BARRÃO, o enfermeiro

EM TODO lugar, trabalho, escola, clube, há sempre um sujeito divertido, engraçado, quase sempre falastrão, que, mal o vemos e já, quase sem querer, abrimos um largo sorriso. Suas histórias – ou estórias – são sempre aumentadas, enfeitadas, espichadas e enriquecidas com detalhes burlescos, que, acompanhados de trejeitos exagerados e caretas, conduzem os ouvintes ao inevitável riso, e do riso se vai à estrepitosa gargalhada, deixando mais amenos os rigores do dia a dia. E isso só ele sabe fazer. Sujeitos assim, embora não sejam unanimidades, são úteis e necessários a um ambiente saudável e alegre, desde que suas piadas não tenham o fito de humilhar ou diminuir seu semelhante.

Durante o espaço de tempo em que passei pela Aeronáutica, esses trinta anos que se foram tão céleres que – como dizia Oscar Niemeyer – pareceram um sopro, testemunhei muitos fatos, histórias interessantes e insólitas. Episódios que aconteceram de fato, embora inverossímeis pareçam. Há outros que parecem enterro de anão: existem mas ninguém vê. 

Outros há que, até podem realmente serem fatos, mas cada um que os conta, acrescenta um ponto, e o que era originalmente verdadeiro vira causo, folclore, anedota, estória de trancoso, ou qualquer outro nome que se dê.

Barrão, o primeiro logo após os dois meninos na primeira fila

O escriba já viu muita coisa, mas claro que não viu tudo. Eu já vi ficha disciplinar de coronel de, com tantas punições disciplinares registradas, fazer inveja ao soldado mais alterado do quartel. Eu já vi coronel mandar pôr major, como castigo, na relação de pernoite. Eu já vi capitão sair às vias de fato com major. Meninos, eu vi! 

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ÉRAMOS todos do jardim da infância

Fonte: Lázaro Curvelo

COM ABSOLUTA certeza o maior dos perrengues por que passei naquele primeiro semestre de 1979, e derradeiro como aluno da Escola de Especialistas, foi exatamente o serviço de aluno-de-dia ao Corpo de Alunos (CA), para o qual fui escalado tão logo principiou o semestre. Foram vinte e quatro horas compridas. 

Os serviços de aluno-de-dia e demais serviços dados pelos alunos visavam a prepará-los às batalhas que enfrentariam mais tarde como sargentos na futura unidade onde seriam classificados. Creio que a maioria de nós não detinha pleno conhecimento disso, porque, a bem da verdade, significava para a maioria um grande peso. Pelo menos esse era o meu caso, ignorante de uma série de coisas e também das enormes vicissitudes que a vida futura reservaria à minha pessoa. Era eu um Forrest Gump que viria a testemunhar no futuro uma série de situações inusitadas e até mesmo embaraçosas, mas que não poderia avaliar no momento o real sentido de cada um dos fatos presenciados. 

Fui um dos primeiros a ser escalado para aquela difícil missão, talvez a mais dura para um aluno com quase nenhuma experiência militar. Houve sim, é verdade, aqueles três semestres de instrução que vinha experimentando na base do piloto automático. Essa era toda a minha experiência como militar até então: quase zero. Como aluno-de-dia a minha figura ficaria em evidência perante mais de duas mil almas, ação para a qual aquele guri não estava em absoluto preparado. Os eventuais acertos figurariam como meros detalhes, reles obrigação, detalhes imperceptíveis, ao passo que os erros seriam severamente observados e criticados, sendo isso motivo de galhofas no círculo da alunada.

Começava mal o semestre.

A naba voadora

Ademais, ainda estava fresco na memória de todos nós o triste episódio em que alguns de nossos colegas foram desligados do curso por uso de entorpecentes, doze no total, incluindo alunos de outras turmas. Da Tarjeta Branca lembro até o nome de alguns: Santana, Nunes, Pedroso, Jander… Recordo-me também do rosto juvenil de cada um deles.

Seria a temível naba voadora, tão anunciada desde a primeira série, que finalmente teria aparecido?

Pensei que ela surgira naquele episódio do Cavalo de Aço versus Valdomiro. Já estávamos na segunda série, primeira metade de 1978. Naquela tarde em que todo o CA estava em forma naquele grande pátio, aguardando o ordinário marche para as instruções vespertinas, o oficial de permanência – naquela jornada o escalado era o tenente Lucas – notou uma fração de tropa mexendo-se muito, contrariando as ordens severas de imobilidade. Além disso, um aluno, o Valdomiro, conversava com outro, o Orival. O oficial aproximou-se e gritou ordens de imobilidade ao Valdomiro, dizendo coisas como: “Você é muito novinho, aluno. Você ainda está fedendo a almoxarifado”. Valdomiro respondeu porém em voz mais baixa: “… e fique sabendo que eu não tenho medo desses ‘negocinhos’ que estão aí em cima do seu ombro…”. Possesso, o oficial chamou o sargento-de-dia, que anotou o número do nosso colega. Porém, ao contrário do que a gente imaginava, Valdomiro não teve punição severa, não passando de um impedimento (licenciamento suspenso) de um final de semana. Foi considerado que o aluno reagiu apenas para defender sua dignidade. 

Valdomiro era um goiano peitudo, como disse o Adão Paulino, seu conterrâneo. Foi digno do nosso respeito pois fez uma coisa que nenhum de nós em sã consciência faria: enfrentar um superior, ainda mais sendo um oficial, que naquele tempo tinha poder para mandar recolher um praça ao xadrez.

Não foi então dessa vez que a famosa naba voadora fez o temível pouso no pátio do Corpo de Alunos.

Todavia, neste outro final de semana, os mais espertos estranharam – talvez – uma sexta-feira sem a obrigatória formatura geral para a revista de uniforme, leitura de boletim e pronunciamento do comando do CA, que geralmente era feito pelo capitão Pinheiro, o Sapão, ajudante do Corpo de Alunos, uma espécie de subcomandante do Corpo. Ficaria esse evento para a segunda-feira, excepcionalmente.

Havia algo de podre no ar. Mas é claro que nem notei.

Fonte: Lázaro Curvelo

Pois bem. Naquela fatídica sexta-feira alguns oficiais do CA montaram uma grande “operação de guerra” (vamos aqui exagerar um pouquinho no uso dessa expressão), oportunidade rara em que eles, oficiais auxiliados por sargentos, aplicariam alguns métodos coercitivos que lhes foram ensinados pelos manuais acadêmicos. Tal operação tinha por objetivo (e isso só mais tarde vim a compreender) separar o joio do trigo, apanhar o gato entre os pombos, pegar os lobos em pele de cordeiro, identificando finalmente os alunos usuários de substâncias entorpecentes, fato este que (passou-se a falar à larga) era de conhecimento parcial dos comandantes do CA e da Escola, haja visto que o serviço de inteligência havia meses vinha trabalhando para fechar o cerco. A questão do consumo de bebida destilada era coisa secundária, portanto. Serviu apenas de pretexto para algo considerado mais grave e inadmissível para o futuro sargento da Aeronáutica: eliminar dos quadros da Força usuários de drogas.

Para levar adiante o plano, necessitava-se, portanto, de alguma razão, um pretexto. Então, alegando que alguns alunos em determinada instrução saíram de forma para beber água sem autorização do sargento instrutor – uma indisciplina insignificante, a meu ver – , e que outros haviam feito uso de bebida alcoólica destilada (aguardente) após o toque de silêncio (o que era proibido em qualquer horário no âmbito da Escola) e ainda outros pequenos atos de indisciplina, o comando do CA determinou a suspensão do licenciamento de todos os alunos da Branca naquele final de semana. Contudo, foram abertas algumas exceções como o caso de um colega que tinha horário marcado no dentista. E foi justamente esse colega incumbido pela turma de comprar na cidade uma ou mais garrafas de aguardente. Haviam feito uma vaquinha para esse fim. Outros alunos ficaram de pegar no rancho alguns petiscos a fim de serviriam como tira-gosto, conforme relato de nosso colega Vargas, e que somente agora, décadas depois do episódio, viemos a saber com detalhes.

Aluno Valentim (Arquivo pessoal)

À essa altura, os alunos-de-dia às esquadrilhas já estavam devidamente alertados por nossos superiores para que, em caso de movimentos suspeitos, máxime viessem a ocorrer depois das dez da noite, acionassem de imediato o oficial de permanência ao Corpo. Naquelas vinte e quatro horas, o oficial de permanência ao CA era o tenente Magalhães, justamente o oficial mais doutrinador da Tarjeta Branca. É possível que, já cientes do que vinha a ocorrer, tenha sido escalado justamente o tenente Magalhães, já preparado para as ações que vieram a se suceder. O oficial surgiu naquele início de madrugada surpreendendo a cerca de oito alunos remanescentes que estavam bebendo cachaça na sacada ao fundo do alojamento, número reduzido visto que antes estavam no local de duas dezenas. Vencidos pela ação da branquinha e pelo sono, a maioria foi aos poucos para a cama, restando nos fundos da décima esquadrilha e da décima segunda – lado externo do prédio – os oito remanescentes, os tais que receberam voz de prisão do oficial, acompanhado por quatro sargentos e que permaneciam na esquadrilha a postos, um em cada canto, ao mesmo tempo em que outros oficiais e sargentos lacravam os armários.

Humilhados, os colegas receberam ordens de ir marchando com as mãos na cabeça até o prédio do comando do CA. Uma vez lá chegados, foram levados para uma sala contígua à do comandante do Corpo, onde receberam ordem para que se despissem e ficassem deitados de costas, pernas e braços abertos. Uma posição pra lá de constrangedora. Decorridos algum tempo, chega ao local o comandante da Tarjeta Branca, o tenente Arrais: “O que houve com vocês, meus meninos?! Ponham já a cueca.” Em traje sumário, foram em seguida, um a um, chamados a uma outra sala para o interrogatório. É fácil supor que diante de tal pressão psicológica todos deduraram os outros colegas, que também estavam no local a tomar cachaça, e não, obviamente só isso, alguns fumando maconha. A cada pouco, um ou mais alunos iam sendo conduzidos ao local, sempre em passo ordinário com as mãos na cabeça. Ao final do processo, finalmente foram identificados os alunos visados, que foram sumariamente licenciados a bem da disciplina da Força Aérea de forma irrecorrível.

Não há como culpar a qualquer um deles pelo fato de dedurarem os colegas. Qualquer um de nós, garotos de dezoito ou dezenove anos, sob tamanha tortura psicológica, certamente abriria o bico. Aqueles caras eram profissionais e sabiam fazer bem o que se propunham. É também de se supor que houve alguém a dar o serviço, um entregão, um traíra. Caso contrário, dificilmente o comando teria posto em execução plano semelhante.

O episódio da expulsão sumária de nossos colegas foi para nós, os mais bobinhos, grande surpresa, e a maioria de nós se quedou atônita, chocada com esse triste caso. Cheguei a escrever uma carta de consolação a um deles, vizinho próximo de armário, mas não obtive resposta. Dizem mesmo que até algumas cartas eram abertas pelo serviço de informações (era assim que se denominavam os atuais serviços de inteligência).

É fato que consumo de tóxico era coisa abominável naquela época, que dava desligamento. Tão abominável quanto pederastia, transgressão grave de natureza desonrosa. Nada havia a ser feito diferente do que foi.

Voltando às minhas agruras

Ao verificar a previsão de escala que ficava afixada no quadro de avisos da esquadrilha, dei um suspiro de alívio por não ver o meu nome para aluno de dia; fui escalado apenas de aluno auxiliar, ou seja, ficaria à sombra. Legal. O serviço de aluno auxiliar era mais discreto, menos visível à turma que não perdoava um deslize sequer, menos exposto à supervisão dos sargentos e oficiais. 

Como tudo no meu caso, não estar escalado assim de cara, mal iniciado o semestre, era muito bom para ser verdade. No outro dia (talvez com o dedo do aluneante para proteger a algum colega) o sargento alterou a escala alegando uma gripe repentina que acometeu o aluno originalmente escalado.

Sobrou pra quem? Sim, sobrou exatamente para mim e o serviço já seria no dia seguinte, sem nenhum tempo hábil para conseguir uma troca. Não tive tempo para treinar, e (para dizer a verdade) nem isso me ocorreu. Não treinei nem ninguém se encarregou de treinar-me para a missão, principalmente para a solenidade de passagem de serviço, a qual contaria com a presença de toda a oficialidade do Corpo de Alunos, além dos suboficiais e sargentos.

Sargento Rodrigues, o terrível Caveirinha

Não é nem preciso dizer que foi tudo um grande fiasco. As pernas tremiam mais que vara verde e o rosto transpirava mais que tampa de chaleira. As bandeiras foram hasteadas em dissonância com a marcha-batida tocada pelo corneteiro, sobrando alguns segundos de acordes quando todas elas já estavam lá no topo dos respectivos mastros; gaguejei ao pronunciar as palavras de assunção do serviço; e no desfile, fiz a continência e o olhar-à-direita fora do tempo certo. O resultado é que levei uma sonora bronca do major Pacheco durante a solenidade, deixando-me mais nervoso ainda.

Aquelas vinte e quatro horas foram longas, de forma que senti grande alívio quando, finalmente, passei a bola ao companheiro que assumiria no dia seguinte.

Percebi, passados alguns dias, uma espécie de solidariedade tácita da turma. Quase ninguém fez referência ao triste episódio por mim protagonizado, poupando-me de dissabores adicionais. Já era suficiente aquela dose de humilhação sofrida. Uma razão certamente para o silêncio aliviante era que cada um tinha em conta a possibilidade de ser o próximo a estar na minha pele, isso em relação aos menos experientes, grupo no qual eu estava incluso. Com relação aos mais experientes, houve sabedoria em compreender a situação de um garoto ingênuo e inexperiente como eu.


Exceção desse episódio, tudo corria dentro da normalidade e o semestre fluía com rapidez. Veio o jantar dos cem dias.

Terminava para nós o período letivo, a exceção de quem ficou pendente em alguma matéria. Não era o meu caso, pois, graças ao bom Deus, não tive problema algum na parte intelectual naquele semestre. Era só esperar o dia treze de julho e receber as tão sonhadas insignias de terceiro-sargento. Enquanto isso nossas futuras unidades nos esperavam, e a Escola já se preparava para receber a tarjeta Branca que nos sucederia nos dois anos seguintes.

Vieram então os treinamentos, e sobre eles ficaram marcantes em minha memória as vozes de comando do sargento Júnior quando dizia: “Alinha, moçada, é doze a doze. Doze a doze. Alinha, moçada!”. A turma o imitava exagerando a sua voz, fazendo-a mais fina do que realmente era. Paralelamente ocorriam todas as providências relativas à formatura em si, o que incluía provar as peças de uniforme do enxoval e identificar-se visando as novas carteiras de identidade de sargento. Enquanto isso, nossos sargenteantes já corriam as 462 fichas de desimpedimento pelas diversas seções e departamentos, pegando os respectivos “nada deve”.

Em breve chegaria o tão sonhado momento de aquela turma decolar, aproando em direção aos hangares, às oficinas, aos destacamentos, às torres de controle, aos almoxarifados, às companhias de infantaria e de polícia, aos canteiros de obras, aos hospitais, às seções administrativas e aos gabinetes, cada um desempenhando a sua especialidade nos diferentes rincões deste Brasil. Estava próxima a hora de transpormos o portão daquele grande jardim.

Véspera da formatura

Chegamos ao dia 12 de julho, aquela quinta-feira véspera do grande e esperado dia.

Havia ordens severas para se coibirem os excessos que geralmente aconteciam nessas datas, a julgar pela experiência do que ocorria nas turmas antecedentes. Era comum em uma ou outra esquadrilha, quando não em todas, rolar muita birita, ingrediente necessário à inevitável festa da última noite como aluno da Escola de Especialistas, noite esta que já estava assinado o boletim de promoção e o formando já estava de posse de sua cobiçada identidade de cor castanha.

Um dos sargentos que pernoitariam junto aos formandos com a incumbência de manter a devida ordem era o sargento Tarcísio, também conhecido na Tarjeta Branca como sargento Buceta, pela excessiva frequência em que pronunciava esse nome. Ora, quem agora estiver lendo estas linhas, mas que não tenha vivido aquela experiência de turma, provavelmente iria compreender que o sargento Buceta estava ali com a intenção férrea de não permitir o derrame de cachaça, que costumava ocorrer geralmente nas noites que antecediam as formaturas. É certo que ele tinha ordens expressas nesse sentido, não só ele como os outros sargenteantes. É bem possível – podemos imaginar – que tenha dito a seu comandante “Sim, senhor. Deixe comigo” quando este, ainda na cabeça o episódio ocorrido seis meses antes, lhe dera severas ordens nesse sentido.

Ledo engano, e o “sim, senhor” nesse caso era somente da boca pra fora. Dias antes, Buceta tinha previamente sondado os alunos cearenses – e o Ceará, como é sabido, é um Estado famoso por fabricar cachaças de boa qualidade -, e encomendado deles a famosa água que passarinho não bebe. O produto chegaria ao CA por meio dos parentes que viriam para a formatura de seus filhos, sobrinhos ou irmãos. Não sei como burlaram a revista de armário que antecedeu à noite, mas quando se quer algo sempre se dá um jeito. 

 

Abertos os armários, ainda lembro da cara de surpresa que me fez o tenente Arrais ao notar que o meu era forrado de fotos de mulheres peladas, que eu recortara da Status, publicação da qual eu era colecionador. “Você tem uma bela coleção, aluno”, disse ele balançando a cabeça com ar reprovador. Alguns colegas trouxeram garrafas de Chave de Ouro, Ypioca e de outras marcas afamadas, e das quais Tarcísio era profundo conhecedor – e, principalmente, consumidor. Naquela noite muito formando não dormiu ou porque participava da festa ou mesmo pela total ausência do sagrado silêncio noturno. Na esquadrilha vizinha ainda notei quando um grupo, já sob os efeitos da manguaça, erguia o sargento Tarcísio acima da cabeça sacudindo-o para cima, alegres; gritavam em uníssono: “Bucetinha, Bucetinha, …!”. Era uma cena à semelhança de um técnico de futebol sendo erguido por seus jogadores que festejam um título de campeão. Até aquele momento eu não tinha plena ciência do quanto Tarcísio era popular entre a turma. 

Sargento Tarcísio, o popular sgt Buceta

Em outra esquadrilha, quando Tarcísio ali chegou e também degustou da purinha em companhia dos formandos, vários deles, os mais “mamados”, fizeram um trenzinho no vão central do alojamento e cantaram em coro a seguinte cantiga, que era sucesso naquele ano:

 

Tá com medo tabaréu?
É de linha, de carretel
Tá com medo tabaréu?
É de linha, de carretel

Você encosta, ela estica
Tira a mão da minha pipa
Que eu quero soltar

Chega pra lá
Assim não dá

Minha pipa é voadora
Minha pipa tá no ar

Ah, ah, ah, minha pipa tá no ar
Ah, ah, ah, minha pipa tá no ar

Tem rabo grande
Tem linha grossa
Com o meu cerol não há quem possa
Não encosta, não encosta
Com o meu cerol não há quem possa

Tá com medo tabaréu?
É de linha, de carretel
Tá com medo tabaréu?
É de linha, de carretel

Houve colegas que heroicamente conseguiram permanecer em pé até que o corneteiro tocasse o fora-de-forma, seguido da tão esperada, tradicional e emocionante revoada de quepes.

A formatura

Naquela sexta-feira nebulosa (meteorologicamente falando) e tão esperada por todos nós recebi, finalmente, as insígnias tão cobiçadas e pelas quais tanto sofri naqueles dois longos anos. 

Dos detalhes da solenidade em si pouco ou nada recordo, vez que minha mente se concentrava no filme daqueles dois anos. Nunca mais aquele boi-ralado, nunca mais Caveirinha, nunca mais o Sapão nem o Cavalo-de-aço, nunca mais banho frio, nunca mais aquela ralação toda, mosquetão, nunca mais ter apenas quinze minutos para tudo. Adeus RPM, adeus apostilas… A mente viajava pelas intermináveis e exaustivas instruções de ordem unida, ocasião em que penávamos nas mãos do Caveirinha ou do sargento Mathias,… os abomináveis serviços de plantão ou de sentinela no sofrido horário de duas às quatro, as apreensões acerca das instruções teóricas e seus exames, os traumas sofridos quando do desligamento de colegas que nos eram caros, independente das razões que os levaram a se separar de nós. 


Em cada uma de nossas mentes rolava um filme particular. Nós conseguimos. Eu consegui!

 

Finalmente o grande dia

 

 

Por outro lado, a aumentaria a responsabilidade – era o que eles nos diziam nas sessões de doutrinamento; eu porém insistia em nem pensar nisso. Deixaria para depois preocupar-me com a responsabilidade; cada perrengue no seu dia – era o meu lema. Na unidade em que eu viria a ser classificado – esse era o termo técnico correto – haveria outras obrigações e cobranças, a respeito das quais somente lá é que pensaria em delas tomar conhecimento e resolvê-las. Nenhum de nós seria mais conduzido, como acontecia na Escola em que para tudo havia um comandamento de alguém, mas sim exigidos em iniciativas, devendo por em prática o que foi ensinado naqueles dois anos. Sobre esta nova fase, a vida viria a me exigir muito também muito durante mais vinte e oito anos, e aquele jovem de dezoito anos não tinha a mínima ideia do que lhe esperava. Essa era uma grande verdade. Muito mais que a vida profissional, a particular, para a qual não existe escola, sim me exigiria muito mais ainda, levando-me a experimentar situações inimagináveis para aquele garoto ainda. Estaríamos realmente prontos?

Ordinário, marche!!!

 (BLOGUE do Valentim em 13jul2014)

 

 

ÀS MARGENS do rio Xié

DURANTE minha carreira de três décadas na Força Aérea Brasileira tive pouquíssimas oportunidades de viajar a serviço. Minha experiência maior é pelo fato de ter sido movimentado por seis vezes. Primeiro Anápolis, depois Boa Vista, Manaus, Belém, Brasília e, por último, Belém de novo.

Por sinal,  boa experiência. Assim conheci grande parte do território auriverde, que chamamos de Brasil.

Além disso, posso considerar a experiência na localidade de Cachimbo, para onde íamos em missão a cada quinzena, em revezamento. Isso ocorreu durante dois anos. Uma equipe ficava na sede da Unidade, em Brasília, enquanto a outra permanecia em Cachimbo. Creio que essa foi a minha grande experiência em viagens. Uma grande exceção na carreira.

Por ser de uma especialidade de apoio e não das que lidam diretamente com a aviação, quase não saí de sede. Uma vez, quando estava em Manaus, tive oportunidade de viajar por duas vezes. Isso foi na década de 1980. Uma viagem para a rota do rio Solimões, chegando a Tabatinga, fronteira com a Colômbia.

Noutra vez, fiz a rota do rio Negro, chegando a Yauaretê, lá na “Cabeça do Cachorro”.

Embarquei naquele C115 Búfalo. Minha missão era fazer pagamento para alguns funcionários da COMARA, talvez cinco ou seis, que permaneciam nessas localidades longínquas e isoladas do Brasil. Nelas não havia, a não ser a pista de pouso precária, missões religiosas e um pelotão de fronteira do Exército Brasileiro, nada de organizado, nem banco nem correios. Tudo dependia do avião.
Em Cucuí, por exemplo, além de víveres e outros objetos, foram entregues cartas aos militares do Exército e suas famílias. Fazia três meses que não mantinham contato com o restante do país. Esses são verdadeiros heróis.

Região conhecida nos meios fabianos como “Cabeça do Cachorro” 
por lembrar no mapa a cabeça do animal

Numa determinada localidade, fiz uma missão especial que muito me marcou. Depois de fazer o pagamento ao guarda-campo local, recebi deste um documento para ser entregue na  Seção de Pessoal Civil do Sétimo Comando Aéreo Regional, Unidade em que servia escriba.
Era uma certidão de nascimento de seu filho mais novo. Ele deve ter viajado muito até o cartório mais próximo para conseguir tal registro civil. Provavelmente em São Gabriel da Cachoeira.
Pude ler então, por mera curiosidade, o local de nascimento do garoto: “às margens do rio Xié”. Nada lembro sobre o nome do pai, o tal funcionário, mãe, tampouco do nome do garoto.
Nunca até então soubera da existência de tal lugar. Jamais em minha vida tinha me deslocado a lugar tão remoto. Foi lá que eu vi os índios fazerem farinha de mandioca, tal qual o meu povo ainda o faz lá no Pará.
Há quanto tempo se produz farinha de mandioca assim? Essa pergunta me veio à cabeça de imediato. Talvez há milênios.
Sim, eu estive lá. Nas margens do rio Xié, e as águas negras daquela região são testemunhas desse fato.
Até que parei em Dois Vizinhos, sudoeste do Paraná. E aqui fiquei.
(BLOGUE do Valentim em 7ago2016)

SARGENTO Tarcísio!

NA MAIOR parte desses mais de trinta anos de minha carreira na FAB exerci atividades na área de recursos humanos, o que me deixou muitas vezes com o senso de realização, a consciência do dever cumprido. Uma das razões da alegria que sentia era em razão da oportunidade que tinha em servir ao meu próximo. Além da mera obrigação funcional, ver o sorriso de agradecimento no rosto alheio era para mim uma coisa que nunca teve preço.

 

Uma das minhas manias era saber de memória o nome completo de boa parte do efetivo da Unidade. Não só da unidade, mas alguns outros nomes me ficaram na memória até hoje.

Um dia em Belém, vi saindo do cassino de suboficiais e sargentos uma figura muito conhecida de todos nós, que convivemos juntos aqueles dois anos na Escola.

Gritei: “Tarcísio Rodrigues de Farias!!!”.

O suboficial Tarcísio voltou-se pra mim e me abraçou. Emocionado, disse-me: “Vê só, Valentim”, apontando para o antebraço esquerdo, “Estou até arrepiado”.

 

O fato de eu o ter reconhecido, travado diálogo com ele, e ainda por cima ter lembrado de seu nome completo o emocionou, emocionando também a mim, que admirava o jeitão espontâneo daquele sargento que nos dava instrução de DL-AT e regulamentos, intercalando com alguns palavrões, que longe de nos ofender deixavam o ambiente relaxado. Divertíamos-nos com ele.
Ainda lembro que havia sempre alguém, para provocá-lo e também para que todos desse risadas, que perguntava: “E o bizu, sargento?”. “Bizu é…” – respondia Tarcísio numa rima conhecida. E a risada era geral.  (BLOGUE do Valentim em 05mar2015)

 

 

 

SANTELMO, o sincero

HAVIA numa unidade em que servi um primeiro-sargento que atendia pelo nome de Benito Fernandes. Já ia pelos seus cinquenta anos.

Havia chegado de Belém, transferido uns dois anos antes, muito provavelmente como uma espécie de punição, que naquela época era muito comum. Era muito conhecido por tirar mais serviços que os outros: “Seu bolso é meu guia”, era o seu lema.

Além dessa característica — não rara, por sinal, em unidades da Força –, era um homem sarcástico, irônico, que vivia a fazer brincadeiras com quase todos, dizendo piadas e espalhando conversas de duplo sentido, que tinha o propósito — era o que parecia — de fazer a gente dar gargalhadas. Fazia assim de si mesmo o centro das atenções.

Por essa razão, sua ficha continha muitas punições disciplinares e sua carreira não ultrapassou a graduação de primeiro-sargento. Sua carreira estancada fez de si um homem frustrado. Muitas de suas brincadeiras, talvez por essa dor íntima, traziam um viés de vingança e sutil revolta. Esse problema, porém, só era visualizado por poucos, os mais experientes da vida; para a grande maioria de nós, jovens, a questão toda se resumia a dar risadas, ainda que às custas do sentimento alheio. Apenas isso.

Um de seus alvos prediletos era a família alheia, fazendo graça de situações delicadas no campo conjugal, no comportamento inadequado das moças e em casos de pederastia. “Acordei às duas da manhã e, pela janela, vi que a mulher de um vizinho chegava àquela hora” – era um desses comentários. “Não, não estou dizendo nada. Longe de mim insinuar alguma coisa…”, completava em seguida de modo a apenas deixar no ar a insinuação maldosa.

Entre os novinhos da unidade corria a alcunha de Santelmo, que diziam dele na ausência. Santelmo era um personagem do célebre humorista Chico Anysio, cuja característica principal era dizer verdades, sendo essa espécie de sinceridade causadora de mal-estar e situações delicadas ao seu colega ou mesmo patrão. Então, para muitos Benito passou a ser conhecido por Santelmo: “Eu não sei mentir!”. Chico sabia explorar como ninguém a franqueza humana de modo a deixar as pessoas envolvidas em situações risíveis e delicadas.

Benito certa vez, segundo ele próprio, foi à Ajudância para falar com o tenente Wanderlan, que era falado por sua suposta homossexualidade: “Tenente, com a sua licença (fez continência)! Gostaria de falar com o capitão Lopes, o comandante do esquadrão de pessoal.”. Teria lhe respondido o tenente: “Ele está ali no banheiro, urinando. Queres ver, queres ver, queres ver?!”. “Eu não!”, respondeu-lhe o sargento, e pensava: “Só se eu fosse da tua marca”.

Outra vez, ladeado pelo major comandante do seu esquadrão, visitava os diversos setores do hangar de manutenção: “Major, me transfira para essa seção.”. Depois de ser indagado sobre o porquê, ele respondia: “Veja o cabelo daquele novinho, tão grande, que faz muito tempo não visita o barbeiro… Que cabeleira linda!”.

Doutra vez chegou ao chefe e veio com esta: “Major, estou seriamente preocupado com o tenente Lourenço. Não seria melhor mandar uma ambulância à casa dele. Deve estar doente, pois faz três dias que não vem ao quartel.”

Quantos Santelmos existem por aí?

SARGENTO Caveirinha

EM MINHA época de Escola de Especialistas, final da década de 1970, havia um primeiro-sargento cuja figura me ficou indelevelmente marcada na mente. Aliás, todos os alunos daquela época jamais esquecerão do sargento Rodrigues, o Caveirinha, apelido ganho graças à sua aparência incomum,  à fama de sargento mau e ao rigor em que agia como instrutor de Ordem Unida para todo o Corpo de Alunos, constituindo-se o terror daqueles alunos de primeira série. Feio (feio não: horrível, simplesmente), hoje seria comparado ao “Seu Madruga”, do seriado mexicano Chaves.
A maioria de nós, aquele meio milhar de jovens oriundos de todas as partes do Brasil, era egresso da vida civil, nada entendendo de militarismo. Não sabíamos discernir nada, e devíamos aprender tudo num curto período de dois ou três meses a fim de prestarmos o compromisso de juramento à Bandeira, uma obrigação regulamentar imposta a todo brasileiro que ingressa nas forças armadas brasileiras. Exceção era feita aos jovens que antes eram soldados ou cabos, que já vinham escolados, porém tinham que passar igualmente por todas as instruções, quer fossem teóricas (regulamentos) ou práticas (ordem unida, prática de tiro e manuseio de armamento).
Caveirinha, sujeito magro, cara chupada e espesso bigode, era o sargento mais afamado e mais temido entre a alunada. Pegava no pé especialmente daqueles que tinham dificuldade motora, e que, muitas vezes pelo nervosismo natural, não discerniam entre “direita volver” ou “esquerda volver”, nem acertavam o passo ao marchar, e muito menos tinham habilidade com o manuseio do armamento, que naquela época era o velho e pesado mosquetão usado na primeira guerra. Caveirinha não deixava passar qualquer deslize, e com isso a turma ficava mais nervosa e trêmula. Para nós, a impressão que ficava era que ele se comprazia com o nosso sofrimento.
A respeito de sua figura, as anedotas e situações folclóricas também eram recorrentes. Consta que certa noite, os grupos de alunos estavam no pátio do rancho para a ceia, que, pelo boato que corria sobre adicionarem algum remédio no chá para aliviar os hormônios, era também conhecida pelo singular nome de “brochante”. Em geral, os grupos formavam por turmas ou séries, da 4ª série, aqueles que estavam no último semestre do curso, à primeira série, os “bicharais”, como eram jocosamente chamados por todas as outras turmas. O aluno mais antigo de cada série se encarregava de por em forma a todos de sua turma e os apresentava ao sargento-de-dia, que estava lá para supervisionar a disciplina. Justamente naquela noite o sargento-de-dia era o Caveirinha.
Ocorreu de o mais antigo da primeira série presente ser o Orival, popularmente conhecido por “Catarina”, em parte pelo seu sotaque inconfundível de catarinense. Um aluno de quarta série orientou que o Catarina pusesse o grupo em forma, o que ele fez dando uma sequência de “sentido, cobrir, firme!”, e apresentasse a turma ao sargento Caveirinha.
Foi então ele:
– Com licença, sargento Caveirinha!
– Aluno Orival apresenta a primeira série pronta para o brochante.
O caveirinha, impassível, e olhando firme para a cara do bicharal, saiu-se assim:
“Aluno, em primeiro lugar o nome da refeição não é “brochante” e sim “ceia”. E em segundo lugar…

          …CAVEIRINHA É A PUTA QUE TE PARIU”.

No entanto, tudo ficou por isso mesmo. O sargento não levou adiante o fato – transgressão disciplinar -, sabendo que se tratava apenas de bisonhice do Catarina, que caiu na armadilha do quarta-série. Era um cara bom, um grande profissional que fazia bem o seu trabalho.

Jamais te esqueceremos, sargento Rodrigues. (BLOGUE do Valentim em 15ago2015)