MALBA Tahan!

O mendigo das moedas de ouro (segunda parte)

Continuação da postagem de 23jun2018

O mendigo e a velha

… e puxando por uma pequena bolsa de couro que trazia oculta na manga do vestido, entregou-a ao mendigo. Depois do que, sem proferir uma só palavra mais, partiu, trêmula e incerta, desaparecendo na primeira curva da extensa rua de Bagdá. (fonte: livro Céu de Allah, de Malba Tahan)

CRUZAVA nesse momento a mesquita de Osmã um velho comerciante judeu, que se dirigia ao mercado, puxando o seu burrinho carregado de quinquilharias.

— Bondoso filho de Israel! — exclamou Hassan, dirigindo-se ao judeu — Gostarias de ter em tua bolsa esta bela moeda de prata que um transeunte piedoso acaba de dar-me? Podes guardá-la. É tua.

Parou o israelita estarrecido diante do inesperado oferecimento de Hassan. Que um mendigo coberto de andrajos ofereça dinheiro ao invés de pedi-lo é, realmente, uma inversão capaz de causar assombro a quem quer que seja.

— Pelas barbas de mil profetas! — exclamou o judeu — És mais generoso que um príncipe, ó muçulmano. Recebo a tua belíssima oferta e saberei — juro por Abraão — guardá-la com especial carinho. Como não quero, porém, que te venha mais tarde o arrependimento pelo que acabas de fazer, vou dar-te um troca desta moeda de prata a única moeda de ouro que tenho em meu poder.

— E passou para as mãos trementes de Hassan preciosa moeda de ouro, que parecia rebrilhar entre os seus dedos amarelados.

— Maktub! Seja feita a vontade Allah! — exclamou Hassan.

Efetuada essa troca absurda, que nem mesmo os grandes ulemás seriam capazes de explicar satisfatoriamente, retomou o judeu as rédeas de seu burrinho e partiu em direção ao mercado.

Hassan, ébrio de alegria, ao receber o dinar do judeu, ergueu as mãos para o céu e exclamou:

— Li-iatameged Allah er-Prahim er-rahaum! (Louvado seja Allah, Clemente e Misericordioso!) Pela sua infinita bondade, ganhei uma moeda de cobre; troquei-a por uma de prata e esta — ó milagre! — acabo de trocá-la por uma terceira, mais valiosa, de ouro. — Bendito seja o nome do Altíssimo!

O esfarrapado mendicante, que nunca recebera esmola de tão grande valor, não se cansava de admirar a bela e tão ambicionada moeda. Notou que ela trazia, gravada numa das faces, em primorosos caracteres árabes a legenda: “O princípio de toda sabedoria é o temor de Deus”.

Em poucos momentos de meditação, porém, sentiu-se novamente censurado pela voz da consciência a recordar-lhe que aquele dinheiro lhe viera às mãos graças à ingratidão que praticara para com o mercador. “Esta moeda não me deve pertencer”, pensou. “Deus, na sua inexcedível bondade, na sua infinita sabedoria, quis mostrar-me quanto fui injusto para com aquele que me deu a moedinha de cobre. Tanto é assim que ela, a princípio, tão desvaliosa para mim se transformou rapidamente, por trocas sucessivas, numa peça de ouro”.

E, movido por uma resolução inabalável, renovou o protesto que fizera por mais de uma vez. “Maktub! Vou dar esta moeda de ouro à primeira pessoa que passar por mim”.

E, voltando-se para a porta da grande mesquita de Bagdá, pronunciou solene o seguinte juramento:

— Que pese sobre mim a maldição de Allah, se eu conservar em meu poder esta moeda ou o ouro que dela provier.

Mal terminara o velho Hassan o seu julgamento sagrado, avistou uma velhinha muito magra e acurvada, que passava com o seu andar incerto de octogenária a pequena distância da mesquita.

A anciã trazia o rosto descoberto e caminhava de cabeça baixa, olhando para um lado e para outro, como se procurasse algum objeto que por ali tivesse perdido. De vez em quando parava para tocar num seixo negro e nodoso.

Sem hesitar, Hassan dirigiu-se a ela e disse-lhe:

— Recebi, bondosa serva de Allah, esta moeda que aquele judeu acaba de oferecer-me. Que ela se transforme em vossas mãos numa grande riqueza.

A desconhecida parou boquiaberta às palavras do mendicante. Os olhos baços abriram-se-lhe desmesuradamente como se estivessem fitando o sobrenatural; e depois de um momento de angustiosa surpresa assim falou com profunda emoção:

— Vou guardar esta moeda, ó muçulmano, e muito agradeço a tua generosidade. E como gosto de ser útil a todos quantos me auxiliam, vou dar-te um presente de que muito de poderá servir.

Disse, e puxando por uma pequena bolsa de couro que trazia oculta na manga do vestido, entregou-a ao mendigo, depois do que, sem proferir uma só palavra mais, partiu, trêmula e incerta, desaparecendo na primeira curva da extensa rua de Bagdá.

Hassan, ao abrir a bolsa, ficou maravilhado. Era espantoso. A desconhecida do bordão negro dera-lhe vinte moedas de ouro. Que força oculta, misteriosa, teria obrigado aquela anciã a fazer, assim, uma troca tão desigual?

— É mais uma revelação milagrosa de Deus! — murmurou Hassan, refeito do profundo assombro que o transtornava.

E, erguendo os braços para o céu, exclamou numa prece fervorosa:

— Louvado seja Allah, clemente e misericordioso! Pela sua infinita bondade ganhei uma moeda de cobre, troquei-a por uma de prata; a moeda de prata foi trocada por outra de ouro e esta última — ó milagre — troco-a sem querer por uma bolsa cheia de ouro. Exaltado seja o nome do Onipotente!

E Hassan, entregue ao fatalismo religioso tão natural nos muçulmanos, disse consigo: “Se está escrito — Maktub! — que um dia serei rico, de qualquer forma as riquezas virão ter-me às mãos. Hei de dar esta bolsa à primeira pessoa que entrar na mesquita”.

Continua

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