MENSAGEM ao Alemão!

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PACOBAHYBA chega apressadamente ao Serviço de Suprimento Técnico, do qual é o chefe, sobe a escada a passos rápidos, quase que a pular os degraus, abre a porta da chefia e vai direto ao reservado. Urgia passar o radiograma para o Alemão. Alguns segundos depois e seria tarde demais para pagar esse imposto que a natureza não dispensa e que, de uma forma ou de outra, cada sujeito tem que pagar não importando onde esteja.

Isola-se enfim nesse momento único, necessário, aliviante e prazeroso de plena solidão.  Aaahh!  É exatamente aí onde a natureza se faz implacável a todos indistintamente, rico ou pobre, homem ou mulher, jovem ou velho, magro ou gordo, preto ou branco, santo ou pecador, ilustre ou ordinário, comandante ou soldado, todos — absolutamente todos — se apresentam iguais neste mundo porque ninguém, não importando classe social, sexo, idade, etnia, crença religiosa, conhecimento, patente, é capaz de sonegar tão sagrado imposto. Continue lendo

SOBRE nomes e sobrenomes!

 

O seu nome é Luís. Aqui no Nordeste todo Luís é Lula. Posso lhe chamar de Lulinha?

 

OUTRO dia, zanzando por aqui, por ali e por acolá na internet, twitter, facebook e blogues, o que faço quase todos os dias, à procura de vida inteligente, me deparei com a postagem de alguém que morou algum tempo em Porto Alegre. Esse jovem, natural de outro Estado, como curiosidade da região Sul, postou sobre alguns costumes locais, e, dentre eles, os nomes de pessoas.

“As gabrielas, por exemplo, não se chamam Gabí, como normalmente ocorre nas demais regiões do Brasil, e sim Gábi”, tascou o rapaz, admirado.

É verdade. Sou de outra região brasileira — Norte — mas moro aqui na região Sul — Paraná — faz quase dez anos. Gábi, aliás não se aplica só às gabrielas mas também aos gabriéis. Tenho um sobrinho (da parte de minha esposa), o Gabriel, a quem chamamos carinhosamente de Gábi.

Curioso, fui notando — e anotando — outros casos. Percebi a quantia (quantidade) de Mári, em vez de Marilene, Maria, Mariana…; de Têre, para as terenices e terezinhas. Em homens, os joce podem ser Jocemar ou Jocemir. Continue lendo

RUBEM Braga!

Meu ideal seria escrever…

RUBEM Braga

MEU IDEAL seria escrever uma história tão engraçada que aquela moça que está doente naquela casa cinzenta quando lesse minha história no jornal risse, risse tanto que chegasse a chorar e dissesse — “ai meu Deus, que história mais engraçada!”. E então a contasse para a cozinheira e telefonasse para duas ou três amigas para contar a história; e todos a quem ela contasse rissem muito e ficassem alegremente espantados de vê-la tão alegre. Ah, que minha história fosse como um raio de sol, irresistivelmente louro, quente, vivo, em sua vida de moça reclusa, enlutada, doente. Que ela mesma ficasse admirada ouvindo o próprio riso, e depois repetisse para si própria — “mas essa história é mesmo muito engraçada!”.

Que um casal que estivesse em casa mal-humorado, o marido bastante aborrecido com a mulher, a mulher bastante irritada com o marido, que esse casal também fosse atingido pela minha história. O marido a leria e começaria a rir, o que aumentaria a irritação da mulher. Mas depois que esta, apesar de sua má vontade, tomasse conhecimento da história, ela também risse muito, e ficassem os dois rindo sem poder olhar um para o outro sem rir mais; e que um, ouvindo aquele riso do outro, se lembrasse do alegre tempo de namoro, e reencontrassem os dois a alegria perdida de estarem juntos.

Que nas cadeias, nos hospitais, em todas as salas de espera a minha história chegasse — e tão fascinante de graça, tão irresistível, tão colorida e tão pura que todos limpassem seu coração com lágrimas de alegria; que o comissário do distrito, depois de ler minha história, mandasse soltar aqueles bêbados e também aqueles pobres mulheres colhidas na calçada e lhes dissesse — “por favor, se comportem, que diabo! Eu não gosto de prender ninguém!” . E que assim todos tratassem melhor seus empregados, seus dependentes e seus semelhantes em alegre e espontânea homenagem à minha história.

E que ela aos poucos se espalhasse pelo mundo e fosse contada de mil maneiras, e fosse atribuída a um persa, na Nigéria, a um australiano, em Dublin, a um japonês, em Chicago — mas que em todas as línguas ela guardasse a sua frescura, a sua pureza, o seu encanto surpreendente; e que no fundo de uma aldeia da China, um chinês muito pobre, muito sábio e muito velho dissesse: “Nunca ouvi uma história assim tão engraçada e tão boa em toda a minha vida; valeu a pena ter vivido até hoje para ouvi-la; essa história não pode ter sido inventada por nenhum homem, foi com certeza algum anjo tagarela que a contou aos ouvidos de um santo que dormia, e que ele pensou que já estivesse morto; sim, deve ser uma história do céu que se filtrou por acaso até nosso conhecimento; é divina”.

E quando todos me perguntassem — “mas de onde é que você tirou essa história?” — eu responderia que ela não é minha, que eu a ouvi por acaso na rua, de um desconhecido que a contava a outro desconhecido, e que por sinal começara a contar assim: “Ontem ouvi um sujeito contar uma história…”.

E eu esconderia completamente a humilde verdade: que eu inventei toda a minha história em um só segundo, quando pensei na tristeza daquela moça que está doente, que sempre está doente e sempre está de luto e sozinha naquela pequena casa cinzenta de meu bairro.

A crônica acima foi extraída do livro “A traição das elegantes”, Editora Sabiá – Rio de Janeiro, 1967, pág. 91.

(Releituras)

A primeira vez que li esta crônica foi na época de Escola, segundo semestre de 1978. A obra tanto me encantou que jamais a esqueci. Aqui a tenho de volta e a  compartilho com vocês.

Que história engraçada!

CLÁSSICOS do Valentim!

João Bosco: Pret-a-Porter de Tafetá, 1984

 

 

PAGODE em Cocotá vi a nega rebolá
Num preta-porter de tafetá
Beijei meu patuá oi sambá oi ulalá
Mé carrefour o randevú vai começá
Além de me empurrá que’s cest tamanduá
Purquá jé suí du zanzibar
Aí eu me criei pas de bafo mon bombom
Pra que zangá
Sou primo do VillegagnónVoalá e çava patati patata
Boulevar sarará sou da praça Mauá
Dendê matinê padedê
Meu peticomitê bambolê encaçapo vocêTaí seu Mitterrand
Marcamos pra amanhã em Paquetá
Num flamboyant en fleur
Onde eu vou ter colher
Pompadú zulú
Manjei toá bocú

MACHADO de Assis!

A Cartomante

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HAMLET observa a Horácio que há mais cousas no céu e na terra do que sonha a nossa filosofia. Era a mesma explicação que dava a bela Rita ao moço Camilo, numa sexta-feira de Novembro de 1869, quando este ria dela, por ter ido na véspera consultar uma cartomante; a diferença é que o fazia por outras palavras.

— Ria, ria. Os homens são assim; não acreditam em nada. Pois saiba que fui, e que ela adivinhou o motivo da consulta, antes mesmo que eu lhe dissesse o que era. Apenas começou a botar as cartas, disse-me: “A senhora gosta de uma pessoa…” Confessei que sim, e então ela continuou a botar as cartas, combinou-as, e no fim declarou-me que eu tinha medo de que você me esquecesse, mas que não era verdade…

— Errou! Interrompeu Camilo, rindo.

— Não diga isso, Camilo. Se você soubesse como eu tenho andado, por sua causa. Você sabe; já lhe disse. Não ria de mim, não ria…

Camilo pegou-lhe nas mãos, e olhou para ela sério e fixo. Jurou que lhe queria muito, que os seus sustos pareciam de criança; em todo o caso, quando tivesse algum receio, a melhor cartomante era ele mesmo. Depois, repreendeu-a; disse-lhe que era imprudente andar por essas casas. Vilela podia sabê-lo, e depois…

— Qual saber! tive muita cautela, ao entrar na casa.

— Onde é a casa? Continue lendo