REMINISCÊNCIAS de um velho escriba!

Essa sociedade hipócrita e vil!

…Continuação da postagem de 23ago2018

ERA o bilheteiro que, por meio da vidraça do guichê, antes me observava. “Esse cara vai perder a droga desse ônibus…”.

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Notando que peguei no sono, o funcionário, preocupado, se deu o trabalho de sair do seu posto de trabalho para me alertar sobre o horário. Não posso esquecer jamais esse herói anônimo, um bom samaritano, que, vendo um irmão em dificuldade, não hesita em socorrê-lo. Já havia feito a sua obrigação que era me vender o bilhete de passagem. Muito obrigado, meu bom homem. Jamais me esqueci de ti, meu irmão. Deus te abençoe sempre, onde quer que estejas, irmão.

ÔNIBUS Viaç Sampaio

Ônibus da Viação Sampaio (reprodução de O Especialista em Revista, ed. 12, julho de 1979)

À semelhança de um louco, sob os olhares espantados de todos que estavam próximos à minha trajetória, corri até a plataforma e, esbaforido, embarquei naquele Viação Sampaio que me conduziria até Guaratinguetá, Estado de São Paulo. Encontrava-me prestes a entrar num processo de molde para, dentro de dois longos anos, adquirir os requisitos exigidos para tornar-me uma minúscula peça de uma máquina gigantesca e poderosa que convencionou-se chamar de Estado.

Enquanto o Viação Sampaio rodava pela Via Dutra rumo ao Vale do Paraíba, distraía-me observando a paisagem de campos e cidades.  Apesar do cansaço pela longa e agitada jornada, não tinha sono. Ainda mais em razão do susto do Rio de Janeiro, quando, sem querer, vencido pela exaustão, cochilei e logo estava totalmente entregue, prestes a perder o horário do transporte.

Embora desagradável, o medo é algo necessário à sobrevivência animal. E eu era um animal que precisava sobreviver a qualquer custo na selva em que então fora lançado.

Não fosse o gesto cristão daquele bom homem, fatalmente eu perderia o ônibus, contratempo que me faria também jogar no mato aquela oportunidade que, já nem esperando, se avizinhava ao alcance de minhas mãos. Sim. Sem dinheiro para mais uma passagem, nem imagino o que seria de mim naquele mato sem cachorro. Diante dum infortúnio de tal magnitude, que seria desse jovem de outro estado, sem parente nem derente ou conhecidos numa cidade grande como o Rio de Janeiro, pouco dinheiro no bolso, e ainda por cima tímido? Imaginei depois que, pedindo apoio aqui e acolá e informando da minha condição de candidato a um concurso da Aeronáutica, a menção do nome dessa instituição acabaria por me conduzir ao quartel da FAB mais próximo, talvez o III COMAR. Ficaria por lá — imagino — vagando, filando a boia e dormindo onde pudesse por conta da caridade do comandante ou de algum chefe de gabinete por dias ou semanas, até que me mandassem de volta no próximo avião com destino ao Pará. Provavelmente me fariam trabalhar em troca de comida e pouso, como, anos depois fui saber, acontecera com o piauiense Edmilson.

Foi assim:

Edmilson, garoto pobre, era um candidato do Piauí que, chegando a Belém para um concurso à Escola de Especialista, apesar de muito dedicar-se, não conseguiu na ocasião ser aprovado. Sem dinheiro para voltar à terra natal, é levado à presença do comandante da Base, a quem pede autorização para permanecer hospedado na Base Aérea até a data do próximo certame, quando, aprovado ou não, deixaria a unidade. Magnânimo, o coronel autoriza a permanência com condição (justa, por sinal) de o jovem ajudar nos trabalhos de rancho ou de outra subunidade. No rancho, o negrinho fica lá trabalhando, a ajudar nos afazeres diários do rancho das praças, civis e sargentos, enquanto nas horas vagas disciplinadamente queima as pestanas nos livros e apostilas. A dormida precária  é no alojamento dos taifeiros. Pobre rapaz! Diariamente é humilhado pelos taifeiros, que, aproveitando-se do reforço inesperado e da necessidade dele, destinam às suas mãos as tarefas mais duras e insalubres. Não bastasse, os vocativos mais frequentes que dirigiam ao rapaz eram imbecil, burro, abestado, jumento, filho de puta e outros vocábulos elogiosos. Extravasando seus recalques, destinavam também ao jovem petelecos e cascudos.

Mas, como já citei, o teatro da vida impõe seu próprio roteiro.

Decidido a dar fim nesse rosário de humilhações a que é todos os dias submetido, apega-se com mais afinco aos estudos. Além da Escola de Especialistas, também candidata-se à Escola de Aeronáutica (somente mais tarde era criada a Academia da Força Aérea). No entanto, é novamente reprovado no concurso da Escola, mas… por ironia, logra êxito no da Escola de Aeronáutica. Em quatro anos voltaria oficial.

Numa fase da história brasileira em que um oficial das Forças Armadas tinha a prerrogativa de mandar recolher ao xadrez, os taifeiros do rancho começam a preocupar-se com a boa sorte do piauiense, e também, principalmente, com a deles. Se não fosse reprovado que saísse aviador, era desejo deles; jamais saísse oficial intendente, mas, se por acaso formasse oficial da Intendência, que não regressasse a Belém; viesse de volta a Belém, que fosse classificado no QG da 1ª Zona e não na Base Aérea, onde provavelmente seria chefe de rancho, cargo em que seus algozes lhe deveriam obediência hierárquica incondicional.

Oh sociedade hipócrita e vil, que exalta o poderoso e pisa o mais fraco! A vida é pródiga em mostrar que as pessoas tratam as outras em função do status social que possuem, e este, embora raro, às vezes se modifica. A nova condição de Edmilson, futuro oficial da Força Aérea, muda da água para o vinho o tratamento nada cavalheiresco que até então lhe é dispensado; os taifeiros agora já não mais pegam pesado com o rapaz e até lhe permitem comer junto com eles da comida que sobra dos oficiais, em vez da babugem que restava dos pratos dos soldados como antes.

Matriculado, Edmilson, movido pela mágoa do período em que era cotidianamente humilhado, não pensa jamais, porém, noutra proa a não ser a da Base Aérea de Belém. Ademais, sendo do Piauí, Belém é rota natural. Findo o curso, foi exatamente essa unidade que lhe coube. Volta então à Base Aérea de Belém, onde é designado chefe de rancho. Houve muito taifeiro a sentir na pele as voltas que dão os ponteiros do relógio da vida.

Voltando ao meu caso.

O prazo para a matrícula na Escola fatalmente teria se esgotado, vez que eu já estava duas semanas defasado em relação ao restante da turma, que seguia plenamente adaptada à rotina do Corpo de Alunos.

Cinco minutos. Que seria de mim?

Afastadas tais inquietações, que felizmente não se efetivaram pela ação piedosa do meu benfeitor anônimo, quedei-me a imaginar a tal escola enquanto o veículo seguia tranquilo seu curso rotineiro. Apesar do esforço mental, a única imagem que me vinha a mente era de um prédio quadrilongo de três ou quatro andares, salas de aula de um lado e de outro do corredor, escadas, pilotis, acrescido talvez de uma quadra de esportes e piscina. A mente não ia além disso. Com efeito, a imagem feita era exatamente a colégio Augusto Meira, onde fazia o segundo grau. Impossível imaginar uma coisa que os olhos jamais viram antes. Sem nunca se ver ao menos uma fotografia, a imagem desenhada pela mente sempre será em função do que já se conhece, as experiências anteriormente vividas.

O ônibus passava por algumas cidades: Resende, Cruzeiro… Em cada uma delas este escriba se mantinha arisco, imaginando que poderia Guará, atento para não passar direto sem imaginar que Aparecida, o destino final do Viação Sampaio, fica bem próxima, bastando pegar um ônibus urbano, detalhe que só ficaria sabendo depois. No entanto, o motorista, experiente, não permitiria acontecer semelhante descuido.

Corriam as horas e nada de chegar a Guará.

“Lorena!”, avisa o condutor. Informado, Guará era a próxima estação. Ao desembarcar, imediatamente fui à procura de informações sobre como chegar à Escola. Deveria pegar o “Escola”. Isso já mais de onze da noite. De camisa mangas curtas, passo a senti frio enquanto aguardava o tal “Escola”, que nada de chegar. Não vinha. Havia naturalmente outros ali a aguardar seu ônibus, entre eles alguns militares; soldados em sua maioria. Logo deduzi que iam também para lá a fim de pernoitarem e dia seguinte cumprirem o expediente. Nada do tal “Escola”, e passei a imaginar que essa linha já teria encerrado a sua atividade diária, o que me deixou angustiado. Vi então ao longe, aproximar-se de nós um coletivo cujo letreiro parecia ser “Vila dos Sangrentos”. Nome estranho! Era uma espécie de dislexia motivada provavelmente pelo cansaço e ansiedade, coisa natural a um garoto sozinho em terra estranha àquela hora de uma noite fria. Por frações de segundo, hesitei, mas enfim, antes que o “Vila dos Sargentos” arrancasse, decidi imitar os soldados e embarquei no ônibus cuja pintura externa indicava ser da empresa “Pássaro Marrom”.

E se houvesse na cidade outro quartel da Aeronáutica? Foi um pensamento que me ocorreu repentinamente e que durou pouquíssimo tempo. Já embarcado, o cobrador me informa que de fato a Escola fazia parte do itinerário daquela linha. Ufa! Estava chegando lá. Fiquei de olho nos movimentos dos soldados e nas placas de sinalização. Avistando já o portão da guarda onde os soldados de serviço cumpriam seus quartos de hora e o letreiro “Bem-vindo à Escola de Especialistas de Aeronáutica”, a minha preocupação agora era tão somente chegar ao local previsto para apresentar a documentação indicando a finalidade da minha presença na instituição.

Desconhecendo as instalações da Escola, desci junto com os soldados e, barrado no prédio onde eles entraram — a companhia IG –, o soldado de plantão orienta-me sobre o local exato onde eu deveria me apresentar, um tal de “Corpo de Alunos”. Agradeci e rumei para lá passando em frente ao prédio que logo no dia seguinte identificaria como Rancho dos alunos.

Estava lá: “Corpo de Alunos”, dizia o letreiro. Bati. Bati novamente e nada. Ninguém atendia. Já quase no desespero, eis que sou surpreendido por uma fala firme: “Alto lá, identifique-se!”.

O sentinela, um aluno de segunda série, me apontava um fuzil. Sem ter tido tempo de sentir medo ou algo assim, informei-lhe que estava lá para ser matriculado na Escola, ao que o futuro colega me manda apenas dar alguns passos e depois dobrar à esquerda, e ali me atenderiam. Estava batendo na porta que dá acesso à administração do Corpo de Aluno, na lateral do prédio (foto abaixo), onde funcionava as seções e o comando da subunidade.

CORPO de Alunos lateral

Atendido pelo aluno-de-dia e seu auxiliar, apresentei a documentação informando-lhe, com palavras confusas, o motivo da minha presença. Creio que foi acionado o sargento-de-dia, que por sua vez, deve ter falado com o oficial-de-permanência ao CA (naquele tempo havia um oficial de serviço somente para cuidar dos assuntos do Corpo de Alunos). Considerando o avançado da hora (já passava da meia-noite), providenciaram para mim cama e cobertor na própria companhia de Infantaria, onde em princípio me apresentei.

***

Era a minha primeira noite de centenas na Escola de Especialistas de Aeronáutica nos dois próximos longos anos. Dormi muito bem, enfim recuperando as energias da extenuada viagem de mais de doze horas em que cruzei o país de norte a sul.

Acordei com a alvorada. Chamou-me a atenção a estatura elevada dos soldados, em comparação à minha figura, um franzino de um metro e sessenta e dois, 51 quilos. Talvez ali se alojasse uma companhia de PA.

Depois do café, ao iniciar o expediente administrativo da unidade, encaminham-me ao sargento Juliano, um primeiro-sargento, que me acompanha à Seção Mobilizadora, para a entrega dos papéis, coleta de impressões digitais e fotografia. Estava matriculado. Logo eu entraria na rotina dos meus futuros colegas, que já aclimatados, treinados e fardados, comportavam-se, a meu ver, como se veteranos fossem.

Tentaria sobreviver.

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