O SARGENTO Jarrão!

EM NOSSA página do Facebook alguém falou no concurso para a Escola.
Pois bem. Naquele tempo o concurso era em quatro dias: o primeiro era destinado a um evento chamado “concentração inicial”, os outros três dias  para os testes de Português, Matemática e Ciências.
Em Belém a nossa concentração inicial foi no ginásio Serra Freire, do Clube do Remo. Tal evento era destinado somente a dar avisos e orientações sobre as etapas seguintes. Os exames de Português, Matemática e Ciências eram realizados em três dias distintos, diferente de hoje em que, por razões de segurança,  “concentração” e todos os testes intelectuais são concluídos no mesmo dia.
Não lembro bem, mas creio que o evento era de caráter eliminatório. Candidato faltou, estava excluído do certame. Sem choro.
Naquela manhã ensolarada, dentre a enorme quantidade de fiscais escalados, suboficiais e sargentos da área de Belém, destacou-se ao longe pelo tipo físico um robusto primeiro-sargento, uma espécie de sargento Garcia, gordo e barrigudo.
Nesse ano havia uma propaganda de tevê muito popular de uma bebida do tipo Kisuco ou Tang, não recordando este escriba exatamente a marca. A propaganda destacava uma pessoa em forma de uma grande jarra de suco, que era chamada de “jarrão”. Era “jarrão” pra cá, “jarrão” pra lá…  A peça publicitária logo logo caiu na boca do povo.
Ao término do evento, já saindo do ginásio, a moçada divisou entre tantos outros sargentos a figura que não tinha como se esconder, e alguém passou a gritar: “Jarrão!… fala, Jarrão!”. Logo todos, ou quase todos, gritavam em uníssono, numa alusão explícita à enorme figura que se destacava. Ao mesmo tempo que a galera caía na gargalhada, cada um deles escondido na multidão, aproveitando a ocasião para fazer aquilo que não tinha coragem para fazer em particular.

É claro que o sargento gordo sabia que a gozação era com ele. Se em seu íntimo estava brabo, é provável que sim. Mas se demonstrasse indignação e reagisse, era pior. Não tinha nada a fazer contra aquelas centenas de rapazolas de dezesseis a vinte e poucos anos, que pouco ou nada tinham a perder e que não deixavam escapar a oportunidade de sacanear alguém.
Esse episódio me vem à mente mais tarde para destacar que a grande maioria daqueles caras não estava levando a sério o concurso. Estavam lá somente para dar satisfação aos pais. Noventa por cento daqueles garotos, talvez até mais, não estava devidamente preparado, de forma que a quantidade de candidatos presentes não servia para aferir o grau de dificuldade do concurso. Bastava colocar força de vontade e determinação em conseguir seu objetivo, além de – é óbvio – uma dose mínima de preparação intelectual.
No entanto, eu não sabia disso. Mas nos dias das provas, este humilde escriba fez a sua parte, não se importando com aquela pequena multidão ali presente.  (BLOGUE do Valentim em 24jul2015)

AS APARÊNCIAS enganam!

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ERA hora do almoço. Nessa época o rancho de oficiais ficava apartado das demais instalações da Unidade, funcionando em anexo ao hotel de trânsito, também conhecido como T1.

As mesas estavam devidamente arrumadas, como era rotina, com toalhas, talheres, lenços e jarras de suco. As refeições ficavam nas devidas bandejas, onde cada um dos comensais retirava as poções que lhe convinham e as colocavam no prato. Os taifeiros -garçons serenamente aguardavam o início dos serviços.  Essa era a rotina para aspirantes, tenentes e capitães. Frequentavam esse refeitório também alguns servidores civis assemelhados a oficiais, que recebiam o mesmo tratamento dados a estes. Ao fundo do refeitório, que era uma espécie de quadrilongo, e de frente para a porta de entrada, ficava uma grande mesa, que informalmente era chamada por todos de “santa ceia”, que era destinada ao comandante, a seus convidados e aos demais oficiais superiores da Unidade: tenentes-coronéis e majores. Se estes recebiam tratamento digno de reis e altas autoridades, os outros, mais modernos, não seria exagero dizer que eram tratados como príncipes, guardadas as proporções.

Por enquanto nenhum deles se servia nem se alimentava enquanto o comandante não chegava ao local.

Havia vários grupos de oficiais, cada um com dois, três ou quatro, a conversarem entre si.

Num deles, Capitão Pacobahyba confabulava com o tenente Paolo, a combinar os detalhes e dados que comporiam o discurso de homenagem à autoridade visitante — “Deixaremos o rascunho para o nosso furioso João Pereira, meu sargento e exímio datilógrafo, bater à máquina”. Eis que se aproxima de ambos o  tenente Sobrinho. Era para esse oficial subalterno, um primeiro-tenente,  recém-transferido, a primeira oportunidade que tinha de frequentar o rancho. Não conhecia ainda ninguém, muito menos a sequência hierárquica dos oficiais superiores do efetivo, como era obrigado o oficial, e, vez por outra, observado em reuniões pelo próprio comandante. Vendo o capitão Pacobahyba, que se posicionava em pé quase na entrada do refeitório, de forma cortês Sobrinho indaga deste:

“Por gentileza, meu bom capitão, qual daqueles dois tenentes-coronéis, que estão lá no fundo, em pé, conversando, é o mais antigo? É que devo ir até o mais antigo para saudá-los, conforme manda o regulamento”.

Responde-lhe o oficial intermediário:

“Na verdade, não tenho certeza. Quando cheguei aqui o mais antigo era um major, a quem saudei”.

Perguntou a mais outro, que estava próximo, mas também este não deu certeza da antiguidade dos dois oficiais superiores. Sem saber a quem saudar por mais antigo presente no recinto, o tenente ia caminhando devagar na direção dos dois que conversavam ao fundo. Devia estar pensando a qual dos dois saudar primeiro sem perigo de ser repreendido pela omissão ou engano. Estavam lá certamente no aguardo do comandante, para, assim que ele se assentasse, estes também tomassem assento para a refeição, conforme manda o regulamento. Um deles, tenente-coronel Perdeneiras, era do tipo baixinho, franzino e mulato; já o outro, tenente-coronel Pardomo, tinha aparência bem diferente: alto, tipo atlético, olhos claros e cabelo aloirado.

Capitão Pacobahyba então, de volta a atenção ao tenente, lhe faz esta observação: “Sabe, meu jovem tenente, não é por falta de bondade da minha parte, mas é claro que na verdade sei quem é o mais antigo pois conheço de cor e salteado a relação hierárquica dos oficiais da unidade, e não poderia ser diferente porque esta é uma das obrigações do oficial — eu estou há dez anos aqui e acompanho atentamente as apresentações dos oficiais em boletim e também as que são feitas em público de forma oficial, nas nossas reuniões periódicas. Mas é perdoável ao seu colega de posto que agora me indagou pois ele é recém-chegado aqui.” E, diante da interrogação que espelhava no semblante do seu interlocutor, o velho oficial continua:

“Eu aproveitei o momento para uma fazer experiência. E eu sei qual dos dois coronéis o nosso amigo recém-transferido vai saudar. Olhe e veja”.

O tenente Sobrinho, ao cumprimentar com uma posição de sentido e um gesto de cabeça, o tenente-coronel Pardomo, este oficial superior indica com o olhar o colega ao lado, tenente-coronel Perdeneiras, por esse bem mais antigo, três turmas exatamente. Um ligeiro rubor surgiu na face de Sobrinho pela gafe cometida. Um major, que presenciava, o incidente fez um muxoxo de reprovação.

“Eu sabia que, em dúvida, ele erraria a antiguidade e saudaria o coronel Pardomo. As características físicas do oficial enganaram o amigo recém-chegado, pois, no entender da maioria, esses dotes de aparência, de que são dotados o dito coronel, atestam superioridade. E, e então, para Sobrinho, esse oficial superior certamente seria mais antigo que o outro, que é baixinho e mulato, e, além de tudo,  franzino”.

Fez esse comentário e assim e então se lembrou de um episódio ocorrido cinco anos antes, que envolveu um ex-comandante, coronel Juscelino Braziliense, o austero.

O caso foi quando ele ainda era major.

Braziliense, de raça negra, havia chegado nesses dias à localidade, transferido que fora da base aérea de Salvador. À tarde desse sábado, estava de macacão, botina e chapéu de palha, a capinar as áreas verdes, cujo mato estava por tomar conta do imóvel, dando um aspecto de abandono à casa. Fazia essa tarefa braçal há meia hora, mais ou menos, quando uma jovem senhora que andava pela calçada parou em frente à sua casa.

“Senhor, senhor!” Era para ele que a senhora se dirigia. Major Braziliense volta a atenção para ela: “Pois não, minha senhora”.

“Sabe, meu senhor, a frente da minha casa também está cheia de mato. Quanto o senhor cobra para fazer a limpeza?”

O oficial, mirando bem o rosto e as feições da senhora, ficou como a matutar por alguns segundos, como que a pensar bem no que dizer. E antes que a mulher aparentasse impaciência, finalmente responde: “Quarenta cruzeiros, dependendo da quantidade mato”.

“Então, apareça lá em casa, é na casa 22 da vila”.

“Aguarde só mais meia hora, que eu vou até lá. Já estou terminando aqui.”

Não deu vinte minutos, como o número 22 era perto, e o major lá estava, devidamente fardado e munido de uma enxada. Entrou e começou a capinar.

Não demoram alguns minutos e chega o esposo da mulher, o tenente Benício. Difícil descrever como ficou o jovem oficial ao ver aquela cena: Um oficial superior, que era o seu chefe de Operações, em atividade braçal. Não sabia onde pôr a cabeça de tanta vergonha.

O major Braziliense, com naturalidade, lhe diz o preço: “São quarenta cruzeiros,  meu bom tenente. Pague-me agora ou vai se ver comigo”.

Braziliense era de boa índole e nunca foi de guardar rancor. Mas a Benício dava a impressão de que o evitava no dia a dia da caserna, mau o encarando por quase dois anos, tempo em que Braziliense durou no cargo, tendo então sido promovido.

Chega ao recinto o comandante, coronel Horácio. Que comece o banquete!

 

 

 

 

 

O CASO do discurso!

“ALÔ!…

Dona Sizenanda!? Desculpe a demora em atender…

Em que tenho a honra de servi-la?…

Brigadeiro quem?!…

 Não, nunca ouvi falar…

Sei… Não entendi, dona Sizenanda, onde entro…

Ainda não entendi…

Se puder ajudar…

No rancho…

Compreendo. Vou procurar o tenente. Fico honrado com a lembrança do meu nome, dona Sizenanda. Mas veja que não sou nenhum Machado de Assis…

De nada.”

Sizenanda Tabosa de Oliveira, a secretária do comandante da base aérea, com seu metro e setenta de altura, embora já passada dos quarenta, ainda é o que se chama de “mulher bonita”. Aquele corpo esbelto, pernas torneadas, silhueta insinuante, cabelos soltos até à altura dos ombros ou mesmo presos davam a ela uma condição peculiar própria de mulheres cuja idade é muito difícil de ser definida. Completando seus encantos, os óculos de grau sobre os olhos esverdeados lhe dão um ar de mulher intelectual, quando em outras constituem desvantagem. Também, mas não só, por esses atributos era cobiçada pelos homens e invejada pelas mulheres.

Alguns poderiam lhe dar trinta e cinco, outros quarenta, quarenta e cinco ou até mais anos de idade. Sua idade real? Esse era um segredo muito bem guardado que ninguém se atrevia a perguntar, e o pessoal da seção de pessoal civil nada sabia de oficial sobre ela, pois pertencia ao quadro de pessoal do comando aéreo, que a movimentou de forma não oficial para a unidade em que se encontra há doze anos. Sua ficha de identificação, para os curiosos, bisbilhoteiros e fofoqueiros que existem em todo canto, não estava em arquivo.

Somente nos últimos cinco anos estava a serviço do comandante da unidade. Antes, emprestava seus serviços (e sua graça) ao esquadrão de pessoal. Por essa época,  Pacobahyba, ainda como primeiro-tenente, era o chefe do setor, de forma que ambos agora são velhos conhecidos.

Havia nesse tempo um datilógrafo, o cabo Carvalho. Ocorria que, por duas ou três vezes, Carvalho foi ao esquadrão de pessoal e entrou na sala do chefe para perguntar alguma coisa, tirar uma dúvida ou deixar um recado. Sizenanda, que nessa época se ocupava de processos de medalha, também estava lá. Nessas raras ocasiões, a título de gozação, ele, gozador, vinha com esta:

“Você, Carvalho, por acaso não é compositor de samba?” Como o cabo Carvalho ficava sem resposta diante de indagação tão inusitada, Pacobahyba continuava: “Por que estão cantando teu samba, sem tua autorização”. E, batucando na mesa, cantava um samba de duplo sentido:

Esse samba é do Carvalho / Não se meta nesse embrulho Tás cantando um samba de outro, dizendo que é teu / Tás querendo achar barulho

(Esse samba de quem é?) / Esse samba é do Carvalho…

De soslaio, percebia o sorriso de Dona Sizenanda. Ficava satisfeito.

Agora, Pacobayba, quando chega para os despachos de rotina com o comandante, sempre lhe indaga com um sorriso cordial: “O mar está, ou não está, pra peixe, dona Sizenanda?”. Era uma forma sutil de ganhar um sorriso da bela secretária e antiga amiga., que o fazia de forma cordial — e não de maneira insinuante — à pergunta que o oficial lhe fazia e que não exigia resposta. Outra vez lhe disse o capitão, com o olhar na parede que ficava às costas da secretária: “Sabe, dona Sizenanda, esses dois quadros aí?” — e não esperava resposta. –“Um é uma paisagem noturna e outro retrata o dia, sol, um lindo campo, riacho, uma maravilha. Pois esta segunda paisagem bem  indica quando a gente entra na sala do homem, e o outro quadro representa a situação de quando a gente sai do recinto”. E dona Sizenanda sorria às anedotas do capitão. “Ganhei o dia”, pensava de si para si o oficial.

Mas essa concessão era para poucos, contados nos dedos de uma só mão.

A competente secretária era assim um amor de pessoa e a eficiência em ação. As aparências, entretanto, enganavam os incautos e qualquer indício de gracejo masculino era reprimido com firmeza, deixando sem chão o galanteador temerário. Se o infeliz insistisse na graça, o caso poderia chegar aos ouvidos do zero-um, e o tal nunca mais se ajeitava, isso se não fosse severamente punido disciplinarmente. O fato é que nunca ninguém chegou a tal ponto.

Logo terminada a reunião, o comandante pede a dona Sizenanda que localize o tenente Paolo, que, por dar expediente no mesmo prédio, em cinco ou seis minutos estava lá. Que chamasse também o major Hipólito.

Que queria o coronel Horário com o tenente intendente mais moderno da unidade?

A um olhar de dona Sizenanda, o jovem oficial, saindo do gabinete do comandante, lhe satisfaz a curiosidade: “Brigadeiro Viana Calmon, a senhora já ouviu falar?”. A secretária diz que não com um movimento de cabeça. “Esse brigadeiro vem a Belém hoje. Pernoita e amanhã vai haver um almoço festivo em sua homenagem. Coronel Horário mandou que eu lhe faça um discurso”

Experiente, a secretária percebe que havia ali um pedido de ajuda. Dona Sizenanda, assim que o tenente sai, pega o aparelho telefônico e disca um número de três algarismos.

Finalmente alguém atende.

“Alô, capitão Pacobahyba, bom dia. É a dona Sizenanda…

Não, não há problema, capitão…

Capitão, vou direto ao assunto. O brigadeiro Viana Calmon está vindo amanhã de visita a esta base…

Viana Calmon!…

Esse brigadeiro, pelo que pude saber, serve num comando com sede no Rio. Apurei que sempre serviu na área do Rio e de São Paulo. Nunca esteve por aqui. Agora, está indo para a inatividade, e resolveu viajar pelo Nordeste e Norte para conhecer essas regiões…

Ocorre que o comandante escalou o oficial mais moderno da unidade, que é justamente o tenente Paolo, para fazer um discurso em homenagem a essa autoridade…

É que ele (coitado!) não acha palavras e – bem – eu pensei…, pensei que o senhor pudesse ajudar. O senhor escreve tão bem, capitão…

O senhor não espere que ele vá lhe procurar. Parece ser muito tímido. Peço que o senhor o procure. Pode ser no rancho, agora pelo horário de almoço…

Sim, no rancho. O homem chega hoje à noite e amanhã o comandante deve homenageá-lo com um almoço festivo no rancho, nessa ocasião o tenente Normando  vai fazer o discurso, o comandante do grupo de comando vai entregar uma placa e essas coisas, como é toda vez que vem alguma autoridade de lá…

Muito obrigada, capitão!”

E no horário de almoço, o capitão Pacobahyba combina as ações com o tenente Normando e esse jovem oficial, em princípio, fica sem entender como é que surge do nada essa ajuda. Sabia que fora escalado por ser o mais moderno, do mesmo quadro que o brigadeiro. Sim, era uma homenagem, mas não entendia se era, ou não era, merecida. Bem, o comandante devia ter lá suas razões. Na verdade, esse tal brigadeiro, Calmon Viana, nunca nem servira na localidade, sempre serviu no eixo Rio-São Paulo, mas agora, como despedida, resolve saber como é a Força no Nordeste e no Norte do país.

Por orientação de Pacobahyba, ele e a dona Sizenanda entram em contato com a secretária desse brigadeiro, procurando saber dados que embasem o discurso. Quando se formou, onde serviu, quais as funções mais relevantes…