REMINISCÊNCIAS de um velho escriba!

Teu ônibus sai em cinco minutos

… Continuação da postagem de 21ago2018

NUMA tarde calorosa, volto para casa remoendo o gosto amargo da derrota. Pela primeira vez tive consciência do que significa perder alguma coisa. Não que vislumbrasse a real importância do concurso, mas — verdade seja dita — já havia me acostumado com a ideia de ingressar na tal escola. Além do mais, jamais havia sido reprovado em nada, malgrado a fragilidade do ensino público e reconhecer minhas limitações intelectuais.  A aprovação inesperada na primeira fase dos exames me dera a vã esperança de que conseguiria também êxito nos eventos seguintes, que seriam o exame psicotécnico e a entrevista com o oficial.

111-Guará

De outra parte, em nenhum um momento, porém, pensei no gostinho que essa derrota — que mais tarde se confirmaria provisória — causaria em meus colegas de estudos e de brincadeiras de rua. A inocência da vida, até poucos tempo antes, não havia me permitido enxergar da parte de Alcemir e Raimundo qualquer sentimento de hostilidade ante à perspectiva de que eu, e não eles, saísse vencedor do concurso. Mas ao final, até então, saíra conforme eles no íntimo desejavam. Se eu não venci, ele também não, era o que pensava cada um desses “amigos”.

A mesma inocência que mais adiante me atrasaria a vida, é a mesma que em certas ocasiões me livraria de alguns perigos. Paradoxo.

Paralelamente, havia, em relação a meus pais, a curiosidade dos vizinhos, pois, sem que eu tivesse consciência, o meu feito — a aprovação nos exames intelectuais — virara notícia na vizinhança. Nada notava de diferente quando, do nada, as pessoas me abordavam. Numa época em que era considerado bem de vida um chefe de família que trabalhasse de carteira assinada, o Garoto, com seus dezesseis anos, não tinha nenhuma ideia de que, diante daquela comunidade pobre e sem perspectivas maiores, ele passara, de uma hora pra outra, a ser visto como alguém prestes a galgar uma posição acima — bem acima, comparativamente — na escala social: um emprego público com garantia de um salário certo todo mês, com bônus de ostentar farda, traje que naquela época era razão de respeito e admiração por parte da população mais simples.

Das pessoas conhecidas da nossa família algumas pessoas torciam sinceramente a meu favor, enquanto outros se torciam de inveja, ainda que de maneira disfarçada. Meu pai, chamando-me a um canto, disse em voz baixa: “Antonio, não fiques chateado com isso. Estuda e enfrenta o próximo concurso. O segredo é a alma do negócio.” Somente essa última parte do conselho paterno foi me dar alguma noção — mínima, até —  dos sentimentos  nada nobres que de fato parte da vizinhança nutria em relação a um garoto que quase nada sabia da vida. Era a primeira vez que tinha conhecimento real da existência de sentimentos ruins como a inveja.

Nem todos.

Raimundo e Alcemir. Raimundo, que mais tarde ingressaria no Corpo de Bombeiros do Pará, era um cara dissimulado, daqueles que escondia suas derrotas e propagandeava vitória, por mínima que esta fosse; mentiroso também. Alcemir, por sua vez, era (ou é ainda) um sujeito presunçoso, gabola, vaidoso, o mais forte, o mais bonito e o mais inteligente. Ao menos se considerava.

Ainda hoje me recordo da fala do Alcemir: “Vai estudar, Gandola, que estás precisando!”. Meu apelido entre eles era Gandola por causa de um personagem do Jô Soares no humorístico televisivo Planeta dos Homens. Nesse quadro o homem chega para pedir emprego, mas com uma ressalva, pois “Quem me mandou aqui foi o Gandóoolaa!”. Não tínhamos a mínima ciência de que o humorista fazia a alusão a uma peça de uniforme militar. Numa associação de ideias, Gandola era um poderoso militar de alta patente do Exército, provavelmente um general. É claro que imediatamente o candidato ao emprego era admitido, tal era a influência, ou o medo que tinham do tal Gandola. Pois é. Eu gostava de falar Gandóoolaa!. De tanto repetir o bordão, passaram-me a chamar de Gandola. Por ironia, em pouco tempo iniciaria a vida militar fazendo uso rotineiro dessa peça de fardamento. E olha que eu nem sabia que a tal escola me formaria militar. Aliás, não só eu que não sabia, creio que 99 por cento dos brasileiros nem desconfiavam que Jô Soares tirava sarro dos militares por meio desse e de outros personagens televisivos.

O teatro da vida, no entanto, impõe seu próprio roteiro.

Rapidamente esqueci o trauma da reprovação e o sorriso de alívio da turma. Como era julho, mês de férias escolares, cumprindo minha obrigação filial de todos os anos, acompanhei meu pai ao interior do Estado para ajudá-lo nas tarefas da roça de mandioca, serviço que fazia todo julho e também nas férias de final e início de ano. Geralmente meu pai contava comigo e com meu irmão Walter como mais dois braços nas tarefas de colono pobre, mas desta vez, por alguma razão que não me recordo, meu irmão permaneceu na cidade em companhia de minha mãe e de meus outros irmãos.

Corria a última dezena do mês, quando certa noite fomos surpreendidos por alguém que batia à porta da humílima cabana que habitávamos. Uma sombra de apreensão percorreu ligeiramente o espírito de meu pai. Quem seria àquela hora da madrugada?  Aberta a porta e foi surpresa ainda maior ao depararmos com o Francisco, um vizinho nosso, irmão do Raimundo.

No dia anterior um rapaz trajando canícula azul claro, cinto de lona largo, calça azul escuro e borzeguim preto batia no número 352 da passagem Dionísio Bentes. Cumprindo ordens, o soldado deixava em casa a cópia de um documento que me convocava para a Escola com urgência.

JJ COMAR UNO SBBE

INFO VOSSENCIA CANDT ANTONIO VALENTIM MOREIRA APROV CONC ADM CFS 2/77 DESTA ESCOLA PTVG SOL VOSSENCIA DET PROVD RFR CANDT APRES ESPAER UU VG MUNIDO DOC PREVISTA ET INSPSAU FINDE LETRA BRAVO IRIS PT  ESPAER SBGW

Francisco tinha em mão o tal papel, que mais tarde eu conheceria por radiograma ou mensagem-rádio,  que então me convocava para estar presente na Escola de Especialistas até a tal data. E essa data, um dia da primeira semana de agosto, estava próxima,sendo necessária a minha presença sob pena de perder a oportunidade de ouro, o cavalo selado que me passava na estrada. Urgia, portanto, que eu estivesse em Belém para a inspeção de saúde e reunir a papelada que minha mãe correria atrás, contando com o apoio de meu padrinho Alberto.

Meio grogue e até contrariado por ter sido acordado naquela hora, além de ainda não compreendendo direito o que se passava, vesti-me, peguei minhas coisas e acompanhei o homem de volta a Belém. Até hoje, quando lembro dessa noite, fico a me perguntar como o bom Francisco conseguiu nos achar naquele fim-de-mundo. É certo que minha mãe deu as instruções, mas ainda assim chegar lá e de noite não era tarefa simples. Bem, como disse a dona Maria, o próprio Francisco, talvez subestimando o grau de dificuldade da empreitada, ofereceu-se para localizar-me e trazer-me de regresso à capital. Não o fazendo, ela própria teria ido ao meu encontro com a alvissareira notícia. Jamais esquecerei de ti, meu amigo, onde quer que estejas hoje.

Foi uma luta renhida, uma correria danada. Além disso, para garantir a chegada até Guaratinguetá, era preciso conseguir uma carona em avião da própria Aeronáutica, porque de ônibus demoraria muito e perderia o prazo, de avião comercial não tínhamos dinheiro para a passagem.  Tínhamos que contar também com o calendário do Correio Aéreo Nacional, que, pelos ventos a favor, previa uma aeronave entre Belém e Rio. Do Rio até Guará, seguiria de ônibus.

E o Benedito, por onde andará?

Mais uma lembrança. No Hospital de Aeronáutica, estava eu à espera do dentista me chamar. Encontravam-se também alguns soldados em inspeção de saúde. Um deles me ficou marcado: o Benedito. Ao perceber aquele jovem esmirradinho, raquítico, não me perdoou, principiando a fazer troça da minha musculatura de Tarzan depois da gripe. Ironicamente, dizia a seus colegas  que eu provavelmente estava ali para ingressar como soldado da PA. A Polícia da Aeronáutica (a PA) é uma tropa de elite conhecida pela truculência onde somente são admitidos soldados de um metro e oitenta para cima. Eu estava naturalmente longe disso, por isso servi de alvo cômico para o gracioso Benedito.

Tem nada não.

Dias, numa noite, antes da esperada viagem, meu pai, cumprindo sua vocação de grande conselheiro, como da outra vez, me chama a um canto: “Antonio, um conselho: seja sempre honesto”. Não entendi bem a necessidade daquelas palavras, somente mais tarde fui associá-las à minha condição de servidor público, de que em breve estaria investido. Manoel, o sábio, por muitas vezes certamente ouvira notícias de funcionário público corrupto, enriquecimento ilícito, desfalques, como era a palavra técnica mais comum para esse tipo de crime de dilapidação do dinheiro público, hoje mais conhecida como corrupção financeira. Jamais esqueci dessas sábias palavras de meu pai, que ora se encontra no plano celestial.

E nessa primeira terça-feira de agosto eu estava ali cedinho. O sargento fazia a chamada e pesava as bagagens. “Você vai estudar pra caramba”, alertou-me ele, quando informado de que meu destino final era a Escola, com a autoridade de quem passou dois anos lá. Recordo também que se encontrava presente um oficial, creio que primeiro-tenente especialista (se não fosse especialista devia ser engenheiro), a julgar pelas insígnias que só mais tarde eu identificaria. Olhando em direção ao militar, tio Antonio Rodrigues falou: “São esses homens que mandam no Brasil”. Nunca esqueci também dessas palavras embora não soubesse o que realmente queriam dizer.

***

Despedi-me dos dois com as bênçãos de minha mãe chorosa e embarquei naquele avião rumo a um futuro desconhecido.

Uma vez autorizado o embarque, acomodei-me num dos primeiros assentos da aeronave, um Bandeirante administrativo equipado com poltronas e cuja tripulação — dois aviadores e um sargento — trajava o uniforme que depois eu conheceria como o sétimo, e não o macacão de voo que hoje é usual em aeronaves militares. Já taxiando, o sargento mecânico de voo cuidava dos passageiros orientando de forma gentil sobre cinto de segurança e outras coisas; chegando a mim, pediu que eu me levantasse e ocupasse o último lugar, que, na configuração original da aeronave, era um assento sanitário com a opção de ser adaptado para assento normal, caso o avião estivesse com lotação máxima. Era o caso. Obediente, fui para o final da aeronave, atei o cinto, e, como se fosse um passageiro veterano, quedei-me tranquilo e despreocupado enquanto, barulhento, o aparelho levantava voo.

Sem que me desse conta (como sempre), o episódio representava na prática uma das duas palavras que passaria a ouvir com frequência desde o primeiro dia de Escola até o meu último da carreira, trinta anos depois: hierarquia. A outra era a disciplina.  Havia, portanto, uma hierarquia a ser observada até mesmo na ocupação dos assentos de um avião militar. No caso, o sargento com os olhos treinados avaliando os passageiros, todos civis, para, a partir disso, os classificar numa escala hierárquica que ele, plenamente adaptado ao sistema militar, reconheceria até mesmo na maneira de andar de cada um. Ao Garoto, simples em tudo, de trajes simples, naturalmente caberia o derradeiro lugar.

Faço essas observações com o olhar maduro de hoje e percebo que, sem que notem, as pessoas naturalmente costumam fazer essa espécie de avaliação em toda e qualquer situação ou ambiente onde se encontrem. Não vai aqui, porém, nenhuma menção de censura ao sargento-mecânico, porquanto o militar apenas, sem maiores reflexões, reproduzia o que a sociedade, mormente a classe militar, diz ser natural fazer. Diferente atitude, porém, creio eu, poderia ser tomada caso este que escreve estas memórias fosse um homem de outra aparência, elevada estatura, bem trajado.

Em voo, espichando o pescoço, ocupei-me em observar a paisagem lá embaixo. Em nenhum momento sequer senti medo; não por ser corajoso — que não era — mas por não ter noção alguma do perigo. Apesar da timidez, tentei puxar assunto com um casal que sentava próximo. Eles, porém, não me deram a mínima atenção; foi como se eu estivesse invisível.

Com o decorrer de minutos e horas, pensamento vai e pensamento vem, e, do nada, a mente me passou a imaginar a tal escola e, por conseguinte, a inquietar-se com tudo o que poderia me aguardar; era o desconhecido que me afligia.

Que script teria o Diretor Supremo para mim reservado? Estaria o Garoto em condições de encená-lo?

Mil conjecturas me povoam o espírito. Compreendo hoje que tal mudança súbita de comportamento psicológico devia-se ao fato de que, pela primeira vez, encontrava-me sozinho no mundo, ou seja, sem a presença de pai e mãe, de alguém que tomasse a frente em relação às minhas necessidades. Era isso. Antes tinha casa, comida e roupa lavada, embora nenhum dinheiro. Minha vida pacata de estudante colegial terminava. Até então ia para o colégio, fazia as tarefas escolares, convivia com mestres e colegas, mas, ao final, voltava para a segurança de um lar. De agora em diante não mais seria assim.

Estava compulsoriamente desmamado.

Vejo hoje a necessidade dessa independência quase que involuntária que, de repente, alcançava; ela chegaria um dia. Só não sabia e não esperava que me emancipasse dos meus pais tão cedo porque, como venho narrando, não me julgava preparado. De agora em diante seria tudo por minha conta e agora me preocupava o fracasso e, pior, a decepção que viesse a causar a meus pais, que tanto me apoiaram.

Além disso, o medo do desconhecido que se aproximava.

E essa tal escola, como seria? Quais desafios exatamente me seriam propostos? Conseguiria me adaptar? Eu, que me considerava um jovem cujo comportamento oscilava entre a displicência e a hiperatividade.

Até então questões como essas nem por um instante me haviam passado pela cabeça. Agora, uma vez naquele avião, após uma sequência quase involuntária de acontecimentos que me haviam conduzido ao embarque para longe, eis que tomo ciência de que era, a partir daí, tudo por minha conta e o máximo que meus pais podiam fazer agora por mim era unicamente rezar, além de torcer para que tudo corresse bem. A verdade é que nem eles e nem eu tínhamos noção do seria exatamente essa tal escola e o curso em que eu estava prestes a iniciar. As informações que me chegavam e àqueles jovens que comigo prestaram o concurso eram sempre bastante vagas, imprecisas, incompletas… “Estude por conta do governo federal”… “Força Aérea Brasileira”… “Escola de Especialistas”.

Especialista de quê exatamente?

O panfleto dizia “fardamento igual a sargento, exceto nas divisas”. Então usaríamos farda, é isso? A única farda que a mente de estudante me mostrava no momento era a do colégio Augusto Meira. Alguém falou em sargento. Sargento: era isso que eu ia sair ao final. Dessa patente eu só lembrava do sargento Garcia, do seriado Zorro da tevê. Para mim a figura de um sargento me remetia imediatamente a um cara maduro, forte, sisudo, rígido, com um bigode imenso. E eu mal tinha dezesseis anos; dois anos depois, dezoito, e não me imaginava nada disso. Também lembro que me falaram em dureza, que o regime militar é exigente. Quem falara? Ah sim, meu padrinho Alberto. Passei a concentrar em meu Alberto, padrinho de crisma, um sujeito solteirão lá com os seus quarenta ou cinquenta anos. A idade não dava bem pra definir por causa de sua feição indígena, ele que era natural de São Gabriel da Cachoeira, Amazonas. Era formado em Contabilidade, muita moral para um índio. Deixou cedo seu povo e foi estudar em colégio de freiras. Lembrei aí que ele falara num amigo que era tenente em Pirassununga. Pirassununga? Guaratinguetá? Nunca ouvi falar nessas cidades. O padrinho era um cara bem relacionado, condição bem útil naquele tempo.

E agora? Não dá mais pra voltar e desistir de tudo. Uma vez que estava naquele avião, o jeito era prosseguir.

Tamanha era a ansiedade que me dominava que nem dormir eu conseguia. Logo eu, um cara bom de sono. Desejei ter em mãos um bom livro ou mesmo uma revista para ler. Além de tudo, depois do avião ainda teria que pegar um ônibus para a tal cidade de Guaratinguetá. Quanto custaria a passagem e que horas partiria? E se eu me perdesse no Rio? Com tais insistentes pensamentos me povoando a mente, de repente notei que o avião perdia altitude…  olhando pela janela, via a paisagem mais definida, próxima. Pelo jeito o avião aproximava-se de alguma pista de pouso.

Diante dessas divagações meio confusas, com os olhos de hoje vejo que o indivíduo nada mais é que um prisioneiro. Um prisioneiro da sociedade que te impõe determinados comportamentos e regras; um prisioneiro das necessidades básicas que precisam ser satisfeitas; depois preso a outros objetivos, prisioneiro de um agente poderoso — o Estado, da família que te cobra atitudes coerentes com que essa mesma sociedade preconiza. Esse aprisionamento, que te transforma (para o bem e para o mal),  vai trabalhando devagarinho tua vida e tua personalidade sem que tu ao menos percebas. Existe alguém totalmente livre?

Deixemos de divagações filosóficas e sociológicas. Pousamos em Carolina, Maranhão.

Parada técnica para reabastecimento. Vi que os pilotos seguiram para uma sala, que somente muito mais tarde saberia o nome: Sala AIS. Nós, os passageiros, também descemos para espichar as pernas, toalete e comer alguma coisa, enquanto o mecânico permanecia para acompanhar o reabastecimento. Não comi nada. Não que estivesse sem fome, mas sim para economizar os poucos cruzeiros (talvez cem ou pouco mais) que meu pai havia me dado para as despesas imediatas. Deixaria para enganar o estômago em Brasília, a próxima escala.

Partimos rumo à capital federal.

Chegando lá, num dado momento, tomando coragem e procurando vencer a crônica timidez juvenil, aproximei-me do sargento-mecânico. Era um senhor de aparência simpática, talvez com seus 35 anos. Ele foi bastante gentil para comigo quando lhe perguntei sobre ônibus para chegar do aeroporto Santos Dumont até a rodoviária. Expliquei-lhe que meu destino final não era o Rio e sim Guaratinguetá, São Paulo. Cumprimentando-me pela convocação, deu-me informações certinhas: “Pegue o primeiro ônibus com o letreiro ‘Rodoviária Novo-Rio’, não tem o que errar”. Agradeci.

Logo depois, procurei comer alguma coisa, mas com o cuidado de pedir o sanduíche mais barato. Para economizar o do refrigerante, comi o misto-quente a seco.

O trecho Brasília-Rio, bem mais curto, não me trouxe mais pensamentos inquietantes. Logo estávamos em procedimentos finais para o pouso na cidade que até dezessete anos  e alguns meses atrás sediara o poder federal. Da janela, procurava observar o máximo a paisagem da cidade que já conhecia pela tevê.

Peguei a malinha e, seguindo as orientações do sargento, procurei o ponto de ônibus mais próximo e para aguardar o primeiro coletivo que tivesse a placa “Rodoviária Novo-Rio”. Era quatro e meia da tarde.

Assim que paguei a passagem, pedi ao cobrador que me informasse onde era a rodoviária, e ele fez um meneio de cabeça. Então, ia observando a paisagem e apontando mentalmente os pontos diferentes e os iguais  em comparação à minha cidade. Cheguei à conclusão de que havia mais pontos coincidentes do que estranhos. Lembrei logo dos livros de História que enfatizam a colonização portuguesa no Brasil e a arquitetura do Rio bem confirmava o que diziam os livros. Prestei também atenção em duas jovens, bonitas por sinal, que sentavam à minha frente. Iam elas descontraidamente conversando, enquanto eu observava o sotaque, não vendo nada de diferente em relação à maneira como nós falávamos naquela época, salvo uma ou outra gíria. O cobrador me dá o sinal avisando que eu descesse na parada seguinte: “Aí xará!. A rodoviária é na próxima parada!”. Agradeci.

Na rodoviária Novo Rio, atento ao horário já avançado, quase noite, fui correndo com os olhos os guichês. Achei! Viação Sampaio. Fui lá e comprei passagem para o próximo ônibus que saía às seis da tarde. Já passava das cinco. Com o bilhete no bolso, procurei um banco vago e sentei segurando com firmeza a minha mala pelo medo de ser roubado. Ao cabo de poucos minutos a cabeça me torna a rememorar todos os lances do longo dia, desde quando acordei antes das cinco, o ônibus para o aeroporto, a chamada para o avião, o embarque, as horas que permaneci na aeronave… Esse breve descanso me dizia que estava exausto, cansado, muito cansado… Breve chegaria finalmente ao destino… exausto, cansado, muito cansado…

De repente acordei com alguém batendo no meu ombro esquerdo: “Rapaz, teu ônibus sai em cinco minutos.”

Continua

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