A INVENÇÃO do camelo!

NO MOMENTO em que o comandante entra na sala de reunião, e, a oficialidade ali representada fica em pé, posição de sentido, o subcomandante faz a apresentação regulamentar.

— Atenção, oficiais!

Geralmente mais sisudo, nessa ocasião em particular era visível a figura do coronel um tanto mais bem-humorada, risonho até. Ao iniciar, porém, deixou claro a todos que a presença deles no recinto se estenderia um pouco além. “Já pedi ao chefe do Rancho que mande um taifeiro servir cafezinho e água. Deve trazer também bolachas”, disse, bonachão. Para um bom entendedor, meia palavra basta. Era como quem diz: “não tenham pressa.”.

Começando os trabalhos, fazia um relato de tudo o quanto havia ocorrido de importante nos últimos dois ou três dias. Logo em seguida, o oficial mais moderno lia a ata da última reunião.

Como é natural, sua confortável poltrona fica à cabeceira da longa mesa. Na poltrona imediata à sua direita, se posiciona o subcomandante, tenente-coronel Dacildo, enquanto a da esquerda, vaga, era reservada ao próximo oficial a ser sabatinado e, que, eventualmente, também tenha assuntos imediatos a tratar com o comandante, desde que não fosse sigiloso. Os demais presentes ocupam as poltronas em ordem hierárquica.

Nesse dia, o próprio comandante, quebrando a rotina que ele mesmo havia definido, principiou-se a elogiar a postura do tenente Barreto. Esse oficial subalterno, quando de serviço de oficial-de-dia, comandou meia-volta volver na guarnição de serviço, que normalmente ficava formada no pátio da bandeira em frente ao prédio do comando. Com isso, os sargentos, cabos e soldados ali escalados ficaram de frente para a sombra, e não contra o sol, como usualmente se perfilavam. Nesse instante, coronel Horácio estava em seu gabinete, a observar a postura do oficial e da tropa pela janela principal. “O verdadeiro comandante é aquele que cuida do bem-estar da tropa. E essa qualidade eu constatei na atitude do tenente Barreto. Que o comandante dele, aqui presente, retransmita ao seu subordinado as minhas palavras”. Continue lendo

UMA QUESTÃO de tempo!

O SER HUMANO é realmente muito complicado, difícil mesmo de ser definido, classificado, rotulado, sem que incorramos em erros ou injustiça. Depende muito de quem observava, este também influenciado por seu modo peculiar de ver a vida e – embora não devamos fazer – julgar o seu semelhante. O Mau julgador por si julga os demais, era o que diziam os antigos.

Há em cada um de nós várias facetas, algumas inatas, outras adquiridas ao longo deste caminho por vezes tortuoso e espinhento, que chamamos de “vida”. Convivem, via de regra, as boas sementes – bondade, afeição, serenidade, simpatia, piedade… – que germinam simultaneamente a outras não tão boas, isso tudo num mesmo indivíduo.

Eu mesmo. Vou me apresentar aqui como exemplo. Exemplo que deve ser seguido – quanta modéstia! – e também que não deve ser seguido, como costumava demonstrar nosso antigo comandante, o tenente Arrais, quando chamava um aluno lá na frente da tropa, deixando-o sem graça.

Sempre fui contra alguns paradigmas ou mesmo dogmas conhecidos na Força Aérea e na sociedade em geral: “Errar por excesso”, “Direito adquirido”, “Mal necessário”, “Pra baixo todo santo ajuda”, “A corda sempre arrebenta pro lado mais fraco”…

Caminham lado a lado em minha pessoa vários defeitos e uma qualidade, que é a de gostar de ajudar as pessoas. O problema é que esse “ajudar as pessoas” insiste em conviver ao lado da teimosia e da vaidade.

Na administração fabiana, meio em que trabalhei por três décadas, há um “paradigma” em particular que eu sempre combati: “A contar de de…”

É o seguinte. Tentarei explicar.

No ato administrativo, seja ele qual for, aparece lá o “a contar de” ou “a partir de”, indicando que a partir daquela data estará valendo o que se, face o princípio da publicidade, o agente público competente manda fazer. “Fulano de Tal foi incorporado às fileiras a contar de 01fev.1970” ou  “foi o servidor Ciclano de Tal foi desligado do efetivo da OM X a partir de 01fev.1988, por ter sido removido para…”. 

Trabalhei em setor que confeccionava as chamadas “folhas de alterações” e convivia com o problema. Onde eu quero chegar? O colega Escrevente que trabalhou na área de pessoal vai pegar fácil.

Ora, se o servidor (qualquer que seja ele ou ela, à paisana ou de farda) foi incorporado, matriculado, efetivado, incluído em 01fev.1988, nesse primeiro dia de fevereiro daquele ano o cara estava já incluído, matriculado, efetivado etc., passando a contar seu tempo de serviço a contar dessa data. De outro lado, ele sendo desligado em 01fev.1988, ele nessa data já não estava mais lá, naquela Unidade. Então, o tempo dele naquela OM (repartição, secretaria, ministério etc) somente é contado até 31jan.1988. No dia seguinte, 1º fev., o sujeito não pertencia mais ao dito órgão. Simples e claro.

Acontece que muita gente boa gostava de incluir na contagem do tempo de serviço mais um dia, este tal 1º fev. 1988, resultando numa certidão de tempo incorreta, que não contemplava a realidade do tempo efetivamente servido. 

Metódico e organizado com papéis como penso que sou, tal erro administrativo eu combatia. Mas trata-se – sempre soube disso – de tarefa hercúlea travar combate ao vício, à tradição imposta pelo costume adquirido em décadas. Ah! sempre foi assim, e pronto.

Eu não concordo. Oh cabra teimoso!

Passou-se o tempo e eu, já ao final da carreira em Curitiba, tive a oportunidade e o gostinho de me defrontar com um caso concreto, ocasião em que fiz valer a minha teoria, naturalmente sob protestos da turma da tradição que contava errado o tempo e o fazia  apenas porque “sempre foi assim”.  O costume do cachimbo fazia a boca torta.

Naquela quinta-feira às nove da matina, estava lá na Seção de Inativos do II Dacta uma das quase uma dezena de pessoas que costumavam acorrer à nossa Seção nas primeiras horas da manhã em busca de solução para seus problemas. Era um senhor, servidor do Ministério do Trabalho e Emprego, um ex-militar que saíra das fileiras da Força como primeiro-sargento. Servira na de 1º de fevereiro de 1981, com a matrícula na Escola, até 30 de novembro de 1990, a fim de, no dia seguinte, apresentar-se ao atual emprego, ao qual foi convocado em face de sua aprovação em concurso. O homem foi um antigo 1S BCT lotado no então DPV-CT (atual DTCEA-CT), em São José dos Pinhais, quando, à procura de um feijão mais forte, migrou para outro Ministério, abraçando uma carreira mais rendosa e reconhecida.


— Em que tenho a honra de ajudá-lo, senhor?

Seu rosto e suas palavras iniciais expressavam alguma angústia, ao mesmo tempo que uma boa dose de determinação na busca da correção daquele erro de direito, sendo assim estava ali presente para que a administração ministrasse o remédio para o mal que ela própria havia causado. Não solucionado administrativamente, o passo seguinte seria naturalmente bater às portas do Poder Judiciário, trilha um pouco mais longa porém determinante e resolutória, direito de todo cidadão brasileiro, pátria livre e democrática.

Após os cumprimentos de praxe, iniciou-se a contar sua história, mostrando-me algumas folhas de seu histórico militar e uma fotocópia de uma antiga certidão de tempo de serviço. Mal pronunciou algumas palavras e já o interrompi dizendo-lhe já ter compreendido tudo. De fato, minha mente se via mais que treinada naqueles assuntos, objetos que foram de tantas discussões e teimas e que ao final não resultavam em nada, ficando este escriba como voto vencido. 

Dera entrada em seu pedido de aposentadoria, porém surpreendido com a negativa, vez que o órgão de Recursos Humanos da sua repartição detectou uma superveniência de tempo. O ex-sargento não teria como servir no Ministério da Defesa e simultaneamente no Ministério do Trabalho, ainda que por um único dia. O certo seria o servidor ter sido desligado na Aeronáutica em uma data (30nov.) e ser incluído no MTE em 1º de dezembro, dia seguinte. Mas não era isso que dizia a certidão, segundo a qual na contagem de tempo estava incluído o tal dia 1º, data em que já o colega se encontrava em pleno exercício de suas funções no novo Ministério.

Disse-lhe que deixasse comigo. No máximo em uma semana os atos administrativos corretivos teriam sido cumpridos e, ato contínuo, lhe passaríamos a respectiva certidão de tempo com menos um dia, que era o certo. Isto lhe possibilitaria dar andamento no processo de aposentadoria, consoante era seu anseio.

Procurei o mais antigo da Recursos Humanos já sabendo de sua resposta. Tentou convencer-me de que o meu raciocínio estava incorreto, o que eu já sabia ia acontecer. Como que a reforçar seu parecer, chamou um sargento da área de tempo de serviço e o graduado foi da mesma opinião que o chefe. Falou-me ao mesmo tempo que me lançava um sorriso meio debochado, que eu fingir não entender a fim de não me estressar à toa.

Foi apenas por descargo de consciência a minha ida à Recursos Humanos. Voltando de lá, sentei-me à mesa de digitação e fiz o meu arrazoado. Citando a legislação específica, – no caso o Estatuto dos Militares -, ao mesmo tempo que outros pareceres e também a Carta Magna. Utilizando-me do jargão técnico e formal ao douto Consultor Jurídico, finalizei o documento com o “salvo melhor juízo do ilustre Consultor”.

Dois dias após, retorna-me o documento com o “concordo”, acompanhado do parecer correspondente. Beleza! Despachei junto ao chefe e mandei fazer o item de boletim, a publicar no dia seguinte. 

Além de poder ajudar alguém, conforme procurei sempre fazer ao longo da carreira, meu espírito se alegrava com uma vitória que há anos vinha buscando: ver o “a contar de” finalmente ser aplicado corretamente.

Dado um telefonema, duas horas após o ex-colega de farda encontrava-se à minha frente, cumprimentando-me radiante. Seu rosto expressava evidente agradecimento ao nosso trabalho. Talvez não esperasse solução tão expedita.

Dormi naquela noite o sono dos justos.

Pelo fato de ter ajudado alguém? Não apenas. Sobretudo pela vaidade de ter sido, finalmente, reconhecido meu ponto-de-vista. (BLOGUE do Valentim em 23ago2014)

QUASE revolucionário!


ARNALDO Pacobahyba é um oficial daqueles que começou a carreira militar como sargento. Depois do curso de formação regulamentar no Galeão, mandaram-no permanecer no Rio de Janeiro, lotado nos Afonsos como mecânico de voo de C-47. Nunca foi militar exemplar, um bom soldado; ao contrário, era do tipo contestador e isso lhe custou muitos dissabores. Fazia o básico e o suficiente, mas, resmungão, era considerado indisciplinado por seus superiores, sendo punido várias vezes. Considerava a farda apenas como um mero ganha-pão, com a diferença do uniforme, fazer continência e dizer “sim, senhor” e “não, senhor”. Poderia ser um professor, alfaiate ou motorista de ônibus. Por pouco sua carreira não acabou nos primeiros cinco anos obrigatórios. 

Chegou formalmente a ser excluído, porém, por um cochilo de seus superiores, que deixaram passar um erro administrativo, acabou voltando à Força por meio de uma decisão ministerial. A partir daí, procurou ser mais atento, mais zeloso com a carreira, evitando o confronto direto com os oficiais, comandantes e chefes, aqueles que tinham sobre o praça o dom de vida e de morte, e também a praticar o respeito formal aos suboficiais, seus encarregados. Uma vez reincluído, passou efetivamente a exercer sua especialidade de formação: mecânico de voo. Assim, primeiro voou como mecânico-aluno, depois como mecânico-auxiliar e, finalmente, exercendo a função a bordo de primeiro-mecânico, perfazendo as rotas aéreas costumeiras, primeiro as nacionais e depois as rotas internacionais atribuídas ao seu esquadrão aéreo. Mas, nada de glamour, e por rotas internacionais, em vez de Washington, Londres, Paris,  leia-se: Paramaribo, Georgetown e Caiena. Foi num desses voos, já como segundo-sargento antigo, que Arnaldo chegou, involuntariamente, a envolver-se numa espécie de rebelião, uma tentativa de derrubada do governo então instalado, que, caso o episódio tivesse obtido êxito, a historiografia o consideraria hoje como uma revolução. Mas esta só veio oito anos depois.

Era época de carnaval. O novo presidente assumira há duas semana, com um discurso ousado. Em suas promessas de campanha dizia que implantaria a indústria de base no país, e que o Brasil passaria a fabricar automóveis (sim!, mas o Brasil não fabrica hoje nem bicicleta!)  e que – olha que absurdo! – mudaria a capital federal para o centro geográfico do país. Um louco!

Para Arnaldo, cuja rotina era indiferente a essas questões políticas,  a atividade aérea era um serviço bem prazeroso, mas só nos primeiros dias de missão. Esse trabalho perigoso envolvia transporte de tropa,  de carga e missões de apoio ao Exército. Sua aeronave, vez por outra, também transportava civis, quando havia disponibilidade para isso, e não raras vezes religiosos e indígenas pelo interior a dentro. Ele e seus colegas tinham que cuidar de todo o apoio técnico necessário: combustíveis, fonte de força, pesar a carga e passageiros, cuidar da amarração da carga e equipamentos a bordo, fazer relatórios, relacionar passageiros… Enfim, muita responsabilidade, trabalho duro. Por primeiros dias, entenda-se os primeiros quatro dias. No quinto dia em diante, depois de percorrer o Brasil de sul a norte, pousando em aeródromos precários e destacamentos de pouca estrutura de apoio, a vontade que tinha era uma só: voltar pra casa. O procedimento nesses locais ermos era abastecer o avião com o combustível armazenado em barris, sobrando pouquíssimo tempo para ir ao sanitário e visitar o radiotelegrafista para dar posição da aeronave, repassando dados técnicos de horas de pouso e decolagem, origem, destino.

De volta ao Brasil, depois daquela missão em Georgetown, estavam para pousar no primeiro local minimamente estruturado, por sinal, até sede de Zona Aérea: a provinciana Belém. Essas instalações ainda eram as mesmas deixadas pelos norte-americanos ao término da Guerra. E por estrutura, entendia-se também a existência de rancho organizado, onde podiam os aeronavegantes de então alimentar-se decentemente, além de ser dotada de todo o apoio técnico com sargentos especialistas, e hospedagem. Um feijãozinho com arroz, um frango guisado, tudo bem quentinho, era um luxo nessas missões fora-de-sede longas. O que lhe valia muito eram as diárias que recebia depois de três meses. De trinta dias, permanecia em média em sede apenas seis. Esse dinheiro complementava o magro soldo e com essa diferença aos poucos Arnaldo fazia um pé-de-meia que lhe permitiria, mais tarde, quem sabe dentro de cinco anos, finalmente comprar uma casinha simples, talvez em Marechal ou Campo Grande. 

Ia pensando dessa forma, números e cifras na mente. Primeiro Belém, depois escala em três destacamentos de interior, sertão a dentro, até, finalmente, chegar no dia seguinte à civilização: Rio de Janeiro. Faltava apenas uma jornada com um pernoite. A missão completaria seu décimo dia. Doía-lhe a saudade da esposa, Celina, e dos filhos, o travesso João e a adorável Aninha, cinco e dois anos. Era só suportar mais dois dias.

A reunião de comando prosseguia com o chefe da Intendência a discorrer sobre o último balancete mensal.

Que tenho a ver com esses números? Arnado prossegue em suas reminiscências…

Esses praças especializados, pés em Belém, tomadas as providências técnicas e operacionais necessárias à operação do velho C-47, sobra da guerra, só então puderam seguir destino ao refeitório, onde lhes esperava suculento almoço. O comandante, major P. Vitor, e o segundo piloto, tenente Ezequias, cumprindo o protocolo regulamentar, seguiram direção ao prédio do comando, para apresentar-se ao comandante da Base Aérea. Já haviam almoçado antes no refeitório especial, da época dos norte-americanos construtores da Unidade.

Enquanto caminhavam direção ao local onde o avião estava estacionado, seu colega o jovem Duran cantarolava a marchinha do carnaval desse ano.

“Quem sabe, sabe / Conhece bem / Como é gostoso / Gostar de alguém”


“Saudades do Rio, hein Duran!”, dizia Arnaldo a seu colega mais novo, “Eu também”.

Seus comandantes, fazia mais de hora, que não davam as caras. Teria ocorrido algo?

A ausência prolongada dos dois aviadores somente depois foi explicada. Nesse ínterim, Arnaldo, Duran e Ferreira notavam um movimento excepcional. Sabiam que a Base Aérea de Belém, com seus velhos e guerreiros CA-10 Catalina, que equipavam o 2º Esquadrão de Aviação, exigia um efetivo monstruoso, tanto de militares como de funcionários civis, e estes se incumbiam de funcionar a garagem, a hidráulica, a olaria, a carpintaria, a horta, a pocilga… Um mundo à parte. Ocorre que, além desse movimento intenso de rotina, havia algo de diferente, um mistério que logo se explicaria.

No rancho, em conversa com colegas sargentos de Belém, ficaria sabendo que um major maluco e um capitão tinham roubado um avião. “Roubaram um avião!?”, perguntou escandalizado com tamanha ousadia. “Sim, você não leu os jornais?. Ah, claro, vocês estavam em voo. Saíram dos Afonsos e rumaram Brasil a dentro em direção ao Norte, fazendo três escalas, obrigando o sargento-chefe a lhes abastecer a aeronave, além de danificarem as estações-rádio, até que se aquartelaram num lugarejo chamado Jacareacanga, um fim-de-mundo que fica entre o Pará e o Amazonas.”

O líder era um tal major Veloso, aviador e engenheiro, de cuja figura Arnaldo guardava vaga lembrança dos tempos em que perambulava pelo prédio do Ministério da Aeronáutica, nas salas do Gabinete do Ministro, em busca de convencer as autoridades sobre o erro administrativo de que fora vítima cinco anos antes, que culminara na sua expulsão. 

Dois caminhões aproximaram-se do C-47. Soldados despejavam de seu interior muitos fuzis, caixas de munições e outros apetrechos de campanha. Um tenente de infantaria dirigiu-se a eles com ordem de carregar o avião com o conteúdo tirado dos jipes. Desavisados, ficaram um a olhar o outro, até que o tenente lhes mostra uma mensagem-rádio. Era uma mensagem vinda do Gabinete do Ministro. 

Uma sensação de angústia pairou sobre o espírito de Arnaldo, pois algo lhe dizia antes – e agora tinha certeza –  que o seu Rio de Janeiro teria de esperar. Antes disso, tinham notado o movimento de um automóvel de representação, que estacionou em frente ao prédio do comando. Souberam que o carro conduzia o brigadeiro comandante da Zona.

Sim, o brigadeiro Cabral estava lá. Essa era a razão da demora dos dois oficiais, comandante e segundo piloto do C-47.

“Rapazes, mudou tudo! Nossa proa não é mais o Sul e sim o Oeste. Não vamos mais ao Rio, mas pra Santarém e outros destacamentos próximos”, confirmou o major P. Vitor o que sua tripulação, resignada, já sabia. 

A aeronave reabastecida, equipada e carregada, decola com a missão de dar combate a Veloso e seus companheiros de ideais. Tropa armada a bordo preparada para ocupar os aeródromos da área, antecipando-se às ações de Veloso.

Algo falava a Arnaldo que isso tudo não acabaria bem. Bem que dizia Celina: “Não tenho bom pressentimento, bem”. “Bobagem, não vai acontecer nada. Esse avião, apesar de velho, é muito bom.” Os acidentes aéreos eram mais frequentes nessa época.

O que ninguém sabia é que o comandante da aeronave, grande amigo de Veloso, não possui a mínima intenção de cumprir o que lhe foi ordenado. Mas não deixou isso claro de imediato. Em cada destacamento secundário, foi deixando os homens e seus equipamentos, conforme fora ordenado. Mal a aeronave pousa em Santarém, ao abrirem a porta, esta é cercada por Veloso, o capitão Lameirão, e o grande combatente Cazuza, todos fortemente armados. A essa altura os ocupantes do C-47 se resumiam apenas à própria tripulação, pois a tropa de infantaria fora distribuída nos destacamentos secundários.

Arnaldo e seus amigos são surpreendidos pela decisão de P. Vitor, que aderiu de imediato aos ideais da revolta, aliando-se aos homens a quem, por dever de ofício, devia combater.

E agora? Como ficava o restante da tripulação?

O co-piloto, tenente Ezequias, negou-se a participar. Arnaldo pensava o que fazer. Teve ímpetos de aderir imediatamente aos ideais da rebelião, sendo ele próprio um rebelde por natureza. O presidente era necessariamente um louco. Onde já se viu algo semelhante: transferir a capital para o meio do nada!

No entanto, a cautela já lhe era amiga e, pensando na esposa, nos pequeninos, nas consequências… E se esse movimento malograr? Responderia a IPM, seria certamente expulso da Força, talvez seria… (talvez não, certamente seria torturado). “Não”, foi a sua resposta seca. Duran seguiria o colega mais antigo, qualquer que tivesse sido a sua decisão. Veloso, que estava próximo, lhe diz então: “Pense melhor, sargento, porque primeiro a gente toma esses aeródromos daqui desta região, mas depois, com certeza, toda a aviação nacional vai aderir, depois o próprio Exército e também a Marinha, forçando esse presidente que está aí a renunciar. Nós é que vamos dar as cartas neste país.” P. Vítor olhava fixamente para o sargento como forma de intimidá-lo, gesto que resultou inócuo. 

Diante da negativa irrevogável, ele e seus colegas ficaram presos em Santarém. Dois dias depois, conseguiram fugir de barco com destino à Belém.

O destino da rebelião, que, depois de duas semanas, foi sufocada por uma tropa de mais de seiscentos homens, tendo à frente o próprio comandante da Primeira Zona, acabou dando razão à decisão de Arnaldo e seus colegas. O líder da rebelião foi preso e transportado para Belém, onde permaneceu preso respondendo a inquérito policial-militar. P. Vitor e os outros voaram no C-47 para a Colômbia.

Mais tarde, Arnaldo, pedindo licença do voo, dedicou-se a preparar-se a concurso para oficial, vindo a formar-se dois anos depois. Foi classificado em Belém, exatamente no cenário onde, anos atrás, esteve involuntariamente envolvido naquela célebre rebelião.

Ia pensando o capitão Pacobahyba nesses fatos marcantes, que testemunhara e participara há quase vinte anos, mas que ainda lhe estavam frescos na memória, enquanto a bendita reunião prosseguia. Escrevia, rabiscava, desenhava no caderno à sua frente. Olha discretamente o relógio de pulso. A torturante reunião caminhava para duas horas… duas horas.  

SOBRE invejas, mesquinhez e lealdade!

AQUELA apresentação era mais uma das tantas a que eu recebera a incumbência de realizar. Estavam lá os oficiais responsáveis pelos esquadrões e seções da Unidade. Como era eu chefe de pessoal, modernamente chamado de Recursos Humanos, tornou-se comum o comandante me chamar para dar alguma explicação ou orientação a todos sobre as questões da área.
Numa das últimas reuniões no auditório daquela Unidade, representando interinamente um dos esquadrões, Unidades Aéreas sediadas na Base Aérea, comparecia, dentre toda a oficialidade do efetivo, também um oficial da patente de capitão. Fora promovido ao posto havia um ano ou pouco mais, e naquele mês, excepcionalmente estava como o oficial mais antigo de seu esquadrão; portanto, raras vezes participara daquele tipo de reunião. Em dado momento, o oficial pediu a palavra e me questionou sobre o plano de férias; respondi de acordo com o planejamento previamente combinado entre mim e os meus superiores. Em seguida o colega fez outra pergunta, creio que era sobre a distribuição de soldados, encargo rotineiro a cada semestre; dei as explicações julgadas necessárias, com desenvoltura. Pela terceira vez, interferiu o capitão, e dessa vez foi sobre a escala de serviço. Estava tudo certo, pois ele era na sua Unidade Aérea também o chefe da seção de pessoal. Esgotando o repertório, não fez mais nenhuma indagação, naquela reunião.
Saindo do recinto, fui chamado à presença do comandante. Como estava aguardando desligamento por ter sido transferido para a Reserva Remunerada, ele mostrou-me um nome e pediu a minha opinião para ver se era a pessoa mais indicada para substituir-me no cargo de Comandante do Esquadrão de Pessoal. O comandante estava somente havia alguns dias em comando, portanto, não conhecia a todos os seus oficiais, não tendo condições portanto de escolher a melhor pessoa para cargo de tamanha relevância.
— Acho que não é o melhor nome, comandante!
— E você tem outro nome para mim?
— Sim, senhor. Sugiro para o cargo o nome do capitão Domingos Silva.
No dia seguinte houve outra reunião. Chegando a minha vez de falar, não deu cinco minutos e o dito oficial fez-me outras duas indagações, que foram prontamente respondidas com segurança. A cada pergunta, o comandante olhava para trás a fim de ver quem era o autor. Saindo dali, o comandante mandou-me proceder a substituição, devendo eu passar o comando do Esquadrão de Pessoal ao capitão Domingos Silva.
Havia ali naquelas interpelações um quê de impertinência ou mesmo presunção, talvez com a intenção de deixar-me em situação difícil. Não sabia o oficial que a Força Aérea vinha me preparando por quase trinta anos para aquele cargo, de forma que dificilmente alguém poderia me deixar em dificuldade na área em que eu atuava. Mas, ele não sabia disso, enquanto ele ia com o amendoim, eu já voltava com a paçoca.

Tal era a minha percepção, a de que o dito capitão, quem sabe por um certo ciúme, pelo fato de que estava eu sempre em evidência devido ao cargo, fazia esforço em mostrar-se entendido da área, ao mesmo tempo em que tentava deixar-me sem respostas, desmoralizando-me diante de todos. Estava na cara de que o oficial intermediário estava querendo ficar no meu lugar, porquanto o cargo, embora espinhoso, atraía os holofotes.

Contudo, apesar dessa questão de caráter, percebi que o capitão Domingos era o nome mais preparado para aquele cargo de grande responsabilidade. Questionado, não me furtei a indicar o nome mais qualificado, ainda que, contra ele, conservasse a ressalva já explicada antes.
Disso tudo, extraem-se duas lições:

Por primeiro, que em todo meio há pessoas invejosas, que não hesitam em puxar o tapete do seu semelhante, até mesmo ambicionando o cargo deste;

Por segundo, a questão da lealdade. Para não prestigiar o oficial a quem passei o cargo, poderia eu concordar com o nome proposto pelo comandante. No entanto, a minha obrigação era lhe indicar o oficial mais competente, e o nome do capitão Domingos Silva era o melhor que se apresentava naquele momento. Em hipótese alguma, deixaria que o comandante designasse para a assessoria de área de Recursos Humanos alguém cuja capacidade não estivesse à altura da responsabilidade do cargo.
Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo!
Mesmo as noites totalmente sem estrelas podem anunciar a aurora de uma grande realização. Martin Luther King
(BLOGUE do Valentim em 04jan2015)

MANAUS, Macapá, Franca…

NOS MEUS tempos de colégio aprendi que metonímia é o uso de uma palavra significando outra, existindo relação entre ambas, semelhança. Há diversos tipos de metonímia: o autor pela obra (Leio Machado de Assis), o continente pelo conteúdo (Bebeu do cálice inteiro), a marca pelo produto (Meu filho gosta de danone) …
Pois bem. Na Escola, entre 1977 e 1979, numa turma de quase meio milhar de almas, era muito comum tratarmos pelo apelido alguns colegas. Certos apelidos o tempo não conseguiu deletar da nossa memória, permanecendo até hoje, quase 38 anos depois, em nossa mente, igualmente ao rosto juvenil de grande parte desses colegas, máxime os mais chegados.
Outro dia, localizei no Facebook o Rubens de Castro Silva Júnior, que formou especialista em Armamento (Q AR). O nome dele aparece como Rubens Júnior. Rubens Júnior? Não, não o reconheci no momento pelo nome, que a memória não reteve. Olhando bem a fotografia dele, reconheci os traços daquele rosto juvenil, desde julho de 1979 jamais por mim revisto. Sim, era o Franca. Franca, sua cidade de origem, nome pelo qual ficou conhecido entre nós.
Então, lembrei que, sem querer, acabamos por criar naquela época mais uma metonímia: a cidade de origem pelo indivíduo.
Aí procurei lembrar de outras alcunhas similares. Os mais célebre deles, apelido imortalizado em nossa mente pelo tenente Magalhães, certamente é  o Macapá, formado Q AT MT. É possível até que nem todos lembrem do N. Ramos, nem mesmo do Domingos do Nascimento Ramos, seu nome de batismo. Porém até hoje estimamos o nosso imortal colega Macapá, peixe do comandante Mário Magalhães, figura igualmente inesquecível, que por sua vez era fã da canção Esbelto Infante.
O mais pitoresco e engraçado desses colegas, porém, era o David Martins da Silva, o famoso Manaus, simpatizante do teorema de Pitágoras, pois para ele, em geometria, tudo se resumia à aplicação do teorema. Formado Q AT IT, migrou para especialidade de voo, acabando por falecer em acidente Aéreo.
No entender de alguns colegas, no entanto, o Manaus gostava de aplicar mesmo era o teorema de Chutágoras.

Servi com ele ainda em Anápolis, Boa Vista e Manaus, e sei de situações embaraçosas, algumas com alguma dose de humor e outras, infelizmente, não tão divertidas.

Quando morador de uma “república” em Anápolis, costumava atender o telefone assim: “Alô, mansão dos magnatas! Deivid falando.”

Uma das suas preocupações era não terminar sargento Buck Rogers. Ele não queria levar “carona”, ou seja, não gostaria de ser preterido, permanecendo eternamente na mesma graduação, deixando de ser promovido. Buck Rogers era um personagem de uma série de tevê veiculada nos anos 70. Era o caso de um cientista, o capitão Buck Rogers, que experimentou entrar numa máquina do tempo e foi parar no futuro, quinhentos anos depois. Permaneceu no posto de capitão por mais de meio milênio.
Lembro dele quando vejo que eu, uma vez promovido a capitão, pedi reserva e permanecerei no mesmo posto enquanto for vivo. Acabei igual ao Buck Rogers, como dizia o Manaus.
Uma dúvida me remói o espírito: O Vassoura, também conhecido por João Luiz Rodrigues de Oliveira, falecido, que se formou Q AR, tinha esse apelido por causa de sua magreza, ou porque era natural do homônimo município de Vassouras, estado do Rio? Talvez por ambas as razões. Alguém saberia esclarecer? (BLOGUE do Valentim em 13fev2015)

A FORMIGA atômica!

DAQUELA dúzia de colegas que não conseguiram concluir o curso por terem sido excluídos por razões disciplinares, tinha mais proximidade com três deles: Santana, Nunes e Pedroso. Os dois primeiros, meus conterrâneos; o terceiro era gaúcho.
Lembro ainda hoje muito bem do rosto juvenil de cada um deles, como diz o colega Pinheiro. Além do rosto, lembro do jeito de cada um. Santana, talentoso desenhista, era um cara baixinho e atarracado, branco com algumas sardas, cabelos bem penteados para trás. Tocava violão, que ele, quando não estava usando, deixava guardado na sargenteação. Após o término do expediente, depois das cinco, entre o banho e o horário de jantar, geralmente era o período em que Santana, sentado na cama de campanha e pegava seu violão e ensaiava algumas músicas. Detalhe é que fazia isso completamente pelado. Tinha na ponta da língua algumas paródias, como a do clássico musical “A Banda”, de Chico Buarque, em que ele trocava as letras por outras risíveis porém censuradas. Banda virava ‘bunda’ e entre as pessoas que iam à janela ver a banda passar estava lá uma prostituta, ou puta, como ele cantava para diversão dos mais próximos.

“E a puta velha debruçou na janela
Pra ver se a bunda era igual à dela…”

Criou um roque, o “Roque do Aluno”, em que resumia a rotina da semana, iniciando com a segunda e findava com a sexta-feira. Tinha o dia do boi-ralado e tinha o dia do Caveirinha, também. O refrão era o seguinte:

“Eu sou aluno
Eu sou aluno”
Esse paraense era realmente um artista de talento.
Nunes, Expedito Nunes, que era enfermeiro, era adepto do fisiculturismo, que, naquele tempo não era conhecido por esse nome. Praticava halteres ou fazia ferro, no popular da época. Baixinho também, porém bastante forte, daí ter ganho o apelido de “Formiga Atômica”, que era um desenho animado que passava na tevê. Era já um cara de mais experiência, em comparação a nós mais novos, e já tinha sido soldado do Exército. Foi espelhado nele que passei a frequentar a sala de musculação – não se dizia “academia”, como hoje – a fim de ganhar alguns músculos, disfarçando assim o meu evidente raquitismo. Ganhei então alguns centímetros de bíceps e de peito, pelos supinos que costumava fazer duas ou três vezes por semana.
Pedroso, acredito que era enfermeiro. Não tenho bem certeza. Era um gaúcho de Porto Alegre – a julgar pelo sotaque característico – do tipo malandro. Lembro perfeitamente de tê-lo ouvido falar que um de seus sonhos era comprar um apê.
Todos foram afastados do nosso meio por conta do consumo de tóxicos. Eu de nada desconfiava, de tão ingênuo que era. Depois do ocorrido é que vi que aqueles caras eram mais avançados de que a maioria. Vestiam-se bem, apesar do parco salário que o aluno da Escola de Especialistas recebia por mês. Dizia-se que eram ajudados pelos pais, que lhes mandavam dinheiro. Eu, por minha conta, lembro sempre daquela máxima, bastante repetida pelo Corpo de Alunos: “Aluno só é pobre porque quer.”
Porém não os censuro, porquanto estaria a julgá-los. O julgamento é próprio de Deus, e cada um de nós tem os seus defeitos. Cabe a nós ressaltar as qualidades e minimizar os defeitos, e, se tivermos condições, aconselharmos. No caso desses colegas, se tinham esse vício, é possível que tivessem qualidades.
Recordo que logo que cheguei, na primeira série, ainda desconhecendo muita coisa, o Nunes me chamou à parte. Estava eu de décimo, o uniforme da Swatt, como costumávamos brincar. Era o meu primeiro serviço de plantão, o primeiríssimo de toda uma carreira que durou trinta anos.
– Valentim, quando o rondante chegar, você se apresenta a ele e diz: “Aluno 77 1574 Valentim, serviço sem alteração!”.
Eu não sabia disso. Ninguém antes tinha me falado. Mas ele, vendo que estava mais perdido que cego em tiroteio, tomou iniciativa e orientou-me. Jamais me esqueci disso, meu amigo.
Era, apesar da dificuldade, um cara legal. Não há um bom sem defeito, como diz minha querida mãe, e o contrário também é verdadeiro.
Cheguei a mandar uma carta ao Santana, com quem tinha mais contato já que o armário dele ficava próximo ao meu, a fim de expressar minha solidariedade. Não obtive resposta.
A vida seguiu seu curso.
(BLOGUE do Valentim em 24jan2015)

TRIBUTO aos heróis anônimos da minha época de Escola

PEGO emprestada a fotografia do Cb Senna (nem sei se era este o seu nome de guerra do colega quando cabo, mas isso não vem ao caso agora) para, utilizando este espaço democrático de convivência virtual, render minha homenagem aos colegas que antes da Escola já eram cabos, os chamados cabos velhos.

Sempre admirei aqueles colegas que, antes da Escola, eram cabos ou até mesmo soldados. Não era somente pela experiência militar que já possuíam, porque isso a gente adquire com o tempo. Eu também seria experiente se já fora militar antes de ingressar na Academia do Pedregulho. O diferencial consistia na questão salarial. Todos sabemos que naquela época a legislação não contemplava a manutenção do mesmo salário de antes ao militar que ingressasse numa escola militar. Era aceitar o salário de aluno ou não ingressasse como aluno.

Ocorre que, diferente de alguns anos depois, estava em vigor a portaria 1.104 (não tenho certeza se era esse mesmo o número da legislação), baixada na época do brigadeiro Eduardo Gomes, que cortou a estabilidade dos cabos, de forma a não passarem dos oito anos. Deu oito anos e o cabo ia para o olho da rua, com uma mão na frente e outra atrás, ou seja, sem direito a qualquer compensação financeira. Muitos já possuíam família.

A única saída era prestar concurso para a Escola. Faziam concurso mas sabiam que tinham de aceitar a redução salarial, passando a viver naqueles dois anos com o mísero salário (ajuda de custo, talvez seja o termo mais apropriado) de aluno. Conheci um ou outro que, pelos comentários que ouvia, possuía esposa e filhos. Realmente não sei como viviam com aquele salário miserável de aluno. O certo é que, para mim, depois de formado e imaginar as condições de vida, e também – eu próprio – viver as dificuldades de salário baixo e tudo o mais, esses caras, que foram meus colegas nos dois anos de Escola, foram verdadeiros heróis. Heróis sem medalha, heróis da vida.

Depois de algum tempo o cabo passou a ter estabilidade, o que também veio lhes dar – além da tranquilidade – a acomodação, deixando de lado o fator positivo da ambição e objetivo. Vieram depois as diferenciações de concurso para a Escola, dando uma espécie de quota ao cabo, que ganhava alguma vantagem em relação ao candidato civil. Ainda assim, muitos se acomodaram com aquela estabilidade. É certo que muitos cabos eram realmente grandes profissionais, experientes, ‘safos’ na sua área de atuação, mas, justamente por essa razão, que mereciam seguir adiante na carreira, sendo sargentos e suboficiais formados pela Escola de Especialistas de Aeronáutica.

Mesmo que pela necessidade imposta pela legislação da época, então, diante disso, rendo tributo – mesmo que tardio – a esses colegas meus que, malgrado o reduzido salário, conseguiram lutar naqueles dois longos anos em busca do objetivo de seguirem na carreira.

Comentário do Senna:

“Valentim, esse era mesmo o meu nome de guerra, Senna. Quando nos formamos troquei, porque como já havia homenageado meu pai durante 6 anos de serviço, mudei então para Bittencourt, para fazer o mesmo pela minha mãe.

Agradeço por ver-nos como heróis, porque, realmente, para sair de uma zona de conforto que desfrutávamos, para ter que passar por toda aquela pressão, que, diga-se de passagem, era amenizada quando jovens como você, na época, eram acalmados por nós que já tínhamos certa experiência; era preciso muita coragem, coisa que muitos colegas da época de alistamento e curso de cabo não tiveram.

Se não estou enganado, o salário de um cabo naquele tempo era de Cr$ 4.750,00 , isso mesmo que estão lendo, quatro mil, setecentos e cinquenta cruzeiros. Para passar a receber: Cr$ 162,00. Esse era um dos principais motivos que muitos colegas deixaram de prestar concurso para a EEAer. Imagina casado, com um filho de 3 anos de idade. Mas quanto a isso, tenho uma dívida eterna para com meus pais, que acolheram minha mulher e filho durante os dois anos de Escola.

A cabeça ficava dividida entre estudar e a família que tinha ficado longe. Foi barra, viu…
Nesse tocante, sou grato até hoje ao Vargas, cearense que passei a ter como um irmão, como tantos outros; mas com relação ao que estou relatando ele foi peça fundamental às minhas idas ao Rio de Janeiro em todos os fins de semana, pois eu tirava dois serviços pretos para ele estudar, e ele tirava um vermelho para eu viajar.”

Outras histórias virão…

(BLOGUE do Valentim em 23fev2015 )