MALBA Tahan!

O mendigo das moedas de ouro (quarta parte)

Continuação da postagem de 26jun2018

MALBA Tahan Júlio César

Malba Tahan ou Júlio César de Mello e Sousa (fonte: Internet)

CONVIDADO a falar, o mercador não hesitou. Depois de dirigir respeitoso salã ao rei e aos nobres, narrou o seguinte:

Devo dizer, primeiramente, ó rei afortunado, que o meu nome é Salim Matalak e que sou filho de Mossul, cidade onde vivo mercadejando tapetes, babuchas e turbantes. Tendo chegado a esta gloriosa cidade de Bagdá, com uma caravana de mercadores persas, resolvi  hoje pela manhã visitar a famosa mesquita de Osmã (Allah a nobilite cada vez mais!), onde pretendia, como bom muçulmano, fazer as minhas preces habituais. Quis, porém, a vontade do Onipotente que, ao atravessar a praça do Sultão Al-Mansor, junto à pequena fonte que lá existe, encontrasse no chão, meio coberta de terra, pequenina moeda de cobre já um tanto gasta pelo tempo ou pelo uso. Apanhei-a e pus-me a examiná-la. “A quem teria pertencido?”, pensava eu caminhando para a mesquita. “Quem a teria perdido ali no meio da areia?” Absorto em tais cogitações, já me dispunha a entrar no templo quando vi um mendigo de aspecto sórdido, que me estendia a mão implorando um óbulo em nome de Allah. Tendo em mente que socorrer os necessitados é um dever de todos os muçulmanos, conforme determina o nosso santo Profeta (com ele a oração e a paz!), sem hesitar dei ao mendigo da mesquita a pequenina moeda que pouco antes achara junto à fonte de Al-Mansor. O andrajoso pedinte, ao invés de balbuciar uma dessas fórmulas triviais com que a mendicidade sói agradecer-nos, exclamou com certa ironia: “Que posso eu fazer, se minha pobreza é tão grande e o valor desta moeda tão pequeno?”. Magoado com essas palavras, em que percebi uma censura injusta à minha intenção, exclamei: “Se não queres essa moeda, ó ingrato, procura dá-la de presente à primeira pessoa que passar por ti”. E, sem mais me preocupar com o caso, descalcei-me e entrei na mesquita. É essa a minha história, ó califa generoso! Atal Allah unrak ai maulay! (Que Deus prolongue a tua vida, ó rei!)

Finda a narrativa do mercador, declarou o sultão:

— Nada tem de extraordinário ou de misterioso a história que acaba de ser narrada por esse bom mercador. O que, porém, não posso conceber é a razão por que esse peregrino, recebendo do mendigo a moedinha de cobre, lhe deu em troca uma moeda de prata. Não encontro, dentro do bom-senso, como justificar esse disparate.

Ao ouvir as palavras do soberano, o peregrino aproximou-se alguns passos do trono, prostrando-se humildemente e beijando a terra entre as mãos, e assim falou:

Meu nome, ó Comendador dos Crentes, é Halef Khalid e vivo em Basra, minha terra natal, onde exerço a modesta profissão de pasteleiro. Este ano, a conselho de meus parentes, vendi parte de meus bens e com o dinheiro que apurei no negócio resolvi fazer uma peregrinação a Meca — a cidade santa, pérola da fé –, a fim de cumprir os meus deveres de crente fiel do Islã. Vindo de Basra, cheguei ontem a esta cidade com um grupo numeroso de peregrinos. Hoje pela manhã, quando me dirigia à mesquita de Osmã (Allah que a conserve!), de mim se aproximou esse mendigo (que agora vejo neste divã) e, sem que eu nada lhe dissesse, ofereceu-me uma moeda de cobre. Surpreendeu-me sobremaneira tão extraordinária oferta, não só pelas condições do ofertante, como também porque verifiquei, depois de ligeiro exame, que a moeda em questão era uma peça antiga do tempo do nosso califa Otmã (Allah o tenha em sua glória!). Devo dizer que, à semelhança de meu pai, sou colecionador de moedas antigas. Agradeci, pois, sinceramente ao mendigo o oferecimento que acabara de fazer-me e, em troca da moeda história, dei-lhe uma moeda de prata corrente, que representava o justo valor da lendária moedinha de cobre. Aí está, ó Comendador dos Crentes, a razão por que troquei uma moeda de prata por outra de cobre. Yahia amir El-Manenin! (Que viva o príncipe dos crentes!).

Com essa cortesia, calou-se o peregrino.

— Louvado seja Allah! — proclamou o sultão — a troca feita por esse homem nada tem de absurda nem de extraordinário. É razoável e natural. Recebeu uma moeda rara e dá em troca outra de valor equivalente. O que, porém, não compreendo é a razão que levou esse judeu a dar, por uma moeda de prata, uma peça de ouro dez vezes mais valiosa.

— Vou contar-vos a minha história, ó califa generoso! — exclamou o judeu — e vereis que nada houve de mais simples e natural.

— E, depois de beijar humildemente a terra entre as mãos, assim começou:

Continua

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