”. Da mesma forma, por saber de seu interesse pela vida e pela verdade acerca do Conselheiro, não nos surpreendeu totalmente a edição do livro Canudos ou Belo Monte: um outro olhar, que ora nos dedicamos a ler atenta e interessadamente.

Devo dizer, a bem da verdade, que, pelo fato de este humilde escriba estar envolvido com outros afazeres (acadêmicos, domésticos e as escritas do Blogue), foi exatamente a Bernardete que, interessada, logo se ocupou, com larga dose de curiosidade, de conhecer sobre a vida e triste fim de Antônio Conselheiro, que a pena de José Augusto Moita nos dá agora um outro olhar. O que ele teria escrito, afinal? À medida que a Alemoa vai se dedicando à leitura, isto geralmente à boca da noite e depois do mate, minha companheira faz comentários e perguntas. Eu lhe respondia, à minha maneira meio tosca e superficial, sobre esse assunto a que Moita dedicou-se de forma a resgatar a verdade sobre Conselheiro e seus seguidores, cruelmente massacrados pelo Exército Brasileiro. “Conselheiro e sua gente queriam apenas a paz. Nada tinham de fanáticos e violentos, como se propagou à larga”, era eu que dizia com outras palavras.

E agora este escriba está a concluir a leitura dessa vibrante narração do escriba cearense. Dá-nos a impressão de estar lá entre os soldados ou no meio dos sertanejos conselheiristas, entre cartuchos lançados ao solo e zunidos infernais de projéteis. Esse dom, o de conduzir o leitor para o cenário, somente poucos o possuem.

Todo livro reflete o tempo em que é escrito e o espaço social vivido pelo autor, inserido que está numa determinada sociedade. Há que se considerar também os interesses do escritor, nem sempre honestos. Com Conselheiro não seria diferente. De seu principal divulgador, Euclides da Cunha, percebe-se que o escritor e jornalista fluminense veio a ser conhecido mais por sua verve literária, menos pelos dotes de biógrafo. Poucos sabem — inclusive nós não desconhecíamos — a existência de muitos outros autores se lançaram à missão de escrever sobre esse injustiçado homem. Moita foi desmascarando um a um deles.

Acusar alguém ou um grupo de monarquista era para aquela sociedade do final do século XIX o mesmo que, hoje, tachar grupos de insatisfeitos de esquerdistas e comunistas, ou mesmo subversivos ou coisa assim, sem que ao menos se faça alguma reflexão. Era o caso dos republicanos recém-instalados no poder: estavam ali sob o espectro de Pedro II e de seus seguidores. No caso, Conselheiro, atraindo em redor de si toda a sorte de seguidores desesperançados da vida, acaba por atrair a ira dos poderosos de então, como hoje são os integrantes de movimentos sociais como os Sem Teto ou Sem Terra, ou denominações equivalentes.

Líderes inatos, como veio a ser Conselheiro, tornam-se, sem que o desejem, uma grande ameaça a quem detém o poder, atraindo para si o ódio tanto de senhores de terra — a elite agrária que mandava e ainda manda no país — como da Igreja de então, cujos ministros se sentiam ameaçados por sua liderança inconteste e natural. Foi o caso, por exemplo (e falando em Igreja) de um galileu que esteve no planeta Terra há vinte séculos. Dos coronéis e dos padres e bispos até o poder político formal, de início estadual e depois federal, é um pulo. Aos fazendeiros não interessavam comunidades socialistas como Belo Monte em que, à semelhança dos primeiros agrupamentos cristãos, seus habitantes tinham tudo (por pouco que fosse) em comum. Ao clero também não era interessante a perda de milhares de ovelhas e ainda, para piorar, a existência de um outro pastor, sendo este, embora não pretendesse, mais próximo em sentimentos e missão do Grande Mestre Nazareno do que eles próprios. E se viesse a prosperar Belo Monte a ponto de inspirar o surgimento de outros Canudos? E, em razão disso, sobreviesse a carência dos peões que, a troco de uma cuia de farinha para si e seus filhos, se sujeitavam às ordens da elite agrária? Era, portanto, imperativo combater exemplarmente esses subversivos que teimavam em mudar a sociedade, único modelo então existente, antes que fosse tarde.

Aí está o Exército disposto a cumprir ordens — qualquer que sejam elas — em nome da República e da Pátria. Combater uma legião de famintos não devia ser assim um bicho-de-sete-cabeças. Quanto à opinião pública, aí estão os jornais prontos a apoiar coronéis, assim como os padres estavam também reunidos em torno da proposta eugenista, ainda que isso viesse a contrariar os preceitos evangélicos. Portanto, a população — como é até hoje, infelizmente — está sempre pronta a receber como verdade absoluta tudo o que o papel aceitar, sem o menor espírito crítico. O governo central e o Exército, porém, não contam com a crueza do sertão, lugar inóspito que só o próprio sertanejo — esse forte, como propagou o fluminense Euclides da Cunha — conhece. Também não considerou a tenacidade dos homens de Conselheiro que lutavam por uma vida melhor, portanto, pela esperança de cada um deles, de suas famílias e, inclusive, pela própria liderança de Antonio Vicente, a quem veneravam e respeitavam certamente. É assim que vem uma, duas, três expedições, todas derrotadas.

Derrotados, diante da opinião pública é necessário pintar o inimigo como jagunços fortemente armados e coisas do tipo. Ninguém, nem os generais, nem a imprensa, nem o coronelato e a Igreja, admitirá jamais que o Exército foi derrotado também por sua própria incompetência e por tantos outros aspectos e detalhes que bem Moita trouxe à luz da verdade. Era preciso construir o mito do Conselheiro, um homem violento, um tirano, que conduzia seus homens — incluindo mulheres e crianças — a peso de forte treinamento militar e de intrincadas estratégias de guerra. A mentira falada mil vezes passa a ser tomada como verdade e isso o poder sabe bem fazer. Contribuíram para isso muitos autores, que Moita exaustivamente pesquisou, ao repetirem mentiras sabendo que o povo as tomaria por verdades que, infelizmente, chegaram aos dias de hoje.

É aí que entra o papel dos grandes brasileiros de hoje. Revisitar a história, desmistificando-a. Fazer releituras das “verdades absolutas” que desde sempre, principalmente durante um período longo de 21 janeiros, insistem em empurrar goela abaixo da população brasileira. A nossa geração tem essa obrigação: não descansar enquanto não ver a verdade dos fatos restabelecida e — mais — insistir na propagação desses “outros olhares”, bem diversos das ideias romantizadas que os falsos patriotas teimam em divulgar: o Exército é patriota e quem insiste em indicar outro modo de vida, mais justo e fraterno, esse é violentamente perseguido, desmentido, preso e eliminado. Não só Conselheiro e seus principais homens deviam morrer, mas todos — mulheres, velhos, crianças, sãos e doentes… — a fim de que não sobrasse uma testemunha sequer e com isso a mentira contada não corresse riscos de ser desmascarada.

Monarquistas!? Aquela pobre gente mal sabia o que isso significa. Utilizando-nos da comparação, figura de linguagem fartamente empregada por Moita em sua obra, vejo o caso da “adesão” do Pará ao Brasil, ocorrido de forma violenta em quase um ano depois de 7 de setembro de 1822. Um grupo de comerciantes portugueses pretendia que o Grão-Pará permanecesse ligado ao Império Português, o que não interessava a Dom Pedro. A população humilde e miserável estava, porém, à margem desses acontecimentos e interesses, de forma que tanto faz como tanto fez, visto que a mudança ou a manutenção de uma condição política não mudaria a vida dos humildes paraenses. Que interessava o Império ou República àquela gente miserável e ignorante de tudo? Mas a República precisava de um pretexto para massacrar milhares de homens, mulheres e crianças em nome dos interesses de uma elite, o poder, seja ele fardado, à paisana ou de batina.

Jagunços?! Ora, qualquer um de nós sabe que estes se prestam a servir os endinheirados deste mundo e seu ofício é perseguir os menos favorecidos. De outra forma, o coronelato não teria prosperado nestas terras de Santa Cruz. Um homem manso e de bons propósitos como foi Antonio Vicente Mendes Maciel jamais teria as condições monetárias e de temperamento a conduzir mercenários. Conselheiro, tal como o Homem de Nazaré, só dispunha de palavras e de esperanças. Ainda assim a mentira, contada mil vezes, colou.

Concluída a leitura!

Trabalho de fôlego esse o do Moita. Um exemplo para a nossa geração, que consideramos esclarecida. A História, tal qual ela nos foi passada, é a versão das classes dominantes deste país, e isso nós — que dispomos de empatia e não esquecemos das nossas origens — precisamos mudar, a fim de conduzir aos nossos netos esse outro olhar.

L.s.N.S.J.C.!

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O TIRO no pé de Carlos Lacerda!

… Continuação da narrativa postada em 21jul2020.

Menina, quer namorar comigo? Sou soldado da Base Aérea, acostumado a matar. Anedota contada pelo sr. Manoel Valentim, falecido pai deste blogueiro, exímio contador de causos, reproduzindo a fala de um folclórico sujeito bastante conhecido na localidade, um pávulo contador de vantagens.

NOVAMENTE sobre o pé esquerdo de Lacerda. Primeiro, a questão da arma não periciada; depois, o questionamento (estranhamento) médico sobre o gesso no pé ferido, que, segundo Lutero, médico ortopedista, não seria o tratamento médico indicado; e ainda uma crise de consciência; sem contarmos as diferentes versões divulgadas pelo próprio jornalista. Que mais falta?

O insuspeito livro de Claudio Lacerda Paiva nos trás o seguinte:

O que o médico [George Sumner Filho] estranha é que “dias depois, ainda no governo de Getúlio, isto é, antes do dia 24 de agosto, não sei precisar quando, misteriosamente desapareceu toda a documentação do caso: boletim de socorro, registro no livro de ocorrência e as radiografias (duas), uma anterior-posterior e outra lateral.”1

Ora essa! Já vimos que Vargas em nada obstaculizou o curso das investigações, o que bem poderia ter feito em razão de seu elevado cargo. O pé esquerdo enfaixado (engessado) de Lacerda já vem fartamente exibido em todos os principais jornais e revistas brasileiros, de forma que isso — o pé ferido à bala — já entrou para a História como verdade absoluta e incontestável. A quem interessaria, portanto, sumir com a documentação médica correspondente, comprobatória do atentado? Isso em nada teria ajudado a família Vargas, já que o crime, um homicídio, bastante explorado pela imprensa e objeto de violento inquérito e impactantes ações por parte da Aeronáutica, em nada pode ser escondido ou atenuado. Inês já é morta. Está massivamente incutido, internalizado na mente e no coração da maioria dos brasileiros dessa época, leitores de jornais e ouvintes de rádio, as impressionantes imagens do caixão de Vaz abraçado por sua jovem viúva, que continuará a vida cuidando de quatro crianças órfãs; não bastando, as fotos de Carlos Lacerda, numa ele amparado por dois soldados afrodescendentes da Polícia da Aeronáutica e noutras ao lado de oficiais de alta patente das forças armadas e de figurões da política nacional. Quartéis e parlamento a darem sustentação e prestarem solidariedade ao grande brasileiro Carlos Lacerda, um combativo jornalista incansável em denunciar a bandalheira. De que adiantaria agora à família de Vargas, ao agonizante governo de Vargas ou ao próprio Getúlio fazer desaparecer prontuários, registros e chapas de raio xis do pé esquerdo de Lacerda, que, segundo consta, teria sido ferido por Alcino, pistoleiro de Tenório Cavalcanti? O que é um peido pra quem já está cagado?

Carlos Lacerda, o causador de úlceras, teve a documentação sobre seu atendimento médico desaparecida. A quem interessaria? (imagem: Internet)

Ao contrário, não tendo declarado a verdade — quem sabe, meias verdades –, interessaria muito ao próprio Carlos Lacerda, aos oficiais da Aeronáutica da República do Galeão, à UDN, enfim, à classe dominante brasileira, o extravio dessa documentação que, afinal, poderia dar outros rumos à investigação ou, principalmente, à completa desmoralização de Lacerda junto à opinião pública, e — pior — em relação à família de Rubens Florentino Vaz e de seus amigos da Aeronáutica, incluindo o impoluto brigadeiro Eduardo Gomes. Documentos inconvenientes, que deporiam contra a versão largamente difundida: Carlos Lacerda sofreu um atentado, um crime político, e Vaz, um amigo que lhe acompanhava, (na verdade, por dever do ofício a que se obrigou, ele e mais nove colegas de quartel) toma a frente do jornalista, luta bravamente contra o pistoleiro e nisso acaba levando dois tiros. Carlos Lacerda corre para pegar em seu automóvel o revólver calibre 38 cano curto e dá vários tiros, e só aí percebe que levou um tiro (de uma arma calibre 45, um baita revólver que “reluzia na escuridão”) no pé, enquanto o amigo Vaz está caído no chão já agonizante. Essa versão poderia ter caído por terra ou até mesmo confirmada não fosse por um detalhe: a documentação médica sobre o atendimento ao jornalista desapareceu como que por encanto. Quem pôs o cágado trepado na árvore? E quem tirou?

Gregório Fortunato, também conhecido como “Anjo Negro”, foi morto em 1962 no Dia do Aviador (imagem: Copacabana em Foco, via Internet)

A fase do inquérito está a todo o vapor, com os jornais repercutindo diariamente e as rádios a cada hora. Coronel Adil, com largos poderes e seus auxiliares, oficiais aviadores colegas de Vaz, agora reforçados por outros voluntários como o explosivo Burnier, todos eles sedentos de vingança, caem em campo para apanhar o assassino e o mandante. De início, correm em várias direções até que o taxista Raimundo reconhece Climério, ex-membro da guarda pessoal e compadre de Gregório. Bingo! Já preso Alcino, falta localizar Climério, ex-integrante da guarda pessoal de Vargas. Ele é o elo que levará a FAB a Gregório. Comandada pelo coronel-aviador Délio Jardim de Matos a mais numerosa força policial da FAB, até então, é destacada para a missão.

Duzentos e cinquenta militares da FAB, entre oficiais e praças, armados de metralhadoras, granadas e fuzis, utilizaram 10 aviões, 2 helicópteros, 26 automóveis, cães de caça para encurralar Climério. […] O clima de terror que desceu sobre a cidade foi tão grande que algumas pessoas, que não tinham nada a ver com a cena, pelo simples fato de avistar um soldado da Aeronáutica se urinavam — registra, com alguma tinta de exagero, o jornalista gaúcho Rubens Vidal Araujo.2

É daí que surge o folclórico rapaz da anedota do sr. Manoel, que, nessa época, tirou a ideia — largamente difundida entre as classes populares — de que soldados da Base Aérea (FAB) são valentes e matadores, tentando com a conversa impressionar a moça.

Mais tarde, preso no Galeão, Gregório resistiria ao máximo as torturas que lhe foram aplicadas. Lá estavam entre os inquisidores o terrível Cecil Macedo Borer, o mesmo que levou à completa alienação mental o comunista alemão  Arthur Ernst Ewert, um dos artífices do movimento de 1935. Quando as evidências já não deixam dúvida e sob a ameaça de ser jogado de um avião sobre a baía de Guanabara, confessa enfim ter sido o mandante do crime, declarando, porém, ao coronel Adil que fora induzido pelo general Mendes de Moraes e pelo industrial e deputado Euvaldo Lodi. “Sujeito asqueroso esse Lacerda, bem que merecia uma surra!”. Isso não interessa, porém, aos inquisidores. A única porta agora a ser forçada é a que daria acesso direto à família Vargas.

Esse assunto rende.

Uma das versões que circularam na época especula que o atentado teria sido levado a cabo por membros da guarda palaciana onde estariam infiltrados mercenários. De concreto, sabe-se que Alcino era jagunço de Tenório Cavalcanti, da UDN. Mito ou verdade, um dos frequentadores do Catete era Armando da Fonseca, político que transitou pelo PSD, pelo PTB e, por último, depois da morte de Vargas, pela UDN de Carlos Lacerda, de quem mais tarde seria assessor quando o político e jornalista tornou-se governador da Guanabara, uma de suas ambições.

E vocês, amigos leitores, que pensam disso tudo?

Como diz o maranhense Zeca Baleiro, a mentira é uma princesa cuja beleza não gasta e a verdade vive presa no espelho da madrasta. Sendo assim, diversas são as hipóteses, delas uma só verdadeira. Vamos lá:

  1. Alcino, a mando de Gregório, aproxima-se de Lacerda com a intenção de eliminá-lo, não conseguindo porque Vaz o impede ao lutar contra ele. Diante disso, o pistoleiro puxa o Smith & Wesson 45 e lhe dá dois tiros fatais. Lacerda, enquanto isso, corre ao seu automóvel e pega o 38 e, sem óculos, dá vários tiros a esmo;
  2. Também a mando de Gregório, Alcino, em face da iluminação fraca, aproxima-se para anotar a placa do carro a fim de, depois, produzir um relatório, mas é notado por Vaz, que, desarmado, trava luta corporal contra o elemento suspeito. Idêntico desfecho da teoria anterior;
  3. O mesmo modus-operandi acima, mas a mando de Tenório Cavalcanti ou alguém a ele ligado. Alcino já tem feito igual noutras noites, mas é agora que a oportunidade se apresenta. Um oficial desarmado não poderá liquidar o pistoleiro e isso — ele vivo — é fundamental para que as investigações cheguem ao Catete, provocando a crise;
  4. Enquanto estão lutando, um terceiro (ou mais) pistoleiro age, aproveitando o momento e atinge o major, matando-o. Fere também Lacerda, caracterizando o atentado político ao mesmo tempo que crime militar. No caso, Lacerda, no calor do combate, não percebe de imediato o ferimento de arma de grosso calibre;
  5. Alcino, que mais disse ter confessado sob tortura, nega que tenha atirado no oponente. Mas que escutou o barulho de dois tiros enquanto tentava desvencilhar-se do major, para em seguida fugir correndo até a esquina onde o táxi de Raimundo, motor funcionando, estava à sua espera;
  6. Ainda. Lacerda, ao ver o amigo agonizante no chão, num raciocínio frio e rápido, dá um tiro no próprio pé.
  7. Diante disso tudo, o major agonizante, levado num carro com a cabeça repousando no colo de Lacerda até o hospital Miguel Couto, onde já chega morto, o jornalista vai em caminho raciocinando sobre o que fazer. Chegando lá, consegue convencer os médicos e equipe sobre a solução: enfaixar o pé e manter a farsa da “vítima sobrevivente”.
  8. Outra: Alcino, pistoleiro frio, sob ordem de Tenório Cavalcanti, tem a intenção de matar o major, dando-lhe dois tiros fatais, e ainda, para completar o serviço, apenas fere Lacerda, poupando sua vida. No inquérito, sob tortura, confessará o que indicarem seus interrogadores.

No caso da primeira teoria, é estranho que Alcino, sendo pistoleiro profissional, tenha se aproximado da vítima a ponto de ser por ela interpelado. Bastava à distância segura apontar a arma e atirar. Ou, como os três se demorassem conversando em frente ao prédio, aguardassem outra oportunidade. Na segunda hipótese, uma ação temerária e pouco inteligente da parte de Alcino, assim como temerária da parte de Vaz, que acabaria morto. Terceira: a oportunidade é essa. Aí está, entre os dez guarda-costas, um de pouca capacidade de ação, um oficial discreto e tranquilo, exemplar chefe de família e pai de quatro crianças, que, de tão discreto, se queda à meia-noite a conversar na rua com o amigo jornalista, esquecido do perigo que corre e da missão a que se voluntariou; Vaz entra de última hora em lugar de um outro a quem a Seção de Operações escalou, só agora, para um voo no dia seguinte. Quarta: fantástica teoria da conspiração, porém verossímil. A intenção é fazer um cadáver e a presença do major como guarda-costas (fato que já nos bastidores é amplamente conhecido) vem a convir, pois aí provoca a ação direta dos militares; de lambuja, acertam Lacerda, porém poupando-lhe a vida. Quinta teoria: igualmente às teorias anteriores, quanto à tortura creio que ele dificilmente confessaria o crime a não ser sob os métodos de Cecil Borer. Sexto: nesse caso, as chapas de raio xis seriam um óbice. Sétima hipótese: consideremos o tempo decorrido até o hospital, talvez vinte minutos, perdendo sangue e ainda com o peso da cabeça de Vaz sobre suas pernas. Difícil avaliar. Oitava e última: também teoria da conspiração, porém não descartável.

Ainda sobre o ferimento no pé, há uma outra hipótese. Gente ligada à família Vargas, tentando provar a farsa, apreende os documentos e acabam dando com os burros n’água. Nesse caso, estranha-se que nenhum outro autor tenha explorado o assunto, tampouco a fulminante equipe do Galeão tenha botado a boca no trombone.

Enfim, a verdade é tímida e recatada; já a mentira é expansiva e vaidosa. A verdade foi para o túmulo junto ao cadáver de Carlos Lacerda, de Eduardo Gomes, Gregório, Alcino, Mendes de Moraes, Getúlio Vargas, Benjamim Vargas, João Adil de Oliveira, enfim, de todos eles. De verdade, um cadáver e quatro homens condenados, o resto são mentiras e meias verdades que, maquiadas, teimam em circular até hoje pelas ruas.

Segundo o jornalista Rubens Vidal Araujo, uma de nossas fontes, Vargas cometeu em seu segundo governo os seguintes erros:

Aliou-se, sem necessidade a um oportunista, Ademar de Barros, já o conhecendo bem, tornando sua carga mais pesada em vez de aliviá-la; afastou-se de Perón, um aliado poderoso; elegeu um governador do Rio Grande, um estado-chave, um homem displicente, que não o socorreu quando devia; e teimou em governar com os inimigos.3

Nesse último erro, nós incluímos a nomeação de seu ministro da Aeronáutica, aquele que de nada sabia e que, exercendo um cargo político, não fazia política. Já seus colegas de ministérios militares faziam, e o verdadeiro comandante da FAB, o brigadeiro Eduardo Gomes, também fazia política dia e noite, nos sete dias da semana, 365 dias por ano. Mesmo erro não cometeria Juscelino, conseguindo encerrar seu mandato de cinco anos.

Gregório foi condenado a 25 anos de reclusão. Doze deles pelo atentado a Lacerda, causador de úlceras nervosas, mais até que os onze anos de cadeia pela morte de Vaz. Na prisão, oito anos decorridos, Gregório Fortunato prometia escrever um livro contando toda a sua verdade. Esse foi mais um erro, o derradeiro do tenente Gregório. Dias antes de ser libertado, foi morto por um detento. Foi precisamente no dia 23 de outubro de 1962, Dia do Aviador.

*** FIM ***

Legendas:

  1. Claudio Lacerda, 1994, p. 132;
  2. Rubens Vidal Araujo, 1985, p. 305;
  3. Rubens Vidal Araujo, 1985, p. 314.

Livros consultados:

  1. ARAUJO, Rubens Vidal. Os Vargas. Rio de Janeiro: Globo, 1985.
  2. BRANDI, Paulo. Vargas: da vida para a história. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1985.
  3. LACERDA, Claudio. Uma crise de agosto: o atentado da rua Toneleros. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1994.
  4. CONY, Carlos Heitor. Quem matou Vargas: 1954, uma tragédia brasileira. São Paulo: Planeta do Brasil, 1994.
  5. MOURA, Nero. Um vôo na história. Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas, 1996.
  6. ALMEIDA, Hamilton. Sob os olhos de Perón: o Brasil de Vargas e as relações com a Argentina. Rio de Janeiro: Record, 2005.
  7. LIRA, Neto. Getúlio: 1945 – 1954 Da volta pela consagração popular ao suicídio. São Paulo: Companhia das Letras, 2014.

Outras fontes consultadas:

  1. https://pt.wikipedia.org/wiki/Carlos_Lacerda
  2. https://pt.wikipedia.org/wiki/Central_Intelligence_Agency
  3. https://pt.wikipedia.org/wiki/Ten%C3%B3rio_Cavalcanti
  4. https://pt.wikipedia.org/wiki/Greg%C3%B3rio_Fortunato
  5. https://pt.wikipedia.org/wiki/Franklin_D._Roosevelt
  6. https://pt.wikipedia.org/wiki/Lourival_Fontes
  7. https://pt.wikipedia.org/wiki/Filinto_M%C3%BCller
  8. https://pt.wikipedia.org/wiki/Get%C3%BAlio_Vargas
  9. https://pt.wikipedia.org/wiki/Eduardo_Gomes
  10. https://pt.wikipedia.org/wiki/Eurico_Gaspar_Dutra
  11. https://pt.wikipedia.org/wiki/Nero_Moura
  12. https://pt.wikipedia.org/wiki/Companhia_Sider%C3%BArgica_Nacional
  13. https://flaviochaves.com.br/2018/08/12/assim-se-mata-um-presidente-no-exemplo-marcante-de-getulio-vargas/
  14. https://pt.wikipedia.org/wiki/Lu%C3%ADs_Fernandes_Vergara
  15. https://www1.folha.uol.com.br/fsp/brasil/fc1504200113.htm
  16. https://pt.wikipedia.org/wiki/%C3%82ngelo_Mendes_de_Moraes
  17. https://pt.wikipedia.org/wiki/Jacobo_Arbenz_Guzm%C3%A1n
  18. https://www.geni.com/people/Lutero-Vargas/6000000014566629035

L.s.N.S.J.C.!