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O BARÃO de Maracanaú!

NESTES nossos trinta anos de Força Aérea presenciamos diversas situações insólitas, além de tantas outras que chegaram ao nosso conhecimento. A bem da verdade, nós mesmos chegamos a protagonizar alguma delas. De fato, a FAB abriga em suas fileiras uma variada fauna e flora, cujos atores são os milicos mais versáteis, criativos e heterogêneos. Dos mais sérios e empenhados em fazer da forma mais correta possível o seu trabalho aos come-e-dorme, chama-nos a atenção os que encaram a caserna como um grande teatro de comédias, procurando levar a rotina na flauta ainda que não seja músico. Há, ainda, aqueles que frequentam todos os lados, ora procurando trabalhar bem, ora praticando efeitos especiais a la Spielberg.

Com efeito, as severas exigências cotidianas do sistema, por vezes, não merecem ser levadas a sério, resultando que, a fim de não enlouquecer, os praças das Forças Armadas e parte de seus oficiais precisam encará-las a força de larga dose de escárnio e picardia. Era o caso do suboficial Carlos Alberto Siqueira de Lima, cujo nome verdadeiro agora, por ética, não podemos revelar; não achando outro até o final desta leitura, fica esse mesmo. Lima era, por assim dizer, um gozador, um tirador de sarro por excelência, posto que, tecnicamente, um grande profissional, não raro recebendo elogios da Subdiretoria de Pagamentos por cem por cento de acertos a cada mês na função de coordenador de saques da subseção de finanças da Base Aérea de Fortaleza.

Vejam agora o suboficial Lima. Encontra-se nesta tarde ensolarada a cotejar com atenção o boletim financeiro mensal com as fichas de atualização financeira de cabos, soldados e taifeiros. É claro que o leitor sabe o que significa o verbo cotejar, que nada mais é do que conferir os dados do primeiro documento com os do segundo, certificando-se dos acertos do sacador, ao mesmo tempo que aponta alguns erros. Era assim naquele tempo em que o computador era a máquina de escrever ou mesmo a munheca a lançar manualmente números e cifras no formulário.

Pois bem. Está concentrado nesse trabalho quando toca o telefone. “Barão, quando sai o pagamento do mês?” Lima dá uma risada sarcástica: “Deixa de ser lascado, hômi!”. E logo completa: “Dia 29 que vem.”. Repôs o velho aparelho no gancho e toca outra vez: Dessa vez é a secretaria do comandante do Esquadrão de Intendência. “Sub Lima, o major Deocleciano quer falar com o senhor agora”. “Caramba, o que será que esse fela quer comigo dessa vez?”, resmunga o velho sub.

O sub velho ao entrar na sala junta os dois calcanhares fazendo, ao mesmo tempo, uma continência relaxada quase ao nível de uma misura: “Não me pergunte se sou capaz, meu bom major, dê-me a missão”, repetia já quase mecanicamente a frase de efeito, que em geral provocava disfarçadas risadas em quem estivesse por perto. O major já o conhece, porque ele próprio é um veterano na Base Aérea de Fortaleza, tendo chegado à Unidade aspirante e, como tenente e capitão, passado por todos os cargos da Intendência. Quanto a Lima, agora um veterano, adentrou o portão das armas da Base Aérea como segundo-sargento, a partir de então segue percorrendo todas as funções na Tesouraria. Foi sacador de pagamento de soldado, depois de sargento, mais tarde de oficiais e agora, considerando a sua antiguidade e experiência na área, vemo-lo no cargo de coordenador de saque. Não, não estranhe o leitor a rotina à qual a maioria dos humanos acomoda-se. Tem gente que, marcando passo, permanece a vida inteira fazendo a mesmíssima coisa. Obrigado, Senhor, por essa rotina e pelo pão certo garantido a cada dia e soldo sagrado no final do mês. Querem ver um exemplo. Foi o próprio Barão de Maracanaú, como era conhecido o suboficial nas rodas de cerveja, samba e cachaça, que nos contou:

Base Aérea de Fortaleza (imagem: Google)

No mesmo ano em que Lima graduou-se sargento na Escola, o soldado Bezerra, seu vizinho de rua, havia sentado praça na polícia. Isso havia sido há mais de vinte anos. Já decorrido esse tempo todo, numa de suas frequentes idas a Maracanaú, o suboficial percebe extraordinário movimento na casa do soldado Bezerra, por sinal seu conterrâneo. “O que houve hômi, por que não me convidou?” A razão da festa era a promoção de Bezerra a cabo. “Mas jaááá?!!” Ao que o pobre homem, radiante e em sua simplicidade longe de perceber a ironia explícita do amigo, responde-lhe, faceiro, com outra pergunta: “E eu drumo?!”

“Sub Lima, eu o chamei aqui para parabenizá-lo pelos seus excelentes serviços e, em nome do comandante, quero dizer-lhe que o indicamos para receber a medalha Mérito Santos-Dumont”. Lima, enquanto escuta do major a notícia, vai dizendo para seus botões: Esse fíi de quenga vai me fazer comprar um quinto A novo!. Por um instante pensa em expressar a ideia, mas em vez disso, agradece a escolha e, já fazendo menção da continência, ouve ainda o major Deocleciano, ao medir o suboficial de alto a baixo, complementar: “Então, meu suboficial, de agora em diante você trate de andar com essa camisa bem engomada, a calça vincada, o cabelo cortado no padrão regulamentar e os sapatos bem engraxados”. Aí já é demais. “Mas, major, se eu fui escolhido pra receber essa medalha, é sinal de que eu estou bem assim mesmo.” Disse assim e saiu da sala, deixando o superior hierárquico sem palavras.

Mas o sistema, que possui boa memória, também tem das suas. Vejam só.

Na semana seguinte, Deocleciano chama o velho suboficial novamente à sua presença. Que será que esse corno quer agora? “Não me pergunte…”, ao que o major faz um gesto reprovador com a mão, interrompendo-o. “Lima, nós avaliamos melhor e o comandante achou por bem retirar o seu nome da relação dos condecorados”. Com o rosto espelhando satisfação, o sub assim se dirige ao major: “Muito obrigado, major, muito obrigado mesmo. Eu ia ter que fazer o treinamento e, como faz tempo que não faço essas coisas, ia acabar errando o protocolo. O major, comandante do Batalhão de Infantaria, ia me dar mijada, e ainda ia ter que mandar fazer um quinto A novo… Muito obrigado, major”.

Eis que nessa mesma época o Alto Comando determinava ao Comando-Geral de Pessoal que transferisse pessoal para as novas bases aéreas que estavam sendo construídas e prestes a ser inauguradas: Boa Vista e Porto Velho. A fim de compor o efetivo das respectivas seções de finanças dessas unidades necessário era reunir profissionais experientes. Devido aos elogios que Lima havia recebido, e não se sabe porque outras razões, o nome do Barão foi o primeiro da lista. Seria transferido para a Base Aérea de Boa Vista. O leitor amigo, do meio civil, pode até imaginar que uma movimentação como essa jamais seria um problema, vez que o militar das Forças Armadas recebe soldo também para isso: servir o Brasil em qualquer ponto do território brasileiro, onde necessário for a sua presença. Não é bem assim. A diferença entre o milico e o civil, via de regra, é que um é fardado, faz continência e faz desfile militar: um dois, três, quatro… No caso, o suboficial tem esposa com atividade remunerada em Fortaleza, filhos fazendo curso superior em Fortaleza, uma casa humilde no subúrbio, vida toda enraizada em Fortaleza. Transferir alguém nessas condições seria como cortar as duas pernas do velho milico.

Não era a primeira vez que tentavam transferi-lo. Anos antes, publicou-se a movimentação de Lima para Brasília. Ele não foi. Naquela época, uma das condições para a efetiva transferência era ter disponível moradia funcional na Capital Federal. Na Prefeitura de Aeronáutica de Brasília, órgão que administra os imóveis da Aeronáutica, um colega de turma envia uma mensagem-rádio dizendo que não havia imóveis disponíveis. Passa-se um mês, dois… seis meses, e nunca havia imóvel disponível. Assim sendo, tudo indicava que o Barão de Maracanaú terminaria seus dias de FAB no seu velho Ceará querido. Não. O comando faz publicar em boletim um extenso elogio agradecendo os excelentes serviços prestados pelo veterano militar tanto à Unidade quanto ao pessoal efetivo da guarnição. “Coronel, eu vim aqui pedir para o senhor anular esse elogio”. “Por que, sub?”, reagiu surpresa a autoridade. “É o mesmo que o senhor mandar me darem vinte chicotadas no lombo e depois mandar me elogiar por ter resistido”.

Mas não teve jeito. Foi para ficar por longos dois anos em Boa Vista e assim o efetivo da Base Aérea ficar bem seguro em relação às respectivas folhas de pagamento. E Maracanaú sentiu a falta do velho barão.

L.s.N.S.J.C.!

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CAVALCANTE!

OUTRO dia encontrei o Cavalcante, mesma aparência de trinta e tantos anos atrás. Estava mais moreno, queimado de sol. Notei também que em seu braço havia uma ferida grande, igual a buraco.

“Que bom encontrar você, Cavalcante! Desta vez é verdade, pois já o encontrei umas três ou quatro vezes, mas era tudo em sonho.”

Percebi que não se encontrava em boa situação financeira, como nunca esteve – ao menos no período em que o conheci. Eu estava junto com a minha menina Alice. Levou-nos para onde ele se encontrava. Era uma espécie de pensão, pois lá estavam outras pessoas. Pela conversa, depreendi que o Cavuca – como os íntimos o chamavam – morava no Acre ou nalgum município da Amazônia Oriental. Havia vindo à cidade grande provavelmente em busca de melhores condições de sua saúde.

Quem serviu na Manaus da década de 1980 certamente tomou conhecimento da figura de José Leite Cavalcante de Albuquerque, que era primeiro-sargento escrevente. Pernambucano de Garanhuns, trabalhou na Base Aérea nos setores de finanças e de pessoal. Cabra bom, sempre alegre e fazendo piadas de tudo e de todos. A porta de sua casa estava sempre aberta a todos.

Grande amigo, jamais esquecerei de você, Cavuca. Somente anos mais tarde, fui saber a história por trás do sobrenome: Cavalcante de Albuquerque.

Como lema de vida “fazer o bem sem olhar a quem”, foi esse amigo que me amparou no momento em que eu mais precisava, numa hora em que a maioria me virava as costas ou mesmo tripudiava da minha dor.

Cavuca foi mais alguém que, devido às andanças nossas, acabei deixando para trás quando fui transferido para Belém em 1990. Ficou por lá em Manaus, de vez em quando viajando para o interior a fim de aventurar nos garimpos. Perdemos o contato e nunca mais podemos nos falar novamente.

Quando perguntei o seu endereço, principiou-se a gaguejar. Para a minha decepção – esta última vez, que parecia tão real, também foi mais um sonho.

Cavalcante, pelo que soube muito depois, faleceu há mais de uma dezena de anos. E eu que nem pude dele me despedi.

Um dia nós nos encontraremos novamente, Cavuca. E daremos novamente aquelas belas risadas. Até lá, amigo!

L.s.N.S.J.C.!

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VEM aí!

EM VAL-DE-CÃES, aeroporto de Belém, uma pequena multidão se aglomerava nervosa defronte ao guichê da Panair do Brasil. Entre impacientes e aflitos, cobravam dos funcionários da empresa informações sobre o Constellation, procedente do Rio de Janeiro e que deveria ter chegado até as seis e meia, no máximo às sete.

Eram oito e meia da manhã de 3 de dezembro de 1959, sexta-feira, e o avião não chegava. Teria acontecido o pior?

Tentando acalmar os populares, os funcionários da companhia faziam insistentes contatos telefônicos com o escritório da empresa, no Rio. Dentre as apreensivas famílias que se acotovelavam, havia um grupo em estado de profundo pesar:

Os parentes e amigos da senhora Regina Coeli Farry.

Ainda no prelo!

L.s.N.S.J.C.!

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CANUDOS ou Belo Monte e o outro olhar de José Augusto Moita!

FOI por meio do Facebook que mantive contato pela primeira vez com José Augusto Moita. Seu sobrenome incomum chamou-me a atenção por ter eu, em 1979, travado conhecimento de um sargento em Anápolis, provavelmente parente seu. Havia em Belém outro sargento Moita. Descubro, enfim, que a família Moita é numerosa. A postagem que focou para a sua figura era uma em que aparecia ao lado do Silva Filho, outro colega de farda de Anápolis conhecido por Marinheiro, que – segundo dizem – foi um exímio centroavante, tendo até jogado pelo Calouros do Ar Futebol Clube, de Fortaleza. Sei que até o Marinheiro pegou uma punição disciplinar por ter jogado em time profissional sem autorização. Mas isso é outro assunto.

Tornemos ao Moita.

“Então, você foi um dos poucos militares que não perdeu o juízo?”, foi o primeiro contato por meio do sistema de mensagens do Facebook. Daí em diante, tornou-se para mim — como também para centenas de amigos — uma rotina diária travar contato virtual com essa grande figura, um extraordinário e sincero amigo, por meio de suas mensagens super bem-humoradas no Facebook.

Homem de palavra, prometeu nos visitar aqui no Sudoeste Paranaense, Dois Vizinhos, cidade distante à beça da Capital do Estado e de outros centros. De posse do nosso endereço, exatamente no dia 19 de junho de 2019, lá pelas sete da noite, quando eu e a patroa estávamos sorvendo o sagrado mate amargo da noitinha, que ele, dona Ivone e Dímitri, um de seus filhos, chegam à nossa humilde residência, numa viagem de mais de 10 mil quilômetros em que buscavam conhecer vários rincões brasileiros e pavimentar amizades, que, por sinal, são muitas e sinceras.

Foi com grande alegria que recebi um exemplar de “Belo Monte: um outro olhar”, de José Augusto Moita

Dentre nossos assuntos em comum, um dos preferidos de Moita é sobre a vida de Antônio Vicente Mendes Maciel, que a História trouxe à baila com o nome de Antonio Conselheiro. Aliás, não só essa saga desse grande homem como a de outros severamente combatidos por um sistema perverso estão entre os temas de interesse desse inteligentíssimo amigo, que, aliás, dedica-se também à bela arte da música.

Imagem atribuída a Antônio Conselheiro (fonte: Internet)

A visitação dessa querida família constituiu-se numa bela surpresa para nós, ao mesmo tempo que não. Logo, estávamos à mesa em debates políticos, assunto de nosso largo interesse por termos correndo nas veias o sangue do inconformismo. E era uma prosa de velhos amigos. Na verdade, nunca antes havíamos nos visto pessoalmente, para a estupefação de minha esposa Bernardete Kleinibig. “Meu Deus, como é possível?”. Da mesma forma, por saber de seu interesse pela vida e pela verdade acerca do Conselheiro, não nos surpreendeu totalmente a edição do livro Canudos ou Belo Monte: um outro olhar, que ora nos dedicamos a ler atenta e interessadamente.

Devo dizer, a bem da verdade, que, pelo fato de este humilde escriba estar envolvido com outros afazeres (acadêmicos, domésticos e as escritas do Blogue), foi exatamente a Bernardete que, interessada, logo se ocupou, com larga dose de curiosidade, de conhecer sobre a vida e triste fim de Antônio Conselheiro, que a pena de José Augusto Moita nos dá agora um outro olhar. O que ele teria escrito, afinal? À medida que a Alemoa vai se dedicando à leitura, isto geralmente à boca da noite e depois do mate, minha companheira faz comentários e perguntas. Eu lhe respondia, à minha maneira meio tosca e superficial, sobre esse assunto a que Moita dedicou-se de forma a resgatar a verdade sobre Conselheiro e seus seguidores, cruelmente massacrados pelo Exército Brasileiro. “Conselheiro e sua gente queriam apenas a paz. Nada tinham de fanáticos e violentos, como se propagou à larga”, era eu que dizia com outras palavras.

E agora este escriba está a concluir a leitura dessa vibrante narração do escriba cearense. Dá-nos a impressão de estar lá entre os soldados ou no meio dos sertanejos conselheiristas, entre cartuchos lançados ao solo e zunidos infernais de projéteis. Esse dom, o de conduzir o leitor para o cenário, somente poucos o possuem.

Todo livro reflete o tempo em que é escrito e o espaço social vivido pelo autor, inserido que está numa determinada sociedade. Há que se considerar também os interesses do escritor, nem sempre honestos. Com Conselheiro não seria diferente. De seu principal divulgador, Euclides da Cunha, percebe-se que o escritor e jornalista fluminense veio a ser conhecido mais por sua verve literária, menos pelos dotes de biógrafo. Poucos sabem — inclusive nós não desconhecíamos — a existência de muitos outros autores se lançaram à missão de escrever sobre esse injustiçado homem. Moita foi desmascarando um a um deles.

Acusar alguém ou um grupo de monarquista era para aquela sociedade do final do século XIX o mesmo que, hoje, tachar grupos de insatisfeitos de esquerdistas e comunistas, ou mesmo subversivos ou coisa assim, sem que ao menos se faça alguma reflexão. Era o caso dos republicanos recém-instalados no poder: estavam ali sob o espectro de Pedro II e de seus seguidores. No caso, Conselheiro, atraindo em redor de si toda a sorte de seguidores desesperançados da vida, acaba por atrair a ira dos poderosos de então, como hoje são os integrantes de movimentos sociais como os Sem Teto ou Sem Terra, ou denominações equivalentes.

Líderes inatos, como veio a ser Conselheiro, tornam-se, sem que o desejem, uma grande ameaça a quem detém o poder, atraindo para si o ódio tanto de senhores de terra — a elite agrária que mandava e ainda manda no país — como da Igreja de então, cujos ministros se sentiam ameaçados por sua liderança inconteste e natural. Foi o caso, por exemplo (e falando em Igreja) de um galileu que esteve no planeta Terra há vinte séculos. Dos coronéis e dos padres e bispos até o poder político formal, de início estadual e depois federal, é um pulo. Aos fazendeiros não interessavam comunidades socialistas como Belo Monte em que, à semelhança dos primeiros agrupamentos cristãos, seus habitantes tinham tudo (por pouco que fosse) em comum. Ao clero também não era interessante a perda de milhares de ovelhas e ainda, para piorar, a existência de um outro pastor, sendo este, embora não pretendesse, mais próximo em sentimentos e missão do Grande Mestre Nazareno do que eles próprios. E se viesse a prosperar Belo Monte a ponto de inspirar o surgimento de outros Canudos? E, em razão disso, sobreviesse a carência dos peões que, a troco de uma cuia de farinha para si e seus filhos, se sujeitavam às ordens da elite agrária? Era, portanto, imperativo combater exemplarmente esses subversivos que teimavam em mudar a sociedade, único modelo então existente, antes que fosse tarde.

Aí está o Exército disposto a cumprir ordens — qualquer que sejam elas — em nome da República e da Pátria. Combater uma legião de famintos não devia ser assim um bicho-de-sete-cabeças. Quanto à opinião pública, aí estão os jornais prontos a apoiar coronéis, assim como os padres estavam também reunidos em torno da proposta eugenista, ainda que isso viesse a contrariar os preceitos evangélicos. Portanto, a população — como é até hoje, infelizmente — está sempre pronta a receber como verdade absoluta tudo o que o papel aceitar, sem o menor espírito crítico. O governo central e o Exército, porém, não contam com a crueza do sertão, lugar inóspito que só o próprio sertanejo — esse forte, como propagou o fluminense Euclides da Cunha — conhece. Também não considerou a tenacidade dos homens de Conselheiro que lutavam por uma vida melhor, portanto, pela esperança de cada um deles, de suas famílias e, inclusive, pela própria liderança de Antônio Vicente, a quem veneravam e respeitavam certamente. É assim que vem uma, duas, três expedições, todas derrotadas.

Derrotados, diante da opinião pública é necessário pintar o inimigo como jagunços fortemente armados e coisas do tipo. Ninguém, nem os generais, nem a imprensa, nem o coronelato e a Igreja, admitirá jamais que o Exército foi derrotado também por sua própria incompetência e por tantos outros aspectos e detalhes que bem Moita trouxe à luz da verdade. Era preciso construir o mito do Conselheiro, um homem violento, um tirano, que conduzia seus homens — incluindo mulheres e crianças — a peso de forte treinamento militar e de intrincadas estratégias de guerra. A mentira falada mil vezes passa a ser tomada como verdade e isso o poder sabe bem fazer. Contribuíram para isso muitos autores, que Moita exaustivamente pesquisou, ao repetirem mentiras sabendo que o povo as tomaria por verdades que, infelizmente, chegaram aos dias de hoje.

É aí que entra o papel dos grandes brasileiros de hoje. Revisitar a história, desmistificando-a. Fazer releituras das “verdades absolutas” que desde sempre, principalmente durante um período longo de 21 janeiros, insistem em empurrar goela abaixo da população brasileira. A nossa geração tem essa obrigação: não descansar enquanto não ver a verdade dos fatos restabelecida e — mais — insistir na propagação desses “outros olhares”, bem diversos das ideias romantizadas que os falsos patriotas teimam em divulgar: o Exército é patriota e quem insiste em indicar outro modo de vida, mais justo e fraterno, esse é violentamente perseguido, desmentido, preso e eliminado. Não só Conselheiro e seus principais homens deviam morrer, mas todos — mulheres, velhos, crianças, sãos e doentes… — a fim de que não sobrasse uma testemunha sequer e com isso a mentira contada não corresse riscos de ser desmascarada.

Monarquistas!? Aquela pobre gente mal sabia o que isso significa. Utilizando-nos da comparação, figura de linguagem fartamente empregada por Moita em sua obra, vejo o caso da “adesão” do Pará ao Brasil, ocorrido de forma violenta em quase um ano depois de 7 de setembro de 1822. Um grupo de comerciantes portugueses pretendia que o Grão-Pará permanecesse ligado ao Império Português, o que não interessava a Dom Pedro. A população humilde e miserável estava, porém, à margem desses acontecimentos e interesses, de forma que tanto faz como tanto fez, visto que a mudança ou a manutenção de uma condição política não mudaria a vida dos humildes paraenses. Que interessava o Império ou República àquela gente miserável e ignorante de tudo? Mas a República precisava de um pretexto para massacrar milhares de homens, mulheres e crianças em nome dos interesses de uma elite, o poder, seja ele fardado, à paisana ou de batina.

Jagunços?! Ora, qualquer um de nós sabe que estes se prestam a servir os endinheirados deste mundo e seu ofício é perseguir os menos favorecidos. De outra forma, o coronelato não teria prosperado nestas terras de Santa Cruz. Um homem manso e de bons propósitos como foi Antônio Vicente Mendes Maciel jamais teria as condições monetárias e de temperamento a conduzir mercenários. Conselheiro, tal como o Homem de Nazaré, só dispunha de palavras e de esperanças. Ainda assim a mentira, contada mil vezes, colou.

Nossa família recebeu o livro de J. A. Moita

Trabalho de fôlego esse, o do Moita. Um exemplo para a nossa geração, que consideramos esclarecida. A História, tal qual ela nos foi passada, é a versão das classes dominantes deste país, e isso nós — que dispomos de empatia e não esquecemos das nossas origens — precisamos mudar, a fim de conduzir aos nossos netos esse outro olhar.

(Original publicado em 16ago2020)

L.s.N.S.J.C.!

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TRÊS Homens em Conflito!

No inóspito oeste americano, a paisagem árida e pouco receptiva serve de alegoria para o que se passa na mente dos protagonistas. O ser humano colocado contra o meio ambiente na verdade reflete o ser humano contra ele mesmo. Os longos silêncios, pontuados pela bela trilha sonora de Ennio Morricone, demonstram que suas ações pouco necessitam de palavras.Isabel Wittmann

DURANTE muito tempo o gênero Western, também conhecido por Faroeste ou Bang-bang, dominou a sétima arte. Um filme de Western era garantia de cinema lotado, milhões em bilheteria por conseguinte. Contavam a história, em geral fantasiada, da chamada conquista do oeste, em que o homem civilizado do leste dos Estados Unidos segue à procura de ouro, levando assim a civilização a um oeste selvagem, repleto de índios perigosos e de mexicanos ignorantes e inferiores. Por meio do rifle e do revólver, cruzam desertos em diligências, fundam cidades empoeiradas com seus saloons de madeira, cadeia, cavalos, xerifes e bandidos, enredos previsíveis que fascinavam e divertiam multidões mundo a fora.

O gênero faroeste tornou milionários e mundialmente famosos atores como John Wayne, Gary Cooper, Gregory Peck, Cary Grant, Burt Lancaster, Yul Brynner e tantos outros caubóis, mocinhos e artistas, que, nas telas, encarnavam heróis altos, fortes, indômitos, rápidos no gatilho, justiceiros, paladinos da justiça e da ordem, vingadores, todos se apresentando sempre bem barbeados, bonitões e elegantes, conquistando com isso milhões de fãs. Ao mesmo tempo, fizeram época histórias de aventureiros reais como Buffalo Bill, Jane Calamidade, Wild Bill Hickok, Billy The Kid, entre outros vultos, que, retratados em ficção, ganham ares de heróis românticos.

Público garantido.

Tudo, porém, tem seu final. Na década de 1960, o gênero Western já se encontrava na descendente; o filão milionário se exauria deixando preocupados os grandes de Hollywood, que procuravam reinventar-se. Para alguns anos de sobrevida, era necessário que o gênero passasse por novas configurações. É nesse quadro de declínio que surge em cena o diretor italiano Sergio Leone, um entusiasta da história do Velho Oeste.

É também por uma dessas ironias que o destino costuma pregar que surge fora do País Sem Nome uma espécie de imitação do romântico e fantasioso western original, que passou a ser conhecida pejorativamente por Western Spaghetti.

É exatamente com Sergio Leone que esse subgênero vem a superar em muito o gênero original.

Leone, pragmático ao explorar uma temática genuinamente norte-americana, com a chamada Trilogia dos Dólares, deixou a todos embasbacados principalmente com o terceiro filme da série, de longe o melhor deles: Três Homens em Conflito, título pouco inspirado com tradução para o Português como o “O Bom, o Mau e o Feio”. Três Homens em Conflito tornou-se um clássico, consagrando Leone.

Do romantismo norte-americano para o realismo de Leone.

O italiano procura assim desconstruir a aura romântica dos velhos filmes americanos de Western mostrando uma época o mais aproximadamente possível do que de fato tenha sido — portanto mais violenta –, em que apresenta pistoleiros sujos, feios, mal barbeados, pele castigada pelo efeito solar, homens brutos, ignorantes e ambiciosos; mulheres, em geral prostitutas. Nem de longe lembrando o glamour, a fantasia e os clichês romantizados que até então as produções norte-americanos apresentavam, com homens bonitos e bem barbeados, Leone mostra, enfim, algo mais próximo da bruteza histórica.

Em Três Homens em Conflito, história que tem como cenário a Guerra de Secessão, temos três protagonistas: Clint Eastwood, o Bom (que de bom não tem muita coisa), inteligente, o Pistoleiro Sem Nome, a que Tuco chama de Lourinho; Lee Van Cleef, o Mau, e Eli Wallach, o Feio, um bandido debochado, mas ainda assim um bandido cruel. Portanto, três personagens à margem da lei, todos exímios pistoleiros, mas cada um com seu estilo, destaque para o Feio, Tuco Benedito Pacífico Juan Maria Ramirez, um mexicano acusado de muitos crimes, procurado pela justiça de vários estados, por cuja cabeça há gorda recompensa. O Bom, também bandido, recebe esse nome por ser menos sanguinário que os demais, dentro de uma ética relativa. O Mau é o vilão no sentido real do termo, sem ética nem compaixão, cruel ao extremo. Do Bom — o pistoleiro sem nome — e do Mau, nada se sabe sobre eles. Só sobre o passado de Tuco, o Feio, sabe-se que tem um irmão padre e que se tornou bandido em razão das circunstâncias sociais em que sua família vivia; nas condições em que foi criado só havia duas opções de vida: ser padre ou bandido. Também é o único que tem nome, ao menos que se é mencionado no filme, dos outros só sabemos por meio de apelido, que o próprio Tuco diz: “Lourinho”, para o Bom, e “Olhos de Anjo”, o Mau. Deste último, também se sabe o nome por meio de “Meio-soldado”, um homem mutilado que usa farda. Em razão de usar farda, isso sugere que “Meio-soldado” sofreu a mutilação na guerra, ficando inutilizado.

Paralelamente à história dos três pistoleiros, que entram em conflito pela busca de duzentos mil dólares enterrados num cemitério (cujo nome só é sabido por um) e num túmulo (que é só conhecido pelo outro), há uma guerra como cenário: a Guerra Civil Americana.

Aí mais um significativo diferencial.

Leone mostra no filme a estupidez de uma guerra em que há desperdício de homens, gente mutilada, campos de prisioneiros torturados, terríveis condições de pobreza em que vivem os soldados, miséria do povo em geral, destruição… Comenta o Pistoleiro Sem Nome:

“Nunca vi tantos homens serem desperdiçados desse jeito”

Nesse quadro de horror há pessoas capazes de se aproveitar do sofrimento humano para prosperar materialmente. O homem explorando o homem. Isso magistralmente denuncia Sergio Leone em sua obra.

O genial diretor Sergio Leone (fonte: Google)

Completa o filme o magistral tema sonoro, uma obra-prima de Enio Morricone, composição que transcende o próprio filme, vez que muitos a conhecem mesmo sem jamais terem visto a película para a qual foi composta. Passado já mais de meio século, passarão milênios e não haverá outra igual.

Três Homens em Conflito, o melhor filme de Western.

(Original postado em 15fev2019)

L.s.N.S.J.C.!

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CLASSE desunida!

MAIS uma vez voltei os olhos para o papel que estava ali deitado na mesa de trabalho. Ele olhava para mim como que dissesse: “Me assina logo! Quero virar um documento”. Havia datilografado aquelas palavras 24 horas antes. Eram letras bem elaboradas em português castiço. Sem coragem de assinar e dar termo à redação, lia e relia o expediente como a ganhar coragem. A cada vez que o relia, resolvia mudar uma palavra, substituindo-a por um sinônimo, acrescentava uma vírgula, invertia um termo ou até mesmo uma oração inteira.

Era uma forma de protelar a expedição do documento. Dirigia-se ao comandante da unidade e o teor era sobre a criação de dois descontos internos de cinco por cento do soldo, cada um deles.

Eu disse criação? Imposição.

Pela situação aflitiva em que vivíamos, vinha remoendo aquela situação.

Eram tempos duros naquela década de 1980. Governava o país o senhor Ribamar Sarney, ele e o doutor Maílson, que ditavam o rumo da economia, que, na verdade, vinha desgovernada e sem rumo desde não sei quando. Era o país da inflação fora de controle e dos escândalos financeiros, que impunha arrocho salarial à faixa mais sofrida da população brasileira. Cada ano que se findava era festejado de forma entusiástica pelo povo na vã esperança de que o próximo viesse a trazer melhores dias, já que na cabeça de todos o janeiro seguinte não tinha como trazer um ano pior que o seu predecessor. Qual nada! A situação do brasileiro ia a cada ano novo bem mais apertada que no outro. 

Tal era a conjuntura político-econômica nacional. Tais eram os problemas, que também se estendiam sobre as costas dos militares de baixa patente. 

Se, por necessidade, alguém decidisse comprar a crediário uma geladeira, um aparelho de tevê ou um fogão, além de ver comprometida parte de seu minguado salário por meses e semestres, era certo ser sumariamente humilhado ao preencher e responder uma série de perguntas  embaraçosas por parte do funcionário analista de crédito: salário, quantos filhos, se possuía ou não bens imóveis, quem seriam os avalistas…

E agora essa decisão, que representava um golpe nas nossas já combalidas finanças. 

O boletim interno dizia sobre a determinação de sua excelência em descontar do soldo de cada um de nós, suboficiais e sargentos da localidade de Manaus, a importância financeira correspondente a dez por cento do soldo. Cinco destinavam-se à Prefeitura de Aeronáutica, a título de taxa de recolhimento de lixo da vila dos suboficiais e sargentos. Os outros cinco eram para ajudar as finanças do clube, o CASSAM, que frequentávamos. Os caixas de ambas as subunidades seriam, portanto, socorridos por nós, suboficiais e sargentos da área de Manaus.

Dez por cento! E em tempos de vagas magérrimas.

E por que Sua Excelência não pedia repasse ao comando superior em Brasília? Não, para que incomodar seus superiores com problemas que poderiam ser facilmente resolvidos internamente? Vai que aí prejudiquem a sua carreira. Não. Mais fácil onerar mais ainda a tropa, fazendo carga no soldo. A tropa não reclama, a tropa aceita, a tropa tem amor à Pátria, a tropa parece não ter família para sustentar… Ora pois!


Não tínhamos anuênios nessa época, tampouco adicional natalino. Precisávamos esperar sete anos para, se as fichas de avaliação estivessem conforme e o alto comando permitisse, obtermos uma promoção que, ao final, rendia poucos cruzeiros ou cruzados de aumento no salário. A cada cinco anos o quinquênio, e tendo dez anos (era o meu caso), dois quinquênios, ou seja, 10% sobre o soldo. 

E o CASSAM?

O CASSAM era o clube que congregava os suboficiais e sargentos da área. O clube dispunha do maior espaço físico na cidade de Manaus na época. Além disso, possuía uma privilegiada área de estacionamento. Os bailes que promovia eram bastante concorridos, uma vez que geralmente abertos à comunidade manauara. 

Falava-se que na temporada de carnaval o CASSAM chegava a admitir em suas dependências de cinco a dez mil pessoas, senão mais. (imagem: Internet)

Concorridos e rendosos.

Falava-se que na temporada de carnaval o CASSAM chegava a admitir em suas dependências de cinco a dez mil pessoas, senão mais.  Nessas ocasiões, corria dinheiro à farta com ingressos, venda de bebidas e tudo o mais. Era o carnaval mais animado da capital amazonense. O estacionamento lotado e automóveis em fila indiana quilométrica do lado externo.

Havia — falavam à boca miúda — uma forte concorrência à sua diretoria na época de eleições. Muita gente boa querendo ser presidente ou diretor. As eleições eram raras na verdade; havia mesmo era indicação da autoridade, o brigadeiro de três estrelas; eleição era uma palavra considerada perigosa, mais ainda no meio militar. O fato é que havia muita vontade de se pertencer à diretoria do cassino. 

Por que?

Não sei. Havia colegas que, mesmo de férias ou até de licença especial, não abriam mão do cargo de diretor do clube. Eu sei de um suboficial da diretoria, que fora transferido para Anápolis, sendo desligado de sua unidade para seguir destino em janeiro, mas estranhamente só se desligou da diretoria do CASSAM um dia depois do baile de carnaval, já meados de fevereiro. Muito trabalhador certamente e a comunidade de suboficiais e sargentos, na época, lhe foi mui grata por tamanha abnegação.

Muita gente boa “brigava” para ser diretor do clube. Talvez por idealismo, não sei.

E agora, sua excelência mandava fazer carga na tropa para tapar rombo do CASSAM?

Diante de todas as dificuldades e suspeitas,  após muito meditar e remoer tal decisão administrativa, e mediante detalhada pesquisa na lei de remuneração, decidi fazer um documento à autoridade, pedindo que revisse a determinação, pois não havia respaldo legal.

Ao chegar na mesa do chefe, ele me chamou: “Valentim, você tem certeza que quer despachar esse documento?”. Não, Pedro Bó! É só pra gastar meu latim! É claro que não disse essas palavras, mas deu uma baita duma vontade. É que o chefe, o chefe do chefe, o comandante, todos eles possuíam a seu favor um argumento fortíssimo: o regulamento disciplinar. Diante de minha negativa, o chefe mandou o documento em frente.

O documento circulava fisicamente de um setor para outro e, como não era sigiloso, veio a cair no conhecimento de todo o quartel. O soldado para o cabo, este para o sargento e o sargento para a todo o mundo. Correu o bizu inclusive para as outras unidades de Manaus que eu estava a encabeçar um movimento contra sua excelência, o brigadeiro de três estrelas, pela extinção da cobrança mensal daqueles famigerados dez por cento.

Eu ficara famoso na área.

Naquela noite quase não dormi. Virava pra cá, pra lá… quando finalmente adormeci já lá pela madruga, sonhei que me punham uma venda nos olhos e o oficial dizia ao pelotão de fuzilamento: “Preparar! Apontar! …”. Num sobressalto e com o corpo suado, acordei um pouquinho antes do “fogo”. 

Mas no dia seguinte o documento já, depois de tramitado por mais duas ou três mesas, estava nas mãos de sua excelência, que, sem se dar o trabalho de examinar seu mérito, o repassa para a resolução do chefe do estado-maior, que era um coronel no cargo remunerado de brigadeiro.

De todo o efetivo indignado, surgiram somente dois companheiros a me fazer companhia nessa reivindicação justa. Era o Soares, primeiro-sargento, e o Brandão, terceiro. Foi marcada uma data e hora para falarmos com o chefe do estado-maior, quando, gentilmente e com toda aquela boa-vontade, sua senhoria dedicaria uma parcela de seu precioso tempo para nos ouvir.

Chegou o dia. Na hora marcada, estavam lá o Brandão e o Soares na minha seção de trabalho a convidar-me para subirmos a escada e falarmos com a autoridade. Fomos lá seguindo a ordem hierárquica, com o Soares à minha frente e o Brandão, logo atrás de mim. 

Nesse caminho interminável, entre a base da escadaria e seu topo, mil pensamentos se passariam na minha cabeça. 


Claro. Era uma decisão política e a autoridade não mudaria o que já havia decidido. Eu era um renitente, um indisciplinado, um rebelde, um fora-da-lei. A autoridade era um coronel e nós, humildes sargentos, o que poderíamos fazer? Tinha contra nós e a favor dele um argumento fortíssimo, que era o tal regulamento disciplinar. Quantos dias de cadeia, caberia a mim, o cabeça do movimento? E se a punição que certamente me seria imposta me levasse a ser expulso da Força? No meio da escada me deu ímpeto de descer, sair correndo. Seja homem, eu dizia para mim mesmo. Éramos três e eu estava entre os dois companheiros. Do nada pensei: “Caramba! Caí numa cilada. Esses dois aí não estão do meu lado coisa nenhuma. É tudo uma conspiração para me levar ao verdugo. Eles são, na verdade, a minha escolta. Certamente sairei algemado da sala do homem”.  

 Pensando assim e me imaginando um prisioneiro levado ao cadafalso, mirava a furto ao dois colegas, avaliando-os. Soares e Brandão eram bem fortes e altos. Não. Eu não teria chance de fugir. Sairia do gabinete direto para uma cela.

Chegamos à sala do coronel, que, após as continências regulamentares, nos mandou sentar nas poltronas que estavam ali para visitantes. Foi o Soares, sendo ele o mais antigo, que argumentou junto à autoridade, ficando eu e o Brandão todo o tempo em silêncio. Até então, tudo bem. Eu respirava aliviado, embora o meu semblante denunciasse a minha contrariedade com relação ao abuso de autoridade que o desconto ilegal revelava. A autoridade, embora falando baixo e calmamente, dava a entender nas entrelinhas uma ameaça velada, dizendo-nos diplomaticamente que teríamos, a partir de então, toda a má vontade do comando e coisas do gênero. 

Soltei um suspiro bem grande de alívio, quando saí da sala. Desci a escada com celeridade e voltei para a minha seção de trabalho. Foi quando o Barros, olhando para mim com curiosidade mórbida, fez uma indagação:

“E aí, quantos dias de cadeia?”.

Ora, minha cabeça a prêmio em nome de um prejuízo financeiro que se sobrepunha a toda uma coletividade, e o colega querendo saber se eu seria punido.

Isso para mim doeu forte. Que classe desunida, meu Deus! Hoje bem tenho consciência de que os comandos agem assim, contando com a desunião da classe em que cada um tenta levar vantagem em relação ao outro. É uma boca rica aqui, uma promessa de missão relevante ali, uma condecoração que pode abrir portas para uma missão futura no exterior, e assim vai. 

Nem me dei o trabalho de lhe responder. Dois meses depois fui transferido e só fiquei sabendo que o tal desconto foi reduzido à metade, cinco por cento. 

Sem perceber, envolvi-me numa ação política que, ao final, beneficiou (ao menos reduziu o prejuízo original) a toda uma comunidade. 

Isso foi no segundo semestre de 1989.

Não permaneci na unidade para sofrer da parte do comando a ameaçadora má vontade. 

L.s.N.S.J.C.!

(Postado originalmente em 14jan2019)