JOSÉ Augusto Moita!

O início de tudo

NO DIA 13 de julho do ano da Graça de 1975 , pelas nove horas da manhã, decolavam duas aeronaves da Base Aérea de Fortaleza com destino à Escola de Especialistas da Aeronáutica, em Guaratinguetá – SP. Nos bojos de um C130 Hércules e de um C115 Buffalo seguiam em busca de um sonho quase uma centena de jovens cearenses.

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Arquivo pessoal de J. A. Moita

Além do sonho, havia mais algo em comum àquele grupo de adolescentes, oriundos de famílias pobres, muitos deles passando a partir dali a arrimos de suas famílias. Pois vivíamos um Governo Militar e um emprego nas Forças Armadas fornecia uma boa remuneração, o que levava alguns a tentar a vida na caserna mesmo sem nenhuma aptidão para a carreira militar.

Fiz parte da equipe que embarcou no Buffalo, que, por sinal saiu mais do que lotado, tanto que os mais magrinhos —o meu caso, pois pesava quarenta e cinco quilos— tiveram que dividir o “confortável ” assento com um futuro colega. Já o Hércules decolou com assentos ociosos, pois que completaria sua capacidade máxima em Recife, com os candidatos pernambucanos.

Naquela época viajar de avião não era coisa que fizesse parte da vida dos pobres, tanto que o capitão-aviador que nos conduziu, em uma preleção antes do voo, ao perguntar quantos de nós já havia voado, não obteve nenhuma mão levantada em sinal afirmativo. Ele ainda nos fez uma pontinha de medo quando brincando, vislumbrou a possibilidade daquele estanha máquina, de formato completamente horripilante para um aeronauta de primeira viagem, não conseguir alçar voo.

Creio que todos vocês (referindo-se a militares da FAB) chegaram a voar no Buffalo, uma aeronave que bons serviços prestou ao Brasil através da Força Aérea, e devem saber que, devido não haver pressurização, o barulho e o frio foram nossos companheiros incômodos durante todo o trajeto. Agora, imaginem a quantidade de aratacas vomitando dentro daquela belonave! Mas, no cômputo geral, tive sorte, pois suportei o frio e não enjoei. A única inconveniência foi na hora de urinar, pois quando vi o bocal na ponta de uma mangueira por onde todos haveriam de se aliviar de suas necessidades líquidas, não me aventurei a utilizar tal recurso, preferi me aguentar até fazer escala em Salvador, além de dali até chegar em nosso destino não beber mais nada.

Chegamos na pista de Guará já no avançado da tarde e os que tiveram a sorte de ter levado algum agasalho conseguiram suportar bem, até que um ônibus nos viesse pegar para levar à Escola — mais tarde viemos saber que aquele outro horripilante meio de transporte era o famoso Papa-fila.

Não lembro a primeira vez que transpus o Portão da Guarda, como também não lembro as muitas vezes que por ali adentrei vindo da Japonesa completamente embriagado. Por falar em Japonesa, até hoje não descobri o mistério atrativo que exercia aquele estabelecimento nos que se entregavam aos porres, já que, após a quarentena, foi o primeiro local que conheci fora da Escola sem que ninguém me houvesse ensinado. Parece que uma mão maligna nos conduzia sonambulamente. Com o decorrer do tempo, mais aclimatados, o caminho da Porteira Preta nos surgia à frente. Aí, a perdição estava completa, que nem o capitão-capelão Sebastião daria mais jeito.

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Capitão Sebastião, o capelão da Escola (reprodução de O Especialista em Revista, ed. 12, julho de 1979)

Chegamos no pátio principal já à boquinha da noite, como se diz aqui no Ceará, e fomos colocados nos alojamentos aleatoriamente, já que a definição da esquadrilha a qual cada um faria parte só ocorreria depois do dia quinze, prazo máximo permitido para apresentação de todos os aprovados. E ali ficamos feitos pintinhos sem mãe, trêmulos de frio e de medo, agregados em um único grupo, desfalcado apenas de alguns mais audazes que se aventuraram em procura da cantina. Mas não ficamos sozinhos por muito tempo, mais que depressa apareceram alguns alunos que não tinham camburado de primeira a nos vender cadeados e outros penduricalhos necessários à nossa adaptação física. A espiritual levaria mais tempo, como nos veio mostrar o dolente toque de silêncio às dez da noite.

Não costumo mentir, confesso que chorei baixinho. E tenho certeza que aquela corneta, para os que a ouviram pela primeira vez, marcou indelevelmente a memória e o coração. Aquela triste melodia, que também é executada durante os funerais, exprimia todo medo do desconhecido a que nos submetíamos como também a profunda saudade do lar, deixado pra trás recentemente. Aquele instrumento encerrava de vez a infância de um menino pobre que deixou sua casa em busca de dias melhores não só pra ele, mas para todos os seus familiares. Mas esse menino não estava sozinho.

Nunca esteve.

EIS um documento humano.

José Augusto Moita, ex-aluno da Escola de Especialistas de Aeronáutica, conta nesta crônica um pouco do que ele e seus colegas, todos jovens oriundos das classes populares, sentiram quando, a bordo de uma aeronave da Força Aérea, chegaram a Guaratinguetá. Suas emoções particulares e seus costumes uma vez ambientado revelam em J. A . Moita uma espécie de anti-herói,com quem muitos de todos nós (este escriba inclusive) nos identificamos.

Em resumo é o que dizemos sobre o conteúdo.

Sobre a forma, trata-se de uma peça do gênero  narrativo em primeira pessoa. A certa altura da narração, Moita dá um salto no tempo e passa a falar sobre sua rotina além-muros, também comum a tantos — como eu — alunos da Escola de então. Depois retorna ao fio narrativo original.

Faz parte dos recursos de um bom cronista a divagação e a passagem de tempo, com o cuidado de retomar mais tarde o raciocínio inicial. Ao final da peça, lança recurso da expressão “Nunca esteve (só)”, uma espécie de aforismo filosófico, pois de fato nem ele, tampouco nenhum de nós, jamais esteve sozinho naquele mundo, para nós tão estranho, mas que, a despeito disso, representava ao jovem pobre uma oportunidade num país tão desigual. 

Enfim, são recursos literários próprios dos grandes cronistas.

L.s.N.S.J.C.! 

REMINISCÊNCIAS de um velho escriba!

Essa sociedade hipócrita e vil!

…Continuação da postagem de 23ago2018

ERA o bilheteiro que, por meio da vidraça do guichê, antes me observava. “Esse cara vai perder a droga desse ônibus…”.

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Era uma vez

Nossa turma!

Notando que peguei no sono, o funcionário, preocupado, se deu o trabalho de sair do seu posto de trabalho para me alertar sobre o horário. Não posso esquecer jamais esse herói anônimo, um bom samaritano, que, vendo um irmão em dificuldade, não hesita em socorrê-lo. Já havia feito a sua obrigação que era me vender o bilhete de passagem. Muito obrigado, meu bom homem. Jamais me esqueci de ti, meu irmão. Deus te abençoe sempre, onde quer que estejas, irmão.

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Ônibus da Viação Sampaio (reprodução de O Especialista em Revista, ed. 12, julho de 1979)

À semelhança de um louco, sob os olhares espantados de todos que estavam próximos à minha trajetória, corri até a plataforma e, esbaforido, embarquei naquele Viação Sampaio que me conduziria até Guaratinguetá, Estado de São Paulo. Encontrava-me prestes a entrar num processo de molde para, dentro de dois longos anos, adquirir os requisitos exigidos para tornar-me uma minúscula peça de uma máquina gigantesca e poderosa que convencionou-se chamar de Estado. Continue lendo

REMINISCÊNCIAS de um velho escriba!

Teu ônibus sai em cinco minutos

… Continuação da postagem de 21ago2018

NUMA tarde calorosa, volto para casa remoendo o gosto amargo da derrota. Pela primeira vez tive consciência do que significa perder alguma coisa. Não que vislumbrasse a real importância do concurso, mas — verdade seja dita — já havia me acostumado com a ideia de ingressar na tal escola. Além do mais, jamais havia sido reprovado em nada, malgrado a fragilidade do ensino público e reconhecer minhas limitações intelectuais.  A aprovação inesperada na primeira fase dos exames me dera a vã esperança de que conseguiria também êxito nos eventos seguintes, que seriam o exame psicotécnico e a entrevista com o oficial.

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De outra parte, em nenhum um momento, porém, pensei no gostinho que essa derrota — que mais tarde se confirmaria provisória — causaria em meus colegas de estudos e de brincadeiras de rua. A inocência da vida, até poucos tempo antes, não havia me permitido enxergar da parte de Alcemir e Raimundo qualquer sentimento de hostilidade ante à perspectiva de que eu, e não eles, saísse vencedor do concurso. Mas ao final, até então, saíra conforme eles no íntimo desejavam. Se eu não venci, ele também não, era o que pensava cada um desses “amigos”.

A mesma inocência que mais adiante me atrasaria a vida, é a mesma que em certas ocasiões me livraria de alguns perigos. Paradoxo.

Paralelamente, havia, em relação a meus pais, a curiosidade dos vizinhos, pois, sem que eu tivesse consciência, o meu feito — a aprovação nos exames intelectuais — virara notícia na vizinhança. Nada notava de diferente quando, do nada, as pessoas me abordavam. Numa época em que era considerado bem de vida um chefe de família que trabalhasse de carteira assinada, o Garoto, com seus dezesseis anos, não tinha nenhuma ideia de que, diante daquela comunidade pobre e sem perspectivas maiores, ele passara, de uma hora pra outra, a ser visto como alguém prestes a galgar uma posição acima — bem acima, comparativamente — na escala social: um emprego público com garantia de um salário certo todo mês, com bônus de ostentar farda, traje que naquela época era razão de respeito e admiração por parte da população mais simples.

Das pessoas conhecidas da nossa família algumas pessoas torciam sinceramente a meu favor, enquanto outros se torciam de inveja, ainda que de maneira disfarçada. Meu pai, chamando-me a um canto, disse em voz baixa: “Antonio, não fiques chateado com isso. Estuda e enfrenta o próximo concurso. O segredo é a alma do negócio.” Somente essa última parte do conselho paterno foi me dar alguma noção — mínima, até —  dos sentimentos  nada nobres que de fato parte da vizinhança nutria em relação a um garoto que quase nada sabia da vida. Era a primeira vez que tinha conhecimento real da existência de sentimentos ruins como a inveja.

Nem todos.

Raimundo e Alcemir. Raimundo, que mais tarde ingressaria no Corpo de Bombeiros do Pará, era um cara dissimulado, daqueles que escondia suas derrotas e propagandeava vitória, por mínima que esta fosse; mentiroso também. Alcemir, por sua vez, era (ou é ainda) um sujeito presunçoso, gabola, vaidoso, o mais forte, o mais bonito e o mais inteligente. Ao menos se considerava.

Ainda hoje me recordo da fala do Alcemir: “Vai estudar, Gandola, que estás precisando!”. Meu apelido entre eles era Gandola por causa de um personagem do Jô Soares no humorístico televisivo Planeta dos Homens. Nesse quadro o homem chega para pedir emprego, mas com uma ressalva, pois “Quem me mandou aqui foi o Gandóoolaa!”. Não tínhamos a mínima ciência de que o humorista fazia a alusão a uma peça de uniforme militar. Numa associação de ideias, Gandola era um poderoso militar de alta patente do Exército, provavelmente um general. É claro que imediatamente o candidato ao emprego era admitido, tal era a influência, ou o medo que tinham do tal Gandola. Pois é. Eu gostava de falar Gandóoolaa!. De tanto repetir o bordão, passaram-me a chamar de Gandola. Por ironia, em pouco tempo iniciaria a vida militar fazendo uso rotineiro dessa peça de fardamento. E olha que eu nem sabia que a tal escola me formaria militar. Aliás, não só eu que não sabia, creio que 99 por cento dos brasileiros nem desconfiavam que Jô Soares tirava sarro dos militares por meio desse e de outros personagens televisivos.

O teatro da vida, no entanto, impõe seu próprio roteiro.

Rapidamente esqueci o trauma da reprovação e o sorriso de alívio da turma. Como era julho, mês de férias escolares, cumprindo minha obrigação filial de todos os anos, acompanhei meu pai ao interior do Estado para ajudá-lo nas tarefas da roça de mandioca, serviço que fazia todo julho e também nas férias de final e início de ano. Geralmente meu pai contava comigo e com meu irmão Walter como mais dois braços nas tarefas de colono pobre, mas desta vez, por alguma razão que não me recordo, meu irmão permaneceu na cidade em companhia de minha mãe e de meus outros irmãos.

Corria a última dezena do mês, quando certa noite fomos surpreendidos por alguém que batia à porta da humílima cabana que habitávamos. Uma sombra de apreensão percorreu ligeiramente o espírito de meu pai. Quem seria àquela hora da madrugada?  Aberta a porta e foi surpresa ainda maior ao depararmos com o Francisco, um vizinho nosso, irmão do Raimundo.

No dia anterior um rapaz trajando canícula azul claro, cinto de lona largo, calça azul escuro e borzeguim preto batia no número 352 da passagem Dionísio Bentes. Cumprindo ordens, o soldado deixava em casa a cópia de um documento que me convocava para a Escola com urgência.

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REMINISCÊNCIAS de um velho escriba!

…Continuação da postagem de 19ago2018

INICIAVA bem cedo para mim aquela longa e agitada jornada. Às cinco e meia da matina, em companhia de minha mãe e meu tio Antônio Rodrigues, encontrava-me na estação de passageiros do aeroporto, que naquele tempo era destacada da estação de voos comerciais. O avião da FAB, um Bandeirante administrativo estava lá no pátio estacionado, onde havia pernoitado. O mecânico de voo já o inspecionava, checando tudo o que era necessário para dar a aeronave como pronta para longa viagem a que se destinava, conforme ordem de missão, em procedimentos que mais tarde eu conheceria como pré-voo. O Bandera cruzaria o Brasil de norte a sul, sobrevoando seis Estados brasileiros, destino Rio de Janeiro, em minha primeira viagem aérea. Faria escala técnica em dois aeródromos: Carolina e Brasília.

O Garoto, tímido, ingênuo e simplório, estava por entrar num mundo estranho, diverso, distinto do que havia experimentado até então. Estaria preparado? Não. Dona Maria, porém, ficaria rezando pelo êxito do primogênito nas mais desafiantes questões e problemas que enfrentaria naqueles dois anos vindouros e também nos subsequentes.

Principiava o primeiro grande acontecimento da minha vida. Além de nascer e sobreviver, posso dizer, que ingressar na Aeronáutica em 1977, aos dezesseis anos, foi um fato extremamente marcante, um divisor de águas, uma grande experiência que durou trinta anos e cujos frutos colho até hoje. Todos os fatos seguintes, direta ou indiretamente, viriam em decorrência dessa vivência significativa na história do Garoto ingênuo, simples e pouco preparado intelectualmente, inocente de quase tudo, desprovido de qualquer maldade.

É de se supor, ao lerem estas linhas, que nutro uma relação dúbia, por vezes romântica e carinhosa, outras conflituosa e amarga com a instituição que me abriu as portas do mercado de trabalho, não me deixando desempregado um dia sequer. Realmente foi, como antecipei, uma relação tempestuosa, revezando altos e baixos, fases empolgantes e vitoriosas mescladas com períodos de dissabores e indiferenças. Os espinhos e pedras que me esperavam, que, aos trancos e barrancos, fui superando.

Foi assim em toda a minha vida. Os acontecimentos foram me arrastando, de forma que o Garoto nada calculava ou planejava sobre o futuro, nem próximo nem distante. Até então nada me ocorrera um momento sequer sobre a vida futura, o trabalho, família, nada disso.

Ia ao sabor do vento e da vida.

Um dia minha mãe, a dona Maria, caminhava pelo centro de Belém quando recebeu da mão de alguém um panfleto. A propaganda dizia assim: Continue lendo

REMINISCÊNCIAS de um velho escriba!

CHARLES Spencer Chaplin, o inigualável, em sua autobiografia, compreensivelmente omite fatos nada lisonjeiros sobre sua mãe, Hannah Chaplin, que concluiria seus dias sofrendo de graves problemas psiquiátricos. Charlie pouco também falou, em consideração aos filhos Charles Chaplin Jr. e Sidney Chaplin, sobre sobre Lita Grey, sua segunda esposa, com quem viveu uma relação tempestuosa que culminou em divórcio escandaloso.  Foi por amor que Chaplin convenientemente “esqueceu” as verdadeiras e dolorosas razões pelas quais sua mãe findou seus dias mentalmente alienada, preferindo mencionar o estresse e a subnutrição.

Pudera! Cruel seria exigir de um filho ou de um pai atitude contrária.

É por amor igualmente que “esqueço” alguns fatos a mim por demais dolorosos. Além do — por que não dizer — a conveniência. Creiam: muitas lágrimas borraram as páginas do livro da minha vida. As mágoas que causei e as que sofri, reservo para a prestação de contas final com o Eterno.

Sentindo o passar dos anos, é natural o homem sentir-se tentado a, de alguma forma, registrar a história sua passagem por este mundo, a menos que nada tenha feito de correto. No entanto, exceção feita a Brás Cubas, um defunto-autor, o show da nossa existência é permeado de lacunas, enquanto costumamos enaltecer as virtudes e sorrisos, pouco relevamos sobre derrotas e prantos, eventuais ou frequentes que sejam. É compreensível essa forma de agir, porquanto a vida é como um grande livro contendo algumas (ou muitas) páginas sujas, que nós, discretamente,  destacamos, pondo-a à parte, numa gaveta onde somente os mais íntimos acessam.

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A vida é um grande livro em três versões: a nossa, a de outrem e a verdade. Mas esta última só o Grande Escriba a conhece em plenitude. A cada um de nós somente são reveladas pouquíssimas parcelas à semelhança de frestas que permitem a passagem de alguns raios de luz.

Compreendam, pois, que escrever sobre si mesmo nunca foi tarefa fácil. Mais ainda se considerarmos a memória seletiva que insiste em obliterar os episódios mais doloridos da vida, preferindo as páginas doces e ternas. Abrir esse livro exporia ao público, por mais fiel que possa o escritor ser aos fatos, versões parciais, à Dom Casmurro, por vezes tortas e certamente inacabadas, como uma fotografia desbotada pelo senhor tempo e corrompida pelas emoções.

Pois bem. Principio a narrativa a partir de um marcante acontecimento.

Foi assim:  

Continua

SOBRE nomes e homônimos!

DESDE que ingressei na Força Aérea em 1977 convivo com  inúmeros e variados  antropônimos, que no ambiente militar são denominados nomes-de-guerra. Fico a imaginar alguma dificuldade dos responsáveis por definir os nomes-de-guerra dos meninos da minha turma, aproximadamente meio milhar de guerreiros.

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O nome a ser escolhido é sempre o menos comum, de forma que não haja na mesma turma dois iguais. Para mim, foi fácil. De Antonio Valentim Moreira, o do meio, Valentim, certamente era o mais raro. Os de nome de origem estrangeira também se destacavam. Muitos passavam a ter o nome duplo — Paulo Antônio — ou com uma letra antes seguida de ponto: F. Silva, P. Antonio. Havia os irmãos Dauma, então um deles, o segundo por antiguidade, passou a se chamar C. Dauma. Os Silva sempre tinham acompanhamento: Da Silva, J. Silva, Silva Santos, Santos Silva, Souza Silva…

Nem sempre o nome combina com as características físicas de seu proprietário. Já vi Negrão ser branco e Moreno não ser mestiço; também conheci o Longo, que era baixinho e Baixo, que tinha perto de um metro e oitenta; Formoso, que não era bonito; e Valente sem tanta coragem. Esquisito mesmo era o Marechal, um simples soldado.

Quando cheguei a Anápolis, cansado do Valentim, tentei o Moreira, que, para mim, soava mais respeitável. Mas havia um outro Moreira, o do DPV, Divino Martins Moreira. Por isso, cumprindo determinação do tenente Wanderlan, voltei a me chamar Valentim, como nos dois anos de Escola, e foi com esse nome que fiquei conhecido durante os próximos vinte e oito anos e até hoje.

Ocorre que um ano depois me chega um xará. Era o Erivaldo Valentim, cujo nome-de-guerra era também Valentim.

Esse meu xará, ao que se sabe e se falava, protagonizou alguns lances, ficando assim bastante conhecido na Unidade, causando alguns comentários desairosos, pois havia se envolvido com a sobrinha de um suboficial, embora fosse casado. Num jogo de futebol de salão alguém diz: “Passa pelo meio dos dois!”. Outro responde com um sorriso sarcástico: “Isso não é possível, só o Valentim consegue”.

Foi por essa razão que um belo dia fui chamado à Seção de Informações. Ao chegar lá acompanhando o cabo Matos, o chefe lhe diz que se enganou: não era eu e sim o outro. Respiro aliviado pois no caminho a mente ia tentando em vão descobrir qual erro havia cometido, ou por qual erro estava indo a justificar.

Havia na Unidade também o famoso major Aldair, especialista em Comunicações, comandante do Esquadrão de Eletrônica, o temido Camisa Dez. Ele também tinha um xará, o sargento Aldair, conhecido por Cachorro.

Uma mulher de reputação duvidosa telefona para a Base procurando pelo Aldair. O telefonista naturalmente transfere a ligação para o Esquadrão de Eletrônica, sala do major Aldair.

— Alô, Aldair! Tu vai ou não vai me pagar, seu cachorro? — vai de saída esbravejando a mulher.

— Ah… como? Não estou entendendo. Deve ser um engano, minha senhora. Eu sou o major Aldair… — tenta esclarecer o major.

— Mas ontem tu era sargento, ó safado! E agora tu é major?

Com muito custo o orgulhoso Camisa convence a mundana de que há mais de um Aldair na unidade e que esse sim deveria estar ouvindo os xingamentos da madame. Depois do episódio manda chamar o xará sargento e determina que ele mude seu nome-de-guerra.

Duas décadas depois em Belém eis que me deparo novamente com outro Valentim. A diferença que este, bem mais jovem, e também fisicamente bem alto e forte. Era inevitável que outros equívocos também ocorressem. E assim foi em relação ao alfaiate, ao mecânico e também a mulheres.

MONTIEZ Rodrigues!

Amigo é coisa pra se afastar do lado esquerdo do bolso

MONTIEZ Rodrigues 1

TENHO vários amigos deficientes físicos e, na própria família, tenho irmão e sobrinha, e até mesmo um tio deficiente mental. Conviver com pessoas deficientes é um contínuo aprendizado. Ensina-nos a ser mais humildes, a ter mais respeito pelo nosso corpo e até mesmo a agradecer a algum ser superior o fato de não sermos nós o titular de alguma deficiência.

Convivi nas universidades, nos ambientes de trabalho, nos clubes que frequentei, com pessoas com diversos tipos de deficiência. Teve até um que transformou sua deficiência em eficiência.

Franklin, um ex-colega do curso de engenharia elétrica, num acidente com energia elétrica, teve uma de suas orelhas decepadas e o aparelho auditivo de seu ouvido esquerdo comprometido com as sequelas do choque, tendo sua orelha de ser cauterizada, diminuindo, portanto, sua capacidade de ouvir. Já depois de formados, quando fizemos juntos o concorridíssimo concurso para auditor fiscal da Receita Federal, eu tirei uma nota muito superior a dele, mas, como ele se inscreveu como deficiente, passou e eu sobrei. Hoje deve gozar de uma aposentadoria muito superior a minha, que só dá pra tomar Heineken. Eu deveria ter arrancado uma de minhas orelhas antes da prova. Levei tantos puxões de orelha na infância, mas nunca conseguiram arrancar uma, coisa que alterou em muito meu destino.


No entanto, há aqueles que gozam de perfeita saúde, mas se fingem de cegos para não ver, de surdos para não ouvir e de mudos para não expressar qualquer opinião. Há também os que ampliam suas deficiências para obterem privilégios à custa de outrem. Na semana passada, encontrei-me com um colega surdo-mudo, casado também com uma senhora surda-muda, que estava junto com ele. Gesticulando, chamei-os para se sentarem à minha mesa, no Bar do Carlos, na praça da Missão, para tomarmos umas cervejas e comermos alguma coisa. Era a primeira vez que me sentava num bar sem bater papo. Era gesto pra lá, gesto pra cá e eu, no meu arremedo de libras, tentando me fazer entender. Mas até ali, tudo bem, deu pra se comunicar. Foram várias Heinekens, um bode assado, picanha na chapa e outras iguarias numa conta que deu duzentos e trinta reais. Quando a conta chegou mostrei pra ele, que fez que não viu. Usei todos os gestos que simbolizassem dinheiro, grana, din-din, gaita, bufunfa e nada! Esgotando minha capacidade libriática, paguei a conta, nos despedimos e saí pensando que acabara de acrescentar mais uma deficiência, desta vez visual, a quem, àquela altura, já não era mais meu amigo. 
(via Facebook, acesso em 02ago2018)

Lembra aquele velho adágio sobre o “o pior cego é aquele que não quer ver.”. Mais uma divertida crônica do alencarino Montiez Rodrigues, ele que já nos diverte diariamente no Facebook com as suas tiradas inteligentes e muito bem-humoradas. 
Pode ser, meu amigo Montiez, que eles tenham considerado uma outra, talvez mais popular lá no meu Pará: aquela que “quem convida, paga”.
Mas esse fato lembra um ex-colega de Força Aérea, cuja vida era dedicar-se a planejar e executar caneladas, tombos, golpes, mutretas e outras vigarices.
Aproximava-se, fingindo-se amigo, e, passado algum tempo, pedia ao incauto dinheiro, cheque ou mesmo que servisse de avalista. Claro que não tinha intenção de honrar o compromisso, deixando o colega com toda a dívida. Um deles, o Braga, teve muitos incômodos por isso, chegando a receber, não só uma vez, cobradores e oficiais de justiça à sua porta com a intenção de levarem bens de valor, a fim de ressarcir as dívidas que este assumiu ao avalizar o pseudo amigo. Cabra safado! Da última vez que tive notícias, o dito já havia acumulado onze processos. Onze!
Há outras caneladas, tombos, golpes, mutretas e vigarices, que deixarei a uma crônica específica. 
L.s.N.S.J.C.!