AZAMBUJA, o primeirão!

ALÉM de mim, poucos sabiam, mas a verdade é que Azambuja recusou participar da confraternização por razões de saúde. A imagem dele perante o comandante ficou como sendo de alguém que não se integra à turma, que se considera diferenciado dos demais colegas. Onde estaria o espírito de corpo?
Os dias foram passando e regressamos à sede. Nogueira ficou em Cachimbo pois morava lá. A exemplo dos demais residentes não participava do revezamento entre o campo e a sede.
Descobriu-se que, para variar, o episódio que motivou a representação de Nogueira contra o Pedreira foi mais uma armação, que há algum tempo vinha desviando combustível da Seção de Transportes. Levava diariamente gasolina em pequenos galões, e para não darem falta adicionava água ao produto que ficava nas bombas. Igualmente a marcação numérica das bombas de gasolina foram adulteradas de forma a mostrarem mais do que realmente abasteciam os veículos do campo. O sargento Pedreira poderia ter-se excedido no trato com Nogueira, proferindo impropérios e ofensas, mas, descontados estes exageros, ele estava certo.

Três dias depois na próxima volta a Cachimbo, Azambuja à tardinha retornava de uma corrida que sempre fazia na pista que dá para o aeroporto, quando fora avisado por alguém de que o chefe desejava lhe falar. Ao entrar no prédio do comando, deu com o capitão Nishio, que lhe dirigiu um sorrisinho. Não era um sorriso agradável, um sorriso de simpatia, mas sim um sorriso de deboche, um sorriso irônico, havia ali um quê de maldade. Azambuja depois fez-me um comentário, mas no momento não entendeu nada.

O tenente Ezequias disse-lhe que o comandante, ao saber do fato – a representação – perguntou  sobre quem havia redigido o documento. Sabendo que fora Azambuja, ele deu um murro na mesa. Ficou furioso.

— Fique tranquilo, Azambuja – assegurou Ezequias. — Você foi apenas um instrumento, e nada de mal vai lhe acontecer.
Embora aparentemente nada tivesse a temer, o sexto sentido lhe avisaria que não era  bem assim. No dia seguinte notei que a aparência do Primeirão não era nada boa. Parecia não ter dormido a noite toda. Não lhe fiz pergunta alguma sobre isso para não parecer indiscreto. Preferi aguardar o desenrolar dos fatos.

Há algum tempo, desde aquela tarde em que mudaram de assunto na presença do comandante, que notei o ambiente nada bom, em Brasília mas principalmente em Cachimbo. Não à toa, as punições disciplinares aplicadas pelo coronel Camboim soavam exageradas, coisa que era para simples repreensão verbal, ele aplicava ao infrator quatro dê, se a falta era mais grave, dez pê. Teve um soldado que levou vinte pê. Nada era dito, mas neste caso o soldado era um grande profissional, bastante querido, e se, muito, era suficiente oito dê ou quatro pê.

A temperatura não estava agradável. Quanto a Azambuja em particular, comecei a perceber a luz amarela acesa; a batata do Primeirão estava assando. Creio que ele tinha certeza disso, apesar de nada falar.

O tempo foi passando e o assunto não era resolvido. Parecia que o comandante esperava um momento mais oportuno, ou mesmo teria esquecido o assunto, pondo uma pedra em cima dele.

Terminou mais aquela etapa em Cachimbo. Dessa vez Nogueira foi junto com a equipe para Brasília a fim de realizar inspeção de saúde. Voltaria a Cachimbo no próximo avião.

Na tarde do segundo dia, Azambuja era chamado à sala do comandante. Chegou lá e já estavam Nogueira, de pé, e o tenente Ezequias, em uma das duas cadeiras que ficavam reservadas aos visitantes. Azambuja, depois da devida continência, foi autorizado a sentar na cadeira restante.
— Você é um desonesto, falso, trambiqueiro, tratante… — o coronel Camboim não poupava palavras a Nogueira, deixando o cabo num silêncio constrangedor.
— E ponha-se daqui pra fora! E eu vou pensar no que fazer com você. E tem mais: se quiser pode me processar, seu… volte agora pra Cachimbo, volte de ônibus, dê seu jeito!!
Nogueira saiu quase correndo da sala, humilhado.– E você, quase um suboficial, um cara antigo… —   agora as palavras doces eram dirigidas a Azambuja, transferindo a ira antes direcionada a Nogueira para o Primeirão.
— Coronel, eu, eu… não estou entendendo. Fui apenas um instrumento… — Azambuja, surpreso, não conseguia muito bem articular as palavras, quase gaguejando.

— Pois eu vou lhe dizer, Azambuja. Você não tomou a providência que devia tomar.
— ??
— Você — continuou Camboim –, você não afastou o representador, o Nogueira, da jurisdição do representado, o sargento Pedreira.Azambuja, de rabo de olho, tentava ver a reação do oficial que estava na cadeira à sua esquerda, seu chefe imediato. Nenhuma palavra, nenhuma reação, nem ao mesmo tinha coragem de dirigir o olhar ao comandante que falava. Fazia de conta que nada tinha com isso. Confidenciou-me Azambuja que, convencido de que Ezequias nada ia dizer em seu favor, mas também de que nada adiantava argumentar ao comandante sobre a existência em Cachimbo na data de dois oficiais, o próprio chefe imediato, que agora estava inerte, sentado a seu lado, e quem lhe dera a ordem, cabendo ao Primeirão a obediência de cumpri-la, e também o capitão Nishio, que, embora de outra função, era o oficial mais antigo presente no campo. Cabia sim a eles decidirem e agirem e não a Azambuja, que, apesar de ser o mais sereno presente, era na ocasião apenas um subalterno. Não cabia a ele, portanto, a ação.

Diante do silêncio de Azambuja, e também do silêncio de seu chefe imediato, que calado entrou e mudo permaneceu, o comandante continuava a descompostura:

— Você concorda comigo Azambuja? Concorda que o representador deveria ter sido afastado da área do representado?

— Concordo — respondeu Azambuja, sem ter outra saída.
— Ahá! Então você concorda comigo? Concorda de que você errou por omissão?
— Aí, sinto muito, comandante, mas não concordo.
— O quê??? – Indignou-se Camboim. — Então, você não concorda comigo?
— No caso, não posso concordar, comandante — respondeu Azambuja, com a sinceridade que lhe era peculiar e que, em alguns casos — e nesse caso em especial –era facilmente confundida com desacato.
— Ezequias! — Virou-se o coronel Camboim para o tenente — quem não concorda comigo não pode permanecer na minha Unidade! Mande o Azambuja… para outra Unidade, para o Sexto Comando Aéreo.Azambuja desceu e de pronto — a exemplo do que se vê nos filmes — passou no almoxarifado e pediu uma caixa de papelão, dessas de embalagem, e, chegando na Ajudância, foi catando todos os seus pertences. Mandou-me confeccionar um ofício de apresentação ao Sexto Comando Aéreo, onde se apresentaria na manhã seguinte.

Houve com certeza gente dando pulos de contentamento com o infortúnio desse valente e honrado colega. Depois, somente muito depois, fiquei sabendo quem eram.

O tempo correu e seis meses depois o coronel Camboim perdia o comando da Unidade. Foram muitos os desacertos, que não se limitaram somente às injustas punições disciplinares que costumava aplicar. O principal problema detectado pelas autoridades foi a contabilidade mal feita dos valores recebidos pelo Campo a título de hospedagem. Estes valores não eram repassados legalmente ao órgão superior, como era exigido por lei. Houve uma denúncia, com certeza, não se sabendo o autor. A gota d’água foi quando um paciente foi levado ao Campo em busca de assistência médica, porém o helicóptero não estava disponível, vindo o infeliz a falecer por falta de socorro adequado no hospital mais próximo. A aeronave estava à disposição do coronel Camboim que, em companhia de sua namorada, se encontrava em um pousada distante 150 quilômetros do local. O caso repercutiu muito, chegando a uma revista de circulação nacional.

Enquanto Camboim descia ladeira abaixo, Azambuja, agora já promovido a suboficial, preparava-se para um concurso. Em breve seria tenente. Na nova seção de trabalho dispunha de mais tempo e tranquilidade, podendo estudar à noite durante três meses, o que lhe garantiu bom sucesso na sua carreira.

Algum tempo depois, o próprio Azambuja requereu o pagamento da indenização de localidade especial, que fora negada a toda tropa. O documento, ao chegar nas altas esferas da Força, foi transformado em portaria, legalizando a partir de então o pagamento da indenização a todos. Só aí eu fui entender a fábula que Azambuja outra vez havia contado.

Passado algum tempo, percebi que as coisas deveriam ocorrer assim mesmo. Se o filme de Azambuja já vinha sendo queimado naqueles meses da administração do coronel Camboim, era certo de que o comandante não assinaria, como era exigido, o formulário de inscrição. E se assinasse, o faria não recomendando a inscrição. Isso, embora injusto, levaria a um transtorno desnecessário, fazendo com que Azambuja perdesse o prazo. Ainda que não chegasse a perder o prazo, o incidente lhe traria intranquilidade, culminando com o insucesso dele no evento.

Azambuja foi aprovado com louvor. Por mera curiosidade, verificando as médias de todos os aprovados, notei que a de Azambuja foi a maior. Creio que, permanecendo em Cachimbo, naquela rotina e ir e voltar a cada quinzena, era difícil conseguir tal feito, talvez até nem mesmo fosse aprovado.

Deus escreve certo por linhas certas.

 (BLOGUE do Valentim em 07ago2014)

AÇAÍ com peixe frito!

NÃO me recordo ao certo de quando pela primeira vez ouvi dizer que em ranchos* costuma ter desvio de gêneros alimentícios.

Embora tentasse esquecer, me vem, de quando em vez, à memória um caso que me contou um velho taifeiro que veio a trabalhar na mesma seção que eu. Contou-me que anos atrás trabalhava numa secretaria de rancho. Certa feita, ao verificar as notas recebidas, viu que a unidade recebera certa quantidade de arroz de primeira categoria. Achando estranho, pois, pela quantidade recebida do cereal, toda a tropa devia estar comendo do melhor arroz, foi à despensa para conferir. Ao verificar in loco, notou que o produto era de terceira.

“O chefe precisa saber disso”, pensou de si para si. “Estamos sendo enganados.” Sem querer, deixou que o pensamento lhe viesse à boca, porque um colega que batia à máquina ao lado, depois de um muxoxo, disse-lhe: “Deixa de ser bobo. Não perde tempo com isso”. Mas Lopes (esse era seu nome) não lhe deu ouvidos e bateu à porta da sala da chefia.

O chefe, que na hora discutia ao telefone, fez sinal que aguardasse. “Veja a qualidade desse pão…” e “O produto que vocês nos forneceram não tem consistência…”. No final, o fornecedor garantia que recolheria de imediato o pão, trocando por um de boa qualidade.

O diálogo que Lopes testemunhou lhe dava mais força e, com a expressão facial, concordava com a atitude do capitão Simões, seu chefe, com quem estava prestes a colaborar. No entanto, para seu desapontamento, a chefia recebeu a denúncia com indiferença. “Deixa comigo”, teria dito.

Dias depois, Lopes entrou em férias. Ao voltar, fora transferido para o almoxarifado. Muito bobinho para trabalhar em rancho.

“Desculpe, seu Lopes, mas eu não acredito nisso”, disse-lhe. “Desculpe dizer, mas o senhor é muito ingênuo, sargento”, respondeu-me ele. “Quem parte, reparte e não fica com a melhor parte, é doido ou não entende da arte”. O senhor acha que um convidado ao chegar num banquete com tudo de bom e do melhor, não vai encher a pança e comer além do que o apetite lhe pede? Ora, tanto vai comer muito mais como vai encher uma sacola e levar o que puder para casa, mandando às favas tudo o que se chama bons modos e boas maneiras”.

Meditava sobre isso de quando em quando, até que me ocorreu um fato, creio eu, que em 1970. Talvez não tenha sido aí e sim um ano depois. O certo — e isso eu não esqueci — é que foi na gestão de Horácio Vieira de Sousa e Silva, um comandante que marcou época e do qual ainda todos que serviram sob seu comando se lembram muito bem. É o mesmo que voltaria mais tarde, desta feita para comandar toda a Primeira Zona.

“Na gestão de Horácio…”, “Foi no comando do Horácio…”, “O comandante da Base Aérea era o Horácio…” Era comum a todos — e ainda o é para alguns — nominar o comandante que, por seu jeito de comandar com mãos de ferro, marcou época e permaneceu — para o bem e para o mal — na memória daquela gente.

Faz, portanto, muito tempo. Mas lembro como se tivesse acontecido ontem. Conto para que o caso não siga comigo ao túmulo.

Na verdade sempre achei um grande exagero, uma grande maldade, falarem assim. Eu parto do princípio de que todos são inocentes até provado o contrário. Em algumas coisas eu sou igual São Tomé: só acredito vendo. Além do mais, na caserna a desonestidade é uma coisa inconcebível, feia mesmo.

Pois bem. Passaram-se lá pouco mais de duas décadas.

Chegou um dia, quando já possuía quase trinta anos de serviço, que a minha fé na honestidade alheia — a minha ingenuidade, fique claro, pois o velho taifeiro tinha razão – quedou-se seriamente abalada.

O escriba exercia então o cargo de adjunto do Agente Fiscalizador, que na época era nas repartições militares o oficial incumbido da fiscalização de tudo o que é despesa e receita, movimentação de patrimônio (seja ele imóvel, móvel ou intangível), a contabilidade, finanças… tudo.

De vez em quando, a unidade central de fiscalização vinha à unidade para fazer auditoria. Um caderno grande de perguntas, que, respondidas, viravam um relatório.

Vieram.

E essa seria mais uma dessas auditorias chatas e corriqueiras, com perguntas e respostas aos diversos setores, como acontecia nos anos anteriores e que justificava as diárias gordas que recebiam por viagem fora de sede.

Preparamo-nos.

Chegaram. A novidade dessa vez foi a inclusão de um capitão especialmente incumbido de auditar o rancho da unidade. Fez uma vistoria geral e rigorosa, bem além do que se esperava.

Estranho.

Entre tantas providências, uma delas foi julgada incomum pelo efetivo da subunidade: retirar toda a carne estocada na câmara fria. “Chefe, a carne vai estragar”, alguém disse, com genuína preocupação com aquele tipo de alimento perecível. Mas o capitão não deu ouvidos e mandou pesar todos os tipos de carne, seja ela bovina, suína, aves e pescados.

Feito isso, cotejou o estoque físico com o escriturado. Descontou algum que ainda não tinha dado tempo de entrar na contabilidade, e de posse das notas e relatórios, foi mandando pesar peça por peça, uma a uma, até esvaziar o frigorífico. O produto ficou ao tempo, correndo realmente o risco de se estragar.

Resultado: deu uma diferença a menor, em prejuízo da unidade.

Foi o que se ficou sabendo. Mas logo a questão caiu no esquecimento. Na verdade, o assunto foi abafado, porque, se fosse levado adiante, poderia atrapalhar as pretensões do agente diretor, que já preparava seu enxoval de oficial-general. As estrelas era questão de meses, de forma que um caso desses poderia levar tudo a perder.

Feitos contatos com alguns fornecedores, e o caso foi resolvido. A comissão voltou à Brasília com justificativas no campo “observações” de que o produto em falta ficara sob a responsabilidade de uma firma fornecedora, que, como fiel depositária, guardava a carne para a unidade, já que a câmara fria desta era de capacidade insuficiente.

Puseram panos quentes.

Um mês depois, meu chefe, o tal agente fiscalizador, chamando-me à sua sala, voltou ao assunto. O rancho deveria receber a nossa visita e qualquer coisa errada que fosse vista, deveria ser registrada.

Assim o fizemos. De primeiro, ele em um ou dois dias somente de visita à cozinha do rancho, à despensa, ao refeitório e outras dependências.

Nos dias seguintes, fui eu ao local sozinho disposto a seguir à risca a recomendação da chefia. Ora, se o chefe manda fazer, era porque tinha gato na tuba, ou, pelo menos, sérias suspeitas. Além do mais, estava entre as nossas funções realizar vistorias nos diversos órgãos estocadores de materiais. Normal.

E fui com dois sentimentos: primeiro, cumprir o meu dever, fazendo o melhor possível; o pessoal de lá não poderia achar ruim, pois, se não deviam, é porque não deviam temer. Segundo. que nada de anormal descobriria, porque, ainda que alguém tivesse culpa no cartório, não iria fazer a descoberto.

Possuía também um terceiro sentimento: a certeza de que alguém, uma ou várias pessoas, iriam se sentir mal com a minha presença intrusa lá. Afinal, quem gosta de se sentir sob desconfiança de que pratica algo errado?

Por isso, cheguei ao rancho pisando em ovos. Sentia que um e outro me olhavam de soslaio. Paciência. Dei de ombros. Estava aí para cumprir o meu dever, e o faria com melhor dos meus ânimos.

 

(*) Rancho é o conjunto de instalações militares que compreende refeitório, cozinha, despensa e áreas adjacentes; o local onde a tropa se reúne para fazer refeições. 

AZAMBUJA, o primeirão!

A MENSAGEM-RÁDIO sobre o C130 vindo do Rio de Janeiro, prontamente repassada ao conhecimento do comandante, nos informava dos dados de voo da aeronave que chegaria três dias depois para fazer a Operação Cachimbo. Tal mensagem era a deixa para que a Seção de Operações fizesse a relação de passageiros, a ordem de serviço com a função que cada um exerceria no Campo, além de confeccionar o manifesto de carga. A Seção de Intendência, ao mesmo tempo, ultimava junto ao rancho do 6º Comando os víveres necessários para alimentar a tropa durante aqueles quinze ou mais dias em Cachimbo, além de mandar para a tesouraria a relação de etapas a serem sacadas de cada um. Também o almoxarifado organizava todo o material a ser despachado. As providências em Cachimbo, visando a passagem de funções, e o regresso da equipe lá destacada, paralelamente tinham andamento, de forma que naquela meia hora em que a aeronave estacionaria na pista todos deveriam colocar seus respectivos substitutos a par das questões específicas, conforme a função a ser exercida por cada um de nós.
Azambuja chegaria um dia antes da decolagem do C130. Antes disso, ou seja dois dias antes do previsto para o embarque, abrindo a cortina da janela, pude ver, por meio da vidraça, que o coronel Camboim,  no pátio em frente à Unidade, falava com três de nossos colegas, um sargento, um cabo e um soldado. Na verdade, o comandante mais os ouvia que falava pois eram eles, alternadamente, que lhe dirigiam a palavra, e – pude notar – a expressão facial do coronel não era boa, certamente não gostando muito do que escutava. Deixando para depois a feitura do relatório em que me ocupava no momento, aproximei-me deles a fim de participar da conversa, pois aprendi com o tempo que era salutar para a nossa sobrevivência o bom entrosamento com o comandante; além do mais, o avião sairia em dois dias, e era bem possível que ali eu pescasse alguma informação importante a respeito da missão. Ao aproximar-me, ouvi que falavam de futebol e o comandante dava subitamente uma boa risada.
— Mas aquele gol! Naquele último minuto…
— Pois sim, culpa toda do beque, que bobeou feio…
Fiquei em princípio sem entender nada. A conversa me parecia demasiado artificial, diferente de antes em que notei os semblantes carrancudos. Quando perguntei de que jogo estavam falando, nada me disseram e o comandante, alegando ter-se lembrado de um compromisso, caminhou de volta a seu gabinete, deixando-nos no pátio. Os outros também saíram, um a um, de fininho sem me darem muita atenção. Pareceu nítido para mim que haviam mudado deliberadamente de assunto, que confabulavam sobre algo que eu não deveria saber, e fiquei naturalmente ofendido por me fazerem de bobo. Esse incidente contribuiu para que me pusesse em guarda, e então tornou-se natural para lembrar mais tarde desse incidente. Guardei comigo aquele episódio, nada dizendo a ninguém.

Chegou o dia da viagem e todos chegaram ao local de embarque bem cedo. A ordem sempre era para chegar hora e meia mais cedo em relação ao programado para a decolagem. Os componentes da Seção de Operações chegava duas horas e meia mais cedo, tendo em vista todos os preparativos. Também chegavam antes os encarregados de Rancho e do Almoxarifado.

Feita a chamada e realizada a apresentação formal ao oficial mais antigo presente, todos embarcaram, incluindo Azambuja que, conforme combinado, chegara no dia anterior.

A agitação presenciada na pista de taxiamento era coisa que estávamos acostumados a observar. Parecia uma grande feira, tal era o movimento. As viaturas e seus motoristas a postos estavam ali para levar à sede do Campo todo o efetivo chegado, além das bagagens pessoais e de todo o material descarregado. Caminhão de bombeiros estavam também a postos, conforme as normas de segurança rigidamente preconizadas. Na equipe também médico e enfermeiro em substituição aos profissionais que lá estavam para seguir de volta a Brasília. O eletricista era residente no Campo, de modo que não havia um a bordo. Igualmente outros, de seis a oito, moravam no Campo em casas cedidas pela Aeronáutica, e estes estavam sempre em Cachimbo, só se ausentando em caso de férias. Chegamos e fomos direto ao Rancho, para depois ocuparmos os respectivos alojamentos conforme o mapa previamente preparado pelo Encarregado de Hospedagem.

No dia seguinte àquela chegada em Cachimbo, à tarde, o cabo Nogueira, Luiz Soares da Silva Nogueira, entrou naquela sala, onde dávamos expediente. Estava esbaforido pela distância que havia caminhado sob aquele sol das duas horas entre a Seção de Transportes e a Ajudância, que era o local onde estávamos.

– Acalme-se, Nogueira – disse-lhe Azambuja, indicando-lhe uma cadeira. – Sente-se aí e me diga o que houve. – Alcino…
– Já sei – disse o soldado Alcino, saindo da sala.
Nogueira fez uma pausa para descansar, enquanto, tirando um lenço do bolso, enxugava a testa.
– Vim, Sargento, pedi ajuda pra representar contra o sargento Pedreira.

Firgurinha carimbada esse Nogueira. Cabo velho, já com os seus vinte e poucos anos de caserna, não seria promovido a sargento, de acordo com a proposta de legislação que estava em gestação, por causa de sua vasta folha corrida. Sua ficha exigia complemento de mais duas folhas, tantas eram as punições disciplinares que lhe foram impostas ao longo do período. Parou ali em Cachimbo porque, malgrado o comportamento disciplinar, era trabalhador, desses capaz de puxar um trator se precisasse; além de trabalhador, possuía boa lábia. Nos últimos meses estava com a vida sossegada, passando a juntar os trapos com a dona Ermelinda, viúva que conhecera na cidade, passando a viver com ela e sua filha, a Carlinha, em uma casa da Aeronáutica que lhe fora cedida. Azambuja fez alguns segundos de reflexão para pensar como agir naquela situação nova. Ora, representar contra alguém não tendo certeza absoluta da injustiça cometida e, além, não tendo testemunhas ou provas, era certo perder a questão. Em geral as possíveis testemunhas negavam fogo, deixando o prejudicado sozinho com o problema. Era preciso tato. O comandante, coronel Camboim, resolvera viajar logo no início desse dia, não sabendo ao certo se regressara para Brasília ou tinha ido para outro lugar. Ficaram em Cachimbo apenas dois oficiais, o tenente Ezequias e o capitão Nishio. Depois de ouvir Nogueira, Azambuja pediu que eu acompanhasse o cabo até a sala do comandante, onde o tenente Ezequias fazia algumas ligações telefônicas. (BLOGUE do Valentim em 21jul2014)

Continua…

ZANONI, o legalista

DUAS semanas após o inicio da rebelião, vendo as seguidas dificuldades do ministro, o ajudante-de-ordens, capitão-aviador Ivan Zanoni Hausen, se apresenta como voluntário para ir ao front. A primeira reação do chefe foi de recusa. Tarimbado nos embates políticos, o ministro queria proteger seu subordinado daquilo que sabia viria a acontecer fatalmente: a perseguição. No entanto, como se tratasse de voluntariado, Zanoni bateu o pé, para ir.
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A missão organizada pelo ministro previa o emprego de três bombardeiros North American B25J. Dois decolariam do Parque Aeronáutico de São Paulo (Campo de Marte) e o outro da Base Aérea de Fortaleza.
Na madrugada do dia 26 de fevereiro, no Campo de Marte, Zanoni está desconfiado. Os B25 se encontram em revisão. Por que não escalaram aviões em condições de voo? Essa dificuldade, entretanto, é café pequeno (para usar uma gíria da época); não é tão grave diante do que vem pela frente. Susto grande mesmo é quando o capitão Zanoni, descansando no alojamento da Base, atende um telefonema anônimo. Do outro lado vem a ameaça:
 “Te cuida, capitão. O B25 está sabotado!”
Era terrorismo puro. Só mesmo o ardor da juventude (ou a chama da legalidade) para fazer o voluntário Ivan Zanoni Hausen levantar voo naquela madrugada de densa neblina, portadora dos mais infaustos augúrios na mente de um capitão-aviador. Bastou, porém, o avião, subir menos de quinhentos metros e furar a camada tenebrosa, para Zanoni deslumbrar-se com um céu estreladíssimo, desses que o presidente Juscelino Kubitschek gosta de apreciar em suas constantes viagens pelo Brasil. A visão encantadora da noite espantou os maus pensamentos de Zanoni, mas ele não fez um voo confortável.
O B25 que lhe deram não tinha o acolchoado dos assentos. Foi retirado pelos simpatizantes dos rebeldes, de modo que ele e seu copiloto, o capitão José Carvalho Pereira (outro voluntário), para não machucarem o traseiro no ferro da cadeira, sentaram-se em cima de seus paraquedas. Os dois B25 fizeram escala em Barreiras, na Bahia, para reabastecimento. Oficiais simpatizantes dos rebeldes tentaram retê-los, sob pretextos diversos. Mas Zanoni estava decidido “a levar a mensagem a Garcia”, bordão muito usado na época que queria dizer “cumprir missões, custe o que custar”, como fez o tenente americano na guerra dos Estados Unidos contra Cuba, retratado no famoso folhetim “Mensagem a Garcia”.
Enquanto Zanoni enfrentava esses obstáculos, o B25 que decolou de Fortaleza fazia um pouso de emergência em São Luís do Maranhão. Pane? Não. Ah, para reabastecer? Nada disso. É que um dos pilotos, o tenente Adair Geraldo Ribeiro, precisava urgentemente… ser operado de apendicite!
Quando, finalmente, o B25 recebe novo tripulante e chega a Belém, os tenentes-aviadores Flávio Santos e Octávio Ramos de Figueiredo se recusam a cumprir missão contra os rebeldes e recebem voz de prisão. Também o segundo B25 enviado do Campo de Marte não chega a ser empregado contra os rebeldes, informa o citado autor de “A FAB e a política nacional na década de 50”, sem no entanto, explicar a causa.
Desse modo, apenas o bombardeiro pilotado por Zanoni, o de matrícula 5123, vai cumprir missões na área conflagrada. Ele fica baseado em Santarém, já então em poder do governo, e realiza três sobrevoos em Jacareacanga, um a cada dia, até 29 de fevereiro, quando Veloso é preso e Paulo Victor e Lameirão fogem para a Bolívia. Mas sua ação é um doce de coco. Nem de longe representa qualquer ameaça. Veja por quê: o B25 Mitchell é um avião de grande poder de fogo. Na Segunda Guerra Mundial o inimigo morria de medo ao vê-lo.
O B-25 de Zanoni estava equipado apenas com uma torre de artilharia, na bolha do nariz. Nem levava artilheiro. Além de dois pilotos, fazia parte da tripulação apenas o sargento-mecânico, o que demonstra a falta de ânimo bélico dos legalistas, seguindo, aliás, uma recomendação do próprio presidente da República: “nada de tiros contra pessoas, prédios ou aviões”.
Zanoni deu uns tirinhos, sim senhor, mas nas águas do Tapajós, para calibrar a mira. E nuns tambores de combustível, colocados pelos rebeldes na pista de Jacareacanga para impedir tentativas de desembarque de tropas legalistas. Num desses reides (incursões rápidas), suspendeu o fogo para não atingir uns jegues que invadiram a pista.
As outras missões foram para atirar mensagens manuscritas concitando os rebeldes a se entregarem, e de patrulhar o Tapajós, já que naquela altura subiam o rio as barcaças com tropas da Aeronáutica comandadas pelo coronel Delayte.
Zanoni faz parte de uma geração de oficiais-aviadores em cujas veias corre o sangue da guerra cavalheiresca, aquela que faz o major Celso Resende Neves fechar os olhos diante do gesto de solidariedade de seu subordinado, o capitão do Catalina legalista que ajudou o rebelde Paulo Victor a consertar seu avião.
O caçador Zanoni, se avistasse o desamparado C47 em fuga, vestiria a armadura do guerreiro da gesta medieval e talvez até balançasse as asas do seu B25, a dizer ao rebelde Paulo Victor: “livre para voar, major…” A derradeira missão do B25 legalista no Tapajós foi o voo da vitória sobre o campo antes espetado pelas estacas pontiagudas dos índios mundurucus, destinadas a empalar os paraquedistas que se aventurassem a saltar.
Os homens do destacamento da FAB, feitos prisioneiros pelo major Veloso, finalmente se veem livres dos rebeldes após a decolagem de Paulo Victor. Zanoni dá ordem pelo rádio para que o sargento e seus soldados se formem diante da estação. O aviador legalista pretende formalizar a reintegração do destacamento à Força Aérea. O B25 faz uma passagem lenta e a baixa altitude sobre a pista, os homens em terra prestam continência a Zanoni e ele retribui com um balançar de asa, significando que a vida daqueles homens voltava à normalidade. Missão cumprida. O jovem piloto legalista entregara a “Mensagem a Garcia”. Quando os paraquedistas do Exército chegam a Jacareacanga, a paz já vigorava.
E o Capitão-aviador Ivan Zanoni Hausen voa de regresso ao Rio, na direção das agruras da vida militar, num Brasil dividido entre os partidários do brigadeiro Eduardo Gomes, os “eduardistas”, e a turma do xerife Lott.
A audaz missão de Zanoni em Jacareacanga, em defesa da democracia, irá marcá-lo de modo negativo na FAB, onde os antijuscelinistas foram sempre a maioria. Ele fez todos os cursos a que são obrigados os oficiais que almejam atingir o generalato, mas só atingiu o posto de tenente-coronel. Nunca foi promovido por merecimento, sempre por antiguidade. Poucos meses depois de dar seu depoimento para este folhetim, o aviador Zanoni foi vencido por um câncer, aos 74 anos. (Pedro Rogério Moreira in JK, Bela Noite para Voar: um Folhetim Estrelado por JK) (BLOGUE do Valentim em 23fev2016)

RISCO calculado

A ESSA altura o expediente já se encerrara havia meia-hora e os soldados de serviço no dia já se encaminhavam para a formatura de arriação do pavilhão nacional. Alguns, ao ouvirem a conversa, vieram se achegando e ali permaneceram, quietos, vivamente interessados no caso. Era um grupo bem maior que no dia anterior, quando Juvenal Flores iniciou a contar sua história. Ele, porém, parecia não se importar com a audiência, vez que o caso se tornara público e, pelo tempo decorrido, já havia prescrito. Com o objetivo de dar a versão real dos fatos, continua a narrar o caso.

“No dia marcado para início da punição, uma sexta-feira, nós, cerca de vinte e tantos sargentos, nos apresentamos ao hotel de trânsito para os dias de hospedagem forçada. O oficial-de-dia fez questão da nossa presença na revista de pernoite, o que nos deixava mais embaraçados ainda. Era um vexame maior estarmos ali junto com a equipe de serviço, cabos e soldados, todos sabendo da nossa situação humilhante. Tivemos que entrar em forma e o mais antigo nos apresentou ao oficial de serviço. Dia seguinte, eu estava de serviço ao prédio. O sargento-de-dia tinha acesso a quase todas as dependências, exceção feita ao gabinete do comandante e à seção de informações, cujo acesso era restrito. Fiquei sabendo  – procurei saber – antes que o chefe da seção de investigação, um major-aviador, tinha viajado a serviço em missão operacional, como era frequente, deixando sempre a seção aos cuidados de seu encarregado. Abri a seção, entrei e vi que os documentos relativos à punição ainda estavam sobre a mesa do chefe, para serem despachados com o comandante, portanto, sem assinaturas. O major deveria despachá-los com o coronel comandante tão logo voltasse, talvez na terça ou quarta. A via da grade de presos que foi para o oficial-de-dia controlar a nossa presença, esta sim, já estava assinada por ele, o major, pois não precisava submetê-la previamente à apreciação do comandante. Dei uma lida: meu nome e os dos outros estavam lá. Mas o item, a proposta que ia para o boletim, sem assinatura da autoridade, estava lá,  passível de ser modificada. Era um risco calculado…”

Relembrando os fatos e os procedimentos, Calixto, por dedução lógica,  já tinha certeza do que realmente ocorreu. Mas era deixar que Juvenal, por sua própria boca, desse a versão real do que houve.

“… Voltei à porta da seção, temendo que algum curioso estivesse por aí. Era sábado, não havia ninguém num raio de duzentos metros, dez e meia da manhã, e nem um movimento dos soldados que se revezavam nos quartos de hora; a próxima rendição de soldados só seria ao meio-dia. Trêmulo, com o coração alterado por saber que se me pegassem, seria o meu fim, e o que me restaria era voltar à região missioneira e empregar-me como peão de estância.”

Calixto, num exercício de imaginação, visualizava o amigo trajando bombacha, chapéu de aba larga, bota, espora, montado num cavalo encilhado a lidar com bois e vacas. Vencendo essa tentação, tornou sua atenção ao narrador.

“Voltei à mesa onde estava lá o papel com os nomes, o texto, nomes das autoridades e tudo. Carbono e duas vias. Depois de assinado, iria para a seção de pessoal para ser publicado em boletim reservado. Era meu interesse que isso não acontecesse, ou seja, que a punição disciplinar não se formalizasse. Me deu um estalo de pegar aquilo ali e rasgar, depois queimar. Mas isso seria uma grande estupidez, não daria certo; assim que chegasse o tal major, a primeira coisa que faria era pedir pelo tal item de boletim. Encontrando-no na mesa, como eram muitos nomes, muito provavelmente não desse pela falta um deles, julgando que teria sido conferido pelo sargento encarregado, em cujo trabalho tinha absoluta confiança. Decidi que o meu nome não estaria nessa relação. Voltei à porta, olhei para fora, tudo tranquilo, o prédio estava deserto. Fechei-a. Botei duas folhas de papel na máquina, papel carbono e comecei a copiar o item em tudo igual, exceção feita pela ausência do meu próprio nome. O tempo ia passando, e a essa altura o relógio de parede já dava onze horas. Quase completo, percebi que, por questão de hábito e instinto, corrigi uma palavra que estava errada no item original. Tive que rasgar aquele documento, guardando no bolso os papeis amassados, e também o carbono. Se jogasse na lixeira, poderia ser descoberto. Refiz o item com os erros de gramática do original. Mas…”

Calixto perguntou o quê.

“Por uma dose de boa sorte, levantei-me e fui à janela. Afastei algumas persianas. Caramba! Deve ser o oficial-de-dia xeretando. Não era. Era sim o próprio comandante em pessoa. Mais um pouquinho, dez segundos ou alguns passos, e ele estaria aí ouvindo a zoada de datilografia. E eu não teria como explicar nada, estaria simplesmente liquidado. Cessei tudo, quedando-me em completo silêncio e procurando controlar até a respiração. Ele passou e entrou em seu gabinete. Esperei. Saiu de lá depois de vinte minutos, acho que estava telefonando ou coisa assim. Depois de me assegurar que o comandante havia realmente ido embora, voltei à ativa, procurando finalizar a obra. Peguei também o original e pus em um outro bolso. Mais tarde deveria dar sumiço em toda aquela papelama, que então já estava amassada.”

Ao ser perguntado sobre o que veio depois, Juvenal continuou na narrativa que prendia a atenção de todos ali presentes, indiferentes ao fato de o expediente já ter se encerrado há tempo.

“Procurei cumprir toda a punição por duas razões: Primeiro, por ter realmente, na prática, cumprido a punição, ter sido visto, e para depois não ter remorso algum de tudo. Segundo, porque do contrário a coisa ficaria muito visível, e o meu tal plano “b” não teria chance de vingar. Para todos os efeitos, cumpri a punição, ao menos de fato. De direito não, porém. Fiquei observando os boletins que saíam, no próximo boletim reservado, vi que deu tudo certo. O meu nome não estava lá, tal qual o item que eu forjei. Nada falei sobre isso a ninguém, fiquei na moita, como se dizia na época. Um colega ainda me falou algo, mas eu fiz absoluto silêncio,  me fazendo de desentendido, dizendo que não sabia de nada e que eu cumpri a punição como todos. Como eles me viram lá hospedado, a punição foi dada como certa e nunca mais ninguém tocou no assunto.  A ficha, porém, ficou intacta.”

“E depois?”, alguém perguntou.

“Semanas depois, vi que alguns boletim da diretoria de pessoal haviam chegado na seção de protocolo. Estavam lá, recém-chegados pelo malote postal, e de lá seriam distribuídos para as providências de transcrição em boletim. Assim era a rotina. Parei e me detive a olhá-los, lendo num deles a parte em que falava sobre os nomes cogitados para a próxima promoção. Isso era uma prática habitual minha, procurava saber das promoções futuras com a expectativa de que a minha seria no ano seguinte. Identificava os colegas mais antigos que logo seriam agraciados com mais uma divisa. Nisso, tocou-me o ombro o encarregado da seção, o mesmo que nos recepcionara de forma desagradável na sala do comandante naquele dia fatídico. Assustei-me com a sua presença e meu espírito se agitou quando ele disse: ‘Não adianta, Juvenal, não adianta… Está difícil’. O que queria ele dizer? O que não adiantava? O que estava difícil? Fui tentado a lhe responder algo como: ‘Difícil é dar rasteira em cobra e cachuleta em jabuti’. Mas, por prudência, contive a tentação, e achei melhor ficar em silêncio, para não cutucar onça com vara curta. Fiz bem. Imaginei logo o pior, que ele teria descoberto o meu crime, e tudo estava acabado. Disse-lhe simplesmente que era meu hábito ler os boletins da diretoria de pessoal. O tempo passou e fui transferido sem que ninguém mais ventilasse qualquer suspeita ou insinuação. Ufa!”

Juvenal foi então transferido para o Rio Grande. E depois?

“Depois de um ano em que eu estava já na nova unidade, numa época em que gozava férias, viajei para Florianópolis para casa de conhecidos. Quedava-me lá no sofá, estirado após meia horinha de sesta, quando um telefonema me alcançou. Imediatamente, um sinal ocorreu em mim, temeroso de que não fosse boa notícia… A pessoa ligaria de novo às duas horas. Era um homem da cidade anterior, onde eu havia ‘comprado’ o apartamento. Implorava que eu lhe revendesse, assinando um papel que ele me enviaria pelo correio. Uma vez assinado, lhe devolveria via postal e apresentaria o documento na Caixa Econômica, tornando-se por direito o novo dono do imóvel. Fiquei surpreso com aquilo tudo, pois julgava já ter perdido, por inadimplência, o apê. Se eu aceitasse a transação, ele me daria como gratificação um milhão de cruzeiros.

“Um milhão de cruzeiros?”, indagaram estupefatos alguns dos presentes.

“Sim, um milhão de cruzeiros. E é claro que, dois anos e meio depois, aquele milhão de cruzeiros valia cinco vezes menos do que o que valia naquela tarde fatídica em que o recebi nos fundos da imobiliária. Assinei tudo, postei, e – ainda que eu duvidasse, pois não havia como obrigar o homem a se desfazer de um milhão de cruzeiros, mesmo que pouco valesse – dois dias depois a minha conta bancária era engordada com essa cifra. Acreditem se quiserem”.  (BLOGUE do Valentim em 06dez2016)  

AZAMBUJA, o primeirão!

(Continuação da postagem do dia 23maio2017)

OS PREPARATIVOS para a passagem de comando vinham correndo a pleno vapor. A relação de convidados já vinha sendo preparada e os convites, expedidos. O oficial de maior patente seria o diretor do Departamento de Pesquisas, tendo sua presença confirmada.  Os ofícios para o 6º Comando Aéreo e para a Base Aérea pedindo apoio foram levados ao setor de Protocolo para serem enviados a essas unidades. Ao mesmo tempo, nossa equipe de Serviços Gerais, à frente o bravo sargento Lourival, Lourival Ernesto de Campos, dava retoques de elegância às instalações, fazendo pinturas de meio-fio, cortes de grama e os reparos hidráulicos e elétricos necessários. Até mesmo o coronel Camboim já tinha vindo em visita à sua futura Unidade, que estaria sob sua administração direta pelos próximos dois anos. O futuro comandante mandou reservar acomodações no hotel de trânsito de oficiais da Base Aérea, uma vez que, de início, não intencionava ocupar próprio nacional pois sua família ficaria em outro Estado, já que a esposa ocupava cargo público e não obteve licença para acompanhar o marido.

Simultaneamente em Cachimbo providências semelhantes eram ultimadas, e a equipe que estava lá nessa quinzena se desdobrava para deixar a área no ponto ideal — diziam que o próprio diretor do Departamento de Pesquisas, a quem nossa Unidade era subordinada, visitaria o local no dia seguinte à passagem de comando. Acordavam mais cedo e o café era servido a todos às seis, e por isso a equipe do Rancho estava no batente desde as quatro da matina. Em meia hora as viaturas estavam na frente do Rancho para transportar os militares a seus postos de trabalho. Excepcionalmente, apenas uma fração pequena de tropa, nesses dias, permanecia na área para a cerimônia diária de hasteamento do pavilhão nacional, com um oficial presente, somente rumando para suas atividades após esse evento cívico.

Foi nesse período que Azambuja saiu em férias, depois de quase dois anos na Unidade. Feitas as contas, este foi considerado o período mais apropriado, sob pena de o Primeirão perder esse sagrado direito. Era o regulamento. Contudo, acertou com o comando que sairia somente por quinze dias, retornando em tempo de reunir-se à equipe e seguir para Cachimbo. A Seção de Operações estava ciente desse acerto, assim como em relação a outros militares que tinham o mesmo combinado. Fracionar as férias era prática corriqueira entre nós. A equipe restrita e a necessidade de ser dividida em duas dava ao comando essa faculdade, o que também convinha ao efetivo.

Alguns dias antes da passagem de comando, o comandante havia, em Cachimbo, inaugurado a nova palhoça, que agora, em nome da segurança e solidez, não era mais de palha e sim coberta com telhas de amianto. Também havia no mesmo dia inaugurado a nova ponte sobre o rio Braço Norte, para em seguida inaugurar a nova carpintaria. Foram estas, além dos novos alvos para treinamento aéreo, as principais obras visíveis do período em que Alberto de Sousa Bieniak administrou a área.

Na véspera em solenidade o coronel Bieniak inaugurava sua fotografia ao lado da do comandante que lhe antecedeu. Assim deveria ser em relação ao coronel Camboim, dois anos depois, e assim por diante. Outros eventos se sucederam até que na manhã seguinte se formalizasse em formatura solene a transmissão de comando. Os dois boletins do dia já estavam prontos, os últimos convites já haviam sido entregues por um estafeta que corria a área de Brasília em viatura oficial, e a seção de Intendência já havia se certificado de que a lista de pedidos feita ao rancho do 6º Comando Aéreo fora de fato atendida por completo. Tudo deveria estar certinho, nada podendo faltar e o subcomandante pessoalmente se incumbia de checar tudo. As providências ultimadas em Cachimbo também eram por ele supervisionada, tomando conhecimento de tudo, vez que todos os dias mantinha contato telefônico com o oficial de permanência em Cachimbo, que lhe fornecia detalhados relatórios.Chegou o grande dia e a nossa Unidade ganhava novo comandante.

No dia seguinte Camboim mandou reunir a todos que estavam em Brasília para uma apresentação. Falou em linhas gerais o que pretendia de todos nós e o que almejaria realizar em Cachimbo. Ressaltou em especial qual seria a sua postura em relação ao efetivo, exigindo de todos o certo, nada mais que o certo, além de muito empenho tanto na sede como na área.

Não sei porque mas a impressão que tive dele me lembrou de uma velha anedota, que eu escutara no início de minha carreira. Era sobre um oficial superior peruano, que costumava dizer: Cuando me acordo que soy coronel del ejército peruano, — caramba!!! — tengo miedo de mi mismo!

(BLOGUE do Valentim em 02jul2014)

Continua…

RISCO calculado

 

É FINAL de tarde e o expediente daquele dia se aproxima do seu término. É o período do dia em que quase todos, militares e civis, já se preparam para voltar às suas casas, as oficinas, os hangares, os almoxarifados, o posto médico, a garagem e as seções administrativas, em todos esses locais o ritmo de trabalho vai aos poucos chegando à calma. Muitos já estão trocando de uniforme para, em poucos minutos, entrarem em formação para a chamada de final de expediente e o aguardado “Fora-de-forma, marche!”. Exceção se faz à equipe de serviço e a uma ou outra equipe de manutenção, que prepara as aeronaves para o voo do início do dia seguinte. 

Calixto Wilson, o operador da copiadora, após a rotina de copiar o boletim diário da unidade, pega do bolso um cigarro e o acende; abrindo a porta, sai da sala, pois lá fora o ar está bem mais fresco agora com a aproximação do crepúsculo equatorial. É nesse momento que avista uma figura que não via há muitos anos. Vinha em sua direção com passos lentos e caminhada característica

Juvenal dos Santos Flores é então um primeiro-sargento. Ele havia servido nessa unidade há mais de dez anos, antes de ser transferido para a região Sul, e agora está de volta. Na época era um jovem terceiro-sargento. 

Abraçam-se. 

“Bem, muito bem, obrigado. Pois é, amigo Calixto, há quanto tempo mesmo, tchê! Desde 1975, quando eu fui transferido pra minha Querência amada.” 

Juvenal, a convite do amigo, entra na sala para um café. Entre um gole e outro, Calixto entra no assunto. Queria saber por curiosidade sobre um fato ocorrido naquela época. Nesse tempo Calixto já era operador da copiadora, e por suas mãos, além do boletim diário da unidade, também passavam outros documentos, por isso sempre se mantinha bem informado acerca de quase tudo.


Fez muito furor nos papos de rancho e nos senadinhos que se formavam a cada canto do quartel o caso de um grupo de sargentos que sofreu punição disciplinar por terem fraudado o sistema nacional da habitação. O comandante puniu severamente esses militares, aplicando a cada um deles vinte dias de detenção, com base no número 63 do artigo dez do Regulamento Disciplinar.

“Sei o que o amigo quer saber. É sobre um acontecido há dez anos”, disse o primeiro-sargento, depois de esvaziar a xícara. “Mas antes, lembrei o caso da Marcosa”. Deixa que eu te conte.

A Marcosa era uma concessionária de automóveis, que falira há alguns anos. Ora, certa vez o gerente da empresa apareceu na unidade e ofereceu Chevette, carro recém-lançado, aos sargentos recém-formados. Foram 25 carros zero-quilômetro. O Chevette era uma grande novidade e foi lançado pela Chevrolet para competir com o Fusca da Volkswagen. Até quem não sabia dirigir, ganhou carro novo. Mas nenhum deles pagou uma mensalidade sequer. Resultado: faliram a Marcosa.

“Sim, caro Calixto, e dizem as más línguas que foi a nossa gente a responsável por essa falência. Havia uma turma grande de sargentos novos e um dia o gerente da empresa veio oferecer um Chevette para cada um deles. Mas este amigo não estava entre eles. Quanto ao sistema da habitação, devo dizer antes que fazia anos que a minha situação financeira não era boa. Para ser bem sincero, estava à beira da loucura. Mais quebrado que arroz de terceira. Não sabia o que fazer para pagar as dívidas e ao mesmo tempo sustentar a prenda e a piazada. Quando estava bem, devia a apenas dois agiotas.

“Aliás, fazendo um parêntesis, somente muito depois fui entender que aquela época recessiva, de inflação galopante, pacotes econômicos de arrocho impostos pelo governo, não apenas eu estava em situação financeira difícil, mas a maioria, grande maioria do povo brasileiro. E a gente andava de cabeça baixa, achando que tudo era culpa só nossa. O comando não fazia nada para ajudar, ao contrário, só para nos ferrar. Qualquer atraso em mensalidades e as Casas Pernambucanas, Mesbla e companhia mandavam logo carta para o comandante, que ameaçava logo o praça com o número 63 do artigo dez. Era dar um jeito de pagar ou ser punido”.

Calixto deixava à vontade o amigo. Que falasse o que quisesse e tivesse vontade; sabia bem ouvir para depois tirar suas próprias conclusões sobre os fatos e pessoas. Tinha a teoria de que as pessoas têm necessidade de falar, e ele, ouvindo, passava a conhecer o que pensava essas pessoas. Juvenal parecia estar sendo sincero quanto às dificuldades sofridas, fossem particulares ou conjunturais, pois tudo ainda estava recente na memória do funcionário. Acostumara-se a ouvir, pois, sabe-se por que razão, recebia muita gente que iniciavam a falar de sua vida, de seus problemas e de outras pessoas. Pediu que o amigo continuasse, pois o expediente estava próximo do final e nenhum documento mais lhe chegaria para  ser copiado.


“Mas não era só este amigo que tinha a situação financeira complicada. Ouvi falar que os imóveis estavam encalhados. Depois do último pacote financeiro baixado pelo governo, nenhuma construtora conseguia vender suas casas e apartamentos. As prestações estavam nas alturas. Foi quando chegou na unidade um corretor de imóveis, oferecendo alguns apartamentos para venda. O cara só podia ser louco, pensei comigo, ninguém agora tem dinheiro para se meter numa dívida dessas, em que a mensalidade cresce acima, bem acima, do nosso salário. Porém o mais absurdo de tudo era que ele oferecia dinheiro a quem se dispusesse a comprar um apartamento”.

Por incrível que possa parecer, ofereciam dinheiro para que outros se endividassem. Calixto balançava a cabeça afirmativamente, pois sabia de tudo até aí. Fez sinal que o amigo continuasse a prosa.

“Um milhão de cruzeiros! Dá pra acreditar? Isso dava quatro vezes o valor do meu salário naquela época. Era pra balançar qualquer um, ainda mais se estivesse endividado até à medula, como era o meu caso. Ora, eles, imobiliária e construtora, iam receber do governo mais de cem vezes esse valor. Então, por que não, digamos, incentivar, promover a venda. Era pegar ou largar. Isso chegou ao conhecimento do comandante, pois seus agentes de informação não dormiam no ponto, principalmente se fosse para ferrar gente subalterna. Aí o comandante reuniu todos nós no auditório e largou um sonoro sabão, dizendo que puniria exemplarmente quem não honrasse o compromisso financeiro, que era pra todo mundo pensar bem antes de tomar a decisão e assim por diante”.

Enquanto parou para tomar fôlego, Calixto pensava que de fato todos deviam estar com a corda no pescoço: os sargentos, pelas razões que o amigo Juvenal expunha; e os agentes imobiliários com seus imóveis encalhados, a ameaça de irem muitos à falência. A saída era só essa: ganhar dinheiro, oferecendo dinheiro. Aos sargentos, era ganhar dinheiro aumentando o grau de endividamento.

“Confesso que aquela reunião me deixou mal. Mas, depois de analisar bem os prós e os contras, de ver que o que tinha a perder e a ganhar, vi que não restava para mim outra alternativa. Essa grana dava para por as coisas em ordem, pelo menos por alguns meses. Moraria com a família nesse apartamento enquanto pudesse. É claro que sabia que meu salário não dava para pagar a mensalidade; ficaria inadimplente com o banco da habitação, correndo risco de me punirem disciplinarmente e também me prejudicarem a carreira, o que não era nada bom. Mas era um risco calculado, e eu tinha um plano “b”, que, para dar certo, dependeria de algumas circunstâncias.

Calixto já imaginava qual era esse tal plano “b”, mas não interrompeu o amigo, curioso pelo relato que viria para ver se confirmaria suas suspeitas. Além do mais, colheria aí alguma informação adicional, algo que ainda não sabia. Juvenal continuava.

“Chegou a data marcada pelo tal corretor e fui até à imobiliária para acertar tudo. Antes, tivemos que passar pela agência da caixa econômica para formalizar o contrato. Como era casado, a patroa foi comigo. Assinamos. Depois disso, fomos a pé até à tal imobiliária. Numa sala secundária, meio escondida lá nos fundos, recebi toda a grana, contadinha, dentro de um grande envelope. Nenhum recibo, nem nada. Senti uma tremedeira pela sensação de estar fazendo uma grande coisa errada, uma falcatrua, uma coisa desonesta. Mas confesso que depois passou, e veio em seguida a sensação de estar me vingando daqueles caras que também ajudavam a gente a sofrer a humilhação das dívidas, das visitas nervosas ao agiota, de toda aquela vergonha, tudo para não deixar a família passar fome. A sensação de, pelo menos uma vez, dar o troco no sistema justificava o medo de estar fazendo falcatrua, se o amigo me entende”.

Calixto fez com a cabeça que sim.

“Peguei aquele milhão de cruzeiros e paguei as contas mais urgentes, empurrando com a barriga as outras que podiam esperar, e assim fui respirando até o final do ano. Nesse período, já completava tempo para pedir transferência. Isso também fazia parte do tal plano “b”. Sabia que ficaria marcado na unidade por esse problema e os oficiais não me deixariam em paz. Minha carreira em perigo. Tinha grandes chances de ser movimentado e isso vinha a convir. Chegou o final do ano, e lá por novembro fomos chamados à sala do comandante. Todos nós íamos receber a punição prometida. Aliás, todos não. O Rufino, um tranqueira, um xiru que só servia para fazer peso em cima da terra, um conterrâneo meu que não honrava a bombacha que usava, não estava na relação dos inadimplentes, como passamos a ser chamados de forma pejorativa.  E eu sei que ele não pagou uma parcela sequer do apartamento”.

Calixto esboçou um sorriso discreto com o caso do sujo falar mal do mal-lavado.

“Sei porque o amigo sorri. Parece irônico que eu esteja reprovando um outro fraudador como eu. Mas não é bem assim. Rufino era um trambiqueiro profissional, vivia a dar tombos em qualquer um. Nós erramos e estávamos ali para ser punidos, enquanto ele passeava pelo corredor dando risada de todos nós.”

Calixto perguntou a Juvenal por que razão o Rufino escapou da punição. 


“Diziam que o bagaceira havia molhado a mão de um funcionário da caixa, para que este ‘esquecesse’ o seu nome. Essa é a hipótese mais provável.  Ficamos com raiva desse cara e também do encarregado da seção. Era um dois-esse baba-ovo, que se dava o serviço sujo de entregar os colegas. Fazia com prazer esse serviço imundo.”


Calixto conhecia vários desses tipos. Pensou num nome. Sim, era esse: subserviente com os grandes, arrogantes com os pequenos.


 “O bajulador recebeu-nos na sala com um largo sorriso no rosto e dizendo palavras de sentido irônico, como: ‘Podem ficar à vontade…’. Dava ênfase na expressão ‘à vontade’, de forma que soasse engraçado, mostrando que se divertia com a desgraça alheia, à moda de um comediante da tevê. O comandante não se demorou a largar seus afazeres no gabinete para se levantar da poltrona e, com o rosto carrancudo, nos dar uma grande mijada. Só não nos ofendeu a mãe, o resto foi uma sonora humilhação que nos aplicou. De quando em vez eu olhava de relance a cara do encarregado, e via que ele não fazia esforço para disfarçar a cara de satisfação, um sorriso tipo Monalisa, mas se o comandante olhava para ele, o jaguara mudava logo para uma fisionomia séria e circunspecta. No final, o veredicto da autoridade: vinte dias de detenção, que cumpriríamos na semana seguinte. ‘E tem mais: quem não pagar o que deve, vai receber o dobro de cadeia, até que seja excluído da Força’.”

Calixto disse que não viu em boletim o nome de Juvenal.

“O amigo sabe muito bem que meu nome não apareceu no boletim. Se saísse em boletim, iria para a ficha, daí para a diretoria de pessoal e a minha carreira estaria seriamente ameaçada, praticamente arruinada porque eu não era ainda estabilizado, tendo só sete anos de serviço público na época. Era tomar o caminho da rua. Esse era o meu plano “b”, que já tinha em mente. Se desse errado, tudo estaria terminado. Não se preocupe, amigo, vou dizer como tudo ocorreu”.

Calixto, percebendo que a história ia bem longe, pediu que Juvenal continuasse com ela noutro dia.  (BLOGUE do Valentim em 02dez2016)

Continua