MALBA Tahan!

O mendigo das moedas de ouro (quinta parte)

Continuação da postagem de 27jun2018

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Malba Tahan (fonte: Internet)

MEU NOME, ó generoso califa, é Isaac Ben-Moab. Nasci na pequena aldeia de Emaús, a pouca distância de Jerusalém. Há vinte anos que vivo a mercadejar, percorrendo os países mais longínquos do mundo. Já estive na Índia e na China. Levei minha tenda, nas costas dos camelos, desde Ispahan até às margens do Hindus e desse rio famoso fui ter às planícies infindáveis do Tibete. Não me falta, portanto, experiência que adquiri nas afanosas peregrinações feitas pelo mundo. Nos últimos meses, como estivesse à espera de uma caravana de mercadores armênios, deixei-me ficar nesta gloriosa cidade de Bagdá. Desde então, todos os dias, vou para o mercado levando nas costas do meu burrinho a mercadoria que pretendo vender. Ao passar hoje, pela manhã, junto à mesquita de Osmã, veio ao meu encontro esse mendigo e, posto que eu nada lhe pedisse, ofereceu-me, ofereceu-me valiosa moeda de prata que, segundo afirmava, lhe teria sido dada momentos antes por um desconhecido. Confesso que me causou grande estranheza a oferta daquele esfarrapado. “É um louco” – pensei. – “Não tem migalha e oferece dinheiro aos que passam”. É um pobre demente tomado da triste mania de passar às mãos alheiras os óbulos que recebe das pessoas caridosas. Afinal, de que lhe serviria aquele dinheiro, sem nem ao menos senso comum tinha ele para dirigir-se na vida? Resolvi, portanto, aceitar a moeda com que o mísero, de tão boa vontade, queria presentear-me. Ocorreu-me, porém, naquele momento uma dúvida: se eu não dessa ao velho mendigo qualquer coisa, poderia ele, no triste estado de demência em que se achava, e tomado de acesso furioso, praticar uma violência contra mim ou contra qualquer transeunte descuidado. Assim, ouvindo o conselho da prudência, resolvi dar ao mendigo a única moeda que levava comigo. Era uma moeda dourada, que eu trazia habitualmente como talismã. Serviria apenas para distrair e curar o infeliz, pois era falsa. Dera-ma, dois anos antes, um muezim de Damasco. Eis aí, ó generoso califa, o motivo por que fiz com Hassan a troca que parece estranha: a prata era verdadeira, mas a do ouro, a outra moeda, tinha apenas a aparência. Não passava de um amuleto.

Harun-al-Raschid, terminada a narrativa de Isaac Ben-Moab, exclamou encolerizado, num rompante:

— Ia kafer, ia Iáin! (Ó ímpio! Ó maldito!) O teu procedimento foi indigno, ó judeu sem crenças! Recebes prata de verdade e dás, em troca, ouro de mentira! Não quero, porém, castigar-te agora. Estou ansioso por saber a razão que levou essa boa anciã a receber uma moeda falsa e dar em troca uma bolsa cheia de ouro.

Interrogada pelo califa, a mulher iniciou o seguinte relato depois de beijar humildemente entre as mãos a terra:

É singular a minha história, ó califa dos crentes, e vi-me envolvida nas suas perifpécias em consequência de um sonho. Chamo-me Fátima. Sou da tribo dos Anazeh e vivo para além da cidade de Kerbela, na estrada que vai ter à torre de Babel. Uma tarde, quando dormia a sesta no terraço de minha casa, sonhei que se viesse a Bagdá encontraria, junto à mesquita de Osmã, um grande tesouro. Impressionada com esse sonho revelador, falei a meu filho e pedi-lhe que me deixasse vir a Bagdá em busca dessa riqueza. Meu bom filho, a princípio, não quis consentir, alegando que a viagem de Kerbela até Bagdá é longa e perigosa. Tamanha, porém, foi a minha insistência, que ele, ao cabo de muita hesitação, deixou-me partir, recomendando-me a um velho amigo, que vinha de Hail com uma grande caravana de mercadores damascenos. Foi assim que cheguei hoje, ao nascer do dia, a esta gloriosa cidade, ó califa. Com as informações que me deram os guias, dirigi-me logo à mesquita de Osmã (Allah que a nobilite para todo o sempre!), ansiosa por averiguar se ali estaria o tesouro que me fora em sonho anunciado. A praça de Osmã, quando cheguei lá , estava deserta. Meu primeiro cuidado foi procurar pelo chão, no meio da areia, a ver se ela ocultaria alguma bolsa cheia de pérolas ou alguma caixa repleta de brilhantes. Nada, porém, vislumbrei que me despertasse a atenção. Já me dispunha a voltar para o acampamento da caravana de Hail, quando de mim se acercou esse mendigo e me ofereceu, inopinadamente, uma moeda de ouro, dizendo-me: “Que esta moeda se transforme em vossas mãos numa riqueza”. Quase desmaiei, tão violenta foi a emoção que me assaltou. Podia eu lá acreditar que um mendigo, andrajoso e faminto, por sua livre vontade oferecesse moedas de ouro aos transeuntes? Não, não era possível. O desgraçado procedia, com certeza, como um autômato, impelido por alguma força desconhecida. Lembrei-me então do meu sobrinho. Allah é grande! Quem sabe se aquela moeda, na qual percebi uma inscrição, não seria um talismã precioso, capaz de me levar à descoberta do sonhado tesouro? Sem mais hesitar, guardei a moeda e, querendo recompensar o meu infeliz presenteador, dei-lhe, em troca, a bolsa que trouxera com o dinheiro que me parecera necessário às despesas da viagem. Imediatamente parti em busca de uma pessoa que me pudesse explicar os dizeres da moeda. Lembrei-me do velho Mahomed Du-Khala, que exercia, junto à porta do “hamã’, ofício de carniceiro. Não o encontrei. Procurei, então, um cameleiro chamado Zaid Saffah, que trab alho em minha casa há tempos, e que vivia em Bagdá, para os lados do cemitério judeu. Não o encontrei também. Já fatigada, dirigi-me ao primeiro homem com que topei no caminho e pedi-lhe que interpretasse a inscrição da moeda do mendigo. Esse homem — que era, aliás, um mestre-escola –, ao tomá-la entre os dedos ágeis e magros, exclamou: “Quem te deu isto, minha tia? Esta moeda é falsa! Falsa como a consciência de um pecador”. E prosseguiu: “Nela só há de verdade esta legenda”. “E que quer dizer essa legenda?”, perguntei. E ele explicou pacientemente: “É um pensamento famoso do grande Salomão — O princípio de toda sabedoria é o temor de Deus. Comecei a chorar desesperada. Todo o dinheiro que trouxera de minha casa dera-o ao mendigo da mesquita em troca daquela moeda falsa. Achava-me, assim, em terra estranha, sem parentes, sem teto e sem recursos. Compadecido, o mestre-escola ofereceu-me a sua casa onde eu ficaria ao abrigo das primeiras necessidades até que obtivesse recursos para tornar à minha terra. Aceitei o generoso oferecimento e já ia caminhando da casa do meu benfeitor quando de mim se aproximaram vários guardas que, acompanhados do velho mendigo, me trouxeram a este glorioso palácio. É esta a minha história, ó Emir dos Crentes!

Disse Harun-al-Raschid:

— Parece perfeitamente esclarecido o caso dessa anciã. Na certeza de topar com tesouros ocultos, não hesitou em dar vinte em troca de um.

E, voltando-se, a seguir, para o xeique, disse-lhe:

— Cabe-te agora, ó xeique, a vez de falar. Que nos diga bem claramente por que motivo trocaste uma pedra de alto valor por uma bolsa que continha um punhado de ouro. Não vejo explicação alguma para o teu caso.

O rico estrangeiro, depois de saudar respeitosamente o califa, contou-lhe o seguinte:

Continua

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