HISTÓRIA de luta: a fase especializada

Capítulo 27, continuação da postagem anterior.
DEPOIS da visita presidencial, a Escola volta à rotina. Nós, os alunos da branca, já estávamos cada um com a sua especialidade definida e era só aguardar alguns dias, fazendo as últimas provas, para que o recesso de meio de ano chegasse. Alguns ainda ficariam para a final e outros também para a segunda época, havendo a possibilidade de desligamentos.
Quanto a mim, fiquei deveras lisonjeado por ter sido escolhido para a representação presidencial, mesmo não tendo méritos para tal honraria. Levei muitos tapinhas nas costas em razão disso. Os dois semestres básicos estavam no seu final, trazendo em especial para mim, por conta das dificuldades aqui narradas, um grande alívio. Se não fui desligado no básico, no especializado é que não seria.
Tudo era novidade naquele terceiro e penúltimo semestre que se iniciava em agosto de 1978. O terror do ensino básico, em que você tinha de estudar de tudo um pouco, mesmo sem vocação para a matéria,  passara enfim. Não há mal que sempre dure, nem bem que nunca se acabe.
Agora, o aluno se dedicaria exclusivamente – quase que esclusivamente – às questões especializadas, visando prepará-lo à vida profissional futura. Outras questões, claro, continuariam a ocupar nossas mentes, coisas especificamente relacionadas à parte militar, que na realidade era a missão para qual nos formávamos. O sistema não deixaria, de forma alguma, o aluno esquecer de que, primeiro, ele era um militar, que estava ali se preparando para matar, como disse outra vez o Formoso, e somente depois, para ser um técnico, um especialista em alguma coisa ou em algum equipamento.
Ao mesmo tempo passamos a contribuir mensalmente para o fundo de formatura, pois todas as despesas seriam custeadas pelo aluno. Outra coisa a providenciar seria o enxoval de formatura, com todos aqueles uniformes de que o sargento iria precisar no seu dia a dia de quartel. Romeiro Dias era o fornecedor oficial do Ceá, dizendo as más línguas de que até havia presenteado o comandante da Escola com o fardamento completo. Se é verdade eu não sei, mas a galera dizia.
Já no início do dia não seguíamos mais para as salas de aula e sim para os galpões construídos especialmente para a instrução de cada especialidade.  Cada turma de especialistas empolgada com a sua área, e, para tirar sarro ou esnobar mesmo, minimizando as outras. Algumas tinham até apelido. O eletricista era macaco de poste; o controlador de vôo, papagaio de torre; o almoxarife, rato de armazém; o escrevente, secretária; já o enfermeiro era chamado de mecânico de peru. Algumas tinham fama de exigir muito do aluno e o terro era emeerre, ou eletrônica, especialidade famosa por fabricar muitos desligamentos. Meteorologia também exigia bastante com suas volumosas apostilas. Algumas, se não exigiam tanto na parte intelectual, cobravam bastante da parte física, como era o caso de infantaria de guarda.  E assim cada uma com a sua peculiaridade, dificuldade para uns, facilidade para outros.
Na escala de serviço, o terceira-série dava serviço de aluno patrulha ou auxiliar do aluno de dia, deixando os serviços de plantão da hora e de sentinela para os primeira e segunda-séries.
Paralela às questões que enfrentava diariamente no galpão de escreventes, corria a minha vidinha já plenamente adaptada a tudo e a todos. O capitão Saturnino passaria o comando da esquadrilha a outro oficial enquanto iria fazer o curso de aperfeiçoamento em São Paulo. Como não tinha em Guará a quem apelar, pediu-me alguns favores. Fiquei lisonjeado com aquela deferência, sinal de confiança num estranho como eu. Naquele tempo os serviços bancários ainda eram bastante rudimentares, bem diferentes de hoje em que toda operação bancária se processa instantaneamente. O oficial confiou a mim duas requisições de talão de cheques, devidamente assinadas, orientando-me que em vinte e quarenta dias, respectivamente, fosse à agência do banco para requisitar os talões. Depois deveria enviar pelo correio para o endereço da Escola de Aperfeiçoamento. Deixou tudo anotado: datas, endereços etc. Fiz tudo exatamente como o capitão Saturnino ordenou, o que deixou o oficial bastante satisfeito, sem passar nenhum apuro financeiro durante sua estada na capital paulista.
De início questionei bastante aquela atitude, desejando até que ele transferisse o encargo para outro aluno. Até desconfiei de tudo pensando se tratar de uma maneira de espionar a minha vida, pois ele poderia ter deixado alguém encarregado de me vigiar. Gato escaldado tem medo de água fria. Ficava bastante triste ao pensar que alguém poderia estar me testando. Depois, considerei que o homem não tinha família lá e achei razoável ter pedido um favor daqueles a um aluno como eu, ainda mais um desconhecido. Coisas da vida, e a minha honestidade e presteza foi posta a prova. Saí-me bem.
Aqueles meses voaram de forma que logo estaríamos já no final do ano. Da minha parte também se fazia visível mudança de comportamento, pois já não me afobava nem me preocupava tanto quanto antes, e hoje, de quando em vez, lembro das músicas que tocavam no rádio ou na tevê naquela época.
Uma delas foi tema de novela. Já naquele tempo, por conta dos inúmeros afazeres que não me davam tempo nem para me coçar, deixei de acompanhar novelas de tevê, no entanto as trilhas sonoras de então não se foram da minha mente juvenil. A novela ‘Te contei?’ apresentava uma que gosto muito e que, sempre que posso, volto a ouvir. É essa aí:
 
Não é boa? Eis a vantagem disto aqui ser um blogue, e não apenas um livro, coisa inimaginável naquela época. Também serviu para descontrair porque escrever algo interessante sobre um período tão árido quanto aquele não é mesmo fácil. Como sou guerreiro, aceitei o desafio que impus a mim mesmo: escrever essa história, conntando à minha maneira aqueles dois longos anos.
  Continua…
 (BLOGUE do Valentim em 14nov.2011)

HISTÓRIA de luta: a visita do presidente

Capítulo 26, continuação da postagem anterior.
 
O COMANDANTE da minha esquadrilha ficou meu peixe (ou seria o contrário? Bem, isso não vem ao caso agora). Desconfiei que tinha algo a ver com aquela punição injusta que ele me aplicou, mas que depois, provada minha inocência, anulou-a. O que não faz uma consciência pesada? Certamente pensou bem e pode até ser que tenha passado a monitorar os meus passos, concluindo ser eu apenas um garoto ingênuo, um nortista ali em Guará e suas dificuldades, o que – se pensou assim –  era a mais pura verdade. Concluí que era desses tipos que mordia e depois assoprava. Passei a pensar dessa forma quando, mais uma vez, me chamaram ao comando da esquadrilha. Fui, como sempre pensando em que tinha feito de errado, ou não feito mas que pudesse ser atribuído à minha pessoa, como ocorrera doutra vez. Fui assim procurando nos escaninhos da memória, mas nada, nada mesmo, achando.
– Sim, senhor capitão (o capitão Saturnino tinha sido promovido no mês anterior). Quinze Setequatro se apresentando!
– Sente-se, Quinze.
Senti que o chefe estava mais descontraído, menos formal; até não me chamava mais de ‘aluno’ e sim pelo número pelo qual eu era conhecido. Mandou-me sentar, liberando-me da formal posição de sentido ou da de descansar correta, que era o padrão preconizado pelo regulamento (só faltou me servir o cafezinho).
– O presidente vem aqui amanhã.
Já Sei. E eu com isso? Pensei comigo, mas logo me arrependi, imaginando que a expressão facial pudesse me denunciar o pensamento mal-criado.
– Sim, senhor! Entre os alunos é o que se comenta, capitão.
Respondi e esperei que o capitão Saturnino completasse a informação.
– De ordem do comandante da Escola, cada targeta tem de mandar a representação de dois alunos. Isso dá oito. Sendo que um deles é obrigatoriamente o zero-um, e o outro, fica a critério do comandante de cada targeta, no caso, o segundo aluno da targeta Branca quem escolhe sou eu.
E eu com isso? Voltou-me à mente o pensamento mal-criado. Mas desta vez não temi pela expressão facial. O que eu tenho a ver com isso. Vai o Délio, que é o zero-um, mais cada zero-um da verde, amarela e azul. O outro deve ser o aluno zero-dois, que é o Vale. Isso tudo passou naqueles dois ou três segundos em que o comandante se levantava para servir-se de um cafezinho.
– Você sabe quem foi indicado para a segunda vaga?
– Talvez o zero-dois? Não sei, não, senhor.
– Você. Prepare seu quinto.
Fiquei sem palavras, e, como já estava sentado, não caí. Por qual razão eu teria sido escolhido pra compor aquela representação presidencial? Fiquei com a pulga atrás da orelha. Sabia, por comentários, que o comandante não tinha família em Guaratinguetá. Tinha vindo do Ceará havia dois anos e deixado por lá esposa, filhos e tudo o mais. Alarmei-me com aquela súbita mudança de comportamento: seria daquele time? Não, não tinha jeito pra boneca. Mas tinha ouvido falar de gente que dissimula muito bem esse desvio, e até sai com mulheres em público e tudo o mais. Deixa pra lá, de qualquer forma eu nada tenho a ver com essa gente.
– Por que eu, capitão?
– Não vem ao caso. Cumpra a ordem, só isso, aluno. O sargento tem todas as instruções e vai dar o treinamento de que vocês precisam. É só. Você está liberado.
– Sendo assim, permissão para me retirar e obrigado.
O que se sucedeu na minha cabeça entre sair da sala e até o dia seguinte, quando o sargento me daria as instruções, treinamento e tudo o necessário para não fazermos fiasco perante à autoridade máxima, foi uma série de pensamentos com muitas interrogações e reticências. Uma hora desconfiava da masculinidade do comandante, outra vez que tinha sido escolhido para tal honraria por causa do peso de consciência dele, não tendo a humildade de pedir de desculpas, ele um oficial a um aluno, daí resolver me recompensar pela humilhação que sofri. Quase não dormi à noite. E se…, não isso não, mas… Examinava a cada uma situação para em seguida passar a outra, descartando a primeira, e assim giravam os ponteiros. De repente me veio à cabeça aquela célebre lâmpada. Claro! Só pode ser isso: um trote. Só pode ser um trote. Ora, em vez de premiar o zero-dois ou outro aluno destacado, ou até mesmo um desses puxa-sacos que vivem a visitar o comando e o sargento quase todos os dias, até mesmo um aluno de porte atlético, alto, vai mandar um baixinho e orelhudo como eu, que quase ficou reprovado, se não fosse a benevolência do  comandante da Escola. Esse último pensamento, sobre o aluno de porte atlético, que não foi escolhido, e sim eu, descartou para mim a dúvida sobre a masculinidade.  É claro, só podia ser um trote.
No dia seguinte, fiz como se nada tivesse ocorrido, dispondo-me a ignorar as instruções do comandante. Foi dito que às dez horas, eu teria que ir à sargenteação procurar o sargento, então fiz o propósito de esquecer tudo e voltar à sala de aula, depois daquele intervalo, para continuar a assistir a aula de português. Mas… quem disse que minha cabeça esquecia. Acabei indo, tendo antes o cuidado de ver se o Délio, o zero-um, também estava lá ou prá lá se dirigia, pois ele era um dos dois escolhidos para representar a turma na representação presidencial. Vi o Délio entrando lá na sargenteação, que fez um aceno para mim, aquele característico de ordem de acelerar o passo. Foi o que eu fiz.
Pontualmente às duas da tarde daquele dia seria a tal representação quando, no salão nobre da Escola, o grupo de alunos faria ao presidente a oferta de uma placa em nome do Ceá. À medida que o sargento dava as instruções, minha cabeça se convencia da veracidade do evento, descartando ao mesmo tempo a possibilidade de trote. Já estava gostando da ideia, apesar do nervosismo. No entanto, a minha participação limitava-se à minha presença, cabendo ao zero-um da azul, a quarta série, a fala e o oferecimento do brinde à autoridade máxima do Brasil. Certamente tudo já estava memorizado pelo aluno, que já detinha de véspera o texto previamente elaborado pelos assessores do comandante da Escola. Tudo certo, então.
Quinze minutos para as duas horas e estávamos todos na ante-sala. Aquele movimento de entra e sai de autoridades, assessores, alguns ministros, entre eles o da Aeronáutica, muita gente empaletozada, agentes de segurança, a polícia da Aeronáutica toda em todos os cantos da Escola, bem assim a polícia militar, não só na Escola, como nas principais vias de Guaratinguetá, batedores, rádio, jornais e televisão, e tudo o que tinha direito a visita de uma autoridade daquela expressão. As autoridades iam chegando uma a uma, todas recepcionadas pelo comandante da Escola.
Chegou, finalmente, o momento em que entraríamos em cena e tudo ocorreu dentro do previsto, numa cerimônia rápida. O zero-um, aparentando naturalidade, ofertou a placa, em nome de todos os alunos da Escola de Especialistas de Aeronáutica ao excelentíssimo senhor presidente da República Federativa do Brasil. Não gaguejou nem nada, tendo, depois confidenciado, que passou boa parte da noite treinando em frente ao espelho.
Fotografias à exaustão, aplausos e falas rápidas, em seguida todos foram convidados – inclusive nós, os alunos – a nos deslocar ao cassino de oficiais, onde haviam preparado uma recepção, e até a banda de música que, à borda da piscina, faria uma apresentação especial à autoridade do país.
Ora, dentre os músicos mais talentosos da banda, escolhidos a dedo justamente pela extremosa habilidade na arte musical, havia um deles, um simples soldado, que se sobressaía com sobra em relação aos demais colegas: o S1 Daniel. Após a apresentação solo de dois músicos, chegou a vez de Daniel. Sua apresentação arrancou aplausos do presidente e – logicamente – de todos ali presentes, encantados  com o talento extraordinário do mais humilde músico da Escola. É bom dizer que os aplausos foram sinceros e não se motivaram apenas pelas regras de boas maneiras e, tampouco, pelo fato de o presidente ter puxado as palmas à arte do S1 Daniel.  Com efeito,  o músico, além de grande artista, emoldurava os harmoniosos arcordes de seu flautim com números de mímica, ora fazendo de conta que tocava por um dos ouvidos, ora pelo outro, às vezes também fazia de conta que tocava pelas narinas, em vez da boca. Diante do número de arte, o presidente, não se conteve, e dirigiu-se ao comandante da Escola:
– Barata Filho, esse militar seu toca muito bem.
O brigadeiro Barata Filho, já demonstrando os efeitos do uísque que bebericava havia algum tempo, assim respondeu:
– Presidente, esse militar toca até pelo…! (disse um monossílabo tônico indicando que o músico tocava por qualquer buraco)
Nessa hora os homens, com vergonha, viraram a cara; as mulheres, coradas, levaram as duas mãos ao rosto, abaixando-o. O presidente vai mandar prender o brigadeiro, pensaram. O que ele tinha de dizer essa palavra!
O constrangimento levou apenas alguns segundos. O presidente, que era um general, agiu com naturalidade. Mandou em seguida um de seus ajudantes-de-ordem tomar nota do nome e dos demais dados do músico, que, dentro de meses, seria promovido a sargento.
Continua… 
 (BLOGUE do Valentim em 10nov.2011)

SALÁRIOS: Orçamento de 2013 prevê reajuste salarial de 30% para as Forças Armadas

OS SERVIDORES militares das Forças Armadas terão um reajuste salarial de 30%, dividido em três parcelas de 9,14% ao ano. O primeiro reajuste será concedido a partir de 1º de março de 2013.

O aumento será linear, ou seja, concedido a todos os militares, independente do posto ou graduação, ativos, inativos e pensionistas.

Os dados foram divulgados nesta quinta-feira (30) pelo Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão, durante apresentação do Projeto da Lei Orçamentária Anual (PLOA) para 2013, em Brasília (DF).

Fonte: Agência Força Aérea