HORA morta!

— ENTÃO fica acertado que vai ser na casa do Edmilson? Mas  — atenção! — nada pode sair errado. Amanhã chega a carne; um boi inteiro está bom?

— Sim, Mota. Tem lá um quintal grande, todo murado. A mulher e filhos tão viajando. Será em hora morta, como de costume.

— Sim, mas fala mais baixo, homem. Parede tem olho, mato tem ouvido — recomenda o prudente Mota.

— Acho que a casa do Edmilson é mesmo o melhor lugar. Cada um fica com uma parte e eu mesmo já tenho comprador pra minha. — observa um outro.

Um deles faz silêncio e, com o dedo indicador à boca, pede com o gesto aos demais que cessem a conversação.

— Ouço passos.

— Edmilson, tu que és mais magro, te abaixa e vê se não é o chefe ou o supervisor.

Edmilson, obedientemente, abaixa-se por baixo do biombo de madeira, que lhes protegia de curiosos, para ver o que é — ou quem é –, e olhar por baixo dos fogões e caldeirões…

— Sshss! Alguém se aproxima… vem chegando…

— O que vamos fazer, Mota? — falou um deles para o líder.

— Agora não adianta mais; não dá mais tempo. Seja quem for, ele já deve ter nos visto ou ouvido. Além do mais, comer não está errado. Só estamos fora do horário — argumenta Mota, quase a sussurrar.

Duas da tarde.

Além da questão de horário, era proibido fazer refeição do cardápio que não da sua classe. No caso, a comida sobrada do almoço dos oficiais era agora aproveitada pelos taifeiros, que reuniam na mesma panela um item com outro, fazendo uma grande mistura em que adicionavam a farinha de mandioca — ingrediente que nunca faltava — e alguns outros itens, resultando num saboroso banquete.

Todos os demais taifeiros já haviam encerrado seus trabalhos, tomado banho e retornado a suas casas. Essa era uma regalia aos taifeiros, que faziam seu próprio horário de expediente, exceto a equipe de serviço, dois para o rancho das praças e dois no rancho dos oficiais. Era, portanto, uma hora morta. No entanto, estes se delongaram e, contrariamente ao costume, ainda permaneciam no quartel.

— Sapatos marrons!! É um oficial, só oficial usa sapato marrom no uniforme.

Sim. E o oficial que ora visita a cozinha do Rancho era nada menos que o próprio comandante que chegava ao local de refeições dos taifeiros. Aproximava-se a passos lentos, acompanhado do subcomandante e do oficial-de-dia.

Desde que chegara, havia dois meses, Braziliense impôs a si mesmo a tarefa de visitar todas — todas — as instalações na nova Unidade.

— Você me acompanha, Medeiros? — propunha polidamente ao subcomandante, tenente-coronel Adelar Negrão de Medeiros, em vez de simplesmente determinar, fazendo uso da hierarquia.

“Bah! Que homem é esse?”, pensava com os seus botões o tenente-coronel Medeiros, “para todos nós, oficiais aviadores, esse cargo é um prêmio, algo bastante cobiçado, uma coroação à carreira. Sabemos que a promoção a brigadeiro é incerta, dependendo do alinhamento das estrelas lá no Rio de Janeiro. Mas Braziliense, ao contrário, encara a função como posto de sacrifício. O crioulo é maluco mesmo. Provavelmente o cargo lhe foi dado pela primeira situação e não visando promoção futura, por melhor e mais competente que ele seja. Além do mais, eu nunca vi um brigadeiro preto. Eu, se fosse ele, tratava de usufruir das benesses do cargo: mordomia, festas, bailes, rabo-de-saia, uísque escocês legítimo, …”

— Medeiros! Oh Medeiros! Acorda, homem!

— Oh desculpe, meu comandante. Estava pensando longe, distraído. É claro que o acompanho, como é meu dever, coronel. Nem precisava pedir, basta determinar.

— Vi, de antemão, que as condições de trabalho estão longe de ser as ideais. Tudo do jeito deixado pelos americanos na época da Guerra. Lá se vão mais de vinte anos. — complementa Braziliense. — observa o comandante — O Brasil precisa de que cada um de nós dê o melhor de si. Nada de pessimismo. Recentemente, o meu xará, contrariando os pessoal do contra, construiu uma nova capital, abriu estradas, desenvolveu a indústria… Eu mesmo testemunhei boa parte da sua gestão, pois, como você sabe, fui seu piloto. Voamos por este Brasil gigante.

Medeiros se retorcia por dentro enquanto o comandante tecia loas ao ex-presidente, com cuja política ele não se afinava. “Um perdulário, isso sim!”. Mas, sem poder discordar abertamente por conta da hierarquia, apenas balançava a cabeça concordando com o chefe.

Para o Baiano, era fundamental conhecer os homens que lhe ajudariam a administrar aquilo tudo, precisava ver as condições de trabalho, as lides diárias, para depois agir. E então, todos os dias, geralmente após o almoço, em companhia de seu subcomandante costumava percorrer o quartel para acompanhar in loco os trabalhos, as seções, subseções, dizer uma piada, dar algumas risadas, cumprimentando a alguns com aperto de mão, a outros com um sorriso amigável, um boa-tarde, uma perguntinha aqui, outra ali. Mais tarde anotava numa cadernetinha os principais aspectos observados a fim de servir de base para as suas reuniões com os oficiais ou até mesmo suas audiências com o brigadeiro, comandante da Primeira Zona. Além disso, também costumava manter contatos regulares com o Rio de Janeiro, quando reivindicava recursos e melhores condições para a sua Unidade.

Nesse dia, resolveu conhecer por dentro as instalações do rancho das praças. Não apenas o suntuoso refeitório dos oficiais, que era para si uma espécie de ilha da fantasia, e até ficava separado dos demais. Queria sim ver o que se passa por dentro das cozinhas, refeitórios e armazéns, igualmente vinha fazendo, como nos hangares, na companhia de infantaria, esquadrão de polícia, posto médico, seções administrativas, seção de transportes, carpintaria, olaria, elétrica, banda de música…

Conclui então que a Força Aérea do norte ia adiante na base do heroísmo, somente devendo à valentia. Aqueles homens e mulheres intrépidos, dispondo de meios precários, davam mesmo assim conta do recado. Oficiais aviadores, demais oficiais, sargentos, cabos e soldados, e quase dois milheiros de funcionários civis, a maioria deles sem vínculo definitivo com o Ministério — que ganhavam um salário de fome –, faziam um trabalho até melhor que os colegas que serviam em unidades mais equipadas.

Constatava agora que as condições do rancho, como já esperava e imaginava, não eram boas; ao contrário, muita umidade, equipamentos obsoletos. Anotava tudo mentalmente para depois conversar com o chefe da Intendência e o rancheiro da OM, que chamaria a seu gabinete ainda nesse dia.

Foi quando chegou ao local onde os taifeiros comiam:

Uma mesa, cadeiras, alguns talheres e pratos… e o principal: a comida.

Ele, divertindo-se no íntimo com aquelas expressões assutadas, resolve provar um dos pratos.

“Estamos presos”, pensavam eles.

— Aham! Peguei-os com a boca na botija! — disse, fitando a comida que estava sobre a mesa.

Coronel Braziliense leva uma colherada à boca e, fazendo suspense, mirava o rosto de cada um:

— Filhos da mãe!… Por que não fazem assim também para os oficiais?!

Há alguns passos atrás o oficial-de-dia, tenente Pacobahyba, com as mãos descansando nos quadris,  fitava o grupo com um olhar significativo, ao mesmo tempo que lentamente balançava a cabeça no sentido vertical. “Nesse mato tem coelho”.

Mal saíram e todos os taifeiros se olhavam preocupados:

— Será que ouviram?

Seis homens. Mota era o líder deles. Sim, em todo grupo há um líder, não necessariamente o mais graduado. Se este não assume a liderança, um outro tomará seu lugar. Há também a liderança positiva, assim como a negativa. Habilidoso, Mota sabia exercer as duas. Na presença de outros e no dia a dia dos trabalhos, exercia a primeira, enquanto nas horas mortas, a segunda.

A fartura gera a tentação. Não se recordam ao certo há quanto tempo há essas reuniões, é bem possível tenham herdado de outros grupos anteriores, gente que há muito não está mais no metier, alguns nem mesmo neste mundo. Isso é coisa que não dá para parar; uma dependência em que quem entra não sai assim tão fácil, mesmo que queira. Começa-se com coisa simples, um quilo de feijão hoje, um latão de manteiga amanhã, um boi inteiro…

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