O PREÇO da liberdade é a eterna vigilância!

 

QUANDO Pacobahyba chegou a Belém comandava a Base Aérea o coronel  Braziliense, o Baiano.

Eis que no terceiro mês após ter assumido o comando, instaura-se no país um novo governo. Inicia-se a fase de caça às bruxas; a bruta, a dura, a dita linha dura…

Era uma época tortuosa e instável, as pessoas sentindo no ar um clima pesado que na verdade não sabiam definir, explicar. Nos quartéis, em especial, a sensação era que, de uma hora para outra, as coisas tinham se tornado mais difíceis, sendo os militares de baixa patente os que mais sentiam, embora não soubessem — ou não pudessem ou não quisessem — dar muitas explicações sobre as mudanças que haviam chegado para ficar. O nó foi se tornando mais apertado, e nem ao menos os suboficiais podiam sair da Unidade antes do final do expediente sem que tivessem autorização escrita, que apresentavam no portão da guarda, e mesmo um atraso de cinco minutos já garantia ao retardatário no mínimo uma repreensão em boletim, ainda que apresentasse justificativa.

Instalava-se o terror, em suma.

Entre os oficiais, a ordem era manterem-se reservados e vigilantes quanto ao comportamento geral da tropa. Não se sabia ao certo o que se devia falar em público, e na dúvida era melhor optar pelo silêncio. Nesse contexto, as ordens que vinham não podiam ser objeto de muita conversa nem ponderações: era executá-las sem discutir.

E foi durante a gestão do tenente-coronel Juscelino Alberto de Souza Braziliense — um mês depois promovido ao posto de coronel — que o Baiano e toda a nação foi surpreendida pelo que os jornais chamaram de revolução.

Quanto ao comandante, tratava-se de um sujeito de origem humilde, simples, autêntico, justo. O coronel Braziliense era um lorde, como se dizia. Sua personalidade contrastava frontalmente ao regime de exceção que a partir de então comandaria os destinos de toda uma nação, sendo ele uma espécie de contraponto àquele status quo.

Devido a essas características desse oficial singular, corria de boca em boca (à boca miúda, é verdade) as inevitáveis as comparações entre ele e seus antecessores. Mais tarde, quando inexplicavelmente foi exonerado, vieram as comparações entre ele e seus sucessores à medida que estes vinham, assumiam, faziam, aconteciam e depois passavam o cargo para o gestor seguinte. Entre os oficiais também corriam essas comparações, embora com a alguma reserva. E de fato, o Baiano era a simpatia em pessoa, caindo logo nas graças de todo o pessoal, militares e civis.

Pois bem. Era gestão do coronel Braziliense, em seu segundo ano.

Numa tarde, o tenente Pacobahyba era o oficial-de-dia. Aproximava-se a arriação da bandeira, tropa em forma, corneteiro executa a marcha batida própria para a solenidade. Ao longe, no campo de futebol dois militares praticam atividade física, correm em volta do estádio.

De rabo de olho, o tenente percebeu a presença deles, identificando que eram sargentos. Possivelmente seriam de fora e, por ainda não terem se instalado na cidade, aguardavam como residentes no alojamento de trânsito. A marcha batida já estava em curso e, por ser contra o regulamento de continências, não havia como interrompê-la. Teriam aqueles praças parado para a continência obrigatória, como era previsto em regulamento?  Embora não tenha considerado isso coisa muito relevante, ao final, com a bandeira já embaixo, Pacobahyba volve o olhar para a direção do campo e constata que os dois praças haviam parado e agora caminhavam para retomar o esforço anterior. Deixou que seguissem destino.

Todavia, na manhã seguinte foi chamado à sala do major Horário, chefe do pessoal. “Manda quem pode, obedece quem tem juízo”, pensava o oficial subalterno enquanto apertava a passada rumo à chefia de pessoal.

— Tenente, por acaso você não viu aqueles dois praças lá no campo na hora da arriação da bandeira nacional?”, questionou com firmeza o major.

Assim, sem rodeios, seco. Como ele sabia? O tenente não sabia explicar ao certo, mas tinha consciência de que algo estava mudando e muito provavelmente alguém — e esse alguém estava em toda a parte — levara a notícia àquele oficial superior. Mato tem olhos e parede tem ouvidos.

— Eu simplesmente sei, tenente — disse-lhe o major como que adivinhando pensamento relevado pelo semblante.

— Sim, major, eu os vi. Mas como estavam correndo, deduzi que não haviam percebido a proximidade da cerimônia.

— Pois você deveria, tão logo a bandeira embaixo, tê-los chamado à sua presença e os repreendido, trazendo depois os nomes a mim”, retomou o major Horácio. “Você chegou agora, tenente. Não faz muito tempo você era apenas um sargento, agora não, você está do outro lado do balcão. Não sabe que os tempos mudaram?

Posição de descansar, o tenente apenas o observa, avaliando que não valia a pena interrompê-lo.

— E se aqueles sargentos são subversivos? Ah, sim é verdade, na Seção de Informações, eu já averiguei, nada tem registrado contra eles. Mas nunca se sabe se fizeram isso de propósito só pra desafiar o sistema? Eu sei de muitos casos que talvez você não saiba. Poderia aqui citar vários casos de subalternos que desafiaram o sistema.

E Horácio passa a contar a sua visão da História dos últimos trinta e poucos anos.

— Nós demoramos muito pra tomar a decisão que tomamos. Desde 30 nós vimos tentando, mas deveríamos ter tomado conta do país em 1954, sem mais adiamento. Sabe, tenente, nós — e apontava para os próprios galões –, nós somos os verdadeiros guardiões dessa nação, meu caro, sabemos das coisas. Tem muita gente por aí querendo mudar a cor da nossa bandeira e cabe a nós não deixarmos tal desgraça acontecer…

… Ah, 1954, Vaz… que oficial valoroso!…

Enquanto falava emocionado, Horácio fixava o olhar para o desconhecido como se visualizasse os fatos narrados numa tela imaginária, um longo e enfadonho discurso a que Pacobahyba, posição de descansar correta, ouvia pacientemente, até que o seu superior hierárquico resolvesse o dispensar.

Seguia o oficial superior:

— … major Vaz foi meu instrutor de voo, lá no Galeão. Eu era tenente novo. Mas aí veio aquele negrão nojento e mandou matá-lo. Filho da mãe! Mas ele levou o que era dele, fizemos um inquérito impecável… mas o grandão, o tubarão, esse, infelizmente, conseguiu se safar. Morreu, mas conseguiu se safar. Estranho, né!?… Vaz! Que oficial de coragem, era jovem ainda, trinta e poucos anos. Eu teria me oferecido para cumprir essa missão de proteger o jornalista, mas, pelo que sei, só a deram para capitães e majores… era para não prejudicar o voo, decidiu o Brigadeiro… ah sim, o Brigadeiro, que comandante! Pena que o povo não sabe votar, senão ele sim teria sido o grande presidente que precisávamos… aquele crioulo safado! Teve o que mereceu. Matou um aviador, pois morreu num dia do aviador…

… Lembre-se, tenente, o preço da liberdade é a eterna vigilância. — E com esse aforismo, liberou o tenente que ali o ouvia com resignação.

Mais tarde, ouvidos em audiência pelo próprio coronel Braziliense, foram liberados sem nenhum processo disciplinar. O comandante os considerou justificados, pois alegaram não terem prestado atenção ao horário, de tão concentrados na corrida em volta do campo. Quando, finalmente, ouviram o som da marcha batida ainda levaram dez ou doze passos até que parassem e ficassem em posição de sentido, de frente para a direção do som, como era a praxe regulamentar.

“E me desculpem pelo fato de tirar vocês das suas rotinas de trabalho, meus amigos”, foi o que lhes disse ao final da entrevista o comandante, apertando-lhes a mão.

Ao saber do desfecho, Horário não se conteve e soltou um palavrão.

E foi assim que Pacobahyba caiu em desgraça com ele, que viria alguns anos depois ser o comandante da OM.

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