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MALBA Tahan!

O mendigo das moedas de ouro (final)

Continuação da postagem de 01jul2018

MALBA Than júlio cesar
Malba Tahan ou Júlio César Mello e Sousa

DEVO dizer, ó Emir dos Crentes, que o xeique Omar Cafihi, quando acreditou ver na figura grotesca e suja do velho Hassan a pessoa do nosso glorioso califa, cometeu verdadeiro crime contra o prestígio e a honra do califado. Omar Chafihi teve a coragem de confessar que dera a valiosa esmeralda ao mendigo na convicção de que estava presenteando o pródigo califa de Bagdá. É um bajulador leviano que de Allah não recebeu, certamente, os dons preciosos da inteligência. Devia ele ter percebido logo — se fosse mediocremente perspicaz — que o velho Hassan se desfazia da bolsa cheia de ouro movido pela ambição de receber, como já lhe havia acontecido das outras vezes, presentes mais valiosos. Penso, portanto, que Omar Chafihi, além de ter formado um conceito insultuoso do nosso califa, confundindo-o com o mais sórdido mendigo de Bagdá, provou ser um vil adulador, indigno da amizade do nosso soberano. É um homem que não pode merecer a confiança de um chefe de estado; ele seria capaz de deixar nas mãos do primeiro intrujão que encontrasse, julgando dirigir-se ao grão-vizir ou ao cádi, a mensagem mais secreta ou o documento mais valioso. Pela sua maneira de proceder, julgo pois que o xeique Omar Chafihi deve ser condenado a vinte dias de prisão e destituído das funções do governo de Thous.

— Por Allah! — exclamou o sultão. — A tua sentença é justa, ó Safian! Esse xeique teve a audácia de confundir-me com um mendigo, fazendo assim da minha pessoa um juízo pouco lisonjeiro. Bem merece o castigo. Não obstante, vejamos o que pensa sobre o caso o juiz Karim.

O sereno magistrado, ao perceber que lhe cabia falar, assim exarou o seu juízo:

— A meu ver, ó rei magnânimo, o xeique Omar Chafihi teve um procedimento nobre e correto. Iludido pelas palavras de um escriba, julgou que o velho Hassan fosse o Príncipe dos Crentes, disfarçado em mendigo. E nessa convicção, deu ao pobre da mesquita o valioso presente que trazia especialmente para o nosso monarca. Não vejo nesse ato do xeique Omar Chafihi nada que possa ofender ou melindrar a honra e o nome do nosso califa. Se ele admitiu ver o califa de Bagdá na pessoa de Hassan, fez do rei um conceito elevadíssimo. Acreditou que o Comendador dos Árabes seria capaz (se quisesse) de disfarçar-se tão bem a ponto de ser tomado por um verdadeiro e sórdido indigente. Seria, a meu ver, o maior elogio que Omar Chafihi poderia fazer do nosso príncipe, se dissesse a seus amigos da Pérsia: “O califa Harun-al-Raschid é tão hábil em disfarçar-se que se torna irreconhecível sob os farrapos de um mendigo”. Devo ponderar ainda que o xeique, ao dar a esmeralda ao velho Hassan, revelou ser correto e delicado: sem deixar perceber que reconhecera o Emir dos Crentes, não quis ele conservar por mais tempo em seu poder o valioso presente. Entendo, portanto, que, se não mandar recompensar generosamente o xeique, praticará negra injustiça e deplorável ingratidão. Injustiça, porque o rico Chafihi nada fez para merecer castigo; ingratidão, porque ele se mostrou delicado trazendo da Pérsia valioso presente que, pela força invencível do destino, chegou, como devia, às mãos daquele a quem era destinado.

Harun-al-Raschid, que era bom e justo, viu-se forçado a confessar que fizera juízo errado acerca do proceder do xeique. E determinou imediatamente que fosse entregue ao esforçado governador persa um traje de gala riquíssimo.

Proferida a sentença sobre o xeique, o sultão Harun-al-Raschid dirigiu-se à assistência:

— Muçulmanos! Estamos em presença de uma das mais extraordinárias aventuras que até agora ocorreram no mundo. E como foram já devidamente recompensadas as pessoas que tomaram parte nesta singular história, quero dar também uma recompensa ao velho Hassan El-Masquim, ao qual devo a bela esmeralda que tenho agora em meu poder.

— Determino, pois, — continuou  sultão — que ao velho Hassan seja dado o palácio denominado El-Jamal, de minha propriedade, que fica na beira do Eufrates; dez escravos, vinte camelos; três caixas de joias; sete trajes de honra e cinco mil dinares-ouro. Recomendo, outrossim, que ao velho Hassan El-Masquim seja conferido o título de Xeique do Califado e concedida a regalia excepcional de entrar a qualquer hora nas dependências deste palácio.

O infeliz Hassan, diante da inexcedível generosidade de Harun-al-Raschid, ficou tomado de tamanho pasmo que quase veio ao chão desmaiado. Era ele, na verdade, quem recebia a recompensa maior. E aquela riqueza prodigiosa — palácios, joias, ouro, escravos — viera-lhe às mãos por causa da pequenina moeda que lhe dera o mercador ao entrar na mesquita.

— Bismillahi ahmair rrahim! (Em nome de Deus, Clemente e misericordioso!) Louvado seja o Onipotente criador de todos os mundos. A misericórdia é em Deus atributo supremo. Nós te adoramos, Senhor! E te imploramos a tua divina assistência! Conduze-nos pelo caminho certo! Pelo caminho daqueles que são esclarecidos e abençoados por Ti!

Todas as pessoas que se achavam no grande divã de harun-al-Raschid ficaram comovidas diante da sinceridade com que o velho Hassan, repetindo os versículos do Livro Sagrado, agradecia a Deus os bens superabundantes recebidos das mãos generosas do califa de Bagdá.

Harun-al-Raschid chamou os escribas mais hábeis e famosos da corte e determinou-lhes que a singular aventura de Hassan El-Masquim fosse escrita com letras de ouro e guardadas cuidadosamente nos arquivos do califado.

E esta história terminaria por aqui se Giafar Al-Barmaki, o grão-vizir, não o impedisse.

— Perdoai, ó Emir dos Crentes, a minha ousadia. Há, porém, nesta singular aventura, ocorrida com o velho Hassan, um ponto obscuro que ainda não cheguei a esclarecer.

— Qual é, ó Giafar? — perguntou o califa. — Que achas ainda de estranho nesta história?

— A minha dúvida é a seguinte: — respondeu Giafar — ouvi que o velho Hassan trocou uma moeda de cobre por outra de prata; esta por um dinar de ouro; pelo dinar recebeu da anciã uma bolsa cheia de ouro, que deu, afinal, ao xeique, para receber em recompensa uma esmeralda. Todas essas trocas foram perfeitamente justificadas. Achei-as todas simples e razoáveis, sabidos os motivos de cada uma. O que, porém, não posso compreender nem justificar é a última troca que Hassan acaba de fazer.

— Que troca foi essa? — indagou pressuroso o califa sem dissimular o seu assombro. — Além das que se discutiram, não vejo outra qualquer transação que o velho El-Masquim pudesse ter realizado.

— É bem simples, ó Emir dos Crentes, — replicou o grão-vizir. — O bom Hassan deu a Vossa Majestade uma esmeralda e recebeu um palácio, dez escravos,  vinte camelos e três caixas de joias, títulos e honrarias excepcionais. Essa troca, ó califa, tão singular, — de uma joia por uma riqueza fabulosa — parece-me inconcebível. Creio mesmo que os grandes ulemás aqui presentes não saberiam justificá-la.

Riu-se o soberano ao ouvir a judiciosa observação de seu digno ministro. E, como tivesse por hábito elucidar qualquer dúvida que lhe fosse apresentada, falou desta sorte:

— Dei, é verdade, ao simplório Hassan presentes tão valiosos que seriam suficientes para contentar o príncipe mais ambicioso do Islã. Revela, porém, acentuar que Hassan não me deu apenas uma esmeralda. Proporcionou-me também o conhecimento de uma encantadora história, cheia de curiosos episódios, de grandes verdades, de profundos ensinamentos, de sábias sentenças, história maravilhosa capaz de recrear, no futuro, as pessoas bem dotadas e inteligentes, quando se dispuresem a meditar na sabedoria infinita que nos provém da longa experiência do passado.

Glória! Glóira, pois, a Allah, Onipotente e Onisciente, criador do céu e da terra, o eterno Senhor dos mundos visíveis e invisíveis!

*** F I M ***

(Malba Tahan, do livro “Céu de Allah”.)

 

L.s.N.S.J.C.!

 

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MONTIEZ Rodrigues!

O gigante Pool

 

CLÁUDIO Isaías Pool, não me lembro de seu milhão nem de qual esquadrilha era na primeira série da EEAer, ao final da qual fomos juntos para o acampamento na mata do Piemonte da Serra da Mantiqueira.

A corpulência intimidava, mas Pool era um cara manso, amigo, boa praça, calado e de bom trato. Não lembro de nenhuma longa conversa que tenha entabulado com ele. Era um bom observador e ouvinte, não como eu, tagarela, que olhava mais para o próprio umbigo. Havia um respeito mútuo, éramos atletas, eu um lépido corredor, ele de outras modalidades compatíveis com o seu gigantismo.
Entretanto, a melhor lembrança que tenho do Pool foi no acampamento, quando os infantes da quarta série eram os monitores do treinamento. Havia muitos bons infantes na Escola, mas para nos azucrinar no acampamento escalaram os piores. A coisa começava na entrada onde teríamos que atravessar um túnel de lona cheio de fumaça de bombas lacrimogênicas. Tínhamos que prender a respiração e passar correndo. Só não nos disseram era que dentro da cobertura de lona havia infantes com máscaras protetoras, armados de pau para nos dá porrada quando tropeçássemos neles na passagem. Pool fez carreira e, tal qual um hipopótamo, passou derrubando tudo o que tinha na frente, quase leva a barraca com ele. Levou algumas porradas, mas saiu ileso. Eu, como sempre mafioso, obtive a informação de que haveria gente na barraca para nos machucar. Então passei em disparada distribuindo porrada às cegas e consegui atravessar sem ser molestado. Outros não tiveram a mesma sorte. Porém ficamos marcados, eu e Pool.

Mais tarde, depois de atravessarmos um riacho gelado (era junho, inverno, e ali na serra a temperatura estava abaixo de 10 graus) e passarmos por uma ponte de cordas, os infantes nos fizeram pagar pulinhos de galo e flexões até à exaustão. Um infante magrelo e babaca, ao ver aquela corpulência de Pool subindo e descendo na flexão, achando pouco o esforço do colega pôs um pé em cima das costas dele. O gaúcho fez mais três flexões, parou e fulminou o infante com um olhar de dar medo e disse:

“T I R E  O  P É  D E  C I M A  D E  M I M!”

Foi tão incisivo que o cara recuou na hora.
Na hora do rancho foi a minha vez. Rindo de uma música idiota que os IGs faziam alguém cantar, fui censurado: “Tá rindo de quê, aluno? Tá pensando que aqui é pic-nic?”

A música era:
Aluno Tomé/ Aluno Tomé, ig.
E repetia-se até à exaustão. Era ridícula, mas ninguém podia rir. Eu não me aguentei e dei gargalhadas. Como punição o monitor me mandou pagar linguinha, que consistia em botar a língua pra fora e pra dentro ao mesmo tempo em que abria e fechava os olhos alternadamente. Como me recusei a cometer este ridículo, os infantes se reuniram pra me castigar e começaram me mandando pagar 50 pulinhos de galo, dez e mais dez flexões. Quando vi que não iriam parar, disse que não pagaria mais nada, mas desafiava qualquer infante a pagar comigo, dizendo que faria o dobro das flexões que qualquer um fizesse. Aí foi demais! Quiseram partir pra cima de mim, mas me armei de garfo e faca e disse que quem encostasse sofreria as consequências. Foi aí que chegou o sargento Caveirinha e os advertiu: “Quem mexer com meu xerife, vai se ver comigo!”
À noite, todo mundo exausto, os infantes vieram nos ameaçar de novo, eu e Pool, para que fôssemos “conversar” com eles num cantinho escuro fora do acampamento. Não sei se o Pool chegou a ir, mas eu avisei aos infantes: “Vou dormir na minha barraca com a entrada aberta. O fuzil ficará engatilhado apontando pra saída. Se aparecer alguém lá, eu meto bala!”.

Ninguém apareceu. Dormi a noite tranquila e só me acordei quase de manhã para tirar meu turno de guarda.
Feliz aniversário, Pool! Espero nos encontrarmos para avivar outras estórias que às vezes fogem da memória.

MUITAS histórias que cada um de nós, jovens que passamos aqueles dois longos anos na Academia do Pedregulho, temos para contar sobre aquela época nostálgica.
Sobre o Pool, o gigante alemão, que, pelos comentários dos colegas, era (é ainda) um sujeito sistemático, tenho algumas observações a registrar, devendo fazê-lo em postagem específica.
Até lá! 
L.s.N.S.J.C.!
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MALBA Tahan!

O mendigo das moedas de ouro (oitava parte)

Continuação da postagem de 30jun2018

O CALIFA julgando
Giafar, o grão-vizir, declarou então que ia ser julgado o judeu Isaac Ben-Moab. Esperavam todos ansiosamente a sentença terrível do juiz Safian.

— SINTO-ME, ó Emir dos Crentes, obrigado a declarar, antes de tudo, que considero o procedimento do judeu Isaac Ben-Moab como um dos mais torpes e mais criminosos de quantos tenho apreciado. Esse homem recebeu de um pobre mendigo uma moeda de prata e deu-lhe, em troca, dinheiro falso. Praticou, a meu ver, crime gravíssimo contra o Islã, pondo em circulação moeda falsa. Revelou possuir caráter baixo, pagando o bem com o mal, pois sujeitava o velho Hassan a ser preso como falsário. Praticou roubo, dando a entender que comprava a moeda de prata por outra mais valiosa. Nestas condições, o judeu Isaac Ben-Moab deve ser castigado como falsário e como ladrão. Ladrão, deve ter a mão direita cortada; falsário, deve ser enforcado em praça pública, conforme determinam claramente as leis do país.

Ao ouvir tais palavras, o sultão exclamou:

— Essa sentença é sábia e justa. Estou certo de que ela expressa rigorosamente a verdade e não vejo como poderá alguém discrepar de um julgamento que se firma em tão sólidas razões.

Cabia a vez de falar ao erudito Karim. O bom juiz adiantou-se alguns passos e, depois de prostrar-se humilde aos pés do califa, exclamou:

— Peço perdão a vossa majestade, ó Rei do Templo, mas não posso concordar com a sentença do ilustre e íntegro Safian. Penso mesmo que, se Vossa Majestade mandar castigar o judeu Issac Ben-Moab, praticará grande injustiça. Devemos ser justos, principalmente para com os estrangeiros que vivem e trabalham em nosso país.

— Injustiça? — exclamou Al-Raschid. — Como pode haver injustiça em castigar-se um sujeito que é, a um tempo, falsário e ladrão?

— Há injustiça, ó Emir dos Crentes — continuou o sábio Karim com afável serenidade — porque o infeliz Isaac Ben-Moab não é falsário nem ladrão. É, ao contrário, um dos homens mais generosos e honestos que tenho encontrado. E Posso prová-lo, analisando aqui, diante de Vossa Majestade, o procedimento que ele teve para com o mendigo Hassan!

E, depois de pequena pausa, rompendo o profundo silêncio gerado pela ansiedade e pelo espanto que dominava o grande salão, o famoso ulemá começou:

— O judeu Isaac Ben-Moab, ao passar pelo mesquita de Osmã, ficou grandemente surpreso ao se lhe deparar um mendigo, que lhe oferecia valiosa moeda de prata. “É um infeliz demente que tem a singular mania de dar aos desconhecidos as moedas que recebe das pessoas caridosas”, pensou. E, nessa convicção, Isaac Ben-Moab resolveu aceitar a moeda com que Hassan o preseteava, dando-lhe em troca a única moeda que possuía: moeda falsa, sim, mas que lhe servia de talismã e que estava há mais de dois anos em seu poder. Não se tratava, portanto, de um falsário. Um falsário, ó rei, não conservaria dois anos uma moeda falsa em seu poder. Tratava-se de um homem caridoso, que deu a um desafortunado, que tinha como louco, um talismã a seus olhos valiosíssimo pois seria capaz de restituir ao infeliz mendigo o bem do juízo perdido. Se ele não fosse bom e caridoso, não daria coisa alguma ao velho Hassan, visto como este, em troca da moeda de prata, nada exigiu. Restituindo-lhe a razão, com a ajuda do talismã, que ele recebera de um muezim, evitaria que com seus acessos futuros viesse o velho praticar violências contra os transeuntes descuidados, muito embora corresse o doador o risco de ser acusado de ladrão e falsário, além de perder os preciosos favores da excepcional moeda. Isaac Ben-Moab não é, portanto, um criminoso; longe disso — é um homem bom e digno, porque se compadeceu da triste situação de um mendigo (que supunha ser um infeliz e demente), dando-lhe um talismã valioso que possuía. Julgo, portanto (Allah, porém, é mais sábio, mais clemente e mais justo!), que o judeu Isaac Ben-Moab, pelo proceder caridoso que teve, procurando curar um enfermo — com risco de sua liberdade e de sua vida e sacrificando um talismã — merece a recompensa de mil dinares de ouro.

Mal tinha o juiz Karim proferido a sentença, ergueu-se o poderoso califa de Bagdá e exclamou:

— Mach Allah! Extraordinária coisa é esta! Estou agora convencido de que o judeu Isaac não é culpado. Este inteligente e sábio juiz acaba de provar que Iassac Ben-Moab foi generoso e honesto. Deu ao mendigo não uma moeda falsa, mas um talismã de alto valor.

E o grande Al-Raschid ordenou que fosse entregue ao piedoso Isaac Ben-Moab, como recompensa, a quantia de mil dinares-ouro e ficasse dispensado, durante dez anos, de pagar qualquer imposto ao governo muçulmano.

Foi em seguida anunciado pelo grão-vizir Giafar que ia ser julgada a velha Fátima, da tribo dos Anazeh. O sábio magistrado Safian, convidado a proferir sua sentença, formulou-a nestes termos:

— Devo dizer, ó Comendador dos Crentes, que a meu ver essa pobre anciã, que realizou com o mendigo troca tão descabida, não passa de uma insensata e de uma ambiciosa. Dando crédito a um sonho, veio do longínquo oásis em que vive perto de Kerbela, para alcançar tesouro em Bagdá. Só mesmo uma demente poderia praticar semelhante proeza. Essa pobre mulher ignora, com certeza, que não existe força ou poder senão em Allah, o Altíssimo. Se ela tivesse de achar algum tesouro, — se tal coisa estivesse escrita (Maktub!) no livro do destino — o tesouro iria a Kerbela cair-lhe nas mãos. Penso, portanto, que a velha Fátima não passa de uma tola, uma cobiçosa vulgar que tudo sacrificou por causa de um sonho enganador. Assim sendo, acho que ela, se não merece castigo, não fez jus a recompensa alguma.

— Tens razão, ó Safian — exclamou o sultão. — A mim tambémme parece que ssa pobre mulher procedeu como uma insensata, entregando ao velho Hassan, em troca de uma moeda, todo o dinheiro que possuía. Vejamos, porém, se assim pensa também o bom Karin, sempre propenso a reconhecer o mérito e o valor das ações alheias.

Ao ouvir tais palavras, o juiz Karim inclinou-se respeitoso diante do califa:

— Sou forçado a declarar, ó rei afortunado, que não considero a velha Fátima uma insensata. Julgo-a, ao contrário, mulher dotada de elevas qualidades morais. Por que veio ela a Bagdá? Unicamente por causa do sonho que teve. E que é o sonho? O sonho é uma das manifestações de Deus. O sonho é a vida. Logo, essa boa anciã, na certeza de que obedecia aos sábios desígnios do Onipotente, veio de Kerbela até Bagdá em busca de um sonhado tesouro. Ora, mulher que revelou tão grande fé na vontade do Altíssimo é crente sincera do Islã. Ao receber a moeda do mendigo, a velha Fátima deu-lhe uma bolsa cheia de ouro. Agiu com elevada generosidade. Poderia ter dado ao velho Hassan uma ou duas peças de ouro; ao ver, entretanto, a inscrição da moeda, deu-lhe todo o dinheiro que levava. Que procurou ela retribuir? Procurou retribuir o suposto benefício da inscrição. Essa inscrição, que se encontra na moeda, é a seguinte: “O princípio de toda sabedoria é o temor de Deus”. Recompensando o mendigo, a inteligente anciã quis provar que tinha encontrado um tesouro: esse tesouro estava simbolizado naquela verdade sublime de Salomão. Essa mulher proporcionou aos crentes uma profunda lição de moral e de religião. O tesouro que ela pretendia descobrir é muito maior que todos os bens terrenos. Penso, portanto, que a boa Fátima — já pela sua avançada idade merecedora do nosso respeito e atenção — deve receber um prêmio de cem dinares de ouro e vinte camelos.

Mais uma vez Al-Raschid se viu dominado pela opinião do juiz Karim. Por uma ordem dada, foram imediatamente entregues à anciã de Kerbela os presentes de que se fizera credora. Ordenou também o sultão que igual recompensa recebesse o bom e piedoso mestre-escola que havia auxiliado e oferecido assistência à velha Fátima.

Essa decisão do grande califa causou a todos magnífica impressão e fez aumentar a confiança e a felicidade de seus numerosos súditos.

Declarou em seguida o grão-vizir Giafar que ia ser julgado o xeique Omar Chafihi.

Tocando-lhe a vez de falar, assim começou o douto e severo Safian.

Continua

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JOSÉ Augusto Moita!

Copa de 1978 e a Maraponga

 

FORTALEZA é uma cidade que tem umas particularidades quase únicas — como devem ter as demais urbes que infestam este planeta azul e desprezado pelos humanos — Uma delas é quanto à questão de nomes de bairros e ruas. Aqui os bairros desaparecem como que por encanto ou mudam de nome como se milhares de pessoas e moradias tivessem sido abduzidas ao mesmo tempo. De repente você para e percebe que a Vila Sarita, a Itaoca, o Alto da Balança, o Djalma Petit simplesmente não existem mais. As casas, as pessoas parecem até que ainda estão lá, mas os bairros… É como se um Aladim pedisse ao seu Gênio que transformasse tudo na mesma coisa.

Outra delas são os nomes das ruas. Há bairro em que as ruas todas têm nome de flores; gardênias, margaridas, crisântemos, lírios nominam e perfumam a Cidade Dois Mil. Para os lados do Jocquei Clube há umas ruas com nomes e capitais e outras com nomes de estados; aí gorjeiam a Rua Curitiba, Porto Alegre, Florianópolis não muito distantes da Rua Mato Grosso, Pará, Amazonas… e vai a população se entendendo e se orientando suburbanamente.

 

Já prás bandas da Maraponga existem umas ruas ( se é que ainda não foram também abduzidas pelo mercado imobiliário) que carregam o nome de países europeus ( e antes que os nacionalistas achem ruim, pior é um bairro todo homenageando um presidente ianque que nunca aqui esteve, apenas nos matou a fome com leite em pó e sopa desidratada), lá encontraremos a rua Holanda, Suíça, Dinamarca, dos bálticos aos anglo-saxões.

Por aqui corria o ano da graça de 1978 e na Argentina a Copa do Mundo de Futebol, com Maradona e tu edo. Esse escriba que lhes toma o tempo trabalhava no setor de cadastro imobiliário da Secretaria de Finanças do Município e estava perdido naquele quase desértico bairro à época, à procura de uma alma caridosa e conhecedora das ruas do lugar para lhe dar uma luz, lhe tirasse da escuridão das ruas sem placas indicativas de seus próprios nomes. Os poucos e raríssimos transeuntes nada sabiam, pareciam até vindos de um abduzimento recente…olhe, num sei, mas eu acho…era a resposta que todos forneciam. Até que caiu do céu um passante que portava um ar mais erudito.

— Cidadão, por favor, o senhor sabe me dizer onde fica a Rua Holanda? — Disse eu o mais educadamente possível.

Ele coçou a cabeça, num gesto que me deixou num misto de esperançoso e descrente de uma resposta favorável à minha orientação espacial.

— ela fica próxima à Rua Áustria, à Rua Bulgária… — Tentei lhe fornecer mais dados para alimentar seu sistema sensorial central, posto já estar me sentindo culpado pela queima de seus neurônios com um problema que não era dele.

Ele permanace calado, olhando para o chão e ainda pensativamente coçando a cabeça, quando subtamente a levanta trazendo aquela cara de Eureka.

— Ah! Rapaz, essas ruas que você tá procurando são ali prá baixo, depois desse terreno. As ruas lá são tudo com nome de time.

Pobre povo!

Coisas de um país em que a educação não é prioridade. Povo brasileiro só é patriota quando a seleção de futebol joga; o jogador de futebol, o artista de novela, esses são valorizados (e quanto!), são heróis, enquanto o professor e o operário, não.

Não considero culpado o cidadão da crônica de J. A. Moita, que pensava serem Áustria, Bulgária, Holanda times de futebol. A televisão está aí exatamente para fazer os brasileiros pensarem e agirem como ele.