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APRESENTADO em 4 de julho!

FAZ hoje exatamente vinte anos que retornei à Base Aérea de Belém, após um estágio de três meses em Belo Horizonte. Ninguém soube, mas eu me atrasei em um dia. Era para eu ter chegado no dia anterior, 3 de julho. Ocorreu, no entanto, um sério contratempo que me fez adiar por 24 horas a data oficial de apresentação ao comandante da Unidade militar.

Eu estava em Brasília fazia seis anos.

Formei-me em 16 de maio. Nesta foto, este blogueiro e o sr. Manoel Valentim, meu pai, descerramos a placa alusiva à turma de novos oficiais.

Do mês de maio para junho de 2001 ocorreu um apagão financeiro nos sistemas do Comando da Aeronáutica, de forma que qualquer pagamento extra (não contando o pagamento dos vencimentos normais) teve que ser postergado até que voltasse o sistema à normalidade. Assim, as organizações pagadores da Aeronáutica somente dispunham da reserva correspondente aos descontos internos, sendo que por doutrina cada tesouraria tinha de dispor ao menos do quantitativo financeiro para fazer frente as emergências de pessoal como auxílio funeral. O meu caso – movimentação – não se enquadrava como emergência ou urgência.

Nesse mês de maio ocorreu a minha formatura no CIAAR, com a minha classificação em Belém. Precisava de dinheiro para custear a mudança, devendo pagar a primeira parcela para a Transportadora Granero. Além disso, também precisava comprar passagens aéreas. Fui ao gestor de finanças, um tenente-coronel intendente, e este me tratou muito mal.

E agora, o que fazer?

Disse-me um amigo que ele é um cara sortudo e azarado ao mesmo tempo. Eu também sou. O sistema, ao que eu soubesse, até então nunca havia experimentado uma situação como aquela. E foi ocorrer justamente na época de minha movimentação. Já havia sido desligado da Unidade anterior, de forma que já se contavam os dias para a minha chegada em Belém.

Já não sabia como fazer para me apresentar na unidade de destino.

Ocorre que na mesma Organização pagadora (que era o Sexto Comando Aéreo Regional – VI COMAR) servia também um tenente-coronel intendente que eu conhecia desde que ele era tenente, em Anápolis. Era o tenente-coronel Monteiro, bem mais antigo hierarquicamente que o outro tenente-coronel, o tal gestor de finanças que se negou a me atender. Contando-lhe o meu drama, ele mandou alguém providenciar um documento, a gente na FAB chama de “cautela”, que nada mais é do que uma autorização de adiantamento financeiro. Ele exercia um cargo de fiscalização, que chamamos de Agente de Controle Interno, e após ter assinado a “cautela”, levou o documento para a autorização do comandante da Unidade, que era um major-brigadeiro.

Certamente o gestor de finanças não ficou nada satisfeito, mas como em quartel manda quem pode e obedece quem tem juízo, ele acabou atendendo ao documento assinado por esse outro oficial, que se mostrou compreensivo para comigo. Até porque estava lá a ordem do brigadeiro, e ele teve que engolir esse sapo.

Azar por ter ocorrido uma falha no sistema justamente na minha época de ser movimentado, nem um mês antes, nem um mês depois; boa sorte por ter reencontrado um oficial que era gente boa, fato raro na caserna.

Quando o caminhão da empresa finalmente chegou à minha casa para fazer a mudança, a data para a minha apresentação já se encontrava prestes a vencer. Foi o tempo de comprar passagens aéreas e, tendo chegado a Belém já no dia 3 de julho, somente pude me apresentar na manhã do dia seguinte, 4 de julho. Atrasei-me um dia, porém, por experiência, sabia que esse atraso não seria notado pelo setor de recursos humanos. Foi o que aconteceu.

Noutras épocas de movimentação, sempre algo ocorria. Mas, para não alongar mais este texto, esses outros contratempos deixo para contar outra vez.

O fato é que cheguei em 4 de julho, e isto faz hoje exatamente vinte anos.

L.s.N.S.J.C.!

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O PAÍS dos militares!

OLÁ, amigos (as)!

Vou inaugurar a coluna com a indicação de um livro que acabou de sair do forno. Trata-se de “O país dos Militares e dos Bacharéis” do escritor e amigo Antônio Valentim. A obra é uma releitura irreverente e histórica, como define o próprio autor, de como as mazelas da sociedade brasileira cinquentista refletiam-se nas casernas, no mergulho que o mesmo faz nos mares pouco navegados da hierarquia, disciplina e autoridade, que tive a honra e o prazer de prefaciar.

Nos idos da segunda década desse século, mais ou menos ali entre 2010 e 2012, eu interagia intensamente no blog do jornalista paraense e comentarista esportivo, o grande baionense Gerson Nogueira.

Era o tempo de ápice dos blogs!

Esse do amigo jornalista reunia futebol, política e conjuntura nacional, sempre tabelando (usando aqui a linguagem da bola) com as temáticas progressistas e de esquerda, congregando usuais comentadores, que o Gerson chamava de “baluartes”. Entre esses, conheci Antonio Valentim.

Quando o assunto era o nosso glorioso Clube do Remo, era comum o amigo Valentim comentar, com estilo, requinte e excelente memória.

Passei a admirar este amigo!

Mais ainda, ao saber que era reservista da Aeronáutica, Força Militar à qual sou lotado como servidor civil, na qualidade de professor de História de uma de suas mais tradicionais escolas, a “Escola Tenente Rêgo Barros” – ETRB, atualmente, CTRB, “Colégio Tenente Rego Barros”.

Aos poucos, Valentim revelou-se mais que um comentador de futebol.

Percebi nele um autêntico contador de histórias e um ser social incrível, com capacidade enorme de abraçar causas sociais, dotado de elevada consciência política, algo raro em se tratando de um militar, em especial, dessa atual geração. Um espírito sensível, humanista, democrata e idealista por uma sociedade justa e sem desigualdades. 

Deu-me a honra, esse precioso amigo, de prefaciar sua obra. 

O país dos militares e dos bacharéis; uma releitura da sociedade brasileira da década de 1950 e seus aspectos históricos, políticos e sociológicos”, é o que se propõe a ser: uma releitura, sem estigmas, das representações que fazemos da disciplina, hierarquia e autoridade na caserna, a partir de seu “lugar de fala”.

Sem melindres ou controle de farda, Valentim nos envia aos escaninhos da memória, lugar social e atemporal, perfazendo as tortuosas trilhas das relações entre as forças militares e a sociedade civil. 

Em meio à memória, pesquisas, fundamentos, Valentim descortina bastidores da intricada sobreposição das Forças Armadas na sociedade política, na qual sujeitos das baionetas incursionam na gramática do poder e das leis. Nesse contexto, parecem estar enraizadas as velhas fantasmagorias do Estado de Terror e da história do medo na sociedade civil brasileira.

Um capítulo especial, nesse tecido da memória, está reservado à Revolta de Jacareacanga, historicamente classificada como tentativa de golpe frustrada, executada pelos militares, ao governo de Juscelino Kubitschek. Duas semanas após a posse de JK, a 11 de fevereiro de 1956, ocorreu a Revolta de Jacareacanga, no Pará, liderada pelo major-aviador Haroldo Veloso e pelo capitão-aviador José Chaves Lameirão. Acusavam o presidente de supostas associações com grupos financeiros internacionais para a entrega de petróleo e minerais estratégicos, e de infiltração comunista nos postos militares de alto-comando. 

Em 3 de dezembro de 1959, em Aragarças, interior de Goiás, eclodia uma nova rebelião, com a participação de dez oficiais da Aeronáutica, três do Exército e alguns civis mais radicais ligados às ideias do político Carlos Lacerda.

Os rebeldes denunciavam “a conspiração comunista em marcha”, que seria inspirada pelo governador do Rio Grande do Sul, Leonel Brizola. Iniciou-se com o sequestro do primeiro avião brasileiro, do modelo “Constellation” da empresa Panair. Em 36 horas, o movimento foi debelado através da conciliação e anistia aos rebeldes. 

As duas revoltas têm entre si, pontos de conexões anticomunistas e embrionárias aos ideais da futura “Redentora de 1964”. Com extrema maestria, Valentim expõe os meandros de Jacareacanga, assim como sua conexão com Aragarças, em torno de fatos e histórias pouco contadas pela historiografia, inclusive a militar. 

Do ponto de vista do olhar sociológico e histórico, nada escapa ao autor: racismo, divisão de classes, preconceitos, arbítrios, todas as mazelas sociais oriundas da estrutura capitalista, estão nesse livro.

O objetivo central reside em demonstrar o funcionamento da máquina de representações utilizada pelas Forças Armadas, para consolidar a relação entre o poder militar e o Estado, ainda que, em várias passagens.

Valentim não se intimida em acionar o chiste e bem pontuado “baixo calão” apropriadamente usado, diga-se de passagem. 

Sem a pretensão da escrita histórica, como bem afirma o autor, “A História – a real e não a escrita – não se comporta feito uma ciência exata, como a Física e a Matemática. Ela é humana, sujeita às inúmeras instabilidades humanas, por isso não é insípida. Os atores não são feitos de gelo ou de metal. Os episódios históricos são frutos de interesses humanos”.

Nessa rememoração, a narrativa de Valentim articula, como diria Paul Ricoeur, três sujeitos de atribuição da lembrança e da memória: o “eu” (autor) o “coletivo” (as FFAA) e os “próximos” (sociedade). Com isso, descortinam-se mitos, entre os quais, a separação entre “militarismo” e “sociedade”. 

A vida nas casernas se alimenta na sociedade e nela retroage. Muito mais do que se imagina, os fatos, segundo o autor, em sua conclusão, são provocados e “pessoas – gente de carne e osso – são induzidas à ação, de forma que os acontecimentos são processados de tal maneira que acabam passando a ideia de que o produto histórico surgiu por mera obra do destino. Estão aí para legitimá-los a mídia, o sistema judiciário e outros controles ideológicos do Estado”. 

No intuito de tecermos juntos os fios do tapete que ornamenta os quartéis, o autor nos convida a entrar nas salas, alojamentos e ranchos, dos Comandos, Comandantes e Comandados.

Vale à pena entrar.

Sigamos, portanto, nosso baluarte!

Serviço: 

O livro O País dos Militares e dos Bacharéis está à venda na Livraria Confraria do Livro, Cipriano Santos, 211 em Canudos, quase de canto com a Nina Ribeiro, duas ruas após o Terminal Rodoviário de Belém. Você também pode comprar pela internet, no seguinte endereço:

http://www.autografia.com.br/produto/o-pais-dos-militares-e-dos-bachareis/

Em Dois Vizinhos – PR: Livraria Copo-de-Leite.

Ou mesmo com o autor.

*Cássio de Andrade possui graduação em Licenciatura Plena em História pela Universidade Federal do Pará (1990) e Mestrado em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Pará (2006). Foi Doutorando em Sociologia pelo PPGCS/CFCH/UFPA. Atualmente é professor do ensino médio da Escola de Ensino Fundamental e Médio Tenente Rego Barros. É também pesquisador associado da Universidade do Estado do Pará, professor da Secretaria Executiva de Educação e professor da Secretaria Municipal de Educação de Belém.

(Diógenes Brandão, 10jun2021)

L.s.N.S.J.C.!

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CAPITÃO da Aeronáutica lança livro sobre a Força Aérea Brasileira!

O AUTOR Antonio Valentim, capitão da Aeronáutica com 30 anos de experiência militar, lança o livro “O País dos Militares e dos Bacharéis”, no qual aborda as ações políticas da FAB, Força Aérea Brasileira, na década de 50. Inserindo na obra toda a sua vivência como militar, o autor reflete também sobre as questões históricas e sociológicas no ramo, como o racismo, a divisão de classes e as hierarquias, pontos muito presentes entre os militares.

Em entrevista ao Blog Autografia, Antonio conta mais sobre sua trajetória pessoal e profissional: “De família pobre, em 1977 tive a rara oportunidade de ingressar na Força Aérea Brasileira, Escola de Especialistas. Foi com base nessa experiência que resolvi escrever. Sendo autodidata, somente agora, já na terceira idade, tive contato com o meio acadêmico – faço atualmente o Curso de Letras pela Universidade Paranaense, a concluir neste ano. Passei por três casamentos, dois divórcios, resultando na numerosa prole de sete filhos (seis filhas, um filho). Sendo escrevente de quartel, a ideia de escrever era um sonho antigo, porém, devido às tribulações da vida, somente agora reuni as condições para tal”.

A inspiração para o autor produzir a obra surgiu através da Aeronáutica, mas também de uma história contada por seu pai, Manuel Valentim Moreira: “Ele contou-me sobre o brigadeiro Velloso, oficial-aviador que se envolveu em política partidária e acabou falecendo em decorrência de um ferimento recebido. Isto chamou-me a atenção para os aspectos políticos nos quais os militares costumavam se envolver amiúde, mormente numa determinada época de nossa história. Com isso, aprofundei-me nas pesquisas, resultando desse trabalho este livro. Também me inspirei num ex-colega de farda, o amigo José Augusto Moita, que escreveu o livro ‘Canudos ou Belo Monte: um outro olhar’. A produção da minha obra começou com o ‘BLOGUE do Valentim’. As ideias foram fluindo naturalmente à medida que eu mergulhava nas fontes (foram mais de sessenta obras consultadas). Ao final, pedi ao professor Cássio de Andrade, meu conterrâneo, que prefaciasse o livro”, relata ele.

Para Antonio, publicar o livro é realizar um sonho de décadas, o que traz uma sensação indescritível a um autor iniciante como ele: “As expectativas daqui pra frente são naturalmente em relação à receptividade que terá a obra dentre o público leitor brasileiro. Sabemos pela experiência que não é fácil a vida de escritor num país onde a maioria da população padece de toda a sorte de dificuldades, em que é minguada a parcela de leitores. Mesmo assim buscaremos o êxito nessa empreitada tão singular. Deixo um recado: ainda que estejamos em pleno século da tecnologia digital, procurem valorizar o livro impresso – ou mesmo na forma de e-book – e os nossos autores, principalmente os brasileiros. E não deixem de acreditar nos seus sonhos, que um dia concretizar-se-ão”. O livro “O País dos Militares e dos Bacharéis” está à venda em nossa loja online, adquira o seu exemplar clicando aqui!

Você encontra o livro em:

  1. loja on line da editora: https://www.autografia.com.br/produto/o-pais-dos-militares-e-dos-bachareis/
  2. em Belém – PA: Confraria do Livro – av. Cipriano Santos, 211 – São Braz.
  3. em Dois Vizinhos – PR: Papelaria Copo-de-Leite
  4. Com o autor: PiX: 23409240144

(Blog Autografia)

L.s.N.S.J.C.!

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QUEM disse que livro de história tem que ser chato?

O País dos Militares e dos Bacharéis é uma obra sem similares. Redigida em linguagem simples, ao mesmo tempo em que se enquadra como retrato de uma época, possui a pretensão de ser sociológica, uma vez que alude às origens sociais dos militares, em especial os da Aeronáutica – força à qual pertenço.

Antonio Valentim (arquivo pessoal)

Eu, Antonio Valentim, com base também na experiência de trinta anos de quartel, procuro focalizar a FAB e suas ações políticas na década de 1950. O texto não tem a preocupação de seguir uma linearidade temporal, embora os capítulos estejam ordenados em sequência cronológica. Por isso, com frequência abrimos parêntesis para apresentar situações passadas ou futuras. Ao mesmo tempo, apresento ao leitor ilustrações e comprovações do que estou narrando, sustentado em autores conhecidos ou não do grande público, numa farta bibliografia.

A brasilidade é outra características das páginas de O País dos Militares e dos Bacharéis. Sendo este autor três vezes brasileiro – produto genético do cruzamento do europeu com o africano e o nativo – faz neste livro homenagem ao país ao mencionar o estado de origem dos personagens ou mesmo dos autores consultados.

Uma obra tal como um livro, um filme, uma peça teatral, nasce da vontade de quem a idealiza. Ou talvez não. Quem sabe não nasça do acaso, da imaginação, de um olhar?

Acaba de chegar às minhas mãos as 348 páginas de O País dos Militares e dos Bacharéis, que redigi em seis meses. Mas não começou aí. Como eu mesmo digo naquelas páginas o sr. Manoel Valentim, meu falecido pai, ao mencionar o nome do brigadeiro Veloso e suas ações políticas, despertou em mim o gene da curiosidade histórica. Quem teria sido Veloso? Não havia outro caminho senão descobrir.

Antes – é bom dizer – já havia em mim a habilidade, ainda que pequena, da escrita, escrevente de quartel que fui desde 1979, quando cheguei a Anápolis. Essa era uma das condições que já reunia e que me inclinava às escrivinhanças, que até então se reduziam aos ofícios, partes, memorandos, relatórios e outras papeladas aeronáuticas.

Era preciso a motivação e a oportunidade. A motivação deu-me o saudoso pai, e a oportunidade viria mais tarde.

E está aí o resultado de exaustivas pesquisas em que debrucei-me sobre oitenta fontes, entre livros de todas as épocas e de autores conhecidos e desconhecidos, e de revistas, jornais e arquivos de época.

Boa leitura!

L.s.N.S.J.C.!

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UM CERTO capitão Buck Rogers!

UM DIA desses lembrava do Martins, um colega de turma da Escola, onde convivemos, nós quase quinhentos jovens, de 1977 a 1979, Guaratinguetá, São Paulo. Martins também era conhecido pela cidade onde nasceu: Manaus.

O capitão Buck Rogers, 500 anos depois (fonte: Internet)

Pois bem!

Manaus era do tipo expansivo, falante, fazedor de graça e tirador de sarro com todo o mundo. Incomodava a uns e fazia rir a outros, mas, creio eu, a grande maioria não o levava a mal. Ao contrário, nós nos divertíamos com a sua figura pitoresca, com a qual passamos com o tempo a simpatizar. Uma de suas manias era gabar-se por ser bom de Matemática, fixando-se em exagero pelo Teorema de Pitágoras. Qualquer coisa era só aplicar Pitágoras. Pitágoras aqui, Pitágoras ali…

Mas quase leva bomba em Português. Se não fosse o sargento J. Carlos mandar adulterar a ficha do Manaus! Bem, essa é outra história que agora não convém lembrar, mesmo passados mais de quarenta anos.

Depois de formado, Manaus foi bater lá em Anápolis. Éramos uns trinta ou 35 que fomos classificados por término de curso lá.

Aí, já graduado terceiro-sargento, um de seus papos era sobre o temor que o sargento tinha de “levar carona”. Levar carona era uma expressão, uma gíria, usada por nós para definir quando o militar deixava de ser promovido na época prevista. Isso acontecia geralmente por baixa avaliação profissional. Também acontecia de se levar carona por estar envolvido como réu em processo judicial, ficando sub judice, ou seja, aguardando julgamento. Podia ser até por um acidente de trânsito ou coisa assim.

Manaus andava a dizer que não queria se tornar um sargento Buck Rogers. O Índio sempre esperava alguém perguntar: “Buck Rogers?”. Se ninguém perguntasse, ele mesmo completava a informação: Buck Rogers era um personagem de uma série de tevê norte-americana, que permaneceu mais cinco séculos como capitão.

Na história televisiva Buck Rogers no século 25, o capitão William Buck Rogers é um astronauta que numa experiência científica é acidentalmente congelado no século vinte e só acorda no século 25, isto é, o capitão desperta quinhentos anos depois. Daí a expressão usada por Martins por associar um personagem que ficou quinhentos anos na mesma patente de capitão a um sargento que não foi promovido na época certa. E (cá pra nós!) havia um número considerável de sargentos nessa condição indesejável na Base Aérea de Anápolis. Naquele tempo.

O capitão Kirk (fonte: Internet)

O tempo passou. Infelizmente o nosso amigo Manaus não está mais neste plano, porquanto um acidente aeronáutico acabou levando o Índio mais cedo deste mundo. Vieram para mim as promoções no tempo certo, merecendo-as ou não, e eis que ingresso um dia no oficialato, chegando ao posto máximo: capitão. Como jamais serei promovido a major, ficarei no posto eternamente lembrando o capitão Buck Rogers do amigo Martins.

No Exército, na Força Aérea, nas polícias estaduais e nas corporações de bombeiros capitão é uma patente militar superior a primeiro-tenente e inferior a major. Já na Marinha, há várias patentes de capitão: capitão-tenente, capitão de corveta, capitão de fragata e capitão de mar-e-guerra. Na marinha mercante, capitão é o comandante do navio ou barco.

O teatro, os livros, o cinema e a televisão nos trouxeram outros capitães. E essa patente é com certeza a mais lembrada da ficção, desde o capitão Nemo, de Júlio Verne.

Vieram os eternos capitães América, Marvel, Caverna, Fantástico, Gancho, entre tantos outros.

Mas há outros capitães, fictícios ou não, de todo o tipo: heróis e vilões, da cidade e do mato, em pessoa e em desenho, sérios e debochados, fardados e à paisanas, militares e civis, da Terra e do espaço sideral…

Exemplos:  Rodrigo Cambará, criação de Érico Veríssimo; capitão Balbino, da música Samarica Parteira, na voz de Luís Gonzaga; capitão Virgulino, o famoso Lampião cangaceiro nordestino; capitão Canguru, mencionado no filme Forrest Gump; os abomináveis capitães-do-mato, caçadores implacáveis de escravos negros fujões; os debochados capitão Gay, do Jô Soares, e o capitão Feijão, obra do cartunista paraense J. Bosco; o capitão Kirk, da nave interestelar Enterprise; o capitão Crane, do submarino Seaview, em Viagem ao Fundo do Mar; outros menos conhecidos como o capitão Bumerangue e o capitão Frio.

Na série de tevê Jeannie é um Gênio, de bastante sucesso aqui no Brasil nos anos 1960 e 1970, nos primeiros episódios o major Nelson (Larry Hagman) era capitão. Logo foi promovido, porém, tornando-se o imortal major sortudo, amo da mais bela gênio de todo o mundo, imortalizada por Barbara Eden. Anthony Nelson livrou-se da sina de ser um capitão Buck Rogers, que jamais seria promovido.

Afinal, o Martins estava certo. Ao menos quanto a mim, que virei capitão para o resto da vida.

(reeditado da postagem de 5jan2018)

Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo!

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O BARÃO de Maracanaú!

NESTES nossos trinta anos de Força Aérea presenciamos diversas situações insólitas, além de tantas outras que chegaram ao nosso conhecimento. A bem da verdade, nós mesmos chegamos a protagonizar alguma delas. De fato, a FAB abriga em suas fileiras uma variada fauna e flora, cujos atores são os milicos mais versáteis, criativos e heterogêneos. Dos mais sérios e empenhados em fazer da forma mais correta possível o seu trabalho aos come-e-dorme, chama-nos a atenção os que encaram a caserna como um grande teatro de comédias, procurando levar a rotina na flauta ainda que não seja músico. Há, ainda, aqueles que frequentam todos os lados, ora procurando trabalhar bem, ora praticando efeitos especiais a la Spielberg.

Com efeito, as severas exigências cotidianas do sistema, por vezes, não merecem ser levadas a sério, resultando que, a fim de não enlouquecer, os praças das Forças Armadas e parte de seus oficiais precisam encará-las a força de larga dose de escárnio e picardia. Era o caso do suboficial Carlos Alberto Siqueira de Lima, cujo nome verdadeiro agora, por ética, não podemos revelar; não achando outro até o final desta leitura, fica esse mesmo. Lima era, por assim dizer, um gozador, um tirador de sarro por excelência, posto que, tecnicamente, um grande profissional, não raro recebendo elogios da Subdiretoria de Pagamentos por cem por cento de acertos a cada mês na função de coordenador de saques da subseção de finanças da Base Aérea de Fortaleza.

Vejam agora o suboficial Lima. Encontra-se nesta tarde ensolarada a cotejar com atenção o boletim financeiro mensal com as fichas de atualização financeira de cabos, soldados e taifeiros. É claro que o leitor sabe o que significa o verbo cotejar, que nada mais é do que conferir os dados do primeiro documento com os do segundo, certificando-se dos acertos do sacador, ao mesmo tempo que aponta alguns erros. Era assim naquele tempo em que o computador era a máquina de escrever ou mesmo a munheca a lançar manualmente números e cifras no formulário.

Pois bem. Está concentrado nesse trabalho quando toca o telefone. “Barão, quando sai o pagamento do mês?” Lima dá uma risada sarcástica: “Deixa de ser lascado, hômi!”. E logo completa: “Dia 29 que vem.”. Repôs o velho aparelho no gancho e toca outra vez: Dessa vez é a secretaria do comandante do Esquadrão de Intendência. “Sub Lima, o major Deocleciano quer falar com o senhor agora”. “Caramba, o que será que esse fela quer comigo dessa vez?”, resmunga o velho sub.

O sub velho ao entrar na sala junta os dois calcanhares fazendo, ao mesmo tempo, uma continência relaxada quase ao nível de uma misura: “Não me pergunte se sou capaz, meu bom major, dê-me a missão”, repetia já quase mecanicamente a frase de efeito, que em geral provocava disfarçadas risadas em quem estivesse por perto. O major já o conhece, porque ele próprio é um veterano na Base Aérea de Fortaleza, tendo chegado à Unidade aspirante e, como tenente e capitão, passado por todos os cargos da Intendência. Quanto a Lima, agora um veterano, adentrou o portão das armas da Base Aérea como segundo-sargento, a partir de então segue percorrendo todas as funções na Tesouraria. Foi sacador de pagamento de soldado, depois de sargento, mais tarde de oficiais e agora, considerando a sua antiguidade e experiência na área, vemo-lo no cargo de coordenador de saque. Não, não estranhe o leitor a rotina à qual a maioria dos humanos acomoda-se. Tem gente que, marcando passo, permanece a vida inteira fazendo a mesmíssima coisa. Obrigado, Senhor, por essa rotina e pelo pão certo garantido a cada dia e soldo sagrado no final do mês. Querem ver um exemplo. Foi o próprio Barão de Maracanaú, como era conhecido o suboficial nas rodas de cerveja, samba e cachaça, que nos contou:

Base Aérea de Fortaleza (imagem: Google)

No mesmo ano em que Lima graduou-se sargento na Escola, o soldado Bezerra, seu vizinho de rua, havia sentado praça na polícia. Isso havia sido há mais de vinte anos. Já decorrido esse tempo todo, numa de suas frequentes idas a Maracanaú, o suboficial percebe extraordinário movimento na casa do soldado Bezerra, por sinal seu conterrâneo. “O que houve hômi, por que não me convidou?” A razão da festa era a promoção de Bezerra a cabo. “Mas jaááá?!!” Ao que o pobre homem, radiante e em sua simplicidade longe de perceber a ironia explícita do amigo, responde-lhe, faceiro, com outra pergunta: “E eu drumo?!”

“Sub Lima, eu o chamei aqui para parabenizá-lo pelos seus excelentes serviços e, em nome do comandante, quero dizer-lhe que o indicamos para receber a medalha Mérito Santos-Dumont”. Lima, enquanto escuta do major a notícia, vai dizendo para seus botões: Esse fíi de quenga vai me fazer comprar um quinto A novo!. Por um instante pensa em expressar a ideia, mas em vez disso, agradece a escolha e, já fazendo menção da continência, ouve ainda o major Deocleciano, ao medir o suboficial de alto a baixo, complementar: “Então, meu suboficial, de agora em diante você trate de andar com essa camisa bem engomada, a calça vincada, o cabelo cortado no padrão regulamentar e os sapatos bem engraxados”. Aí já é demais. “Mas, major, se eu fui escolhido pra receber essa medalha, é sinal de que eu estou bem assim mesmo.” Disse assim e saiu da sala, deixando o superior hierárquico sem palavras.

Mas o sistema, que possui boa memória, também tem das suas. Vejam só.

Na semana seguinte, Deocleciano chama o velho suboficial novamente à sua presença. Que será que esse corno quer agora? “Não me pergunte…”, ao que o major faz um gesto reprovador com a mão, interrompendo-o. “Lima, nós avaliamos melhor e o comandante achou por bem retirar o seu nome da relação dos condecorados”. Com o rosto espelhando satisfação, o sub assim se dirige ao major: “Muito obrigado, major, muito obrigado mesmo. Eu ia ter que fazer o treinamento e, como faz tempo que não faço essas coisas, ia acabar errando o protocolo. O major, comandante do Batalhão de Infantaria, ia me dar mijada, e ainda ia ter que mandar fazer um quinto A novo… Muito obrigado, major”.

Eis que nessa mesma época o Alto Comando determinava ao Comando-Geral de Pessoal que transferisse pessoal para as novas bases aéreas que estavam sendo construídas e prestes a ser inauguradas: Boa Vista e Porto Velho. A fim de compor o efetivo das respectivas seções de finanças dessas unidades necessário era reunir profissionais experientes. Devido aos elogios que Lima havia recebido, e não se sabe porque outras razões, o nome do Barão foi o primeiro da lista. Seria transferido para a Base Aérea de Boa Vista. O leitor amigo, do meio civil, pode até imaginar que uma movimentação como essa jamais seria um problema, vez que o militar das Forças Armadas recebe soldo também para isso: servir o Brasil em qualquer ponto do território brasileiro, onde necessário for a sua presença. Não é bem assim. A diferença entre o milico e o civil, via de regra, é que um é fardado, faz continência e faz desfile militar: um dois, três, quatro… No caso, o suboficial tem esposa com atividade remunerada em Fortaleza, filhos fazendo curso superior em Fortaleza, uma casa humilde no subúrbio, vida toda enraizada em Fortaleza. Transferir alguém nessas condições seria como cortar as duas pernas do velho milico.

Não era a primeira vez que tentavam transferi-lo. Anos antes, publicou-se a movimentação de Lima para Brasília. Ele não foi. Naquela época, uma das condições para a efetiva transferência era ter disponível moradia funcional na Capital Federal. Na Prefeitura de Aeronáutica de Brasília, órgão que administra os imóveis da Aeronáutica, um colega de turma envia uma mensagem-rádio dizendo que não havia imóveis disponíveis. Passa-se um mês, dois… seis meses, e nunca havia imóvel disponível. Assim sendo, tudo indicava que o Barão de Maracanaú terminaria seus dias de FAB no seu velho Ceará querido. Não. O comando faz publicar em boletim um extenso elogio agradecendo os excelentes serviços prestados pelo veterano militar tanto à Unidade quanto ao pessoal efetivo da guarnição. “Coronel, eu vim aqui pedir para o senhor anular esse elogio”. “Por que, sub?”, reagiu surpresa a autoridade. “É o mesmo que o senhor mandar me darem vinte chicotadas no lombo e depois mandar me elogiar por ter resistido”.

Mas não teve jeito. Foi para ficar por longos dois anos em Boa Vista e assim o efetivo da Base Aérea ficar bem seguro em relação às respectivas folhas de pagamento. E Maracanaú sentiu a falta do velho barão.

L.s.N.S.J.C.!