MALBA Tahan!

O mendigo das moedas de ouro (oitava parte)

Continuação da postagem de 30jun2018

O CALIFA julgando

Giafar, o grão-vizir, declarou então que ia ser julgado o judeu Isaac Ben-Moab. Esperavam todos ansiosamente a sentença terrível do juiz Safian.

— SINTO-ME, ó Emir dos Crentes, obrigado a declarar, antes de tudo, que considero o procedimento do judeu Isaac Ben-Moab como um dos mais torpes e mais criminosos de quantos tenho apreciado. Esse homem recebeu de um pobre mendigo uma moeda de prata e deu-lhe, em troca, dinheiro falso. Praticou, a meu ver, crime gravíssimo contra o Islã, pondo em circulação moeda falsa. Revelou possuir caráter baixo, pagando o bem com o mal, pois sujeitava o velho Hassan a ser preso como falsário. Praticou roubo, dando a entender que comprava a moeda de prata por outra mais valiosa. Nestas condições, o judeu Isaac Ben-Moab deve ser castigado como falsário e como ladrão. Ladrão, deve ter a mão direita cortada; falsário, deve ser enforcado em praça pública, conforme determinam claramente as leis do país.

Ao ouvir tais palavras, o sultão exclamou:

— Essa sentença é sábia e justa. Estou certo de que ela expressa rigorosamente a verdade e não vejo como poderá alguém discrepar de um julgamento que se firma em tão sólidas razões.

Cabia a vez de falar ao erudito Karim. O bom juiz adiantou-se alguns passos e, depois de prostrar-se humilde aos pés do califa, exclamou:

— Peço perdão a vossa majestade, ó Rei do Templo, mas não posso concordar com a sentença do ilustre e íntegro Safian. Penso mesmo que, se Vossa Majestade mandar castigar o judeu Issac Ben-Moab, praticará grande injustiça. Devemos ser justos, principalmente para com os estrangeiros que vivem e trabalham em nosso país.

— Injustiça? — exclamou Al-Raschid. — Como pode haver injustiça em castigar-se um sujeito que é, a um tempo, falsário e ladrão?

— Há injustiça, ó Emir dos Crentes — continuou o sábio Karim com afável serenidade — porque o infeliz Isaac Ben-Moab não é falsário nem ladrão. É, ao contrário, um dos homens mais generosos e honestos que tenho encontrado. E Posso prová-lo, analisando aqui, diante de Vossa Majestade, o procedimento que ele teve para com o mendigo Hassan!

E, depois de pequena pausa, rompendo o profundo silêncio gerado pela ansiedade e pelo espanto que dominava o grande salão, o famoso ulemá começou:

— O judeu Isaac Ben-Moab, ao passar pelo mesquita de Osmã, ficou grandemente surpreso ao se lhe deparar um mendigo, que lhe oferecia valiosa moeda de prata. “É um infeliz demente que tem a singular mania de dar aos desconhecidos as moedas que recebe das pessoas caridosas”, pensou. E, nessa convicção, Isaac Ben-Moab resolveu aceitar a moeda com que Hassan o preseteava, dando-lhe em troca a única moeda que possuía: moeda falsa, sim, mas que lhe servia de talismã e que estava há mais de dois anos em seu poder. Não se tratava, portanto, de um falsário. Um falsário, ó rei, não conservaria dois anos uma moeda falsa em seu poder. Tratava-se de um homem caridoso, que deu a um desafortunado, que tinha como louco, um talismã a seus olhos valiosíssimo pois seria capaz de restituir ao infeliz mendigo o bem do juízo perdido. Se ele não fosse bom e caridoso, não daria coisa alguma ao velho Hassan, visto como este, em troca da moeda de prata, nada exigiu. Restituindo-lhe a razão, com a ajuda do talismã, que ele recebera de um muezim, evitaria que com seus acessos futuros viesse o velho praticar violências contra os transeuntes descuidados, muito embora corresse o doador o risco de ser acusado de ladrão e falsário, além de perder os preciosos favores da excepcional moeda. Isaac Ben-Moab não é, portanto, um criminoso; longe disso — é um homem bom e digno, porque se compadeceu da triste situação de um mendigo (que supunha ser um infeliz e demente), dando-lhe um talismã valioso que possuía. Julgo, portanto (Allah, porém, é mais sábio, mais clemente e mais justo!), que o judeu Isaac Ben-Moab, pelo proceder caridoso que teve, procurando curar um enfermo — com risco de sua liberdade e de sua vida e sacrificando um talismã — merece a recompensa de mil dinares de ouro.

Mal tinha o juiz Karim proferido a sentença, ergueu-se o poderoso califa de Bagdá e exclamou:

— Mach Allah! Extraordinária coisa é esta! Estou agora convencido de que o judeu Isaac não é culpado. Este inteligente e sábio juiz acaba de provar que Iassac Ben-Moab foi generoso e honesto. Deu ao mendigo não uma moeda falsa, mas um talismã de alto valor.

E o grande Al-Raschid ordenou que fosse entregue ao piedoso Isaac Ben-Moab, como recompensa, a quantia de mil dinares-ouro e ficasse dispensado, durante dez anos, de pagar qualquer imposto ao governo muçulmano.

Foi em seguida anunciado pelo grão-vizir Giafar que ia ser julgada a velha Fátima, da tribo dos Anazeh. O sábio magistrado Safian, convidado a proferir sua sentença, formulou-a nestes termos:

— Devo dizer, ó Comendador dos Crentes, que a meu ver essa pobre anciã, que realizou com o mendigo troca tão descabida, não passa de uma insensata e de uma ambiciosa. Dando crédito a um sonho, veio do longínquo oásis em que vive perto de Kerbela, para alcançar tesouro em Bagdá. Só mesmo uma demente poderia praticar semelhante proeza. Essa pobre mulher ignora, com certeza, que não existe força ou poder senão em Allah, o Altíssimo. Se ela tivesse de achar algum tesouro, — se tal coisa estivesse escrita (Maktub!) no livro do destino — o tesouro iria a Kerbela cair-lhe nas mãos. Penso, portanto, que a velha Fátima não passa de uma tola, uma cobiçosa vulgar que tudo sacrificou por causa de um sonho enganador. Assim sendo, acho que ela, se não merece castigo, não fez jus a recompensa alguma.

— Tens razão, ó Safian — exclamou o sultão. — A mim tambémme parece que ssa pobre mulher procedeu como uma insensata, entregando ao velho Hassan, em troca de uma moeda, todo o dinheiro que possuía. Vejamos, porém, se assim pensa também o bom Karin, sempre propenso a reconhecer o mérito e o valor das ações alheias.

Ao ouvir tais palavras, o juiz Karim inclinou-se respeitoso diante do califa:

— Sou forçado a declarar, ó rei afortunado, que não considero a velha Fátima uma insensata. Julgo-a, ao contrário, mulher dotada de elevas qualidades morais. Por que veio ela a Bagdá? Unicamente por causa do sonho que teve. E que é o sonho? O sonho é uma das manifestações de Deus. O sonho é a vida. Logo, essa boa anciã, na certeza de que obedecia aos sábios desígnios do Onipotente, veio de Kerbela até Bagdá em busca de um sonhado tesouro. Ora, mulher que revelou tão grande fé na vontade do Altíssimo é crente sincera do Islã. Ao receber a moeda do mendigo, a velha Fátima deu-lhe uma bolsa cheia de ouro. Agiu com elevada generosidade. Poderia ter dado ao velho Hassan uma ou duas peças de ouro; ao ver, entretanto, a inscrição da moeda, deu-lhe todo o dinheiro que levava. Que procurou ela retribuir? Procurou retribuir o suposto benefício da inscrição. Essa inscrição, que se encontra na moeda, é a seguinte: “O princípio de toda sabedoria é o temor de Deus”. Recompensando o mendigo, a inteligente anciã quis provar que tinha encontrado um tesouro: esse tesouro estava simbolizado naquela verdade sublime de Salomão. Essa mulher proporcionou aos crentes uma profunda lição de moral e de religião. O tesouro que ela pretendia descobrir é muito maior que todos os bens terrenos. Penso, portanto, que a boa Fátima — já pela sua avançada idade merecedora do nosso respeito e atenção — deve receber um prêmio de cem dinares de ouro e vinte camelos.

Mais uma vez Al-Raschid se viu dominado pela opinião do juiz Karim. Por uma ordem dada, foram imediatamente entregues à anciã de Kerbela os presentes de que se fizera credora. Ordenou também o sultão que igual recompensa recebesse o bom e piedoso mestre-escola que havia auxiliado e oferecido assistência à velha Fátima.

Essa decisão do grande califa causou a todos magnífica impressão e fez aumentar a confiança e a felicidade de seus numerosos súditos.

Declarou em seguida o grão-vizir Giafar que ia ser julgado o xeique Omar Chafihi.

Tocando-lhe a vez de falar, assim começou o douto e severo Safian.

Continua

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