MALBA Tahan!

O mendigo das moedas de ouro (sétima parte)

Continuação da postagem de 29jun2018

 

FEZ-SE no grande e riquíssimo divã profundo silêncio. Todos os olhares convergiam ansiosos para o magistrado famoso, de cuja decisão dependia a sorte e até a vida de várias criaturas. Como iria o velho juiz — severo cumpridor da lei — julgar o peregrino? Que diria ele do judeu Isaac? Como interpretaria o procedimento generoso do cádi?

Depois de meditar algum tempo com os braços cruzados sobre o peito, o juiz Safian inclinou-se respeitoso diante do sultão e disse:

— Sou forçado a declarar, ó Emir dos Crentes, que analisei com cuidado as ações praticadas pelos súditos trazidos à vossa presença por causa do mendigo Hassan-el-Masquim. Posso garantir — com absoluta certeza — que nenhum deles praticou ação digna de recompensa ou feito que possa merecer elogio.

O juiz Karim, adiantando-se em seguida, disse respeitoso com voz clara e pausada:

— Allah iabarak fama sidi! (Deus conserve a vida preciosa ao nosso rei!) Devo dizer, ó Rei dos Reis, que esmiucei com cuidado o procedimento dos quatro súditos que fizeram com o velho Hassan trocas tão singulares. Todos — segundo pude concluir — se fizeram merecedores de recompensa e de justos encômios.

Embora esperada, aquela divergência radical entre os dois juízes causou profunda impressão. Onde o juiz Safian via motivo para castigo, o juiz Karim — guiado pela luz da bondade — encontrava altruísmo e valor. O grão-vizir Giafar fez soar fortemente o gongo e declarou solene:

— Por ordem do nosso amo e senhor, o califa Harun-al-Raschid, Emir dos Crentes, vai ser julgado o mercador Salin Mutalak, de Mossul.

O mercador Salin ajoelhou-se humilde aguardando resignado a sorte que lhe seria destinada. E, diante do profundo silêncio que reinava no deslumbrante salão, o juiz Safian assim justificou a sua sentença:

— O mercador Salin Mutalak deu ao mendigo da mesquita uma moedinha de cobre que encontrara pouco antes no chão. Conforme declarou, ignorava o verdadeiro valor da moeda. Deu-a, portanto, ao mendigo na convicção de que a moeda nada ou muito pouco valia. Se uma pessoa dá a um pobre um pedaço de pedra de rua ou um punhado de areia do deserto não está praticando ato de caridade. E isto por que? Porque dá a um necessitado um objeto que não tem valor algum. É este exatamente o caso de Salin Mutalak: deu a um mendigo uma moeda que, a seu ver, nada valia. E, tanto assim, que ao ouvir a observação do mendigo, Salin replicou sem hesitar: “Se não queres essa moeda, procura dá-la de presente à primeira pessoa que passar por ti”, querendo, com essa advertência irônica, acentuar que o velho Hassan podia passar para as mãos de outrem a moedinha, na certeza de que nada perderia ao desfazer-se dela. Tendo assim provado claramente que o mercador Salin Mutalak, além de faltar ao dever da verdadeira esmola, procurou humilhar um infeliz mendigo que lhe estendera a mão, julgo que ele deve ser condenado a vinte chibatadas e uma multa de cinquenta dinares.

O exagerado rigor do magistrado caía, mais uma vez, impiedosamente, sobre um infeliz muçulmano.

— A sentença do juiz Safian — declarou o califa — parece-me justa e perfeita. Vejamos agora como esclarece e justifica o juiz Karin o seu modo de pensar.

Ao ouvir tais palavras, o bondoso Karim Abul Fadl — o grande sábio — assim falou:

— O mercador Salin Mutalak deu ao mendigo Hassan uma moedinha de cobre que encontrara no caminho. Era, porém, conforme declarou, o único dinheiro que levava naquela ocasião. Ora, o valor da esmola — conforme ensina o nosso santo profeta Maomé (com ele a oração e a glória!), não se mede pelo valor da quantia data, e sim pela intenção daquele que pratica o ato de caridade. Tanto assim que, ao ouvir a ingrata exclamação do mendigo, o mercador Salin aconselhou-o a que desse a moedinha à primeira pessoa que encontrasse. Quis ele, com tais palavras, mostrar ao velho Hassan que o pobre não deve ser ingrato para com aquele que o auxilia e que a mesma moedinha, apesar de insignificante, poderia ser para outra pessoa uma peça de alto valor. Os fatos posteriores provaram que era profundamente verdadeiro e exato o conselho dado pelo mercador. Aos olhos do peregrino Halef Khalid, por exemplo, a moedinha perdida era uma preciosidade. Penso, portanto, que o mercador Salin Mutalak, além de praticar o ato sublime da caridade (dando a um velho todo o dinheiro que possuía), proporcionou ao mendigo Hassan uma sábia e profunda lição de moral. Julgo (Allah, porém, é mais sábio, mais justo e mais clemente!), julgo que o mercador Salin Mutalak deve receber um trajo de honra e uma recompensa de dez dinares em ouro.

O sultão Harun-al-Raschid, movido à generosidade, concordou em última instância com a sentença do juiz Karim. Por sua ordem, o tesoureiro do palácio entregou imediatamente ao mercador Salin Mutalak a quantia de dez dinares e um belíssimo trajo de honra. O mercador, agradecido, beijou a terra junto aos pés do califa. A todos causou grande alegria o ato de magnanimidade do soberano de Bagdá.

Foi, em seguida, anunciado pelo grão-vizir Giafar que ia ser julgado o peregrino Halef Khalid, de Basra. O juiz Safian — a quem cabia a vez de se pronunciar sobre o caso — assim o fez:

— O peregrino Halef Khalid, ó Rei dos Reis, ao entrar na mesquita de Osmã foi surpreendido, conforme declarou, pelo ato de um velho e sórdido mendigo, que lhe veio ao encontro para oferecer-lhe espontaneamente uma moeda rara e altamente valiosa. Que fez o peregrino? Recebeu a moeda rara e, tomando de sua bolsa outra moeda de prata, entregou-a ao velho Hassan do mesmo modo como pagaria a um mercador no bazar das quinquilharias de Mossul. Além do pecado da ingratidão  — ao esquivar-se a gratificar o ancião que lhe oferecera amavelmente a moedinha lendária — deixou o mercador Halef de praticar a esmola. Assim sendo, julgo que o peregrino Halef Khalid, que tem (como reconheço) a seu favor a circunstância de se achar em peregrinação, deve ser, apenas multado em vinte dinares e obrigado a ouvir publicamente uma enérgica censura, que deverá ser proferida pelo imã mais antigo da mesquita de Osmã.

Ao ouvir a sentença do grande juiz, disse o califa:

— Parecem justas as tuas palavras, ó Safian. Quero, porém, ouvir o que pensa sobre o caso o juiz Karim.

Sendo assim autorizado a falar, o famoso ulemá tomou a palavra.

— Ao entrar descuidado na mesquita, deparou-se ao peregrino Halef Khalid um velho mendigo que lhe estendia a mão, oferecendo-lhe uma moeda. Ao examinar essa moeda, verificou Halef Khalid que se tratava de uma peça histórica de muito valor. Recebera-a dando em troca, ao mendigo, o justo valor da lendária moedinha. Procedeu, portanto, com honestidade. Certo, como estava, de que Hassan ignorava o valor da moeda, podia, se quisesse, dar em troca duas ou três moedas de cobre. Não. Não procedeu assim. Pagou ao velho Hassan como pagaria a um mercador ou a um traficante do suque de Bagdá. E por que comprou Halef Khalid a moedinha a Hassan? Foi unicamente para auxiliar o velho mendigo da mesquita. A aquisição de um objeto de que não precisamos é um modo discreto de auxiliarmos os desamparados que, por timidez, não esmolam. Se, depois de efetuada a transação desse Halef Khalid uma gratificação ao pobre, procederia indelicadamente e poderia ofender ou humilhar o infeliz Hassan. Não devemos nunca menosprezar aqueles que se mostram bondosos e simples. Acho, portanto, que o peregrino Halef Khalid se houve com honestidade e provou ser generoso e delicado. Um homem que possui tais qualidades merece sempre a nossa amizade e admiração. Julgo (Allah é mais sábio, mais justo e mais clemente!), julgo que o bondoso Halef Khalid — o peregrino –, pela sua maneira honesta e digna de proceder, merece como recompensa um trajo de honra e um auxílio de vinte dinares de ouro.

Em definitivo concordou o sultão Harun-al-Raschid com a opinião do juiz Karim. Ao peregrino Halef Khalid foi logo entregue a valiosa recompensa de que se fizera merecedor.

Giafar, o grão-vizir, declarou, então, que ia ser julgado o judeu Isaac Ben-Moab. Esperavam todos ansiosamente a sentença terrível do juiz Safian. Era certo que esse magistrado pediria para o infeliz Isaac a pena de morte.

E como iria o juiz Karim justificar o caso da moeda falsa?

Safian Ben-Rammah, tendo na mão um exemplar do Alcorão, pronunciou com firmeza, sem a menor hesitação, a seguinte sentença:

Continua

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