JOSÉ Augusto Moita!

Copa de 1978 e a Maraponga

 

FORTALEZA é uma cidade que tem umas particularidades quase únicas — como devem ter as demais urbes que infestam este planeta azul e desprezado pelos humanos — Uma delas é quanto à questão de nomes de bairros e ruas. Aqui os bairros desaparecem como que por encanto ou mudam de nome como se milhares de pessoas e moradias tivessem sido abduzidas ao mesmo tempo. De repente você para e percebe que a Vila Sarita, a Itaoca, o Alto da Balança, o Djalma Petit simplesmente não existem mais. As casas, as pessoas parecem até que ainda estão lá, mas os bairros… É como se um Aladim pedisse ao seu Gênio que transformasse tudo na mesma coisa.

Outra delas são os nomes das ruas. Há bairro em que as ruas todas têm nome de flores; gardênias, margaridas, crisântemos, lírios nominam e perfumam a Cidade Dois Mil. Para os lados do Jocquei Clube há umas ruas com nomes e capitais e outras com nomes de estados; aí gorjeiam a Rua Curitiba, Porto Alegre, Florianópolis não muito distantes da Rua Mato Grosso, Pará, Amazonas… e vai a população se entendendo e se orientando suburbanamente.

 

Já prás bandas da Maraponga existem umas ruas ( se é que ainda não foram também abduzidas pelo mercado imobiliário) que carregam o nome de países europeus ( e antes que os nacionalistas achem ruim, pior é um bairro todo homenageando um presidente ianque que nunca aqui esteve, apenas nos matou a fome com leite em pó e sopa desidratada), lá encontraremos a rua Holanda, Suíça, Dinamarca, dos bálticos aos anglo-saxões.

Por aqui corria o ano da graça de 1978 e na Argentina a Copa do Mundo de Futebol, com Maradona e tu edo. Esse escriba que lhes toma o tempo trabalhava no setor de cadastro imobiliário da Secretaria de Finanças do Município e estava perdido naquele quase desértico bairro à época, à procura de uma alma caridosa e conhecedora das ruas do lugar para lhe dar uma luz, lhe tirasse da escuridão das ruas sem placas indicativas de seus próprios nomes. Os poucos e raríssimos transeuntes nada sabiam, pareciam até vindos de um abduzimento recente…olhe, num sei, mas eu acho…era a resposta que todos forneciam. Até que caiu do céu um passante que portava um ar mais erudito.

— Cidadão, por favor, o senhor sabe me dizer onde fica a Rua Holanda? — Disse eu o mais educadamente possível.

Ele coçou a cabeça, num gesto que me deixou num misto de esperançoso e descrente de uma resposta favorável à minha orientação espacial.

— ela fica próxima à Rua Áustria, à Rua Bulgária… — Tentei lhe fornecer mais dados para alimentar seu sistema sensorial central, posto já estar me sentindo culpado pela queima de seus neurônios com um problema que não era dele.

Ele permanace calado, olhando para o chão e ainda pensativamente coçando a cabeça, quando subtamente a levanta trazendo aquela cara de Eureka.

— Ah! Rapaz, essas ruas que você tá procurando são ali prá baixo, depois desse terreno. As ruas lá são tudo com nome de time.

Pobre povo!

Coisas de um país em que a educação não é prioridade. Povo brasileiro só é patriota quando a seleção de futebol joga; o jogador de futebol, o artista de novela, esses são valorizados (e quanto!), são heróis, enquanto o professor e o operário, não.

Não considero culpado o cidadão da crônica de J. A. Moita, que pensava serem Áustria, Bulgária, Holanda times de futebol. A televisão está aí exatamente para fazer os brasileiros pensarem e agirem como ele. 

2 comentários sobre “JOSÉ Augusto Moita!

  1. Isso, Valentim, na realidade somos todos vítimas desse sistema opressor e alienante, poucos são os felizardos que conseguem se desprender dessa situação. A ignorância a nós imposta tem um objetivo, dominar para saquear.

  2. Isso desde 1500. O coitado — ou os milhões de coitados — não têm culpa disso. O sistema gera ignorantes para facilitar o saque. Havendo o circo (nem digo mais o pão), eles estão livres para continuarem a fabricar mais ignorantes.
    E viva o Brasiiiiiilll!!!

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