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MENDES Porto, o popular Barrão!

BARRÃO nota de falecimento

EM TODO lugar, trabalho, escola, clube, há sempre um sujeito divertido, engraçado, quase sempre falastrão, que, mal o vemos e já, quase sem querer, abrimos um largo sorriso. Suas histórias – ou estórias – são sempre aumentadas, enfeitadas, espichadas e enriquecidas com detalhes burlescos, que, acompanhados de trejeitos exagerados e caretas, conduzem os ouvintes ao inevitável riso, e do riso se vai à estrepitosa gargalhada, deixando mais amenos os rigores do dia a dia. E isso só ele sabe fazer. Sujeitos assim, embora não sejam unanimidades, são úteis e necessários a um ambiente saudável e alegre, desde que suas piadas não tenham o fito de humilhar ou diminuir seu semelhante.

Durante o espaço de tempo em que passei pela Aeronáutica, esses trinta anos que se foram tão céleres que –- como dizia Oscar Niemeyer -– pareceram um sopro, testemunhei muitos fatos, histórias interessantes e insólitas. Episódios que aconteceram de fato, embora inverossímeis pareçam. Há outros que parecem enterro de anão: existem mas ninguém vê.

Outros há que, até podem realmente serem fatos, mas cada um que os conta, acrescenta um ponto, e o que era originalmente verdadeiro vira causo, folclore, anedota, estória de trancoso, ou qualquer outro nome que se dê.

Barrão, o primeiro logo após os dois meninos da primeira fila agachados

O escriba já viu muita coisa, mas claro que não viu tudo. Eu já vi ficha disciplinar de coronel de, com tantas punições disciplinares registradas, fazer inveja ao soldado mais alterado do quartel. Eu já vi coronel mandar pôr major, como castigo, na relação de pernoite. Eu já vi capitão sair às vias de fato com major.

Meninos, eu vi!

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CHICO Buarque!

A Cantiga de Amigo e o Eu Feminino

CHICO Buarque 1
Chico Buarque de Holanda, imagem atual (fonte: Internet)

APRECIO sem moderação literatura em geral. Pela brasileira, porém, sou apaixonado e considero Machado de Assis o maior escritor brasileiro, sem dúvidas.

Também gosto muito de música, e aí não há nacionalidade ou língua. Gosto de música com uma condição: que seja de bom gosto, agradável aos ouvidos. A melodia associada aos versos é uma dádiva que Deus concedeu a seus filhos, sua imagem e semelhança. Convém que façamos dela um bom uso, pois quem canta, seus males espanta, como professa a sabedoria popular.

Amando as Letras e a Música, busco na segunda o apoio para a primeira, associando-as. Procuro, além da melodia agradável, sobretudo — e aí brasileira tem preferência — a letra inteligente, instrumento pelo qual o autor procura passar a mensagem a seus ouvintes. Por essa razão, aplaudo o músico que privilegia tais características musicais, deixando para um segundo plano o êxito comercial. Há que expressar o homem e a vida em suas múltiplas facetas.

Na literatura musical e na música literata, observo o universo feminino. Ao menos tento.

Algumas canções brasileiras podem ser associadas a determinados gêneros literários. Modernamente alguns músicos trazem a público composições com inspirações realistas, naturalistas, românticas (e estas são a maioria quase total). De algum tempo para cá, foquei o ponto de vista feminino nalgumas canções, chamando a atenção para aquelas cujos letrias sejam homens. Trata-se do eu lírico feminino na voz e na letra do masculino, que corresponde ao gênero literário medieval Cantiga de Amigo.

Como se sabe, a Cantiga de Amigo era o ponto de vista da mulher apaixonada. A canção e trovas vinham entoadas por homens, uma vez que na época era vedada pela sociedade medieval a participação pública da mulher.

Dentre os compositores de minha predileção, o número um sem dúvida o também dramaturgo e escritor Chico Buarque de Holanda. Chico é, sem dúvida, o mais prolífico e eclético autor musical brasileiro, de cuja mente e alma já saíram os mais variados ritmos e gêneros musicais: samba, tango, roque, fado, bolero, ópera, baião, foxtrot…

CHICO Buarque
Chico Buarque de Holanda, década de 1960 (Imagem da internet)

Esse notável músico brasileiro, considerado por muitos o maior músico brasileiro vivo, aborda em sua vastíssima obra musical de tudo um pouco. Além de crítico mordaz do período autoritário sob o qual penou nossa gente, Chico revela a alma e o jeito do malandro brasileiro, da prostituta, do filho de prostituta, do homem mulherengo, do operário, do menor delinquente, do exilado político, dos amantes, da mulher resolvida. Com maestria traz à tona em suas músicas as problemáticas sociais, os dramas do cotidiano, os traumas da vida, as situações pitorescas, não se limitando ao tempo presente, pois ele é capaz de transferir-se (e por via de consequência transferir seus ouvintes) para épocas passadas em circunstâncias históricas ou não.

Chico Buarque, portanto, é um poeta e um cronista capaz de, como ninguém, expressar a universal alma humana nos seus mais diversos sentimentos ou costumes, falando de amores, mágoas, ódios, sofrimentos, amizades, revoltas e mulheres. Ousa o músico penetrar como ninguém no universo feminino, retratando a mulher apaixonada, a mulher desiludida, a mulher desesperada, a mulher conformada, a mulher decidida, a mulher amante, a mulher adolescente, a mulher mãe.

Destaco nesta postagem quatro canções. Olhem que nem vou falar, por exemplo, de “O Meu Amor“, com seu erotismo explícito, nem mesmo da divertida “Ai Se Eles me Pegam Agora“, à la anos 20, na interpretação do grupo As Frenéticas.

Em Atrás da Porta, Chico traveste-se de uma mulher que se desespera diante do iminente abandono pelo homem amado.

Quando olhaste bem nos olhos meus / E o teu olhar era de adeus

Dispõe-se a mulher a tudo, até mesmo à humilhação, valendo-se de tudo para segurar seu homem e provar que ainda é sua.

Dei pra maldizer o nosso lar /  Pra sujar teu nome, te humilhar / E me vingar a qualquer preço

Na interpretação de Elis Regina, há um vídeo em que ela põe a mão no rosto de forma a cobrir suas emoções que afloram em forma de lágrimas. Dizem que, ao piano, está seu ex-marido, tornando a emoção da cantora ainda mais palpável, uma ferida exposta. Não se trata de mera interpretação, é, antes de tudo, sentimento.

ELIS Regina
Elis Regina (fonte: Internet)

A canção retrata exatamente esse drama doméstico, e não sei dizer se Chico Buarque compôs essa obra em especial para Elis interpretar. É possível, porém a separação dela e de César Camargo Mariano não teria como ser prevista pelo compositor. O forte componente emocional da canção foi ainda mais valorizado por conta da marcante interpretação de Elis Regina.

Outro detalhe: a letra foi parcialmente censurada. Foi trocada a expressão “pelos”, que a tornaria ainda mais explícita, por “peito”.

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PALAVRAS são palavras!

A evolução diacrônica vocabular e outras alterações na língua de Camões

PALAVRA definição
Fonte: Internet

CHAPLIN, o inigualável, em sua obra Luzes da Ribalta, já dizia que o álcool revela o caráter.

PALAVRAS diversas
Fonte: Internet

O escriba usa a fala do genial cineasta britânico para dizer sobre as mudanças que as palavras sofrem com o tempo. Tais evoluções decorrem de muitos fatores, associados ou não. A geografia é uma delas, a modernização tecnológica é outra. O uso constante prolonga ou eterniza um vocábulo; o contrário, a falta de uso, leva essa palavra à extinção.

Dou um exemplo geográfico.

Baeta, substantivo feminino, por exemplo, é uma palavra desconhecida no Norte e no Nordeste. Já em regiões frias, com as quatro estações definidas, primavera, outono e verão e inverno, a baeta — tecido felpudo de lã — é uma peça muito útil, necessária para proteger e aquecer os bebês, por isso, o vocábulo está vivo, vivíssimo da silva, conhecido justamente pela utilidade que tem.

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O CASO da chave!

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O RELATO sincero do amigo Juvenal no dia anterior ainda remoía na cabeça de Calixto Wilson. Encerrava o caso, além da dupla situação de fraude, a primeira ao sistema financeiro da habitação, e a segunda contra a disciplina dos quartéis, alguns ensinamentos. Dentre os fraudadores, um que não foi alcançado pela punição disciplinar coletiva aplicada pelo comandante, porque seu nome não constava da relação enviada ao comandante da unidade pela gerência local da Caixa Econômica. A suspeita de Juvenal de que o pilantra tivesse pago suborno a funcionário não era despropositada. Calixto bem chegou a conhecer o sujeito. Era o mesmo que passou a perna em muita gente, incluindo alguns oficiais,  e para um deles “vendeu” carro, automóvel esse que não lhe pertencia vez que ainda estava em nome de outrem. Para outros “vendeu” terrenos que não existiam. Após transferido, uma família foi parada na guarita da vila dos sargentos, com caminhão de mudança e tudo, e eles queriam tomar posse da casa que o sargento lhes havia “vendido”, negócio feito mediante gorda parcela de entrada. Gente humilde que fora enganada por pessoa sem nenhum escrúpulo, que busca o vil metal a qualquer custo.

Na segunda, o próprio Juvenal fora protagonista num caso em que, ao vento de circunstâncias favoráveis, fraudou o texto da punição retirando seu próprio nome. De fato ficou preso, porém de direito nunca houve punição alguma, ao menos para ele. Paralelo ao episódio, há o caso do encarregado, e, pessoas como ele, Calixto conhecia muitas. O mundo está cheio de pessoas assim: impiedosas no trato com os mais fracos, porém subservientes nas relações com os poderosos.

Refletindo sobre tudo o que, formalmente, por meio dos documentos que lhe chegavam para copiar, ou de maneira informal, pelas conversas que ouvia pelos corredores da unidade e em seu próprio local de trabalho, chegava à conclusão de que no mundo há muita gente capaz de praticar fraudes. Mas isso não dar a ninguém o direito de rotular as pessoas, que assim agem, como desonestas. Há, segundo seu pensamento, vezes em que as circunstâncias ou até mesmo uma espécie de legítima defesa levam o homem a — digamos assim — dar um jeitinho aqui e outro acolá. Noutras vezes, de forma ingênua, inocente ou casual, acaba se envolvendo em situações embaraçosas que, por vezes, lhe rendem complicações tumultuosas na vida.

Por sinal, nutria espécie de preconceito contra gente que se diz acima de qualquer suspeita. No íntimo, cada um de nós que vivemos na face desta terra tem algo de errado, uma fraqueza, um vício ou pecado, ainda que a gente não se dê conta disso. Erro é o que há nas outras pessoas, e não no indivíduo em si, como o velho adágio sobre a pimenta que arde apenas nos próprios olhos e não nos alheios.

Era assim que pensava o copiador.

Procurava a chave para fechar a seção e por algum instante não a localizava. Lembrou nesse instante do caso de Florindo, que se envolveu — ou foi envolvido — num caso de desaparecimento de material. Sujeito ingênuo o Canela-de-Freira, como alguns maldosamente o tratavam.

Florindo Hortêncio Flores da Rosa, jovem, alto e  magro, branco quase pálido, óculos fundo de garrafa, assim que se formou foi classificado para trabalhar no almoxarifado. A timidez era uma de suas características mais perceptíveis, além de ser incapaz de fazer mal a uma mosca. Também era metódico, obcecado por fazer tudo certinho, daqueles raros sujeitos muito trabalhadores, que chegava sempre adiantado e saía sempre depois. Ninguém tem notícia que algum dia tenha ele se atrasado a qualquer compromisso.

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ANADY Queiroz!

O projeto Aluno Escritor

PROJETO aluno escritor - capa

VASCULHANDO os escaninhos da memória (como diziam os antigos), relembro com carinho a época em que recebia novos soldados como auxiliares. Os jovens eram a mim confiadas, daí a responsabilidade que me cabia como encarregado, chefe e colega de trabalho mais experiente. Punha-me primeiramente a orientá-los e aconselhá-los.

Sempre foi assim. De primeiro como sargento, de terceiro-sargento novinho a suboficial antigo, e mais tarde como oficial, nos postos de tenente e capitão.

Chegavam à minha presença cheios de expectativa. Sentia-me, pois, na obrigação de alertá-los sobre a celeridade do tempo, das obrigações de rotina e do proveito profissional que deveriam tirar daquela convivência de um, dois, três ou quatro anos.

Um dos conselhos: não deixem de estudar; outro: procurem aprender algo de útil para utilizarem mais tarde na vida civil. A caserna, particularmente os quarteis da Força Aérea, oferecem muitas possibilidades. Ali o jovem pode trabalhar na seção de transportes como condutor ou mecânico, tem condições de servir na seção de saúde como auxiliar de enfermagem. Talvez seja pintor, eletricista, hidraulista, ferramenteiro, almoxarife, marceneiro. Na administração, tem a possibilidade de lidar com os meios de informática e servir como auxiliar administrativo. Toda essa cancha de experiências dão ao soldado um leque de possibilidades profissionais ao se desligarem do serviço ativo, facilitando a sua admissão no mercado de trabalho.

A passagem do jovem pela caserna ensejava uma transformação, uma mudança de comportamento ao longo desse período. Esforçava-me  em encaminhá-lo nesse sentido, formando novos cidadãos.

Transferindo tal modo de pensar e de agir para o campo do ensino formal, os mesmos escaninhos não me permitem olvidar de uma mestra.

O nome da professora Anady Queiroz me remete a uma significativa mudança de comportamento, pois foi a partir de suas orientações e incentivos que passei a me dedicar com mais prazer às Letras, representando essas ações pedagógicas um claro divisor de águas do, até então, humilde escrevente de quartel.

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MACHADO de Assis!

Noite de Almirante

Machado início

DEOLINDO Venta-Grande (era uma alcunha de bordo) saiu do arsenal de marinha e enfiou pela rua de Bragança. Batiam três horas da tarde. Era a fina flor dos marujos e, de mais, levava um grande ar de felicidade nos olhos. A corveta dele voltou de uma longa viagem de instrução, e Deolindo veio à terra tão depressa alcançou licença. Os companheiros disseram-lhe, rindo:

– Ah! Venta-Grande! Que noite de almirante vai você passar! ceia, viola e os braços de Genoveva. Colozinho de Genoveva…

Deolindo sorriu. Era assim mesmo, uma noite de almirante, como eles dizem, uma dessas grandes noites de almirante que o esperava em terra. Começara a paixão três meses antes de sair a corveta. Chamava-se Genoveva, caboclinha de vinte anos, esperta, olho negro e atrevido. Encontraram-se em casa de terceiro e ficaram morrendo um pelo outro, a tal ponto que estiveram prestes a dar uma cabeçada, ele deixaria o serviço e ela o acompanharia para a vila mais recôndita do interior.

A velha Inácia, que morava com ela, dissuadiu-os disso; Deolindo não teve remédio senão seguir em viagem de instrução. Eram oito ou dez meses de ausência. Como fiança recíproca, entenderam dever fazer um juramento de fidelidade.

– Juro por Deus que está no céu. E você?

– Eu também.

– Diz direito.

– Juro por Deus que está no céu; a luz me falte na hora da morte.