MACHADO de Assis!

Maria Cora

Machado início

UMA noite, voltando para casa, trazia tanto sono que não dei corda ao relógio. Pode ser também que a vista de uma senhora que encontrei em casa do comendador T… contribuísse para aquele esquecimento; mas estas duas razões destroem-se. Cogitação tira o sono e o sono impede a cogitação; só uma das causas devia ser verdadeira. Ponhamos que nenhuma, e fiquemos no principal, que é o relógio parado, de manhã, quando me levantei, ouvindo dez horas no relógio da casa.

Morava então (1893) em uma casa de pensão no Catete. Já por esse tempo este gênero de residência florescia no Rio de Janeiro. Aquela era pequena e tranqüila. Os quatrocentos contos de réis permitiam-me casa exclusiva e própria; mas, em primeiro lugar, já eu ali residia quando os adquiri, por jogo de praça; em segundo lugar, era um solteirão de quarenta anos, tão afeito à vida de hospedaria que me seria impossível morar só. Casar não era menos impossível. Não é que me faltassem noivas. Desde os fins de 1891 mais de uma dama, — e não das menos belas, — olhou para mim com olhos brandos e amigos. Uma das filhas do comendador tratava-me com particular atenção. A nenhuma dei corda; o celibato era a minha alma, a minha vocação, o meu costume, a minha única ventura. Amaria de empreitada e por desfastio. Uma ou duas aventuras por ano bastavam a um coração meio inclinado ao ocaso e à noite.

Talvez por isso dei alguma atenção à senhora que vi em casa do comendador, na véspera. Era uma criatura morena, robusta, vinte e oito a trinta anos, vestida de escuro; entrou às dez horas, acompanhada de uma tia velha. A recepção que lhe fizeram foi mais cerimoniosa que as outras; era a primeira vez que ali ia. Eu era a terceira. Perguntei se era viúva.

— Não; é casada.

— Com quem?

— Com um estancieiro do Rio Grande.

— Chama-se?

— Ele? Fonseca, ela Maria Cora.

— O marido não veio com ela?

— Está no Rio Grande Continue lendo

AMANHÃ os pássaros cantarão!

Luzes da Cidade

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HÁ ARTISTAS que não morrem jamais; seus feitos são eternos e nunca serão esquecidas. É o caso do imortal Charles Spencer Chaplin, com sua extensa e magnífica obra, que legou à humanidade por meio das telas de cinema.

Charlie (como era chamado nos Estados Unidos) fez de quase tudo no cinema. Foi escritor, ator, diretor, dançarino, músico, roteirista e empresário. Assim, ele próprio escreveu, atuou, dirigiu, compôs música, cantou, produziu e financiou seus próprios filmes. Também foi, juntamente com mais três personalidades famosas de Hollywood, fundador da companhia de cinema United Artists, hoje sob controle da MGM. Consta que tenha sido também talentoso enxadrista.

O artista britânico é, sem nenhuma dúvida, o maior nome do cinema mundial, o mais homenageado cineasta de todos os tempos, um cidadão do mundo, como o próprio Charlie se considerava.

Pois bem!

Nesta mesma semana estava a rever pela enésima vez a película clássica “Luzes da Cidade“, de 1931, mais uma obra imortal do genial Chaplin. Nessa época o cinema mudo já se encontrava em declínio, vez que há quatro anos, com “O Cantor de Jazz”, o mundo entrava na era do cinema falado. Não obstante, o filme foi um campeão de bilheterias.

Sim. Porque há obras de arte que precisam e merecem ser vistas ou lidas por mais de uma vez. E no caso dessa extraordinária película não é suficiente ver uma ou duas, mas toda uma existência. Não está presente nela apenas a comédia em si mesma — como se isso fosse pouco, pois, como diz o adágio popular, rir é o melhor remédio. Há em “Luzes da Cidade”, além do riso e da mera diversão, a mensagem, a poesia, o lirismo, o onírico, cabendo à subjetividade poética do expectador captá-las.

Por essas razões — também — as obras de Chaplin me encantam; por tais motivos merecem ser apreciadas pela vida inteira. E a cada vez que se aprecia tal beleza de arte, a poesia e o sonho, como que em mágica, se reapresentam, revelando-se cada vez de uma faceta diferente da anterior, mostrando ai expectador maravilhado uma nova silhueta ou perfil . Continue lendo

MALBA Tahan!

Mustafá, o servo leal


(Continuação da postagem de 10nov2017, O burro amarelo, bem burro e bem amarelo)

ALLAHUR abkbar! (Deus é grande!) Retomo, agora a minha narrativa já mais de uma vez interrompida. A lenda do “Burro amarelo, bem amarelo”, referida com tanta eloquência e oportunidade pelo erudito calculista Zoraik, foi ouvida em meio do maior silêncio. Duas ou três vezes assaltou-me o desejo de interpelar o narrador e isso acontecia sempre suas palavras feriam pontos delicados de nossa doutrina. Contive-me, porém, e conservei-me imóvel e silencioso, como um túmulo, entre o bom cego e o mestre-escola.

Coube a Zualil, o egípcio, que era, na verdade, o caid el-markahn, a grata incumbência de fazer o elogio do narrador. O nosso amigo, pondo-se de pé rapidamente, ajeitou o turbante,meditou alguns instantes de mãos na cintura, com desembaraço e simpatia, e assim falou:

— É fácil coroar com rutilantes elogios as narrativas que nos divertem, educam e encantam. Tal é o caso da lenda do “burro amarelo”, que acabamos de ouvir. Envolve sábios conceitos, inesquecíveis ensinamentos e judiciosas conclusões. Leva-nos a meditar sobre terríveis malefícios da cegueira espiritual que, embora não atinga os olhos, fecha para sempre o coração. Aquele que não enxergar, por ter cegado para o mundo, tropeça pelas estradas; aquele que é obliterado pela cegueira espiritual, e repele a Lei divina, não pode ter paz na vida, e rola pelos abismos do desespero. Guiemos os cegos de espírito pelas veredas do bem e da verdade. O guia para eles será a salvação. Quero finalizar esta rápida apreciação recordando os versos de um cego – versos nos quais o poeta exalta o poder do amor materno:

Não choro a minha cegueira

Choro a falta do meu guia;

Minha mãe, quando era viva,

Eu era um cego que via

E as palavras de Zualil tinham aquela consonância agradável que o leve sotaque egípcio tornara mais sugestiva.

— Que lindos versos! — comentei alçando a voz para que todos me ouvissem. — E terão, como as encantadoras trovas da “Flor da Saudade”, a força mágica que pertuba os homens?

— força mágica? — estranhou Zualil arregalando os olhos — Qahyat en-nébi! Como descobriste força mágica em meus versos?

Era meu dever esclarecer a dúvida. Recapitulei, portanto, ao egípcio, com todas as minúcias, o singular episódio que ocorrera quando voltávamos da casa do corretor Bechara. Contei que um jovem, pobremente vestido, aceitara o convite para ouvir a lenda das “Sete pontas do quadrado”. Exigira, apenas, como pagamento duas fatias de pão. E vinha o mendigo, muito tranquilo a meu lado, quando me ouviu declamara os versos da “Flor da saudade”:

Saudade, flor que desperta

Tristeza no coração;

Saudades do que se foram

Dos que não voltam mais não!

Com palavras mal articuladas, indagou o rapaz qual era o autor daqueles versos. Respondi como devia, pois não me pareceu justo ocultar a verdade. Operou-se, nesse instante, a força mágica dos versos. O desconhecido atirou por terra o turbante e fugiu a correr como um louco. E tal foi o ímpeto de sua fuga que julgamos impossível tentar evitá-la.

A revelação daquele caso — que para nós não passava de um banal acidente de rua — causou em Zualil um abalo indescritível. Cobriu-se-lhe o rosto de alegria. Todo seu corpo tremia. Tive a impressão de que a tatuagem que lhe cobria o dorso da mão esquerda tornara-se mais azulada.
Sacudiu-me pelo ombro com convulsiva energia e interpelou-me febricitante, numa agiração que só um ataque de loucura poderia justificar:
— Que rapaz foi esse? É mesmo certo que fugiu ao ouvir o meu nome? Onde estava? Ualalu! Quero saber a verdade! O rapaz era moreno? Trazia um punhal na cintura? Como estava vestido?
Assediado pelas aflitivas perguntas do egípcio, senti-me confuso e estonteante. O mestre-escola veio em meu auxílio, e com a maior calma, como se estivesse diante de um discípulo, forneceu ao conturbado egípcio todos os informes exigidos.
Ocorreu, nesse momento, uma cena inesperada que nos deixou no espírito indelével lembrança.

Zualiu, com a face iluminada de intensa alegria, perdeu a compostura e pôs-se a pular nomeio da sala e a gritar como um possesso agitando os braços:

— Estamos ricos! Louvado seja o sapientíssimo! Estamos ricos!
Havia no estupendo homem o que quer que o arrebatava da realidade para o mundo fictício das alegrias estonteantes.
— Infeliz amigo! — deplorei com sincera lástima — Assaltou-o perigoso ataque de demência! Ouve falar da fuga de um mendigo e conclui que vai receber todas as riquezas do gênio de Aladim!
Olhei para o mestre-escola, para o calculista e para o botânico. Li nas fisionomias que todos eles compartilhavam da minha opinião em relação ao estado mental do egípcio. O cego não se moveu. Permaneceu como estava, sentado no tapete, com a cabeça baia apoiada nas mãos.
Ao notar a estranheja com que recebíamos as suas exaltadas manifestações de alegria, achou Zualil que era seu dever esclarecer aquela cena que tivera por origem a “Flor da saudade”. Passeou a mão pela fronte, pelos olhos e impando de satisfação, contou-nos o seguinte:
— As informações que ouvi dos amigos trouxeram-me a convicção de que esse jovem que fugiu desatinadamente ao ouvir o meu nome — revelado por causa dos versos — é o meu servo Mustafá. Como já tive ocasião de contar, em Damasco, sob ameaça de morte, confiei todos os meus haveres a Mustafá e ordenei que seguisse para o Iraque. Combinamos um encontro em certo recanto desta cidade; não nos foi possível, porém, comparecer no dia marcado, e desencontrei-me do homem que conduzia o meu tesouro. Passaram-se muitos meses. Nunca mais o encontrei. Julguei-o morto ou desaparecido. Já havia perdido a esperança de recuperar toda a minha fortuna quando sou avisado de que Mustafá se acha nesta cidade e que foi informado de meu paradeiro. É certo que, dentro em pouco, virá procurar-me.
— Deixemos de sonhos e devaneios — objetei com um gesto incrédulo — Não creio que Mustafá apareça nesta casa! Admitamos que era ele, precisamente, o mendigo que vimos fugir pela estrada. Pela situação miseranda em que o encontramos, faminto e andrajoso, implorando fatias de pão, não devia trazer consigo tesouro algum! é lá admissível que um homem que tem em seu poder várias dezenas de rubis e mancheias de brilhantes, passe privações pelas estradas de Bagdá!? A verdade é outra. Mustafá fugiu porque não desejava avistar-se com o seu amo. Não pretende prestar contas do tesouro que lhe foi confiado.
Zualil franziu o rosto numa negação e recriminou sem titubear, resforçando-se por ser claro e decidido:
— Duvidas da integridade e das boas intenções de Mustafá? Não acreditas na lealdade do humilde servo? A fuga é perfeitamente justificável. No momento em que recebeu a notícia de minha presença nesta casa, trazia em seu poder o cinto que contem as gemas preciosas. Sem revelar o segredo, correu para ir buscá-lo. Para maior segurança, deixara o tesouro bem oculto em lugar secreto. Fiquem certos de que dentro de alguns momentos ele aparecerá aqui.
E já mais calmo, sempre confiante, o egípcio prosseguiu com gesto bem composto:
— Grandes males advém para o mundo da falta de mútua confiança entre os homens. Esforcemo-nos por acreditar naqueles que nunca fizeram por desmerecer de nossa confiança. Evitemos os juízos temerários; as suposições caluniosas e infundadas.  Arranquemos de nossos corações todas as suspeitas, inveja e rancor e tudo mais que possa abalar a caridade e diminuir o amor fraterno.
E, depois de ligeira pausa, acrescentou sem se dirigir a nenhum de nós:
— Logo que Mustafá chegue, entrarei na posse de todo meu tesouro e serei um dos homens mais ricos desta cidade. Quero, pois, demonstrar que sou generoso com os amigos.
Dirigindo-se ao matemático Dorak, declarou jubiloso com um clarão de simpatia na face:
— Vais receber, meu amigo, quinze mil dinares-ouro e vinte camelos de boa raça. O mesmo presente darei ao mestre-escola, ao preclaro botânico e ao cego que nos acompanhou!
E a seguir voltou-se para mim e disse avigorando a frase com intencional demora:
— Ao dono desta casa, que tão gentilmente me acolheu, oferecerei, como prova de minha gratidão, trinta mil dinares-ouro e quarenta camelos de boa raça. O dobro precisamente! Lembras-te do que te disse? Estás com a baraka! A fortuna veio ao teu encontro!

Aquele homem singular, que na realidade nada tinha de seu, imaginava-se riquíssimo e distribuía promessas de ouro por todos nós. Era de admirar a delicadeza de sua sensibilidade e o incomparável primor de seu idealismo.

Fez-se largo silêncio.

De repente, o cego ergueu-se às apalpadelas e declarou, num gesto de espanto, com voz trêmula:

— Atenção, meus amigos! Alguém acaba de chegar! Ouço passos no jardim!

Corri alvoroçado para a porta que tinha serventia para o jardim, descerrei-a e olhei para fora.

O quadro que caiu sob meus olhos deixou-me estarrecido.

Junto à escada, com sua djalaba esfrangalhada, de joelhos, com o busto inclinado e apoiando as palmas das mãos na terra, estava o jovem que fugira de nós pela estrada. Era Mustafá, o servo fiel. Magro, andrajoso, rosto macerado por grandes sofrimentos, a sua figura inspirava piedade. A cair de fome, exausto de fadiga, viera restituir o tesouro que o xeique o havia encarregado de guarda. O olhar de suas pupilas fundas era o único ponto animado de sua fisionomia quase enegrecida pelo sol do deserto.

Não me ocorrem aqui palavras com que possa descrever a alegria de Zualil. Vimo-lo atirar-se aos braços de Mustafá e chorar como uma criança.

Aquela cena deixou-nos emocionados.

O mestre-escola, sempre sereno e judicioso, ponderou que seria mais acertado limitar, naquele momento, as expansões naturais de alegria. Fazia-se mister, no primeiro momento, socorrer o famélico Mustafá antes que o keif da jornada o abatesse para sempre.

E assim fizemos. Merecia o dedicado servo as nossas atenções. Procurei cercá-lo de todas as honras, pois pesava-me na consciência o feio crime de ter duvidado de sua inquebrantável lealdade.

Aquele jovem era, para mim, uma autêntica figura de lenda. Atravessara o deserto, enfrentara os tremendos gasus, livrara-se dos beduínos e aventureiros, sofrera inenarráveis privações, mas não esmorecera e não claudicara, num só momento, no cumprimento do dever.

Depois de reconfortado com fina e abundante merenda, retirou Mustafá o cinto que trazia oculto sob a túnica. Continha o prodigioso cinto, pela sua parte interna, lindíssima coleção de rubis e brilhantes. Aquelas gemas, vendidas em Bagdá, dariam mais de duzentos mil dinares.

Como eram lindas aquelas pedrinhas vermelhas! Pareciam gotas de sangue cristalizadas. Era um prazer segurá-las e senti-las pesar na concha da mão.

O único que não desejou sopesar as pedras preciosas foi o cego.

Disse afinal Mustafá, dirigindo-se placidamente a seu amo, o xeique Zualil:

— Infelizmente não me foi possível trazer a coleção completa. Fui obrigado a desfazer-me de um rubi. Trago aqui oitenta e nove, quando na realidade, ao partir para Damasco, havia recebido noventa.

— Não importa! sobreveio atencioso o egípcio — Seria irrisório tomar-se em consideração tão insignificante perda. É possível até que tenha se desprendido durante a viagem.

Fim! 

NESTA data querida!

Um homem é feliz de verdade quando vê seu semelhante feliz

E NO CASO de um pai, este se dá por feliz quando vê seus filhos felizes. Então, hoje, já recebi o meu presente de aniversário: ver que meus filhos estão felizes.

A vida me ensinou que a gente deve se pôr do outro lado do balcão e pensar no outro. Como ele vive, como ele se sente, quais são suas perspectivas… Então, me incomoda ao ver meu semelhante infeliz ou em dificuldades; por outro lado, sinto-me feliz ao ver bem o meu irmão. É a prática do amor preconizado pelo Divino Mestre, Nosso Senhor Jesus Cristo!

Hoje, agradeço primeiramente ao bom Deus por me permitir chegar ao 57º novembro de minha existência. Agradeço ao Pai por isso e por gozar de saúde e, principalmente, reconciliado com Ele, que nunca me desamparou em momento algum de minha vida.

Mas também devo agradecer a todos os amigos, colegas, de aqui — Dois Vizinhos, Paraná, onde fixei raízes –, e igualmente de todos os recantos do Brasil (e também de outros países), que, por meio das redes sociais, telefone, ou mesmo pessoalmente, vêm se manifestando e me passando mensagens de um “Feliz aniversário”.

E foram muitos. Sinto-me abraçado por todos vocês, meus queridos amigos. Muito obrigado a todos, meus irmãos!

 

Minha felicidade maior, entretanto, foi receber um beijo de minha amada Bernardete, acompanhado de um “feliz aniversário”. Igualmente sou feliz ao acompanhar, mesmo que seja por fotografia e imagens, meus netos Raphaël, filho da Cris e do Stépanhe; a Chloé, filha da Fernanda e do Olivier, que ora residem na Suíça; e também do mais novo neto, o pequeno Lucas, filho da Aline Christina, cidadãos norte-americanos. Todos multirraciais, com o meu sangue negro, índio e branco, que circula pelo mundo.

Ainda abraço e recebo o carinho de minha caçula Alice Maria.

 

No todo, este ano de 2017, vem repleto de bênçãos.

 

A vida sempre vale a pena!

Obrigado, Senhor! Obrigado, meu Deus!

A HORA do mais fraco!

JAMAIS esqueci certa tarde quando, num estádio de futebol, um grupo de jovens não autorizados adentrou de repente o campo de jogo. Não lembro a que pretexto. Imediatamente, alguns policiais se puseram a correr atrás dos invasores a fim de retirá-los do gramado.

Chovia. Chovia forte.

Um deles me chamou a atenção pois estava a perseguir um dos rapazes, que, mais jovem que seu perseguidor, era veloz e ágil, e, quando estava por ser alcançado, se livrava o guarda com destreza, dando guizas para lá e para cá. Se alcançado, era bem possível que sofresse violência, levando uns pescoções ou pontapés no traseiro, além de ser recolhido ao xadrez do estádio.

Foi quando o milico, em razão da chuva, escorregou e caiu de bunda espetacularmente na grama lisa. Diante da cena inusitada e não se contendo, o estádio inteiro caiu em sonora gargalhada, e em seguida aplicou à vítima uma tremenda vaia.

O polícia não se machucou, mas com certeza a humilhação pública sofrida lhe doeu deveras e deve lembrar até hoje do triste episódio.

Cena semelhante encontrei num clássico de Chaplin. A diferença que, em vez de escorregar e cair no chão,  o policial leva de Carlitos um pontapé nos glúteos. A cena, protagonizada pelo genial vagabundo, gera ato um efeito bastante cômico, ocasionando gostosas gargalhadas por parte do público.

Do estádio para as telas; destas para as páginas de um livro.

Machado de Assis tem uma maneira mui peculiar de narrar.

Relendo o conto “Pobre Cardeal“, vejo que Machado é uma espécie de narrador apresentador. Nessa obra ele introduz ao leitor um segundo narrador — Martins Netto, o homem mais alegre do século –, que, por sua vez, conta um caso narrado por um terceiro (o capitão José Leandro).

Pois bem! O caso, narrado a Martins Netto pelo capitão José Leandro, quando este ainda era menino, se passa na época de El-rei. O protagonista é João da Cruz, um pobre-diabo, que, vivia de pequenos golpes. É o que se infere da leitura. Então, alegando luto pelo falecimento de um núncio de quem se dizia muito amigo, consegue de um general português — portanto, um poderoso — que este lhe lhe presenteie roupas novas, sapatos e chapéu, enxoval condigno com a sua presença nas exéquias do importante religioso recém-falecido, em vez de seus trapos velhos e sujos. Elegante, na verdade, o anti-herói aplica uma senhora mentira ao general, porquanto, quando muito tenha falado ao núncio (de forma absolutamente casual) uma ou duas vezes. Jamais fora do religioso um protegido, muito menos amigo íntimo.

João da Cruz em toda a sua vida usa desses expedientes, pelo que se depreende, dando suas caneladas aqui e ali; vai assim sobrevivendo. Não por acaso vê-se agora — já na época de Pedro II — enrolado num processo criminal (letras falsas). Não à toas que (retoma a narrativa Martins Netto) em 1851 encontra-se o malandro na condição de réu em julgamento pelo crime de falsificação. Reunidos os membros do conselho de sentença, cabe ao narrador o voto de minerva. Ora, exatamente em razão dessa fraude, que ocorrera trinta e quatro anos antes (1817), João acaba por ser absolvido com o voto de Martins Netto. A razão? Ter empulhado o general, homem rico e importante, uma autoridade pública.

Foi esse pequeno golpe que rendeu a ele — ainda que não tivesse a mínima noção disso — a absolvição. Ganhou a liberdade, ainda que o júri não tivesse convicção de sua inocência, por ter empulhado um general.

Tivesse ele, no passado, logrado um cidadão comum, certamente nesta segunda ocasião teria sido condenado. Martins Netto, embora fosse considerado o homem mais alegre do século, confessa trazer essa ponta de melancolia; uma pitada de remorso. Tudo indica que o malandro fosse culpado na questão das letras falsas, razão pela qual foi parar nas barras do tribunal. O malandro, ao que tudo indica, evoluiu na carreira. É o que dá a entender o trecho “De quando em quando tomava rapé; reparei logo que a boceta era de ouro.” Mas Martins Netto não fez caso, pois só lembrava da empulhação de 1817, e isso era o que valia.

No final, retomando a narrativa inicial, o narrador-personagem, amigo íntimo de Martins Neto, como que a lhe consolar diz que “tudo são mistérios indecifráveis”, ainda que “os fatos e os tempos ligam-se por fios invisíveis.  Suponha que o João da Cruz não tem empulhado o general em 1817, não teria sido absolvido pelo seu voto em 1851, você não teria uma ponta de remorso, nem eu este conto.”

Durante algum tempo me peguei a sorrir ou mesmo dar risadas discretas ao imaginar a cena do pobre-diabo João da Cruz engambelando o general, que, crendo no luto sincero do mentiroso, acabou por lhe franquear alfaiate, sapateiro e chapelaria.

Sobre a partida de futebol, não me perguntem qual foi o resultado. Não lembro e isso não interessa. O que cabe aqui é o fundo moral. O que há em comum nesses três episódios, um real;  os outros dois, fictícios? Por que as três situações provocam risos?

Exatamente por terem sido vítimas a parte mais forte, os três personagens — o policial do estádio, o do filme e o general do conto — representam o Estado opressor, a autoridade, contra elementos do povo, representado aí pelo jovem do estádio, o vagabundo do cinema e o pobre-diabo de 1817, que, ainda que momentaneamente vencem o mais forte. E o povo, mesmo que eventual, se vinga do poderoso pelo escárnio, anônimo ou coletivo, contra o qual a autoridade nada pode fazer.

Os episódios representam uma das múltiplas facetas do comportamento humano: simpatizar com o mais fraco, ainda que por um minuto ao menos. Depois é tocar a vida, dura como ela é.

Pobre cardeal!

GAUCHESCAS do Valentim!

Jayme Caetano Braun: Bochincho

A UM BOCHINCO – certa feita,
Eu Fui chegando – de curioso,
Que o vicio – é que nem sarnoso,
nunca pára – nem se ajeita.
Baile de gente direita
Eu vi, de pronto, que não era,
Na noite de primavera
Gaguejava a voz dum tango
E eu sou louco por fandango
Que nem pinto por quirera.

Atei meu baio – longito,
Num galho de guamirim,
Desde guri eu fui assim,
Não brinco nem facilito.
Em bruxas não acredito
‘Pero – que las hay, las hay’,
Eu sou da costa do Uruguai,
Meu velho pago querido
E por andar desprevenido
Há tanto guri sem pai.

No rancho de santa-fé,
De pau-a-pique barreado,
Num trancão de convidado
Eu me entreverei no banzé.
O chinaredo à bola-pé,
No ambiente fumacento,
Um candieiro, bem no centro,
Num lusco-fusco de aurora,
Pra quem chegava de fora
Pouco enxergava ali dentro!

Dei de mão numa tiangaça
Que me cruzou no costado
E já sai entreverado
Entre a poeira e a fumaça,
Oigalê china lindaça,
Morena de toda a clina,
Dessas da venta brasina,
Com cheiro de lechiguana
Que quando ergue uma pestana
Até a noite se ilumina.

Misto de diaba e de santa,
E com ares de quem é dona
E um gosto de temporona
Que traz água na garganta.
E eu me grudei na percanta
O mesmo que um carrapato
O gaiteiro era um mulato
Que até dormindo tocava
E a gaita choramingava
Como namoro de gato!

A gaita velha gemia,
Ás vezes quase parava,
De repente se acordava
E num vanerão se perdia
E eu – contra a pele macia
Daquele corpo moreno,
Sentia o mundo pequeno,
Bombeando cheio de enlevo
Dois olhos – flores de trevo
Com respingos de sereno!

Mas o que é bom se termina
– Cumpriu-se um velho ditado,
Eu que dançava, embalado,
Nos braços doces da china
Escutei – de relancina,
Uma espécie de relincho,
Era o dono do bochincho,
Meio oitavado num canto,
Que me olhava – com espanto,
Mais sério do que um capincho!

Foi ele que se veio,
Pois era dele a pinguancha,
Bufando e abrindo cancha
Como dono do rodeio.
Quis me partir pelo meio
Cum talonaço de adaga
Que – se me pega – me estraga,
Chegou levantar um cisco,
Mas não é a toa – chomisco!
Que sou de São Luiz Gonzaga!

Meio na curva do braço
Eu consegui tirar o talho
Mas quase que me atrapalho
Porque havia pouco espaço,
Mas senti o calor do aço
E o calor do aço arde,
Me levantei – sem alarde,
Por causa do desaforo
E soltei meu marca touro
Num medonho buenas-tarde!

Eu tenho visto coisa feia,
Tenho visto judiaria,
Mas hoje ainda me arrepia
Lembrando aquela peleia,
Talvez quem ouça – não creia,
Mas vi nascer no pescoço,
Do índio do berro grosso
Como uma cinta vermelha
E desde o beiço até a orelha
Ficou relampeando o osso!

O índio era um índio touro,
Mas até touro se ajoelha,
Cortado do beiço a orelha
Amontoou-se como um couro
E amigos foi um estouro,
Daqueles que dava medo,
Espantou-se o chinaredo
E aquilo – foi uma zoada,
Parecia até uma eguada
Disparando num varzedo!

Não há quem pinte o retrato
Dum bochincho – quando estoura,
Tinidos de adaga – espora
E gritos de desacato.
Berros de quarenta e quatro
De cada canto da sala
E a velha gaita baguala
Num vanerão pacholento,
Fazendo acompanhamento
Do turumbamba de bala!

É china que se escabela,
Redemoinhando na porta
E chiru da guampa torta
Que vem direito à janela,
Num Grito – de toda guela,
Num berreiro alucinante,
O índio que não se garante,
Vendo o sangue – se apavora
E se manda – campo fora,
Levando tudo por diante!

Eu sou crente na divindade,
Morro quando Deus quiser,
Mas amigos – se eu disser,
Até periga a verdade,
Naquela barbaridade,
De chínaredo fugindo,
De grito e bala zunindo,
O gaiteiro – alheio a tudo,
Tocava um xote clinudo,
Já quase meio dormindo!

E a coisa ia indo assim,
Balanceei a situação,
– Já quase sem munição,
E todos atirando em mim.
Qual ia ser o meu fim,
Eu me dei conta – de repente,
Eu não vou ficar pra semente,
Mas gosto de andar no mundo,
Me esperavam na dos fundo,
Eu saí na Porta da frente…

E dali eu ganhei o mato,
Abaixo de tiroteio
E ainda escutava o floreio
Da cordeona do mulato
E, pra encurtar o relato,
Eu me bandeei pra o outro lado,
Cruzei o Uruguai, a nado,
Que o meu zoio era um capincho
E a história desse bochincho
Faz parte do meu passado!

E a china? – essa pergunta me é feita
Em cada vez que declamo
É uma cosa que eu reclamo
e acho que ate uma desfeita
acho que nao é direita
E até entender nem consigo,
Eu, no medonho perigo
Duma situação brasina
Todos perguntam da china
E ninguém se importa comigo!

E a china – eu nunca mais vi
No meu gauderiar andejo,
Somente em sonhos a vejo
Num bárbaro frenesi.
Talvez ande – por aí,
No rodeio das alçadas,
Ou – talvez – nas madrugadas,
Seja uma estrela chirua
Dessas – que se banha nua
No espelho das aguadas!


COMO será a comunicação daqui a cem (oitenta) anos?

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Há vinte anos fui desafiado pela professora Anady, em Brasília, a produzir um texto para um concurso promovido pela ABI, Associação Brasileira de Jornais. O título proposto: Como será a comunicação daqui a cem anos. 
Fugindo da tentação de imaginar algo fantástico, futurista, produzir um texto poético. Ora, outro dia revi a trilogia “De Volta para o Futuro”, que conta a história de um cientista que inventou uma máquina do tempo em forma de automóvel. Viaja para o futuro, trinta anos (2015, pois o presente é o ano de 1985), volta para o passado (também trinta anos antes, 1955), mais tarde retrocede no tempo um século, 1885, e assim vai. No 2015 deles, Hollywood errou feio, prevendo um futuro que ainda está longe de ocorrer. 
Ora, se eles erraram, imagina eu. 
Mas, como macaco velho, não mete a mão em cumbuca…
“O filho perdera o foguete das sete para a escola e passara o dia inteiro em casa, aprontando. Agora pedia para ir brincar um pouco lá fora e a mãe concordou: “Mas brinque aqui mesmo na Terra, hein?! Seu pai não gosta que você atravesse a galáxia sozinho”.
O texto acima, adaptado de Stanislaw Ponte Preta (ou Sérgio Porto, para muitos), é mais uma das inúmeras – e infrutíferas – tentativas do homem em mostrar como será a vida neste planeta daqui a – digamos – cem anos. Fazermos vaticínios acerca do futuro é fácil, difícil é não cairmos no ridículo, no fantasioso, no caricato. Isto Hollywood já fez (ainda faz), e em profusão. Quem nunca ouviu falar de “2001, uma odisseia no espaço” e de outros filmes?
E a História está aí para provar o quanto a nossa fértil imaginação está longe do acerto quanto ao futuro do Planeta Terra, muito menos do Universo. Nessa temática, polímatas geniais como Leonardo e Júlio Verne foram raríssimas exceções à regra. Há mais de quarenta anos o homem pisou o solo lunar e seria normal supor, pelo andar da carruagem – como o fez o autor citado no início do texto, ainda que com uma boa dose de humor – que em breve estaríamos passeando por Marte, que habitaríamos a Lua, que como empregados domésticos teríamos autômatos ou coisas do gênero. Talvez até por terem surgido outras prioridades – problemas a solucionar, doenças a curar – , mas o certo é que tais vaticínios, por ora, estão bem longe de serem realizados.
A tecnologia de ponta parece correr à velocidade da luz. Estão aí os satélites artificiais e a Internet – invenções maravilhosas, não podemos negar – a interligarem instantaneamente – em tempo real, se diz hoje – todas as nações do globo terrestre. Entretanto, ainda há neste início de terceiro milênio muitas comunidades que vivem isoladas do restante do mundo. Para essas populações, o velho rádio – ainda longe de virar peça de museu – e a velha cartinha manuscrita ainda têm o seu valor. É um paradoxo, pois.
 
 
Assim, quem se arrisca a afirmar – em sã consciência – que o rádio, por exemplo, estará obsoleto no ano de 2110? Ora, sob a ótica do leitor, o jornal que hoje circula – a despeito da tecnologia posta à disposição de sua feitura nas oficinas gráficas – não é visualmente quase o mesmo de cem anos atrás? E nem por isso caiu em desuso, malgrado a tecnologia de vanguarda a serviço da informação (está aqui este meio maravilhoso, a internet, que não me deixa mentir). O jornal, entretanto, não ficou estacionado no tempo, e procurou adaptar-se às peculiaridades da sociedade atual – cada vez mais exigente, tornando-se mais dinâmico, mais criativo e eficiente. De idêntica maneira, as emissoras de rádio – seus profissionais – vêm evoluindo ao longo das décadas, adaptando-se aos novos tempos e chegando onde a internet e a TV não vão. Com o advento da televisão, o rádio não morreu, contrariando as pitonisas de plantão, arautos da desgraça; ao contrário, cresceu ainda mais em importância. É o rádio, em muitas comunidades, principalmente no interior brasileiro, o correio, o companheiro e o amigo, levando a notícia, o entretenimento e a alegria aos mais longínquos rincões deste Brasil de meu Deus. Quem de nós se arrisca a dizer que esse veículo, a despeito do célere avanço da comunicação, não terá ainda seu espaço daqui a 50, 100 anos?
 
O Criador, em sua sabedoria divina, não legou ao homem o dom de prever o seu futuro. Como podemos ver, o velho convive amigavelmente com o novo; o antiquado, perfeitamente com o moderno, apesar de alguns iluminados e sua visão futurística pretenderem mostrar o contrário. É possível, por conseguinte, que lá pela década de 2100 nossos trinetos falem assim: Quanta bobagem deste autor que em 2010 previa o engarrafamento do espaço aéreo!, ou outras coisas do gênero.
 
Seja como for, o certo é que nós – gente de hoje – devemos deixar como legado aos nossos filhos e netos meios de comunicação social – jornal, rádio, televisão, celular, internet e outros que estão inventando – cada vez mais humanos, a serviço de uma sociedade mais irmã, e que sejam instrumentos verdadeiros em prol de um mundo de paz e de amor. 
 
Este poderá ser o papel da comunicação daqui a cem anos, dependendo muito de nós.” L.s.N.S.J.C.!!!
O prêmio era uma assinatura anual de jornal. E era Correio Braziliense que não acabava mais!
Não contavam com a minha astúcia!