PALAVRAS são palavras!

A evolução diacrônica vocabular e outras alterações na língua de Camões

PALAVRA definição

Fonte: Internet

CHAPLIN, o inigualável, em sua obra Luzes da Ribalta, já dizia que o álcool revela o caráter.

PALAVRAS diversas

Fonte: Internet

O escriba usa a fala do genial cineasta britânico para dizer sobre as mudanças que as palavras sofrem com o tempo. Tais evoluções decorrem de muitos fatores, associados ou não. A geografia é uma delas, a modernização tecnológica é outra. O uso constante prolonga ou eterniza um vocábulo; o contrário, a falta de uso, leva essa palavra à extinção.

Dou um exemplo geográfico.

Baeta, substantivo feminino, por exemplo, é uma palavra desconhecida no Norte e no Nordeste. Já em regiões frias, com as quatro estações definidas, primavera, outono e verão e inverno, a baeta — tecido felpudo de lã — é uma peça muito útil, necessária para proteger e aquecer os bebês, por isso, o vocábulo está vivo, vivíssimo da silva, conhecido justamente pela utilidade que tem.

Há, porém, tantos outros, nem todas facilmente explicáveis, razões de influências as mais diversas na língua.

Contextos, ambientes, classes, tons, emoções, afetos, lugares, épocas, circunstâncias, tecnologias, invasão cultural. Ah, esse último é o meu vilão favorito!

Favorito?

Por que favorito e não predileto? Por que favorito e não preferido? Notem: favorito, predileto e preferido significam em geral a mesma coisa. Até no falar não há que se preferir uma palavra em relação à outra pois têm foneticamente o mesmo tamanho, levam o mesmo tempo para serem pronunciados pois são classificados como polissílabos, com quatro sílabas. Ocorre que nas séries ou filmes, geralmente americanos, há no inglês a palavra “favorite”, daí, por facilidade, os tradutores favorecem o favorito em vez de preferirem o preferido ou o predileto. Invasão cultural.

Sempre fui curioso em relação ao léxico, sobre os falares diversos dos brasileiros, sobre os esses e os erres, os tês e os dês, sobre as entonações de vozes, sobre as diversas construções de frases e orações, sobre as expressões regionais. Desde cedo, procurava identificar a região do sujeito conforme o seu tipo de falar. Procurava compreender também a significação de vocábulos para mim desconhecidos.

Na Escola, período de 1977 a 1979, essa espécie de curiosidade tomou corpo em minha alma. Depois desse período vieram mais 28 anos de caserna, período em que convivi com gente de todas as procedências: do Norte, do Sul, Sudeste, Centro-Oeste e Nordeste. E assim vou identificando o gauchês, o carioquês, o caipirês, o mineirês, o baianês, o potiguês…

Essa curiosidade obsessiva foi sendo alimentada por filmes de diversas épocas e sotaques (brasileiros ou não), livros de hoje e de ontem (em português original ou traduzidos), de todo os tipos, sejam históricos, fictícios, romances, regionalistas. Desse fecundo manancial procuro extrair palavras antigas, expressões, jeitos de falar, contextos históricos, gente de outro tempo que usava uma língua que hoje intensamente se modificou.

No espelho vejo que este escriba mesmo também foi, sem se dar conta, perdendo um pouco de seu falar original, embora muito ainda permaneça do paraensês com seu esse chiado e forte. Fui transferido de cidade algumas vezes. Morei em Anápolis, Manaus, Belém, Brasília e Curitiba, até que, finalmente, finquei raízes na região Sudoeste paranaense.

É assim mesmo.

O tempo vai modificando alguns elementos e vocábulos da língua. Um vocábulo hoje não era o mesmo ontem. Existirá daqui a cinquenta ou cem anos? Depende.

Mas aqui me atenho a alguns aspectos curiosos da língua.

Voltando ao vocábulo caráter, as palavras de Chaplin dão uma indicação neutra a esse vocábulo. Mas quase sempre aqui no Brasil se usa caráter num sentido mais específico.

Explico.

Outro dia ouvi alguém dizendo que um bom gestor público tem que ter caráter, e é claro que queria dar sentido positivo ao vocábulo, significando dizer que o gestor deve ser honesto, probo, trabalhador, dinâmico, bem-intencionado, competente…

O mesmo se diz em relação a personalidade. Diz-se que um homem tem personalidade e outros não têm. Outros já falam em personalidade forte para alguém temperamental, que não deixa nada sem respostas. Na verdade, porém, alguém pode ter bom, mal ou outro tipo de caráter, que quer dizer, característica, tipo inerente a cada indivíduo.  Posso dizer que Fulano tem o caráter de ser tímido, por exemplo.

Sucesso é outra palavra que já foi neutra na vocabulário brasileiro. Alguém poderia ter sucesso ruim ou bom. Sorte já foi sinônimo de sina. Hoje o vocábulo é pouquíssimo usado nessa acepção. Quando se fala em sorte, se vem logo à cabeça que alguém obteve êxito, saiu-se vitorioso nalgum concurso, se deu bem num empreendimento, ganhou na loteria, coisas assim. Sucesso e sorte são fenômenos que podem ser explicados também pela invasão cultural. Por essa razão os vocábulos êxito e fortuna vão perdendo terreno nesse campo linguístico.

Se sorte é coisa boa, positiva, o mesmo não se pode dizer de uma de suas derivadas. Sorteio nem sempre indica uma boa finalidade e o sorteado pode na verdade ser o escolhido para algo nefasto. “Os amotinados sortearam um dos detentos para o sacrifício.”. Que dirá sortilégio!

Azar é o antônimo de sorte, na acepção costumeira que o povo dar ao vocábulo. Nesse caso azar é quando alguém se dar mal. O sortudo é sempre o afortunado, ao contrário do azarado, que geralmente não tem boa sorte.

Falou e disse!

E essa é mais uma expressão antiga, lá dos anos 1960 e 1970, que indica alguém ter falado algo com propriedade, convicção…

Mas, palavras são palavras, nada mais que palavras, como dizia Chico Anysio , por meio de seu personagem Valfrido Canavieira, um prefeito populista e corrupto que governava a fictícia cidade nordestina de Chico City. O político-personagem falou, falou, mas não disse coisa nenhuma, uma forma de enrolar o povo. Novidade?

Muitas palavras e expressões vão-se com o tempo, mas algumas teimosamente  sobrevivem apesar deste.

Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo! 

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