MARCAS e produtos!

MARCAS bombril

SOU um curioso, um estudioso da nossa língua. Por isso a observo e a estudo de maneira informal, observando aqui e pesquisando ali. Desde cedo foi assim, assim que aprendi as primeiras letras e formava as palavras iniciais juntando as sílabas: si-la-bas.

Depois ficava a matutar sobre as novas descobertas. Em todos os lugares. Até sobre o vaso e sob o chuveiro.

Que maravilha! A mágica do saber!

Minha vida era olhar para o alto onde estavam penduradas as placas e pintadas palavras. Uma vez isso me fez mal.

Uma placa de lanchonete indicava os produtos e um deles era um sanduíche, pão, queijo e presunto. Estava lá indicado: Mixto. E foi por isso que errei uma questão numa prova de admissão ao colegial. Sim, naquele tempo não havia vagas no atual ensino médio para todos.

Ainda assim passei. Mas um conselho: não confie em placas!

Maldita placa. Bendita placa!

MARCAS placas

Pois bem. Errada a questão, nunca mais confiei novamente no que dizem as placas. Tendo dúvida, vou ao dicionário. Não contente, constato a origem do vocábulo, de onde vem, qual o cognato…

Uma das singularidades da língua, e não apenas da nossa língua, é o sonho dourado de todo fabricante: a marca como sinônimo do produto. Isso ocorre geralmente quando um determinado produto cai no gosto popular, por ser o primeiro ou por ser o mais notável. Muito disso se deve aos publicitários: bombril para palha de aço; gilete para lâmina de barbear…

TODOS DIVERSOS.cdr

A marca pelo produto, metonímia e publicidade espontânea e gratuita, passou a ser comum entre nós, os brasileiros. Nos filmes e livros vemos que o fenômeno não é uma exclusividade da nossa língua brasilis. Um exemplo: os carros. Rolls Royce, ford, Honda, são simplificações espontâneas porque ninguém diz: “Meu irmão tem um automóvel de passeio da marca Ford”.

Desde quando existe a metonímia? Precisaria de muita pesquisa para se ter ideia disso, consultar volumosos compêndios, como dizia Rolando Lero. Mas, independente do que podem revelar nos livros, vemos que o próprio nome do nosso país é um exemplo desse fenômeno. Basta ter curiosidade linguística para observar que Brasil virou identidade destas terras tropicais em alusão à madeira que nossos colonizadores levavam para a Europa a fim de dela extrair uma tinta cuja cor se assemelhava a brasa, um brasil. Uma metonímia, talvez a primeira do Brasil.

Logo, nossos irmãos mais velhos foram um dos primeiros a batizar um país utilizando o nome de um produto que só por aqui encontraram. Em troca deixaram aqui, além de espelhos e outras bugigangas sem valor, seus genes, sua cultura e sua língua, que um de seus patrícios um dia denominou a última flor do Lácio.

Ela, a metonímia, surge espontaneamente da necessidade de se nominar algo que ainda não é conhecido, batizar um objeto novo que aparece sem nenhuma referência anterior. O senso comum acaba por identificar esse objeto com o lugar de origem, de onde ele é produzido; com um autor, sendo ele próprio reconhecido e proeminente; com uma marca, sendo ela pioneira no lançamento de um produto no mercado.

É por associação que, por vezes, surgem palavras novas.

Andando pelo Brasil, a metonímia de um país pela madeira nele extraída, passo a verificar as singularidades no falar. Sabemos que a língua sofre influências geográficas.

Van, um tipo de veículo automotivo, não pequeno como um automóvel de passeio e nem tão grande como um ônibus, é conhecida em alguns pontos do país. No Ceará, entretanto, ficou conhecida uma certa marca: Topic, sendo esse meio de transporte automotivo de qualquer outra marca.

Na região sul, ao menos no interior, zorba virou sinônimo de cueca; avril é o mesmo que isqueiro; e raiban, não importando a marca dos óculos esportivos, são os óculos escuros em geral.

Também muda com o tempo.

Atribui-se a um jogador de futebol de antigamente a seguinte expressão: “Agradeço à Antártica pelas bramas que eles que me deram”. Fato ou mito, a verdade é que certas marcas caem no gosto popular até mesmo pela dificuldade de se lembrar do nome correto do produto que se consome.

Há uma diacronia no falar e hoje não se fala o mesmo que ontem, como dizia Raul Seixas com outras palavras.

Neste século é menos comum se chamar brama para cerveja, a não ser que o consumidor queira realmente beber uma brama. Refrigerante, um dia pude constatar tal fenômeno diacrônico, para muitos é qualquer refrigerante que não seja coca-cola. “Vocês têm refrigerante?”, perguntei num restaurante. “Não, só coca-cola.”, responderam-me. Pela mesma razão, somente os mais antigos ainda chamam cueca de zorba e avril para isqueiro.

Que metonímias novas virão? Aguardemos.

Quais ficarão por algum tempo? Vamos ver.

 

Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo!

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