MALBA Tahan!

O mendigo das moedas de ouro (final)

Continuação da postagem de 01jul2018

MALBA Than júlio cesar

Malba Tahan ou Júlio César Mello e Sousa

DEVO dizer, ó Emir dos Crentes, que o xeique Omar Cafihi, quando acreditou ver na figura grotesca e suja do velho Hassan a pessoa do nosso glorioso califa, cometeu verdadeiro crime contra o prestígio e a honra do califado. Omar Chafihi teve a coragem de confessar que dera a valiosa esmeralda ao mendigo na convicção de que estava presenteando o pródigo califa de Bagdá. É um bajulador leviano que de Allah não recebeu, certamente, os dons preciosos da inteligência. Devia ele ter percebido logo — se fosse mediocremente perspicaz — que o velho Hassan se desfazia da bolsa cheia de ouro movido pela ambição de receber, como já lhe havia acontecido das outras vezes, presentes mais valiosos. Penso, portanto, que Omar Chafihi, além de ter formado um conceito insultuoso do nosso califa, confundindo-o com o mais sórdido mendigo de Bagdá, provou ser um vil adulador, indigno da amizade do nosso soberano. É um homem que não pode merecer a confiança de um chefe de estado; ele seria capaz de deixar nas mãos do primeiro intrujão que encontrasse, julgando dirigir-se ao grão-vizir ou ao cádi, a mensagem mais secreta ou o documento mais valioso. Pela sua maneira de proceder, julgo pois que o xeique Omar Chafihi deve ser condenado a vinte dias de prisão e destituído das funções do governo de Thous.

— Por Allah! — exclamou o sultão. — A tua sentença é justa, ó Safian! Esse xeique teve a audácia de confundir-me com um mendigo, fazendo assim da minha pessoa um juízo pouco lisonjeiro. Bem merece o castigo. Não obstante, vejamos o que pensa sobre o caso o juiz Karim.

O sereno magistrado, ao perceber que lhe cabia falar, assim exarou o seu juízo:

— A meu ver, ó rei magnânimo, o xeique Omar Chafihi teve um procedimento nobre e correto. Iludido pelas palavras de um escriba, julgou que o velho Hassan fosse o Príncipe dos Crentes, disfarçado em mendigo. E nessa convicção, deu ao pobre da mesquita o valioso presente que trazia especialmente para o nosso monarca. Não vejo nesse ato do xeique Omar Chafihi nada que possa ofender ou melindrar a honra e o nome do nosso califa. Se ele admitiu ver o califa de Bagdá na pessoa de Hassan, fez do rei um conceito elevadíssimo. Acreditou que o Comendador dos Árabes seria capaz (se quisesse) de disfarçar-se tão bem a ponto de ser tomado por um verdadeiro e sórdido indigente. Seria, a meu ver, o maior elogio que Omar Chafihi poderia fazer do nosso príncipe, se dissesse a seus amigos da Pérsia: “O califa Harun-al-Raschid é tão hábil em disfarçar-se que se torna irreconhecível sob os farrapos de um mendigo”. Devo ponderar ainda que o xeique, ao dar a esmeralda ao velho Hassan, revelou ser correto e delicado: sem deixar perceber que reconhecera o Emir dos Crentes, não quis ele conservar por mais tempo em seu poder o valioso presente. Entendo, portanto, que, se não mandar recompensar generosamente o xeique, praticará negra injustiça e deplorável ingratidão. Injustiça, porque o rico Chafihi nada fez para merecer castigo; ingratidão, porque ele se mostrou delicado trazendo da Pérsia valioso presente que, pela força invencível do destino, chegou, como devia, às mãos daquele a quem era destinado.

Harun-al-Raschid, que era bom e justo, viu-se forçado a confessar que fizera juízo errado acerca do proceder do xeique. E determinou imediatamente que fosse entregue ao esforçado governador persa um traje de gala riquíssimo.

Proferida a sentença sobre o xeique, o sultão Harun-al-Raschid dirigiu-se à assistência:

— Muçulmanos! Estamos em presença de uma das mais extraordinárias aventuras que até agora ocorreram no mundo. E como foram já devidamente recompensadas as pessoas que tomaram parte nesta singular história, quero dar também uma recompensa ao velho Hassan El-Masquim, ao qual devo a bela esmeralda que tenho agora em meu poder.

— Determino, pois, — continuou  sultão — que ao velho Hassan seja dado o palácio denominado El-Jamal, de minha propriedade, que fica na beira do Eufrates; dez escravos, vinte camelos; três caixas de joias; sete trajes de honra e cinco mil dinares-ouro. Recomendo, outrossim, que ao velho Hassan El-Masquim seja conferido o título de Xeique do Califado e concedida a regalia excepcional de entrar a qualquer hora nas dependências deste palácio.

O infeliz Hassan, diante da inexcedível generosidade de Harun-al-Raschid, ficou tomado de tamanho pasmo que quase veio ao chão desmaiado. Era ele, na verdade, quem recebia a recompensa maior. E aquela riqueza prodigiosa — palácios, joias, ouro, escravos — viera-lhe às mãos por causa da pequenina moeda que lhe dera o mercador ao entrar na mesquita.

— Bismillahi ahmair rrahim! (Em nome de Deus, Clemente e misericordioso!) Louvado seja o Onipotente criador de todos os mundos. A misericórdia é em Deus atributo supremo. Nós te adoramos, Senhor! E te imploramos a tua divina assistência! Conduze-nos pelo caminho certo! Pelo caminho daqueles que são esclarecidos e abençoados por Ti!

Todas as pessoas que se achavam no grande divã de harun-al-Raschid ficaram comovidas diante da sinceridade com que o velho Hassan, repetindo os versículos do Livro Sagrado, agradecia a Deus os bens superabundantes recebidos das mãos generosas do califa de Bagdá.

Harun-al-Raschid chamou os escribas mais hábeis e famosos da corte e determinou-lhes que a singular aventura de Hassan El-Masquim fosse escrita com letras de ouro e guardadas cuidadosamente nos arquivos do califado.

E esta história terminaria por aqui se Giafar Al-Barmaki, o grão-vizir, não o impedisse.

— Perdoai, ó Emir dos Crentes, a minha ousadia. Há, porém, nesta singular aventura, ocorrida com o velho Hassan, um ponto obscuro que ainda não cheguei a esclarecer.

— Qual é, ó Giafar? — perguntou o califa. — Que achas ainda de estranho nesta história?

— A minha dúvida é a seguinte: — respondeu Giafar — ouvi que o velho Hassan trocou uma moeda de cobre por outra de prata; esta por um dinar de ouro; pelo dinar recebeu da anciã uma bolsa cheia de ouro, que deu, afinal, ao xeique, para receber em recompensa uma esmeralda. Todas essas trocas foram perfeitamente justificadas. Achei-as todas simples e razoáveis, sabidos os motivos de cada uma. O que, porém, não posso compreender nem justificar é a última troca que Hassan acaba de fazer.

— Que troca foi essa? — indagou pressuroso o califa sem dissimular o seu assombro. — Além das que se discutiram, não vejo outra qualquer transação que o velho El-Masquim pudesse ter realizado.

— É bem simples, ó Emir dos Crentes, — replicou o grão-vizir. — O bom Hassan deu a Vossa Majestade uma esmeralda e recebeu um palácio, dez escravos,  vinte camelos e três caixas de joias, títulos e honrarias excepcionais. Essa troca, ó califa, tão singular, — de uma joia por uma riqueza fabulosa — parece-me inconcebível. Creio mesmo que os grandes ulemás aqui presentes não saberiam justificá-la.

Riu-se o soberano ao ouvir a judiciosa observação de seu digno ministro. E, como tivesse por hábito elucidar qualquer dúvida que lhe fosse apresentada, falou desta sorte:

— Dei, é verdade, ao simplório Hassan presentes tão valiosos que seriam suficientes para contentar o príncipe mais ambicioso do Islã. Revela, porém, acentuar que Hassan não me deu apenas uma esmeralda. Proporcionou-me também o conhecimento de uma encantadora história, cheia de curiosos episódios, de grandes verdades, de profundos ensinamentos, de sábias sentenças, história maravilhosa capaz de recrear, no futuro, as pessoas bem dotadas e inteligentes, quando se dispuresem a meditar na sabedoria infinita que nos provém da longa experiência do passado.

Glória! Glóira, pois, a Allah, Onipotente e Onisciente, criador do céu e da terra, o eterno Senhor dos mundos visíveis e invisíveis!

*** F I M ***

(Malba Tahan, do livro “Céu de Allah”.)

 

L.s.N.S.J.C.!

 

2 comentários sobre “MALBA Tahan!

  1. A história contada pelo professor brasileiro Júlio César Mello e Sousa, que, num genial golpe de publicidade, adotou o pseudônimo do árabe Ali Iezid Izz-Edim ibn Salim Hank Malba Tahan, tem — entre outros aspectos — o fim de nos dizer que nem tudo o que parece é, e que cada um julga os fatos de acordo com a sua personalidade (ou até mesmo conveniência). De dois juiz, um era mau (mas se julgava bom e todos os outros maus) e outro era realmente bom (pois via a bondade em vez de perceber os defeitos que cada um de nós tem). O soberano, apesar de um bom coração, também se comportava às vezes como tolo, vez que julgava antes de ver os dois lados da história. Todo caso há lados: 1) a versão do ofendido; 2) a versão do ofensor; e 3) a verdade.
    Saudações!

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