MONTIEZ Rodrigues!

A santidade ao alcance de todos

MONTIEZ Rodrigues 1

VENDI muito efígies de santos na lojinha de miudezas de meu avô no beco de Casé, em Serra Talhada. Tornei-me um perito na hagiografia católica. Conhecia a imagem a vida de cor de cada santo. Nada demais para quem nasceu na terra do Padre Cícero, numa cidade de médio porte e de muitas igrejas. Estudei no seminário dos franciscanos, ajudei na missa como coroinha e, já rapaz, como leitor do Evangelho na hora da missa. Gostava da preleção quando se iniciava com a frase:

“Naquele tempo jesus falava a seus discípulos…” 

Ouvindo minha própria voz, sentia-me como se eu fosse também um discípulo a ouvir atento as palavras do meigo Rabi da Galileia.

Pois bem. De posse de tanta santidade, subi num pau-de-arara e indo a Juazeiro do Norte, em romaria, resolvi fazer uma pesquisa hagiográfica por museus, igrejas e lojas de Santos de Juazeiro. A maioria deste tipo de comércio se concentrava ali pela Praça Padre Cícero, indo da matriz de Nossa Senhora das Dores até na apropriada Rua de Todos os Santos.

Depois de muito pesquisar, cheguei na maior loja de santo da cidade e olhei por todas as alamedas cheias de retratos, pinturas, e estatuetas de santos, alguns espalhados pelo chão, outros pregados nas paredes, até que cheguei na ala dos santos chamados Franciscos. Vi São Francisco de Assis, São Francisco das Chagas, São Francisco de Paula, São Francisco do Canindé, São Francisco do Oeste, São Francisco do Conde, um mexicano San Francisco de sombrero, às costas, preso por um cordão preto e até um de nome apenas São Francisco.

Mal sucedido na pesquisa por não encontrar o que realmente procurava, cheguei para o proprietário do estabelecimento e perguntei:

“Por acaso, você não tem aí um São Francisco Demontiez?”

Ele me olhou pensativo e calmamente me respondeu:

“Não, mas você faz a encomenda e pode vir pegar depois de amanhã. Eu, ali, naquela tórrida manhã de Juazeiro, já com vontade de tomar uma gelada, fiquei pensando: “Será que alguém como eu, depois de tomar tanta cachaça e cerveja, pode virar santo?”

SÃO Francisco de Assis

São Francisco de Assis (fonte: Internet)

Em Juazeiro do Norte pode! É só fazer a encomenda! Nem precisa passar por aquele processo moroso de beatificação que leva décadas, em alguns casos, séculos para se atingir a santidade. (via Facebook)

Mudei por minha conta o subtítulo. O original era “Em busca da santidade”. “A santidade ao alcance de todos”, para mim, soou melhor porque me remete a um texto de antigo que li faz mais de trinta anos. Chama-se “A ignorância ao alcance de todos”, de autoria de Stanislaw Ponte Preta.

Um sujeito a bordo de um ônibus coletivo, intrigado pelo sem número de nomes estranhos, pensa alto: “Leônio Xanás!”. Ao que o motorista, atento e solícito, automaticamente responde: “Passa perto.”. Imaginando tratar-se de um passageiro perguntando por uma rua, tratou logo de livrar-se do perguntador. Diante da reação do motora, o homem passa a fazer experiências. Em todo o canto que chegava, falava “Leônio Xanás” para se divertir com a reação das pessoas. Num restaurante: “Leônio Xanás tinto, por favor!”. E o garção lhe responde: “Estamos em falta, mas chega na semana que vem”. Na portaria de um prédio: “Doutor Leônio Xanás?”. “Acho que deve ser no décimo andar, chefia”. E assim ia.

Constatoa o personagem pontepreteano que as pessoas se sentem envergonhadas em declarar-se ignorante neste ou naquele assunto; ou, como é o caso do santeiro da crônica de Montiez Rodrigues, temem perder uma boa venda. O caso é que nem sempre se preocupam em realmente dizer a verdade: não sei, de quem se trata, vou procurar saber, talvez fulano saiba dizer…

No caso dos santos, em que o cronista, declarando-se amante da bebida, duvida se chegaria à santidade, a Igreja tem lá suas explicações. Conhecedor da vida dos santos, a Hagiografia, o etílico amigo Montiez certamente já leu sobre tantos santos, que, antes de se converterem, nem sempre levavam vida santa. Mas é claro que o amigo não conta a história com esse fim. 

O riso é o melhor remédio!

L.s.N.S.J.C.!  

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