CAPITÃO Pacobahyba e o discurso!

 

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NO CASSINO de Oficiais tudo e todos preparados, o serviço de taifa a postos, comandante e demais oficiais presentes, e eis que chega a autoridade a ser homenageada. Era o brigadeiro Vianna Calmon, em sua visita de cortesia, por ocasião de sua transferência para a reserva remunerada, a ocorrer em dias próximos.

Já havia visitado algumas unidades do Nordeste e, em Belém, o comando da Primeira Zona. Era, porém, a primeira vez que era alvo de tamanha distinção. Antes, apenas um almoço um jantar, nada mais que isso.

Tenente Normando, um pouco nervoso, está a um canto manuseando os papéis de continham o discurso em honra ao oficial-general.

O comandante tece algumas palavras de boas-vindas à autoridade, que ele correspondia com sorrisos e meneios de cabeça. Olhando para o canto onde se encontra o tenente Normando, fá-lhe um gesto de cabeça. Era a deixa para que o jovem oficial iniciasse o discurso.

Excelentíssimo senhor major-brigadeiro Intendente André Luís de Vianna Calmon, mui digno diretor de Intendência da Aeronáutica,

Estimado senhor comandante desta Base Aérea, ilustríssimo senhor coronel Horácio Vieira de Sousa e Silva,

Senhor Subcomandante, tenente-coronel Dacildo de Amoedo Rocini, prezados senhores oficiais aqui presentes e senhores e senhoras funcionárias civis…

Excelência,

Incumbiu-me o ilustríssimo senhor comandante de ter a honra de dirigir estas singelas palavras ao Excelentíssimo senhor brigadeiro intendente que nos prestigia com sua notável presença.

Devo confessar que somente após algumas horas desde quando o senhor comandante chamou-me a seu gabinete onde designou-me para tão honrosa incumbência é que fui atentar para a magnitude e importância deste singular evento. Esta data ficará marcada como ocasião especial no livro histórico desta Unidade.

Ora, Vossa Excelência, ao se formar pela Escola de Aeronáutica, há quase quarenta anos passados, foi designado para servir na Base Aérea de São Paulo, onde brilhantemente exerceu todas as funções de oficial intendente. Lá certamente Vossa Excelência teve oportunidade de pôr em prática toda a teoria dos livros escolares, toda a pedagogia dos mestres e todos os ensinamentos da caserna. Lá certamente Vossa Excelência pôs em marcha o soberbo assessoramento ao comandante da Unidade e aos demais oficiais mais antigos, bem como serviu com garbo aos colegas oficiais subalternos e intermediários, igualmente aos demais componentes da tropa e auxiliares civis.

Mais tarde, com méritos, Vossa Excelência, foi transferido para o Quartel da Quinta Zona Aérea. Aos olhos menos atentos, uma movimentação de rotina. Eu, porém, afirmo, malgrado a minha juventude e os poucos anos de quartel, que a movimentação continha significação. Vejam que, ainda hoje, e mais naquela época, os primórdios da Aeronáutica brasileira, os comandantes não podiam prescindir de bons auxiliares. Vossa Excelência certamente foi indicado para novo encargo haja vista seus prestimosos talentos de gestão, tanto no rancho, como na tesouraria, na seção de procuras e compras, no almoxarifado de materiais e no serviço de registro patrimonial de bens móveis. O trabalho daquele jovem tenente certamente não passava despercebido dos olhares mais experientes dos oficiais superiores daquela época pioneira.

Não foi à toa essa movimentação, portanto, a primeira como oficial. Coube ao jovem tenente e capitão Vianna Calmon a honra de servir junto a um oficial-general, no apoio indireto a toda uma Zona Aérea, que correspondia a São Paulo, Minas, Goiás e Mato Grosso.

Lá, na Quinta Zona, Vossa Excelência, desempenhando todas funções inerentes a capitão intendente, permaneceu quatro anos. Ora os talentosos não hão de ficar escondidos por muito tempo, e, como já se previa, Vossa Excelência, na época o recém-promovido major Vianna Calmon…

Enquanto isso, o capitão Arnaldo Pacobahyba observava a audiência presente. Seus olhos estudavam o próprio brigadeiro ali homenageado, o comandante, passando pelos demais oficiais, além do próprio tenente incumbido da homenagem. Tinha de tirar o chapéu ao comandante. Coronel Horácio prestava homenagem a um brigadeiro intendente que jamais viera antes à região Norte, talvez até escarnecesse do povo da região. Sempre, durante quarenta anos de serviço, a circular no âmbito dos gabinetes de São Paulo e Rio, mais tarde, por função, até Brasília, mas nada além daí. Por conhecer Horácio de outras ocasiões, sabia que toda aquela festa não era em vão, banda de música, jantares e festas, tudo ali tinha significado, razão de ser. É possível que, além do fato de ser um brigadeiro influente, também fosse amigo do próprio ministro ou do comandante de pessoal, gente alta, influente. Sim, por que não pensara nisso, claro, a promoção, ali estaria alguém a indicar o nome do coronel Horário nas próximas reuniões da Secretaria de Promoções. Esse Horário não daria ponto sem nó. Desviava de quando em vez o olhar para as pessoas em volta, até que chega ao rosto da dona Sizenanda. Estava a secretária visivelmente emocionada com o discurso do tenente Normando. Mais tarde, Pacobahyba volta, por mais de uma vez, a comparar as fisionomias. Haveria ali laços de sangue?

Agora o tenente já estava nos últimos cargos da carreira do brigadeiro. Discorria no momento sobre o desempenho da autoridade na função de Diretor de Intendência, de onde empenhava-se sem distinção por toda a Aeronáutica, de sul a norte. O brigadeiro ouvia com atenção.

…a coroar tal carreira invejável, eis que Vossa Excelência decide conhecer as Unidades da Força que se localizam mais acima no mapa. Bem é certo, podemos imaginar, que queria o oficial intendente conhecer a realidade das Unidades a que apoiou por uma vida de quarenta anos…

Pacobahyba percebe que, de início o brigadeiro comportava-se como a uma homenagem qualquer, um discurso comum, como tantos em sua longa carreira que participou. Nada de anormal. Contudo, à medida que as palavras bem pronunciadas, ou melhor, até mesmo interpretadas, de Normando iam sendo firmadas no silêncio que se fazia no recinto, o semblante de sua excelência ia aos poucos se mudando, de forma que ao final a autoridade deixou escapar uma ou duas lágrimas.

— Gostaria de uma cópia dessas suas palavras, meu jovem — disse a autoridade com um efusivo aperto de mão e um tapinha nas costas de Normando. — Se eu não tivesse presente, não poderia acreditar que pudesse sair da cabeça de um oficial tão jovem palavras tão inspiradas.

Dava para ver que Horácio também ficara satisfeito com o resultado, cumprimentando logo depois o tenente.

— Foste bem, hein meu rapaz. Emocionaste o brigadeiro!

Já se imaginava com as insígnias de oficial-general. Era questão de tempo apenas.

L.s.N.S.J.C.!  

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