PARA Vigo me voy!

Floresta amazônica: nunca ouviu falar?

José Wilker no papel de Lorde Cigano em Bye Bye Brasil (fonte: Internet)

CONSIDERO o filme Bye Bye Brasil, de Cacá Diegues, um clássico do cinema brasileiro, e seu protagonista um dos grandes atores do país. O ator José Wilker é possuidor de vasta filmografia, tendo participado de mais de 70 filmes. 

Nessa produção Wilker encarna o impagável Lorde Cigano, um artista mambembe, que lidera a Caravana Rolidei, uma trupe de artistas circenses em decadência, que circula pelo país em um velho caminhão em luta pela sobrevivência. Além de Wilker, Bety Faria (Salomé) e Príncipe Nabor (Andorinha) compõem a trupe. Mais tarde, os sertanejos Fábio Júnior (Ciço) e Zaira Zambelli (Dasdô), sua mulher juntam-se ao grupo.

BYE BYE Brasil

Fonte: Internet

A película, de 1979, é inicialmente ambientada no Nordeste do Brasil. Logo em seguida, na ilusão da busca de melhores condições de vida , a Caravana migra para a Amazônia. 

Não classifico a obra uma mera comédia, e sim um filme que aborda o político e o social. Bye Bye Brasil mostra, além da miséria do Brasil mais pobre, a temática da ecologia quando as problemáticas ambientais nem sequer eram mencionadas no país como hoje. Além, é claro, da denúncia social em si mesma e, o filme apresenta muito mais de um Brasil caboclo que vai, aos poucos, ficando para trás, perdendo a sua identidade para assumir – ou tentar – uma outra mais sofisticada.

“Floresta amazônica: nunca ouviu falar?”

Além dessa expressão, mencionada duas vezes, Lorde Cigano chama a atenção de Ciço, o sanfoneiro vivido por Fábio Júnior, para as condições impróprias do mar da cidade, que tem fezes humanas. Também chama atenção a cena em que, ao entrarem na cidade de Maceió, mostra o inferno que são as dificuldades do trânsito de uma capital, em contraste com as cidades do interior, um preço alto pela chegada do tal progresso.

Paralelamente às difíceis condições de vida do povo sertanejo, vão chegando aos municípios do sertão nordestino itens da vida moderna, incluindo a televisão, razão pela qual a trupe tem dificuldades cada vez mais crescentes em vender sua arte. Artistas como da Caravana Rolidei deixam de ser atração, perdendo cada vez mais espaço para as “espinhas de peixe”. 

“Ano passado deu mais gente”.

Entenda-se por “arte” também a prostituição, pois Salomé (Bety Faria), além de trabalhar como dançarina e cantora, também faz um extra vendendo seu corpo:

“Venham ver a internacional Salomé, a rainha da rumba, a princesa do Caribe, aquela que já foi amante de um presidente dos Estados Unidos”, propagandeia Lorde Cigano,  diante do prefeito local, sexualmente interessado na personagem vivida por Bety Faria.

“Mas o espetáculo continua familiar, como no ano passado?”, indaga o alcaide, interessado, mas usando de evidente ironia.

Lorde Cigano se propõe em seu show a realizar o maior desejo de um povo sofrido de um país tropical e desigual, que almeja ser igual aos sofisticados países do hemisfério Norte.

“Eu, Lorde Cigano, posso por exemplo tornar real o sonho de todos o brasileiros: eu posso fazer nevar no Brasil”. 

“Tá nevando no Sertão, tá nevando na minha administração” É o prefeito da cidade que diz, procurando também tirar proveito da ilusão, frisando que é na sua administração que tal fenômeno ocorre.

Caravana Rolidei então decide migrar para a Amazônia: Altamira, a Princesinha do Xingu, e depois Belém. 

Bastante emblemática é a cena em que um índio, cuja tribo fora dizimada pelos brancos, pergunta a Dasdô sobre o presidente do Brasil e ela dá de ombros: 

“Sei lá!” 

E índio também quer ser chique e usa óculos Ray Ban, veste calça Lee e ouve rádio. Índio quer viajar de avião e, também por questão de sobrevivência, já que é forçado a abandonar sua cultura milenar, acaba se adaptando precariamente às condições impostas pelos brancos. É o caso do cacique, que, em Altamira, aceita um emprego em uma indústria de celulose do magnata americano Daniel Ludwig, o famoso projeto Jari dos anos 1970. 

São as mudanças sócio-culturais que o país vai sofrendo, uma mudança que não tem volta, com o povo migrando de vez para a americanização dos costumes, perdendo sua identidade para sempre a sua identidade cultural. Bye, bye, Brasil!

Perdendo tudo em Altamira, a sobrevivência do grupo está nas mãos de Salomé, que assume abertamente a sua condição de prostituta, viabilizando a saída da cidade da extinta Caravana Rolidei. Assim, de barco, vão para a cidade grande mais próxima: Belém, onde, por um tempo, Salomé continua  a “se virar”.

Y para Vigo me voy! 

(BLOGUE do Valentim em 10set2017, reeditado)

Bye Bye Brasil não é simplesmente uma comédia.

L.s.N.S.J.C.!

MONTIEZ Rodrigues!

A santidade ao alcance de todos

MONTIEZ Rodrigues 1

VENDI muito efígies de santos na lojinha de miudezas de meu avô no beco de Casé, em Serra Talhada. Tornei-me um perito na hagiografia católica. Conhecia a imagem a vida de cor de cada santo. Nada demais para quem nasceu na terra do Padre Cícero, numa cidade de médio porte e de muitas igrejas. Estudei no seminário dos franciscanos, ajudei na missa como coroinha e, já rapaz, como leitor do Evangelho na hora da missa. Gostava da preleção quando se iniciava com a frase:

“Naquele tempo jesus falava a seus discípulos…” 

Ouvindo minha própria voz, sentia-me como se eu fosse também um discípulo a ouvir atento as palavras do meigo Rabi da Galileia.

Pois bem. De posse de tanta santidade, subi num pau-de-arara e indo a Juazeiro do Norte, em romaria, resolvi fazer uma pesquisa hagiográfica por museus, igrejas e lojas de Santos de Juazeiro. A maioria deste tipo de comércio se concentrava ali pela Praça Padre Cícero, indo da matriz de Nossa Senhora das Dores até na apropriada Rua de Todos os Santos.

Depois de muito pesquisar, cheguei na maior loja de santo da cidade e olhei por todas as alamedas cheias de retratos, pinturas, e estatuetas de santos, alguns espalhados pelo chão, outros pregados nas paredes, até que cheguei na ala dos santos chamados Franciscos. Vi São Francisco de Assis, São Francisco das Chagas, São Francisco de Paula, São Francisco do Canindé, São Francisco do Oeste, São Francisco do Conde, um mexicano San Francisco de sombrero, às costas, preso por um cordão preto e até um de nome apenas São Francisco.

Mal sucedido na pesquisa por não encontrar o que realmente procurava, cheguei para o proprietário do estabelecimento e perguntei:

“Por acaso, você não tem aí um São Francisco Demontiez?”

Ele me olhou pensativo e calmamente me respondeu:

“Não, mas você faz a encomenda e pode vir pegar depois de amanhã. Eu, ali, naquela tórrida manhã de Juazeiro, já com vontade de tomar uma gelada, fiquei pensando: “Será que alguém como eu, depois de tomar tanta cachaça e cerveja, pode virar santo?”

SÃO Francisco de Assis

São Francisco de Assis (fonte: Internet)

Em Juazeiro do Norte pode! É só fazer a encomenda! Nem precisa passar por aquele processo moroso de beatificação que leva décadas, em alguns casos, séculos para se atingir a santidade. (via Facebook)

Mudei por minha conta o subtítulo. O original era “Em busca da santidade”. “A santidade ao alcance de todos”, para mim, soou melhor porque me remete a um texto de antigo que li faz mais de trinta anos. Chama-se “A ignorância ao alcance de todos”, de autoria de Stanislaw Ponte Preta.

Um sujeito a bordo de um ônibus coletivo, intrigado pelo sem número de nomes estranhos, pensa alto: “Leônio Xanás!”. Ao que o motorista, atento e solícito, automaticamente responde: “Passa perto.”. Imaginando tratar-se de um passageiro perguntando por uma rua, tratou logo de livrar-se do perguntador. Diante da reação do motora, o homem passa a fazer experiências. Em todo o canto que chegava, falava “Leônio Xanás” para se divertir com a reação das pessoas. Num restaurante: “Leônio Xanás tinto, por favor!”. E o garção lhe responde: “Estamos em falta, mas chega na semana que vem”. Na portaria de um prédio: “Doutor Leônio Xanás?”. “Acho que deve ser no décimo andar, chefia”. E assim ia.

Constatoa o personagem pontepreteano que as pessoas se sentem envergonhadas em declarar-se ignorante neste ou naquele assunto; ou, como é o caso do santeiro da crônica de Montiez Rodrigues, temem perder uma boa venda. O caso é que nem sempre se preocupam em realmente dizer a verdade: não sei, de quem se trata, vou procurar saber, talvez fulano saiba dizer…

No caso dos santos, em que o cronista, declarando-se amante da bebida, duvida se chegaria à santidade, a Igreja tem lá suas explicações. Conhecedor da vida dos santos, a Hagiografia, o etílico amigo Montiez certamente já leu sobre tantos santos, que, antes de se converterem, nem sempre levavam vida santa. Mas é claro que o amigo não conta a história com esse fim. 

O riso é o melhor remédio!

L.s.N.S.J.C.!  

PODEMOS elogiá-los à vontade!

DURANTE os três decênios em que estivemos na Força Aérea Brasileira muitos  acontecimentos  presenciamos e de tantas outros travamos notícias por meio das redes sociais da época, que funcionava de boca a ouvido. Chegamos a ver capitão desafiar major para o desforço físico e coronel com a ficha individual  mais suja que pau de galinheiro de fazer inveja ao praça mais alterado do quartel.

De todos os episódios extraordinários, pitorescos, divertidos ou fora de série, lembramo-nos de alguns em especial envolvendo autoridades. Passo então a registrá-los sob pena de caírem no vão do esquecimento.

Uma vez, em palestra do comandante da aeronáutica, tenente-brigadeiro Bueno, vimos com os olhos que a terra haverá de comer um dia um sargento receber um lance (uma bronca, uma mijada, um esporro) dessa autoridade. Era uma manhã e o local era o cine-teatro Brigadeiro Camarão, que fica próximo ao Colégio Rego Barros.

O novinho teve a coragem — ou falta de juízo — de dormir na palestra do brigadeiro. O comandante-mor, talvez por ocultar uma conjuntivite ou qualquer outro problema ocular, palestrava usando  óculos escuros — ou seria apenas um ardil, pois a autoridade simplesmente “filmava” a audiência enquanto falava.

“Você aí, que está dormindo”, gritou Sua Excelência, “Você acha que eu vim de Brasília até aqui para alguém dormir durante a minha palestra?”.

Foi nessa hora que o infeliz sargento dorminhoco se viu como o centro das atenções, eis que todos viraram o olhar para a sua direção para saber quem era. Inclua-se os comandantes de unidades e outros oficiais superiores, a fim de conferir se o militar em questão era ou não seu subordinado.

Nesse mesmo dia o dorminhoco foi devidamente catrapado.

Soubemos de outro episódio.

Foi numa das vezes em que o presidente Lula visitou Belém, tendo ele e dona Marisa se hospedado no hotel de trânsito dos oficiais da guarnição.

Foi o chefe do Pessoal, na época capitão Omar, quem contou-nos os detalhes. Depois de um almoço à base da exótica gastronomia paraense, a saber, maniçoba, pato-no-tucupi, vatapá, acompanhados de sucos de taperebá e muruci; como sobremesa, açaí e musse de cupuaçu, além de outros quitutes da região, grande chance de passar mal quem não estava habituado à peculiar culinária amazônida.

Não deu outra.

Depois que toda a comitiva presidencial já estava de saída, o chefe do Pessoal já mencionado, pessoalmente, propôs-se a realizar  vistoria nas dependências do hotel-cassino, incluindo apartamentos, refeitório e sanitários. Numa das toaletes, o oficial observou que este fora frequentado por alguém de muita pressa, porque a natureza não deu tempo suficiente para que o usuário chegasse ao assento. Era um fedor dos diabos, além de, visivelmente estar lá, para quem quisesse ver, o produto do almoço no chão, na parte externa do vaso e nas bordas deste, formando uma espécie de trilha.

Quem teria feito aquela merda?

“Parece que alguém andou abusando da maniçoba”, falou o capitão Omar, dirigindo-se ao segurança que ainda guardava o local.

“Acho que foi o Ciro Gomes, chefia!”, respondeu o militar, com uma espécie de sorriso à Monalisa, como quem conta uma confidência. “Eu vi o ministro entrando aí às pressas”.

É claro que o autor da proeza podia ter sido qualquer um. Mas, Ciro Gomes, ministro de Lula, era a personagem mais conhecida entre eles. Ficava mais divertido atribuir a culpa ao célebre político.

Mas não é sobre Ciro ou Lula que vamos ocupar o restante desta página, pois não era a primeira vez que o T1 recebia um presidente da República.

Pouco mais de duas décadas atrás o mesmo hotel de trânsito, o T1, foi cenário de uma situação divertida, ao tempo que embaraçosa e constrangedora, envolvendo um outro presidente da República, o extinto general João Batista de Figueiredo, o derradeiro presidente do regime militar.

JOÃO Figueiredo presidente

General-presidente João Figueiredo (fonte: Internet)

Era o ano de 1980. Ou teria sido 1981? Isso, porém, não vem ao caso. Por razões políticas que desconhecemos, o general-presidente encontrava-se em litígio com o governador do Pará, que, contrariamente aos preceitos da caserna, era apenas um coronel, o Alacid da Silva Nunes. Devido a essa razão, Figueiredo e sua comitiva hospedou-se no T1, já que o governador ignorava a sua presença em Belém.

O comandante da Base Aérea de Belém era o coronel-aviador Próspero Púnaro Barata Neto, oficial que marcou para o bem (segundo uns) e para o mal (na opinião de outros) a história daquela unidade militar. Naquela época era o costume de serem nomeados para comandantes de base aérea os coronéis já muito antigos, quase prontos a serem promovidos. Era o caso. Mas, na realidade, Barata já tinha idade para ser brigadeiro ou até mesmo major-brigadeiro. Ocorre que o oficial teve seu tempo de serviço interrompido por conta de um episódio de que tomou parte pouco mais de vinte anos antes, somente sendo reintegrado à FAB no governo Jânio Quadros.

Em 1959, esse mesmo oficial participou de um episódio histórico. Nesse tempo o capitão Barata envolveu-se numa rebelião (uma tentativa, ao menos) que pretendia, se bem sucedida, derrubar o governo Juscelino Kubistchek. Barata Neto e seus correligionários de ideais, os tenentes-coronéis Haroldo Coimbra Veloso e João Paulo Burnier, já são mortos. Podemos elogiá-los à vontade, pois.

Veloso era então já reincidente na prática rebelde contra JK, que, num gesto magnânimo e bondoso, o anistiara após a frustrante rebelião histórica conhecida como A Revolta de Jacareacanga. Inconformado, Haroldo Coimbra Veloso junta-se desta vez a outros udenistas (que também eram lacerdistas, eduardistas…), entre militares e civis, incluindo os dois oficiais citados, para, mais uma vez, tentar derrubar o governo de Juscelino num episódio chamado de A Rebelião de Aragarças, que durou somente 36 horas, de que poucos historiadores se ocupam. Apesar de pouco a História registrar, ambos os episódios nós destacamos aqui no BLOGUE do Valentim.

Mas voltemos ao Figueiredo e ao Barata Neto, então comandante da Base Aérea, naquele Círio de Nazaré de 1980. A exemplo de Barata, Veloso e Burnier, o general não mais está entre os vivos, por isso, podemos também elogiá-lo à vontade, como dizia Machado de Assis.

Nessa tarde, com a agenda livre, foi programado um coquetel na área da piscina do T1 em homenagem à autoridade máxima do país, que honrava Belém e a Aeronáutica com a sua presença. O brigadeiro comandante do Primeiro Comando Aéreo, demais oficiais-generais da área de Belém, a totalidade dos oficiais superiores da guarnição, além de as principais autoridades civis federais, todos acompanhados pelas respectivas madames esposas, se faziam presentes em trajes informais.

É evidente que, do baixo clero, obrigatoriamente — e aí por dever de ofício — se encontravam também presentes motoristas, seguranças, taifeiros e a Banda de Música. A vida divide a humanidade em duas: os que usufruem e os que servem; os que tocam e os que carregam o piano; a casa-grande e a senzala.

Banda de Música?

Sim. Não raro os militares músicos em ocasiões como essa eram solicitados a demonstrar sua arte, mormente nessa tarde em que o mandatário máximo visitava pela primeira vez o Estado do Pará. Ademais, Barata Neto, ainda que muito caxias, conservador, sangue azul e militar rígido, com seu inseparável cachimbo,  apreciava muito o trabalho dos componentes dessa subunidade, tendo, inclusive renovado e ampliado toda a instrumentação musical, atendendo a uma reivindicação antiga. Em contrapartida, a Banda, em sua administração, era, por conseguinte, frequentemente convocada. Em tais ocasiões, além da música, o uísque, a vodka, a gelada, ou mesmo a manguaça rolavam soltos.

Banda e Rancho possuíam agenda cheia, portanto.

Naquela tarde ensolarada de outubro estava lá, à borda da piscina, Figueiredo em trajes sumários. Rodeado por oficiais-generais, ministros e o coronel Barata, o presidente, entre uma dose de uísque e outra, degustava uvas, como a lembrar a imagem de um imperador romano ou uma espécie de semi-deus. Continue lendo

MONTIEZ Rodrigues!

O general hi-tech

MONTIEZ Rodrigues 1

O cronista Montiez Rodrigues conta mais uma de suas experiências enquanto militar da Força Aérea Brasileira (foto: Facebook)

UM GENERAL-DE-BRIGADA do Exército Brasileiro, empolgado com o Brasil potência do milagre econômico e entusiasta da entrada do Brasil nos avançados campos da tecnologia, gostava de viajar, dar palestras e visitar os centros de excelência profissional das Forças Armadas do país. Não era intelectualmente bem dotado, mas era bastante divertido em suas preleções. Chegou a assumir o comando do quartel da restinga da Marambaia, no Rio de Janeiro, laboratório onde se testava a eficácia dos armamentos e munições usados pelas Forças Armadas.

Na vez em que a equipe de telemetria do Centro de Lançamentos da Barreira do Inferno foi visitar os laboratórios desSa base militar, coincidentemente, uma turma de cadetes da Academia Militar das Agulhas Negras também estava em visita. Que fez o general? No auditório do quartel ordenou que todos nós, os sargentos da Barreira do Inferno, subíssemos ao palco e nos apresentou aos cadetes e oficiais presentes, dizendo:

“Olhem esses meninos, eles representam o que há de melhor na educação tecnológica em nosso país! Uma continência para nossos heróis!”, vibrou o general.

Foi uma homenagem e tanto. Entre encabulados e envaidecidos, todos nós ficamos. Vivíamos em plena ditadura e a hierarquia era rigorosa, mas o general podia e gozava de prestígio não só no Exército, mas em todas as Forças​ Armadas. No entanto, aquele instante em que gozamos de prestígio mais do que a oficialidade presente foi demais!

Um lugar lindo, a Marambaia! Passear por aquela praia extensa vendo a serra avançando no mar entre a neblina foi extasiante. O lugar era de uma paz indescritível. Devia ser reconfortante morar numa daquelas casas da Vila Militar que mais pareciam as dachas soviéticas nas praias do Mar Negro.
Anos mais tarde fui encarregado de ciceronear o velho general, agora de Exército e já na reserva, em visita à Barreira do Inferno. Saí com ele e seu séquito pelas dependências do quartel. Mostrei a estação de Radar, a de Telemetria, onde eu trabalhava, mas o general delirou foi quando liguei os comandos da antena Stella, uma gigantesca parabólicas de rastreio de veículos espaciais, e comandei uns giros da antena em várias direções.

O oficial de segurança da Barreira, um terror para seus subordinados e um tremendo puxa-saco até de outro tenente que tivesse um dia a mais de antiguidade sobre ele, a toda hora dirigia-se ao general, às vezes interrompendo minhas explicações apenas para redundar o que eu acabara de dizer. Houve um momento em que o general perdeu a paciência e disse:

“Tenente, cale sua boca porque você só entende de infantaria! De tecnologia, só conhece o manejo de algumas armas. Deixe o sargento, e só o sargento, explicar pra gente porque ele se expressa muito bem e fala dos equipamentos como se fossem coisas vivas!”

E aí, (como que) para comprovar o que dissera, diante de um osciloscópio, dirigiu-se ao grupo que o acompanhava e perguntou:

“Vocês já viram a energia elétrica que se encontra nas tomadas de suas casas? Aquela que promove todas as benesses da nossa vida moderna?”

Aí, olhou pra mim e ordenou:

“Sargento, mostre pra eles! Então pus os dois bornes de entrada do osciloscópio na tomada de energia. Na tela se desenhou uma linda senoide de sessenta hertz que parecia uma bailarina da dança do ventre a oscilar harmoniosamente. O general entusiasmado gritou:

“Olha aí! Estão vendo? Esta é a energia elétrica de suas casas!”

Todos olharam admirados para o osciloscópio e aplaudiram. Ainda não sei se entusiasmados com a exibição de tecnologia tão primária ou pela bajulação imanente que a maioria tinha por todos os generais da ditadura.

Provavelmente pelas duas razões, meu caro Montiez Rodrigues, o tecnológico. O esporro dado pelo general no tenente foi algo de humilhante, mas bem merecido. Muitos deles se põem, por pura bajulação, a meter o nariz onde não entendem bulhufas, necas de pitibiriba (como dizem os paraenses). Mas se metem assim mesmo como que para justificar a sua existência ou o soldo ganho no final do mês. 

L.s.N.S.J.C.!

 

 

JOSÉ Augusto Moita!

Bem, temos uma orquestra!

 

NÃO VOU falar sobre essa sentença quando proferida por um ignóbil de origem hispânica, frente a uma dezena de crianças, também de origem hispânica, a se esgoelarem engaioladas à ausência de seus pais. Não, isso é para os estudiosos da mente, que sabem ocorrer o mesmo processo com os capitães-do-mato, com os gays homofóbicos, com os negros racistas e com os pobres que se acham capitalistas. Prefiro lhes contar uma história que termina com a mesma frase.
Tenho uma casal de amigos, Dona Marta e Alberto, que quando o segundo se aposentou do serviço público resolveram concretizar um sonho antigo: criar uma escola de música para crianças em sua cidade de origem, Redenção, a uns 60 quilômetros de Fortaleza.

Começaram na sala da própria casa, sem os dois saberem o que seja um simples dó de peito, mas com muita dor no peito pela criançada daquela cidade. Compraram com seus próprios recursos alguns violões e pediram para o Tarcísio Sardinha (fenomenal instrumentista alencarino) lhes ajudar na peleja. A coisa cresceu, da sala a Escola Livre de Música de Redenção lhes tomou a cozinha, o banheiro, deixando-lhes apenas o quarto de dormir, e sem muita privacidade, pois lá se guardavam os instrumentos.
Como o projeto não envolveu política ou verba pública, a comunidade sentiu-se com o dever de ajudar. Comerciantes, profissionais liberais, mães de alunos começaram a colaborar financeiramente e laboralmente. A Escola cresceu. Contratou professores e da casa foi para um galpão. Também não ficou só no violão, hoje lá se aprende quase todos os naipes, sem contar com o coral que quase naturalmente apareceu. E sempre incrementando, introduziram outras matérias. As crianças e adolescentes passaram a receber aulas de reforço escolar. Sim, como já tinham se acostumado sem a casa, começaram outro projeto para crianças mais miudinhas nela, uma pré-escola musical.
“Estamos envolvidos nessa empreitada desde quase o início, coisa de sete anos. Já fomos até convocados a dar uma palestra para os alunos, mesmo sem conhecer bem o assunto. O Alberto sempre está me colocando a par do que acontece por lá. Outro dia me ligou dando uma boa nova: a Escola conseguiu com uma Fundação verba para adquirir novos instrumentos, inclusive violas, cielos, baixos para completar os naipes que faltavam, e finalizou a ligação dizendo: BEM, TEMOS UMA ORQUESTRA!”

Aos que acreditam em coincidência, estou escrevendo e ouvindo música, quando terminei o texto estava tocando When A Child Is Born.

Belo exemplo. Como diz o cel. Joan Castro Alves, nos presídios há de tudo, menos músicos.
O mundo precisa mais de gente abnegada assim como o casal dona Marta e seu Alberto, protagonistas do texto de J. A. Moita!
L.s.N.S.J.C.! 

MALBA Tahan!

O mendigo das moedas de ouro (final)

Continuação da postagem de 01jul2018

MALBA Than júlio cesar

Malba Tahan ou Júlio César Mello e Sousa

DEVO dizer, ó Emir dos Crentes, que o xeique Omar Cafihi, quando acreditou ver na figura grotesca e suja do velho Hassan a pessoa do nosso glorioso califa, cometeu verdadeiro crime contra o prestígio e a honra do califado. Omar Chafihi teve a coragem de confessar que dera a valiosa esmeralda ao mendigo na convicção de que estava presenteando o pródigo califa de Bagdá. É um bajulador leviano que de Allah não recebeu, certamente, os dons preciosos da inteligência. Devia ele ter percebido logo — se fosse mediocremente perspicaz — que o velho Hassan se desfazia da bolsa cheia de ouro movido pela ambição de receber, como já lhe havia acontecido das outras vezes, presentes mais valiosos. Penso, portanto, que Omar Chafihi, além de ter formado um conceito insultuoso do nosso califa, confundindo-o com o mais sórdido mendigo de Bagdá, provou ser um vil adulador, indigno da amizade do nosso soberano. É um homem que não pode merecer a confiança de um chefe de estado; ele seria capaz de deixar nas mãos do primeiro intrujão que encontrasse, julgando dirigir-se ao grão-vizir ou ao cádi, a mensagem mais secreta ou o documento mais valioso. Pela sua maneira de proceder, julgo pois que o xeique Omar Chafihi deve ser condenado a vinte dias de prisão e destituído das funções do governo de Thous.

— Por Allah! — exclamou o sultão. — A tua sentença é justa, ó Safian! Esse xeique teve a audácia de confundir-me com um mendigo, fazendo assim da minha pessoa um juízo pouco lisonjeiro. Bem merece o castigo. Não obstante, vejamos o que pensa sobre o caso o juiz Karim.

O sereno magistrado, ao perceber que lhe cabia falar, assim exarou o seu juízo:

— A meu ver, ó rei magnânimo, o xeique Omar Chafihi teve um procedimento nobre e correto. Iludido pelas palavras de um escriba, julgou que o velho Hassan fosse o Príncipe dos Crentes, disfarçado em mendigo. E nessa convicção, deu ao pobre da mesquita o valioso presente que trazia especialmente para o nosso monarca. Não vejo nesse ato do xeique Omar Chafihi nada que possa ofender ou melindrar a honra e o nome do nosso califa. Se ele admitiu ver o califa de Bagdá na pessoa de Hassan, fez do rei um conceito elevadíssimo. Acreditou que o Comendador dos Árabes seria capaz (se quisesse) de disfarçar-se tão bem a ponto de ser tomado por um verdadeiro e sórdido indigente. Seria, a meu ver, o maior elogio que Omar Chafihi poderia fazer do nosso príncipe, se dissesse a seus amigos da Pérsia: “O califa Harun-al-Raschid é tão hábil em disfarçar-se que se torna irreconhecível sob os farrapos de um mendigo”. Devo ponderar ainda que o xeique, ao dar a esmeralda ao velho Hassan, revelou ser correto e delicado: sem deixar perceber que reconhecera o Emir dos Crentes, não quis ele conservar por mais tempo em seu poder o valioso presente. Entendo, portanto, que, se não mandar recompensar generosamente o xeique, praticará negra injustiça e deplorável ingratidão. Injustiça, porque o rico Chafihi nada fez para merecer castigo; ingratidão, porque ele se mostrou delicado trazendo da Pérsia valioso presente que, pela força invencível do destino, chegou, como devia, às mãos daquele a quem era destinado.

Harun-al-Raschid, que era bom e justo, viu-se forçado a confessar que fizera juízo errado acerca do proceder do xeique. E determinou imediatamente que fosse entregue ao esforçado governador persa um traje de gala riquíssimo.

Proferida a sentença sobre o xeique, o sultão Harun-al-Raschid dirigiu-se à assistência:

— Muçulmanos! Estamos em presença de uma das mais extraordinárias aventuras que até agora ocorreram no mundo. E como foram já devidamente recompensadas as pessoas que tomaram parte nesta singular história, quero dar também uma recompensa ao velho Hassan El-Masquim, ao qual devo a bela esmeralda que tenho agora em meu poder.

— Determino, pois, — continuou  sultão — que ao velho Hassan seja dado o palácio denominado El-Jamal, de minha propriedade, que fica na beira do Eufrates; dez escravos, vinte camelos; três caixas de joias; sete trajes de honra e cinco mil dinares-ouro. Recomendo, outrossim, que ao velho Hassan El-Masquim seja conferido o título de Xeique do Califado e concedida a regalia excepcional de entrar a qualquer hora nas dependências deste palácio.

O infeliz Hassan, diante da inexcedível generosidade de Harun-al-Raschid, ficou tomado de tamanho pasmo que quase veio ao chão desmaiado. Era ele, na verdade, quem recebia a recompensa maior. E aquela riqueza prodigiosa — palácios, joias, ouro, escravos — viera-lhe às mãos por causa da pequenina moeda que lhe dera o mercador ao entrar na mesquita.

— Bismillahi ahmair rrahim! (Em nome de Deus, Clemente e misericordioso!) Louvado seja o Onipotente criador de todos os mundos. A misericórdia é em Deus atributo supremo. Nós te adoramos, Senhor! E te imploramos a tua divina assistência! Conduze-nos pelo caminho certo! Pelo caminho daqueles que são esclarecidos e abençoados por Ti!

Todas as pessoas que se achavam no grande divã de harun-al-Raschid ficaram comovidas diante da sinceridade com que o velho Hassan, repetindo os versículos do Livro Sagrado, agradecia a Deus os bens superabundantes recebidos das mãos generosas do califa de Bagdá.

Harun-al-Raschid chamou os escribas mais hábeis e famosos da corte e determinou-lhes que a singular aventura de Hassan El-Masquim fosse escrita com letras de ouro e guardadas cuidadosamente nos arquivos do califado.

E esta história terminaria por aqui se Giafar Al-Barmaki, o grão-vizir, não o impedisse.

— Perdoai, ó Emir dos Crentes, a minha ousadia. Há, porém, nesta singular aventura, ocorrida com o velho Hassan, um ponto obscuro que ainda não cheguei a esclarecer.

— Qual é, ó Giafar? — perguntou o califa. — Que achas ainda de estranho nesta história?

— A minha dúvida é a seguinte: — respondeu Giafar — ouvi que o velho Hassan trocou uma moeda de cobre por outra de prata; esta por um dinar de ouro; pelo dinar recebeu da anciã uma bolsa cheia de ouro, que deu, afinal, ao xeique, para receber em recompensa uma esmeralda. Todas essas trocas foram perfeitamente justificadas. Achei-as todas simples e razoáveis, sabidos os motivos de cada uma. O que, porém, não posso compreender nem justificar é a última troca que Hassan acaba de fazer.

— Que troca foi essa? — indagou pressuroso o califa sem dissimular o seu assombro. — Além das que se discutiram, não vejo outra qualquer transação que o velho El-Masquim pudesse ter realizado.

— É bem simples, ó Emir dos Crentes, — replicou o grão-vizir. — O bom Hassan deu a Vossa Majestade uma esmeralda e recebeu um palácio, dez escravos,  vinte camelos e três caixas de joias, títulos e honrarias excepcionais. Essa troca, ó califa, tão singular, — de uma joia por uma riqueza fabulosa — parece-me inconcebível. Creio mesmo que os grandes ulemás aqui presentes não saberiam justificá-la.

Riu-se o soberano ao ouvir a judiciosa observação de seu digno ministro. E, como tivesse por hábito elucidar qualquer dúvida que lhe fosse apresentada, falou desta sorte:

— Dei, é verdade, ao simplório Hassan presentes tão valiosos que seriam suficientes para contentar o príncipe mais ambicioso do Islã. Revela, porém, acentuar que Hassan não me deu apenas uma esmeralda. Proporcionou-me também o conhecimento de uma encantadora história, cheia de curiosos episódios, de grandes verdades, de profundos ensinamentos, de sábias sentenças, história maravilhosa capaz de recrear, no futuro, as pessoas bem dotadas e inteligentes, quando se dispuresem a meditar na sabedoria infinita que nos provém da longa experiência do passado.

Glória! Glóira, pois, a Allah, Onipotente e Onisciente, criador do céu e da terra, o eterno Senhor dos mundos visíveis e invisíveis!

*** F I M ***

(Malba Tahan, do livro “Céu de Allah”.)

 

L.s.N.S.J.C.!