JOSÉ Augusto Moita!

O início de tudo

NO DIA 13 de julho do ano da Graça de 1975 , pelas nove horas da manhã, decolavam duas aeronaves da Base Aérea de Fortaleza com destino à Escola de Especialistas da Aeronáutica, em Guaratinguetá – SP. Nos bojos de um C130 Hércules e de um C115 Buffalo seguiam em busca de um sonho quase uma centena de jovens cearenses.

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Arquivo pessoal de J. A. Moita

Além do sonho, havia mais algo em comum àquele grupo de adolescentes, oriundos de famílias pobres, muitos deles passando a partir dali a arrimos de suas famílias. Pois vivíamos um Governo Militar e um emprego nas Forças Armadas fornecia uma boa remuneração, o que levava alguns a tentar a vida na caserna mesmo sem nenhuma aptidão para a carreira militar.

Fiz parte da equipe que embarcou no Buffalo, que, por sinal saiu mais do que lotado, tanto que os mais magrinhos —o meu caso, pois pesava quarenta e cinco quilos— tiveram que dividir o “confortável ” assento com um futuro colega. Já o Hércules decolou com assentos ociosos, pois que completaria sua capacidade máxima em Recife, com os candidatos pernambucanos.

Naquela época viajar de avião não era coisa que fizesse parte da vida dos pobres, tanto que o capitão-aviador que nos conduziu, em uma preleção antes do voo, ao perguntar quantos de nós já havia voado, não obteve nenhuma mão levantada em sinal afirmativo. Ele ainda nos fez uma pontinha de medo quando brincando, vislumbrou a possibilidade daquele estanha máquina, de formato completamente horripilante para um aeronauta de primeira viagem, não conseguir alçar voo.

Creio que todos vocês (referindo-se a militares da FAB) chegaram a voar no Buffalo, uma aeronave que bons serviços prestou ao Brasil através da Força Aérea, e devem saber que, devido não haver pressurização, o barulho e o frio foram nossos companheiros incômodos durante todo o trajeto. Agora, imaginem a quantidade de aratacas vomitando dentro daquela belonave! Mas, no cômputo geral, tive sorte, pois suportei o frio e não enjoei. A única inconveniência foi na hora de urinar, pois quando vi o bocal na ponta de uma mangueira por onde todos haveriam de se aliviar de suas necessidades líquidas, não me aventurei a utilizar tal recurso, preferi me aguentar até fazer escala em Salvador, além de dali até chegar em nosso destino não beber mais nada.

Chegamos na pista de Guará já no avançado da tarde e os que tiveram a sorte de ter levado algum agasalho conseguiram suportar bem, até que um ônibus nos viesse pegar para levar à Escola — mais tarde viemos saber que aquele outro horripilante meio de transporte era o famoso Papa-fila.

Não lembro a primeira vez que transpus o Portão da Guarda, como também não lembro as muitas vezes que por ali adentrei vindo da Japonesa completamente embriagado. Por falar em Japonesa, até hoje não descobri o mistério atrativo que exercia aquele estabelecimento nos que se entregavam aos porres, já que, após a quarentena, foi o primeiro local que conheci fora da Escola sem que ninguém me houvesse ensinado. Parece que uma mão maligna nos conduzia sonambulamente. Com o decorrer do tempo, mais aclimatados, o caminho da Porteira Preta nos surgia à frente. Aí, a perdição estava completa, que nem o capitão-capelão Sebastião daria mais jeito.

CAPELÃO Sebastião

Capitão Sebastião, o capelão da Escola (reprodução de O Especialista em Revista, ed. 12, julho de 1979)

Chegamos no pátio principal já à boquinha da noite, como se diz aqui no Ceará, e fomos colocados nos alojamentos aleatoriamente, já que a definição da esquadrilha a qual cada um faria parte só ocorreria depois do dia quinze, prazo máximo permitido para apresentação de todos os aprovados. E ali ficamos feitos pintinhos sem mãe, trêmulos de frio e de medo, agregados em um único grupo, desfalcado apenas de alguns mais audazes que se aventuraram em procura da cantina. Mas não ficamos sozinhos por muito tempo, mais que depressa apareceram alguns alunos que não tinham camburado de primeira a nos vender cadeados e outros penduricalhos necessários à nossa adaptação física. A espiritual levaria mais tempo, como nos veio mostrar o dolente toque de silêncio às dez da noite.

Não costumo mentir, confesso que chorei baixinho. E tenho certeza que aquela corneta, para os que a ouviram pela primeira vez, marcou indelevelmente a memória e o coração. Aquela triste melodia, que também é executada durante os funerais, exprimia todo medo do desconhecido a que nos submetíamos como também a profunda saudade do lar, deixado pra trás recentemente. Aquele instrumento encerrava de vez a infância de um menino pobre que deixou sua casa em busca de dias melhores não só pra ele, mas para todos os seus familiares. Mas esse menino não estava sozinho.

Nunca esteve.

EIS um documento humano.

José Augusto Moita, ex-aluno da Escola de Especialistas de Aeronáutica, conta nesta crônica um pouco do que ele e seus colegas, todos jovens oriundos das classes populares, sentiram quando, a bordo de uma aeronave da Força Aérea, chegaram a Guaratinguetá. Suas emoções particulares e seus costumes uma vez ambientado revelam em J. A . Moita uma espécie de anti-herói,com quem muitos de todos nós (este escriba inclusive) nos identificamos.

Em resumo é o que dizemos sobre o conteúdo.

Sobre a forma, trata-se de uma peça do gênero  narrativo em primeira pessoa. A certa altura da narração, Moita dá um salto no tempo e passa a falar sobre sua rotina além-muros, também comum a tantos — como eu — alunos da Escola de então. Depois retorna ao fio narrativo original.

Faz parte dos recursos de um bom cronista a divagação e a passagem de tempo, com o cuidado de retomar mais tarde o raciocínio inicial. Ao final da peça, lança recurso da expressão “Nunca esteve (só)”, uma espécie de aforismo filosófico, pois de fato nem ele, tampouco nenhum de nós, jamais esteve sozinho naquele mundo, para nós tão estranho, mas que, a despeito disso, representava ao jovem pobre uma oportunidade num país tão desigual. 

Enfim, são recursos literários próprios dos grandes cronistas.

L.s.N.S.J.C.! 

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