ARIANO Suassuna!

O genial dramaturgo paraibano e o povo nordestino

Ariano Suassuna (fonte: Internet)

 

EM TODO bairro, vila, cidadezinha do interior, aldeia, povoado, comunidades urbanas ou rurais há, ao menos, um avarento, beata, devoto, a recatada, o linguarudo, o contador de causos, o tímido, o expansivo; enfim está — seja onde for — ali representada toda a sociedade, com seus problemas, sua vida, seu cotidiano. Há também, nesses ambientes sociais, como também em ambientes de trabalho, esportivo ou escolar, apelidos que são dados pelo povo em razão de a pessoa possuir uma característica marcante, seja ela física ou psicológica.

No lugar onde vivíamos, lá no interior do Pará, próximo à rodovia Belém – Brasília, de vez em quando recebíamos a visita de um homem, já maduro em idade, que era um show à parte. Damião era o nome dele, em torno do qual nós nos reuníamos para ouvir suas histórias, não importando se fatos ou causos.

Nunca soubemos, mas, a julgar pelo sotaque e pelo tipo físico, o velho devia ter origem nordestina. Não tendo família, seu Damião — diferentemente da maioria — dispunha de mais tempo para ler e, em função das conclusões que tirava de suas leituras, o Velho Damião também se ocupava em observar de maneira mais crítica as pessoas, a sociedade, e suas respectivas condutas. Em terra de cego quem tem um olho é rei, como diz o velho adágio. Damião, o sangrador de onças, transformava todo esse saber em divertidos causos, para o entretenimento de seus ouvintes, que eram muitos na redondeza.

Do representante para o povo representado.

O meu irmão nordestino geralmente é possuidor da marcante verve humorística, com o seu sotaque peculiar dando um tempero todo especial às palavras naquela entonação quase cantada. O sertanejo, com o seu jeito de ser, é exemplo de sabedoria, malgrado as vicissitudes, levando a vida com bom-humor. 

Não é à toa que as telenovelas ambientadas no Nordeste são garantia de bom sucesso junto ao público. O povo vai assistir com a certeza de boas risadas.

Pois bem.

Acabei de ler o livro “O Santo e a Porca”, do paraibano Ariano Suassuna, célebre autor de Auto da Compadecida. Trata-se, como em geral cuida a sua obra, de uma peça teatral cujo enredo é ambientado no Nordeste brasileiro. 

De suas observações, Ariano levou para o palco, para os livros e para a televisão, o homem sertanejo e sua visão de mundo, e, como não poderia deixar de ser, o humor. Cuidou de transformar o cotidiano duro para a leveza do riso, e para tal retratou como poucos o avarento, o beato, o esperto, além de outros tipos; enfim, as relações sociais. 

Na peça aludida há o personagem do avarento, e é natural que essa qualidade humana sempre seja encarada com antipatia. No caso, dado o exagero do personagem na sua avareza, a característica o torna divertido, engraçado, motivadora portanto de boas gargalhadas. A exemplo do que ocorre em Auto da Compadecida, com seu personagem João Grilo, há também aí retratada a figura de alguém cuja natureza é dotada de recursos para aproveitar-se das situações apresentadas para, por meio de mentiras inocentes, mudar a sorte dos personagens. E “O Santo e a Porca” está repleta de confusões, dada a avareza ao extremo de Euricão Engole-Cobra.   E é aí que entra Caroba.

Caroba é criada de Eurico Arábe, também conhecido por Euricão Engole-Cobra. Euricão é muito apegado a uma “porca”, onde guarda quase todo o seu dinheiro. Os outros acham que seu apego ao objeto é por causa de ter sido a porca uma herança. Ao menos é assim que ele justifica o apego ao cofre, razão de o personagem não enxergar muito as situações; ele acha sempre que estão ali com a intenção de lhe roubar, motivo pelo qual não tem sossego de espírito.

Euricão Engole-Cobra. O apelido em si torna o personagem mais engraçado. Ainda mais se é proferido por uma pessoa simples — empregada — ao seu patrão, um homem poderoso. Ela o faz de propósito, mas fingindo inocência ou descuido, numa forma velada de desforra.

Dá ainda mais graça o fato de o avarento ser devoto — e muito devoto — de Santo Antônio, a quem continuamente pede proteção contra os ladrões. Daí o título da peça.

Sem ter nunca visto a peça, dei muitas risadas lendo o livro.

E um grande abraço ao povo nordestino, nosso irmão!

L.s.N.S.J.C.!