CHICO Buarque!

A Cantiga de Amigo e o Eu Feminino

CHICO Buarque 1

Chico Buarque de Holanda, imagem atual (fonte: Internet)

APRECIO sem moderação literatura em geral. Pela brasileira, porém, sou apaixonado e considero Machado de Assis o maior escritor brasileiro, sem dúvidas.

Também gosto muito de música, e aí não há nacionalidade ou língua. Gosto de música com uma condição: que seja de bom gosto, agradável aos ouvidos. A melodia associada aos versos é uma dádiva que Deus concedeu a seus filhos, sua imagem e semelhança. Convém que façamos dela um bom uso, pois quem canta, seus males espanta, como professa a sabedoria popular.

Amando as Letras e a Música, busco na segunda o apoio para a primeira, associando-as. Procuro, além da melodia agradável, sobretudo — e aí brasileira tem preferência — a letra inteligente, instrumento pelo qual o autor procura passar a mensagem a seus ouvintes. Por essa razão, aplaudo o músico que privilegia tais características musicais, deixando para um segundo plano o êxito comercial. Há que expressar o homem e a vida em suas múltiplas facetas.

Na literatura musical e na música literata, observo o universo feminino. Ao menos tento.

Algumas canções brasileiras podem ser associadas a determinados gêneros literários. Modernamente alguns músicos trazem a público composições com inspirações realistas, naturalistas, românticas (e estas são a maioria quase total). De algum tempo para cá, foquei o ponto de vista feminino nalgumas canções, chamando a atenção para aquelas cujos letrias sejam homens. Trata-se do eu lírico feminino na voz e na letra do masculino, que corresponde ao gênero literário medieval Cantiga de Amigo.

Como se sabe, a Cantiga de Amigo era o ponto de vista da mulher apaixonada. A canção e trovas vinham entoadas por homens, uma vez que na época era vedada pela sociedade medieval a participação pública da mulher.

Dentre os compositores de minha predileção, o número um sem dúvida o também dramaturgo e escritor Chico Buarque de Holanda. Chico é, sem dúvida, o mais prolífico e eclético autor musical brasileiro, de cuja mente e alma já saíram os mais variados ritmos e gêneros musicais: samba, tango, roque, fado, bolero, ópera, baião, foxtrot…

CHICO Buarque

Chico Buarque de Holanda, década de 1960 (Imagem da internet)

Esse notável músico brasileiro, considerado por muitos o maior músico brasileiro vivo, aborda em sua vastíssima obra musical de tudo um pouco. Além de crítico mordaz do período autoritário sob o qual penou nossa gente, Chico revela a alma e o jeito do malandro brasileiro, da prostituta, do filho de prostituta, do homem mulherengo, do operário, do menor delinquente, do exilado político, dos amantes, da mulher resolvida. Com maestria traz à tona em suas músicas as problemáticas sociais, os dramas do cotidiano, os traumas da vida, as situações pitorescas, não se limitando ao tempo presente, pois ele é capaz de transferir-se (e por via de consequência transferir seus ouvintes) para épocas passadas em circunstâncias históricas ou não.

Chico Buarque, portanto, é um poeta e um cronista capaz de, como ninguém, expressar a universal alma humana nos seus mais diversos sentimentos ou costumes, falando de amores, mágoas, ódios, sofrimentos, amizades, revoltas e mulheres. Ousa o músico penetrar como ninguém no universo feminino, retratando a mulher apaixonada, a mulher desiludida, a mulher desesperada, a mulher conformada, a mulher decidida, a mulher amante, a mulher adolescente, a mulher mãe.

Destaco nesta postagem quatro canções. Olhem que nem vou falar, por exemplo, de “O Meu Amor“, com seu erotismo explícito, nem mesmo da divertida “Ai Se Eles me Pegam Agora“, à la anos 20, na interpretação do grupo As Frenéticas.

Em Atrás da Porta, Chico traveste-se de uma mulher que se desespera diante do iminente abandono pelo homem amado.

Quando olhaste bem nos olhos meus / E o teu olhar era de adeus

Dispõe-se a mulher a tudo, até mesmo à humilhação, valendo-se de tudo para segurar seu homem e provar que ainda é sua.

Dei pra maldizer o nosso lar /  Pra sujar teu nome, te humilhar / E me vingar a qualquer preço

Na interpretação de Elis Regina, há um vídeo em que ela põe a mão no rosto de forma a cobrir suas emoções que afloram em forma de lágrimas. Dizem que, ao piano, está seu ex-marido, tornando a emoção da cantora ainda mais palpável, uma ferida exposta. Não se trata de mera interpretação, é, antes de tudo, sentimento.

ELIS Regina

Elis Regina (fonte: Internet)

A canção retrata exatamente esse drama doméstico, e não sei dizer se Chico Buarque compôs essa obra em especial para Elis interpretar. É possível, porém a separação dela e de César Camargo Mariano não teria como ser prevista pelo compositor. O forte componente emocional da canção foi ainda mais valorizado por conta da marcante interpretação de Elis Regina.

Outro detalhe: a letra foi parcialmente censurada. Foi trocada a expressão “pelos”, que a tornaria ainda mais explícita, por “peito”.

Todavia em Com Açúcar Com Afeto, Chico Buarque de Holanda a compõe exatamente para a interpretação de Nara Leão. A letra fala do sofrimento de uma mulher pelo comportamento de seu amado, um malandro contumaz.

Com açúcar, com afeto, fiz seu doce predileto / Pra você parar em casa, qual o quê / Com seu terno mais bonito, você sai, não acredito / Quando diz que não se atrasa / Você diz que é operário, sai em busca do salário / Pra poder me sustentar, qual o quê / No caminho da oficina, há um bar em cada esquina / Pra você comemorar, sei lá o quê

Apesar de tudo, por ser apaixonada, a queixosa sempre perdoa o marido e o casal acaba por se reconciliar.

Logo vou esquentar seu prato, dou um beijo em seu retrato /  E abro meus braços pra você

Tatuagem expressa uma paixão em forma de apego excessivo, fixando-se ao amado como se fosse tatuagem só para acompanhá-lo em toda a parte. A letra também revela a submissão feminina.

Quero ficar no teu corpo feito tatuagem / Que é pra te dar coragem / Pra seguir viagem
Quando a noite vem / E também pra me perpetuar em tua escrava / Que você pega, esfrega, nega / Mas não lava

A minha preferida, no entanto, é Bastidores. Alguns discutem se a interpretação dessa cantiga de amigo fica melhor na voz de Cauby Peixoto ou na do próprio autor. Para mim essa é uma discussão estéril, pois o charme da canção reside no fato de ser interpretada por voz masculina. Chico Buarque de Holanda desnuda a história de uma cantora de cabaré desiludida mas ainda atormentada por um amor do passado.

Chorei, chorei / Até ficar com dó de mim / E me tranquei no camarim / Tomei o calmante, o excitante / E um bocado de gim / Amaldiçoei o dia em que te conheci / Com muitos brilhos me vesti / Depois me pintei, me pintei, me pintei

Cantei, cantei / Nem sei como eu cantava assim / Só sei que todo o cabaré / Me aplaudiu de pé / Quando cheguei ao fim

Cantei, cantei / Jamais cantei tão lindo assim / E os homens lá pedindo bis / Bêbados e febris / A se rasgar por mim

Chama a atenção nessa espécie de folhetim à la Nelson Rodrigues a repetição de palavras, ao jeito de falar próprio da mulher.

Depois me pintei, me pintei, me pintei

Apreciem sem moderação!

Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo! 

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