MALBA Tahan!

O matemático, o botânico e o mendigo 


(Continuação da postagem de 21out2017)

NÃO MUITO longe, numa pequena casa, semi-oculta entre viçosos limoeiros, residia o corretor Chafid Bechara. Era homem corpulento, alto e direito de tronco, de um moreno cor de barro, rosto redondo e olhos vivos. Recebeu-nos em sua sala de trabalho. Amontoavam-se pelo chão amostras de mercadorias, sacos de cereais e caixas a transbordar de sementes.

Mais de uma vez eu tivera a oportunidade de oferecer a Bechara transações bem vantajosas. 

— que negócio temos para hoje? — perguntou-me com indisfarçável bom-humor — algum terreno para vender? Uma boa casa para alugar?

Apressei-me em responder:

— Não cogito, no momento, de negócio algum. A nossa visita tem objetivo inteiramente diverso. 

E sem mais preâmbulos, pois o tempo me parecia escasso, contei-lhe, tintim por tintim, tudo o que ocorrera em minha casa desde a chegada do egípcio, as singularidades de meu hóspede e a promessa da lenda surpreendente (“As sete pontas do quadrado”) que merecia ser ouvida por 5.439 pessoas. 


E rematei a parlenda com o convite:

 — Precisamos de ti, meu caro Bechara. Serás um dos cinco ouvintes. Vamos para casa. O eloquente Zualil aguarda a vossa chegada para iniciar a narrativa.

Surpreendeu-nos o corretor com uma estrepitosa risada.

— Que ingenuidade a tua! — proclamou, em tom de menosprezo, sacudindo os ombros — Andas pelas ruas, importunas os amigos, perdes um tempo precioso, e tudo para satisfazer o capricho de um hóspede imbecil. E querem, ainda, que eu colabore nessa galhofa ridícula? Que fantasia! Tenho mais que fazer. Julgas então que eu deixaria minha casa, abandonaria meus interesses, para ir ouvir sandices e baboseiras de um aventureiro que pretende falar sobre “as sete pontas de um quadrado”?

Fez pequena pausa. O mestre-escola, com impaciência mal reprimida, ouvia impassível as arrogantes e indelicadas palavras do corretor. 

Aquela recusa desatenciosa do Bechara irritou-me.  Sem conter as expansões de minha revolta, revidei com energia:

— Surpreende-me a tua maneira sórdida e material de encarar a vida. Triste daquele que só se preocupa em ganhar dinheiro, que se torna escravo do ouro. Precisamos, de quando em vez, abrir uma janela para o sonho e para a fantasia. Ignoras o valor das lendas? Há lendas que encerram profundos ensinamentos, sábios conselhos e judiciosas advertências. O povo árabe tornou-se notável por seus contos maravilhosos que o mundo inteiro lê e admira. Só mesmo os espíritos tacanhos, envenenados pelo mais ignóbil utilitarismo, seriam capazes de negar o relevante papel que as lendas têm desempenhado no aperfeiçoamento da humanidade. Aquele, pois, que exalta as lendas edificantes e as divulga, realiza obra altamente meritória. Vimos aqui solicitar um diminuto auxílio, um pequeno obséquio de tua parte e somos repelidos por ti com agressiva má vontade.

A minha réplica, pronunciada com decidida energia, calou fundo no espírito do corretor. Ficou a meditar em silêncio durante algum tempo. Reconheceu, de certo, a leviandade que praticara e tornou benevolentemente:

— Não tomes por grosseria ou desatenção a minha recusa. Os graves deveres de minha árdua profissão prendem-me aqui. Não passo de mísero escravo de minhas obrigações. Respondo, como bem sabes, não unicamente por mim, mas por todos aqueles que confiam em mim. Afastar-me do trabalho seria descuidar-me dos interesses alheios. Dessa falta jamais serei acusado. Não quero, porém, que tu e o teu amigo (e apontou para o mestre-escola) me tomem por imprestável. Vou chamar dois auxiliares de minha confiança que irão, com o maior prazer, ouvir a lenda do egípcio.

E Bechara saiu por uma pequena porta que mal se distinguia no fundo da sala. Passados rápidos instantes, repareceu acompanhado de dois homens de aparência distinta e corretamente trajados.

Um deles, alto e esguio, era um tipo realmente digno de atenção. Fisionomia simpática, sorridente, picado de bexigas, tinha a testa larga e olhos muito azuis. O outro, baixinho, já outoniço, era completamente calvo e tinha a pele do rosto encarquilhada por uma infinidade de rugas que subiam e desciam em todos os sentidos.

Proferidas as saudações de praxe (salã aleikumm! Aleikim assalã!), Bechara informou:

— Este aqui (e apontou para o cavalheiro alto de olhos azuis) é o meu calculista Derak. Faz contas e resolve problemas com extraordinária rapidez. Se pretendo vender ou comprar alguma coisa, assaltam-me sempre dúvidas e incertezas. Qual será o preço justo? Que lucro poderei obter nesta ou naquela transação? Recorro, em tais circunstâncias, ao talentoso Derak, o matemático, que tudo esclarece, calcula e elucida com absoluta precisão.

O matemático, lisonjeado pelos honrosos elogios do chefe, inclinou ligeiramente o rosto em sinal de agradecimento.

Feita ligeira pausa, o corretor achou que lhe competia apresentar-nos o outro, o tipo baixinho:

— Este outro que aqui está é o notável botânico Esbem Ketum. As plantas que crescem pelos cantos do mundo não têm segredos para ele. Para esta razi retorcida, ou para aquela semente sem cor, é capaz de apontar as propriedades medicinais, a idade, a maneira de aproveitar e os atributos mágicos. É autor de quinze volumes sobre a linguagem das flores, assunto em que é eminentíssimo.

— E esses vossos ilustres auxiliares — acudiu, com sofreguidão, o mestre-escola — estarão dispostos a ouvir a a lenda que vai ser narrada pelo misterioso egípcio? O xeique exigiu cinco ouvintes,mas declarou que a lenda das “sete pontas do quadrado” é tão assombrosa que devia ser ouvida por cinco mil quatrocentos e trinta e nove pessoas.

— Teremos nisso o maior prazer — retorquiu prontamente o calculista — Se no decorrer da narrativa surgir algum problema, empenharei todos os meus esforços no sentido de resolvê-lo. Ouço, por exemplo, aludir ao número 5.439. Exprime esse número um produto notável. Se multiplicarmos 777 por 7, vamos obter esse total indicado: cinco mil quatrocentos e trinta e nove. Para os cristãos o número sete goza de virtudes e atributos especiais. Perguntaram certa vez a Jesus, filho de Maria: “Senhor, quantas vezes poderá pecar meu irmão contra mim que eu lhe perdoe? Até sete vezes?”. Respondeu Jesus, com sabedoria: “Não te digo que até sete vezes, mas que até setenta vezes sete”.

Vendo que aquela palestra se alongava interminavelmente com cálculos e contas que não eu não compreendia, achei mais prudente cortá-la, e disse nervoso:

— Voltemos sem perda de tempo para casa. Não devemos abusar da paciência de quem aguarda o nosso regresso.

Deixemos a residência do corretor Bechara. Éramos quatro: o mestre-escola, o matemático, o botânico e eu. Faltava apenas um para completar o total exigido pelo narrador.

Não foi difícil encontrá-lo.

Ao passarmos junto de um muro coberto de hera, que se erguia um pouco depois da casa do corretor, demos com um jovem magro, pobremente vestido, que descansava sentado numa pedra, com o rosto apoiado nas mãos. Vestia uma blusa, mais esfrangalhada do que a túnica de um mendigo. Pela barba de quinze dias, pelas mãos calosas e pelos pés deformados, parecia pessoa de baixa extração.

Saudei-o atenciosamente e perguntei-lhe:

— Queres ir, agora, em nossa companhia ouvir uma lenda?

O rapaz arrancou algumas folhinhas de hera e esmagou-as entre os dedos. Quedou-se a olhar para mim numa expressão aflitiva e respondeu-me:

— Só iriei ouvir a lenda se me deres, antes de mais nada, duas fatias de pão.

— Terás o pão que quiseres — declarei com ar risonho para incutir ânimo ao faminto.

E, puxando-o pelas vestes esfarrapadas, apontei:

Durante a caminhada o ilustre Esber Ketum, o botânico, prendeu-nos a atenção deliciando-nos com preciosas informações alusivas a todas as plantas e árvores que encontrávamos. Encantou-nos ao discorrer sobre as flores. Algumas indicações conservei em minha desbotada memória:

— Não é só pelo expressivo arranjo de suas pétalas, pelo inebriante perfume que exalam e pelo colorido com que se enfeitam que as flores nos atraem. Apresentam-nos outros atributos com que se impõem ao nosso estudo e à nossa admiração. Uma tem propriedades medicinais; outra recorda um episódio famoso da história. Muitas apresentam certas funções misteriosas dignas da atenção dos sábios. Há flores que exprimem pensamentos e anseios do coração. Os antigos pagãos (queira Alá esclarecer esses infiéis!) consagravam a seus deuses e honravam seus heróis com diferentes flores. Os ídolos eram enfeitados com flores. Nas flores vão os poetas buscar inspiração. Têm sido elas cantadas pela gente simples do povo. Canta é, para as albas bem formadas, a maneira gentil de exaltar, aplaudir, elogiar, enaltecer e sonhar.

O teu sorriso é uma flor, // Vivo com ele no peito; // Sorriso de amor-perfeito, // Senão de perfeito amor!

— “Não me esqueças! Não me esqueças!” // Clama a rosa em meu jardim. // — Eu é que não digo nada // A quem se esquece de mim

Aoo ouvir esses versos tão delicados, lembrei-me das trovas que o egípcio cantara em minha casa. E pus-me a recordá-las:

Saudade, flor que desperta // Tristeza no coração; // Saudades dos que se foram // Dos que não voltam mais, não!  

Não choro por me deixares // Que o jardim mais rosas tem; // Choro por não encontrares, //Quem te queira tanto bem!

Ocorreu nesse momento um episódio que nos causou profunda surpresa. O jovem da túnica esfrangalhada, que se conservara num mutismo de maníaco, abeirou-se de mim como um ébrio, passeou-me os olhos dos pés à cabeça, segurou-me pelo braço e ganiu com indizível aflição:

— Com quem aprendeste essa canção? Onde a ouviste?

— Ora essa! — exclamei tomado de indisfarçável espanto — Que vês de estranho ou surpreendente nessa canção?

E contei-lhe (pois não via motivo para ocultar a verdade) que ouvira aqueles versos de um egípcio chamado Zualil, meu hóspede. E acrescentei, fitando-o meio grave e meio alegre:

— Ele está em minha casa e logo que lá chegarmos vai nos deliciar com a narrativa de uma prodigiosa lenda.

Ouvidas essas palavras o rapaz deu um salto para o lado, arrancou o turbante, atirou-o ao chão e sem pronunciar palavra ou o menor gesto de despedida, desatou a correr como um beduíno perseguido por um bando de panteras negras do deserto.

Ficamos estupefatos. Para a estranha atitude do jovem não achávamos explicação satisfatória.

...o rapaz deu um salto para o lado, arrancou do turbante, 
atirou-o ao chão e, sem pronunciar palavra, desatou a correr…

— É um maníaco! — opinou o mestre-escola com ar compungido.

— Na vida desse moço — arriscou o matemático — existe um drama. Resta descobrir a relação entre a tragédia que o envenena e a canção que o perturba.

Depois de um minuto de circunspecção, opinou o botânico: 

— Não adianta comentar o caso. Todas as conjecturas feitas a tal respeito sairão inúteis e talvez erradas. O que se apura é, em suma, o seguinte: um jovem de aparência simples e humilde é convidado a tomar parte numa reunião. Aceita o convite e dirige-se, com um grupo de amigos, para o local marcado. Em caminhou ouve, casualmente, uma canção. Arraca do turbante e foge de nós numa corrida alucinada.

— Que faremos agora? — ponderou o mestre-escola — Lá se foi o nosso quinto ouvinte. Estamos novamente reduzidos a quatro e o egípcio exigiu cinco.

— Não nos preocupemos com isso — acudiu o matemático — De cinco para quatro a diferença é só de uma unidade. E não será difícil obter o quinto ouvinte.

Seguimos rapidamente para casa. Recostado ao portão avistei um homem modestamente vestido.

Era um cego que eu costumava encontrar esmolando no mercado ou no pátio da mesquita. Saudei-o com simpatia e perguntei-lhe:

— Esperas alguém, meu amigo?

Respondeu-me o cego:

— A pessoa que se achava nesta casa foi obrigada a partir e pediu-me que aqui ficasse de vigia, até o dono regressar.

A inesperada declaração do cego deixou-me estupidificado. Caiu-me a alma aos pés. O meu hóspede partira e deixara um cego vigiando a minha casa. Um ímpeto de cólera apoderou-se de mim. Para atender um desejo do aventureiro eu andara, como um palhaço, a procurar “ouvintes” para a tal lenda. Durante a minha ausência ele desaparecera e deixava-me em situação ridícula diante de pessoas que haviam confiado em mim.

— O tal egípcio não passa de um tratante! — repisei revoltado. — As minhas desconfianças não era, afinal, infundadas.  

E já ia despejar sobre o meu hóspede uma série de terríveis invectivas quando o mestre-escola me puxou pelo braço e apontou para uma casa que ficava no extremo da rua.

— Lá vem ele!

E tinha razão. Era Zualil, o egípcio, que caminhava apressado como se viesse a alguma importante missão.

Continua…

EMPRESA ganha dinheiro recolhendo fezes de cachorro!

Fonte: Impresiones, Espanha

QUEM poderia imaginar que uma empresa que se dedicasse a tirar das ruas cocô de cachorro viesse a fazer um grande negócio? Entretanto, DoodyCalls, uma pequena empresa dos Estados Unidos é uma prova de que onde haja uma necessidade, um trabalho que ninguém queira fazer, sempre haverá uma oportunidade.”A única maneira para que este negócio venha a falir será as pessoas gostarem de recolher os dejetos de seus cães”, explica o dono da empresa, Jacob D’Aniello. “E acreditamos que isso nunca venha a ocorrer”, completa com um sorriso nos lábios.

Mais notícias no blog espanhol Impresiones.

MACHADO de Assis!

O caso Barreto

— Sr. Barreto, não falte amanhã, disse o chefe de seção; olhe que temos de dar essas cópias ao ministro.

— Não falto, venho cedo.

— Mas, se vai ao baile, acorda tarde.

— Não, senhor, acordo cedo.

— Promete?

— Acordo cedo, deixe estar, a cópia fica pronta. Até amanhã.

Qualquer pessoa, menos advertida, afirma logo que o amanuense Barreto acordou tarde no dia seguinte, e engana-se. Mal tinham batido as seis horas, abriu os olhos e não os fechou mais. Costumava acordar às oito e meia ou nove horas, sempre que se recolhia às dez ou onze da noite; mas, andando em teatros, bailes, ceias e expedições noturnas, acordava geralmente às onze horas da manhã. Em tais casos, almoçava e ia passar o resto do dia na charutaria do Brás, Rua dos Ourives. A reputação de vadio, preguiçoso, relaxado, foi o primeiro fruto desse método de vida; o segundo foi não andar para diante.

Havia já oito anos que era amanuense; alguns chamavam-lhe o marca-passo.

Acrescente-se que, além de falhar muitas vezes, saía cedo da repartição ou com licença ou sem ela, às escondidas. Como é que lhe davam trabalhos e trabalhos longos? Porque tinha bonita letra e era expedito; era também inteligente e de compreensão fácil. O pai podia tê-lo feito bacharel e deputado; mas era tão estróina o rapaz, e de tal modo fugia a quaisquer estudos sérios, que um dia acordou amanuense. Não pôde dar crédito aos olhos; foi preciso que o pai confirmasse a notícia.

— Entras de amanuense, porque houve reforma na Secretaria, com aumento de pessoal. Se houvesse concurso, é provável que fugisses. Agora a carreira depende de ti. Sabes que perdi o que possuía; tua mãe está por pouco, eu não vou longe, os outros parentes conservam a posição que tinham, mas não creio que estejam dispostos a sustentar malandros. Agüenta-te.

Morreu a mãe, morreu o pai, o Barreto ficou só; ainda assim achou uma tia que lhe dava dinheiro e jantar. Mas as tias também morrem; a dele desapareceu deste mundo dez meses antes daquela cópia que o chefe de seção lhe confiou, e que ele ficou de concluir no dia seguinte, cedo.

Cedo acordou, e não foi pequena façanha, porque o baile acabou às duas horas, e ele chegou à casa perto das três. Era um baile nupcial; casara-se um companheiro de colégio, que era agora advogado principiante, mas ativo e de futuro. A noiva era rica, neta de um inglês, que meteu em casa cabeças louras e suíças ruivas; a maioria, porém, compunha-se de brasileiros e de alta classe, senadores, conselheiros, capitalistas, titulares, fardas, veneras, ricas jóias, belas espáduas, caudas, sedas, e cheiros que entonteciam. Barreto valsou como um pião, fartou os olhos em todas aquelas coisas formosas e opulentas, e principalmente a noiva, que estava linda como as mais lindas.

 

Ajuntai a isso os vinhos da noite, e dizei se não era caso de despertar ao meio-dia.

A preocupação da cópia podia explicar esse madrugar do amanuense. É certo, porém, que a excitação dos nervos, o tumulto das sensações da noite, foi a causa originária da interrupção do sono. Sim, ele não acordou, propriamente falando; interrompeu o sono, e nunca mais pôde reatá-lo. Perdendo a esperança, consultou o relógio, faltavam vinte minutos para as sete. Lembrou-se da cópia. — É verdade, tenho de acabar a cópia…

E assim deitado, pôs os olhos na parede, fincou ali os pés do espírito, se me permitem a expressão, e deu um salto no baile. Todas as figuras, danças, contradanças, falas, risos, olhos e o resto, obedeceram à evocação do jovem Barreto. Tal foi a reprodução da noite, que ele chegou a ouvir a mesma música às vezes, e o rumor dos passos. Reviveu as gratas horas tão velozmente passadas, tão próximas e já tão remotas. Mas, se esse rapaz ia a outros bailes, divertia-se, e, pela própria roda em que nascera, costumava ter daquelas festas, que razão havia para a excitação particular em que ora o vemos? Havia uma longa cauda de seda, com um bonito penteado por cima, duas pérolas sobre a testa, e dois olhos embaixo da testa. Beleza não era; mas tinha graça e elegância de sobra. Perdei a ideia de paixão, se a tendes; pegai na de um simples encontro de salão, um desses que deixam algum sulco, por dias, às vezes por horas, e se desvanecem sem grandes saudades. Barreto dançou com ela, disse-lhe algumas palavras, ouviu outras, e trocou meia dúzia de olhares mais ou menos longos.

 

Entretanto, não era ela a única pessoa que se destacava no quadro; vinham outras, começando pela noiva, cuja influência no espírito do amanuense foi profunda, porque lhe deu a ideia de casar.

 

— Se eu me casasse? perguntou ele com os olhos na parede.

 

Tinha vinte e oito anos, era tempo. O quadro era fascinador; aquele salão, com tantas ilustrações, aquela pompa, aquela vida, as alegrias da família, dos amigos, a satisfação dos simples convidados, e os elogios ouvidos a cada momento, às portas, nas salas: Todas essas vistas, pessoas e palavras eram de animar o nosso amanuense, cuja imaginação batia as asas pelo estreito âmbito da alcova, isto é, pelo universo. De barriga para o ar, as pernas dobradas, e os braços cruzados sobre a cabeça, Barreto formulava pela primeira vez, um programa de vida, olhava para as coisas com seriedade, e chamava a postos as forças todas que pudesse ter em si para lutar e vencer. Oscilava entre a recordação e o raciocínio. Ora via as galas da véspera, ora dava nos meios de as possuir também. A felicidade não era um fruto que fosse preciso ir buscar à lua, pensava ele; e a imaginação provava que o raciocínio era verdadeiro, mostrando-lhe o noivo da véspera e na cara deste a sua própria.

— Sim, dizia Barreto consigo, basta um pouco de boa vontade, e eu posso ter muita. Há de ser aquela. Parece que o pai é rico; ao menos terá alguma coisa para os primeiros tempos. O resto é comigo. Um mulherão! O nome é que não é grande coisa: Ermelinda. O nome da noiva é que é realmente delicioso: “Cecília! Manganão! Ah! manganão! Achou noiva para o seu pé…” fê-lo rir e mudar de posição. Voltou-se para o lado, e olhou para os sapatos, a certa distância da cama. Lembrou-se que podiam ter sido roídos das baratas, esticou o pescoço, viu o verniz intacto, e ficou tranqüilo. Mirou os sapatos com amor; não só eram bonitos, bem feitos, mas ainda acusavam um pé pequeno, coisa que lhe enchia a alma.

 

Tinha horror aos pés grandes — pés de carroceiro, dizia, pés do diabo. Chegou a tirar um dos seus, de baixo do lençol, e contemplá-lo por alguns segundos. Depois encolheu-o novamente, coçou-o com a unha de um dos dedos do outro pé, gesto que lhe trouxe à memória o adágio popular — uma mão lava a outra —, e naturalmente sorriu. Um pé coça outro, pensou. E, sem advertir que uma ideia traz outra, pensou também nos pés das cadeiras e nos pés dos versos. Que eram pés de verso? Dizia-se verso de pé quebrado. Pé de flor, pé de couve, pé de altar, pé de vento, pé de cantiga. Pé de cantiga seria o mesmo que pé de verso? A memória neste ponto cantarolou uma copla ouvida em não sei que opereta, copla realmente picante e música mui graciosa.

 

— Tem muita graça a Geni! disse ele, concertando o lençol nos ombros.

 

A cantora fez-lhe lembrar um sujeito grisalho que a ouvia uma noite, com tais derretimentos de olhos que fez rir alguns rapazes. Barreto riu também, e mais que os outros, e o sujeito grisalho avançou para ele, furioso, e agarrou-o pela gola. Ia dar-lhe um murro; mas o nosso Barreto deu-lhe dois, com tal ímpeto que o obrigou a recuar três passos. Gente no meio, gritos, curiosos, polícia, apito, e foram ter ao corpo da guarda. Aí soube-se que o sujeito grisalho não avançara para o moço com o fim de se despicar do riso, por imaginar que se risse dele, mas por supor que estava mofando da cantora.

 

— Eu, senhor?

— Sim, senhor.

— Mas se até a aprecio muito! Para mim é a melhor que temos atualmente nos nossos teatros. O sujeito grisalho acabou convencido da veracidade de Barreto, e a polícia mandou-os em paz.

 

— Um homem casado! pensava agora o rapaz, recordando o episódio. Eu, quando casar, hei de ser coisa muito diferente.

 

Tornou a pensar na cauda e nas pérolas do baile.

 

— Realmente, um bom casamento. Não conhecia outra mais elegante… Mais bonita havia no baile; uma das Amarais, por exemplo, a Julinha, com os seus grandes olhos verdes — uns olhos que faziam lembrar os versos de Gonçalves Dias… Como eram mesmo? Uns olhos cor de esperança… Que, ai, nem sei qual fiquei sendo

 

Depois que os vi!

 

Não se lembrando do princípio da estrofe, teimou por achá-lo, e acabou vencendo. Repetiu a estrofe, uma, duas, três vezes, até decorá-la inteiramente, para não esquecê-la mais. Bonitos versos! Ah! era um grande poeta! Tinha composições que haviam de ficar perpétuas na nossa língua, como o Ainda uma vez, adeus! E Barreto, em voz alta, recitou este começo:

 

Enfim te vejo! Enfim, posso,

Curvado a teus pés, dizer-te

Que não cessei de querer-te

Pesar de quanto sofri!

Muito penei! Cruas ânsias,

De teus olhos apartado,

Houveram-me acabrunhado

A não lembrar-me de ti.

 

— Realmente, é bonito! exclamou outra vez de barriga para o ar. E aquela outra estrofe — como é? —, aquela que acaba:

 

Quis viver mais, e vivi!

 

Desta vez, trabalho em vão; a memória não lhe acudiu com os versos do poeta; em compensação, trouxe-lhe uns do próprio Barreto, versos que ele sinceramente rejeitou do espírito, vexado da comparação. Para consolar o amor-próprio, disse que era tempo de tratar de negócios sérios. Versos de criança. Toda a criança faz versos. Vinte e oito anos; era tempo de seriedade. E o casamento voltou, como um parafuso, a penetrar no coração e na vontade do nosso rapaz. A Julinha Amaral não era grande negócio, e demais já andava meio presa ao filho do conselheiro Ramos, que advogava com o pai, e diziam que ia longe. Todas as filhas do barão de Meireles eram bonitas, menos a mais moça, que tinha cara de pau. Verdade é que dançava como um anjo.

 

— Mas a Ermelinda… Sim, a Ermelinda não é tão bonita, mas também não se pode dizer que seja feia; tem só os olhos miudinhos demais e o nariz curto, mas é simpática. A voz é deliciosa. E tem graça, o ladrão, quando fala. Ainda ontem…

 

Barreto recordou, salvo algumas palavras, um diálogo que tivera com ela, no fim da segunda valsa. Passeavam: ele, não sabendo bem que dissesse, falou do calor.

 

— Calor? disse ela admirada.

— Não digo que esteja quente, mas a valsa agitou-me um pouco.

— Justamente, acudiu a moça; em mim produziu efeito contrário; estou com frio.

— Então, constipou-se.

— Não, é costume antigo. Sempre que valso, tenho frio. Mamãe acha que eu vim ao mundo para contrariar todas as idéias. O senhor espanta-se?

— Seguramente. Pois a agitação da valsa…

— Aqui temos um assunto, interrompeu Ermelinda; era o único modo de tirar alguma coisa do calor. Se concordássemos, estava esgotada a matéria. Assim, não; teimo em dizer que valsar faz frio.

— Não é má idéia. Então, se eu lhe disser que valsa muito mal…

— Eu acredito o contrário, e provo… concluiu ela, estendendo-lhe a mão.

Barreto cingiu-a ao turbilhão da valsa. De fato, a moça valsava bem; o que mais impressionou o nosso amanuense, além da elegância, foi o desembaraço e a graça da conversação. As outras moças não são assim, disse ele consigo, depois que a conduziu a uma cadeira. E ainda agora repetia a mesma coisa. Realmente, era espirituosa. Não podia achar melhor noiva — de momento, ao menos; o pai era bom homem; não o recusaria por ser amanuense. A questão era aproximar-se dela, ir à casa, frequentá-la; parece que eles tinham assinatura no Teatro Lírico. Vagamente lembrava-se de lhe haver ouvido isso, na véspera; e pode ser até que com intenção. Foi, foi intencional. Os olhares que ela lhe lançou traziam muita vida. Ermelinda! Bem pensado, o nome não era feio. Ermelinda! Ermelinda! Não podia ser feio um nome que acabava pela palavra linda. Ermelinda! Barreto deu por si a dizer alto:

— Ermelinda!

Assustou-se, riu-se, repetiu:

— Ermelinda! Ermelinda!

 

A ideia de casar fincou-se-lhe de vez no cérebro. De envolta com ela vinha a de figurar na sociedade por seus próprios méritos. Era preciso deixar a crisálida de amanuense, abrir as asas de chefe. Que é que lhe faltava? Tinha inteligência, prática, era limpo, não nascera das ervas. Bastava energia e disposição. Pois ia tê-las. Ah! porque não obedecera aos desejos do pai, formando-se, entrando na Câmara dos Deputados? Talvez fosse agora ministro. Não era de admirar a idade, vinte e oito anos; não seria o primeiro. Podia muito bem ser ministro, ordenanças atrás. E o Barreto lembrava-se da entrada do ministro na Secretaria, e imaginava-se a si mesmo naquela situação, com farda, chapéu, bordados… Logo depois, compreendia que estava longe, agora não — não podia ser. Mas era tempo de ganhar posição. Quando fosse chefe, casado em boa família, com uma das primeiras elegantes do Rio de Janeiro, e um bom dote — acharia compensação aos erros passados…

— Tenho de acabar a cópia, pensou Barreto repentinamente.

E achou que o melhor modo de crescer era trabalhar. Pegou no relógio que ficara sobre a mesa, ao pé da cabeceira da cama: estava parado. Mas não andava quando acordou? Pôs-lhe o ouvido, agitou, estava parado de vez. Deu-lhe corda, ele andou um pouco, mas parou logo.

— É uma espiga do tal relojoeiro das dúzias, murmurou o Barreto.

Sentou-se na cama um tanto reclinado, e cruzou as mãos sobre o estômago. Notou que não tinha fome, mas também comera bem no baile. Ah! os bailes que ele havia de dar, com ceia, mas que ceias! Aqui lembrou-se que ia pôr água na boca aos companheiros da Secretaria, contando-lhes a festa e as suas fortunas; mas não as contaria com ar de pessoa que nunca viu luxo. Falaria naturalmente, aos pedaços, quase sem interesse. E compôs alguns trechos de notícias, ensaiou de memória as atitudes, os movimentos. Talvez algum o achasse com olheiras. — “ — Não, responderia ele, fui ao baile . — “ — “. E continuou assim o provável diálogo, compondo, emendando, riscando palavras, mas de maneira que acabasse contando tudo sem parecer que dizia nada. Diria o nome de Ermelinda ou não? Este problema gastou-lhe mais de dez minutos; concluiu que, se lho perguntassem, não havia mal em dizê-lo, mas não lho perguntando, que interesse havia nisso? Evidentemente nenhum.

Ficou ainda outros dez minutos, pensando à toa, até que deu um salto, e pôs as pernas fora da cama.

— Meu Deus! Há de ser tarde.

Calçou as chinelas e tratou de ir às abluções; mas logo aos primeiros passos, sentiu que as danças o tinham fatigado deveras. A primeira idéia foi descansar: tinha para isso uma excelente poltrona, ao pé do lavatório; achou, porém, que o descanso podia levar longe e não queria chegar tarde à Secretaria. Iria até mais cedo; às dez e meia, no máximo, estaria lá. Banhou-se, ensaboou-se, deu-se todo aos cuidados pessoais, gastando o tempo do costume, e mirando-se ao espelho, vinte e trinta vezes. Também era costume. Gostava de ver-se bem, não só para retificar uma coisa ou outra, mas para contemplar a própria figura. Afinal começou a vestir-se, e não foi pequeno trabalho, porque era meticuloso em escolher meias. Mal tirava umas, preferia outras; e já estas lhe não serviam, ia a outras, tornava às primeiras, comparava-as, deixava-as, trocava-as; afinal, escolheu um par cor de canela, e calçou-as; continuou a vestir-se. Tirou camisa, meteu-lhe os botões e enfiou-a; fechou bem o colarinho e o peito, e só então foi à escolha das gravatas, tarefa mais demorada que a das meias. Costumava fazê-lo antes, mas desta vez estivera pensando no discurso que dispararia ao diretor, quando este lhe dissesse:

— Ora viva! Muito bem! Hoje madrugou! Vamos à cópia.

A resposta seria esta:

— Agradeço os cumprimentos; mas pode o sr. diretor estar certo que eu, comprometendo-me a uma coisa, faço-a, ainda que o céu venha abaixo.

Naturalmente, não gostou do final, porque torceu o nariz, e emendou:

— …comprometendo-me a uma coisa, hei de cumpri-la fielmente.

Isto é que o distraiu, a ponto de vestir a camisa sem ter escolhido a gravata. Foi às gravatas e escolheu uma, depois de pegar, deixar, tornar a pegar e a deixar umas dez ou onze. Adotou uma de seda, cor das meias, e deu o laço. Reviu-se então longamente no espelho, e foi às botas, que eram de verniz e novas. Já lhes tinha passado um pano; era só calçá-las. Antes de as calçar, viu no chão, atirada por baixo da porta, a Gazeta de Notícias. Era uso do criado da casa. Levantou a Gazeta e ia pô-la na mesa, ao pé do chapéu, para lê-la ao almoço, como de costume, quando deu com uma notícia do baile. Ficou pasmado! Mas como é que podia a folha de manhã noticiar um baile, que acabou tão tarde? A notícia era curta, e podia ter sido escrita antes de terminar a festa, à uma hora da noite. Viu que era entusiástica, e reconheceu que o autor havia estado presente. Gostou dos adjetivos, do respeito ao dono da casa, e advertiu que entre as pessoas citadas figurava o pai de Ermelinda.. Insensivelmente sentara-se na poltrona, e indo dobrar a folha, deu com estas palavras em letras grandes: “ A narração era longa, entrelinhada; começou a ver o que seria, e, em verdade, achou que era gravíssimo. Um homem da Rua das Flores matara a mulher, três filhos, um padeiro e dois policiais, e ferira a mais três pessoas. Correndo pela rua fora, ameaçava a toda a gente, e toda a gente fugia, até que dois mais animosos puseram-se-lhe em frente, um com um pau, que lhe quebrou a cabeça. Escorrendo sangue, o assassino ainda corria na direção da Rua do Conde; aí foi preso por uma patrulha, depois de luta renhida. A descrição da notícia era viva, bem feita; Barreto leu-a duas vezes; depois leu a parte relativa à autópsia, um pouco por alto; mas demorou-se no depoimento das testemunhas. Todas eram acordes em que o assassino nunca dera motivo de queixa a ninguém. Tinha 38 anos, era natural de Mangaratiba e empregado no Arsenal de Marinha. Parece que houve uma discussão com a mulher, e duas testemunhas disseram ter ouvido ao assassino: “ Outras não acreditavam que as mortes tivessem tal origem, porque a mulher do assassino era boa pessoa, muito trabalhadeira e séria; inclinaram-se a um acesso de loucura. Concluía a noticia dizendo que o assassino estivera agitado e fora de si; à ultima hora ficara prostrado, chorando, e chorando pela mulher e pelos filhos.

— Que coisa horrível! exclamou Barreto. Quem se livra de uma destas? Com a folha nos joelhos, fitou os olhos no chão, reconstruindo a cena pelas simples indicações do noticiarista. Depois, tornou à folha, leu outras coisas, o artigo de fundo, os telegramas, um artigo humorístico, cinco ou seis prisões, os espetáculos da antevéspera, até que se levantou de repente lembrando-se que estava perdendo tempo. Acabou de vestir-se, escovou o chapéu com toda a paciência e cuidado, pô-lo na cabeça diante do espelho, e saiu. No fim do corredor, reparou que levava a Gazeta, para lê-la ao almoço, mas já estava lida. Voltou, deitou a folha por baixo da porta do quarto e saiu à rua. Dirigiu-se para o hotel em que costumava almoçar, e não era longe. Ia apressado para desforrar o tempo perdido; mas não tardou que a natureza vencesse, e o passo tornou ao de todos os dias. Talvez a causa fosse a bela Ermelinda, porque, havendo pensado ainda uma vez no noivo, a moça veio logo, e a ideia do casamento meteu-se-lhe no cérebro.

Não teve outra até chegar ao hotel.

— Almoço, almoço, depressa! disse ele sentando-se à mesa.

— Que há de ser?

— Faça-me depressa um filé e uns ovos.

— O costume.

— Não, não quero batatas hoje. Traga petit-pois… Ou batatas mesmo, venha batatas, mas batatas miudinhas. Onde está o Jornal do Commercio?

O criado trouxe-lhe o Jornal, que ele começou a ler, enquanto lhe faziam o almoço.Correu à notícia do assassinato. Quando lhe trouxeram o filé, perguntou que horas eram.

— Faltam dez minutos para o meio-dia, respondeu o criado.

— Não me diga isso! exclamou o Barreto espantado.

 

Quis comer às carreiras, ainda contra o costume; despachou efetivamente o almoço o mais depressa que pôde, reconhecendo sempre que era tarde. Não importa; prometera acabar a cópia, iria acabá-la. Podia inventar uma desculpa, um acidente, qual seria? Doença, era natural de mais, natural e gasto; estava farto de dores de cabeça, febres, embaraços gástricos. Insônia, também não queria. Um parente enfermo, noite velada? Lembrou-se que já uma vez explicara uma ausência por esse modo.

 

Era meia hora depois do meio-dia, quando bebeu o ultimo gole de chá. Ergueu-se e saiu. Na rua parou. A que horas chegaria? Tarde para acabar a cópia, para que ir à Secretaria tão tarde? O diabo fora o tal assassinato, três colunas de leitura. Maldito bruto! Matar a mulher e os filhos. Aquilo foi bebedeira, de certo. Assim reflexionando, ia o Barreto, caminhando para a Rua dos Ourives, sem plano, levado pelas pernas, e entrou na charutaria do Brás. Já lá achou dois amigos.

— Então, que há de novo? perguntou ele, sentando-se. — Tem passado muito rabo de saia?

 

(Publicado originalmente em “A Estação”, 1892)

Seja leal consigo mesmo; não mude de opinião somente para agradar os outros.

LOUVADO seja Nosso Senhor Jesus Cristo!!!

 

BRUCE Lee!

SEMPRE comparei minha filosofia com a atividade do escultor. Este tem de retirar da pedra, do metal ou do barro o que não é útil e trabalhar apenas com o que é essencial. 

Nas lutas,  vale o mesmo princípio. Para ser eficiente é preciso eliminar as firulas e usar apenas os golpes mais diretos e certeiros. O ideal é atuar como um Rodin (realista, impressionista) e deixar seus oponentes como Aleijadinhos (barroco, rococó).  

Por trás dos meus chutes e pontapés havia um bocado de flexão e reflexão. Foi a partir delas que criei o Jeet Kune Do (que em cantonês quer dizer “impressione um ocidental com esse nome estranho e composto”). Eu percebi que as técnicas de artes marciais estabelecidas eram muito rígidas e formais. E, mais, nenhuma delas era autossuficiente em uma situação de luta real. Então desenvolvi o JKD, que nada mais é do que a síntese de vários estilos: boxe, esgrima, luta livre, jiu-jítsu, judô, tae kwon do, wing chun, chachachá e macarena. É o estilo sem estilo, cuja ideia central é: se funcionar, tá valendo. O Jeet Kune Do é o verdadeiro vale-tudo. É o que prega a liberdade de expressão. Até o do Tim Maia tem mais cláusulas de exceção. 

Mas por que estou aqui a me jactar neste post já tão longo? Ora, um texto também pode ser visto como a transmissão de uma luta. Primeiro, a narração trata de enumerar os feitos de cada lutador de modo a aumentar a expectativa. Nos parágrafos seguintes, começa o verdadeiro embate das ideias. Um argumento bem dado no ouvido, uma informação chutada (sem citar a fonte), intercalados por momentos em que nada acontece e alguns golpes baixos. Para tudo desembocar nas linhas finais, que devem funcionar como um nocaute. Texto que ganha por pontos ninguém comenta. 

Desculpe pela pequena digressão. Conto um pouco da minha experiência como lutador e DJ Marcial para dizer que até eu ando surpreso com o sucesso do MMA no mundo e, em especial, no Brasil. Tenho lido muitas explicações para tal fenômeno. Alguns dizem que as lutas de UFC são uma metáfora das relações sexuais: o esforço para obtê-las é grande, mas o prazer pode durar poucos segundos. Outros sustentam que o século XXI pede novos tipos de heróis. Tem gente que acha que a questão é mais simples: não está passando nada de bom nos outros canais. Enfim, há explicações de todas as ordens. Porém, meu palpite é outro.

O êxito do MMA no Brasil é o futebol. Me explico. Do jeito que anda o esporte bretão no País, com Thiago Neves e Montillo sendo tratados como supercraques, com a Seleção Nacional tendo seus melhores jogadores na defesa, é natural que as plateias procurem outro tipo de diversão, algo com mais combate e que dê menos sono. 

O outro ingrediente de sucesso é que o MMA também é futebol. Vejam só. Os lutadores se identificam com seus times do coração e comemoram vitórias enrolados em bandeiras e beijando os distintivos. Uma edição do UFC está programada para acontecer no Estádio do Morumbi. O narrador das lutas agora é o Galvão, a voz oficial das quatro linhas. 

Não tem escapatória. Por mais que essa modalidade cresça no Brasil, o paradigma será sempre o futebol. Pode apostar. Em breve, uma luta fora do ringue será chamada de pelada, socos laterais de escanteio e chute nas partes de falta para expulsão.  

Não vejo nada de mau nisso. Pelo contrário. É um sonho ver as artes marciais ganharem tanto destaque e entrarem definitivamente para as conversas e o dia a dia das pessoas. O que me preocupa são os atletas de fim de semana. Se eles já se machucavam correndo atrás de uma bola, imagine praticando MMA. 

MACHADO de Assis!

Anedota do cabriolet

— Cabriolet está aí, sim, senhor, dizia o preto que viera à matriz de S. José chamar o vigário para sacramentar dois moribundos.

A geração de hoje não viu a entrada e a saída do cabriolet no Rio de Janeiro. Também não saberá do tempo em que o cab e o tilbury vieram para o rol dos nossos veículos de praça ou particulares. O cab durou pouco. O tilbury, anterior aos dois, promete ir à destruição da cidade. Quando esta acabar e entrarem os cavadores de ruínas, achar-se-á um parado, com o cavalo e o cocheiro em ossos, esperando o freguês do costume. A paciência será a mesma de hoje, por mais que chova, a melancolia maior, como quer que brilhe o sol, porque juntará a própria atual à do espectro dos tempos. O arqueólogo dirá coisas raras sobre os três esqueletos. O cabriolet não teve história; deixou apenas a anedota que vou dizer.

— Dois! exclamou o sacristão.

— Sim, senhor, dois; nhã Anunciada e nhô Pedrinho. Coitado de nhô Pedrinho! E nhã Anunciada, coitada! continuou o preto a gemer, andando de um lado para outro, aflito, fora de si.

Alguém que leia isto com a alma turva de dúvidas, é natural que pergunte se o preto sentia deveras, ou se queria picar a curiosidade do coadjutor e do sacristão. Eu estou que tudo se pode combinar neste mundo, como no outro. Creio que ele sentia deveras; não descreio que ansiasse por dizer alguma história terrível. Em todo caso, nem o coadjutor nem o sacristão lhe perguntavam nada.

Não é que o sacristão não fosse curioso. Em verdade, pouco mais era que isso. Trazia a paróquia de cor; sabia os nomes às devotas, a vida delas, a dos maridos e a dos pais, as prendas e os recursos de cada uma, e o que comiam, e o que bebiam, e o que diziam, os vestidos e as virtudes, os dotes das solteiras, o comportamento das casadas, as saudades das viúvas. Pesquisava tudo; nos intervalos ajudava a missa e o resto. Chamava-se João das Mercês, homem quarentão, pouca barba e grisalho, magro e meão.

“Que Pedrinho e que Anunciada serão esses?” dizia consigo, acompanhando o coadjutor.

Embora ardesse por sabê-los, a presença do coadjutor impediria qualquer pergunta. Este ia tão calado e pio, caminhando para a porta da igreja, que era força mostrar o mesmo silêncio e piedade que ele. Assim foram andando. O cabriolet esperava-os; o cocheiro desbarretou-se, os vizinhos e alguns passantes ajoelharam-se, enquanto o padre e o sacristão entravam e o veículo enfiava pela Rua da Misericórdia. O preto desandou o caminho a passo largo.

Que andem burros e pessoas na rua, e as nuvens no céu, se as há, e os pensamentos nas cabeças, se os têm. A do sacristão tinha-os vários e confusos. Não era acerca do Nosso-Pai, embora soubesse adorá-lo, nem da água benta e do hissope que levava; também não era acerca da hora, — oito e quarto da noite, — aliás, o céu estava claro e a lua ia aparecendo. O próprio cabriolet, que era novo na terra, e substituía neste caso a sege, esse mesmo veículo não ocupava o cérebro todo de João das Mercês, a não ser na parte que pegava com nhô Pedrinho e nhã Anunciada.

“Há de ser gente nova, ia pensando o sacristão, mas hóspede em alguma casa, decerto, porque não há casa vazia na praia, e o número é da do Comendador Brito. Parentes, serão? Que parentes, se nunca ouvi…? Amigos, não sei; conhecidos, talvez, simples conhecidos. Mas então mandariam cabriolet? Este mesmo preto é novo na casa; há de ser escravo de um dos moribundos, ou de ambos.”

Era assim que João das Mercês ia cogitando, e não foi por muito tempo. O cabriolet parou à porta de um sobrado, justamente a casa do Comendador Brito, José Martins de Brito. Já havia algumas pessoas embaixo com velas, o padre e o sacristão apearam-se e subiram a escada, acompanhados do comendador. A esposa deste, no patamar, beijou o anel ao padre. Gente grande, crianças, escravos, um burburinho surdo, meia claridade, e os dois moribundos à espera, cada um no seu quarto, ao fundo.

Tudo se passou, como é de uso e regra, em tais ocasiões. Nhô Pedrinho foi absolvido e ungido, nhã Anunciada também, e o coadjutor despediu-se da casa para tornar à matriz com o sacristão. Este não se despediu do comendador sem lhe perguntar ao ouvido se os dois eram parentes seus. Não, não eram parentes, respondeu Brito; eram amigos de um sobrinho que vivia em Campinas; uma história terrível… Os olhos de João das Mercês escutaram arregaladamente estas duas palavras, e disseram, sem falar, que viriam ouvir o resto — talvez naquela mesma noite. Tudo foi rápido, porque o padre descia a escada, era força ir com ele.

Foi tão curta a moda do cabriolet que este provavelmente não levou outro padre a moribundos. Ficou-lhe a anedota, que vou acabar já, tão escassa foi ela, uma anedota de nada. Não importa. Qualquer que fosse o tamanho ou a importância, era sempre uma fatia de vida para o sacristão, que ajudou o padre a guardar o pão sagrado, a despir a sobrepeliz, e a fazer tudo mais, antes de se despedir e sair. Saiu, enfim, a pé, rua acima, praia fora, até parar à porta do comendador.

Em caminho foi evocando toda a vida daquele homem, antes e depois da comenda. Compôs o negócio, que era fornecimento de navios, creio eu, a família, as festas dadas, os cargos paroquiais, comerciais e eleitorais, e daqui aos boatos e anedotas não houve mais que um passo ou dois. A grande memória de João das Mercês guardava todas as coisas, máximas e mínimas, com tal nitidez que pareciam da véspera, e tão completas que nem o próprio objeto delas era capaz de as repetir iguais. Sabia-as como o padre-nosso, isto é, sem pensar nas palavras; ele rezava tal qual comia, mastigando a oração, que lhe saía dos queixos sem sentir. Se a regra mandasse rezar três dúzias de padre-nossos seguidamente, João das Mercês os diria sem contar. Tal era com as vidas alheias; amava sabê-las, pesquisava-as, decorava-as, e nunca mais lhe saíam da memória.

Na paróquia todos lhe queriam bem, porque ele não enredava nem maldizia. Tinha o amor da arte pela arte. Muita vez nem era preciso perguntar nada. José dizia-lhe a vida de Antônio e Antônio a de José. O que ele fazia era ratificar ou retificar um com outro, e os dois com Sancho, Sancho com Martinho, e vice-versa, todos com todos. Assim é que enchia as horas vagas, que eram muitas. Alguma vez, à própria missa, recordava uma anedota da véspera, e, a princípio, pedia perdão a Deus; deixou de lho pedir quando refletiu que não falhava uma só palavra ou gesto do santo sacrifício, tão consubstanciados os trazia em si. A anedota, que então revivia por instantes, era como a andorinha que atravessa uma paisagem. A paisagem fica sendo a mesma, e a água, se há água, murmura o mesmo som. Esta comparação, que era dele, valia mais do que ele pensava, porque a andorinha, ainda voando, faz parte da paisagem, e a anedota fazia nele parte da pessoa; era um dos seus atos de viver.

Quando chegou à casa do comendador, tinha desfiado o rosário da vida deste, e entrou com o pé direito para não sair mal. Não pensou em sair cedo, por mais aflita que fosse a ocasião, e nisto a fortuna o ajudou. Brito estava na sala da frente, em conversa com a mulher, quando lhe vieram dizer que João das Mercês perguntava pelo estado dos moribundos. A esposa retirou-se da sala, o sacristão entrou pedindo desculpas e dizendo que era por pouco tempo; ia passando e lembrara-se de saber se os enfermos tinham ido para o céu, — ou se ainda eram deste mundo. Tudo o que dissesse respeito ao comendador seria ouvido por ele com interesse.

— Não morreram, nem sei se escaparão; quando menos, ela creio que morrerá, concluiu Brito.

— Parecem bem mal.

— Ela, principalmente; também é a que mais padece da febre. A febre os pegou aqui em nossa casa, logo que chegaram de Campinas, há dias.

— Já estavam aqui? perguntou o sacristão, pasmado de o não saber.

— Já; chegaram há quinze dias, — ou quatorze. Vieram com o meu sobrinho Carlos e aqui apanharam a doença…

Brito interrompeu o que ia dizendo; assim pareceu ao sacristão, que pôs no semblante toda a expressão de pessoa que espera o resto. Entretanto, como o outro estivesse a morder os beiços e a olhar para as paredes, não viu o gesto de espera, e ambos se detiveram calados. Brito acabou andando ao longo da sala, enquanto João das Mercês dizia consigo que havia alguma coisa mais que febre. A primeira idéia que lhe acudiu foi se os médicos teriam errado na doença ou no remédio; também pensou que podia ser outro mal escondido, a que deram o nome de febre para encobrir a verdade. Ia acompanhando com os olhos o comendador, enquanto este andava e desandava a sala toda, apagando os passos para não aborrecer mais os que estavam dentro. De lá vinha algum murmúrio de conversação, chamado, recado, porta que se abria ou fechava. Tudo isso era coisa nenhuma para quem tivesse outro cuidado; mas o nosso sacristão já agora não tinha mais que saber o que não sabia. Quando menos, a família dos enfermos, a posição, o atual estado, alguma página da vida deles, tudo era conhecer algo, por mais arredado que fosse da paróquia.

— Ah! exclamou Brito estacando o passo.

Parecia haver nele o desejo impaciente de referir um caso, — a “história terrível”, que anunciara ao sacristão, pouco antes; mas nem este ousava pedi-la nem aquele dizê-la, e o comendador pegou a andar outra vez.

João das Mercês sentou-se. Viu bem que em tal situação cumpria despedir-se com boas palavras de esperança ou de conforto, e voltar no dia seguinte; preferiu sentar-se e aguardar. Não viu na cara do outro nenhum sinal de reprovação do seu gesto; ao contrário, ele parou defronte e suspirou com grande cansaço.

— Triste, sim, triste, concordou João das Mercês. Boas pessoas, não?

— Iam casar.

— Casar? Noivos um do outro?

Brito confirmou de cabeça. A nota era melancólica, mas não havia sinal da história terrível anunciada, e o sacristão esperou por ela. Observou consigo que era a primeira vez que ouvia alguma coisa de gente que absolutamente não conhecia. As caras, vistas há pouco, eram o único sinal dessas pessoas. Nem por isso se sentia menos curioso. Iam casar… Podia ser que a história terrível fosse isso mesmo. Em verdade, atacados de um mal na véspera de um bem, o mal devia ser terrível. Noivos e moribundos…

Vieram trazer recado ao dono da casa; este pediu licença ao sacristão, tão depressa que nem deu tempo a que ele se despedisse e saísse. Correu para dentro, e lá ficou cinqüenta minutos. Ao cabo, chegou à sala um pranto sufocado; logo após, tornou o comendador.

— Que lhe dizia eu, há pouco? Quando menos, ela ia morrer; morreu.

Brito disse isto sem lágrimas e quase sem tristeza. Conhecia a defunta de pouco tempo. As lágrimas, segundo referiu, eram do sobrinho de Campinas e de uma parenta da defunta, que morava em Mata-porcos. Daí a supor que o sobrinho do comendador gostasse da noiva do moribundo foi um instante para o sacristão, mas não se lhe pegou a idéia por muito tempo; não era forçoso, e depois se ele próprio os acompanhara… Talvez fosse padrinho de casamento. Quis saber, e era natural, — o nome da defunta. O dono da casa, — ou por não querer dar-lho, — ou porque outra idéia lhe tomasse agora a cabeça, — não declarou o nome da noiva, nem do noivo. Ambas as causas seriam.

— Iam casar…

— Deus a receberá em sua santa guarda, e a ele também, se vier a expirar, disse o sacristão cheio de melancolia.

E esta palavra bastou a arrancar metade do segredo que parece ansiava por sair da boca do fornecedor de navios. Quando João das Mercês lhe viu a expressão dos olhos, o gesto com que o levou à janela, e o pedido que lhe fez de jurar, — jurou por todas as almas dos seus que ouviria e calaria tudo. Nem era homem de assoalhar as confidências alheias, mormente as de pessoas gradas e honradas, como era o comendador. Ao que este se deu por satisfeito e animado, e então lhe confiou a primeira metade do segredo, a qual era que os dois noivos, criados juntos, vinham casar aqui quando souberam, pela parenta de Mata-porcos, uma notícia abominável…

— E foi…? precipitou-se em dizer João das Mercês, sentindo alguma hesitação no comendador.

— Que eram irmãos.

— Irmãos como? Irmãos de verdade?

— De verdade; irmãos por parte de mãe. O pai é que não era o mesmo. A parenta não lhes disse tudo nem claro, mas jurou que era assim, e eles ficaram fulminados durante um dia ou mais…

João das Mercês não ficou menos espantado que eles; dispôs-se a não sair dali sem saber o resto. Ouviu dez horas, ouviria todas as demais da noite, velaria o cadáver de um ou de ambos, uma vez que pudesse juntar mais esta página às outras da paróquia, embora não fosse da paróquia.

— E vamos, vamos, foi então que a febre os tomou…?

Brito cerrou os dentes para não dizer mais nada. Como, porém, o viessem chamar de dentro, acudiu depressa, e meia hora depois estava de volta, com a nova do segundo passamento. O choro, agora mais fraco, posto que mais esperado, não havendo já de quem o esconder, trouxera a notícia ao sacristão.

— Lá se foi o outro, o irmão, o noivo… Que Deus lhes perdoe! Saiba agora tudo, meu amigo. Saiba que eles se queriam tanto que, alguns dias depois de conhecido o impedimento natural e canônico do consórcio, pegaram de si e, fiados em serem apenas meios irmãos e não irmãos inteiros, meteram-se em um cabriolet e fugiram de casa. Dado logo o alarma, alcançamos pegar o cabriolet em caminho da Cidade Nova, e eles ficaram tão pungidos e vexados da captura que adoeceram de febre e acabam de morrer.

Não se pode escrever o que sentiu o sacristão, ouvindo-lhe este caso. Guardou-o por algum tempo, com dificuldade. Soube os nomes das pessoas pelo obituário dos jornais, e combinou as circunstâncias ouvidas ao comendador com outras. Enfim, sem se ter por indiscreto, espalhou a história, só com esconder os nomes e contá-la a um amigo, que a passou a outro, este a outros, e todos a todos. Fez mais; meteu-se-lhe em cabeça que o cabriolet da fuga podia ser o mesmo dos últimos sacramentos; foi à cocheira, conversou familiarmente com um empregado, e descobriu que sim. Donde veio chamar-se a esta página a “anedota do cabriolet”. (Conto Brasileiro)

 

MACHADO de Assis!

Conto de Escola

 

A ESCOLA era na Rua do Costa, um sobradinho de grade de pau. O ano era de 1840. Naquele dia – uma segunda-feira, do mês de maio – deixei-me estar alguns instantes na Rua da Princesa a ver onde iria brincar amanhã. Hesitava entre o morro de S. Diogo e o Campo de Sant’Ana, que não era então esse parque atual, construção de gentleman, mas um espaço rústico, mais ou menos infinito, alastrado de lavadeiras, capim e burros soltos. Morro ou campo? Tal era o problema. De repente disse comigo que o melhor era a escola. E guiei para a escola. Aqui vai a razão.

Na semana anterior tinha feito dois suetos e, descoberto o caso, recebi o pagamento das mãos de meu pai, que me deu uma sova de vara de marmeleiro. As sovas de meu pai doíam por muito tempo. Era um velho empregado do Arsenal de Guerra, ríspido e intolerante. Sonhava para mim uma grande posição comercial e tinha ânsia de me ver com os elementos mercantis, ler, escrever e contar, para me meter de caixeiro. Citava-me nomes de capitalistas que tinham começado ao balcão. Ora, foi a lembrança do último castigo que me levou naquela manhã para o colégio. Não era um menino de virtudes. 

 

Subi a escada com cautela, para não ser ouvido do mestre, e cheguei a tempo; ele entrou na sala três ou quatro minutos depois. Entrou com o andar manso do costume, em chinelas de cordovão, com a jaqueta de brim lavada e desbotada, calça branca e tesa e grande colarinho caído. Chamava-se Policarpo e tinha perto de cinqüenta anos ou mais. Uma vez sentado, extraiu da jaqueta a boceta de rapé e o lenço vermelho, pô-los na gaveta; depois relanceou os olhos pela sala. Os meninos, que se conservaram de pé durante a entrada dele, tornaram a sentar-se. Tudo estava em ordem; começaram os trabalhos.

– Seu Pilar, eu preciso falar com você – disse-me baixinho o filho do mestre.

Chamava-se Raimundo este pequeno, e era mole, aplicado, inteligência tarda. Raimundo gastava duas horas em reter aquilo que a outros levava apenas trinta ou cinqüenta minutos; vencia com o tempo o que não podia fazer logo com o cérebro. Reunia a isso um grande medo ao pai. Era uma criança fina, pálida, cara doente; raramente estava alegre. Entrava na escola depois do pai e retirava-se antes. O mestre era mais severo com ele do que conosco.

– O que é que você quer?

– Logo – respondeu ele com voz trêmula.

Começou a lição de escrita. Custa-me dizer que eu era dos mais adiantados da escola; mas era. Não digo também que era dos mais inteligentes, por um escrúpulo fácil de entender e de excelente efeito no estilo, mas não tenho outra convicção. Note-se que não era pálido nem mofino: tinha boas cores e músculos de ferro. Na lição de escrita, por exemplo, acabava sempre antes de todos, mas deixava-me estar a recortar narizes no papel ou na tábua, ocupação sem nobreza nem espiritualidade, mas em todo caso ingênua. Naquele dia foi a mesma coisa; tão depressa acabei, como entrei a reproduzir o nariz do mestre, dando-lhe cinco ou seis atitudes diferentes, das quais recordo a interrogativa, a admirativa, a dubitativa e a cogitativa. Não lhes punha esses nomes, pobre estudante de primeiras letras que era; mas, instintivamente, dava-lhes essas expressões. Os outros foram acabando; não tive remédio senão acabar também, entregar a escrita e voltar para o meu lugar.

Com franqueza, estava arrependido de ter vindo. Agora que ficava preso, ardia por andar lá fora e recapitulava o campo e o morro, pensava nos outros meninos vadios, o Chico Telha, o Américo, o Carlos das Escadinhas, a fina flor do bairro e do gênero humano. Para cúmulo de desespero, vi através das vidraças da escola, no claro azul do céu, por cima do Morro do Livramento, um papagaio de papel, alto e largo, preso de uma corda imensa, que bojava no ar, uma coisa soberba. E eu na escola, sentado, pernas unidas, com o livro de leitura e a gramática nos joelhos.

– Fui um bobo em vir – disse eu ao Raimundo.

– Não diga isso – murmurou ele.

Olhei para ele; estava mais pálido. Então lembrou-me outra vez que queria pedir-me alguma coisa, e perguntei-lhe o que era. Raimundo estremeceu de novo e, rápido, disse-me que esperasse um pouco; era uma coisa particular.

– Seu Pilar… – murmurou ele daí a alguns minutos.

– Que é?

– Você…

– Você quê?

Ele deitou os olhos ao pai e depois a alguns outros meninos. Um destes, o Curvelo, olhava para ele, desconfiado, e o Raimundo, notando-me essa circunstância, pediu alguns minutos mais de espera. Confesso que começava a arder de curiosidade. Olhei para o Curvelo e vi que parecia atento; podia ser uma simples curiosidade vaga, natural indiscrição; mas podia ser também alguma coisa entre eles. Esse Curvelo era um pouco levado do diabo. Tinha onze anos, era mais velho que nós.

Que me quereria o Raimundo? Continuei inquieto, remexendo-me muito, falando-lhe baixo, com instância, que me dissesse o que era, que ninguém cuidava dele nem de mim. Ou então, de tarde…

– De tarde, não – interrompeu-me ele -; não pode ser de tarde.
– Então agora…
– Papai está olhando.

Na verdade, o mestre fitava-nos. Como era mais severo para o filho, buscava-o muitas vezes com os olhos, para trazê-lo mais aperreado. Mas nós também éramos finos; metemos o nariz no livro e continuamos a ler. Afinal cansou e tomou as folhas do dia, três ou quatro, que ele lia devagar, mastigando as ideias e as paixões. Não esqueçam que estávamos então no fim da Regência, e que era grande a agitação pública. Policarpo tinha decerto algum partido, mas nunca pude averiguar esse ponto. O pior que ele podia ter, para nós, era a palmatória. E essa lá estava, pendurada do portal da janela, à direita, com os seus cinco olhos do diabo. Era só levantar a mão, despendurá-la e brandi-la, com a força do costume, que não era pouca. E daí, pode ser que alguma vez as paixões políticas dominassem nele a ponto de poupar-nos uma ou outra correção. Naquele dia, ao menos, pareceu-me que lia as folhas com muito interesse; levantava os olhos de quando em quando, ou tomava uma pitada, mas tornava logo aos jornais e lia a valer.

No fim de algum tempo – dez ou doze minutos – Raimundo meteu a mão no bolso das calças e olhou para mim. 


– Sabe o que tenho aqui?
– Não.
– Uma pratinha que mamãe me deu.
– Hoje?
– Não, no outro dia, quando fiz anos…
– Pratinha de verdade?
– De verdade.

Tirou-a vagarosamente e mostrou-me de longe. Era uma moeda do tempo do rei, cuido que doze vinténs ou dois tostões, não me lembra; mas era uma moeda, e tal moeda que me fez pular o sangue no coração. Raimundo revolveu em mim o olhar pálido; depois perguntou-me se a queria para mim. Respondi-lhe que estava caçoando, mas ele jurou que não.

– Mas então você fica sem ela?
– Mamãe depois me arranja outra. Ela tem muitas que vovô lhe deixou, numa caixinha; algumas são de ouro. Você quer esta?

Minha resposta foi estender-lhe a mão disfarçadamente, depois de olhar para a mesa do mestre. Raimundo recuou a mão dele e deu à boca um gesto amarelo, que queria sorrir. Em seguida propôs-me um negócio, uma troca de serviços; ele me daria a moeda, eu lhe explicaria um ponto da lição de sintaxe. Não conseguira reter nada do livro e estava com medo do pai. E concluía a proposta esfregando a pratinha nos joelhos…

Tive uma sensação esquisita. Não é que eu possuísse da virtude uma idéia antes própria de homem; não é também que não fosse fácil em empregar uma ou outra mentira de criança. Sabíamos ambos enganar ao mestre. A novidade estava nos termos da proposta, na troca de lição e dinheiro, compra franca, positiva, toma lá, dá cá; tal foi a causa da sensação. Fiquei a olhar para ele, à toa, sem poder dizer nada.

Compreende-se que o ponto da lição era difícil e que o Raimundo, não o tendo aprendido, recorria a um meio que lhe pareceu útil para escapar ao castigo do pai. Se me tem pedido a coisa por favor, alcançá-la-ia do mesmo modo, como de outras vezes; mas parece que a lembrança das outras vezes, o medo de achar a minha vontade frouxa ou cansada, e não aprender como queria – e pode ser mesmo que em alguma ocasião lhe tivesse ensinado mal -, parece que tal foi a causa da proposta. O pobre-diabo contava com o favor – mas queria assegurar-lhe a eficácia, e daí recorreu à moeda que a mãe lhe dera e que ele guardava como relíquia ou brinquedo; pegou dela e veio esfregá-la nos joelhos, à minha vista, como uma tentação… Realmente, era bonita, fina, branca, muito branca; e para mim, que só trazia cobre no bolso, quando trazia alguma coisa, um cobre feio, grosso, azinhavrado…

Não queria recebê-la e custava-me recusá-la. Olhei para o mestre, que continuava a ler, com tal interesse, que lhe pingava o rapé do nariz.

– Ande, tome – dizia-me baixinho o filho.

E a pratinha fuzilava-lhe entre os dedos, como se fora diamante… Em verdade, se o mestre não visse nada, que mal havia? E ele não podia ver nada, estava agarrado aos jornais, lendo com fogo, com indignação…

– Tome, tome…

Relanceei os olhos pela sala, e dei com os do Curvelo em nós; disse ao Raimundo que esperasse. Pareceu-me que o outro nos observava, então dissimulei; mas daí a pouco, deitei-lhe outra vez o olho e – tanto se ilude a vontade! – não lhe vi mais nada. Então cobrei ânimo.

– Dê cá…

Raimundo deu-me a pratinha, sorrateiramente; eu meti-a na algibeira das calças, com um alvoroço que não posso definir. Cá estava ela comigo, pegadinha à perna. Restava prestar o serviço, ensinar a lição, e não me demorei em fazê-lo, nem o fiz mal, ao menos conscientemente; passava-lhe a explicação em um retalho de papel, que ele recebeu com cautela e cheio de atenção. Sentia-se que despendia um esforço cinco ou seis vezes maior para aprender um nada; mas contanto que ele escapasse ao castigo, tudo iria bem.

De repente, olhei para o Curvelo e estremeci; tinha os olhos em nós, com um riso que me pareceu mau. Disfarcei; mas daí a pouco, voltando-me outra vez para ele, achei-o do mesmo modo, com o mesmo ar, acrescendo que entrava a remexer-se no banco, impaciente. Sorri para ele e ele não sorriu; ao contrário, franziu a testa, o que lhe deu um aspecto ameaçador. O coração bateu-me muito.

– Precisamos muito cuidado – disse eu ao Raimundo.
– Diga-me isto só – murmurou ele.

Fiz-lhe sinal que se calasse; mas ele instava, e a moeda, cá no bolso, lembrava-me o contrato feito. Ensinei-lhe o que era, disfarçando muito; depois, tornei a olhar para o Curvelo, que me pareceu ainda mais inquieto, e o riso, dantes mau, estava agora pior. Não é preciso dizer que também eu ficara em brasas, ansioso que a aula acabasse; mas nem o relógio andava como das outras vezes nem o mestre fazia caso da escola; este lia os jornais, artigo por artigo, pontuando-os com exclamações, com gestos de ombros, com uma ou duas pancadinhas na mesa. E lá fora, no céu azul, por cima do morro, o mesmo eterno papagaio, guinando a um lado e outro, como se me chamasse a ir ter com ele. Imaginei-me ali, com os livros e a pedra embaixo da mangueira, e a pratinha no bolso das calças, que eu não daria a ninguém, nem que me serrassem; guardá-la-ia em casa, dizendo a mamãe que a tinha achado na rua. Para que me não fugisse, ia-a apalpando, roçando-lhe os dedos pelo cunho, quase lendo pelo tato a inscrição, com uma grande vontade de espiá-la.


– Oh! Seu Pilar! – bradou o mestre com voz de trovão.

Estremeci como se acordasse de um sonho e levantei-me às pressas. Dei com o mestre, olhando para mim, cara fechada, jornais dispersos, e ao pé da mesa, em pé, o Curvelo. Pareceu-me adivinhar tudo.

– Venha cá! – bradou o mestre.

Fui e parei diante dele. Ele enterrou-me pela consciência dentro um par de olhos pontudos; depois chamou o filho. Toda a escola tinha parado; ninguém mais lia, ninguém fazia um só movimento. Eu, conquanto não tirasse os olhos do mestre, sentia no ar a curiosidade e o pavor de todos.

– Então o senhor recebe dinheiro para ensinar as lições aos outros? – disse-me o Policarpo.
– Eu…
– Dê cá a moeda que este seu colega lhe deu! – clamou.

Não obedeci logo, mas não pude negar nada. Continuei a tremer muito. Policarpo bradou de novo que lhe desse a moeda, e eu não resisti mais, meti a mão no bolso, vagarosamente, saquei-a e entreguei-lha. Ele examinou-a de um e outro lado, bufando de raiva; depois estendeu o braço e atirou-a à rua. E então disse-nos uma porção de coisas duras, que tanto o filho como eu acabávamos de praticar uma ação feia, indigna, baixa, uma vilania, e para emenda e exemplo íamos ser castigados. Aqui pegou da palmatória.

– Perdão, seu mestre… – solucei eu.
– Não há perdão! De cá a mão! Dê cá! Vamos! Sem-vergonha! Dê cá a mão!
– Mas, seu mestre…
– Olhe que é pior!

Estendi-lhe a mão direita, depois a esquerda, e fui recebendo os bolos uns por cima dos outros, até completar doze, que me deixaram as palmas vermelhas e inchadas. Chegou a vez do filho, e foi a mesma coisa; não lhe poupou nada, dois, quatro, oito, doze bolos. Acabou, pregou-nos outro sermão. Chamou-nos sem-vergonhas, desaforados, e jurou que se repetíssemos o negócio, apanharíamos tal castigo que nos havia de lembrar para todo o sempre. E exclamava: “Porcalhões! Tratantes! Faltos de brio!”

Eu, por mim, tinha a cara no chão. Não ousava fitar ninguém, sentia todos os olhos em nós. Recolhi-me ao banco, soluçando, fustigado pelos impropérios do mestre. Na sala arquejava o terror; posso dizer que naquele dia ninguém faria igual negócio. Creio que o próprio Curvelo enfiara de medo. Não olhei logo para ele, cá dentro de mim jurava quebrar-lhe a cara, na rua, logo que saíssemos, tão certo como três e dois serem cinco.

Daí a algum tempo olhei para ele; ele também olhava para mim, mas desviou a cara, e penso que empalideceu. Compôs- se e entrou a ler em voz alta; estava com medo. Começou a variar de atitude, agitando-se à toa, coçando os joelhos, o nariz. Pode ser até que se arrependesse de nos ter denunciado; e, na verdade, por que denunciar-nos? Em que é que lhe tirávamos alguma coisa?

“Tu me pagas! Tão duro como osso!”, dizia eu comigo.

Veio a hora de sair, e saímos; ele foi adiante, apressado, e eu não queria brigar ali mesmo, na Rua do Costa, perto do colégio; havia de ser na rua larga de S. Joaquim. Quando, porém, cheguei à esquina, já o não vi; provavelmente escondera-se em algum corredor ou loja; entrei numa botica, espiei em outras casas, perguntei por ele a algumas pessoas, ninguém me deu notícia. De tarde faltou à escola.

Em casa não contei nada, é claro; mas para explicar as mãos inchadas, menti a minha mãe, disse-lhe que não tinha sabido a lição. Dormi nessa noite, mandando ao diabo os dois meninos, tanto o da denúncia como o da moeda. E sonhei com a moeda; sonhei que, ao tornar à escola, no dia seguinte, dera com ela na rua e a apanhara, sem medo nem escrúpulos…

De manhã, acordei cedo. A ideia de ir procurar a moeda fez-me vestir depressa. O dia estava esplêndido, um dia de maio, sol magnífico, ar brando, sem contar as calças novas que minha mãe me deu, por sinal que eram amarelas. Tudo isso, e a pratinha… Saí de casa, como se fosse trepar ao trono de Jerusalém. Piquei o passo para que ninguém chegasse antes de mim à escola; ainda assim não andei tão depressa que amarrotasse as calças. Não que elas eram bonitas! Mirava-as, fugia aos encontros, ao lixo da rua…

Na rua encontrei uma companhia do batalhão de fuzileiros, tambor à frente, rufando. Não podia ouvir isto quieto. Os soldados vinham batendo o pé rápido, igual, direita, esquerda, ao som do rufo; vinham, passaram por mim e foram andando. Eu senti uma comichão nos pés, e tive ímpeto de ir atrás deles. Já lhes disse: o dia estava lindo, e depois o tambor… Olhei para um e outro lado; afinal, não sei como foi, entrei a marchar também ao som do rufo, creio que cantarolando alguma coisa: Rato na casaca... Não fui à escola, acompanhei os fuzileiros, depois enfiei pela Saúde e acabei a manhã na Praia da Gamboa. Voltei para casa com as calças enxovalhadas, sem pratinha no bolso nem ressentimento na alma. E contudo a pratinha era bonita e foram eles, Raimundo e Curvelo, que me deram o primeiro conhecimento, um da corrupção, outro da delação; mas o diabo do tambor…

 

FELIZ aniversário, meu amor!

FICA mais experiente hoje aquela que me acompanha há quase nove anos. Na verdade, sou eu quem a acompanho, pois decidi há alguns anos trocar os ares nortistas por esta bela região. Portanto, só agradeço a Deus por ela ter aceitado a minha companhia. 

Um dia antes de dormir, cansado, prostrei-me e pedi ao Pai que me desse uma companheira. Essa mulher teria que ser para mim uma amiga, uma verdadeira amiga, honesta e trabalhadora. Então Deus me fez conhecê-la.

E nem precisava ser tão bonita!

Conheci Bernardete Kleinibig, aqui de Dois Vizinhos, sudoeste do Paraná. Eu, lá do Pará, cruzei sete estados brasileiros e me bandeei para esta região.

Aqui estou desde então. Não me arrependi.

O Pai sempre te dá bem mais que aquilo que lhe pedes.   

Por meio das imagens em vídeo (acima) quero externar minha singela e sincera homenagem a essa grande mulher, que o bom Deus pôs em minha vida.

Que Deus sempre te abençoe, meu amor!