MALBA Tahan!

O mendigo das moedas de ouro (sexta parte)

Continuação da postagem de 28jun2018

MALBA Tahan

Júlio César Mello e Sousa, mais conhecido como Malba Tahan

JÁ SABEIS, ó Comendador dos Crentes, que o meu nome é Omar Chafihi e que sou governador de Thous, a longínqua província persa recentemente pacificada pelas forças muçulmanas. Há muito tempo me premia o vivo desejo de vir a esta gloriosa cidade de Bagdá. Preso, porém pelas múltiplas ocupações de meu cargo, não me era possível, sem graves prejuízos para a comarca, afastar-e, embora por poucos dias, da província de Khorassã. Ultimamente, entretanto, meu irmão Ali Ferrhan, que se encontrava ausente, regressou a Thous. Pedi-lhe que me substituísse no governo da cidade, ao que ele prontamente aquiesceu. Preparei uma grande caravana e, acompanhado de meus guias e escravos, tomei a estrada de Adjemi, a caminho de Bagdá. Moviam-me a essa fatigante viagem dois motivos principais: visitar Bagdá e falar-vos, ó poderoso califa, pois não tinha a honra e a glória de conhecer-vos. Depois de viajar longos meses pelo deserto, cheguei, finalmente, a um grande caravançará que fica aquém da cidade El-Dijileh. Como deveis saber, ó generoso califa, é nesses caravançará que se reúnem as caravanas de mercadores, viajantes e peregrinos que vêm da Pérsia, da Judeia e da Síria. Foi aí que encontrei um escriba chamado Chanfara, homem prendado com quem fiz boa camaradagem. Como discorrêssemos acerca dos costumes dos reis, falou-me ele dos hábitos do nosso glorioso sultão (que Allah sempre conserve!). Contou-me, entre outros fatos e curiosidades, que era vosso costume, ó Emir dos Crentes, andar pelas ruas de Bagdá disfarçado em mendigo, a fim de experimentar o bom coração e os sentimentos de caridade de vossos numerosos súditos. Acrescentou o meu douto informante que mais de uma vez vos reconhecera sob as vestes andrajosas de pedinte, estendendo humildemente a mão aos que passavam. Esta particularidade da vossa vida impressionou-me profundamente. Hoje, pela manhã, ao chegar a esta cidade, fiz minhas abluções e dirigi-me à mesquita de Osmã (Allah a enalteça!), onde desejava, em preces fervorosas, agradecer ao Onipotente pela viagem feliz que me proporcionou. Ao entrar no pátio do grande templo, não vi o mendigo que estava sentado numa pequena laje, junto à escada. Foi para mim motivo de indizível surpresa perceber o infortunado, já perto de mim, a oferecer-me uma bolsa cheia de ouro. “É o nosso grande califa disfarçado em mendigo”, disse de mim para mim cheio de admiração. “Como poderia um mísero pedinte oferecer bolsas de ouro aos transeuntes?” Para mim não havia, naquela estranha aventura, a menor dúvida sobre a pessoa do ofertante. Não creio que possa existir no mundo pessoa mais generosa do que o nosso glorioso soberano. Nesta convicção, portanto, aceitei a bolsa de ouro e dei ao mendigo, cuidando dá-la ao seu destinatário, a esmeralda que eu havia comprado a um mercador hindu para oferecer ao Príncipe dos Crentes. É esta a minha história, ó califa magnânimo! Que Allah prolongue, até o fim dos séculos, a vossa preciosa existência.

Ficou o sultão maravilhado ao ouvir a narrativa do que se passara com o cádi Omar Chafihi e, com palavras carinhosas, agradeceu o valioso e belo presente que o governador de Thous trouxera especialmente para ofertar-lhe.

Quis, no entanto, o grande califa recompensar equitativamente os heróis do original sucesso em que se vira envolvido o velho Hassan.

E, para que orientassem naquele extraordinário caso, mandou que se aproximassem do trono dois juízes da corte: Safian e Karim.

Na corte do sultão Harun-al-Raschid viviam os dois célebres juízes: o primeiro chamava-se Safian Ben-Rammah e o segundo, Karim Abul Fadl.

Safian (Allah se compadeça dele!) era temido e odiado por causa das sentenças impiedosas que habitualmente proferia:

— A lei — dizia Safian — foi feita para castigar o culpado e não para premiar o inocente.

A grande habilidade desse sábio muçulmano consistia em descobrir nas ações mais comuns e simples da vida ofensas graves aos princípios sagrados o islamismo. Há um pensamento famoso do juiz Safian que alcançou triste popularidade e bem traduz o exagero com que procurava interpretar o Livro Sagrado; “Vejo em cada letra do Alcorão uma censura; em cada palavra, uma ameaça; em cada linha, um castigo; e em cada período, uma sentença de morte!”.

O juiz Karim (Allah o tenha em sua glória!) era, na sua maneira de julgar os homens, exatamente o contrário de seu colega. Tolerante em extremo, muito inclinado à benevolência e ao perdão, procurava nos versículos famosos do livro de Allah interpretação que pudesse atenuar a culpa dos réus. As sentenças do grande ulemá Karim Abul Fadl, ditadas pela mais pura bondade, eram sempre justas e sábias.

O sultão Harun-al-Raschid, quando queria resolver com segurança e absoluta justiça sobre qualquer caso, procurava conhecer previamente a opinião de Safian e a de Karim. Depois de tudo ouvido e pensado, o califa tomava a decisão que lhe parecia mais conforme à justiça e à razão.

Resolveu, pois, o poderoso monarca ouvir a opinião dos dois ulemás e ordenou que cada um deles dissesse ali mesmo, diante de todos, que recompensa ou castigo mereciam, pelo proceder que tiveram, o mercador Salin, o peregrino Halef, o judeu Isaac, a velha Fátima e o rico Omar Chafihi.

Determinou igualmente o califa que as sentenças fossem proferidas com clareza, de modo que pudessem servir de ensinamento e aviso a todos os súditos muçulmanos.

Em primeiro lugar devia falar o juiz Safian.

Continua…

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