HISTÓRIA de luta: de volta ao front

Capítulo 19, continuação da postagem anterior.

DESEMBARQUEI daquele Pássaro Marrom e cruzei a pracinha. A Escola estava deserta, sendo eu um dos primeiros a voltar; talvez o primeiro. O sol daquele final de janeiro estava na posição de três da tarde.
‘Desembarquei daquele Pássaro Marrom
AQUELA calma, aquela paz, me fazia retroceder aos seis meses anteriores, com o filme, nem sempre em sequência cronológica exata, da minha vida, evidenciando a mim mesmo os momentos mais dramáticos, por isso mesmo marcantes, desde os exames de admissão até a notícia de que o comandante havia reconsiderado a minha reprovação. Relembrei da chegada naquela noite fria em que dormi na companhia igê, do dia seguinte e das providências de alojamento, armário, material escolar, uniforme e papeladas de alistamento na Fab e matrícula no Curso de Formação de . Relembrei também as brincadeiras da turma, tanto com relação à minha pessoa quanto a todos em geral. As dificuldades,  as minhas em particular, e as de muitos, em especial, a expulsão dos colegas que foram surpreendidos consumindo droga, fato extremamente marcante que até hoje é comentado entre nós.
Programei para a manhã seguinte uma corrida em torno do campo de futebol. Eu já estava bom nisso e, naquele vigor de 18 anos, nem mesmo o mês e dias de férias foi capaz de deixar-me fora de ritmo.
Enquanto corria, relembrava alguns pontos daquele semestre tão sofrido, em que cada dia representara para mim um enorme obstáculo a ser ultrapassado, um adversário, cuja força desconhecia, a ser batido. Lembrei das palavras do capelão: ‘Filhos, a capela é o único lugar da Escola onde não tem chamada’, querendo dizer que a presença dos alunos na missa não era uma obrigação e sim voluntária, ao mesmo tempo disponibilizando aquele recinto santo, sempre aberto aos alunos para os estudos, proporcionando-lhes a paz necessária; do primeiro dia a entrar em forma, e da forma pejorativa como o Martins havia se referido à minha pessoa, chamando-me de raquítico; do episódio do Dorival, o Catarina, chamando inocentemente o sargento Cunha Pinto de ‘Caveirinha’, sem imaginar que caíra numa cilada armada pelo aluno antigão; das longas e duras instruções de mosquetão, em que o Caveirinha parecia se comprazer em ralar o aluno, em especial os mais franzinos como eu, com aquela pesada geringonça da época da guerra; das dificuldades em Matemática, e ao mesmo tempo da solidariedade de colegas como o Martinelli, que doavam parte do seu tempo ajudando no aprendizado dos menos preparados; do Sapão, adjunto do Ceá, falando sobre o que os alunos aprontaram durante a semana, e ao final mandando o locutor ler o texto das respectivas punições disciplinares; dos alunos cariocas – principalmente estes –  a zombarem do sofrimento dos ‘paraíbas’, que, por razões geográficas, permaneciam em Guaratinguetá nos finais de semana, enquanto aqueles viajavam para o Rio; das zorras que faziam todos ao chegarem na segunda pela madruga e também ao toque da alvorada, obrigando o despertar imediato de todos, até mesmo dos mais sonolentos e exaustos; a patrulha que alguns faziam aos que, também por razões geográficas e culturais, escamavam o banho, a ponto de, de quando em vez, um deles ser levado à força para baixo do chuveiro, de roupa e tudo; da zombaria da qual não escapavam os paulistas do Vale do Paraíba por causa de seu sotaque e da pronúncia dos erres no meio das palavras, como ‘póita’, ‘póitão’, ‘poiteira’, e outras; da embriaguez e do consequente pesadelo por que passei, ao rolar para baixo da cama e ter gritado desesperadamente para não ser enterrado vivo, acordando todo o alojamento, e ainda levando-me ao hospital, e ter vindo a sofrer em consequência a inevitável zoação da turma; do sistema mirabolante que bolei na resolução daquela primeira prova de Matemática (coisa de gênio!), resultando na sofrível nota de 3,33; daquela conversa fortuita ouvida dos três sargentos que conversavam a respeito de uma possível ‘culpa do aluno’ (essa cena, em especial, cismava em ressurgir costumeiramente à minha mente, até nos sonhos); da minha audiência forçada com o comandante da Escola, e da coça, logo em seguida, a que me submeteu seu ajudante, fazendo-me pagar flexões, pulinhos de galo e correr de volta ao Ceá (não faz mal, pensava, isso faz parte do escripte, também é uma espécie de autoridade artificial de quem diz ‘eu mando, você obedece’). Todas essas coisas me passavam pela cabeça enquanto corria. Já não sabia ao certo quantas vezes tinha percorrido aqueles quatrocentos metros de pista, se eram  sete, oito ou até dez voltas completadas.

Concluí e cogitei que ao final da tarde iria à cidade. No caminho de volta ao alojamento dei de cara com outro aluno, bastante conhecido nosso. Foi com surpresa que o avistei com uma pasta cheia, cumprimentando-o feliz por não ser o único aluno naquela imensa Escola, como até então havia cogitado.

– Olha quem eu vejo?!  Oh seu padre!, digo, olá Pontes!
– Oi, Quinze.
– Pensei que eu era o único aluno aqui na Escola?!.
– Cheguei na semana passada.
– Tão cedo!? E essa pasta recheada aí?
-Verdade. As pastas tão cheias de apostilas. Eu fiquei sabendo que a Deí já estava distribuindo as apostilas deste semestre, então fui lá e já comecei a cepar uma delas. Quer ver?
– Obrigado, por enquanto vou deixar pra depois. Mas…
– O que é?
– Uma coisa me intriga, Pontes: Você é daqui de pertinho, do estado do Rio, e já está aqui na Escola. Eu, sim, tenho razão de chegar cedo, pois vim de avião da Fab, que não tem data certa…
– É pela minha dificuldade, sabe, essas apostilas… eu preciso estudar, entende…
– Sei.

Seguiu adiante, creio que em direção à praça que fica em frente ao Cassino, e eu, de volta ao alojamento, onde tomaria um belo banho e me aprontaria para sair.

Tudo muito estranho no seu Padre, – pensava enquanto me ensaboava – tanta dificuldade assim a ponto de chegar tão cedo de volta à Escola, mas havia colegas antes – eu já ouvira comentários – que diziam que tudo era uma pseudo dificuldade, um faz-de-conta ou coisa assim, e que na verdade Pontes era um cara inteligentíssimo, arguto, observador, daqueles de pouca conversa mas exímio ouvinte, do tipo coruja que não fala mas que presta muita atenção a tudo e a todos em sua volta. E agora, Pontes, que morava no estado do Rio, pelo que estava na sua ficha, e  pelo que ele próprio houvera dito uma ou duas vezes, estava já ali de volta à Escola, três ou quatro dias mais cedo até que eu. Bem, talvez, apenas mais uma brincadeira do pessoal sabendo de que sempre alguém como eu está ouvindo a conversa,  certamente essa turma era fã de filmes de suspense, de zero-zero-sete, de espião, agentes secretos de dupla identidade, de psicopatas ou coisa do gênero. Como neste mundo tem gente com imaginação! Cuidei de botar o quinto, já com a insígnia de segunda série.

No Pássaro Marrom ouvi um passageiro contando a outro sobre um homicídio que tinha ocorrido ali próximo, não tendo eu entendido exatamente onde. Ao que me pareceu uma jovem fora cruelmente assassinada, não sabendo a polícia ainda definir qual a causa. Ouvi porque quem falava não fazia questão de guardar segredo, e a interlocutora, uma mulher dos seus cinquenta anos, também respondia em tom de voz suficiente para que quem estivesse em volta escutasse. Coisas de quem compra jornal por causa da manchete em letras garrafais numa espécie de curiosidade mórbida, bastante explorada pela imprensa sensacionalista. Desde aquela época esses assuntos sangrentos não me interessavam, não obstante o teor da prosa não me fugiu à memória por algum tempo.

Na cidade, a volta obrigatória na errepeeme, que, devido às férias da alunada, estava às moscas, como se aquele logradouro fosse uma propriedade particular do Ceá, das Marias do Ceá e do Romeiro Dias (‘aluno só é pobre porque quer’, cheguei a ouvir ou imaginar quando passava por lá nessa ocasião). Como fizesse calor, e também pela força do hábito, entrei no bar da portuguesa. A lista de findu estava quitada, de forma que o peéfee e a cerveja gelada estavam garantidos, e logo estavam na minha mesa. Desta vez policiei-me de modo que aquelas loiras geladas não me derrubassem como fizeram doutra vez, trazendo-me prejuízo duplo: moral, pelo pesadelo, baixa hospitalar e zoação; e intelectual, levando-me àquela derrocada na prova de Matemática. Não, desta vez a mim não sucederia semelhante problema.

À certa altura, ainda na segunda ampola, que degustava devagar, já à noitinha, – olhei a um relógio de uma das paredes – e eram vinte horas e minutos, numa mesa próxima à minha alguém começou uma briga, que de início era só de palavras feias, mas que, pelo andar da carruagem, viria a descambar ao desforço físico, não se sabendo prever as consequências daquilo: olho roxo, sangue, cadeia? Tratei de fazer anotar as despesas no livrinho de findu, dizendo o meu nome – nem precisava pois já o conheciam de cor -, e casquei fora dali, voltando à Escola mais cedo do que desejava, antes que uma garrafa ou mesa pudesse me atingir. As orientações do Sapão eram bastantes claras sobre aluno meter-se em confusão na cidade.

Noutro dia, imaginando o Pontes com aquele montão de apostilas na pasta, considerei que, não tendo muito o que fazer naquele deserto de Escola, o jeito era também antecipar-me à maioria, ganhando assim precioso tempo na leitura de alguma matéria exigida na segunda série. Dei o braço a torcer pois o seu Padre não estava errado. Foi o que fiz. Com as apostilas em mão, tratei de folheá-las, primeiro uma, depois outra, e outra. Sim, desta vez o conteúdo daqueles papéis não me atrapalharia, pensava de mim para mim mesmo. Seguro morreu de velho; quem se planeja mais se atrapalha de menos.  Naquele mesmo dia, lá pela tarde, iria à capela cepar uma delas.

Continua… 

QUANDO você estiver satisfeito por ser simplesmente você mesmo e não se comparar ou competir, todo mundo te respeitará.”  Lao-Tsé
LOUVADO seja o nome de Nosso Senhor Jesus Cristo!
(BLOGUE do Valentim em 04out.2011)

HISTÓRIA de luta: o que era um peido pra quem já estava cagado?

Capítulo 18, continuação da postagem anterior.

FIZ a meia-volta regulamentar e rompi marcha, como um bom soldado. Estava na verdade quase um, literalmente. Dei dois passos e, levantando a cabeça vi um oficial, que acompanhava o comandante da Escola. Chamou-me:
– Ei, você, aluno!
– Sim, capitão – corri a até dois passos dele, conforme era o previsto.
– Começa a empurrar o planeta!
– … (??)
– Não entendeu, né, aluno. Raciocínio lento, hein!?
– Sim, entendi. Claro.
Pus as mãos no solo e paguei as flexões contando em voz alta.
– Um, dois, três… dez…
– De pé! Um, dois!!
– Três, quatro!
– Vou anotar teu nome e número. Agora, vou quebrar teu galho. Deixarei que descanse os braços, então paga pulinhos de galo porque essa tua águia tá mais parecendo um urubu.
– Sim, senhor.
– De pé. Se a tua vida já tava complicada, agora que vai complicar de vez. E agora, some da minha frente, sai conforme o regulamento para se retirar da presença de um superior hierárquico. Vá até o Ceá correndo. Correndo sem olhar para trás.
Ele não precisa dizer nada, eu entendia o porquê. Tinha ferido uma grave regra que era a de não falar ao comandante sem que fosse autorizado, além do mais tinha esquecido de polir a fivela que estava já negra.
O comandante da Escola
FUI DO hospital até o Ceá correndo, sem parar nem olhar para trás, cumprindo à risca o que o oficial mandara. Que merda eu fiz, e agora? E se o brigadeiro mandar me prender e me expulsar? Já era o meu plano B, que é o de ficar na Escola como soldado. Cheguei quase morto na esquadrilha. Mas se fosse só o castigo físico, tudo bem, fichinha mesmo no sol inclemente de verão às 11 da manhã . As instruções do Caveirinha já haviam me calejado. O que era um peido pra quem já tava cagado?! O pior viria a ser se, além de nada conseguir da autoridade, ainda por cima fosse punido por ter ido falar com o comandante sem a devida autorização. Aí tava tudo perdido realmente, e nem o plano B me restaria.  Era pegar as malas e voltar para Belém amargando a derrota.
Na estrada, o oficial passou de automóvel por mim, certificando-se de que realmente eu cumpria suas ordens.
Cheguei, tomei banho e mudei de farda. Acabei de fazer as malas, tirando os últimos objetos que ainda restavam no armário, e colocando-os num saco plástico. À tarde mudaria para meu novo alojamento, apresentando-me ao comandante da companhia.
– Aluno Quinze Setequatro!
Era o sargento quem chamava. Ou era para cobrar o atraso na minha mudança ou, pior, seria para ouvir-me quanto à audiência sem ordem com sua excelência.
Não era nem uma coisa nem outra.
– Desfaz essa mala!
– Como disse, sargento?
-Você é surdo? Desfaz a mala – e abrindo um sorriso largo – o comandante reconsiderou o seu desligamento, achando justa a sua reivindicação. Você não será desligado do curso.
Fiquei por um instante sem palavras. Só esperava a decisão no dia seguinte, além de imaginar que a decisão seria a pior possível. Corri e dei-lhe um abraço. Tinha vencido afinal. Continuaria no Ceá, e me formaria sargento.
Rumei até o Rio de Janeiro, onde tentaria apanhar uma carona numa aeronave da Força Aérea. Sem dinheiro para deslocar-me até Belém para as férias, essa era a solução encontrada. Foi o que eu fiz.
Em casa foi só alegria e muitas novidades pra contar à família, aos amigos, aos vizinhos e todos quantos perguntassem. Tudo novidade, tudo empolgação.

Acontecimento mesmo era quando tinha de ir ao quegê da primeira zona para fazer a apresentação regulamentar. Ia de quinto, e não tinha quem não olhasse.

Pena que aquelas férias tão boas logo terminaram.
Voltei à Guará mais cedo, uma semana antes, pois era a data do avião para o Rio de Janeiro. O Ceá e a Escola me esperavam para um segundo semestre. Desta vez, porém, eu estava pronto para eles.
Continua… 

AQUELES que se aplicam muito minuciosamente a coisas pequenas, frequentemente são incapazes de coisas grandes.”  François de La Rochefoucauld
LOUVADO seja o nome de Nosso Senhor Jesus Cristo!
(BLOGUE do Valentim em 01out.2011)

MÉDICOS militares da Operação ETÁ realizam socorro de criança em Iauaretê

ASSIM que os médicos do Hospital de Aeronáutica de Manaus (HAMN) chegaram a Iauaretê, nesta semana (16/04), foram recepcionados por um pai desesperado com seu filho, Kennedy Ramos, de apenas três anos, no colo. A emergência era por causa de um pequeno pedaço de isopor que a criança havia introduzido dentro do nariz e a família não havia conseguido remover. O incidente ocorreu há três semanas e os profissionais de saúde local não obtiveram sucesso na remoção do corpo estranho.

Logo após ser examinado pelos médicos do HAMN, Kennedy foi transportado de Iauaretê ao Hospital de São Gabriel da Cachoeira, em uma aeronave C-98 Caravan, acompanhado por um médico do HAMN e por sua mãe, a senhora Marineide Ramos. “Eu estou muito feliz pela Força Aérea Brasileira ter me ajudado a curar meu filho, nunca irei esquecer” exclamou emocionada, a senhora Marineide. (fonte: Comando da Aeronáutica)

 

Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo!

EM BRASÍLIA, familiares acompanham embarque de militares da FAB para o Haiti

Vide slides

LÁGRIMAS, abraços apertados dos familiares e um sentimento de saudade antecipada marcaram a cerimônia de despedida dos 115 militares do Exército e da Aeronáutica que embarcaram nesta quinta-feira (29/3), na Base Aérea de Brasília (BABR), rumo ao Haiti. Eles vão integrar o 16º Contingente Brasileiro da Missão da Organização das Nações Unidas para estabilização do Haiti (MINUSTAH). A Força Aérea Brasileira  (FAB) participa da missão com 27 militares pertencentes ao Batalhão de Infantaria de Aeronáutica Especial de Brasília (BINFAE-BR).

Na cerimônia de despedida, comandada pelo Brigadeiro de Infantaria  Rodolfo Freire de Rezende, chefe da Subchefia de Segurança e Defesa do Comando-Geral de Operações Aéreas (COMGAR), esposas, filhos, pais, irmãos e amigos dos militares foram acompanhar o embarque do contingente.

“Ele vai se afastar da família e dos amigos, mas em compensação vai receber em troca a satisfação de estar proporcionando ajuda a um povo que teve o país devastado pelo terremoto. Será um aprendizado pessoal e profissional muito grande. É difícil, mas é um orgulho para a família”, ressaltou Catia Pereira, irmã do Sargento Paulo Robson Pereira Leite.

Silvana Tasso Gonçalves, esposa do Tenente de Infantaria Samuel Frank Gonçalves, comandante do Pelotão da Aeronáutica, também exprimia um sentimento de grande orgulho em relação ao marido,com quem é casada há 5 anos. “Eu sei que ele fará o melhor trabalho possível. Será muito gratificante para toda a família a participação dele nessa missão”, afirmou.  “Acho que  vai ser uma grande lição de vida para ele”, complementou Silvana Gonçalves.

O pelotão da Aeronáutica, composto por 15 soldados, sete cabos, quatro sargentos e um oficial passou por um período de treinamento de oito meses no Brasil. As instruções incluíram palestras, treinamentos e um estágio operacional que simulou várias situações reais com as quais os militares vão se deparar nas ruas da capital haitiana, Porto Príncipe.

O contingente da FAB vai integrar a 1ª Companhia de Fuzileiros de Força de Paz, ao lado dos efetivos do Exército Brasileiro e do Paraguai. Eles vão realizar escolta de comboio, patrulhas a pé e motorizada, e controle de distúrbios.

Os militares viajaram em uma aeronave Boeing KC-137 do Esquadrão Corsário (2º/2º GT). Eles vão pernoitar em Boa Vista (RR) e devem chegar ao país na sexta-feira (30/3) pela manhã. O contingente permanece por oito meses no Haiti.

Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo!

HISTÓRIA de luta: fui reprovado

 Capítulo 17, continuação da postagem anterior.
OS ALUNOS, em sua maioria absoluta, já tinham viajado de férias para suas cidades de origem, curtindo merecido descanso e lazer no aconchego de seus lares, junto a seus familiares, amigos, namorada. Entretanto, nós, que ficamos de prova final e de segunda época, ainda povoávamos, contra a nossa vontade, o outrora movimentado e fervilhante Ceá. Era um clima melancólico aquele mundão de Escola sem a presença em peso da alunada. Nas feições dos que ficaram se notava nitidamente a preocupação com a própria sorte. Voltariam à Escola no semestre seguinte? Embora esperançados, ninguém de nós tinha certeza absoluta disso.
Na sexta anterior foi a formatura do pessoal da quarta série. Foi bonito ver o aluno zero, já como sargento, passando o estandarte para o aluno zero um da turma anterior. No final, o fora-de-forma e todos jogavam o quepe para o alto, festejando a vitória suada. Apesar das motivações do professor, eu, pelo meu drama particular, ainda não conseguia me visualizar ali, de branco, formando-me terceiro-sargento da Força Aérea.
Ao final todos jogavam o quepe para o alto
Veio a notícia por alguém de que a próxima turma, que iniciaria no primeiro semestre de 1978, inauguraria um novo sistema, pois a Aeronáutica resolvera mudar muita coisa no ensino que preparava o futuro sargento especialista. Já não seriam mais dois semestres de ensino básico, e no segundo o aluno já entraria na parte especializada. Melhor para eles, com mais tempo de aprendizagem no que interessaria de fato. Com essa mudança algumas matérias foram abolidas, e outras inseridas no currículo. Quebrava-se assim um paradigma do modelo adotado pela Aeronáutica desde a sua fundação, em que copiou as nomenclaturas da Marinha. Nossa turma, a turma número 171, seria a última desse velho modelo.
Em Matemática consegui aprovação, arrastado mas consegui. O que eu não contava era que a aparentemente tranquila Tebê me levaria à segunda época, a última, a derradeira oportunidade. Não logrando aprovação, seria o pé na bunda, e a companhia igê aguardava-me sem ao menos o direito às férias escolares. Tal situação deixou-me profundamente inseguro, estava pela bola sete. Preocupei-me com a tal Matemática e dei mole para a Tebê, matéria em que dava por certa a aprovação.
A tal tebê era uma matéria atípica, composta de duas partes, uma teórica e outra prática. A parte prática compunha-se de trabalhar na oficina uma peça de metal, deixando-a nas medidas pré-estabelecidas de um desenho. Não tinha a mínima habilidade com aqueles materiais, e isso, somado à parte teórica, me levou àquele estado nada animador.
Fui chamado ao comando da esquadrilha. O sargento, acompanhado de um psicólogo, me dera a má notícia, notícia esta que já aguardava resignado. Se não tivesse levado uma punição de repreensão quando da minha baixa ao hospital pela bebedeira, tinha ainda uma pequena esperança que seria o abono do comandante da Escola. Mas, como a ficha já não era mais virgem, nada feito.
 Procurei naquela noite dormir mais cedo para não pensar muito naquela situação. Ademais, nada mais tinha a estudar. Tudo estava consumado. Na manhã seguinte desocuparia o armário e migraria para juntar-me aos meus novos companheiros de farda. Durante a noite tive vários sonhos, dos quais nem lembrava nitidamente, porém um deles lembrava perfeitamente: eu entrava novamente no Ceá na próxima turma. O comentário mais frequente entre os novos alunos era justamente sobre o período mais curto do ensino básico, aumentando os semestres destinados à parte especializada. Todo mundo estava feliz com isso, pois o ensino básico era o grande terror.
Acordei com esse sonho na cabeça, e cheguei a comentar a um colega próximo, que ali estava ainda por ser nesse dia a sua prova de segunda chance.  Perguntou-me o que me abatia.
– Que ironia, né Quinze! O pessoal da próxima turma não vai encarar essa matéria chata, que não serve pra nada.
– Pra mim, ela serviu. Serviu pra me transferir para a companhia igê.
– Mas… peraí.
– Que houve?
– Raciocina comigo. Se essa matéria não vai ter na próxima turma, então por que você tá sendo reprovado?
– É o regulamento, vão dizer.
– Quinze, veja bem. E se você for ao comandante da Escola?
– Duvido que deixem.
– O que é que você tem a perder? Reprovado você já foi. No que pode piorar?
– Pensando assim, você tem razão. Mas, …
– Mas o quê?
– Tímido como eu sou. Desajeitado…
– Você não tem mais nada a perder, repito. Ache coragem, vença tudo.
Deitei um pouco naquela cama de campanha e quedei-me em mil pensamentos e conjecturas. O colega tinha razão. Se a matéria não iria ajudar os sargentos que formassem nas próximas turmas, como seria fundamental para a minha turma? Era uma incoerência do sistema. Mas como chegar ao chefão? E se ele nem me recebesse? E se da minha boca nenhuma palavra saísse? E se não me deixassem chegar a ele? Ele, do alto de seu cargo, pelo menos me ouviria?
Resolvi que tinha de fazer algo concreto em vez de apenas ficar conjecturando inutilmente. Fui à luta.
Cheguei próximo ao prédio do comando onde sua excelência dava expediente e parei. Não tinha pedido autorização a ninguém. E nem adiantava, pois não iam me dar mesmo. Resolvi seguir; era a última cartada. Na ante-sala, conversei com a secretária, resumindo-lhe o meu drama. Ela ficou com dó de mim e decidiu me ajudar. O chefe, que recebia visita de uma autoridade, dera ordens expressas de não ser interrompido. Diante disso ela mesma não podia deixar-me falar com ele, porque era necessário estar agendado. Ora, se nem autorizado estava, quanto mais agendado. Já ia saindo, quando ela chamou-me assim numa atitude de conspiração, no corredor, olhando para um lado e outro, e, após certificar-se de que ninguém nos escutava, disse-me em voz baixa, quase sussurrada e ao pé do ouvido, que o brigadeiro tinha, em meia hora, um compromisso na Divisão de Saúde, setor da Escola que ele costumava inspecionar naquele dia da semana. Esse era o dia. Tudo o que eu tinha a fazer era ficar lá aguardando o momento oportuno.
O prédio ficava dali a quase dois mil metros. Rumei para lá, chegando todo molhado de suor. A minha coragem foi aparecendo enquanto caminhava, de modo que ao chegar não tinha como deixar a oportunidade passar. Ele me ouviria, ainda que eu saísse de lá numa viatura, algemado e fosse direto a uma cela. Ia calculando as palavras que diria à autoridade. Ensaiava uma frase, depois a corrigia. Assim não, assim ele não vai compreender; tenho de ser mais direto, tenho de usar outro verbo. Sim, era assim mesmo, seriam essas as palavras que eu iria dizer ao comandante. O máximo que ele poderia me dizer era ‘não’. Mas se ele dissesse ‘sim’, tudo estaria resolvido e o arataca continuaria no Ceá, e o grande sonho continuava. Era a grande a minha esperança de ele relevar a minha reprovação, abonando a minha permanência no curso. Ele passava nessa hora, e esperei que  se afastasse um pouco dos presentes. Sim, afastou-se um pouco. Era a minha hora.
– Excelência!
A autoridade máxima olhou-me da cabeça aos pés, fazendo questão de mostrar sua superioridade ante aquele aluno baixinho, mirrado e ainda por cima todo desalinhado pela ação do suor da longa caminhada, que eu intercalara com alguns trotes.
– O que deseja, aluno?
– Sou o aluno Quinze Setequatro, excelência!
– Vá adiante. Eu não tenho o dia todo.
– Fui reprovado em Tebê, brigadeiro.
– Como?
– Tebê, Tecnologia Básica, senhor.
– E eu com isso? Azar o seu.
– É que essa matéria foi abolida, senhor. Não vai fazer parte do currículo das próximas turmas.
– Aluno, lei é lei. A lei deve ser cumprida. Nunca ouviu falar? Vá embora e não me incomode mais.
– Sim, senhor, mas, veja bem, excelência, se o sargento que vai se formar na turma posterior à minha não precisa dela para exercer a sua atividade, como exigir que essa matéria, que não existirá mais, seja o fator preponderante para a reprovação ou aprovação de um aluno da minha turma?  Os sargentos das próximas turmas serão menos qualificados que os de antes?
Nunca, na minha vida, fui tão prolixo. Por uma fração de segundo, notei algo diferente no semblante daquele homem, algo como uma interrogação, dúvida…
– Vá, aluno.
– Permissão para me retirar, excelência!
– Concedida.
Continua… 

APRECIE as pequenas coisas, pois um dia você pode olhar para trás e perceber que elas eram grandes coisas”.  Robert Brault
LOUVADO seja Nosso Senhor Jesus Cristo! (BLOGUE do Valentim em 30set.2011)