MALBA Tahan!

O viajante desconhecido

UMA tarde, lembro-me muito bem – corria sobre as terras quentes do Iraque o mês do Babilelaval – uma tarde, achava-me a fumar descuidado à porta de minha casa, observando as andorinhas que diagonavam o céu, quando de mim se acercou um viajante desconhecido. Suas vestes modestas não denunciavam desmazelo; do rosto, manchado pelo pó das estradas, transparecia certa nobreza. Pesava-lhe sobre o ombro esquerdo um fardo escuro apertado por uma correia amarelada e, pendente da cintura, um punhal recurvo.

Estacou, respeitoso, a pequena distância. Inclinou ligeiramente o busto e proferiu (a sua voz deixava filtrar ligeiro sotaque africano) o salã dos peregrinos cairotas: 

— Seja Alá o teu guia e o teu amparo! Que a alegria brilhe sempre nos olhos de teus filhos e a paz resida perene em teu coração! 

Encantou-me a delicadeza daquele forasteiro. Suas palavras tinham a harmonia de uma fonte sussurrante. É pessoa finamente educada (pensei). E tudo nele pareceu-me distinto e sóbrio, desde o turbante desbotado até as babuchas enegrecidas pela lama do caminho.

E, emprestando a minha voz todas as cambiantes da simpatia, retribui a sua saudação:

— Alá te proporcione uma boa noite. Precisas de meu auxílio? Imenso será o meu prazer em ajudar-te! — E num gesto largo, sob o escudo da modéstia, aditei risonho: — A minha desvalia é grande, mas o meu desejo de servir é muito maior! 

O viajante descerrou os lábios num sorriso de intenso júbilo. Lia-se-lhe no semblante abatido o drama da fadiga insofrível.

— Alá sobre ti e ao redor de ti! — respondeu com certa cerimônia — Aceito, de bom grado, o teu generoso acolhimento. Sinto-me, realmente, exausto e desejaria repousar aqui algumas horas, antes de prosseguir jornada!

— Esta casa é tua, ó irmão dos árabes! — confirmei, sem hesitar — aqui terás (Alá seja louvado!) um pouco de pão, água fresca e tâmaras doces.

O cairota (devia ser um cairota!) com sincero suspiro de alívio, com bagas de suor a cair do rosto, arriou o fardo, infletiu os braços e agitou o ombro dormente, como faria um carregador na feita ao dar por findo o estafante carreto.

Tomei-o com simplicidade pelo braço e conduzi-o para o interior de minha casa. Convidei-o a sentar-se e obsequiei-o com reconfortante merenda: pão, bife de carneiro e coalhada fresca.

— Estás só? — perguntou-me circunvagando o olhar por todos os recantos da sala numa observação muda, mas certamente indiscreta e intencional. Percebi que toda a sua atenção convergia para um narguilé de prata que rebrilhava perto da porta entre um pequeno alaúde e dois escudos persas. Aquele narguilé era o adorno mais precioso de minha casa. Recebera-o, seis meses antes, do generoso xeique Husseyn,  em troca de belo e espirado poema dedicado especialmente aos guerreiros de sua Kabila. Um turco, amigo e sócio de meu irmão, dissera-me que a peça devia valer mais de mil dinares-ouro. Era facetado na base e…

— Estás só? — instou o hóspede vendo-me distraído, e interrompendo o rumo incerto de meus pensamentos.

Sim, eu estava só. Inteiramente só. Minha esposa, na véspera, havia seguido – juntamente com os filhos e duas servas – para o oásis de Beni-Soad, onde moravam alguns parentes nossos. Eu ficara, naquele isolamento, retido por alguns afazeres inadiáveis. Dentro de uma semana, concluída a tarefa que me prendia, deixaria, também, a casa e iria repousar nas montanhas, longe da vida tumultuosa e do calor de Bagdá.

E, enquanto desfiava aqueles informes, tinha minha atenção presa à pessoa de meu hóspede inesperado.

Em dado momento, num gesto vagaroso, arrancou do turbante, estirou indolente as pernas, acomodou o busto forte sobre larga almofada e decaiu em silêncio. 

Pude, então observá-lo melhor.

Era um homem relativamente moço, mas já cruelmente maltratado pelos revezes da vida. Ligeiramente calvo, tinha olhos claros e fisionomia inteligente e expressiva. Enegrecia-lhe a mão esquerda, até a altura do punho, estranha tatuagem, cuja forma ao primeiro olhar não pude distinguir.

Deixou-se ficar algum tempo em silêncio, os olhos semicerrados, em completo alheamento, absorto num cismar sem fim.

Decorrido largo espaço ergueu-se de súbito, como se despertasse de um sonho, e interpelou-me com insofrida vivacidade:

— Não ouves, meu amigo? É a voz do muezin! Vamos à prece!

Pus-me à escuta. O hóspede não despertara enganado. Era realmente chegada a hora do mogreb. Que imperdoável distração a minha! O apelo melancólico do almohaden rolava pelo ar e se perdia ao longe entre as tamareiras sem dono que orlam o deserto:

— Vinde à prece, ó muçulmanos! Vinde à prece! Alá é Deus e Maomé, o enviado de Deus! Lembrai-vos de que tudo é pó, exceto Alá!

Fizemos em dois instantes as abluções do ritual. Lavamos ligeiramente as mãos até a altura dos cotovelos, os pés, o rosto, as orelhas e o pescoço.

almohaden, muito ao longe, clamava pelos fiéis. E as suas santas palavras chegavam-nos aos ouvidos com a suavidade de um eco:

— Vinde à prece, ó muçulmanos! Lembrai-vos de que tudo é pó, exceto Alá!

O dia declinava na serenidade e na paz. A noite se anunciava batendo as palmas do crepúsculo. O Sol, como um garoto travesso, espionava a Terra por cima do muro sombrio das montanhas.

— Façamos a prece lá fora — sugeri ao meu hóspede desconhecido. 

— Não, não — recusou com uma veemência que me surpreendeu — Oremos aqui mesmo, nesta sala!

E interrogou-me, num assomo de impaciência enquanto enrolava apressado o turbante:

— Tu, que és o dono da casa, orienta-nos! De que lado fica a Cidade Santa?


Respondi estendendo o braço em direção à segunda janela, à esquerda:

— É exatamente neste rumo!

— Julguei que ficasse para ali — tornou, com seriedade, o egípcio — na direção daquele narguilé.

Até na hora da prece esse homem está com o pensamento no meu narguilé – pensei. E uma onda de desconfiança negrejou-me o coração.

O cairota (eu insistia até aquele momento em supô-lo cairota) apanhou uma lança e colocou-a recostada à parede, com a ponta voltada para baixo, junto à janela que eu indicara. A linha ideal, passando pela ponta da lança iria até Meca, a cidade de Deus.

— Vamos à prece! — disse, dando por findos os preparativos.

Ajoelhamo-nos e erguemos os braços para o alto:

— Alá, Clemente e Misericordioso! Louvado seja o Onipotente criador de todos os mundos!

E o estranho viajante, a meu lado, com a voz repassada de impressionante e comovente unção, pôs-se a orar:

“Quero, Senhor, ser como sou, vosso crente fiel e submisso, no sofrimento e na dor, no tédio e na alegria, na doença e na saúde, na miséria e na fartura, na vida e na morte! Não me enjeiteis, Senhor, ainda que vos tenha enjeitado e ofendido; não me lanceis de vós, Senhor, ainda que vos tenha repelido e negado; não me deixeis de todo, sem o vosso misericordioso amparo, endurecer em meus erros e meus pecados!

“Tirai, Senhor, de nossos corações toda suspeita maldosa, toda ira injusta, toda ambição reprovável, toda desconfiança insultuosa! Apiedai-vos, Senhor, de todos os que imploram a vossa misericórdia. Apiedai-vos e socorrei, socorrei, Senhor, aqueles que nas angústias da vida e nos desesperos da dor, necessitam de vosso indizível amparo e de vossa bondade infinita. Alá, Clemente e Misericordioso…”

Ajoelhamo-nos e erguemos os braços para o alto:  — “Alá, Clemente e Misericordioso!”

Ergueu-se. Estava finda a prece. A noite pousara lentamente na terra como uma águia fadigada. Acendi dois lampiões de azeite.

O viajante aproximou-se de mim olhando-me muito fixo e abraçou-me com vivo transporte de alegria. A seguir pôs-se a pular pela sala sacudindo os braços e gritando:

— A baraka! A baraka!

Ao vê-lo naquela atitude tomei-o por um desassisado, ou melhor, por um louco. Segurei-o com energia pelo ombro:  — Que é isso? Que aconteceu contigo?

Respondeu-me com estranha agitação no rosto:

— Pois não sabes? A baraka! Tens agora a baraka!

— Vamos! Explica-te. Onde está a baraka?

Afastou-se alguns passos de mim, cruzou com solenidade os braços, e interpelou-me com grave entono:

— Quero que me respondas: sou ou não, em tua presença, um desconhecido?

— Sim — confirmei — para mim não passas realmente de um estranho. Não sei o teu nome; desconheço o teu passado; ignoro os teus planos de vida, as tuas inclinações e os teus predicados.

— Pois bem — prosseguiu tranquilo o cairota, retomando o fio de sua explicação — sempre que um homem, estando sozinho em sua casa, recebe um hóspede desconhecido e faz em companhia desse estranho, sob seu teto, a prece do mogreb, adquire uma proteção especial de Deus. Essa proteção constitui a baraka mais valiosa que um crente poderia desejar. E esse é precisamente o teu caso. A baraka atuará sobre o teu destino e fará com que a tua vida seja inteiramente transformada. Vais entrar em largo período de prosperidade, paz e grandes venturas. Verás satisfeitos os teus sonhos; realizados serão todos os teus desejos. Só um pedido quero formular agora: quando estiveres no apogeu de tua glória, com a força e o poder nas mãos, atira-me a corda de tua proteção para que eu possa também subir e prosperar. Preciso do teu amparo! Imploro-o desde já!

Ao ouvir aquela explicação que a surpreendente solicitação rematava, sorri incrédulo. Não sou muito inclinado a aceitar essas superstições pueris; seria, porém, indelicado contrariar o meu hóspede. Fingi, pois, que admitia como certas todas as suas previsões e disse-lhe com ar agradecido:

— Está bem, meu amigo. Asseguro-te que terás a minha proteção. Imponho, apenas, uma condição. Quero que me contes a tua vida.

O viajante não se fez de rogado. Sentou-se diante de mim, cruzou as pernas e depois de rápido instante de meditativo silêncio, assim começou: 

Continua

SENHOR, eu não sou digno!

HÁ MUITO tempo, em Roma, para além da Porta Nomentana, erguia-se um amontoado de míseros casebres, onde viviam centenas de escravos foragidos, comediantes arruinados, mendigos, traficantes e gladiadores estropiados, que pareciam mais ameaçadores com seus andrajos do que os arrogantes vigias do empório com suas pesadas lanças rebrilhantes. Aquele perigoso refúgio, raramente visitado pelos agentes de César, era apelidado a “Pequena Salária”, ou melhor, “A Salária”.

Por entre as vielas sórdidas e sombrias da Salária, um dos tipos mais populares era o velho Flamínio, o Sereno. Pela manhã, muito cedo ainda, arrastando-se lentamente, deixava o seu miserável tugúrio e dirigia-se para o pátio da Semita, em busca de sol, sob as árvores ferrugentas.
Era um homem alto, magro, de faces amortecidas e olhar distraído. A sua cabeleira, inteiramente branca, sempre revolta, dava-lhe uma estranha aparência de profeta gaulês. Usava, habitualmente, uma espécie de túnica palmata, avermelhada, suja, esfarrapada, que mal lhe chegava até os joelhos.
De que vivia? Onde ia buscar recursos aquele ancião que não esmolava na Praça do Mercado nem era visto a tirar sortes nas escadarias dos templos?
Repontava aí a sombra de um mistério, que o tempo jamais conseguiria esclarecer. Garantiam alguns que o velho Flamínio era amparado por um antigo senador, íntimo de Augusto, que ele conhecera muitos anos antes, em Nápoles, quando trabalhava no porto, carregando as galeras de Tibério.
E, na verdade, Flamínio, que agora arrastava sua triste decrepitude na Salária, tivera, em sua vida, um período de prosperidade e alegria. Casara-se com uma camponesa da Sicília e tivera dois filhos. Um deles – Cláudio, o  Belo – fizera-se poeta. Tornara-se popular na corte. Suas poesias eram declamadas pelos nobres e elogiadas pelo imperador. Até os cônsules, altivos, com prestígio entre os senadores, invejavam os triunfos do jovem Cláudio.
Flamínio orgulhava-se daquele filho, que os deuses haviam cumulado de talento.
Mas Cláudio era ambicioso. Ligou-se a um certo Marco Lúcio, político sem escrúpulos, que Tibério escolhera, no período mais agitado de seu governo, para pacificar uma província grega. Lúcio partiu e levou o poeta. E, de Atenas, Cláudio jamais regressou.
O desaparecimento do filho amado navalhou o coração de Flamínio. Abandonou o trabalho em Nápoles e passou a viver em Roma, entre aventureiros da pior espécie, sem pão, sem conforto, sem esperança. Sua esposa o deixou e foi para a Espanha, com alguns parentes ricos. O filho mais moço fez-se soldado e alistou-se nas legiões de César.
E, no entanto, Flamínio, no meio de tanta desgraça, sentia-se feliz.
As palavras que ele ouvira de um oráculo do Templo de Vesta enchiam seu coração de esperanças.
Passara-se o caso num dos últimos dias de setembro, quando os fiéis traziam suas oferendas aos deuses. Cruzava Flamínio o átrio do templo quando ouviu  que o chamavam. Era um dos oráculos. Trajava uma túnica branca, muito alva, vistosamente recamada de franjas. Na manga direita, que se abria em leque, aparecia, desenhada, uma figura estranha – dragão, esfinge, serpente ou coisa parecida.
– Não te lembras de mim, Flamínio?
O ancião aproximou-se, desconfiado. Surpreendia-o, além do mais, o tom amistoso daquele profeta de olhos mortiços e rosto pálido.
– Quero recordar-te – prosseguiu o oráculo, olhando fito no velho. – Há vários anos passados (reinava o divino Augusto), em Nápoles, certa noite socorreste um viajante que fora assaltado no porto. Graças a teu auxílio, ele conseguiu livrar-se dos sicários. Esse viajante era precisamente eu. Devo-te, portanto, a vida. Quero agora prestar-te igualmente um benefício. Vou ler o teu futuro.
Flamínio parou diante do oráculo. Cruzou os braços sobre o peito e aguardou impassível a terrível e arrebatada sentença. Curiosos que perambulavam entre as colunas aproximaram-se em silêncio.
– O teu nome será esquecido. A tua memória será apagada por completo e desaparecerá com as cinzas levadas pelo vento. Mas as palavras admiráveis de teu filho jamais serão olvidadas. Milhões e milhões de homens, no desenrolar dos séculos, repetirão por todos os recantos do mundo as palavras de teu filho! Que júbilo, que glória imensa para o teu coração de pai!
Ao retornar ao seu casebre de Salária, o velho Flamínio assim meditava:
– Vivi sempre obscuro; morrerei esquecido e obscuro. Não importa! Mas a glória perpetuará, sobre a terra, o nome de Cláudio, meu filho. Os seus versos adoráveis, que César não cansava de repetir, serão lembrados pelos homens, no desenrolar dos séculos!
E aquele êxito do filho poeta trazia infinita alegria e tranquilidade ao coração do velho romano.
– Que importa a pobreza em que vivo! Consola-me a certeza de que meu filho Cláudio terá por prêmio a imortalidade!
E o velho Flamínio, a quem as palavras do oráculo deram alento para resistir a todas as amarguras e vicissitudes de sua negra existência, teve um fim trágico. Ao regressar, um dia de sua visita ao Templo de Júpiter, avistou, num recanto da praça Salutis, um soldado espancando cruelmente uma pobre menina. Revoltado com aquela covardia, tentou o ancião socorrer a pequena. O agressor, irritado com a intervenção daquele desconhecideo, não hesitou em atravessá-lo com uma punhalada.
Flamínio pereceu heroicamente. E, no dia seguinte, um mendigo sem rumo, no seu andar bamboleante, avistou casualmente a miserável mansarda em completo abandono, na Salária. Apoderou-se dela, atirou para ali seus trapos, sem indagar do destino que levava o primitivo dono.
E, assim como previra o oráculo, como a cinza que o vento espalha, apagou-se entre os homens a lembrança daquele que fora em vida Flamínio, o Sereno.
Conduzido à mansão dos justos, viu Flamínio surgir diante dele a figura radiosa de um anjo.
– Flamínio – disse o Enviado de Deus, em tom mavioso de paciência -, a tua morte gloriosa fez remir todos os erros e pecados de tua existência. Cabe-te, pois, uma recompensa no céu. Fala, meu bom amigo, e o Eterno ouvirá a tua voz.
Respondeu Flamínio na sua simplicidade:
– Nada fiz, estou certo, para merecer a menor recompensa da misericórdia de Deus. Confesso, porém, que tenho o coração torturado por uma grande angústia. Gostaria de retornar ao mundo, no fim de alguns séculos, a fim de verificar se os homens (conforme garantiu o oráculo) conservam, na memória, os versos de meu filho. Que indizível alegria para mim certificar-me de que meu filho, por seu gênio incomparável, se tornou imortal!
Deus, na sua infinita misericórdia, atendeu ao pedido daquele pai. E, decorridos dezenove séculos, Flamínio, conduzido por um anjo, retornou a Roma.
Por todos os recantos da Terra erguiam-se cruzes. A religião que César havia desprezado, a princípio, e perseguido mais tarde, vencera, afinal, e dominava o mundo.
Flamínio, o Sereno, guiado pelo anjo, entrou num grande templo cristão. Milhares de fiéis achavam-se em oração; um jovem sacerdote, revestido de riquíssima paramenta, debruada com fios de ouro, junto a um belíssimo altar, adorava o verdadeiro Deus, Jesus, Nosso Senhor!
Flamínio não cabia em si de deslumbramento! Tudo ali era par ele motivo de indescritível assombro! E balbuciou muito humilde (e suas palavras só eram ouvidas pelo anjo):
– E os versos de meu filho? Poderei ouvi-los, aqui, neste templo, cheio de cristãos, que erguem para o céu as suas preces lamuriantes?
– Sim. – confirmou o anjo -, dentro de alguns instantes! Rejubila-te! Todos os cristãos, aqui reunidos, repetirão as palavras de teu filho!
Decorridos alguns minutos, cessaram os cânticos. Fez-se profundo silêncio. E o sacerdote, batendo três vezes, suplicou cheio de humildade e confiança:
– Domine, non sum dignus ut intres sub tectum meum… (Senhor, eu não sou digno de que entreis em minha morada…)
– Eis aí – acudiu o anjo. Acabaste de ouvir! Foram estas palavras proferidas, há muitos séculos, por teu filho, e até hoje os homens as repetem diante de Deus! Sinto dizer-te, porém, que não são versos de Cláudio, o poeta; são simples palavras proferidas por Marcelo, teu filho mais moço…
Flamínio quedou um momento perplexo e replicou, esboçando um sorriso pálido:
– Aquele que se fez soldado?

– Sim – confirmou o anjo, num tom de absoluta confiança -, aquele que se alistou nas legiões de César! Marcelo era um homem bom e caridoso: apiedava-se dos sofrimentos alheios; socorria os pobres; consolava os aflitos. Quando servia às ordens de Herodes, tetrarca da Galiléia, um dos seus servos adoeceu com uma grave paralisia. Marcelo, nesse tempo, fora promovido; já era centurião. E todos os homens de sua centúria o estimavam.

Inspirado pela delicadeza de sua sensibilidade, cuidou Marcelo de acurdir, com desvelo, ao servo enfermo. Todos os remédios aconselhados por amigos e vizinhos ele experimentara, sem resultado. Alguém sugeriu:

– Chefe! Por que não apelas para Jesus de Nazaré? Dizem que o rabi faz milagres!

Marcelo era puro de coração e, muito embora fosse romano, acreditava naquele rabi, cheio de simplicidade e candura, que sorria para as criancinhas e curava os enfermos com o simples estender suave de suas divinas mãos.

Não se atreveu, porém, a ir procurar Jesus e pediu a alguns israelitas fossem em busca do mestre, de cujo amparo o infeliz servo tanto necessitava.

Jesus, Nosso Senhor, com seus discípulos, dirigia-se para Cafarnaum quando recebeu o pedido de dois anciãos, amigos de Marcelo. E disse aos que o acompanhavam.

– Irei até lá!

Quando o centurião romano foi informado de que Jesus de Nazaré, em pessoa, dirigia-se para a sua morada, levantou-se imediatamente a passos rápidos, seguido de alguns ajudantes e servos, e foi ter, muito respeitoso, ao encontro do mestre. E disse-lhe, com extrema humildade:

– Senhor, eu não sou digno de entreis na minha morada (Domine, non sum dignus…). Basta que que digais uma só palavra e, estou certo, meu servo estará para sempre curado!

E, como Cristo o fitasse surpreendido, ajuntou:

– Porque eu, Senhor, sou militar e sei muito bem o que é obedecer e o que é mandar! Estou sujeito à autoridade de meus chefes e tenho soldados às minhas ordens! Digo a um: “Vai!” E ele segue o rumo que indiquei. Digo a outro: “Vem cá!” E ele se aproxima de mim! Basta, pois, Senhor, uma só palavra Vossa, e meu servo será salvo.

Ouvindo isto, Jesus se admirou; e, voltando-se para o povo que o seguia, disse:

– Em verdade, em verdade vos digo que nem em Israel achei tão grande fé.

E disse ao bom centurião:

– Vai, e faça-se como tu crês!

E, naquela mesma hora, ficou curado o servo.

Que restam dos versos famosos de Cláudio, o festejado poeta? Não! Os homens não se lembram mais das odes admiráveis que César elogiava e que os comediantes mais ilustres declamavam nos festins romanos.

Mas as palavras do bom soldado são repetidas todos os dias, com profunda veneração, por milhares de lábios humildes e orgulhosos!

E por quê?

Porque as palavras do poeta era despidas de sinceridade, ao passo que as palavras do soldado foram proferidas com fé!

Escuta, meu filho, as palavras ditas com fé, para a salvação de uma alma, ficarão na lembrança dos homens per omnia soecula soeculorum!

Glória a Deus! Glória a Deus no mais alto dos céus e paz, na terra, aos homens de boa vontade!

(Malba Tahan in Os Melhores Contos)

Salve Maria! Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo! (BODAS de Caná, 7jul2013)

 

L.s.N.S.J.C.!

Pelé!


NÃO HÁ ninguém que represente melhor a imagem do Brasil no planeta Terra que o senhor Edison Arantes do Nascimento, mundialmente conhecido como o Rei Pelé. Um Rei que, por uma dessas ironias que não se consegue explicar, quis Deus ter ele nascido negro e pobre.

Consagrou-se rei. Não foi consagrado; ele, por sua arte, se consagrou, conquistando primeiro o povo, em cuja boca seu nome era (e ainda é) lembrado; quase simultâneo, a crônica esportiva, com cujos gols e lances geniais se extasiava, também foi por ele conquistada; e por último, o mundo inteiro, por sua realeza. 


No início, Bauru, cidade onde deu os primeiros chutes jogando bola; logo mais tarde, a portuária Santos, do seu querido Santos Futebol Clube; e logo chegava à amarelinha na Suécia, com apenas 17 anos de idade, onde ajudou com seu talento o Brasil a conquistar sua primeira Copa do Mundo.

Muito já se falou em Pelé, esse mineiro de Três Corações, que é dono de extensa biografia. Entre tantos feitos consta que sua presença foi determinante para que um conflito no Congo Belga fosse paralisado. Foi ator, cantor, político…

Pelé, a hégira do futebol 


O esporte se dividiu em “Antes de Pelé” e “Depois de Pelé”; quem viu Pelé jogar e quem não viu Pelé jogar; o gol que Pelé não fez; o substituto de Pelé, que nunca veio;  aos 29 anos, foi primeiro a fazer o milésimo gol e, depois do feito, a marca passou a ser o sonho de consumo de todo futebolista; o autor do gol de placa, expressão que antes inexistia; o imortalizador da camisa 10, como sendo a do futebolista mais talentoso… 

Ocorre que o bom sucesso também traz, em sua contramão, a polêmica, o despeito, o ciume, a inveja. Pelé não seria exceção e paga alto preço por isso. Ora, se uma pessoa anônima tem inimigos, imaginem uma celebridade do nível de Pelé.


Sim, Edison, como todo ser humano, tem defeitos, limitações, problemas de família, atos falhos. E essa humanidade veio a fornecer munição aos seus detratores, que se aproveitam muito bem dessas dificuldades. 

Enquanto estava em atividade, a sua própria carreira vencedora inibia, sua luz ofuscava a ação e a fala de seus críticos, que se mantinham discretos, silentes, porém à espera de uma oportunidade para tentar arruinar sua imagem. O tempo foi passando e o Rei deixou de ser unanimidade. Não no Mundo, que o reverencia até hoje reconhecendo seu feito, mas no seu próprio país, o Brasil, onde o negro fica muito bem em posições inferiores na escala social.  No entanto, Pelé, o Negrão, ousou roubar a cena e ser Rei, e, como tal, pensa, fala, opina, incomoda…

Como celebridade mundial que é, é natural que seja procurado por jornalistas para emitir opinião sobre os fatos, sejam eles circunscritos à área esportiva ou, em geral, como a política e a sociedade. E, como rei, não se furta a opinar. Poderia, como outras pessoas importantes, ter optado por viver isolado, talvez em outro país, gozando de merecida aposentadoria sem ser incomodado.

Mas, como bom brasileiro, que não foge à luta, Pelé está aí, dando a cara à tapa, não se omitindo, não se escondendo, não permanecendo em cima do muro. E suas opiniões são imediatamente repercutidas, lidas, ouvidas, bem recebidas, mal recebidas… 


Se se escondesse, certamente seria tratado de arrogante, esnobe, antipático. De forma que, se correr o bicho pega…, como diz o velho adágio popular.

Assim, até entre seus próprios colegas de profissão, aparecem aqueles que não perdoam Edison por ter sido Pelé.


Há muito sua imagem vitoriosa vem sendo desconstruída. Pelo seu inigualável sucesso no esporte e na vida muitos não perdoam Pelé. 

 

Um dia disseram que Pelé teria dito que o brasileiro não sabe votar. O Rei foi alvo de muitas críticas, como não poderia deixar de ser. Pelé teria ofendido o povo brasileiro, esse democrata incompreendido. Não sei se isso é verdade, mas, se disse, Pelé não esteve longe da verdade. O tempo se incumbiu de mostrar.


Outro dia um amigo postou uma notícia sobre uma opinião dada por Pelé. Provocado a falar sobre o juiz Sérgio Moro, o Rei teria dito que fez muito mais pelo Brasil que o citado magistrado. Não sei se é verdadeira essa notícia; penso que não seja. Mas, e se fosse?


Imediatamente essa postagem foi comentada por muitos de forma violenta. É como se dissessem: “Fica na tua, Negão! Guarda para ti as tuas opiniões!”.

Esse amigo, indo mais além, adicionou na postagem o seguinte comentário:

“O avô foi escravo. Com 17 anos já estava no mundo. Se virando. Filho de pobre, fez serviço militar obrigatório. Foi soldado. Chutar bola não é cultura, mesmo assim os americanos vieram buscá-lo para implantar o futebol competitivo lá em NY. O esporte americano mudou, hoje é outro, depois de Pelé. O atleta do século, antes do século terminar. 

Só um brasileiro é tão conhecido no exterior quanto ele: o outro mineiro Santos Dumont. 

Esse neto de escravos, que não estudou, não teve estudos e nem foi pago pelo governo para ser bom. Ele foi o melhor no ramo dele, não no Brasil, mas no mundo.

Nunca aceitou fazer propaganda de cigarros nem de bebidas (marketing que mais paga)

Com a fama e pouco estudo as mulheres encostavam nele não por amor, mas para engravidar e tirar dinheiro (como a Cláudia Gimenes fez com Mike Jegue). Você acha que se o filho da Gimenes morrer o mundo não irá colocar a culpa na ausência do pai?

Sérgio Moro ganha muito para ser bom.

Lá na América os Juízes nem dão entrevistas, não se manifestam em Jornais, não dão opinião, pois eles precisam manter a imparcialidade. Você não encontra nenhum Juiz americano indo pelo mundo falando na mídia suas realizações. O caso al Capone, Watergate, o caso Bill Clinton e qualquer caso da justiça americana, ninguém sabe quem foi o Juiz. 

Aqui é o contrário. Sabemos até que o Sérgio Moro, Gilmar Mendes são do PSDB, que gostam do Aécio e que adoram palestras e telinhas. Sabemos também dia Juízes do PT. A opinião do Juiz, aqui, já é mais ou menos anunciada.

Não há nada errado com o nosso Juiz, mas ele evitou servir a pátria como soldado o que já é outro defeito de que os americanos se orgulham. O Juiz americano não dá entrevista, porque lá, ninguém pode se dirigir ao Juiz. Não se pode saber a opinião de quem é pago para ser neutro. Difícil de entender, não?

Viva Sérgio Moro e abaixo o Pelé. Entretanto Não é assim que os estrangeiros pensam. Só aqui no Brasil… ainda bem.” 

Mexeu num vespeiro. Em reação a esse comentário e à matéria postada, vieram algumas respostas violentas. Vejam estas: 

Só faltou ao Pelé humildade…quem lembra do caso em que ele não quis reconhecer a paternidade de uma filha que era a cara dele. Ele pode ter sido bom no que se dedicou, mas não foi homem quando precisou assumir seus atos. De que vale ter uma carreira brilhante e não ter dignidade como ser humano.

Não podemos pegar exceções e transformá-las em regras. O fato é que, quanto mais estudo a pessoa tem, melhor e mais útil à sociedade. Existe médico que não é, sim, mas é a minoria.

Primeiro é preciso saber se o Pelé deu realmente essa resposta, porque está num blog, e, se deu, foi extremamente infeliz, para falar o mínimo.

Como dizia Romário : Pelé com a boca fechada é um poeta!!!!!

Depois do que o Pelé fez com a filha, acabou todo o orgulho que eu tinha dele. Pra mim não existe mais. Se sente o poderoso.

Dna comprovou, justiça determinou o reconhecimento…..mas a moça morreu de desgosto, pois tentou inúmeras vezes aproximação com ele e foi rejeitada! Morreu sem ter tido o amor e o carinho de pai! Sujeito cruel!

Eu também sei quem foi Al Capone, e também sei quem foi Pablo Escobar, e sei também quem foi Ma Baker, mas esses conhecimentos nada têm a ver com o Juiz Sérgio Moro, nem vão fazê-lo virar bandido pelo simples fato fato de eu ter conhecimento dos demais bandidos!!!!!

Sou torcedor do clube onde ele se consagrou, e é o maior ídolo do clube até hoje e sempre, não há dúvidas de que ele é o brasileiro mais conhecido no mundo, pois qual é o povo que não se interessa por futebol, vida pessoal e política talvez não, a não ser que seja no seu próprio país. Portanto, dizer que fez muito mais do que o Juiz citado, há exageros pois não há como mensurar atividades tão distintas.

Por que os brasileiros não respeitam Pelé?


Vê-se claramente o ódio nas palavras em destaque. Alguém fala em estudo, mas sabemos que o estudo, a instrução formal, não garante integridade a ninguém. Esquece ele que Pelé é formado em Educação Física, formação de acordo com as atividades esportivas que exerceu — e muito bem, para dizer o mínimo. Outro, cita Romário, um grande futebolista, mas que esteve longe (bem longe) de Pelé, mas que se outorgou o direito de silenciar Pelé.

Há também, além da questão político-partidária, implicitamente a questão do racismo. E se fosse Zico, muito provavelmente a reação seria bem mais branda; se fosse Aírton Sena, talvez até fosse aplaudido. Mas o crioulo Pelé ousa falar, ousa opinar, ousa dizer o que pensa… Fica na tua, Negão!

E se Pelé fosse argentino ou colombiano?


Pelé seria nome de ruas, avenidas, praças; teria uma estátua em cada cidade, na entrada principal de cada estádio de futebol; milhares de pais teriam dado o nome de Pelé ou Edison a seus filhos; seria declarado pela câmara de vereadores cidadão de cada cidade, estado ou província; em cada escola seus gols seriam constantemente repassados em vídeo para que as crianças de todas as gerações pudessem conhecer seus feitos; seriam sempre convidado também a fazer palestras em clubes de esportes (qualquer das modalidades), também em escolas, colégios e universidades; o rádio teria semanalmente um programa ou sequência dedicado a ele, e a tevê o mesmo; os livros de história também não deixariam de registrar sua glória, por ter levado o nome do país a todos os rincões do Planeta.

Tendo feito muito menos, os argentinos veneram Maradona, fazendo vistas grossas a suas dificuldades e imperfeições.

E se Pelé fosse norte-americano?


Aí sim, os brasileiros o respeitariam. Pelé faria do futebol (soccer, como os cidadãos dos Estados Unidos da América chamam o esporte bretão) o esporte mais popular entre os yankees; Hollywood teria produzido muitos filmes sobre a vida dele, que seriam assistidos por milhões de brasileiros, e a tevê, por sua vez, os exibiria com grande frequência; teria virado personagem de desenho animado e toda criança seria seu fã; haveria camisetas com a sua imagem e seu nome; o número 10 e não o 32 seria um sucesso de vendas, inclusive no Brasil; seu nome, a exemplo do seu xará Thomas Edison (polímata inspirado no qual seu pai o batizou), seria lembrado a todas as gerações futuras por meio dos livros de história americana; possivelmente seria cotado para ser governador de um grande estado americano ou mesmo indicado para concorrer a eleição de presidente dos Estados Unidos. 


O Brasil, enfim, se renderia ao grande norte-americano consagrado como o Rei do Futebol, o Atleta do Século em todos os esportes, idolatrando-o.

E se Pelé, como Ayrton Senna, tivesse morrido jovem?


É possível que sim, que a memória de Pelé obtivesse o respeito que merece dos brasileiros, mas não tão quanto a de Ayrton. Vejam que o notável automobilista brasileiro — nem sei se podemos chamar de esporte uma atividade em que depende mais da máquina que do homem — foi três vezes campeão de Fórmula Um, mas idêntico feito também produziu Nelson Piquet, que nem é lembrado, e aí está, vivinho da silva, e também por isso a mídia não reverbera seu nome e seus feitos, igualmente notáveis. Ele, como Pelé, também tem opinião própria, o que acaba por incomodar tanta gente boa. Mas não incomoda mais que Pelé, o crioulo que resolveu ser rei.


Precisamos reverenciar, lembrar, rememorar, aplaudir nossos heróis enquanto estão vivos.

Respeitem Pelé!

Para concluir, apresento um vídeo sobre o Rei do Futebol, o brasileiro Pelé!

 

A IMPORTÂNCIA da formação especializada

NUMA de nossas postagens (Facebook) foi largamente comentado sobre a extinção a EOEIG e o consequente prejuízo sofrido pelo graduado (suboficiais e sargentos) que nutria pretensões de galgar o oficialato. Não lembro bem quando formou a última turma, se 1982 ou 1983. Ora, antes com cinco anos de formado o sargento especialista – de qualquer especialidade – tinha a oportunidade de tentar a matrícula na antiga EOEIG. Uma vez matriculado, sairia de lá como aspirante, podendo chegar a tenente-coronel.
Esse direito nos foi tolhido com o fechamento da antiga Escola.
Ora, a Força se ressentiria largamente da ausência de oficiais especialistas, como os fatos vieram a provar. Como comentou um colega, pareceu produto de perseguição da parte do ministro da época. Se foi, não sabemos o porquê. Ele próprio foi comandante da Escola do Bacacheri.
O ato culminaria numa espécie de hiato, que logo o alto comando, pouco tempo após a passagem do bastão ministerial, se encarregaria de por fim com a criação do EAOf, aproveitando a experiência dos suboficiais, e com a reativação – depois de alguns anos – dos antigos oficiais especialistas em armamento, fotografia, comunicações, aviões, tráfego aéreo, meteorologia e suprimento técnico. Desta vez, porém, exigir-se-ia dos sargentos candidatos o diploma de curso superior, requisito que antes inexistia. Ao mesmo tempo a Academia recebia as primeiras turmas de cadetes de Infantaria, agora com nova designação: não era mais de Guarda mas sim de Aeronáutica.

Semelhante crise na área de pessoal especializado, ao que parece, se estenderia ao pessoal graduado. Nessa primeira metade dos anos 80, estudos detectaram a carência de sargentos especialistas em algumas áreas de interesse da Força Aérea. Assim o Comando-Geral de Pessoal decidiu suprir tais necessidades com a criação do quadro de voluntários especiais, os famosos VE, mão-de-obra que, recrutada entre concludentes do ensino médio, já viria especializada, necessitando apenas de alguns meses de adaptação, ao termo dos quais o estagiário receberia as insígnias de terceiro-sargento. Era uma solução barata que prometia solucionar os déficitsapresentados em várias áreas da Força e que ameaçavam reduzir os níveis de operacionalidade preconizados. Uma ideia brilhante.
Acaso houvesse uma enquete prévia, a minha resposta seria: “não vai dar certo”.
Dito e feito.
Algum tempo depois, chegavam às Unidades os primeiros estagiários para, passados três meses, debutarem como sargentos especialistas. Era um “especialista” forjado da noite para o dia. Um “especialista” com as mesmas prerrogativas e direitos do sargento formado pela Escola, o verdadeiro especialista.
Passou-se mais um tempo e um dia pude conhecer, primeiro um, um eletricista já antigo. Na parte técnica, de fato o graduado não deixava muito a desejar, porém na parte ética representava um grande perigo para o bom nome da instituição e ao bolso do colega que, desavisadamente, viesse a emprestar-lhe dinheiro ou mesmo o nome para, de boa-fé, suprir alguma pseudo necessidade material do ex-VE.
O outro, em Belém, um suboficial oriundo do antigo Parque de Belém, cujo efetivo, consumada a extinção da Unidade, foi transferido para as Unidades da área.
Esse malandro, dotado de grande simpatia pessoal, tecnicamente era dos mais fracos que eu já vi. Contou-me sua história pessoal de como conseguiu ser incluído na Fab, uma verdadeira “boca rica”.
O suboficial iniciou a carreira nos anos 80 quando a Força recrutou os tais “especialistas” no meio civil, a fim de comporem o quadro de voluntários especiais. A sua área – Metalurgia – na época não era contemplada por nenhum curso técnico regular, de forma que teriam que escolher o futuro VE entre os profissionais que já exerciam o ofício, desde que tivessem certificado de ensino médio.
Quando soube disso, ele, que por acaso trabalhava em oficinas de fundo de quintal na periferia da cidade, interessou-se vivamente e, inteirando-se dos pré-requisitos exigidos, acorreu ao Parque de Belém, candidatando-se ao certame. Procurou saber quem era o encarregado da oficina correspondente à especialidade, fazendo prontamente “desinteressada” amizade com o suboficial. Estabelecida a amizade, conseguiu fazer um “estágio” na mesma oficina, embora ainda não tivesse qualquer vínculo com a Aeronáutica. Nesse período foi pegando todos os macetes, de forma que, quando realizou a prova prática, já estava inteirado de tudo, pois sabia exatamente o que lhe iriam cobrar.
E foi assim  a sua admissão.
Passados os três meses de estágio, já estava ali no mesmo rancho dos sargentos antigos, a maioria formados pela Escola, tratando a todos de “você” ou “tu”. O malandro apresentava tamanha desenvoltura como se tivesse partilhado dos dois anos suados quando enfrentamos o Caveirinha e o boi-ralado.
O resultado é que em pouco tempo foi notado o terrível e irremediável engano cometido pela instituição. Se determinada chapa metálica não podia ser dobrada a mais que tantos graus de ângulo, ele, por falta de escola, não se conformava com tal propriedade científica e experimentava a peça, desperdiçando material. Se uma liga não devia sofrer calor maior de tantos graus, o 3S VE pagava para ver, desperdiçando material. E assim foi até que o retiraram da área de aviação, ficando ele autorizado a fazer suas cagadas na área administrativa.
Depois dessa, passei a acreditar que talvez algumas lendas fabianas, contadas à larga em forma de anedotas, poderiam ter alguma dose de realidade.
Uma delas é sobre um primeiro-sargento, grande artista na sua área, porém nem sabendo de onde fica a Academia do Pedregulho, que estava cumprindo serviço de Adjunto. Levaram à sua presença um soldado que havia feito uma merda para que o primeirão o lançasse no livro de partes.
— Qual o teu nome, soldado?
— Washington, sargento.
— O quê?
— Washington.
— Uóxin… Tá bom! Dessa vez vou te acochambrar, mas não me faça mais isso.
Outra anedota é sobre outro primeiro-sargento, também artista, que, certa vez estava de serviço de Adjunto. Nesse dia um soldado, que estava cumprindo punição de prisão, fugira do xadrez. O fato ocorreu justamente na hora em que o comandante da guarda havia ido ao sanitário, enquanto o cabo, diante da fome, havia ido ao rancho, não aguardando a volta do sargento.
Tascou lá no livro:
“Enquanto o comandante da guarda cagava e o cabo comia, o soldado Fulano fugiu da cadeia.”
Diante de tantas “peladas”, cheguei à conclusão de que bem poderiam ser verídicas as anedotas.  (BLOGUE do Valentim em 27ago2014)