LÁZARO Curvêlo!

Coronel Peçonha

Lázaro Chaves
Professor Lázaro Curvêlo
HAVENDO sido Segundo Sargento da ativa da FAB por 14 anos e sempre me orgulhado muito por estar trabalhando pelo progresso de minha Pátria, em determinados momentos passamos coisas muito estranhas no Brasil. Eis aqui um dos fatores de certa desilusão. 

O cidadão, cujo nome me escapa por uma destas razões inconscientemente explicáveis, granjeou este apelido graças à sua postura. O dia podia estar lindo, com pássaros cantando e flores se abrindo, mas quando ele aparecia, “em peçonha”(daí o apelido), o tempo fechava, nuvens negras cobriam o horizonte, os pássaros recolhiam-se a seus ninhos, as flores murchavam… 

Sendo 2º sargento técnico em eletrônica, estava eu um dia calmamente ajustando a temporização de um relê na Central Telefônica da Base Aérea em que trabalhava (naquele tempo ainda se usava relês em centrais telefônicas…) – coisa tão complicada que já nem me lembro mais como é que se faz, só sei que exige um osciloscópio, paciência e, sobretudo, muita concentração e raciocínio lógico – quando chegou o Coronel Peçonha: “A partir deste momento você está transferido para a Seção de Serviços Gerais e sua primeira tarefa por lá é, em vinte minutos, efetivar reparos na latrina da suíte do comandante da base, que se encontra enguiçada.”

Curvêlo, sargento da Aeronáutica

À ocasião nem mesmo parei para pensar no que poderia levar o sujeito a almejar que eu fizesse aquilo. Mais tarde me disseram que ele tinha inveja de mim; por algum motivo, diziam-me, não podia admitir que um subordinado seu tivesse tanto conhecimento específico e utilizasse com sabedoria palavras “pomposas” – não me lembro de haver recoberto com “pon-pons” expressões que tenha utilizado quando próximo de meu “superior hierárquico” a ponto de suscitar tanto ódio. Mas é a única explicação plausível e Sherlock Holmes, criação de Arthur Connan Doyle, em sua metodologia ensinava algo como: “quando você elimina o impossível, o que resta, por mais improvável que seja é a verdade!”

Olhei para ele um tanto distraído, sem o menor eivor de medo, ódio ou qualquer sentimento. Se perdesse tempo para prestar atenção nele, talvez o que sentisse mesmo fosse desprezo. Fato é que, naquele momento, estava ali na minha cadeira, na minha bancada, montada a duras penas após anos de criteriosa seleção de material, tentando desesperadora mas lucidamente resolver com rapidez um problema lógico quando chega alguém e diz alguma coisa que ameaça fazer-me perder o fio-da-meada do raciocínio com uma espécie de ordem que escuto como que vinda de algum calabouço medieval envolto em brumas: “Não vou”, disse calmamente, “só há uma pessoa em toda esta base capaz de fazer esta central telefônica funcionar novamente, e este sou eu. Há dezenas de encanadores na Seção de Serviços Gerais capazes de fazer o tipo de reparo necessário para o nosso Comandante. Agora me dá licença que tenho mais o que fazer!”

Ficou lívido. Meus colegas ficaram todos lívidos, que a coisa foi meio “pública”, como se eu tivesse proferido gravíssima blasfêmia. Acontece que ninguém, sendo subalterno, pode ousar dizer não a alguém em posição hierárquica mais elevada. Pode, e freqüentemente era assim que conseguíamos resolver nossos problemas, dizer entusiasticamente “Sim , Senhor!” e nada fazer a seguir, mas há que manter as aparências. Acontece que eu estava ocupado, distraído e nem me recordei deste detalhe… Coronel Peçonha nem voltou a falar comigo. Lá consigo devia estar a pensar: “Este sujeito é doido e lugar de doido é no hospício”.

Não sei por que caminhos coercitivo-ilegais fui levado a ter uma entrevista com um major psiquiatra no hospital da Base e ele precisava dizer se eu estava ou não em gozo de minhas perfeitas faculdades mentais, o que me acarretaria uma punição severa por desobediência testemunhada a ordem superior, ou se eu estaria sofrendo de alguma forma de desequilíbrio mental e precisaria de tratamento específico (uma forma “branca” de punição pela rebeldia, no fim das contas…). Como conhecia o Coronel Peçonha de outras oportunidades parecidas, o major riu muito quando lhe contei o caso e concedeu-me quinze dias de descanso “por estafa”. Meio chata mesmo foi a onda de insultos a que aquele coronel se submeteu, pois todos os que desejavam livrar-se de sua nefanda influência tentavam fazer conscientemente o que fiz inconscientemente e acabavam sofrendo punições por isso. Fato é que é sempre muito difícil lidar com aqueles que se julgam “donos da verdade”…

Ao regressar do “repouso”, que até me valeu grande respeito entre meus colegas, estava transferido para setor diferente daquele em que trabalhava. Nada a ver com a minha formação profissional específica, mas o principal era que não tinha mais nada a ver com peçonhenta chefia daquela triste figura. Transferências assim são prática, típica quando nas Forças Armadas se pune o oficial superior por ato arbitrário. Só fico pesaroso por causa daquele relê, coitadinho, sem temporização até hoje…

Lázaro Curvêlo Chaves, além de Segundo Sargento R1 da Aeronáutica, é sociólogo e professor de História da UFF; é também mantenedor da página “Cultura Brasileira” (http://www.culturabrasil.org/)

 

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