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CHARLENE Aieta!


ERA o ano de 2001. Pela primeira vez a FAB abre o Curso de Formação de Sargentos da Escola de Especialistas de Aeronáutica para jovens do sexo feminino, as turmas mistas. Veio o primeiro concurso e bateste na trave. Não deu. Muitos desistiriam, mas tu não, honrando a valentia da família Moreira. Isso provou a tua tenacidade, e o tropeço no primeiro obstáculo não seria razão para desistência. Somente os fracos ficam pelo meio do caminho e os covardes nem tentam.

Viria o segundo concurso, e, se fosse preciso, o terceiro. Não, não foi necessário o terceiro. Neste mesmo segundo curso de turmas mistas, teu esforço foi premiado. Toda a aplicação e determinação nos estudos regulares do Colégio Rego Barros não foram em vão. 

Chegando à Escola, e os primeiros dias tudo era novidade para aquela jovem humilde de apenas 19 anos. Estavas lá, na mesma Escola para onde um dia teu pai partiu, 25 anos atrás, e cruzou o portão das armas naquele ônibus da “Pássaro Marrom”, naquela noite fria de agosto de 1977. Viriam então toda a exaustiva rotina dessa escola militar, lugar em que a tecnologia se aliaria ao treinamento físico; Berço dos Especialistas,  em que as experiências de laboratório se revezariam com os exercícios de campanha e de formação básica militar. A cada dia uma batalha, e foram tantas e tantas. Tu o sabes, teu pai – que pisou o mesmo solo daquele pátio — o sabe também.

Tão logo principiaram as rotinas dos livros e apostilas, dos galpões de instrução, dos desfiles, das atividades físicas e dos treinamentos militares, tomaste gosto imediato pela profissão. Foi amor à primeira vista. 

Sim, mas não foi fácil. Foram dias de luta com certeza, procurando adaptar-se às novidades. Aquela dura rotina já indicava àquelas moças e rapazes o quão difícil seriam as lides de caserna que haveriam de vir.

Os dias e semanas se sucederam, e quando te deste conta lá estava o dia da formatura, coroando aqueles três longos semestres. Eis mais uma terceiro-sargento da Aeronáutica, da especialidade de Controle de Tráfego Aéreo. Vitória!


Mas tu não pararias por aí.

Vieram outros desafios. Uma coisa é a teoria dos bancos escolares; outra, bem diferente, a prática, a responsabilidade do dia a dia das torres de controle, das formaturas e das escalas de serviço. Era uma década em que o volume de tráfego aéreo elevava-se de forma significativa, consequência de uma nova era em que a Nação brasileira avançava a largos passos de desenvolvimento. Consequentemente, os novos desafios viriam a requerer do controlador de tráfego aéreo maior volume de trabalho, mais conhecimento, maior preparo intelectual, mais atenção, mais responsabilidade. Isso tudo te obrigou a realizar novos cursos, a te dedicares mais ainda, até seres julgada pronta para o combate. Paralelamente, havia os afazeres tipicamente militares, dos quais certamente não te furtaste. 


O tempo foi passando mas não te acomodaste aos prêmios já conquistadas. O curso universitário, cuja aprovação obtiveste até mesmo antes de seguir para Guaratinguetá, estava à tua espera. Sim, tinhas antes obtido aprovação para dois cursos superiores, cabendo a ti optar por um deles. Por que não cumpri-lo? 

Quase um decênio transcorreu.

Enquanto isso a FAB, a exemplo do que já ocorria em relação aos cursos técnicos da EEAer., também preparava o Centro de Instrução e Adaptação da Aeronáutica (CIAAR) para as turmas mistas, envolvendo alunos de ambos os sexos, vez que os jovens de 2002 agora estavam aptos a galgarem patamares mais elevados. A primeira turma viria, e tu certamente já estavas a te preparar para tais desafios. Veio o concurso, veio a aprovação. Parece que as coisas se tornam mais fáceis quando há preparo e dedicação.

Ali estavam à tua frente mais dois longos anos de estudos e preparação para um novo degrau, o oficialato, agora em Belo Horizonte.


Novamente muitas batalhas. Mas agora com mais rigor, consoante o elevado grau de responsabilidade compatíveis com os novos postos e cargos a serem exercidos pelo futuro oficial especialista.

E eis que chegou dezembro de 2014. E aí estás, mas não apenas uma concludente de um curso de alto nível intelectual. Tu te sagraste a primeira, a ZERO UM!

 


Este teu pai te cumprimenta pela vontade férrea que tens mostrado ao lutar pela conquista do topo, não se conformando apenas em participar, mas, principalmente, em chegar à frente de uma turma de 52 colegas. Não te contentaste em ser apenas uma entre os demais, o que já por si só seria grande honra para este teu velho pai. Não, tiveste a honra de receber a espada das mãos da maior autoridade presente, repetindo o feito deste veterano, que um dia, treze anos antes, teve essa alegria.


Filha, inicia agora outro jogo. Mas renhido, mais visível, cujo grau de responsabilidade é  muito mais elevado que o de antes. O oficial encontra-se na vitrine; de um lado, o comando e sua oficialidade; de outro, suboficiais, sargentos, cabos e soldados. É como um juiz que detém sobre si a atenço de jogadores, técnicos e público.

Eis que é chegada a hora hora de veres a floresta e não apenas a árvore.

Ao oficial não é dado o direito de errar. Se errar, terá sobre si um peso de julgamento bem mais forte. E disso foste por mim alertada. Deves também ter em mente que a hierarquia existe para estabelecer os diferentes níveis de responsabilidade, e não para separar irmãos que vivem sob o mesmo juramento. Não te esqueças jamais disto.


Vai. Mas tenhas certeza de que não estarás sozinha nesse árduo caminho. Tens o teu velho pai aqui para aconselhar; dispões também de teu esposo, meu genro Daniel, também ele um oficial, para te apoiar, além naturalmente das palavras de tua mãe para te confortar.


Que Deus te abençoe e ilumine a tua carreira. Sê feliz, minha filha Charlene Roberta da Silva Moreira Aieta!  

(Postado na época por ocasião de sua formatura no CIAAR) 

Por Valentim

Azulino (torcedor do Clube do Remo, Belém). Paraense radicado no Paraná; construtor de pontes e demolidor de muros! Passeia também pelo YouTube, no canal BLOGUEdoValentim! L.s.N.S.J.C.!