PARA Vigo me voy!

Floresta amazônica: nunca ouviu falar?

José Wilker no papel de Lorde Cigano em Bye Bye Brasil (fonte: Internet)

CONSIDERO o filme Bye Bye Brasil, de Cacá Diegues, um clássico do cinema brasileiro, e seu protagonista um dos grandes atores do país. O ator José Wilker é possuidor de vasta filmografia, tendo participado de mais de 70 filmes. 

Nessa produção Wilker encarna o impagável Lorde Cigano, um artista mambembe, que lidera a Caravana Rolidei, uma trupe de artistas circenses em decadência, que circula pelo país em um velho caminhão em luta pela sobrevivência. Além de Wilker, Bety Faria (Salomé) e Príncipe Nabor (Andorinha) compõem a trupe. Mais tarde, os sertanejos Fábio Júnior (Ciço) e Zaira Zambelli (Dasdô), sua mulher juntam-se ao grupo.

BYE BYE Brasil

Fonte: Internet

A película, de 1979, é inicialmente ambientada no Nordeste do Brasil. Logo em seguida, na ilusão da busca de melhores condições de vida , a Caravana migra para a Amazônia. 

Não classifico a obra uma mera comédia, e sim um filme que aborda o político e o social. Bye Bye Brasil mostra, além da miséria do Brasil mais pobre, a temática da ecologia quando as problemáticas ambientais nem sequer eram mencionadas no país como hoje. Além, é claro, da denúncia social em si mesma e, o filme apresenta muito mais de um Brasil caboclo que vai, aos poucos, ficando para trás, perdendo a sua identidade para assumir – ou tentar – uma outra mais sofisticada.

“Floresta amazônica: nunca ouviu falar?”

Além dessa expressão, mencionada duas vezes, Lorde Cigano chama a atenção de Ciço, o sanfoneiro vivido por Fábio Júnior, para as condições impróprias do mar da cidade, que tem fezes humanas. Também chama atenção a cena em que, ao entrarem na cidade de Maceió, mostra o inferno que são as dificuldades do trânsito de uma capital, em contraste com as cidades do interior, um preço alto pela chegada do tal progresso.

Paralelamente às difíceis condições de vida do povo sertanejo, vão chegando aos municípios do sertão nordestino itens da vida moderna, incluindo a televisão, razão pela qual a trupe tem dificuldades cada vez mais crescentes em vender sua arte. Artistas como da Caravana Rolidei deixam de ser atração, perdendo cada vez mais espaço para as “espinhas de peixe”. 

“Ano passado deu mais gente”.

Entenda-se por “arte” também a prostituição, pois Salomé (Bety Faria), além de trabalhar como dançarina e cantora, também faz um extra vendendo seu corpo:

“Venham ver a internacional Salomé, a rainha da rumba, a princesa do Caribe, aquela que já foi amante de um presidente dos Estados Unidos”, propagandeia Lorde Cigano,  diante do prefeito local, sexualmente interessado na personagem vivida por Bety Faria.

“Mas o espetáculo continua familiar, como no ano passado?”, indaga o alcaide, interessado, mas usando de evidente ironia.

Lorde Cigano se propõe em seu show a realizar o maior desejo de um povo sofrido de um país tropical e desigual, que almeja ser igual aos sofisticados países do hemisfério Norte.

“Eu, Lorde Cigano, posso por exemplo tornar real o sonho de todos o brasileiros: eu posso fazer nevar no Brasil”. 

“Tá nevando no Sertão, tá nevando na minha administração” É o prefeito da cidade que diz, procurando também tirar proveito da ilusão, frisando que é na sua administração que tal fenômeno ocorre.

Caravana Rolidei então decide migrar para a Amazônia: Altamira, a Princesinha do Xingu, e depois Belém. 

Bastante emblemática é a cena em que um índio, cuja tribo fora dizimada pelos brancos, pergunta a Dasdô sobre o presidente do Brasil e ela dá de ombros: 

“Sei lá!” 

E índio também quer ser chique e usa óculos Ray Ban, veste calça Lee e ouve rádio. Índio quer viajar de avião e, também por questão de sobrevivência, já que é forçado a abandonar sua cultura milenar, acaba se adaptando precariamente às condições impostas pelos brancos. É o caso do cacique, que, em Altamira, aceita um emprego em uma indústria de celulose do magnata americano Daniel Ludwig, o famoso projeto Jari dos anos 1970. 

São as mudanças sócio-culturais que o país vai sofrendo, uma mudança que não tem volta, com o povo migrando de vez para a americanização dos costumes, perdendo sua identidade para sempre a sua identidade cultural. Bye, bye, Brasil!

Perdendo tudo em Altamira, a sobrevivência do grupo está nas mãos de Salomé, que assume abertamente a sua condição de prostituta, viabilizando a saída da cidade da extinta Caravana Rolidei. Assim, de barco, vão para a cidade grande mais próxima: Belém, onde, por um tempo, Salomé continua  a “se virar”.

Y para Vigo me voy! 

(BLOGUE do Valentim em 10set2017, reeditado)

Bye Bye Brasil não é simplesmente uma comédia.

L.s.N.S.J.C.!

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