SOBRE nomes e sobrenomes!

 

O seu nome é Luís. Aqui no Nordeste todo Luís é Lula. Posso lhe chamar de Lulinha?

 

OUTRO dia, zanzando por aqui, por ali e por acolá na internet, twitter, facebook e blogues, o que faço quase todos os dias, à procura de vida inteligente, me deparei com a postagem de alguém que morou algum tempo em Porto Alegre. Esse jovem, natural de outro Estado, como curiosidade da região Sul, postou sobre alguns costumes locais, e, dentre eles, os nomes de pessoas.

“As gabrielas, por exemplo, não se chamam Gabí, como normalmente ocorre nas demais regiões do Brasil, e sim Gábi”, tascou o rapaz, admirado.

É verdade. Sou de outra região brasileira — Norte — mas moro aqui na região Sul — Paraná — faz quase dez anos. Gábi, aliás não se aplica só às gabrielas mas também aos gabriéis. Tenho um sobrinho (da parte de minha esposa), o Gabriel, a quem chamamos carinhosamente de Gábi.

Curioso, fui notando — e anotando — outros casos. Percebi a quantia (quantidade) de Mári, em vez de Marilene, Maria, Mariana…; de Têre, para as terenices e terezinhas. Em homens, os joce podem ser Jocemar ou Jocemir.

Os hipocorísticos surgem geralmente na família por algumas razões como de forma a facilitar a fala de um nome comprido, difícil de se pronunciar, por carinho e intimidade dos familiares, dos amigos ou até mesmo por preferência do dono, quando considera seu nome de batismo muito comum ou feio. Deveria ser conforme o gosto do freguês, mas aí ia ter gente mudando o nome mais de uma vez. Ia ser uma bagunça!

Curioso!

O caso das franciscas, que, para fugirem do popularíssimo Chica, preferem ser chamadas de Franci. Fica mais chique. Assim também se chamam aqui no Sul as francieles e francianes: todas elas são simplesmente Franci. Como nome comprido temos Bernardete, que é o nome de minha esposa. Quatro sílabas, com dois erres pelo meio, pare ser demais, ainda mais quando se fala várias vezes. Berna fica mais simples.

O mesmo caso se aplica a Cícero, mas não aqui no Sul. Muito comum no Nordeste e lá, por facilidade, todo Cícero é simplesmente Ciço. E, por razões religiosas, há muitos ciços em homenagem ao famoso padre nordestino.

Vamos a mais curiosidades!

Nos primórdios as pessoas não tinham sobrenomes. Bastava um nome e só. Não havia concorrentes.

Adão, Eva, Caim, Abel, Ruth, Maria, Izabel, Daniel, Isaías, Jesus… Acontece que, seguindo o que disse o Criador sobre “crescer e multiplicar-se”, as gentes, cumprindo rigorosamente a ordem divina, foram de fato crescendo e se multiplicando. Conforme os anos, séculos e milênios, veio ao mundo gente que não se acabou mais. Vejo agora que, segundo a ONU, habitam o globo terrestre cerca de sete bilhões e meio de viventes.

Então, o que fazer com os milhares de homônimos? Como fazer para dizer quem é quem? A própria Bíblia explica. E o Jesus, filho de Maria e de José, passou a ser conhecido como Jesus de Nazaré, Maria de Nazaré, Maria de Magdala (Magdalena), um certo Simão de Sirene ou um tal de José de Arimateia; Judas Iscariotes. Se não o lugar de origem, o que fazer com os filhos da mesma pátria ou cidade? Em sociedades patriarcais, acertou-se com o nome do pai ou do esposo. Dessa maneira, João e Tiago eram João, filho de Zebedeu; Tiago, filho de Zebedeu; Simão, filho de Jonas; Maria de Cleofas.

Acontece que homens e mulheres continuaram, continuam e (apesar de tudo) continuarão a procriar e, como resultado, a população só cresce e se multiplica sem cessar. A Terra foi sendo povoada, continentes foram sendo habitados, dominados, europeizados.

Vieram os lusos.

Com o tempo, essa diferenciação familiar e de origem já não bastava. Foram criados outros sobrenomes. Começou a valer tudo: árvores, plantas, bichos, objetos, locais, acidentes geográficos, até mesmo, numa espécie de desejo de imortalidade, o prolongamento do nome dos pais que os davam a seus filhos e netos. As grafias também foram sendo alteradas à medida que o tempo evoluía ou até pelo entendimento (ou não) do escrivão, que, sem o saber, tinha o poder de mudar os nomes das famílias, quando acrescentava um “h” ou mudava um “i” para “y”.

Chegaram assim ao Brasil os portugueses, esses lordes e civilizados gentis homens, e nos impuseram seus nomes. E junto com o Cabral, aportaram então os Pereira, Oliveira, Carvalho, Moreira, Madeira, Lima, Carneiro, Leão, Lobo, Cordeiro, Coelho, Leitão, Machado, Correia, Porto, Campos, Serra, Lago, Fraga, Penha. Nessa fauna e flora, alguns menos nobres vieram batizados como Silva, ou seja, simplesmente vieram da selva. E esses no Brasil se multiplicaram ainda mais.

Os lopes, Rodrigues, Péres e Álves são derivativos de Lopo, Rodrigo, Pero (antiga forma de Pedro) e Alvo. Esses nomes são os avós dos contemporâneos Filho, Júnior, Neto e Sobrinho, costume em que os pais tencionam imortalizar seu nome no filho, e este no neto, seguindo a linhagem masculina, herança cultural da sociedade patriarcal de milênios. É o homem, que é mortal, sonhando com a imortalidade!

Alguns nomes evoluíram para sobrenome. Basta ler a História do Brasil e de nossos colonizadores. É o caso de Diniz e também de Gaspar. Já conhecemos um ataíde e vários dorneles.

Alguns nomes têm a característica de serem unissex. Ivani (ou Ivanir, conforme o poder do escrivão) pode ser homem ou mulher; Íris também pode ser homem ou mulher; já conheci um cleonir e uma cleonir. Darcy é o nome da esposa de Getúlio Vargas, que se falava “dárci”, como forma de se evitar confusões com os darcys.

Se formos procurar noutras línguas, achamos outras curiosidades.

Andreia, um nome feminino, é identidade de homem na Itália. O galicismo Alisson é nome de mulher nos Estados Unidos. Miranda, um sobrenome português, é o primeiro nome de mulher nos países de língua inglesa.

As efigênias já foram Ifigênia e os felipes de hoje um dia já se chamaram Filipe. Numa lista de chamada de escola é possível uma professora considerar estranho e mesmo um erro um aluno chamado Filipe ou uma Ifigênia sofrer bullying (outra palavra estranha) por não ser Efigênia.

Não é nada não.

Voltando às abreviações, os short names (lá nos States é assim) não são exclusividade nossa, coisas da nossa cultura, que às vezes causa desconforto ou vergonha ao proprietário. Ben pode ser Benjamim, os frank são os franciscos ou os chicos e chiquinhos de cá, Os beto, robertos, são lá os boby, mas os betos também podem ser aqui os albertos, alcibertos… Os gregory são simplesmente Greg.

Por essas e outras, os Antônios não podem se entristecer quando alguém os chama de Tonho, Tonico, Totonho, assim os Manuéis, como o senhor meu pai, eram chamados de Manduca, Duca, Duquinha… Lembram do Zico? De Artur virou Artuzinho, Artuzico, Zico.

Como consolo, vejo que o nome é multinacional. Antonio é grafado igualmente em três idiomas: português, espanhol e italiano. É o caso de outros nomes: Maria, em quase todo o mundo ocidental, Alice, Lorenzo.

Mas há nomes bíblicos que sobrevivem há milênios e pouca gente se dá conta de que o são. Gérson, Jair, Priscila, Suzana, Daniel, Raquel são alguns deles.

Voltando à região Sul e seus costumes, verifico que o infinitivo dos verbos estão presentes em alguns nomes: Ademir, Alcir, Adelar, Jocemar, Valmir. Cada região com os seus costumes. É o caso do Nordeste com o Luís que passa a ser simplesmente Lula.

Haja nome! E assim caminha a humanidade!

L.s.N.S.J.C.!

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