HISTÓRIA de luta: é culpa do aluno

Capítulo 23, continuação da postagem anterior.

À TARDE, num raro intervalo de folga, coisa que ocorria quando muito uma vez a cada mês, alguns alunos aglomeravam-se lá em baixo, à sombra do prédio. No centro deles o sargento Cunha Pinto, a julgar pelas risadas, parecia contar piada (quem diria!). Enquanto as nuvens que se formavam ao longe não se transformavam no denso aguaceiro que prometiam, desci lá para ver.

– … então na sala de estar dos sargentos lá no prédio do Ceá, fizemos uma vaquinha e compramos uma geladeira. Cada um guardava ali frutas, refrigerante, queijo, iogurte e outros alimentos, pra serem consumidos ao longo da semana, nos intervalos das instruções. Com o tempo notei que as maçãs e iogurtes que eu trazia sumiam assim, misteriosamente. Comprava uma bandeja de iogurtes, seis, e consumia um, dois, e quando via, tinha só um. Com a maçã, também acontecia isto. Perguntei pra um e pra outro, também perceberam a mesma coisa. Alguém, que não estava contribuindo, estava comendo o que os outros deixavam lá na geladeira.
Só podia ser o Abreu, que não quis colaborar. Resolvi prestar atenção nos seus movimentos.

A turma, para saber o final da história, parecia atenta ao caso.

– Prestando atenção nos movimentos do Abreu, confirmei mais de uma vez ser ele mesmo quem comia as frutas, iogurtes e o mais que estivesse lá na geladeira. Enquanto todos os outros sargentos e suboficiais ocupavam-se, cada um no seu trabalho, ele ia lá na sala de estar, olhava para um lado e para outro para assegurar-se de que não havia ninguém vendo, e comia as frutas e tomava um iogurte, o meu iorgurte. No caso do iogurte o prejuízo era só meu, pois eu era o único que gostava de iogurte. Único, não, melhor dizendo, eu e o Abreu, mas a diferença é que eu comprava e ele só bebia. Resolvi tomar uma atitude pra punir o desonesto. O que fiz?

Olhou ao redor, fazendo aquela pausa e a expressão de quem esperava pela clássica perguntar: ‘O que o senhor fez?’. Mas como ninguém perguntou ‘O quê’, continuou o causo.

– Comprei na farmácia uma seringa dessas que aplica injeção e trouxe de casa algumas pimentas. Injetei aquele suco de pimenta nos iogurtes que deixei na geladeira. Fiquei à espreita do Abreu, só de olho na figura. No dia seguinte, sem que ele percebesse, eu estava a observar os movimentos dele. Era a hora. Havia combinado com dois colegas para que ficassem escondidos. Ele entrou e, como sempre, pé ante pé, olhando em volta, e abriu a geladeira. Comeu uma fruta e foi ao iogurte apimentado.

– Uh! Uh! Fi… filho da puta! Filho da puta! 


O pessoal apareceu e foi só gargalhada. Eu também, rindo mais que os outros com a cara do negão. 


– Foi você, né Cunha?! Foi você!
– Qual o problema? Eu gosto de iogurte com pimenta. Não tenho culpa de você não gostar. 


Foi um santo remédio.

Como mudara o Caveirinha. Com certeza o episódio da bicicleta trouxe para os alunos um outro lado do Cunha Pinto que não conhecíamos.

Caiu a chuvarada prometida. Alguns alunos aproveitavam para zoar o pessoal do Nordeste. Alguém me disse:

– Aproveita para tirar uma foto, Quinze, e manda por carta aos teus parentes, que faz tempo não vêem uma chuva como essa.
– Eu sou da Amazônia, oh Mané. Lá chove muito mais do que aqui, otário! Tu precisa conhecer melhor o Brasil.

Reagi pesadamente contra um daqueles que gostavam de sacanear quem fosse do Norte ou Nordeste, que para eles era tudo igual, ou seja, gente inferior a eles. Muito preconceito que já estava me dando nos nervos. Dessa vez não deixei barato.

O aluno xerife procurava-me com um recado. O comandante da esquadrilha queria falar comigo. Mas eu não quero falar com ele, pensei. Como não tinha como não cumprir, fui.

– Aluno Quinze Setequatro se apresentando, senhor!
– Quinze Setequatro, você está numa enrascada.
– Eu???
– Quem mais seria? Aqui só têm duas pessoas.  Você esteve nessa data aqui no bar da portuguesa?
– Não sei, não me lembro bem. Sempre vou lá, mas nessa data…
– Você se encrencou de vez. Não adianta negar. Vê este papel?

Mostrou-me uma cópia da página do livro de créditos da portuguesa, o famoso livro do findu. Meu nome, data e assinatura estavam lá.

– Não tenho como negar, é verdade que estive lá. O senhor pode dizer o que houve?
– Houve lá um quebra-quebra, uma confusão dos diabos. Pra resumir, a dona do bar está cobrando dos responsáveis o prejuízo. Um dos responsáveis é você, Quinze Setequatro.
– Comandante, não posso negar que estive lá nessa noite, mas daí, dizer que eu fiz um quebra-quebra, briguei, me meti em confusão, isso já é demais.
– Está decidido. O regulamento manda ouvir o transgressor, só por isso você está aqui diante de mim. A proprietária do estabelecimento será ressarcida em 400 cruzeiros. Será descontado do seu salário.
– Se é assim, de que adianta a minha palavra? O senhor é que sabe. O que é que eu posso fazer?
– Não me venha com ironias, aluno. Calado aqui você já está errado. E ainda não acabou.
– …
Vi que falar nada adiantava. Ao contrário, qualquer intervenção minha só piorava tudo. Apesar de não ter culpa alguma.
– Sem prejuízo disciplinar.
– O que quer dizer isso, senhor?
– Que você vai ser punido disciplinarmente. Aluno, você ficará detido por dez dias. É só. Pode se retirar, fazendo conforme manda o regulamento.

Aquilo não podia estar acontecendo comigo. Mas não era nenhum pesadelo, era real. Cogitei que talvez fosse um trote, mas descartei logo diante da situação real da briga ocorrida no bar, cujo princípio cheguei a presenciar, tomando a atitude de me retirar antes que ocorresse algo pior. O livro do findu da portuguesa, cuja cópia servia para incriminar-me, era outra evidência de que a coisa era séria. Estive lá, é verdade, mas jamais imaginaria que a minha presença no local seria suficiente para encrencar-me daquela forma. O prejuízo financeiro não era nada, comparado à injustiça.

Um urubu parecia ter pousado na minha sorte. Quanto à parte intelectual, sentia-me bem mais seguro neste segundo semestre. Mas a questão agora iria à área disciplinar, infundindo-me o medo de ser desligado do curso. Nesse caso, não havia como permanecer mesmo como soldado, como era o caso do primeiro semestre. Mesmo porque a questão era disciplinar e não intelectual. Ademais, na segunda série não havia esse plano B.

A embriaguez da primeira série também conspirava contra mim, dando ao comando uma falsa ideia da minha pessoa. Atrapalhava ainda o fato de ter ido diretamente ao comandante da Escola sem autorização. Ainda quiseram me punir na época mas o próprio chefão interveio. Mas dessa vez era o que eles queriam para me pegar de jeito.

Que pesadelo? Não, não era um pesadelo. Pesadelo?

Subitamente uma luz acendeu em minha mente à lembrança dessa palavra. Pesadelo. Sim, claro, a culpa do aluno. Sim, no caso, a culpa recaiu sobre um aluno, cujos superiores, zelosos com o bom nome da instituição junto à comunidade guaratinguetanse, puniam rigorosamente qualquer desavença envolvendo a alunada. Era isso. Qual era o nome do mesmo do sargento? O sargento que, ao término de uma das provas realizadas na primeira série, ouvira discutir com outro sobre uma tal ‘culpa do aluno’? Tinha a forte intuição de que isso tinha a ver com o caso.

Continua… 

NÃO HÁ vento favorável para aquele que não sabe aonde vai.”  Sêneca
LOUVADO seja o nome de Nosso Senhor Jesus Cristo!
(BLOGUE do Valentim em 21out.2011)

FORÇA Aérea forma primeira mulher piloto operacional na Aviação de Caça

A PRIMEIRO Tenente Aviadora Carla Alexandre Borges, pertencente ao quadro de oficiais do Primeiro Esquadrão do Décimo Sexto Grupo de Aviação (1º/16º GAv), Esquadrão Adelphi, foi declarada (01/06) operacional na aeronave A-1 (AMX), tornando-se a primeira mulher da FAB operacional em aeronaves de caça de alta performance, a chamada “primeira linha” da caça.

Com esta qualificação, a militar está apta a cumprir qualquer missão desempenhada pelo 1º/16º GAV, inclusive liderar esquadrilhas de até quatro aeronaves. O último voo de formação da Oficial foi realizado em conjunto com uma aeronave KC-130 do 1º/1º Grupo de Transporte, no dia 30 de maio último, quando a oficial liderou dois caças AMX para uma missão de reabastecimento em voo noturno.

A Tenente Carla, natural de Jundiaí (SP), chegou ao Esquadrão Adelphi no início de 2011. Realizou seu primeiro voo solo em aeronave A-1 no dia 3 de maio de 2011 e continuou se dedicando ao cumprimento completo do curso de formação operacional no AMX, acumulando cerca de 100 horas de voo nesta aeronave.

(fonte: Comando da Aeronáutica)

HISTÓRIA de luta: um lobo em pele de cordeiro

Capítulo 22, continuação da postagem anterior.

Nem sempre lembranças boas…
A ROTINA da Escola seguia seu curso, indiferente aos problemas de cada um. As baixas, que para os alunos, a parte interessada, significavam um grande trauma, para os oficiais, praças e funcionários do comando do Ceá, tudo não passava de mais um número; desligamento, uma coisa corriqueira como uma publicação em boletim, papéis com letras datilografadas, ações do dia a dia, atos administrativos, tais quais as matrículas, as promoções de série e as formaturas de cada turma. A prisão de um aluno, ainda que nas circunstâncias especiais que ocorrera a Pontes, também não era razão suficiente para alterar o cotidiano da instituição. Um ipeême ou uma sindicância com a publicação de seu resultado em boletim com a devida ação disciplinar ou policial. Nada além disso.

Cada um de nós, silente, procurava seguir a normalidade das suas tarefas, mesmo porque não havia como ser de outro jeito. Questão de sobrevivência individual, não havendo tempo algum para lamentações e lágrimas. Antes foi Almeida Silva e mais onze companheiros, porém nesse caso, o comportamento deles era coerente com o acontecido, não havendo muita surpresa; hoje pela madruga Pontes, o seu Padre, cujo afastamento, da forma insólita como ocorreu, e considerando a sua figura um pouco atrapalhada com seus olhos de fundo de garrafa e sua pasta sempre cheia de apostilas, realmente chocou-nos deveras. Sua prisão, assim, sem que nós, seus colegas, tivéssemos direito a nenhuma explicação, além de nos deixar pesarosos, produzira em nossa mente uma grande interrogação, uma curiosidade natural. Por quê? Em que fora indiciado? Um engano certamente. Necessariamente o comando da Escola agira no caso de forma precipitada. Aquele rapaz tímido, incapaz de fazer mal a uma mosca, fora necessariamente vítima de uma injustiça, de um grande engano com certeza, como já ocorrera outros equívocos naquele velho corpo de alunos.

O aluno xerife comunicou-nos que fomos dispensados do último tempo de aula para que o comandante da esquadrilha nos fizesse um comunicado formal, e dessa forma tudo fosse esclarecido.

Foram anunciadas as formalidades de hierarquia e de respeito com a chegada do comandante da esquadrilha, que de imediato mandou a todos nós sentarmos ali no pátio, enquanto ele falava à turma lá do alto, da sacada do prédio.

– Sei que todos vocês estão curiosos, e, mais que isso, precisam saber da verdade.

Começou o comandante a sua fala com todas as preliminares de praxe, que só aumentavam mais aquele estado de ansiedade em toda a turma. Mandou alguém ler o relatório de um ipeême, que a nós nada esclarecia; ao contrário, deixava-nos, sobretudo os mais jovens, mais confusos que dantes. Finalmente, ele foi objetivamente ao assunto.

– Guilherme da Silva Pontes, na verdade Henrique da Silva Pontes. Esse é o verdadeiro nome do aluno Pontes, que hoje pela madrugada foi recolhido às dependências da companhia de polícia, acusado de homicídio duplamente qualificado, conforme conclusão de inquérito. Pontes esteve nesta mesma Escola como aluno três anos antes, e foi desligado na terceira série por indisciplina. Todos vocês sabem que alguém desligado por indisciplina não tem como voltar ao corpo de alunos. Pois bem. Pontes deu um jeito.

A turma estava de queixo caído. Continuava o comandante.

– No meio civil, tem uma razoável ficha policial por crimes que vão de pequenos furtos a estelionato, passando por assalto à mão armada, sendo procurado pela polícia do Rio de Janeiro por esses crimes. Mas Pontes arranjou uma maneira de livrar-se da procura policial. Em diligências aos cartórios do município de nascimento, descobrimos que Pontes teve um irmão, um irmão gêmeo, que faleceu aos cinco anos de idade. De posse da certidão de nascimento do irmão falecido, o verdadeiro Guilherme da Silva Pontes, Pontes – Henrique da Silva Pontes, o nosso Pontes – assumiu a identidade do irmão, conseguindo outros documentos a partir da certidão de nascimento. Apresentando tais documentos fez novo exame à Escola, pois a idade ainda permitia.

O comandante fez uma pausa para tomar água. Vários alunos se olhavam reciprocamente, incrédulos.

– Voltando à Escola na condição de aluno, Pontes arquitetou um álibi perfeito, bastando passar esses dois anos numa rotina que lhe não era estranha. Intelecto era o que não lhe faltava. Trata-se de um sujeito inteligentíssimo, e aquele jeito de rapaz tímido, matuto do interior, tudo era somente um estratagema. Já usava óculos anteriormente, mas desta vez alterou a lente, tentando alterar as suas feições. Em suas provas de matemática, que estão recolhidas à seção de avaliação, quase nenhum cálculo continham; ele fazia todas as contas de cabeça. Em suas apostilas nenhuma anotação havia, nenhum texto destacado à lápis ou caneta, coisa que não é usual nem nos alunos mais brilhantes… Mas não foi somente por isso que ele foi preso. Tudo isso era apenas um estratagema.

Ninguém tinha uma palavra para dizer de tão estupefato que cada um permanecia. Já não bastassem tantas revelações, tudo parecendo esclarecido. Mais relevações estavam a caminho, como uma metralhadora que não cessava de cuspir azeitonas quentes.

– Em seu armário três calcinhas de mulher foram encontradas. Uma delas, em exame pericial, comprovou-se um material biológico coincidente com da tal moça encontrada morta na zona de paraquedismo. As razões para isso a polícia vai descobrir, levando Pontes a um júri popular.

Era uma enxurrada de informações. A turma estava aturdida. Murmúrios deixados escapar a cada nova informação. Por várias vezes, o comandante interrompia sua fala ordenando silêncio e atenção. Continuava o comandante.

– Há muito ele vinha sendo investigado pelo nosso serviço de informações. E nem era pelo crime, que ainda nem tinha ocorrido. Sim pela suspeita de ter voltado à Escola de forma ilegal, não obstante seu comportamento desta feita fosse bem diferente do de antes, levando desta vez uma vida escolar irrepreensível e um comportamento disciplinar compatível com esta nova condição. A sua vida reclusa, jamais viajando para casa nos finais de semana, não passou despercebida ao nosso serviço de informações. Alguns sargentos também levantaram a suspeita pela semelhança com o aluno de antes, embora mais de três anos tenham decorrido, levando o comando a determinar as diligências ao município de origem, com a expedição de vários ofícios a cartórios, escolas e outros órgãos públicos. A razão de não sair do quartel neste período está agora explicada: era um álibi perfeito, e aqui na Escola sentia-se seguro, distante dos olhares da polícia. E tem mais…

Parou para a água. Depois de tomar água, prosseguiu.

– Mesmo durante as férias o aluno Pontes não foi pra casa. Procurado por um de nossos agentes, devidamente descaracterizado naturalmente, não foi encontrado no endereço onde declarou passar as férias.  Foi visto em Guaratinguetá por, pelo menos, meia dúzia de vezes.

O comandante ainda teceu alguns comentários técnicos e depois dispensou a turma. Quase a totalidade permaneceu silente por alguns instantes, tentando digerir aquela torrente de informações. Um delinquente, um falsário, um frio e cruel assassino entre nós, isso tudo era coisa que jamais nenhum de nós, mais experiente que fosse, não esperava. Um lobo em pele de cordeiro era coisa de filme de suspense, coisa de novela ou romance. Foi aí que lembrei das conversas de alguns alunos, meses antes. Aqueles caras não estavam longe da verdade, ou será que?… Será que já sabiam de tudo? Ou…

A tarde foi vista uma viatura policial diante do prédio da companhia de polícia, de onde levou Pontes, o seu Padre, a uma penitenciária.

Uma nuvem negra vinda lá da serra da Mantiqueira ameaçava para a tarde um grande temporal.

Continua… 
NÃO é suficiente que façamos o nosso melhor; às vezes temos que fazer o que é preciso.”  Winston Churchill
LOUVADO seja o nome de Nosso Senhor Jesus Cristo!
(BLOGUE do Valentim em 13out.2011)