HISTÓRIA de luta: fui à cidade passear

Capítulo 7, continuação da postagem anterior.

NÃO havia muitas opções de diversões numa cidade do porte de Guará naqueles anos, essa foi a minha primeira impressão; e ainda que houvesse, os poucas cédulas de cruzeiro no bolso não me davam como usufruí-las. Ainda assim era melhor que ficar na Escola, e a simples visão de gente diferente, sem uniformes, já era por si só compensadora.

Existia uma praça, a principal da cidade, de formato circular, acho que o nome é praça Rodrigues Alves, que os alunos, com irreverência, chamava de errepeeme (rotações por minuto). Fixei minha atenção a um grupo, em particular; alguns rapazes em conversa animada com uma jovem, que, desinibidamente, correspondia distribuindo sorrisos e simpatia – belo sorriso, sorriso que nunca vira antes, um charme. Se não chegava a ser muito bonita, também não era feia; exibia um quê de diferente.

Na padaria, outros alunos bebendo cerveja ou mesmo fazendo um lanche; um e outro ainda na fila do cinema. Dei três ou quatro voltas pela errepeeme.

Ao passar pela segunda vez, notei o Almeida numa elegância de fazer inveja a artista de tevê; alinhado, bastante alinhado. O Almeida Silva era meu conterrâneo, paraense,  e só podia ser filho de pai rico, pois, não obstante o pagamento não tivesse saído, trajava roupas muito elegantes e caras, adequadas ao o inverno reinante naquele período do ano. Um homem engraxava seu sapato marrom de couro legítimo, que recebeu em paga uma uma cédula de cem cruzeiros, valor bem acima do normal, dispensando o troco.

Na terceira ou quarta volta, verifiquei que um homem de meia idade, também elegantemente trajado, fitava os alunos que passavam, se demorando um pouco mais nos mais altos e fortes. Duas vezes, pelo menos, ouvi dizendo que ‘Aluno só é pobre porque quer’. Falava em tom suficiente para que ouvissem, não se importando em ser discreto, os demais circunstantes já acostumados àquelas insinuações. Não entendi bem o que o velho queria dizer com aquelas palavras; só mais tarde fui saber que se tratava de alguém bastante endinheirado; ele era fornecedor exclusivo de fardamentos para todo o Corpo de Alunos, também explorava o aluguel de armários, onde os alunos faziam parada obrigatória para trocar do uniforme de passeio para os trajes civis, quando vinham à cidade (naquele tempo era proibido sair da Escola em trajes civis). Chamava-se Romeiro Dias. Um ou outro aluno virava motivo de piada entre os demais, com ou sem razão; mas a verdade mesmo é que tinha aluno sempre esbanjando, nem se importando para a crise.

Antes, na mesma roda em que a mocinha divertia os alunos, notei que estava entre eles o Formoso. ‘Este é o meu amigo Formoso’, disse à moça um outro cujo nome agora não lembro, fazendo a apresentação do Formoso. ‘Formoso, não; Ricardo.’, respondeu o amigo Ricardo Formoso de Sá, com vergonha do nome.

De fato, ‘Ricardo’, aos ouvidos de uma jovem, ficaria bem melhor que o sisudo e incomum ‘Formoso’, como era conhecido entre nós. Formoso era na verdade uma figura, uma grande figura. À medida que os jovens, um a um, iam saindo da conversa, Ricardo ou Formoso arranjava um jeito de insinuar-se à jovem. Ficou ao final ele somente e ela, e eu na distância em que me encontrava ainda pude ouvi-lo falar assim:

– Menina, quer namorar comigo?!
– Ah…
– Sou aluno da Escola… olha o meu relógio de pulso.

Formoso era assim mesmo, direto, chegando a ser grosseiro ou mal educado, de maneira que, sem que o quisesse, gerava espécie de repulsa. Foi o efeito causado naquele momento. A moça, meio que sem jeito, permaneceu ali por alguns minutos ainda, olhando em volta, com vergonha, até que, pedindo mil desculpas inventou algum assunto que justificasse a sua saída, dizendo que tinha um compromisso e que já estava atrasada, ou coisa assim, deixando nosso amigo ali, falando sozinho e com um sorriso pálido. Entendi, mais tarde, que embora a moça se insinuasse, não queria ali, diante do inesperado, deixar evidente que era do tipo fácil. Se fazia de gostosa, daquele tipo que toma a iniciativa, mas que recua quando esta mesma iniciativa parte do sexo oposto. Os psicólogos e outros especialistas da área têm para isso certamente um explicação. Era apenas ser mais sutil, menos incisivo, e com o primeiro rapaz, de preferência aluno da Escola, estaria ali de agarra-agarra. Pelo menos foi a impressão que me causou, a primeira impressão, que nem sempre é a que fica. Era por essas e outras razões que existia uma espécie de rixa, uma rivalidade tácita, entre os rapazes da cidade e a alunada, coisa que era ignorada pela maioria de nós.

Ouvia falar muitas vezes numa tal Maria do Ceá, a quem nunca fui apresentado, mas cuja imagem ficou para sempre na minha cabeça como sendo a da tal moça da errepeeme daquela noite de sexta. Outros dias, nos outros finais de semana que se seguiram, passava pela mesma praça, indo em direção a outros pontos, que não eram muitos, na vã esperança de revê-la.

Algum tempo depois descobri uma certa palavra, o ‘findu’, palavra esta que abria as portas de tudo o que era boteco e loja. O bar da portuguesa, onde éramos bastante assíduos, passara a ser parada quase obrigatória nos sábados, em razão da facilidade de crédito (e também das meninas de lá, verdade seja dita). ‘Fica para o findu?‘, essa era a senha mágica, que abria tantas outras portas. Na verdade o que abria as portas mesmo era a nossa condição de alunos da Escola de Especialistas, cujo salário no findu era garantido, e nossa inadimplência era severamente punida.

Quatro voltas na RPM e uma sessão de cinema. Encerrada a saga de Rock, o Lutador, voltei à Escola. Felicitei-me quando o coletivo da Pássaro Marrom cruzou o portão das armas. Como a gente é estranho! Na Escola, era muito normal ficar incomodado com a agitação, as cobranças, o estresse, o compromisso, o corre-corre, as formaturas, o Caveirinha, o boi-ralado… Fora dela, sentia falta. Vai entender o ser humano! Ainda mais se este foi um dia aluno da Escola de Especialistas, e ainda por cima um arataca como eu. Ademais, uma porrada de apostilas estavam à minha espera, prontas para serem devoradas. A responsabilidade me chamava ao berço, e eu não podia dar mole. (Blogue do Valentim, Dois Vizinhos – PR, Brasil)

Continua… 

UMA VELA nada perde quando, com sua chama, acende outra que está apagada.” Orison S. Marden
“AMAI-VOS uns aos outros como eu vos tenho amado.”

AERONÁUTICA forma mais 663 novos sargentos

DISCIPLINA, amor e coragem. Esses foram os sentimentos que marcaram a cerimônia de formatura dos 663 novos sargentos da 233ª turma do Curso de Formação de Sargentos (turma Orion) e da 17ª turma do Estágio de Adaptação à Graduação de Sargento (turma Harpia), realizada nesta sexta-feira (25nov.), na Escola de Especialistas de Aeronáutica (EEAR), em Guaratinguetá (SP).

Presidida pelo Ministro da Defesa, Celso Amorim, acompanhado do Comandante da Aeronáutica, Tenente Brigadeiro do Ar Juniti Saito, a formatura foi marcada pela alegria dos formandos. Os mais de seiscentos novos Sargentos, além das turmas do primeiro, segundo e terceiro semestres, desfilaram e cantaram com vibração e orgulho pelo feito alcançado.

“Este é um momento de intensa alegria familiar, em que anos de devoção, amor e altruísmo deram fruto ao mais nobre sentimento de vitória. Persigam seus objetivos com dedicação, coragem e honestidade de propósitos, pois estes valores os conduzirão à conquista de seus maiores sonhos”, disse o Comandante da Aeron  áutica dirigindo-se aos formandos e familiares.

No dispositivo que mostrava uma divisa de Sargento, os formandos receberam de seus familiares o mais aguardado presente – a insígnia de Terceiro Sargento da Força Aérea Brasileira (FAB).

Os formandos Victor Rodrigues da Silva, Abner de Oliveira Cruz e Pedro Victor Siqueira Lima receberam prêmios do Ministro da Defesa e do Comandante da Aeronáutica pelas primeiras colocações em seus respectivos cursos.

“Estamos todos muito emocionados. Meu pai, marido, tios e filhos, todos são militares. Estou muito feliz da minha filha também ter seguido esse caminho. Ela nos deixa muito orgulhosa por esse feito alcançado”, disse emocionada Fantine Carvalho Minuzzi, mãe da Terceiro Sargento Nádia Minuzzi, uma das mais nova controladora de tráfego aéreo da FAB.

O Ministro Celso Amorim lembrou a importância daquele momento para os formandos.

“Posso dizer que essa é uma das mais belas, senão a mais bela formatura que já estive. Este é um momento especial. Vejo no rosto de cada um de vocês a vontade e o desejo de cumprir o seu dever. Fico emocionado ao ver as famílias dividindo esse momento crucial para suas vidas e para o nosso país”, afirmou o ministro.

Após a apresentação do Clube de Ordem Unida, os novos sargentos formaram o Gládio Alado – símbolo da Força Aérea Brasileira – no pátio do comando. Ao som da canção do especialista, desfilaram pela última vez. Para encerrar, o último grito de guerra foi cantado a plenos pulmões pelas turmas Orion e Harpia. O “fora de forma” abriu caminho para a nova carreira.

EEAR – 70 anos de história

A Escola de Especialistas de Aeronáutica foi criada no mesmo ano que o Ministério da Aeronáutica, em 1941. O berço dos especialistas forma todos os anos cerca de 1000 alunos em 27 especialidades distribuídas em dois cursos: o Estágio de Adaptação à Graduação de Sargento (com duração de seis meses) e o Curso de Formação de Sargentos (com duração de dois anos).No início, a escola era localizada na Escola de Aviação Naval, na Ponta do Galeão, na Ilha do Governador (RJ). Em 1950, a escola se mudou do Rio de Janeiro para as salas de aula da Escola Prática de Agricultura de Guaratinguetá (SP). Desde essa mudança, mais de 63.000 sargentos já passaram pela Escola de Especialistas. Atualmente, a escola ocupa aproximadamente 10 milhões de metros quadrados, contendo 125 prédios administrativos e 415 residências militares. A partir de 2002, a EEAR passou a receber também mulheres. Na turma deste ano, 263 mulheres se formaram. (fonte: Agência Força Aérea)

Parabéns aos novos sargentos especialistas. Que vocês saibam honrar os ensinamentos ministrados na velha Escola.

HISTÓRIA de luta: coisa boa o que é?!

 Capítulo 6, continuação da postagem anterior.

O MAIOR pesadelo para alunos despreparados, como eu, era, sem dúvida, a possibilidade de não concluirmos o curso, fracassando pelo caminho. Não importava a razão do insucesso, fosse ela insuficiência intelectual, doença ou questão disciplinar. Havia um letreiro que, mais ou menos, dizia assim: ‘Os covardes nem tentaram, os fracos ficam pelo caminho; só os fortes vencerão‘.

O medo, no Corpo de Alunos, era uma coisa intencionalmente disseminada, creio eu. Tinham lá as suas razões, a que atinei somente algum tempo depois (como era lento!), que eram as de fazer o aluno esforçar-se, levando a sério as suas atividades e os estudos. Responsabilidade é uma condição sine qua non para um bom sargento especialista.  Naqueles primeiros dias nós não tínhamos tal visão, e para mim aqueles caras estavam ali somente para tornar a nossa vida bem mais difícil. Míope!

No primeiro semestre, para aqueles jovens que nunca tinham servido as Forças Armadas como soldado, obrigatoriamente, em caso de desligamento por deficiência intelectual, destinava-se a permanência, uma sobrevida na Escola, como recruta, com vistas a completar o ano obrigatório preconizado em lei. Findo o ano compulsório, ser-lhe-ia dada a opção de pedir renovação de tempo, como a qualquer outro soldado da Aeronáutica em serviço militar obrigatório, podendo até, se quisesse, candidatar-se ao Curso de Formação de Cabos, CFC, ou até mesmo matricular-se no concurso para voltar ao CA. Diariamente se ouvia a notícia sobre um ou outro aluno, desligado do curso, cujo rumo tinha sido o da Companhia de infantaria, aquele mesmo local onde dormi na primeira noite de Escola. Várias vezes mesmo eu vi o Armindo circulando pelas dependências da Escola, nas lides de soldado, depois cabo, e mais tarde de volta como aluno. Era um exemplo de persistência, de força de vontade, alguém que não se deixou abater pelo insucesso momentâneo. Esse exemplo fortaleceu em mim a ideia de que Deus não permite a nós que uma derrota seja definitiva; só depende de nós.

Para mim, em caso de insucesso, que na minha cabeça era de grande probabilidade, essa seria uma saída, o meu plano B. Ficar na Escola na condição de soldado, com um salário garantido por algum tempo, era para mim uma saída honrosa. Desonra mesmo seria voltar para a minha Belém do Pará com uma mão na frente e a outra atrás, um derrotado a submeter-se ao riso sarcástico do Palheta e do Gonzaga, antigos colegas de preparatório, que antes desdenhavam da minha pretensão. Daria um tempo na companhia IG, como soldado, enquanto me preparava para a volta ao CA numa condição intelectual mais favorável. Todavia, enquanto houvesse vida e esperança, e eu não estava disposto a entregar-me ao fracasso, existia chance, ainda que não muito grande, havia a mínima chance de aprovação nos bancos escolares, ainda que ficasse na última colocação. Qual a diferença entre o primeiro colocado do curso, o aluno zero um – como se dizia -, e o zero último? Ambos sairiam sargentos, ambos formados, ainda que este fosse mandado a servir em qualquer localidade indesejada. O importante era sair sargento.

Esses pensamentos nada otimistas insistiam em passear com relativa frequência pela minha mente, ciente das dificuldades que eram naqueles primeiros dias maiores do que imaginara.

O tempo passava e os quarenta dias de internato a nós impostos estavam quase a seu termo. O primeiro pagamento, que é bom, nada. Nas longas corridas após o aquecimento da instrução de educação física, entre as tantas musiquinhas cantadas para motivar a alunada, uma delas dizia assim no refrão: ‘Coisa boa o que é? Sexta-feira e mulher!’. O tempo passava célere,  estávamos a um dia do licenciamento.

Enquanto a tão sonhada sexta-feira não vinha, o humor, a descontração e a irreverência eram as maneiras que encontrávamos para espantar a tristeza e o cansaço. Nas corridas, era comum alguns alunos motivarem o grupo com cantigas, rimas ou mesmo palavras soltas e frases engraçadas.

– De que vale o céu e o mar
– Se está cheio de preá
– De que vale o céu azul
– Se está cheio de urubu

O Brito era um dos que agitavam. Estávamos uma vez correndo pela estrada que dá da vila dos sargentos ao hospital, passando por uma escola. Nosso grupo corria forte, e uma jovem – dezoito, vinte ou pouco mais – caminhava um pouco adiante, de forma que seria alcançada pela tropa em instantes. O Brito mandou um engraçado ‘olhar à direita’. As formas da moça enganaram nossos olhos, frustrando nossa expectativa, pois ao ultrapassá-la notamos que o seu rosto não correspondia às belas formas do corpo. Que pena! Brito não perdeu o senso de humor:

– Cessar os olhares lânguidos!

Risos. A quarentena estava a um dia e a turma, com os hormônios à flor da pele, não via a hora de, pelo menos ver, conversar, relacionar-se com uma pessoa jovem do sexo feminino (era outra tirada do Brito), pois àquele tempo estávamos fartos de ver somente as senhoras lavadeiras e suas filhas que as acompanhavam eventualmente.

Chegou ela. Adivinha quem? Ela, a sexta-feira. Coisa boa! Às cinco da tarde, a moçada em forma ali no enorme pátio, de uniforme de passeio, o quinto uniforme, imóveis ouvindo as últimas instruções, recomendações, leituras e, simultaneamente, a obrigatória revista de uniforme. Quedavam-se ansiosos pela primeira liberação.

O sargentos da esquadrilha e o próprio comandante passavam de fila em fila, aluno por aluno, olho de cima a baixo, da cabeça aos pés, em busca de algum desalinho. De vez em quando algum se detinha por mais tempo, para, em seguida, anotar alguma coisa na caderneta. Na minha vez, o próprio comandante da esquadrilha deteve-se por mais tempo. O suor escorria-me da face, as pernas principiavam a tremer e o coração acelerava. Meu Deus, ficarei preso ou coisa assim! Fiquei naqueles quatro ou cinco segundos, que para mim pareciam longos minutos, a imaginar em que estava errado em mim. Seria a barba mal feita, o sapato mal engraxado? O que tinha feito de errado nos dias anteriores, a ponto de chamar a atenção mais delongada da autoridade que se ocupava da minha desajeitada figura? Ou será que ele nunca vira alguém tão desajeitado como eu? Finalmente resolveu falar:

– Aluno! Essa sua calça, assim com a bainha mal costurada está um lixo, um cocô. Se passar um caminhão de lixo, você vai ter de fazer um grande esforço para não ser levado junto.

A casa caiu! Pensei comigo. A calça que o alfaiate me pagou ficava bem mais longa, por isso foi necessário encurtá-la, ficaram à mostra os vincos antigos (ou seriam os pontos de linha mal feitos?). E agora? O meu final de semana estava comprometido. Terminou sua fala e seguiu adiante para vistoriar o próximo aluno da fila.

Terminada a formatura de revista foi dado o fora-de-forma. A alunada naquela alegria, e todos do Rio de Janeiro seguiam para seus ônibus com destino à cidade maravilhosa e cidades próximas; o mesmo faziam os de São Paulo, capital e interior. Os de mais distante, Ceará, Bahia, Rio Grande e demais estados, tinham de se contentar em ficar ali mesmo em Guaratinguetá, quando muito arriscavam-se por Lorena, Aparecida e região. Nessas ocasiões, os cariocas costumavam zombar da gente, denominados de forma pejorativa como ‘paraíbas’. Qualquer um nortista ou nordestino era chamado de paraíba pelo carioca; de baiano pelo paulista:

– Chora paraíba, paraíba chora. Chora paraíba, carioca vai embora!

Isso agravava mais a saudade da terrinha, da mãe, do pai, dos irmãos, da namorada (no caso dos que ainda tinham uma).

Assim, todos tomavam o seu destino. Menos eu e mais dois ou três colegas, que, por algum desalinho de uniforme, barba mal feita ou outro problema qualquer, foram também apanhados naquela malha fina da sexta-feira. Apresentando-nos ao sargento, este portou-se com fidalguia, tratando de nos acalmar; disse que daquela vez, por ser a primeira vez, o comandante nos anistiava, mas que não voltássemos a reincidir em erro. Ufa! O final de semana estava salvo; nem atinei para o excessivo rigor, que para mim também era novidade.

O dinheiro de que dispunha mal dava para um cinema, nem sei se dava para a pipoca. Mas não importava. Rumo ao ponto de ônibus, direção à cidade! (Blogue do Valentim, Dois Vizinhos – PR, Brasil)

Continua… 
“AMAI-VOS uns aos outros como eu vos tenho amado.”

SOLDADOS concluem cursos de capacitação em Manaus

O Sétimo Comando Aéreo Regional (VII COMAR) realizou (18nov.) a cerimônia de encerramento do projeto Soldado Cidadão 2011. O projeto, realizado em parceria com a Fundação Nokia de Ensino, formou sessenta soldados que serão licenciados, por término do tempo de Serviço Militar, dos quais, trinta soldados no curso de manutenção mecânica e trinta em eletricista residencial.

O Projeto Soldado-Cidadão já qualificou, socialmente e profissionalmente, mais de 150 mil jovens que prestaram o Serviço Militar. A ação do Ministério da Defesa prepara os participantes para ingresso no mercado de trabalho.

O projeto foi lançado oficialmente pelo governo federal em 2004, passando a beneficiar as três Forças Armadas, com uma média anual de 20 mil jovens qualificados em todo o território nacional. Em 2011, o projeto foi coordenado pelo Tenente-Coronel Aviador Osmari e executado pelo Serviço Social da Guarnição de Aeronáutica de Manaus – SESO MN. (www.fab.mil.br)

 

HISTÓRIA de luta: a dura rotina dos primeiros dias

 Capítulo 5, continuação da postagem anterior.
QUINZE MINUTOS era todo o tempo de que cada um de nós dispunha para acordar, levantar, arrumar a cama, vestir-se, urinar, lavar o rosto, escovar os dentes, fazer a barba, e correr para o pátio a fim de, em turma, seguir para o refeitório. O aluno de serviço estava lá no pátio, doido para anotar os atrasados, sem lhes dar a mínima chance de justificação. Os mais molengas ficavam para trás, formando um grupo separado, e já com a preocupação extra de encarar o sargento ou o comandante mais tarde. Teriam sorte se, como castigo, levassem apenas um serviço extra. Número dois nem pensar, ou ficaria sem o café. Aliás, para alguns era mais negócio perder o café, e gastar algum na cantina do portuga, que sofrer alguma punição. Para mim não; os cobrinhos já estavam escasseando, e com fome não conseguiria cumprir toda a dura rotina do turno matutino, agravando mais ainda as minhas dificuldades.Após o café, tempo suficiente para subir as escadarias a fim de buscar o material escolar, e posicionar-se para a formatura, respectivas apresentações aos mais antigos, além de outras formalidades, para em seguida desfilar rumo à sala de aula. O dia começava duro no Corpo de Alunos, ou C.A., como falávamos.

Chegando à DI (Divisão de Instrução), saíamos da formação, e, em fila, adentrávamos às salas de instrução. Feita a devida apresentação da turma ao instrutor, que tanto poderia ser um professor como um sargento designado (variava conforme o tipo de instrução que seria ministrado), era mergulhar nos livros, apostilas, cadernos, lousas e exposições orais que, a mim, me pareciam maçantes em sua maioria. Desde o começo ficou bem claro para meus colegas o critério de notas de testes e médias finais, sendo todas as provas com respostas objetivas, com quatro alternativas para a escolha de uma certa. A média de corte era 6,00, com direito a uma final e uma segunda época, como última chance para o aluno de poucas luzes, categoria em que este aqui se enquadrava. Detalhe: sem direito a chute; ou o aluno sabe ou deixa a questão sem resposta. O chutador era severamente punido com a anulação de uma resposta certa a cada três que errasse. Dura lex, sed lex. Estas regras me foram passadas posteriormente, já com o jogo em andamento; era mais uma penalização por ser retardatário no curso.

Os dois primeiros semestres (primeira e segunda séries) correspondiam ao chamado ‘ensino básico’, onde todos estudavam tudo. Português, Inglês, Desenho técnico, Eletricidade básica, Conhecimentos de Aviação, Matemática, Regulamentos, Instrução militar, Tecnologia básica e Armamento e Tiro, era o menu, não importando se a especialidade a ser exercida futuramente dispensasse o conhecimento de uma ou de mais áreas. Vencido o ‘básico’, os terceiro e quarto semestre seriam dedicados ao ‘ensino especializado’, conforme a aptidão do aluno ou mesmo a sua escolha. Assim, então somente a partir da terceira série, os alunos iriam estudar Controle de Vôo, Eletrônica, Fotografia, Armamento, Mecânica de Aeronaves, Eletricidade de Aeroportos, Metalurgia, Meteorologia, Viaturas, Enfermagem, Infantaria, Almoxarifado, Administração e outras especialidades.

Intervalo para o almoço e a tarde era geralmente preenchida com atividades mais práticas, em contraposição ao período matutino em que se estudava mais as disciplinas teóricas. Desta maneira, o aluno entrava em contato com instrução militar, aperfeiçoando os movimentos de desfile, gestos de continência e outros sinais de respeito, prática de tiro, instrução de educação física que terminavam em  geral com longas corridas.

Com o tempo, o período de ensino básico, para as turmas ingressantes nos anos posteriores, foi pouco a pouco dando lugar ao ensino especializado, de forma que o aluno, conforme a especialidade escolhida já no concurso, ao chegar na Escola já entrasse em contato direto com a especialidade que viria a exercer quando formado. Naquele tempo, não, e tinha a sua razão de ser, pois era o período em que o aluno, até mesmo desde o seu primeiro dia, nos seus exames preliminares de saúde, psicológico e intelectual, era já observado com vistas à escolha futura de uma das especialidades de interesse do Ministério da Aeronáutica. Com efeito, nem todos tinham aptdião para a especialidade desejada, e então era preciso seriedade. Aqueles caras, nossos superiores, eram profissionais, tínhamos de admitir.

Toda essa carga me esperava, isso e mais umas duas dezenas de encargos e obrigações, incluindo o plantão, a faxina, o boi-ralado e o caveirinha, e tudo com seus horários preestabelecidos, rigorosamente cobrados. A mim e a meus outros quinhentos e poucos colegas. Nossa missão era superar a todos os desafios que se interpunham entre nós e o objetivo final: formar-se sargento da Aeronáutica, cumpridos esses dois anos de ralação. Mas, quanto a este em particular, devo admitir que me recusava a pensar no futuro. Mirava tão somente o imediato, o hoje, e, quando muito, cuidava com um olhar meio de soslaio, assim de rabo de olho, o amanhã; o depois de amanhã ainda estava, para mim, muito distante.

Foi-se o primeiro dia, que encerrei com a visita obrigatória ao barbeiro à noite. Lembro-me de uma das primeiras perguntas do taifeiro que se encarregava de livrar-me daquela cabeleira, que nunca mais a veria na vida.

– Você é bicho?
– Como?! Na minha família não existe isso!
– Não é isso, aluno, ‘bicho’ é como se chama o aluno de primeira série. ‘Bicharal’ também é outra maneira, a mais comum até.
– Sim.

Nem precisava responder, pois estava na cara. A pergunta do barbeiro foi somente para tirar um sarro do caboclo aqui, que estava ali mais desorientado que cego em tiroteio, mais desaprumado que cachorro caído de mudança. O alfaiate, a quem visitei em um dos intervalos de dez minutos, encarregou-se de me deixar a caráter: premiou-me com uma túnica do uniforme de passeio, usada, que havia pertencido a outro aluno, desistente ou desligado do curso. O aluno, antigo dono da túnica, com certeza era bem mais alto e mais forte que eu, tão esmirrado naquela peça de uniforme, com a aparência mais aproximada de um Carlitos, o vagabundo, personagem de Chaplin, que de um garboso militar. Que fazer? Apenas agradecer e aceitar a oferta – eu tinha outra saída? – , como tributo pelo fato de estar ali naquele mundo como retardatário, um intruso que penetrou no salão de baile como que de favor, depois da festa iniciada. Nada a objetar, só dizer ‘sim, senhor’ e ‘não, senhor’ ou ‘quero ir embora’.

Mas o grande bicho-papão, o desligamento do curso, estava por vir à minha cabeça. Camburar o básico era então o primeiro objetivo, para mais tarde encarar o especializado.  (BLOGUE do Valentim, Dois Vizinhos – PR, Brasil)

Continua… 

A GRANDEZA não consiste em receber honras, mas em merecê-las.” Aristóteles
“AMAI-VOS uns aos outros como eu vos tenho amado.”

AERONAVE da FAB faz lançamento de cão paraquedista


 

 

PARAQUEDISTA do Exército e tem a cor marrom nos pés. Nesta semana (18nov.), na Base Aérea do Afonsos (BAAF), ele embarcou em um avião C-105 Amazonas do Esquadrão Arara (1/9 Gav). Adam é paraquedista, mas é um cão de oito anos, da raça Rottweiler. Integrante do 36 Pelotão de Polícia do Exército, ele saltou acompanhado por militares do Exército, na Zona de Lançamento de Itaguaí, neste último dia da Operação Saci. Há mais de 10 anos, a Força Aérea e o Exército não realizavam uma missão envolvendo lançamento de animais.

Adam foi o centro das atenções ao chegar na BAAF e posou para várias fotos. O cachorro saltou com seu próprio paraquedas e é um animal operacional. Empregado como cão de ataque, ele atua em missões de patrulha e esteve presente, inclusive, na operação de garantia da lei e da ordem no Complexo do Alemão. Sua preparação para o salto de hoje começou no início do ano e demandou estudo e adaptações que garantissem sua segurança.

Segundo o Comandante do 36º Pelotão de Polícia do Exército, Tenente Daniel Totto Bianco, foi realizado um estudo com apoio do Centro de Instrução e do Batalhão de Dobragem, Manutenção de Paraquedas e Suprimento pelo Ar (DOMPSA), ambos da Brigada Paraquedista. Ele lembra que um protótipo foi montado e, a partir dele, foram sendo efetuadas a modificações necessárias até que a melhor configuração fosse alcançada.

Utilizamos um equipamento de rapel, que foi desenvolvido pelo DOMPSA e que hoje é usado até pela Polícia Militar. Em cima dele, começamos a trabalhar os pontos de pressão, ancoragem e de distribuição do peso do animal“, destaca ele. (Agência Força Aérea)

HISTÓRIA de luta: os dois mais longos anos

Capítulo 4, continuação da postagem anterior

O CORNETEIRO tocou a alvorada às cinco da matina e o alojamento acordava. Era o meu primeiro dia amanhecido na Escola.

Depois do café, fizeram-me apresentar oficialmente ao Corpo de Alunos, roupa de cama e algumas peças de uniforme. Um grande pátio onde toda a alunada se reunia, formava e desfilava. No prédio em frente um grande letreiro azul: “À Pátria tudo se deve dar, à Pátria nada se deve pedir. Nem mesmo compreensão.”, palavras incompreensíveis para mim que, naquela década, era ignorante de tudo, ainda assim somente mais um pouco que hoje.

Mil informações tinha a assimilar quase ao mesmo tempo. Ao me reunir junto a um grupo menor já formado, um outro aluno, mais alto, mais forte, e que aparentava 23 a 24 anos, disse assim: “Mais um raquítico chegando”. Era o Martins, também conhecido por Manaus devido à sua origem amazonense. Indivíduo falante esse Martins, gabola e arrogante, a cuja figura de imediato antipatizei, que me dera ali as boas-vindas àquele mundo desconhecido.

Caí naquele solo de paraquedas. Tal qual uma criança, que vai descobrindo o mundo à medida que decorrem os dias e as horas, para mim até o menor detalhe significava uma grande novidade. Nem mesmo eu sabia que estava ali para ser milico! Pensava em me formar técnico da Aeronáutica, jamais associando antes essa formação a uma graduação militar. Não me censure a ignorância, é que a informação não era generosa como hoje. Desconhecia a diferença de sargento e de tenente, de cabo e de capitão. Ali estava como um burro olhando para um palácio, incapaz de compreender como tudo acontecia na minha vida tão rapidamente. Era um sujeito simplório e rude, quase um garoto, que era em tudo conduzido, a mente ali bombardeada, e que pacientemente aguardava o momento em que a cabeça e o corpo acostumar-se-iam de uma vez por todas com o novo mundo que iniciara.

Muita gente. Gente de todos os cantos do país. Do Rio Grande ao Amapá; do Rio de Janeiro ao Ceará, rapazes de todos os sotaques. Uns mais jovens, como eu, de 16 ou 17 anos; outros nem tão jovens, de 20 a 23 anos. Mundo heterogêneo: brancos, pardos, pretos, japoneses e índios; altos, medianos e baixinhos. As diferenças não se resumiam à aparência ou à origem, mas também – e esse era um aspecto interessante que somente viria a perceber ao longo dos dois anos letivos – quanto ao intelecto e à escolaridade. Alguns, principalmente do Rio de Janeiro, experimentaram excelente preparação técnica, e por isso obtiveram nos exames média alta; outros, nem tanto; outros ainda, como eu, lutaram com bastante dificuldade e precisaram tentar duas, três ou mais vezes. Não foi o meu caso quanto às repetições de exames, como já relatei, mas quanto à dificuldade encontrada, e – pior – quanto às dificuldades que viriam, que eu, naquele momento solene da vida, ignorava totalmente. Uns poucos já estavam no seu segundo ou terceiro semestre de Engenharia, Arquitetura ou Odontologia, decidindo adiar seu sonho por dois anos de estudos técnicos remunerados, ainda que o salário inicial representasse apenas alguns cifrões.

Quinhentos e poucos jovens na turma. Quatro turmas, sendo que o total de alunos beirava os dois milheiros de homens, cada turma um semestre adiantada em relação à outra. Desta forma, a turma mais adiantada, a quarta série, estava por menos seis meses de sua formatura. Em torno de quinhentos – um pouco menos por conta das inevitáveis reprovações ocorridas no período –  jovens em dezembro de 1977 galgariam o degrau tão sonhado: a formatura e com ela o título de terceiro sargento especialista da Aeronáutica, salário equivalente, e transferência para qualquer parte do Brasil, onde a Nação os designasse. No próximo semestre, a turma seguinte assumiria o posto desta última, fazendo a roda girar, de forma que a nossa vez só viria ao final do primeiro semestre de 1979.

Diferenças de origem, de raças, sotaques, costumes, temperamentos, credos e, por que não dizer, até de opção sexual.  Em público, esse assunto era um tabu naquela época. Mas, convenhamos em um grupo expressivo, de meio milheiro de pessoas, era quase impossível a inexistência de alguém, digamos, diferente da grande maioria. E entre nós não era difícil perceber quem desviava do habitual, uns três ou quatro talvez, exceção dos mais discretos. Cuidado, muito cuidado com isso que, uma vez descoberto o problema, significava rua, desligamento do curso. Outro tabu, sobre o qual nada se falava, pouco se via, mas que existia era o problema das drogas, a maconha; a cocaína e outros era coisa só de bacana, de cinema, mundo distante do nosso mundo real. Eu, ignorante de quase tudo, disso também passava ao largo, não suspeitando jamais de nada nem de ninguém. Como já mencionei, era apenas um Forrest Gump, integralmente despido de maldade, ingênuo mesmo, simplório, que vagueava no tempo e no espaço, imune a mazelas e problemas que a mim não diziam respeito. Minha única preocupação era sobreviver, superar as minhas próprias dificuldades, a timidez, a precária formação escolar, bem como vencer as adversidades que então se me apresentavam, mercê do total desconhecimento daquele mundo novo.

Em contato com as primeiras atividades, a par das minhas dificuldades, procurava esforçar-me para não fazer feio nem levar bronca ou sofrer algum tipo de castigo, do tipo ‘ficar na Escola no final de semana, impedido de sair para a cidade’. É bom lembrar que todos os meus colegas já estavam adiantados, quase que plenamente adaptados – menos eu. (BLOGUE do Valentim, Dois Vizinhos, PR, Brasil)

  Continua… 

NÃO podemos escolher como e quando vamos morrer. Podemos somente decidir como vamos viver.” Joan Baez

“AMAI-VOS uns aos outros como eu vos tenho amado.”