TRÊS homens em conflito!

” No inóspito oeste americano, a paisagem árida e pouco receptiva serve de alegoria para o que se passa na mente dos protagonistas. O ser humano colocado contra o meio ambiente na verdade reflete o ser humano contra ele mesmo. Os longos silêncios, pontuados pela bela trilha sonora de Ennio Morricone, demonstram que suas ações pouco necessitam de palavras.” Isabel Wittmann

Cartaz do filme, em inglês (fonte: Google)

DURANTE muito tempo o gênero Western, também conhecido por Faroeste ou Bang-bang, dominou a sétima arte. Um filme de Western era garantia de cinema lotado, milhões em bilheteria por conseguinte. Contavam a história, em geral fantasiada, da chamada conquista do oeste, em que o homem civilizado do leste dos Estados Unidos segue à procura de ouro, levando assim a civilização a um oeste selvagem, repleto de índios perigosos e de mexicanos ignorantes e inferiores. Por meio do rifle e do revólver, cruzam desertos em diligências, fundam cidades empoeiradas com seus saloons de madeira, cadeia, cavalos, xerifes e bandidos, enredos previsíveis que fascinavam e divertiam multidões mundo a fora.

Cena final, no cemitério (fonte: Google)

O Faroeste tornou milionários e mundialmente famosos atores como John Wayne, Gary Cooper, Gregory Peck, Cary Grant, Burt Lancaster, Yul Brynner e tantos outros caubóis, mocinhos e artistas, que encarnavam nas telas homens altos, fortes, indômitos, rápidos no gatilho, justiceiros, paladinos da justiça e da ordem, vingadores, todos sempre bem barbeados e bonitões, conquistando com isso milhões de fãs. Ao mesmo tempo, fizeram época histórias de aventureiros reais como Buffalo Bill, Jane Calamidade, Wild Bill Hickok, Billy The Kid, entre outros vultos, que, retratados nas telas, ganham ares de heróis românticos.

Clint Eastwood (fonte: Internet)

Público garantido.

Tudo, porém, tem seu final. Na década de 1960, o gênero Western já se encontrava na descendente; o filão milionário se exauria deixando preocupados os grandes de Hollywood. Para alguns anos de sobrevida, era necessário que o gênero passasse por novas configurações. É nesse quadro de declínio que surge em cena o diretor italiano Sergio Leone, um entusiasta da história do velho Oeste.

É também por uma dessas ironias que o destino costuma pregar que surge fora do País Sem Nome uma espécie de imitação do romântico e fantasioso Western original, que passou a ser conhecida pejorativamente por Western Spaghetti. É exatamente com Sergio Leone que esse subgênero vem a superar o gênero original.

Leone, pragmático ao explorar a temática genuinamente norte-americana, com a chamada Trilogia dos Dólares, deixou a todos embasbacados principalmente com o terceiro filme da série, de longe o melhor deles: Três Homens em Conflito, título pouco inspirado em português para “O Bom, o Mau e o Feio”.

O italiano procura assim desconstruir a aura romântica dos velhos filmes americanos de Western mostrando uma época o mais aproximadamente possível do que de fato tenha sido — portanto mais violenta –, em que apresenta pistoleiros sujos e mal barbeados, homens brutos, ignorantes e ambiciosos e mulheres, em geral prostitutas, sem de longe lembrar o glamour, a fantasia e os clichês romantizados que até então as produções norte-americanos apresentavam.

Eli Wallach, o Feio (fonte: Google)

Em Três Homens em Conflito, história que tem como cenário a Guerra de Secessão, temos três protagonistas: Clint Eastwood, o Bom (que de bom não tem muita coisa), inteligente, o Pistoleiro Sem Nome, a que Tuco chama de Lourinho, Lee Van Cleef, o Mau, e Eli Wallach, o Feio, um bandido debochado, mas ainda assim um bandido cruel. Portanto, três personagens à margem da lei, todos exímios pistoleiros, mas cada um com seu estilo, destaque para o Feio, Tuco Benedito Pacífico Juan Maria Ramírez, um mexicano acusado de muitos crimes, procurado pela justiça de vários estados, por cuja cabeça há gorda recompensa. O Bom, também bandido, recebe esse nome por ser menos sanguinário que os demais, dentro de uma ética relativa. O Mau é o vilão no sentido real do termo, sem ética nem compaixão, cruel ao extremo. Do Bom — que não tem nome — e do Mau, nada se sabe sobre eles. Só sobre o passado de Tuco, o Feio, sabe-se que tem um irmão padre e que se tornou bandido em razão das circunstâncias sociais em que sua família vivia; nas condições em que foi criado só havia duas opções de vida: ser padre ou bandido.

Lee Van Cleef, o Mau (fonte: Google)

Paralelamente à história dos três, que entram em conflito pela busca de duzentos mil dólares enterrados num cemitério, cujo nome é conhecido por um, mas num túmulo, que é só conhecido pelo outro, há uma guerra como cenário: a Guerra Civil Americana.

Aí o grande diferencial.

Leone mostra no filme a estupidez de uma guerra em que há desperdício de homens, gente mutilada, campos de prisioneiros torturados, terríveis condições de pobreza em que vivem os soldados, miséria do povo em geral, destruição… Comenta o Pistoleiro Sem Nome:

“Nunca vi tantos homens serem desperdiçados desse jeito”

Nesse quadro de horror há pessoas capazes de se aproveitar do sofrimento humano para prosperar materialmente. O homem explorando o homem. Isso magistralmente denuncia Sergio Leone em sua obra.

Cena de Três Homens em Conflito (fonte: Google)

Completa o filme o magistral tema sonoro, uma obra-prima de Enio Morricone, composição que transcende o próprio filme, vez que muitos a conhecem mesmo sem jamais terem visto a película para a qual foi composta. Passado já mais de meio século, passarão milênios e não haverá outra igual.

Três Homens em Conflito, o melhor filme de Western.

L.s.N.S.J.C.!

A MÁQUINA de escrever!

Durval Aires Filho, via Facebook

ANTES, tudo era marcado pela letra do homem até ganharmos um grande suporte técnico: a máquina de escrever. Hoje, descrevo a minha antiga Remington como uma espécie de “máquina do tempo”. A rigor, mudamos de teclas, passando de uma fantástica e curiosa forma mecânica de escrever e editar textos, em folhas individuais de papel, um a um, a partir do impulso de nossos dedos, para as teclas do computador, também utilizando os mesmos dedos, mas de forma muito mais leve, com impulsos eletrônicos, não fosse ainda a edição optativa, porque o texto produzido pode ser impresso, inclusive, em diversas cores, ou não, caso queira enviar para outras pessoas que estejam em rede digital.

Fonte: Internet

Posso historiar que a máquina de escrever era um dispositivo mecânico (profissional ou doméstico) inventado por Henry Mill (era o nome do curso em que fui diplomado) e aperfeiçoado por Pellegrino Turri. E, aí, coube a Remington, uma empresa que até então se dedicava a produção de armas, a investir maciçamente na produção de máquinas de escrever, em 1874, já com uma configuração bem próxima do modelo que se tornou popularmente conhecido em todo o mundo, juntando-se depois a outros diferentes concorrentes, outras marcas, que cheguei a possuir, como a italiana Olivetti, a Facit (de origem sueca, mas produzida em Minas Gerais), a Royal e, mais recentemente, a IBM, com maquinas elétricas mais sofisticadas, inclusive, com memória, já bem próxima aos computadores, quando encontraram a severa e melancólica decadência nos fins dos anos 80.

Texto publicado

O fato é que as máquinas de escrever passaram a ser adotadas em todos os setores da vida prática e social, seja pública ou privada, com certeza um artefato mecânico de obrigatório uso em repartições, instituições comerciais, redações de jornais, cartórios, bancos, enfim em todo mercado corporativo que, por sua vez, legitimara seus documentos que poderiam ser por elas registrados e historiados em todas as transações, detalhes e demais aspectos da vida burocrática de uma empresa ou instituição.

Na minha época, ao concluir o ginasial, com ingresso no científico (equivalente ao ensino médio de hoje) o aluno teria convenientemente que possuir um diploma de datilografo, não só como pré-requisito para qualquer emprego administrativo, caso desejasse ingresso no mercado de trabalho, portanto, uma referencia que enriquecia muito o currículo vitae de qualquer rapazinho. Na verdade era uma imposição do mercado que tinha a necessidade de contratação de excelentes datilógrafos, capazes de operar os novos modelos com velocidade, precisão e eficiência.

Fonte: Internet

Possuir um diploma de datilógrafo significava para rapazes e moças mais que ascensão, ou amadurecimento. Interessante é que, por essa habilidade em escrever em máquinas, as mulheres começaram a ganhar espaços em escritórios do mundo inteiro, assumindo funções administrativas, o que constituiu, sem dúvida, para os primeiros passos de emancipação, rumo a futura conquista da igualdade de gênero.

Belo texto de Durval Aires sobre esse objeto de museu, que tanto nos encantava naquele tempo em que a máquina de escrever reinava absoluta nos escritórios dos hotéis, das escolas, dos hospitais, das empresas… de todos os lugares, onde se precisava fazer um ofício, enviar uma carta, redigir um memorando, um bilhete…

Sou dessa época. E vejo tudo como se tivesse ocorrido ontem.

Iniciei-me na datilografia por força. Estava na Escola e me deram a especialidade de Escreventes. A Força Aérea Brasileira é, por sua natureza técnica, bastante fragmentada. No nível técnico, a Escola de Especialistas de Aeronáutica forma sargentos de tantas e tantas especialidades, variando de época para época conforme. No meu tempo havia MR (Manutenção de Radares, ou seja, Eletrônica), que era o terror, também CV (Controlador de Voo, atual CTA), Armamento, Mecânica de aviação, e assim por diante. Você fazia um ano de ensino básico, equivalente à primeira e à segunda série, para só nos dois últimos semestres estudar a especialidade que você ia exercer como sargento nas unidades.

Então, como já disse, me deram Escreventes, sendo aí apresentado à temível máquina de escrever. Comecei catando milho, como se dizia sobre os catilógrafos que batiam numa tecla aqui e outra acolá, vacilantes. Vieram os testes valendo nota e, enquanto batia as teclas, do rosto caíam gotas de suor ao ouvir lá na parede o relojão, como um monstro prestes a nos devorar com o seu tic-tac assustador. Nem a Matemática do básico me deu tanto medo. Quase fui reprovado. Com o tempo, fui melhorando até chegar ao nível de hoje, quando digito — e não mais bato à máquina — sem olhar para o teclado e, se precisar, nem para a tela. Era assim, para você ser um bom datilógrafo, tinha que olhar só para o texto que você estava copiando, nada de olhar para o teclado nem para o papel. Rapidinho mesmo.

Viva a máquina de escrever, essa desconhecida da geração de hoje. Nunca saberão o que é errar lá na última linha e ter de refazer o texto tudo de novo; também não saberão o que é bater toda uma página ou mais e, levando o texto ao chefe ou encarregado, e este corrigir, mudando uma frase, duas ou mesmo uma só palavra que fosse. Em compensação, não era qualquer um que exercia o ofício. Acabaram com as máquinas de escrever e hoje é a vez do tal computador, que todo e qualquer um pode ter.

Ah, essa geração do computador nunca saberá de verdade o que foi a máquina de escrever.

IMPRESSÕES de um viajante brasileiro!

Caldas Novas

NASCIDA em Limeira, São Paulo, a deputada federal Magda Mofatto (PR-GO) – a mais rica da Câmara, com patrimônio de R$ 21 milhões – administra hoje negócios milionários em Caldas Novas, cidade conhecida pelas águas termais e por parques aquáticos e por ser um dos destinos turísticos mais procurados do Centro-Oeste. Na cidade goiana, ela é dona de um império imobiliário, que inclui a administração de 11 condomínios, parques temáticos, dois hotéis e uma construtora própria para erguer edifícios na cidade. Foi vereadora do município por três vezes e prefeita cassada, em 2007, por compra de votos. (Revista época, acesso em 02fev2019)

DEIXAMOS para trás Brasília, fazendo o caminho de volta por Goiânia até a última parte da excursão turística. Ficaríamos em Caldas Novas por mais três dias, 21, 22 e 25 de janeiro. Enquanto o ônibus vencia indiferente aqueles trezentos quilômetros de asfalto que separam a cidade de JK do município das águas quentes, me pus a pensar no que havia ouvido, visto e observado na Capital Federal durante aquele dia .

Contrariando o plano original das autoridades, que previa o retorno dos candangos da Brasília pioneira à sua localidade de origem (o Nordeste, em sua maioria absoluta) após o término das obras, os candangos, atendendo ao clamor imperioso do instinto de sobrevivência, decidem lá permanecer; sentem-se no direito natural, ainda que não houvesse estrutura no projeto original da cidade que os comportassem ali. Não há problema, dariam um jeito. Já existia um aglomerado urbano a que chamavam de Cidade Livre.

Ainda hoje vários deles habitam o mundo dos vivos, lá com os seus oitenta, noventa e tantos anos. Esses candangos, acostumados à rudeza da vida, logo se aclimatam ao Cerrado. São sobreviventes, que, embora impedidos de morar e até mesmo de visitar os prédios que, sob muito suor e algum sangue, construíram por três anos, lhes impõe a vida que por lá permaneçam, apesar da falta de estrutura para eles. Miséria por miséria, no novo Distrito Federal algum futuro ainda é possível vislumbrar. De mais a mais, a elite pioneira também precisaria deles e isso até o mais rude servente de obras consegue enxergar.

Depois daquele 21 de abril de festas, quando cessa o frenético movimento da construção civil, dos candangos construtores durante aqueles três anos e dez meses apenas poucos deles permanecem no mesmo ofício de construir, fazer massa com cimento, areia e água, armar vergalhões, conduzir carrinhos-de-mão cheios de material, bater pregos e serrar madeiras, num trabalhar duro sob supervisão de mestres-de-obras mal humorados e carrancudos. Estes, por sua vez, sob ordens e orientações dos senhores engenheiros, que manipulam projetos em papeis empoeirados. Restou uma massa ociosa, então é de se esperar que essa massa desocupada pegue o primeiro pau-de-arara de regresso ao sertão nordestino. A presença de tanta gente (65 mil candangos, segundo estatísticas não oficiais) não se faz é mais necessária.

Mas não.

Grande parte dos que perseveram na permanência, ficando pés de vez ali no cerradão brabo, ocupam-se em buscar outras formas de sobrevivência no Planalto. Obstinados, arranjam ocupação nas mais diversas funções: zeladores de prédio, jardineiros, na limpeza de ruas, cuidadores de piscinas, barbeiros, garçons; alguns, que aprenderam dirigir veículos sob o calor do combate, no caldeirão das obras que se desenvolviam ininterruptamente, utilizam-se dessa qualificação para empregarem-se como motoristas de ônibus e de caminhão. Simultaneamente, a nova capital vai atraindo uma gama de empresários, além de outros candidatos a ganhar muito dinheiro. Isso vai gerando necessidades, daí vagas abertas para grande número de braçais e de outras gentes igualmente não qualificadas. O pouco para aqueles candangos é muito, comparado à miséria que viviam anteriormente, sem perspectiva alguma. De nada importava para eles que não houvesse o amparo dos órgãos oficiais do governo; do Ministério do Trabalho só sabem aqueles que trabalharam na Esplanada. Carteira de trabalho assinada não é regra geral, privilégio de poucos. Muitas mulheres, por sua vez, buscando a melhoria do apertado orçamento doméstico, tantas delas passam a procurar emprego oferecendo-se como lavadeiras, passadeiras, arrumadeiras e cozinheiras para as famílias dos apartamentos das Asa Sul e da Asa Norte, ou ainda nas mansões dos lagos Sul e Norte. Talvez empregar-se como faxineiras nalguma firma terceirizadora. Os filhos seguirão, por conseguinte, o rumo dos pais, dando-se por felizes se ocuparem os mesmos subempregos e quase nenhuma migração social. Com boa sorte e muito esforço, quem sabe, tirariam a sorte grande como funcionários de carreira do Banco do Brasil ou da Caixa, ou quem sabe de alguma repartição pública, sob, é claro, a indicação de algum padrinho forte, garantindo assim os estudos formais da geração posterior. Alguns, mais sortudos, conseguem se especializar e se qualificam como choferes ou mecânicos de automóveis, eletricistas, encanadores, pintores. Já não são meros braçais. Talvez até a carreira militar como soldados das forças armadas ou mesmo como policiais militares.

Os cargos de chefia, como instintivamente sabem, estavam fora do alcance da totalidade deles. Tais postos superiores reservam-se aos filhos daqueles mesmos engenheiros e arquitetos — seus chefes da Brasília pioneira –, aos advogados, médicos, funcionários graduados que vieram do Rio e de outros Estados. Da mesma forma aos filhos e netos dos senhores senadores, deputados, ministros, juízes, procuradores, gente fina, a elite a quem de fato é destinada a cidade em sua parte planejada.

Resta aos sobreviventes seguirem sua vida na antiga Cidade Livre, um agrupamento urbano que mais tarde passou a ser chamada de Núcleo Bandeirante; também em Taguatinga, Guará, Ceilândia, Candangolândia, Sobradinho, cidades que são levantadas de qualquer jeito, sem água encanada, sem luz, à medida que mais levas de brasileiros, nortistas, nordestinos, goianos e mineiros, vão chegando ao DF à procura de uma vida melhor. Acordar cedo, pegar o ônibus, chegar ao Plano Piloto, trabalhar, trabalhar, só voltando à noitinha, cansados aos seus, para o merecido descanso em seu barraco improvisado.

O sol nasce para todos, a sombra para poucos. É a lei da sobrevivência. Assim caminha a humanidade.

A não ser por meio de fotografias em preto e branco e pelos relatos orais dos pioneiros, a geração de hoje jamais saberá da saga desses guerreiros que foram seus avós e bisavós.

Pois bem.

Nesse mesmo 21 de janeiro, sob noite estrelada, chegamos a Caldas Novas, a terra onde, em 1722, Anhanguera (filho) descobriu um rio de águas quentes. Que diabos seria isso? Talvez um vulcão que a qualquer hora poderia entrar em erupção? Essa, segundo a crença popular, foi a ideia concebida durante mais de dois séculos pelos habitantes locais. Por isso, durante muito tempo as pessoas de posse relutavam em visitar a região, a não ser alguns que, temerariamente, iam em busca de alívio e cura para suas moléstias. Diziam as boas línguas que aquela água quente levantava até defunto.

Hospedados no aconchegante hotel Morada das Águas, no dia seguinte, travamos conhecimento da cidade. O programa previa a estada no parque aquático Di Roma, nome de fantasia DiRoma Acqua Park. Nesse dia todos nós, jovens, velhos e crianças, divertimo-nos à beça. Ao final da tarde, lá pelas seis e meia, havíamos contratado o bondinho, aquela espécie de ônibus que imita o antigo bonde ou um vagão de trem. O preço: dez reais por cabeça.

Foto 13 – O blogueiro em raro momento de lazer.

Uma vez no parque, chego à conclusão de que é preciso ter dinheiro vivo na carteira. Fora dele posso me valer do uso de cartões de débito, uma precaução para não ser roubado ou mesmo a possibilidade de extravio. No consumo interno (restaurante, lanches e outras compras) as regras do empreendimento não permitem devolução em caso do não consumo integral, só havendo esse direito ao se usar dinheiro vivo. No uso de cartão, não se consumindo todo o crédito, a casa não devolve a diferença. Fazer o quê? Assim que saímos, lá pelas cinco e meia da tarde, pego um táxi rumo à agência local do Banco do Brasil. É aí que tomo conhecimento de que metade da cidade (exagero de expressão talvez) pertence a um tal grupo Di Roma, do mesmo parque aquático que frequentamos no dia. Provavelmente um grupo italiano, penso cá comigo.

Agora, consultando o Google, vejo que o grupo compõe-se de oito hotéis, onze condomínios, centros de convenções, um tal Jardim Japonês, uma construtora, parques aquáticos termais (incluindo a tal DiRoma Acqua Park), além de outros empreendimentos. Fico impressionado com o número de prédios de apartamento, dando a impressão de que estávamos numa cidade de seiscentos mil habitantes ou próximo disso. Caldas Novas, porém, mal chega às suas noventa mil almas, de acordo com último censo.

Foto 14 – Caldas Novas (fonte: Wikipédia)

 

Pergunto ao taxista e ele me diz que noventa por cento dos calda-novenses vivem em função do turismo. Quase a totalidade, talvez excluindo os habitantes da zona rural, tem como sobrevivência as águas quentes que o Senhor Deus criou e nos deu de graça, as mesmas que, apropriadas pelo homem, são fonte de lucro para poucos deles.

Lucro para uns, sobrevivência de muitos.

Dia seguinte e visitamos a famosa Termas do Rio Quente, hoje rebatizada pomposamente de Hot Park. Por razões comerciais (creio), a antiga Pousada do Rio Quente é agora Rio Quente Resorts. Deve ser para atrair o turista estrangeiro, daí esses nomes britânicos, mas principalmente — e digo isso com tristeza — por imposição cultural.

Terceiro dia, 24 de janeiro. Última estação do passeio em Caldas Novas. Fomos visitar e usufruir do parque do grupo Lagoa Parques e Hotéis. Ao menos um nome em bom português. Aconchegante, o defeito é que suas águas não são tão quentes.

No entanto, esta postagem seria pobre se eu aqui não me ocupasse em falar sobre uma interessante personagem de Caldas Novas, já citada por mim: Magda Moffato, lá no início da postagem.

Quem nos deu indicação da existência existência dessa personagem foi exatamente o guia condutor do tal bondinho do primeiro dia. O sol ainda raiava quando embarcamos no veículo para um passeio em Caldas Novas. O guia, cujo nome não guardei, é um homem simples, bem humorado, além de extrovertido, como geralmente são os guias. Ou ao menos tentam ser (Lembram da Raquel, de Brasília?). Igual aos outros, como atrativo, conta histórias do lugar e de personagens.

À medida que o bonde rodava por Caldas, o guia, ao mesmo tempo que conduzia o carro, pelo microfone nos indicava:

“Aqui é a rua Coronel Bento de Godoy, que foi o primeiro intendente da cidade. Naquele tempo as cidades tinham intendente e não prefeito… Ali é o centro da cidade, aquela é a igreja tal…”

E assim ia. A certa altura, já saindo da cidade, ele me passa por alguns prédios e espaços, todos de propriedade de uma tal Magda. Conta ele:

“Vocês provavelmente não sabem o que quer dizer a sigla Roma, desse “Di Roma”, que vocês veem nesses hotéis, parques etc. A dona de todos esses hotéis e prédios é a Magda, que, quando jovem morava em Limeira, São Paulo. A bonitona Magda Mofatto ficou viúva nova e resolveu recomeçar a vida aqui em Caldas. Empregando-se como camareira de hotel, logo caiu nas graças do dono, o Seu Rodolfo, um cara multi-milionário, que tinha empreendimentos em vários estados do Brasil e também em países estrangeiros. O cara era podre de rico. Era daqueles que tinha uma mulher, namorada, amante, em cada lugar onde possuía empreendimentos.”

Continua o guia.

“Por força dos negócios, Rodolfo vivia viajando. Toda vez deixava algum dinheiro para Magda. Ela, por sua vez, fazia multiplicar o dinheiro que o namorado lhe dava. Alguns, talvez com inveja, vão correndo contar as novidades ao milionário, tão logo ele chega de volta à cidade. ‘Seu Rodolfo, toda vez que o senhor viaja a Magda enche a casa de pessoas, fazendo uma espécie de pensionato’. Engana-se quem pensa que Rodolfo se aborrece com o fato. Ao contrário, vê aí na amante uma mulher empreendedora, dotada de tino comercial, como se dizia naquela época, lá pelos anos setenta.”

Foto 15 – A mega-empresária Magda Mufatto, num de seus empreendimentos em Caldas Novas. Também é política, tendo sido vereadora, prefeita e atualmente deputada federal, a mais rica parlamentar (oficialmente) do país.

Diz mais.

“Enquanto as outras gastavam todo o dinheiro que o milionário lhes dava, e ainda lhe traziam contas a pagar, Magda, ao contrário, obtinha lucros. Vendo isso, Rodolfo decide construir um hotel para a amante. É com esse empreendimento inicial que Magda Mofatto dá início à sua fortuna. E o ‘Roma’ nada tem a ver com a capital italiana e sim a redução fonética de Rodolfo (Ro) e Magda (ma)”.

Ao voltar da excursão, ponho-me a pesquisar sobre a tal Magda.

Um dia, Magda pensa em fazer carreira política. Como empresária bem-sucedida, tendo iniciado há décadas como uma simples camareira de hotel, já detêm o poder econômico, possuindo sob suas ordens centenas de funcionários. Não é o bastante e o alvo agora passa a ser o poder político. Precisa estar lá onde as decisões são tomadas. Inicialmente se propõe a iniciar como vereadora, fazendo-o por três mandatos, mais tarde candidata-se a prefeita de Caldas Novas, e agora como deputada federal. 

Ponho-me a pesquisar.

Magda Mofatto é detentora de uma fortuna declarada (declarada!) de 21 milhões de reais, considerada a deputada mais rica do país. Apaixonada por armas de fogo, é simpatizante de Jair Bolsonaro. Como prefeita de Caldas Novas, foi cassada sob a alegação de compra de votos. Ministério Público requereu bloqueio de um milhão de reais de Magda por dívida junto ao departamento municipal de águas e esgotos. Tem um “namorido” que responde por crime de tortura…

Uma indagação que se pode fazer é: Por que alguém já rica como ela se propõe a seguir a carreira política? Outra: Como encontra eleitores dispostos a elegê-la?

Foto 16 – Magda Mofatto e seus dois helicópteros. Costuma viajar a bordo de um deles a Brasília, utilizando a cota de combustíveis a que todo parlamentar federal tem direito. Conforto e rapidez a custas do contribuinte brasileiro.

Respondo.

Quanto à primeira pergunta. Ela, exatamente por ser muito rica, portanto bem informada, reconhece a importância dos cargos eletivos junto a seus negócios e interesses, daí ser interessante ter um mandato eletivo. Investimentos governamentais, subsídios fiscais, questões ambientais, toma-lá-dá-cá, foro privilegiado… E nada melhor que ela própria esteja lá, na toca do lobo, a fim de acompanhar in loco tudo isso. De mais a mais, há a badalação: seu nome e seu rosto se torna conhecido, fica famosa, está sempre na mídia. É a vaidade.

Segunda pergunta. Pessoas como ela são votadas e eleitas exatamente por serem ricas e bem-sucedidas. No caso de Mada, com a vantagem de ter vindo do nada, de pobre na juventude a rica na maturidade. É alguém que venceu na vida; chegou lá. Essas condições, a que muita gente persegue, fazem com que parcela das classes populares identifique em gente como Magda uma mulher vencedora, dessas que ascendeu ao topo da pirâmide social com seu próprio mérito, uma vitoriosa. Sim, é claro que é digna da admiração e do deslumbramento por parte da plebe ignara. É da natureza da nossa sociedade o pobre rejeitar os comuns, os que lutam, lutam e nada obtém. Mais: estes são vistos como concorrentes naturais, além de carregarem consigo a pecha de derrotados.

Diante dessa forma de pensar, nada mais justo que Magda seja premiada com o poder político, numa espécie de admiração a quem chega num ponto onde a grande maioria do povo simples não consegue atingir — a quem tem mais, mais será dado. Esse alguém, uma diferenciada, só pode ser digna de admiração e respeito, uma abençoada, uma pessoa a quem Deus ungiu. É assim que o povo pensa ao eleger pessoas como Magda para seus representantes, da mesma maneira como elege celebridades do esporte e da televisão como Romário, Sérgio Reis, Tiririca, Jorge Cajuru, Alexandre Frota… A outra parcela, desiludida com a classe política, simplesmente vota em candidatos endinheirados, como Magda, por conta de pequenos favores ou mesmo por dinheiro, migalhas que aceita resignada. Afinal, político é tudo igual, e se é igual, que se vote em quem nos favoreça concretamente, ainda que só de quatro em quatro anos. Se vai roubar, que roube, justificam-se.

Uma vez no poder, com raras exceções, os eleitos vão cuidar de seus interesses, aprovando projetos e leis conforme suas conveniências. No caso, contra os direitos trabalhistas, pois há muitos direitos e o empresário, que já faz a sua parte pelo social ao gerar empregos, é neste país um sacrificado; a favor de armas de fogo em massa, para enriquecer mais ainda a indústria bélica e para o cidadão de bem, se puder, defender-se, já que o Estado não garante a segurança de ninguém; contra o endurecimento das leis ambientais, em favor de seus próprios empreendimentos em Caldas Novas e também em favor das grandes mineradoras, pois órgãos como o IBAMA só existem para multar; contra a causa indígena, afinal, para que índio precisa de tanta terra?; a favor do veneno na agricultura e contra bobagens como alimentos orgânicos, para assim o agronegociante ganhar mais dinheiro; pelo congelamento das despesas sociais por vinte anos, e que se dane a educação, saúde, segurança, afinal, quem puder que recorra às escolas particulares, aos planos de saúde e às empresas particulares de segurança; contra o aumento real do salário mínimo, pois o empresário é um coitado, um incompreendido e injustiçado… Tudo para os ricos; nada de nada para o povo, que só serve para votar a cada quatro anos.

Mas o povo gosta!

Resumo da ópera: cada povo merece os representantes que elege.

Enquanto isso, o trio elétrico de campanha está lá estacionado no Parque Japonês, à espera de 2022.

É assim que banda toca.

Outra.

21 milhões parece ser uma fortuna. De fato é, em comparação com o brasileiro assalariado comum, que luta com dignidade para sustentar sua família e pagar seus boletos. Mas, por Deus, a quem querem enganar dizendo que Magda é a mais rica deputada do Brasil? A quem pretendem iludir ao dizer que Magda Mofatto tem ‘apenas’ 21 milhões? A muitos ela e a mídia podem enganar, não a mim. Com certeza há na Câmara e no Senado parlamentares mais endinheirados que Magda Mofatto. E ainda: Quanto custam só os dois helicópteros da deputada? Qual o preço de mercado de um único parque aquático como o diRoma? E sobre os hotéis e tantos outros empreendimentos? E por aí vai.

21 milhões talvez seja o patrimônio por ela declarado. Possivelmente não chegue a dez por cento do patrimônio real da ex-prefeita de Caldas Novas. O restante, por óbvio, encontra-se registrado em nome de laranjas.

Magda dá empregos. Essa é a primeira grande defesa do grande empresário. No íntimo, porém, está se lixando. Se pode pagar menos, por que remunerar os empregados com justiça? Se se pode sonegar, para que pagar impostos?

É assim que a roda gira.

Voltamos no dia 24, quinta, chegando a Dois Vizinhos na tarde do outro dia. Viagem ótima.

Despeço-me aqui na expectativa da próxima.

L.s.N.S.J.C.!

AO MESTRE com carinho!

Tenho a honra de destacar aqui neste espaço eletrônico o depoimento emocionante do mestre CÁSSIO DE ANDRADE, professor de História, originalmente postado no Facebook

POR MOTIVO de saúde, não fui lotado esse ano em sala de aula. Desde que ingressei na ETRB em 1993, como substituto e efetivado por concurso em 1996.

Professor Cássio de Andrade e seus discípulos. Mais uma vitória alcançada (fonte: Facebook)

Dediquei 25 anos ao terceiro ano, somente interrompidos no doutorado, ensinando e preparando jovens para o ensino superior, antes e após o ENEM nesta instituição. Passaram por mim os que se tornaram empresários, dirigentes de futebol, atletas, militares, jornalistas, professores, médicos, vereadores e até governadores. Anos de trabalho intenso, até o “core” dar sinais de alerta. Ainda sim, iria este ano, tentar voltar ao meu altar sagrado na sala de aula.

Vendo, no entanto, os rumos impostos ao ensino básico pela atual política do MEC, acabei negociando minha lotação, em comum acordo com a direção, para, além de revisões de provas, coordenar as ações do Laboratório de Ciências Humanas da instituição. Vendo e ouvindo as ignomínias e sandices do titular do MEC e do novo presidente do INEP quanto ao futuro do ENEM, convenci-me do acerto da decisão de sair de sala de aula.

Não tenho mais ânimo a ensinar História neste país. Não me sinto à vontade de construir conhecimentos onde boçais e estúpidos tentam impor suas vontades e ideologias, na perspectiva desse tal espírito do “novo governo” que o presidente do INEP tenta enquadrar o conteúdo do ENEM. Não me sinto mais à vontade de debater em sala um conteúdo crítico que problematiza também – e não somente – temáticas transversais como machismo, patriarcado, intolerância, homofobia, feminismo, violência, sem ser acusado de doutrinador ou marxista cultural.

Nunca escondi minha formação teórica e minhas convicções, mas nunca transformei minha sala de aula em púlpito ideológico. Sempre combati o pensamento único com meus alunos e minhas alunas. Não posso, no entanto, ensinar um conhecimento asséptico. Busquei histórica e fundamentadamente a crítica ao nazismo e ao stalinismo, nas aulas de Historia contemporânea. Defenderei sempre a liberdade e a ética democrática.

Alunos do professor Cássio de Andrade posam em companhia do estimado mestre (fonte: Facebook)

Grato, meninos (as)!

A que nível chegamos!; a que ponto chegaremos?

Sempre costumo dizer nas conversas entre amigos que o mundo moderno depende basicamente de dois profissionais; um, habitante da zona rural e o outro, predominantemente citadino. São eles: o agricultor e o professor.

No primeiro caso, refiro-me fundamentalmente ao colono humilde, o homem do campo simples, que com sua família, leva vida árdua, labutando diariamente de sol a sol para pôr comida na mesa de todos nós, que vivemos nas cidades. Se o colono não roça, a cidade não almoça; se o agricultor não planta, a gente da cidade não janta.

Alunos da ETRB fazendo festa pela suada aprovação no vestibular (fonte: Facebook)

No segundo caso, trata-se do homem e da mulher (e estas são a maioria) profissionais formadores das demais profissões, sem os quais o mundo não teria chegado ao estado tecnológico atual, ao mesmo tempo em que formam cidadãos para o futuro de uma sociedade, levando conhecimento a crianças, jovens e adultos, além de fomentar o pensamento crítico-social.

A provisão e a instrução, o alimento e o saber, ambos pouco reconhecidos. Pior, progressivamente depauperados, rebaixados a inimigos da nação brasileira.

In casu, o emocionante depoimento e desabafo do professor Cássio de Andrade, da Escola Tenente Rêgo Barros (Belém – Pará) em muito nos entristece por conta dos rumos que em geral o Brasil, e a Educação, em particular, estão a seguir. Fico muito triste com a desimportância (desculpem pelo neologismo) que uma corrente significativa e predominante do poder ora constituído vem dando às duas nobilíssimas profissões. Quedo-me ainda mais apreensivo com o futuro que se avizinha.

Charlene Moreira, então aluna da EEAer (2003), ex-aluna da ETRB (Arquivo do BLOGUE do Valentim)

Tenho especial carinho pela Escola Rêgo Barros, vinculada à Força Aérea Brasileira, onde fiz carreira. Cabe ressaltar o altíssimo nível de ensino praticado pelo corpo docente dessa valorosa instituição, em cujos bancos por anos frequentaram minhas filhas. Uma delas, inclusive, seguindo a carreira do pai, hoje é oficial de controle de tráfego aéreo, servindo em unidade da Aeronáutica sediada no Rio de Janeiro. Outras três, não vislumbrando boas perspectivas no país, houveram por bem migrar para países estrangeiros, onde residem com sua respectiva família. Delas, somente uma permanece no Pará.

O pouco caso, e mesmo o descaso, que sofre o homem do campo e mais intensivamente o professor brasileiro reflete o absurdo dos absurdos para que tristemente caminhou nosso rico e pobre país. O primeiro, considerado um Zé Ninguém, veio perdendo terreno para o fazendeiro, agronegociante, o latifundiário, muito bem representados no Congresso Nacional; o segundo, além de tradicionalmente desvalorizado, é agora rebaixado à condição de inimigo em potencial da sociedade. Em pior escala se encontram os dedicados às cadeiras de História, Sociologia e Filosofia.

Alunos da ETRB festejando aprovação no vestibular 2019 (fonte: Facebook)

Temo muito pelo que virá — repito.

Mas vá em frente, meu amigo professor Cássio. A sua saúde deve vir antes de tudo. Siga com fé, camarada, fé na vida, fé no que virá. Em nome de Charlene, Cristiene, Aline, Fernanda e Jacqueline, cumprimento o nobre mestre,  agradecido pelos conhecimentos ministrados.

Pobre da sociedade que não valoriza o professor!

L.s.N.S.J.C.!

IMPRESSÕES de um viajante brasileiro!

Parte 3 – Brasília

Se acaso você chegasse
No meu chatô encontrasse aquela mulher
Que você gostou
Será que tinha coragem
De trocar nossa amizade
Por ela que já te abandonou

Eu falo porque essa dona
Já mora no meu barraco
À beira de um regato
E um bosque em flor  

De dia me lava a roupa
De noite me beija a boca
E assim nós vamos vivendo de amor

(Lupicínio Rodrigues)  

DEPOIS de algumas voltas por lá, já ao final do período de visitação ao Congresso, entrei no museu do Senado, onde outro grupo visitava. Pedi ao meu amigo Luís Bartniski para tirar uma foto minha em que aparecesse ao fundo os quadros com a foto dos digníssimos ex-presidentes da casa (foto 10).

Foto 10 – No museu do Senado

Comentei sobre aqueles nobres senhores ali na parede retratados. Todos homens, todos brancos, nenhuma mulher, nenhum de raça negra ou índia. Deixei escapar que um dia gostaria de ver ali a imagem de uma mulher. Foi nesse momento que uma senhora pertencente ao nosso grupo e que passava por mim fez o seguinte comentário: “É, mas a que estava lá não deu muito certo”. Pobre eleitor brasileiro, que acredita cegamente no que propaga a grande mídia deste país. Falando do parlamento, e não somente do poder executivo, gostaria de ver ali de verdade representado o povo brasileiro, não composto só de homens ricos, brancos, poderosos, mas sim como um todo. Mas, para isso, teria que ser mudada a cabeça do eleitor, sobretudo com a educação libertária, que ainda está longe da nossa realidade. Pobre povo!

À tarde, rodamos pela Praça dos Três Poderes e depois rumamos ao Palácio da Alvorada, que, por medidas de segurança impostas pelo atual governo, nada pudemos ver. Até a visita das quartas-feiras não existe mais. Voltando, passamos por uma via em que a ex-presidenta Dilma costumava exercitar-se de bicicleta. Passamos também por um hotel em que, segundo Raquel, a guia, a diária da suíte presidencial é em torno de 38 mil reais. Em seguida circulamos pelo Setor de Embaixadas Sul, mas antes disso a guia nos aponta a mansão do Romário, que ele pôs à venda por módicos vinte milhões de reais. Está apertado o pobrezinho, às voltas com suas dívidas de família.

Antes, quando ainda circulávamos pelo Plano Piloto, a guia nos aponta um museu. Era o Museu Honestino Guimarães, também uma obra de Niemeyer. Chamou-me a atenção quando a guia nos disse ter o museu esse nome em homenagem a um estudante “desaparecido” no período militar. Como desaparecido, minha senhora? Desaparecido se, largando a mão de sua mãe, tivesse ele sumido no meio da multidão e nunca mais fosse localizado, ou ainda numa excursão ecológica houvesse se desgarrado do grupo e desaparecido no meio da selva e nunca mais visto. A realidade cruel foi outra, porém. O estudante foi barbaramente torturado por agentes do Estado, morrendo em função em função disso e seu corpo ocultado em lugar incerto.

Ainda negando falar de política, Raquel discursa indignada sobre a presença no parlamento do deputado Tiririca, eleito para seu terceiro mandato legislativo. “O povo brasileiro não precisa de palhaço e sim de parlamentares sérios e preparados”. Continua: “Na primeira vez que foi eleito, tudo bem, pois era uma forma de protesto, mas agora! Sou totalmente contra e a presença dele no parlamento é pra mim um escárnio, uma zombaria ao povo. Um analfabeto, que não faz nada. Sou até a favor de que, para ser deputado ou senador, a pessoa tinha que ter formação universitária.”, finalizou.

Novamente concordo em parte com ela. Já estava pronto a dizer “Muito bem!”. No entanto, ela pisou feio ao final da fala quando condicionou o exercício do mandato parlamentar à existência de curso superior. Não é bem assim, querida. Existem pessoas sem ao menos o ensino médio que entendem mais de política, e além dessa qualidade, são muito mais humanos, que muitos doutores por aí. É evidente que não é o caso do deputado-palhaço. Assim como religiosidade não reflete caráter, diploma não significa saber, ainda mais o saber político.

Outra passagem.

Falou-nos ainda que “Em Brasília, graças a Deus, ainda há civismo, pois o brasiliense prestigia os desfiles de sete de setembro”. Outra bola fora. O nome de Deus não pode ser empenhado como juízo de valores positivos para a prática de civismo e patriotismo. Fazer continência à bandeira, cantar o hino, desfilar no dia sete de setembro, nada disso representa o verdadeiro cidadão, não garantindo o sentimento verdadeiro de patriotismo de ninguém. Com certeza, falou assim aludindo — ainda que inconsciente — ao mau uso feito dos símbolos nacionais pelo grupo político que venceu as últimas eleições. E ela que prometeu não falar em política.

O falar e o agir denunciam a natureza de cada indivíduo, como disse eu na primeira postagem desta série. Se fosse feita uma pesquisa sobre os eleitores que reelegeram Tiririca para o terceiro mandato, saber-se-ia que a maioria deles, com certeza, também elegeram o atual presidente. Mesmo padrão, mesmo pensar. Ambos tiraram proveito do analfabetismo político que grassa no país. Atribuem a Nelson Rodrigues, por sinal um simpatizante da direita conservadora, a frase: “Os idiotas vão dominar o mundo, não pela qualidade, mas pela quantidade. São muitos”. E eis que se vem cumprindo essa profecia.

Nas embaixadas, vimos que, por ironia do destino, a dos Estados Unidos da América fica próxima à da Rússia. Enquanto a dos ianques parece uma fortaleza, a de Portugal é cercada de tranquilidade.

Foi quando, por derradeiro, chegamos ao Núcleo Bandeirante para vista ao Museu Vivo da Memória Candanga (foto 11).

Foto 11 – Museu Vivo da Memória Candanga, Brasília, Núcleo Bandeirante – DF

Nem só de trabalho vivia o candango.

Lá, como é costumeiro, também tiramos muitas fotografias. Enquanto observarmos os quatros fotográficos em preto e branco daquele tempo, os objetos, os consultórios, as camas, as máquinas de escrever e até mesmo os utensílios domésticos de cozinha, uma história que a guia contava me chamou a atenção. Ainda falava em política, sem que ela percebesse, já que a política faz parte do nosso cotidiano.

Foi assim.

Em busca da sobrevivência e escapando da miséria crônica que assolava a região, a maioria dos 65 mil trabalhadores pioneiros que ergueram Brasília veio do Nordeste brasileiro. A ideia do governo era que, após concluída a construção da nova capital, todos eles voltassem à sua cidade de origem. Nem todas as consequências podem ser vislumbradas. Como, fugindo da miséria, exigir que a ela regressassem?

Foto 12 – Sob a efígie de JK, Praça dos Três Poderes, Brasília – DF

Por óbvio que aquelas almas foram ficando e as instalações provisórias, que inicialmente foram edificadas no Núcleo Bandeirante, serviram de base para as aglomerações urbanas que, mais tarde, ficariam conhecidas como cidades satélites. Nas horas de folga todos aqueles homens precisavam comer, dormir, consumir, divertir-se, viver. Além de açougues, farmácias, barbearias, bares, restaurantes e tudo o mais, instalaram-se também prostíbulos, as chamadas “casa da luz vermelha”, onde as pioneiras, sobrevivendo, exerciam seu trabalho. Foi assim, com a promessa de, assim que desse, buscar a família, muitos deles não deram mais sequer notícia aos seus. Diante disso, muitas esposas determinadas a não permanecerem no desamparo pegaram a prole e a trouxa, rumando a Brasília que seus homens construíam com a força de seus braços e regaram com suor e sangue. Muitas delas, ao chegarem, tiveram grande desapontamento: seus esposos já viviam com as mulheres das casas de luz vermelha, tendo constituído nova família. Diante dessa realidade, também elas foram logo assumidas pelo colega, pelo vizinho ou por outro operário, solteiro ou não, devido à carência de mulheres.

Isso me fez lembrar de pronto da composição famosa de Lupicínio:

… Eu falo porque essa dona / Já mora no meu barraco /
À beira de um regato / E um bosque em flor / De dia me lava a roupa / De noite me beija a boca / E assim nós vamos vivendo de amor.

Além de Lupicínio, um tema muito explorado por Nelson Rodrigues. É assim a vida. Diante de um fato consumado, a ex-mulher e os filhos não ficaram ao desamparo. Deus refaz o que o homem desfaz.

No entanto, Brasília não foi feita para os seus construtores. Os candangos tiveram que se refugiar nas redondezas; a nova capital foi construída para o poder e, de lambuja apenas, para os funcionários que vieram de avião do Rio de Janeiro, com salário em dobro e apartamento mobiliado. Aos candangos restaram se instalar precariamente nas futuras cidades-satélites, principiando assim inchaço populacional que, até hoje, incomoda as elites da cidade JK.

Está vendo aquele edifício, moço? / Ajudei a levantar / Foi um tempo de aflição / Eram quatro condução / Duas pra ir, duas pra voltar / Hoje depois dele pronto / Olho pra cima e fico tonto / Mas me chega um cidadão / E me diz desconfiado / Tu tá aí admirado / Ou tá querendo roubar? / (Zé Geraldo).

Termina a parte de Brasília e Raquel despede-se de nós recebendo da nossa organizadora seus honorários por mais um grupo guiado. Seguimos agora a Caldas Novas, última parte dessa excursão.

Continua…

IMPRESSÕES de um viajante brasileiro!

Brasília (1)

Foto 4 – Igreja de São Francisco de Assis, Complexo Arquitetônico da Pampulha, Belo Horinte – MG. Arquitetura de Oscar Niemeyer e engenharia de Joaquim Cardozo. O Complexo da Pampulha (1942/44), composto de cassino, clube náutico, restaurante circular, além da igreja, foi a obra inspiradora de Brasília.

“JUSCELINO consegue atrair o setor privado,  viabiliza recursos. Conclui a construção da barragem, de dezoito metros de altura, para formação da grande lagoa da Pampulha, com dezoito quilômetros de perímetro. Nas margens e cercanias, ergue cassino, clube náutico, restaurante circular. Joias arquitetônicas de Niemeyer.

Completa o conjunto a inovadora igreja de São Francisco de Assis, a primeira do Brasil realmente em estilo moderno, com abóbadas de concreto. Portinari decorou-a com painéis de azulejos, na parte externa, e pintura mural no interior.

Parêntese. Exatamente no painel de São Francisco, atrás do altar-mor, Portinari resolveu substituir o tradicional irmão-lobo por um irmão-cachorro brasileiro (por ser o lobo um animal pouco conhecido dos brasileiros). Ao visitá-la com Juscelino, o arcebispo de Belo Horizonte, Dom Antônio dos Santos Cabral, primeiro se encanta. Afinal, ele é também homem de ação, fundador do jornal Diário Católico, educador, semeador de escolas. Compreende e admira empreendedores e seus feitos. Sabe das dificuldades, da luta que executar obra como aquela. Mas tudo azeda quando ele vê o cachorrinho no lugar do lobo. Espanta-se, desaprova. Ou melhor, indigna-se. Diz a Juscelino que aquilo é inaceitável, um escárnio à religião. Atitude firme, rígida. Determinado, protetor das artes e dos artistas, o prefeito também bate o pé. Resultado: queda-de-braço que impede a sagração da igrejinha durante quinze anos. Como católico fervoroso, devoto de Nossa Senhora da Luz, coroinha e seminarista, prefeito, deputado federal, governador e presidente da República, JK faz o diabo para demover o obstinado arcebispo. Em vão. Ele só consegue arrancar a sagração quando Dom João Resende Costa se torna arcebispo coadjutor e administrador da sede plena da Arquidiocese de Belo Horizonte em julho de 1957. Vem de Brasília com dona Sarah, Maria Estela e Márcia exclusivamente para assistir à primeira missa, capítulo final da novela. Data: 11 de abril de 1959. O simpático cãozinho brasileiro ficou.  (COUTO, Ronaldo Costa. Brasília Kubitschek de Oliveira. Rio de Janeiro: Record, 2001)

***

AO ENTRARMOS no plano piloto, a parte planejada de Brasília, é-me inevitável retroceder mentalmente alguns anos no tempo (já lá se vão quase dezoito anos). Morei lá por seis, de 1995 a 2001. Na verdade, vendo e revendo a cidade, não sei como sobrevivi. É preciso estar atento e forte, como diz Gal Costa. Só posso dizer que eu sou um sobrevivente e minha história muito diz sobre isso.

Precisei muito do tal instinto de sobrevivência.

Foto 5 – Memorial JK, Brasília – DF. Projeto arquitetônico de Oscar Niemeyer, sua construção foi totalmente custeada pelo povo através de doações, é onde repousam os restos mortais do ex-presidente JK. Inaugurado em 1981, esse monumento foi duramente atacado por setores conservadores da sociedade brasileira, que viam elementos que lembram o Comunismo, ideologia do arquiteto.

O ônibus entra pelo Cruzeiro e segue pelo Eixo Monumental, que é exatamente a larguíssima avenida que, passando pela estação rodoviária central, cruza o no meio do Plano Piloto, fazendo o xis ou cruz. Tem como final exatamente a Praça dos Três Poderes. Ao rever o movimento e os monumentos, me volta um filme. Logo vamos entrar no Setor Hoteleiro Sul, e, para surpresa nossa, que tínhamos deixado a modesta pousada Monte Cristo em Trindade, hospedamo-nos no Saint Paul Plaza, um quatro estrelas.

Passamos uma noite de príncipes naquele décimo andar do Saint Paul, com direito a vista panorâmica da catedral, teatro nacional, rodoviária, conjunto nacional e demais prédios próximos. Muito emocionante para mim, que pedi para ser movimentado para lá por causa de uma música dos Engenheiros do Hawaii.

Ela pára e fica ali parada / Olha-se para nada / Paraná / Fica parecida paraguaia / Para-raios em dia de sol / Para mim / Prenda minha parabólica
Princesinha parabólica / O pecado mora ao lado / E o paraíso / Ele paira no ar / Pecados no paraíso / e a tevê estiver fora do ar / Quando passarem os melhores momentos da sua vida / Pela janela alguém estará / De olho em você / Completamente paranoica

Hospedagem e café-da-manhã incluídos no pacote, se bem que a janta — para mim, um peixe grelhado, arroz e alguns legumes; para a Alemoa uma sopa de legumes — me sai bem salgada. Resignado, algum preço tenho que pagar por bancar o ricaço, ainda que involuntariamente.

No dia seguinte, no roteiro de visitas o Santuário Dom Bosco, a catedral metropolitana, Congresso Nacional, pela manhã. Depois almoço, que foi no Setor de Indústrias Gráficas, e pela tarde Praça dos Três Poderes, passeio pelo Lago Sul, Embaixadas e, por fim, o Museu Vivo da Memória Candanga, que foi o primeiro conjunto de prédios (de madeira) edificados no Distrito Federal na década de 1950, onde funcionaram o primeiro hospital, hotel e outras instalações pioneiras.

Já a bordo, a organizadora do nosso grupo de viagens apresenta a todos nós a guia de turismo. Raquel (vamos dizer que seu nome seja esse) é a profissional de turismo incumbida de nos mostrar alguns pontos da cidade nesse dia. Raquel começa desculpando-se porque segunda-feira não é o melhor dia para visitações turísticas. Alguns locais nesse dia são fechados ao público por motivo de manutenção. Ainda assim, iria se esforçar ao máximo para que todos nós ficássemos satisfeitos. A guia, é bom que se diga, também uma sobrevivente, fazendo jus aos honorários do dia.

Com senso crítico, logo percebo, pelo seu discurso, que ela, além de sobrevivente, é também uma cidadã de bem e uma mulher de Deus.

Entendedores entenderão.

O Santuário Dom Bosco, com seu lustre de 450 luminárias, é o primeiro ponto visitado. Reza a lenda que o religioso profetizou a construção de uma cidade entre os paralelos 15 e 20 do hemisfério sul (leia aqui). Por essa razão, em homenagem a ele, foi construído um grande templo católico, que se localiza na quadra 702 Sul. Eu vivi — como já disse — seis anos em Brasília e, passando inúmeras vezes pela W3 Sul, de relance olhava para aquela igreja, mas nunca tive o capricho de estacionar e entrar lá. Essa é a primeira vez.

Ao dar as explicações de praxe, a guia se sai com esta: “Vocês vão entrar, fazer uma oração de dez minutos, sendo que sete deles vocês rezam por Raquel, pela saúde de Raquel, pela família de Raquel, pela vida financeira de Raquel, e nos três minutos restantes vocês rezem por quem vocês quiserem. Combinado?”

Era para ser uma piada, mas ninguém riu. Devo relatar uma passagem anterior, que me foi contada pela nossa organizadora.

Raquel, na primeira ocasião em que trava contato com a organizadora, comete a seguinte indiscrição:

“Que bom que o pessoal do Sul votou bem, só não gostei porque elegeram também uma pessoa indesejável”.

Era uma alusão à deputada paranaense Gleisi Hoffmann, presidenta do Partido dos Trabalhadores. Claro que, sendo o grupo oriundo do Paraná, Estado onde o presidente recém-eleito fez grande maioria de votos, a guia naturalmente infere que o comentário seria bem recebido pelo grupo. Tudo em casa. Entretanto, o que ela não sabia é que a maioria do grupo era composto de professores, posição política bem definida no campo progressista, diametralmente oposta às ideias do atual governo federal eleito e recém-empossado, que vê no educador um inimigo a ser combatido. “Peço-lhe um favor: não vamos falar de política aqui no ônibus”, cochicha ao pé de ouvido a nossa organizadora.

Então, nesta ocasião da visita ao santuário, o que era para ser uma piada inocente, é recebido com indiferença pelo grupo. Ademais, o humor dos sulistas é diferenciado em relação ao humor nordestino (Raquel é uma nordestina que mora em Brasília há quinze anos). Já sabendo do lado político da guia, passo a observar com mais atenção seus comentários e opiniões. Luz amarela ligada, prescrutava-a a partir daí sob mais forte senso crítico, como aprendi a fazer ao lidar com o gênero humano.

Foto 6 – Interior do Santuário Dom Bosco, Brasília – Distrito Federal

Finda a visitação ao santuário, seguimos em direção à Catedral Metropolitana de Brasília, que, por boa sorte nossa, encontrava-se aberta à visitação, contrariamente às previsões de Raquel. A exemplo do santuário Dom Bosco, apesar dos seis anos em Brasília, é a primeira vez que visito essa magnífica obra do ateu e comunista Oscar Niemeyer. Geralmente o morador local, no calor do dia a dia de luta, pouco se interessa por pontos turísticos da cidade em que reside, diferentemente do turista em visita.

Foto 7 – Catedral Metropolitana Nossa Senhora Aparecida, Brasília – Distrito Federal. Destaca-se na entrada as esculturas que representam os quatro evangelistas: Mateus, Marcos, Lucas e João.

Ao chegarmos ao local, ainda dentro do ônibus, Raquel, falando sobre as características e dados da igreja, me faz outro comentário preconceituoso (Olha a luz amarela acesa aí!).

“Ora, tem muito guia que viaja, fantasia dizendo ao turista que a igreja tem a forma de mãos postas em oração ou coisa do gênero, mas eu sou curta e grossa: Niemeyer era ateu! Infelizmente, era ateu! [Percebi que ela acentuou bem as palavras]). É apenas um círculo de dezesseis e só. Ele teve apenas uma visão de arquiteto, nada a ver com a fé e religião”.

Concordo com ela apenas parcialmente. Parcialmente.

De fato o centenário comunista Oscar Niemeyer declarava-se sem religião. Ninguém é obrigado a seguir nada, pois todos temos o livre-arbítrio — é a minha opinião. Até aí o fato é de conhecimento público. Raquel, sem perceber, também falava de política, ainda que o negasse; não a política partidária, mas certamente política. Brasília é uma cidade política por natureza, desde a sua concepção e construção, e assim até hoje. Niemeyer, ateu e comunista, era, como o mundo inteiro reconhece, um fabuloso arquiteto, um verdadeiro artista da Arquitetura, adepto das curvas de concreto armado. Apesar da genialidade inata, era também uma pessoa extremamente simples e desprendida, que aceitou sem delongas o convite de Juscelino Kubitschek para fazer parte da construção dessa grande obra chamada Brasília, feito que veio a tornar o país mais curto e integrado. Consultado sobre o salário, responde a Juscelino:

“Presidente, o senhor me paga o que paga a qualquer um dos diretores”.

Foi com Brasília que o brasileiro tornou-se efetivamente brasileiro. Antes havia só o paulista, carioca, cearense, mineiro, gaúcho… Foi a partir da nova capital, geograficamente cravada no cerne brasileiro, que são traçadas rodovias integradoras que unem o Norte e o Nordeste, além do próprio Centro-Oeste, aos demais pontos do país. Deve-se levar em conta que nos anos cinquenta a ideia de construir, no meio do nada, uma cidade inteira parecia pra lá de absurda. Muita gente boa, principalmente a elite da época e a classe política conservadora, ridicularizava Juscelino e sua equipe por essa teimosia, essa loucura, que é mudar a capital do Rio de Janeiro para o interior do país, onde só existia mato e bicho. Para piorar, o local é de clima seco, pouco recomendado ao elemento humano. Nessa aventura incerta embarcam Lúcio Costa, Israel Pinheiro, Bernardo Sayão, Oscar Niemeyer, além do próprio JK, que encaram o desafio de, do nada, erigir uma cidade moderna, bela, humana, sem precedentes no mundo.

Ouso afirmar.

Na prancheta de Niemeyer, ao ser traçado o desenho da catedral (assim igualmente em relação a todos os outros monumentos e prédios projetados pelo genial artista), há aí certamente inspiração divina — minha opinião. Quem tem fé sabe bem que uma natureza superior, um ente divino, age sobre as pessoas iluminando suas ações.

Ronaldo Costa Couto, em seu livro sobre JK e Brasília, atribui a Darcy Ribeiro:

“Deus estava de bom humor quando juntou no mesmo lugar e no mesmo momento Juscelino, Lúcio Costa, Israel e Niemeyer.”

Foi o caso.

Além do mais, alguém declarar que “infelizmente era ateu” não me parece coisa muito cristã. A depender dessa cidadã de bem, o centenário Niemeyer teria saído deste mundo diretamente para os braços do Cramulhão. Quem não tem pecado, atire a primeira pedra, bem disse o Divino Mestre — está lá nos Evangelhos. Quem é capaz de dizer que a igreja da Pampulha, com seu desenho inovador para os anos 1940, não estava nos planos de Deus? No entanto, a autoridade religiosa da época (Dom Cabral) nega sua sagração, o que veio só a ocorrer em 1957, quando JK já estava presidente. Durante quinze anos, o arcebispo nega à comunidade local o conforto religioso com a frequência dominical ao templo projetado por Niemeyer. Age assim talvez por preconceito, birra, aversão que disfarçadamente nutria ao prefeito da de Belo Horizonte (JK), e, quem sabe, mais ainda, aos comunistas Oscar Niemeyer e Cândido Portinari (Sim, Portinari era comunista de carteirinha). Ressalta-se que a arquitetura da igrejinha foge totalmente aos padrões anteriores, fato que tenha desagradado o religioso. Ao final, vem a prevalecer a genialidade de Niemeyer e de Portinari, cuja obra continua lá, firme e forte, a testemunhar a presença de Deus na vida de toda a comunidade local, bem como na visita de incontáveis turistas. Igualmente, no caso, a belíssima catedral, que valeu a Niemeyer o prêmio Pritzker, equivalente ao Nobel de arquitetura.

Entre essas duas personagens, uma autoridade religiosa e outra ateia, em quem você confiaria, caro leitor?

Continuo.

Na frente da igreja há quatro esculturas de bronze, obra do escultor brasileiro Alfredo Ceschiatti. Eu sei, por experiência de outros carnavais, que não se pode confiar cegamente em tudo que os guias de turismo dizem. Muita coisa por eles é dita para impressionar o turista, mas nem sempre corresponde à verdade dos fatos. O turista mediano acaba por engolir uma coisa ou outra apenas por falta de conhecimento.

Em relação às estátuas (foto 7), que representam os quatro evangelistas (Mateus, Marcos, Lucas e João), Raquel informa ao grupo que de um lado estão três (Mateus, Marcos e Lucas) e do outro lado está João. Até aí tudo certo, até porque as placas indicativas ao pé de cada uma das estátuas estão a identificar. Mas qual a razão?, alguém poderia perguntar. “Porque João era o discípulo que Jesus mais amava”, disse a guia, ainda que ninguém lhe tivesse perguntado, como que a justificar os trezentinhos de honorários no final da tarde. Ora, as esculturas não estão representando os discípulos. Lucas não era contemporâneo de Jesus, e foi o último evangelista a escrever sobre o Cristo. Se fosse sobre os discípulos, deveriam estar ali representados os doze, como no quadro da Santa Ceia. Eram os evangelistas, ou seja, os narradores da vida de Jesus. João está isolado porque, diferente dos três, a sua narrativa sobre Jesus é diferenciada, mais espiritualizada que a dos outros três evangelistas. A Igreja diz que os três primeiros evangelhos são sinóticos, ou seja, têm muita em comum e utilizam basicamente a mesma estrutura, sendo que às vezes até repetem as mesmas palavras e episódios. Já João, o discípulo que Jesus mais amava, escreveu um evangelho canônico, bem diferenciado em relação aos outros três evangelistas.

A guia, tão cristã — a julgar pelas suas palavras –, deixou passar essa bola. Não adianta rezar e fazer tudo errado, incluindo o ato de votar. Vamos estudar.

Como é natural, além de rezarmos, tiramos algumas fotografias. Em seguida, nos dirigimos ao prédio do Congresso Nacional. Nisso, já estávamos próximos das onze horas daquela segunda-feira, 21 de janeiro.

Foto 8 – Em visita ao prédio do Congresso Nacional – Brasília, Distrito Federal. Percebam a numeração do crachá

Depois da identificação e das normas de segurança do prédio, andamos a visitar as instalações onde funcionam a Câmara Federal e o Senado Federal. Dentre os visitantes, em outro grupo, estava um velhinho que disse ter participado da construção do Congresso. Bem, não sabemos se é verdade, mas, pelo benefício da dúvida, vamos dizer que sim, pois, sabemos que Brasília não foi totalmente concluída em 21 de abril de 1960. Muita coisa continuou em construção e as obras se prolongaram por ainda muitos anos. Então, vamos dar crédito ao velhinho, por sinal meu xará (Antônio também é seu nome), que, em busca da sobrevivência na nova capital, migrou do Piauí nos anos cinquenta ou sessenta provavelmente num caminhão pau-de-arara. Posto então a fotografia (nº 9) em homenagem a esse sobrevivente.

Mas há um detalhe nessa visitação que não quero deixar passar batido.

Foto 9 – Posando ao lado do sr. Antônio, octogenário, piauiense, um dos 65 mil candangos construtores da nova capital

Ao entrarmos na fila de identificação, coube a mim exatamente o crachá de número 24, que eu aceitei de pronto até com uma pontinha de orgulho. Havia algo de interessante nessa coincidência.

Sabemos que recentemente houve uma polêmica em relação aos gabinetes a serem distribuídos entre os nobres senadores. Por questão de puro preconceito, por superstição ou por burrice mesmo, foi abolido o gabinete de número 24. Do 23 passa para o gabinete 25 no Senado Federal. Antes, recentemente, houve a polêmica sobre a cor azul para meninos e o rosa para meninas, conforme assim falou, com a sensatez de uma criança de cinco anos, uma ministra do atual governo. Ora, eu só não fui com a camisa rosa porque a única que eu tinha estragou no colarinho. Mas, não tendo a camisa rosa, fui de vermelho (na verdade quase laranja. Laranja? Ops), além de ter deixado crescer a barba grisalha. Fui assim sem imaginar que caberia a mim exatamente o número 24.

Continua…

IMPRESSÕES de um viajante brasileiro!

Trindade e Goiânia

Andar com fé eu vou,
que a fé não costuma “faiá”
Andar com fé eu vou,
que a fé não costuma “faiá
Andar com fé eu vou,
que a fé não costuma “faiá”
Andar com fé eu vou,
que a fé não costuma “faiá”

(Gilberto Gil)

Foto 1 – Catedral metropolitana de Nossa Senhora Aparecida, Brasília – DF

MUITO tenho matutado nestas últimas horas sobre como iniciar este depoimento. Olhem que mentalmente já mudei várias vezes o título e a organização deste texto. É assim mesmo: nem sempre a inspiração chega de pronto, de forma que a gente vai pensando, imaginando, construindo e transformando, até chegar a um denominador comum. Pouco inspirado, o jeito é sentar em frente ao computador e iniciar a escrever. Muitas vezes as palavras e ideias fluem naturalmente.

É o que espero.

Dentro do possível, tentarei nesta narrativa seguir alguma ordem cronológica, salvo as divagações de cunho sócio-filosófico.

Ontem, 25 de janeiro, chegamos de viagem. Fazia tempo que não saíamos da região. A a anterior tinha sido para o Uruguai em 2014. No ano anterior, 2013, havíamos visitado a capital dos argentinos. Desta vez, porém, surgiu a oportunidade de conhecermos um pouco mais o nosso próprio país. Eu, a Alemoa e a pequena Alice Maria juntamo-nos a um grupo de 32 pessoas alegres e festeiras a partimos direção ao Estado de Goiás e Distrito Federal. Trindade, Goiânia, Brasília e Caldas Novas foram as cidades que escolhemos para visitar desta vez, numa espécie de turismo religioso, comercial, de conhecimento histórico, cultural e político, finalizando com três dias de lazer na famosa cidade do sul de Goiás.

Foto 2 – Ao fundo a Basílica-santuário do Divino Pai Eterno (parte posterior), Trindade, Goiás

Duas pessoas não enxergam a mesma coisa.

Em cada cabeça, um universo, como dizia o baiano Raul Seixas. Resumo aqui, para ilustrar a prosa, a anedota seguinte:

Num mesmo vagão de trem seguiam três profissionais quando em dado momento, por uma exigência da natureza que não isenta a ninguém, alguém compulsoriamente perfuma o ambiente. Diante do fato, cada um dos profissionais, à sua maneira, então principia a definir a flatulência inoportuna. O médico discorre tecnicamente sobre gases intestinais, enquanto um poeta declama um poema referindo-se ao suspiro de um fiofó apaixonado. O advogado, por sua vez, define os gases como “o brado desesperado de um sentenciado clamando por liberdade”.

Como vêem, cada ser pensante carrega consigo toda uma bagagem sociológica, que vem acumulada ao longo da existência. O agir e o falar, por conseguinte, revelam a natureza do indivíduo.

Assim sendo, eu, à medida que o ônibus, vencendo as distâncias, aproava rumo ao Centro-Oeste, ocupo-me a mirar a paisagem que a cada vez se apresentava diante de meus olhos.

Sem jamais divorciar-me do espírito crítico, durante o período da excursão, de tudo que vejo e observo três forças poderosas sempre me norteiam o pensamento: a fé, a política e a economia. Simultaneamente agem sobre cada um de nós os poderes espiritual, político e econômico, que, embora inconsciente, insistem em permear a alma humana, que, no meu caso, venho há mais de 58 carregando sobre este corpo miúdo de origens afro, índia e branca. Nem sempre tive consciência disso. Por longo tempo em minha vida onde via uma árvore, não conseguia enxergar a sombra, os frutos, os passarinhos…

Partimos então de Dois Vizinhos às 6 e 30 de 18 de janeiro, uma sexta-feira ensolarada. Enquanto dia o veículo trafega margeado de vastos campos do Paraná, com algumas escalas técnicas previstas: Quedas do Iguaçu, Cascavel, Campo Mourão e Maringá. Em cada um desses pontos, novos colegas de excursão se agregavam ao grupo. Pela janela observo as culturas da região: soja, milho, bovinos, além pinheiros, galpões, casas. Pelas placas indicadoras quilometragens e distâncias também me chamam a atenção. Como passatempo, mentalmente calculo a hora de chegada na próxima localidade. Assim vou me ocupando a mente, a fim de afastar o doutor alemão.

Ainda sob a luz do dia, cruzamos o rio Paranapanema, deixando para trás a Terra das Araucárias, adentrando agora pelo estado de São Paulo. Sob belo crepúsculo vejo transformar-se a paisagem anterior, que dá lugar a novos cenários, nos campos paulistas outras culturas. Não mais o café do norte paranaense e sim a cana-de-açúcar, lavoura predominante nas propriedades ao longo da rodovia Assis Chateaubriand. Coloco-me a meditar sobre a figura do cortador de cana, esse sobrevivente, a trabalhar duro de sol a sol para o largo lucro do usineiro.

Os boias-frias / quando tomam umas biritas / espantando a tristeza / sonham com bife-a-cavalo, batata-frita / e a sobremesa é goiabada-cascão com muito queijo / depois café, cigarro e um beijo de uma mulata / chamada Leonor (João Bosco)

Logo chega a noite e mais uma parada técnica. Jantamos em Presidente Prudente.

Muito embora relutante, logo cada um de nós, cedendo à força irresistível da natureza, nos rendemos ao descanso. Depois de atravessarmos o famoso Tietê, caímos nos braços de Morfeu.

A noite corre célere, ainda mais para um sujeito bom de sono como eu. Desperto notando pelas placas que agora por Goiânia. Já já vamos chegar ao primeiro destino acertado: Trindade.

A primeira missa do sábado — televisada pela Rede Vida — ocorre sempre as sete da manhã. Movidos pela fé, mal o ônibus estaciona,desembarcamos e subimos a extensa escadaria que nos leva diretamente a uma das laterais da Basílica-santuário do Divino Pai Eterno. O relógio digital posicionado em frente ao altar marca exatamente 7 horas e 3 minutos quando finalmente adentramos o templo. A missa já havia iniciado e o padre já estava no perdão. Para mim, em particular, foi um momento único, não conseguindo localizar nos arquivos da memória palavras exatas para expressar os sentimentos que, no momento, me povoam o espírito. Vejam que a ninguém é lícito sair de um templo religioso da mesma forma nele se entra. Digo mais: se a oração não te faz um ser humano melhor, para que serve? É o mesmo que comer mas não se alimentar. Não adianta ir à igreja rezar e depois fazer tudo errado, como dizia Fernando Mendes.

Somente depois da celebração vamos procurar o que comer, pois estamos em jejum. Em seguida nos hospedamos na modesta Pousada Monte Cristo. O dia seguiu. Logo chegaria o almoço, com a típica culinária de Goiás, à base de frango guisado, jiló, arroz e feijão, acompanhados do saboroso pequi, fruto típico da região.

Nem é preciso relatar a enorme quantidade de barracas e lojas em volta do santuário, onde se vende de tudo. De artigos religiosos às mais diversas bugigangas e quinquilharias, incluindo camisetas com os dizeres “lembrança de Trindade”, geralmente com a estampa da tradicional medalha da Trindade.

À tarde, depois da missa caipira das três horas, com direito a berrante, viola e tudo o mais, eu, a Alemoa e a pequena Alice fazemos um passeio para mais adiante, onde inevitavelmente acabamos por comprar algo para dar de lembrança a parentes e amigos. Como estamos com criança, as paradas são mais frequentes. De bom mesmo, acho pamonha, iguaria que há tanto tempo não degustava. Mais lojas, bares, barracas, pousadas e hotéis, além de três bondinhos de turismo.

Foi combinado que à noite haveria um bondinho — espécie de ônibus adaptado em forma de trem ou de bonde — para nos levarmos a passear pela cidade, sob a módica quantia de dez reais por cabeça. O passeio é bastante animado, com bastante música e motivações. A Alice Maria diverte-se a valer. Além da animação, a certa altura o guia principia a falar ao microfone a fim de apresentar aos turistas os principais pontos da cidade. Uma igreja pioneira ali, outra acolá, depois mais outra, que é dedicada ao padre Pelágio, um “alemão”, um religioso que se dedicou por décadas às causas do Divino Pai Eterno e cujo corpo se encontra sepultado no templo em questão. Na verdade, a julgar pelo nome, o religioso era descendente de italianos e não de alemães, mas para povo humilde de Goiás, qualquer um europeu, seja italiano, francês ou belga, é tudo alemão.

Chegamos a um ponto em que o guia conta-nos um pouco da história da devoção ao Pai Eterno, atividade econômica em torno da qual gira a cidade. O movimento religioso inicia-se (segundo pesquisei na Internet) lá pelo ano de 1840. Constantino Xavier e sua esposa, ambos muito religiosos, estavam capinando o roçado quando encontram uma medalhinha cunhada em que aparecia a imagem da Santíssima Trindade a coroar a Virgem Maria. Dois anos depois, pretendendo restaurar a relíquia, Constantino decide procurar um artista plástico afamado, que residente em Pirenópolis, a cento e tantos quilômetros distante de Barro Preto, o nome original da atual Trindade. Ocorre que o artista acaba fazendo um trabalho mais sofisticado, mais caro. Como Constantino não tenha dinheiro suficiente para pagar pelo trabalho, deu ao artista o próprio cavalo como pagamento. Assim, tem que vencer a pé os cento e tantos quilômetros chegar a Barro Preto, onde populares o aguardam com festa. Por atribuírem à manifestação divina pela fé do roceiro, que percorre a pé caminho tão longo, logo a notícia se espalha fortalecendo-se a devoção à Trindade Santa, que, ao longo dos anos, vai crescendo e crescendo, garantindo hoje e durante todo esse tempo a sobrevivência para muitos e o lucro para poucos. A religião, sabemos, vai além das obras religiosas, movimentando a economia local.

Dia seguinte, 20 de janeiro, um domingo ensolarado, partimos para Goiânia, distante dali apenas dezoito quilômetros. A razão da visita à capital dos goianos é, para a alegria do público feminino, no caso a maioria do nosso ônibus, fazer compras. Estacionamos no pátio de um grande centro de compras especializado em confecções. O estabelecimento, que abriga quase uma centena de pequenas lojas e praça de alimentação, fica no setor central, avenida Goiás, ao lado da estação rodoviária da capital goiana.

Depois das compras inevitáveis e do almoço, embarcamos novamente no ônibus com destino a Brasília. Enquanto aguardo o horário, quedo-me sentado ali observando o movimento em volta. A meu lado senta-se um companheiro de viagem, que logo puxa conversa. Observando a paisagem em volta, procuro sondar-lhe a alma, e lhe pergunto sobre o número considerável de hotéis estabelecidos nas proximidades.

“De que vivem todos esses hotéis? Será que em função deste centro de compras?”

O simpático colega responde-me que sim, certamente.

“Além disso, a própria rodoviária também é um bom atrativo para a hotelaria e o comércio local.”, acrescenta ele com outras palavras.

Sem que eu pretenda chegar a esse ponto, a dado momento da prosa, o amigo me cita a questão dos sem-terra. Mostra-se preocupado porque não longe da nossa região existem alguns assentamentos.

“Se o governo atual expulsar esses sem-terra, eles vem fazer arruaça na cidade”, prevê.

“Certamente”, respondo-lhe, aproveitando para dar a minha opinião a respeito do fenômeno social.

“Quanto mais gente fora do campo, mais cheia a cidade fica. Aí não tem emprego, escolas, postos de saúde, enfim, a cidade não está preparada para tanta gente, por isso também a maioria delas detém muitos problemas sociais”. E vou assim falando enquanto noto a expressão facial do colega de viagem. Pelo andar da prosa, percebo claramente seu lado político-eleitoral, que é diametralmente oposto ao meu. É claro que a conversa, para evitar discussões estéreis e atritos desnecessários, é por mim conduzida. Fica, portanto, evidente que o meu interlocutor, à semelhança da grande maioria dos brasileiros, é gente simples e honesta, porém um tanto manipulado pelos meios de comunicação social e por outros aparelhos ideológicos do Estado, entre eles certamente a própria Igreja. Para ele, “o Brasil não tem jeito e político é tudo igual; não se salva ninguém”. De nada adiantaria dizer-lhe que o problema maior está na qualidade, na consciência do eleitor, a ponta da corda.

Melhor deixar quieto.

Chegam os motoristas e abrem o ônibus salvando-me do mal-estar, a consciência pesada, pela impotência de não poder orientar o amigo, até por ser um brado no deserto. O silêncio às vezes é sábio. Quanto o nosso povo é ingênuo! A maioria, infelizmente, penso cá com meus botões.

Pegamos agora a estrada seguindo rumo à Capital Federal.

Foto 3 – Praça dos Três Poderes. Ao fundo o Palácio do Planalto, Brasília, Distrito Federal

Continua