REMINISCÊNCIAS de um velho escriba!

CHARLES Spencer Chaplin, o inigualável, em sua autobiografia, compreensivelmente omite fatos nada lisonjeiros sobre sua mãe, Hannah Chaplin, que concluiria seus dias sofrendo de graves problemas psiquiátricos. Charlie pouco também falou, em consideração aos filhos Charles Chaplin Jr. e Sidney Chaplin, sobre sobre Lita Grey, sua segunda esposa, com quem viveu uma relação tempestuosa que culminou em divórcio escandaloso.  Foi por amor que Chaplin convenientemente “esqueceu” as verdadeiras e dolorosas razões pelas quais sua mãe findou seus dias mentalmente alienada, preferindo mencionar o estresse e a subnutrição.

Pudera! Cruel seria exigir de um filho ou de um pai atitude contrária.

É por amor igualmente que “esqueço” alguns fatos a mim por demais dolorosos. Além do — por que não dizer — a conveniência. Creiam: muitas lágrimas borraram as páginas do livro da minha vida. As mágoas que causei e as que sofri, reservo para a prestação de contas final com o Eterno.

Sentindo o passar dos anos, é natural o homem sentir-se tentado a, de alguma forma, registrar a história sua passagem por este mundo, a menos que nada tenha feito de correto. No entanto, exceção feita a Brás Cubas, um defunto-autor, o show da nossa existência é permeado de lacunas, enquanto costumamos enaltecer as virtudes e sorrisos, pouco relevamos sobre derrotas e prantos, eventuais ou frequentes que sejam. É compreensível essa forma de agir, porquanto a vida é como um grande livro contendo algumas (ou muitas) páginas sujas, que nós, discretamente,  destacamos, pondo-a à parte, numa gaveta onde somente os mais íntimos acessam.

Eu e minha mãe 001

A vida é um grande livro em três versões: a nossa, a de outrem e a verdade. Mas esta última só o Grande Escriba a conhece em plenitude. A cada um de nós somente são reveladas pouquíssimas parcelas à semelhança de frestas que permitem a passagem de alguns raios de luz.

Compreendam, pois, que escrever sobre si mesmo nunca foi tarefa fácil. Mais ainda se considerarmos a memória seletiva que insiste em obliterar os episódios mais doloridos da vida, preferindo as páginas doces e ternas. Abrir esse livro exporia ao público, por mais fiel que possa o escritor ser aos fatos, versões parciais, à Dom Casmurro, por vezes tortas e certamente inacabadas, como uma fotografia desbotada pelo senhor tempo e corrompida pelas emoções.

Pois bem. Principio a narrativa a partir de um marcante acontecimento.

Foi assim:  

Continua

2 comentários sobre “REMINISCÊNCIAS de um velho escriba!

  1. Espero não perder o próximo capitulo dessa biografia auto-autorizada, mas, diante mão, já posso afirmar que a primeira parte desse texto, aqui está acima do delicado fotograma, é algo sublime, coisa de grandes escritores. Não por quanto tempo a emoção me turvará os olhos. Beijos.

  2. Pretendo escrever um pouco a cada domingo, caro amigo Moita.
    O meu ingresso na EEAer foi um caso atípico. Cheguei lá quando a turma já estava treinada e tudo em andamento. Fui tentando me adaptar aos poucos, aos trancos e barrancos, como relato. Como disse você, eram poucas as oportunidades que surgiam para nós, jovens de família pobre, naqueles tempos cuja situação política a imensa maioria de nós ignorava.

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