MALBA Tahan!

O mendigo das moedas de ouro (sétima parte)

Continuação da postagem de 29jun2018

 

FEZ-SE no grande e riquíssimo divã profundo silêncio. Todos os olhares convergiam ansiosos para o magistrado famoso, de cuja decisão dependia a sorte e até a vida de várias criaturas. Como iria o velho juiz — severo cumpridor da lei — julgar o peregrino? Que diria ele do judeu Isaac? Como interpretaria o procedimento generoso do cádi?

Depois de meditar algum tempo com os braços cruzados sobre o peito, o juiz Safian inclinou-se respeitoso diante do sultão e disse:

— Sou forçado a declarar, ó Emir dos Crentes, que analisei com cuidado as ações praticadas pelos súditos trazidos à vossa presença por causa do mendigo Hassan-el-Masquim. Posso garantir — com absoluta certeza — que nenhum deles praticou ação digna de recompensa ou feito que possa merecer elogio.

O juiz Karim, adiantando-se em seguida, disse respeitoso com voz clara e pausada:

— Allah iabarak fama sidi! (Deus conserve a vida preciosa ao nosso rei!) Devo dizer, ó Rei dos Reis, que esmiucei com cuidado o procedimento dos quatro súditos que fizeram com o velho Hassan trocas tão singulares. Todos — segundo pude concluir — se fizeram merecedores de recompensa e de justos encômios.

Embora esperada, aquela divergência radical entre os dois juízes causou profunda impressão. Onde o juiz Safian via motivo para castigo, o juiz Karim — guiado pela luz da bondade — encontrava altruísmo e valor. O grão-vizir Giafar fez soar fortemente o gongo e declarou solene:

— Por ordem do nosso amo e senhor, o califa Harun-al-Raschid, Emir dos Crentes, vai ser julgado o mercador Salin Mutalak, de Mossul.

O mercador Salin ajoelhou-se humilde aguardando resignado a sorte que lhe seria destinada. E, diante do profundo silêncio que reinava no deslumbrante salão, o juiz Safian assim justificou a sua sentença:

— O mercador Salin Mutalak deu ao mendigo da mesquita uma moedinha de cobre que encontrara pouco antes no chão. Conforme declarou, ignorava o verdadeiro valor da moeda. Deu-a, portanto, ao mendigo na convicção de que a moeda nada ou muito pouco valia. Se uma pessoa dá a um pobre um pedaço de pedra de rua ou um punhado de areia do deserto não está praticando ato de caridade. E isto por que? Porque dá a um necessitado um objeto que não tem valor algum. É este exatamente o caso de Salin Mutalak: deu a um mendigo uma moeda que, a seu ver, nada valia. E, tanto assim, que ao ouvir a observação do mendigo, Salin replicou sem hesitar: “Se não queres essa moeda, procura dá-la de presente à primeira pessoa que passar por ti”, querendo, com essa advertência irônica, acentuar que o velho Hassan podia passar para as mãos de outrem a moedinha, na certeza de que nada perderia ao desfazer-se dela. Tendo assim provado claramente que o mercador Salin Mutalak, além de faltar ao dever da verdadeira esmola, procurou humilhar um infeliz mendigo que lhe estendera a mão, julgo que ele deve ser condenado a vinte chibatadas e uma multa de cinquenta dinares.

O exagerado rigor do magistrado caía, mais uma vez, impiedosamente, sobre um infeliz muçulmano.

— A sentença do juiz Safian — declarou o califa — parece-me justa e perfeita. Vejamos agora como esclarece e justifica o juiz Karin o seu modo de pensar.

Ao ouvir tais palavras, o bondoso Karim Abul Fadl — o grande sábio — assim falou:

— O mercador Salin Mutalak deu ao mendigo Hassan uma moedinha de cobre que encontrara no caminho. Era, porém, conforme declarou, o único dinheiro que levava naquela ocasião. Ora, o valor da esmola — conforme ensina o nosso santo profeta Maomé (com ele a oração e a glória!), não se mede pelo valor da quantia data, e sim pela intenção daquele que pratica o ato de caridade. Tanto assim que, ao ouvir a ingrata exclamação do mendigo, o mercador Salin aconselhou-o a que desse a moedinha à primeira pessoa que encontrasse. Quis ele, com tais palavras, mostrar ao velho Hassan que o pobre não deve ser ingrato para com aquele que o auxilia e que a mesma moedinha, apesar de insignificante, poderia ser para outra pessoa uma peça de alto valor. Os fatos posteriores provaram que era profundamente verdadeiro e exato o conselho dado pelo mercador. Aos olhos do peregrino Halef Khalid, por exemplo, a moedinha perdida era uma preciosidade. Penso, portanto, que o mercador Salin Mutalak, além de praticar o ato sublime da caridade (dando a um velho todo o dinheiro que possuía), proporcionou ao mendigo Hassan uma sábia e profunda lição de moral. Julgo (Allah, porém, é mais sábio, mais justo e mais clemente!), julgo que o mercador Salin Mutalak deve receber um trajo de honra e uma recompensa de dez dinares em ouro.

O sultão Harun-al-Raschid, movido à generosidade, concordou em última instância com a sentença do juiz Karim. Por sua ordem, o tesoureiro do palácio entregou imediatamente ao mercador Salin Mutalak a quantia de dez dinares e um belíssimo trajo de honra. O mercador, agradecido, beijou a terra junto aos pés do califa. A todos causou grande alegria o ato de magnanimidade do soberano de Bagdá.

Foi, em seguida, anunciado pelo grão-vizir Giafar que ia ser julgado o peregrino Halef Khalid, de Basra. O juiz Safian — a quem cabia a vez de se pronunciar sobre o caso — assim o fez:

— O peregrino Halef Khalid, ó Rei dos Reis, ao entrar na mesquita de Osmã foi surpreendido, conforme declarou, pelo ato de um velho e sórdido mendigo, que lhe veio ao encontro para oferecer-lhe espontaneamente uma moeda rara e altamente valiosa. Que fez o peregrino? Recebeu a moeda rara e, tomando de sua bolsa outra moeda de prata, entregou-a ao velho Hassan do mesmo modo como pagaria a um mercador no bazar das quinquilharias de Mossul. Além do pecado da ingratidão  — ao esquivar-se a gratificar o ancião que lhe oferecera amavelmente a moedinha lendária — deixou o mercador Halef de praticar a esmola. Assim sendo, julgo que o peregrino Halef Khalid, que tem (como reconheço) a seu favor a circunstância de se achar em peregrinação, deve ser, apenas multado em vinte dinares e obrigado a ouvir publicamente uma enérgica censura, que deverá ser proferida pelo imã mais antigo da mesquita de Osmã.

Ao ouvir a sentença do grande juiz, disse o califa:

— Parecem justas as tuas palavras, ó Safian. Quero, porém, ouvir o que pensa sobre o caso o juiz Karim.

Sendo assim autorizado a falar, o famoso ulemá tomou a palavra.

— Ao entrar descuidado na mesquita, deparou-se ao peregrino Halef Khalid um velho mendigo que lhe estendia a mão, oferecendo-lhe uma moeda. Ao examinar essa moeda, verificou Halef Khalid que se tratava de uma peça histórica de muito valor. Recebera-a dando em troca, ao mendigo, o justo valor da lendária moedinha. Procedeu, portanto, com honestidade. Certo, como estava, de que Hassan ignorava o valor da moeda, podia, se quisesse, dar em troca duas ou três moedas de cobre. Não. Não procedeu assim. Pagou ao velho Hassan como pagaria a um mercador ou a um traficante do suque de Bagdá. E por que comprou Halef Khalid a moedinha a Hassan? Foi unicamente para auxiliar o velho mendigo da mesquita. A aquisição de um objeto de que não precisamos é um modo discreto de auxiliarmos os desamparados que, por timidez, não esmolam. Se, depois de efetuada a transação desse Halef Khalid uma gratificação ao pobre, procederia indelicadamente e poderia ofender ou humilhar o infeliz Hassan. Não devemos nunca menosprezar aqueles que se mostram bondosos e simples. Acho, portanto, que o peregrino Halef Khalid se houve com honestidade e provou ser generoso e delicado. Um homem que possui tais qualidades merece sempre a nossa amizade e admiração. Julgo (Allah é mais sábio, mais justo e mais clemente!), julgo que o bondoso Halef Khalid — o peregrino –, pela sua maneira honesta e digna de proceder, merece como recompensa um trajo de honra e um auxílio de vinte dinares de ouro.

Em definitivo concordou o sultão Harun-al-Raschid com a opinião do juiz Karim. Ao peregrino Halef Khalid foi logo entregue a valiosa recompensa de que se fizera merecedor.

Giafar, o grão-vizir, declarou, então, que ia ser julgado o judeu Isaac Ben-Moab. Esperavam todos ansiosamente a sentença terrível do juiz Safian. Era certo que esse magistrado pediria para o infeliz Isaac a pena de morte.

E como iria o juiz Karim justificar o caso da moeda falsa?

Safian Ben-Rammah, tendo na mão um exemplar do Alcorão, pronunciou com firmeza, sem a menor hesitação, a seguinte sentença:

Continua

MALBA Tahan!

O mendigo das moedas de ouro (sexta parte)

Continuação da postagem de 28jun2018

MALBA Tahan

Júlio César Mello e Sousa, mais conhecido como Malba Tahan

JÁ SABEIS, ó Comendador dos Crentes, que o meu nome é Omar Chafihi e que sou governador de Thous, a longínqua província persa recentemente pacificada pelas forças muçulmanas. Há muito tempo me premia o vivo desejo de vir a esta gloriosa cidade de Bagdá. Preso, porém pelas múltiplas ocupações de meu cargo, não me era possível, sem graves prejuízos para a comarca, afastar-e, embora por poucos dias, da província de Khorassã. Ultimamente, entretanto, meu irmão Ali Ferrhan, que se encontrava ausente, regressou a Thous. Pedi-lhe que me substituísse no governo da cidade, ao que ele prontamente aquiesceu. Preparei uma grande caravana e, acompanhado de meus guias e escravos, tomei a estrada de Adjemi, a caminho de Bagdá. Moviam-me a essa fatigante viagem dois motivos principais: visitar Bagdá e falar-vos, ó poderoso califa, pois não tinha a honra e a glória de conhecer-vos. Depois de viajar longos meses pelo deserto, cheguei, finalmente, a um grande caravançará que fica aquém da cidade El-Dijileh. Como deveis saber, ó generoso califa, é nesses caravançará que se reúnem as caravanas de mercadores, viajantes e peregrinos que vêm da Pérsia, da Judeia e da Síria. Foi aí que encontrei um escriba chamado Chanfara, homem prendado com quem fiz boa camaradagem. Como discorrêssemos acerca dos costumes dos reis, falou-me ele dos hábitos do nosso glorioso sultão (que Allah sempre conserve!). Contou-me, entre outros fatos e curiosidades, que era vosso costume, ó Emir dos Crentes, andar pelas ruas de Bagdá disfarçado em mendigo, a fim de experimentar o bom coração e os sentimentos de caridade de vossos numerosos súditos. Acrescentou o meu douto informante que mais de uma vez vos reconhecera sob as vestes andrajosas de pedinte, estendendo humildemente a mão aos que passavam. Esta particularidade da vossa vida impressionou-me profundamente. Hoje, pela manhã, ao chegar a esta cidade, fiz minhas abluções e dirigi-me à mesquita de Osmã (Allah a enalteça!), onde desejava, em preces fervorosas, agradecer ao Onipotente pela viagem feliz que me proporcionou. Ao entrar no pátio do grande templo, não vi o mendigo que estava sentado numa pequena laje, junto à escada. Foi para mim motivo de indizível surpresa perceber o infortunado, já perto de mim, a oferecer-me uma bolsa cheia de ouro. “É o nosso grande califa disfarçado em mendigo”, disse de mim para mim cheio de admiração. “Como poderia um mísero pedinte oferecer bolsas de ouro aos transeuntes?” Para mim não havia, naquela estranha aventura, a menor dúvida sobre a pessoa do ofertante. Não creio que possa existir no mundo pessoa mais generosa do que o nosso glorioso soberano. Nesta convicção, portanto, aceitei a bolsa de ouro e dei ao mendigo, cuidando dá-la ao seu destinatário, a esmeralda que eu havia comprado a um mercador hindu para oferecer ao Príncipe dos Crentes. É esta a minha história, ó califa magnânimo! Que Allah prolongue, até o fim dos séculos, a vossa preciosa existência.

Ficou o sultão maravilhado ao ouvir a narrativa do que se passara com o cádi Omar Chafihi e, com palavras carinhosas, agradeceu o valioso e belo presente que o governador de Thous trouxera especialmente para ofertar-lhe.

Quis, no entanto, o grande califa recompensar equitativamente os heróis do original sucesso em que se vira envolvido o velho Hassan.

E, para que orientassem naquele extraordinário caso, mandou que se aproximassem do trono dois juízes da corte: Safian e Karim.

Na corte do sultão Harun-al-Raschid viviam os dois célebres juízes: o primeiro chamava-se Safian Ben-Rammah e o segundo, Karim Abul Fadl.

Safian (Allah se compadeça dele!) era temido e odiado por causa das sentenças impiedosas que habitualmente proferia:

— A lei — dizia Safian — foi feita para castigar o culpado e não para premiar o inocente.

A grande habilidade desse sábio muçulmano consistia em descobrir nas ações mais comuns e simples da vida ofensas graves aos princípios sagrados o islamismo. Há um pensamento famoso do juiz Safian que alcançou triste popularidade e bem traduz o exagero com que procurava interpretar o Livro Sagrado; “Vejo em cada letra do Alcorão uma censura; em cada palavra, uma ameaça; em cada linha, um castigo; e em cada período, uma sentença de morte!”.

O juiz Karim (Allah o tenha em sua glória!) era, na sua maneira de julgar os homens, exatamente o contrário de seu colega. Tolerante em extremo, muito inclinado à benevolência e ao perdão, procurava nos versículos famosos do livro de Allah interpretação que pudesse atenuar a culpa dos réus. As sentenças do grande ulemá Karim Abul Fadl, ditadas pela mais pura bondade, eram sempre justas e sábias.

O sultão Harun-al-Raschid, quando queria resolver com segurança e absoluta justiça sobre qualquer caso, procurava conhecer previamente a opinião de Safian e a de Karim. Depois de tudo ouvido e pensado, o califa tomava a decisão que lhe parecia mais conforme à justiça e à razão.

Resolveu, pois, o poderoso monarca ouvir a opinião dos dois ulemás e ordenou que cada um deles dissesse ali mesmo, diante de todos, que recompensa ou castigo mereciam, pelo proceder que tiveram, o mercador Salin, o peregrino Halef, o judeu Isaac, a velha Fátima e o rico Omar Chafihi.

Determinou igualmente o califa que as sentenças fossem proferidas com clareza, de modo que pudessem servir de ensinamento e aviso a todos os súditos muçulmanos.

Em primeiro lugar devia falar o juiz Safian.

Continua…

MALBA Tahan!

O mendigo das moedas de ouro (quinta parte)

Continuação da postagem de 27jun2018

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Malba Tahan (fonte: Internet)

MEU NOME, ó generoso califa, é Isaac Ben-Moab. Nasci na pequena aldeia de Emaús, a pouca distância de Jerusalém. Há vinte anos que vivo a mercadejar, percorrendo os países mais longínquos do mundo. Já estive na Índia e na China. Levei minha tenda, nas costas dos camelos, desde Ispahan até às margens do Hindus e desse rio famoso fui ter às planícies infindáveis do Tibete. Não me falta, portanto, experiência que adquiri nas afanosas peregrinações feitas pelo mundo. Nos últimos meses, como estivesse à espera de uma caravana de mercadores armênios, deixei-me ficar nesta gloriosa cidade de Bagdá. Desde então, todos os dias, vou para o mercado levando nas costas do meu burrinho a mercadoria que pretendo vender. Ao passar hoje, pela manhã, junto à mesquita de Osmã, veio ao meu encontro esse mendigo e, posto que eu nada lhe pedisse, ofereceu-me, ofereceu-me valiosa moeda de prata que, segundo afirmava, lhe teria sido dada momentos antes por um desconhecido. Confesso que me causou grande estranheza a oferta daquele esfarrapado. “É um louco” – pensei. – “Não tem migalha e oferece dinheiro aos que passam”. É um pobre demente tomado da triste mania de passar às mãos alheiras os óbulos que recebe das pessoas caridosas. Afinal, de que lhe serviria aquele dinheiro, sem nem ao menos senso comum tinha ele para dirigir-se na vida? Resolvi, portanto, aceitar a moeda com que o mísero, de tão boa vontade, queria presentear-me. Ocorreu-me, porém, naquele momento uma dúvida: se eu não dessa ao velho mendigo qualquer coisa, poderia ele, no triste estado de demência em que se achava, e tomado de acesso furioso, praticar uma violência contra mim ou contra qualquer transeunte descuidado. Assim, ouvindo o conselho da prudência, resolvi dar ao mendigo a única moeda que levava comigo. Era uma moeda dourada, que eu trazia habitualmente como talismã. Serviria apenas para distrair e curar o infeliz, pois era falsa. Dera-ma, dois anos antes, um muezim de Damasco. Eis aí, ó generoso califa, o motivo por que fiz com Hassan a troca que parece estranha: a prata era verdadeira, mas a do ouro, a outra moeda, tinha apenas a aparência. Não passava de um amuleto.

Harun-al-Raschid, terminada a narrativa de Isaac Ben-Moab, exclamou encolerizado, num rompante:

— Ia kafer, ia Iáin! (Ó ímpio! Ó maldito!) O teu procedimento foi indigno, ó judeu sem crenças! Recebes prata de verdade e dás, em troca, ouro de mentira! Não quero, porém, castigar-te agora. Estou ansioso por saber a razão que levou essa boa anciã a receber uma moeda falsa e dar em troca uma bolsa cheia de ouro.

Interrogada pelo califa, a mulher iniciou o seguinte relato depois de beijar humildemente entre as mãos a terra:

É singular a minha história, ó califa dos crentes, e vi-me envolvida nas suas perifpécias em consequência de um sonho. Chamo-me Fátima. Sou da tribo dos Anazeh e vivo para além da cidade de Kerbela, na estrada que vai ter à torre de Babel. Uma tarde, quando dormia a sesta no terraço de minha casa, sonhei que se viesse a Bagdá encontraria, junto à mesquita de Osmã, um grande tesouro. Impressionada com esse sonho revelador, falei a meu filho e pedi-lhe que me deixasse vir a Bagdá em busca dessa riqueza. Meu bom filho, a princípio, não quis consentir, alegando que a viagem de Kerbela até Bagdá é longa e perigosa. Tamanha, porém, foi a minha insistência, que ele, ao cabo de muita hesitação, deixou-me partir, recomendando-me a um velho amigo, que vinha de Hail com uma grande caravana de mercadores damascenos. Foi assim que cheguei hoje, ao nascer do dia, a esta gloriosa cidade, ó califa. Com as informações que me deram os guias, dirigi-me logo à mesquita de Osmã (Allah que a nobilite para todo o sempre!), ansiosa por averiguar se ali estaria o tesouro que me fora em sonho anunciado. A praça de Osmã, quando cheguei lá , estava deserta. Meu primeiro cuidado foi procurar pelo chão, no meio da areia, a ver se ela ocultaria alguma bolsa cheia de pérolas ou alguma caixa repleta de brilhantes. Nada, porém, vislumbrei que me despertasse a atenção. Já me dispunha a voltar para o acampamento da caravana de Hail, quando de mim se acercou esse mendigo e me ofereceu, inopinadamente, uma moeda de ouro, dizendo-me: “Que esta moeda se transforme em vossas mãos numa riqueza”. Quase desmaiei, tão violenta foi a emoção que me assaltou. Podia eu lá acreditar que um mendigo, andrajoso e faminto, por sua livre vontade oferecesse moedas de ouro aos transeuntes? Não, não era possível. O desgraçado procedia, com certeza, como um autômato, impelido por alguma força desconhecida. Lembrei-me então do meu sobrinho. Allah é grande! Quem sabe se aquela moeda, na qual percebi uma inscrição, não seria um talismã precioso, capaz de me levar à descoberta do sonhado tesouro? Sem mais hesitar, guardei a moeda e, querendo recompensar o meu infeliz presenteador, dei-lhe, em troca, a bolsa que trouxera com o dinheiro que me parecera necessário às despesas da viagem. Imediatamente parti em busca de uma pessoa que me pudesse explicar os dizeres da moeda. Lembrei-me do velho Mahomed Du-Khala, que exercia, junto à porta do “hamã’, ofício de carniceiro. Não o encontrei. Procurei, então, um cameleiro chamado Zaid Saffah, que trab alho em minha casa há tempos, e que vivia em Bagdá, para os lados do cemitério judeu. Não o encontrei também. Já fatigada, dirigi-me ao primeiro homem com que topei no caminho e pedi-lhe que interpretasse a inscrição da moeda do mendigo. Esse homem — que era, aliás, um mestre-escola –, ao tomá-la entre os dedos ágeis e magros, exclamou: “Quem te deu isto, minha tia? Esta moeda é falsa! Falsa como a consciência de um pecador”. E prosseguiu: “Nela só há de verdade esta legenda”. “E que quer dizer essa legenda?”, perguntei. E ele explicou pacientemente: “É um pensamento famoso do grande Salomão — O princípio de toda sabedoria é o temor de Deus. Comecei a chorar desesperada. Todo o dinheiro que trouxera de minha casa dera-o ao mendigo da mesquita em troca daquela moeda falsa. Achava-me, assim, em terra estranha, sem parentes, sem teto e sem recursos. Compadecido, o mestre-escola ofereceu-me a sua casa onde eu ficaria ao abrigo das primeiras necessidades até que obtivesse recursos para tornar à minha terra. Aceitei o generoso oferecimento e já ia caminhando da casa do meu benfeitor quando de mim se aproximaram vários guardas que, acompanhados do velho mendigo, me trouxeram a este glorioso palácio. É esta a minha história, ó Emir dos Crentes!

Disse Harun-al-Raschid:

— Parece perfeitamente esclarecido o caso dessa anciã. Na certeza de topar com tesouros ocultos, não hesitou em dar vinte em troca de um.

E, voltando-se, a seguir, para o xeique, disse-lhe:

— Cabe-te agora, ó xeique, a vez de falar. Que nos diga bem claramente por que motivo trocaste uma pedra de alto valor por uma bolsa que continha um punhado de ouro. Não vejo explicação alguma para o teu caso.

O rico estrangeiro, depois de saudar respeitosamente o califa, contou-lhe o seguinte:

Continua

MALBA Tahan!

O mendigo das moedas de ouro (quarta parte)

Continuação da postagem de 26jun2018

MALBA Tahan Júlio César

Malba Tahan ou Júlio César de Mello e Sousa (fonte: Internet)

CONVIDADO a falar, o mercador não hesitou. Depois de dirigir respeitoso salã ao rei e aos nobres, narrou o seguinte:

Devo dizer, primeiramente, ó rei afortunado, que o meu nome é Salim Matalak e que sou filho de Mossul, cidade onde vivo mercadejando tapetes, babuchas e turbantes. Tendo chegado a esta gloriosa cidade de Bagdá, com uma caravana de mercadores persas, resolvi  hoje pela manhã visitar a famosa mesquita de Osmã (Allah a nobilite cada vez mais!), onde pretendia, como bom muçulmano, fazer as minhas preces habituais. Quis, porém, a vontade do Onipotente que, ao atravessar a praça do Sultão Al-Mansor, junto à pequena fonte que lá existe, encontrasse no chão, meio coberta de terra, pequenina moeda de cobre já um tanto gasta pelo tempo ou pelo uso. Apanhei-a e pus-me a examiná-la. “A quem teria pertencido?”, pensava eu caminhando para a mesquita. “Quem a teria perdido ali no meio da areia?” Absorto em tais cogitações, já me dispunha a entrar no templo quando vi um mendigo de aspecto sórdido, que me estendia a mão implorando um óbulo em nome de Allah. Tendo em mente que socorrer os necessitados é um dever de todos os muçulmanos, conforme determina o nosso santo Profeta (com ele a oração e a paz!), sem hesitar dei ao mendigo da mesquita a pequenina moeda que pouco antes achara junto à fonte de Al-Mansor. O andrajoso pedinte, ao invés de balbuciar uma dessas fórmulas triviais com que a mendicidade sói agradecer-nos, exclamou com certa ironia: “Que posso eu fazer, se minha pobreza é tão grande e o valor desta moeda tão pequeno?”. Magoado com essas palavras, em que percebi uma censura injusta à minha intenção, exclamei: “Se não queres essa moeda, ó ingrato, procura dá-la de presente à primeira pessoa que passar por ti”. E, sem mais me preocupar com o caso, descalcei-me e entrei na mesquita. É essa a minha história, ó califa generoso! Atal Allah unrak ai maulay! (Que Deus prolongue a tua vida, ó rei!)

Finda a narrativa do mercador, declarou o sultão: Continue lendo

MALBA Tahan!

O mendigo das moedas de ouro (terceira parte)

Continuação da postagem de 25jun2018

O MENDIGO e o ricaço

— Aceito esta bolsa, ó dadivoso amigo, e vou guardá-la como se fosse um talismã do grande Salomão nos cofres do meu palácio. Quero dar-vos, porém, um pequeno presente que trago comigo… (do livro Céu de Allah, de Malba Tahan)

TERMINARA apenas o alvoroçado mendigo de formular tal promessa quando surgiu, a pequena distância, um rico viajante de turbante cor-de-rosa, que se encaminhava, acompanhado de três escravos, para a mesquita de Osmã.

Quando o desconhecido entrou no pátio do grande tempo muçulmano, Hassan inclinou-se humilde diante dele e, oferecendo-lhe a bolsa cheia de ouro, exclamou:

— Marhaba ia akal arab! (Saúdo-vos, ó irmão dos árabes!) Recebei, generoso senhor, esta bolsa. Exorto-vos a que a guardeis como humilde lembrança de um velho mendigo de Bagdá.

O estrangeiro parou, fitando no andrajoso Hassan os olhos negros, com voz trêmula, indício de grande emoção, assim falou:

— Aceito esta bolsa, ó dadivoso amigo, e vou guardá-la como se fosse um talismã do grande Salomão nos cofres do meu palácio. Quero dar-vos, porém, um pequeno presente que trago comigo desde a longínqua província de que sou governador.

E, tirando de sob o mando uma pequena caixa de madeira, depositou-a reverentemente nas mãos de Hassan.

— Eis, senhor — tornou o desconhecido — a modesta e desvaliosa lembrança que hoje vos dá o xeique Omar Chafihi.

Tendo dito tais palavras, inclinou-se respeitoso diante de Hassan. A seguir, vagaroso e solene, encaminhou-se para o interior da grande e silenciosa mesquita.

Os três escravos negros, os braços cruzados sobre o peito, ficaram de pé, imóveis junto à porta do templo à espera de que o rico senhor terminasse as suas preces.

Ao abrir Hassan a pequena caixa assaltou-o um assombro que jamais experimentara. Deparou-se-lhe uma esmeralda que, pelo tamanho e limpidez, parecia ser de grande preço. “Não estarei, por acaso, sendo vítima de algum delírio? Esta pedra deve valer mais de cimo mil dinares. É incrível o que se acaba de passar”.

E, erguendo os braços para o céu, exclamou: Continue lendo

MALBA Tahan!

O mendigo das moedas de ouro (segunda parte)

Continuação da postagem de 23jun2018

O mendigo e a velha

… e puxando por uma pequena bolsa de couro que trazia oculta na manga do vestido, entregou-a ao mendigo. Depois do que, sem proferir uma só palavra mais, partiu, trêmula e incerta, desaparecendo na primeira curva da extensa rua de Bagdá. (fonte: livro Céu de Allah, de Malba Tahan)

CRUZAVA nesse momento a mesquita de Osmã um velho comerciante judeu, que se dirigia ao mercado, puxando o seu burrinho carregado de quinquilharias.

— Bondoso filho de Israel! — exclamou Hassan, dirigindo-se ao judeu — Gostarias de ter em tua bolsa esta bela moeda de prata que um transeunte piedoso acaba de dar-me? Podes guardá-la. É tua.

Parou o israelita estarrecido diante do inesperado oferecimento de Hassan. Que um mendigo coberto de andrajos ofereça dinheiro ao invés de pedi-lo é, realmente, uma inversão capaz de causar assombro a quem quer que seja.

— Pelas barbas de mil profetas! — exclamou o judeu — És mais generoso que um príncipe, ó muçulmano. Recebo a tua belíssima oferta e saberei — juro por Abraão — guardá-la com especial carinho. Como não quero, porém, que te venha mais tarde o arrependimento pelo que acabas de fazer, vou dar-te um troca desta moeda de prata a única moeda de ouro que tenho em meu poder.

— E passou para as mãos trementes de Hassan preciosa moeda de ouro, que parecia rebrilhar entre os seus dedos amarelados.

— Maktub! Seja feita a vontade Allah! — exclamou Hassan.

Efetuada essa troca absurda, que nem mesmo os grandes ulemás seriam capazes de explicar satisfatoriamente, retomou o judeu as rédeas de seu burrinho e partiu em direção ao mercado.

Hassan, ébrio de alegria, ao receber o dinar do judeu, ergueu as mãos para o céu e exclamou:

— Li-iatameged Allah er-Prahim er-rahaum! (Louvado seja Allah, Clemente e Misericordioso!) Pela sua infinita bondade, ganhei uma moeda de cobre; troquei-a por uma de prata e esta — ó milagre! — acabo de trocá-la por uma terceira, mais valiosa, de ouro. — Bendito seja o nome do Altíssimo!

O esfarrapado mendicante, que nunca recebera esmola de tão grande valor, não se cansava de admirar a bela e tão ambicionada moeda. Notou que ela trazia, gravada numa das faces, em primorosos caracteres árabes a legenda: “O princípio de toda sabedoria é o temor de Deus”.

Em poucos momentos de meditação, porém, sentiu-se novamente censurado pela voz da consciência a recordar-lhe que aquele dinheiro lhe viera às mãos graças à ingratidão que praticara para com o mercador. “Esta moeda não me deve pertencer”, pensou. “Deus, na sua inexcedível bondade, na sua infinita sabedoria, quis mostrar-me quanto fui injusto para com aquele que me deu a moedinha de cobre. Tanto é assim que ela, a princípio, tão desvaliosa para mim se transformou rapidamente, por trocas sucessivas, numa peça de ouro”.

E, movido por uma resolução inabalável, renovou o protesto que fizera por mais de uma vez. “Maktub! Vou dar esta moeda de ouro à primeira pessoa que passar por mim”.

E, voltando-se para a porta da grande mesquita de Bagdá, pronunciou solene o seguinte juramento:

— Que pese sobre mim a maldição de Allah, se eu conservar em meu poder esta moeda ou o ouro que dela provier.

Mal terminara o velho Hassan o seu julgamento sagrado, avistou uma velhinha muito magra e acurvada, que passava com o seu andar incerto de octogenária a pequena distância da mesquita.

A anciã trazia o rosto descoberto e caminhava de cabeça baixa, olhando para um lado e para outro, como se procurasse algum objeto que por ali tivesse perdido. De vez em quando parava para tocar num seixo negro e nodoso. Continue lendo

MALBA Tahan!

O mendigo das moedas de ouro

MALBA Tahan

UM DIA — entre os dias do passado — achava-se Hassan El-Masquim, como de costume, sentado à porta da grande mesquita de Osmã, quando por ele passou um mercador.

— Uma esmola! — exclamou Hassan, dando à voz aquela inflexão de humildade que, sincera ou artificiosa, comove sempre os ânimos piedosos — Uma esmolinha, por amor de Deus!

Ao atentar no triste e mísero estado em que se achava o andrajoso pedinte, o mercador, que trazia na mão uma pequena moeda de cobre, atirou-a sem hesitar aos pés de Hassan.

O mendigo apanhou a moeda, mas, ao invés de agradecer como devia o pequeno óbulo do bondoso mercador, murmurou pesaroso julgando não ser ouvido:

— Louvado seja Allah! Que posso eu fazer se minha pobreza é tão grande e o valor desta moeda tão pequeno!

Naquelas palavras ressumava, por certo, a ingratidão. Ao ouvi-las, o mercador, que mal transpusera os umbrais da mesquita, revidou magoado:

— Se na verdade não te serve a moeda, ó ingrato, procura dá-la à primeira pessoa que passar por ti.

Dizendo isto, descalçou as sandálias e entrou na mesquita.

O inesperado conselho do mercador causou profunda impressão ao espírito do pobre Hassan, que ficou algum tempo a meditar nas estranhas palavras que acabava de ouvir. Continue lendo