MALBA Tahan!

O mendigo das moedas de ouro (terceira parte)

Continuação da postagem de 25jun2018

O MENDIGO e o ricaço

— Aceito esta bolsa, ó dadivoso amigo, e vou guardá-la como se fosse um talismã do grande Salomão nos cofres do meu palácio. Quero dar-vos, porém, um pequeno presente que trago comigo… (do livro Céu de Allah, de Malba Tahan)

TERMINARA apenas o alvoroçado mendigo de formular tal promessa quando surgiu, a pequena distância, um rico viajante de turbante cor-de-rosa, que se encaminhava, acompanhado de três escravos, para a mesquita de Osmã.

Quando o desconhecido entrou no pátio do grande tempo muçulmano, Hassan inclinou-se humilde diante dele e, oferecendo-lhe a bolsa cheia de ouro, exclamou:

— Marhaba ia akal arab! (Saúdo-vos, ó irmão dos árabes!) Recebei, generoso senhor, esta bolsa. Exorto-vos a que a guardeis como humilde lembrança de um velho mendigo de Bagdá.

O estrangeiro parou, fitando no andrajoso Hassan os olhos negros, com voz trêmula, indício de grande emoção, assim falou:

— Aceito esta bolsa, ó dadivoso amigo, e vou guardá-la como se fosse um talismã do grande Salomão nos cofres do meu palácio. Quero dar-vos, porém, um pequeno presente que trago comigo desde a longínqua província de que sou governador.

E, tirando de sob o mando uma pequena caixa de madeira, depositou-a reverentemente nas mãos de Hassan.

— Eis, senhor — tornou o desconhecido — a modesta e desvaliosa lembrança que hoje vos dá o xeique Omar Chafihi.

Tendo dito tais palavras, inclinou-se respeitoso diante de Hassan. A seguir, vagaroso e solene, encaminhou-se para o interior da grande e silenciosa mesquita.

Os três escravos negros, os braços cruzados sobre o peito, ficaram de pé, imóveis junto à porta do templo à espera de que o rico senhor terminasse as suas preces.

Ao abrir Hassan a pequena caixa assaltou-o um assombro que jamais experimentara. Deparou-se-lhe uma esmeralda que, pelo tamanho e limpidez, parecia ser de grande preço. “Não estarei, por acaso, sendo vítima de algum delírio? Esta pedra deve valer mais de cimo mil dinares. É incrível o que se acaba de passar”.

E, erguendo os braços para o céu, exclamou:

— Louvado seja Allah, clemente e misericordioso, pela sua infinita bondade ganhei uma moeda de cobre; troquei-a por outra de prata; a moeda de prata por outra de ouro; esta última por uma bolsa cheia de ouro; e a bolsa — ó milagre! — acabo de trocá-la por uma joia de subido valor. Exaltado seja o nome do Altíssimo!

Aquela transformação crescente de valores aparecia, aos olhos de Hassan, como uma revelação milagrosa de Deus. Veio-lhe, porém, à lembrança, o juramento que fizera. “Não posso ficar com esta pedra. — pensou — Se faltar ao juramento que fiz é certo que cairão sobre mim todas as maldições do mundo.” E asseverou convicto:

— Maktub! Vou dar esta esmeralda à primeira pessoa que passar por mim.

Nesse momento exatamente — por um inexplicável capricho do destino — avistou Hassan um grande e riquíssimo cortejo, que se dirigia à mesquita de Osmã.

Na frente, montando belo e fogoso cavalo escuro, vinha o poderoso sultão Harun-al-Raschid, califa de Bagdá. O soberano fazia-se acompanhar de seu grão-vizir, emires, cádis, ulemás, poetas, oficiais e nobres da corte muçulmana. Quando o califa estava a pequena distância da escadaria que levava ao pátio da mesquita, Hassan adiantou-se alguns passos, inclinou-se profundamente e, depois de ter beijado três vezes a terra entre as mãos, assim falou:

— Allah ibarak sid! Ia ich ra ia malec ezzaman! (Que Deus proteja e prolongue por muitos anos felizes a vida preciosa de nosso amo e senhor!). Permiti, ó Emir dos Crents, que eu, o mais humilde dos vossos escravos vos ofereça esta pequena lembrança.

Surpreendido pelo inesperado oferecimento de tão vil criatura, mandou o califa que um dos seus oficiais lhe trouxesse a pequena caixa com que Hassan acabava de presenteá-lo. Ao abri-la, verificou o califa, estupefato, que vinha dentro dela uma esmeralda como até então nunca vira.

— Allah akbar! — exclamou — Deus é grande! É inacreditável o que vejo. Um mendigo coberto de andrajos oferecer ao califa de Bagdá um presente que só as posses de um príncipe atingiriam.

E, voltando-se para o seu grão-vizir, disse-lhe o califa:

— Leva-me este homem a palácio, ó Giafar. Quero que ele me conte a origem desta valiosa esmeralda e a razão de tão singular oferecimento.

Giafar, o grão-vizir, expediu pressurosamente alguns instruções a um de seus auxiliares e Hassan foi dali levado ao suntuoso palácio do sultão de Bagdá.

O grande califa, depois de feitas as suas preces, regressou a palácio, passando imediatamente ao reservado às audiências. Ali chegado, fez vir Hassan à sua presença.

Interrogado pelo sultão, contou o mendigo a história da moedinha de cobre e as trocas sucessivas que fizera involuntariamente até receber das mãos do xeique a valiosa esmeralda.

Harun-alRaschid, tendo ouvido a singular narrativa do velho Hassan, exclamou:

— Não há força e poder senão em Allah, o Altíssimo! A aventura deste mendigo é digna da maior atenção. Quero que tragam imediatamente à minha presença o mercador, o peregrino, o judeu, a velha e o xeique, pois desejo ouvir de cada um desses súditos a explicação minuciosa das estranhas e incompreensíveis trocas que fizeram.

Sem perda de tempo, o chefe dos guardas, acompanhado de Hassan — cujo auxílio era, nesse caso, indispensável — procedeu a uma busca pela cidade, percorrendo o mercado, as praças, os bazares, o bairro dos judeus e as mesquitas. Ao fim de algumas horas de laboriosas pesquisas, conseguiram encontrar as seis pessoas reclamadas pelo califa.  Levados ao grande palácio, foram os heróis desta história conduzidos à presença do soberano.

Harun-al-Raschid achava-se no salão de honra, sentado em riquíssimo trono de ouro e púrpura. À sua direita, de pé, o judicioso Giafar, seu grão-virzir, e à sua esquerda Sayaf, o porta-alfange ou carrasco da corte. A convite do poderoso monarca vieram também assistir à audiência os ulemás, os doutores, os cádis, os emires, poetas, oficiais e nobres ilustres da corte.

— Estamos, ó muçulmanos — disse o sultão — diante de um caso digno de ser gravado em ouro, numa pedra preciosa. O velho El-Masquim, o mendigo, recebeu esta manhã de um mercador uma moedinha de cobre, como esmola; deu-a a um peregrino, ganhando em troca uma de prata; com esta presenteou um judeu, recebendo em retribuição um dinar de ouro; resolveu dar esse dinar a uma velha e, com surpresa, ganhou dela uma bolsa de ouro; essa bolsa, finalmente, o mendigo ofereceu-a a um xeique persa, e, atônito, obteve de volta uma gema avaliada em muitos mil dinares. Foram assim efetuadas quatro absurdas e incompreensíveis trocas. Meu desejo, portanto, é que, diante de todos os que aqui estão, os autores dessas trocas justifiquem as transações descabidas que fizeram com o mendigo da mesquita. Que fale a verdade. O meu castigo cairá tremendo e impiedoso sobre aquele que mentir!

Continua…

DEIXE um comentário!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s