MALBA Tahan!

O mendigo das moedas de ouro

MALBA Tahan

UM DIA — entre os dias do passado — achava-se Hassan El-Masquim, como de costume, sentado à porta da grande mesquita de Osmã, quando por ele passou um mercador.

— Uma esmola! — exclamou Hassan, dando à voz aquela inflexão de humildade que, sincera ou artificiosa, comove sempre os ânimos piedosos — Uma esmolinha, por amor de Deus!

Ao atentar no triste e mísero estado em que se achava o andrajoso pedinte, o mercador, que trazia na mão uma pequena moeda de cobre, atirou-a sem hesitar aos pés de Hassan.

O mendigo apanhou a moeda, mas, ao invés de agradecer como devia o pequeno óbulo do bondoso mercador, murmurou pesaroso julgando não ser ouvido:

— Louvado seja Allah! Que posso eu fazer se minha pobreza é tão grande e o valor desta moeda tão pequeno!

Naquelas palavras ressumava, por certo, a ingratidão. Ao ouvi-las, o mercador, que mal transpusera os umbrais da mesquita, revidou magoado:

— Se na verdade não te serve a moeda, ó ingrato, procura dá-la à primeira pessoa que passar por ti.

Dizendo isto, descalçou as sandálias e entrou na mesquita.

O inesperado conselho do mercador causou profunda impressão ao espírito do pobre Hassan, que ficou algum tempo a meditar nas estranhas palavras que acabava de ouvir.

À fé que ele se mostrara bastante ingrato. Que razão tinha, afinal, para desfazer do valor daquela moeda? Não representaria ela, talvez, um sacrifício para aquele que lha dera?

E Hassan, sentindo no seu bondoso coração de crente sincero que pecara gravemente aos olhos de Deus, começou a virar re revirar a moedinha entre os dedos, fitando-a como se fosse a imagem viva do remorso que lhe estivesse presa nas mãos.

— Não. — murmurou — Diz-me a consciência que não devo ficar com esta moeda. Vou seguir o conselho do mercador.

E, resoluto, afirmou:

— Darei esta moeda à primeira pessoa que passar por aqui.

Momentos depois apareceu um peregrino. Arrastava, descansadamente, suas ricas babuchas de seda amarela.

— Senhor! — exclamou Hassan, dirigindo-se ao recém-chegado — Recebi esta moeda que mal acaba de me vir às mãos. Guardai-a, peço-vos, como lembrança de El-Masquim, o mais infeliz mendigo de Bagdá.

O peregrino tomou da moeda, examinou-lhes com certo cuidado ambas as faces e, ao cabo de algum tempo, respondeu:

— Que Allah te proeja, meu amigo. Em troca desta moeda que tão amavelmente acabas de oferecer, quero te dar outra que muito útil será para ti, em caso de necessidade.

E, tirando da bolsa uma moeda de prata, depositou-a delicadamente nas mãos de  Hassan, depois do que, sem mais dizer, encaminhou-se no seu andar vagaroso para o interior da mesquita.

Ao examinar a dádiva que recebera, Hassan não pode conter o espanto que dele se apossara. “É um milagre de Deus. — pensou ele — Só por um milagre que seria possível trocar uma moeda de cobre, de tão pouca valia, por uma peça de prata de tamanho valor.

No mesmo instante, porém, inspirado pelo seu bom coração, lembrou-se o infeliz Hassan de que fora ingrato com o mercador e de que aquela valiosa moeda de prata lhe viera às mãos graças à moedinha de cobre, sobre cuja desvalia pronunciara palavras de que tanto se arrependia.

— Não. — murmurou Hassan — Diz-me a consciência que esta moeda de prata também não me deve pertencer. Seria pecado conservá-la comigo. — Vou oferecê-la à primeira pessoa que passar por aqui.

Continua

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