MONTIEZ Rodrigues, Sérgio Buarque de Holanda e o homem cordial!

SÉRGIO Buarque

Sérgio Buarque de Holanda (fonte: Internet)

COSTUMO tirar o chapéu para os verdadeiros sábios. Homens há que, contrariamente ao senso comum, conseguem não apenas enxergar a árvore senão visualizar a floresta inteira. O homem inteligente não é aquele que apenas devora volumosos compêndios — como dizia Rolando Lero, fictício pupilo do alencarino Francisco Anysio. De que adianta o homem saber e não fazer uso da pretensa sabedoria? Para que serve uma lâmpada se é acomodada embaixo de uma mesa?

Pois bem!

Nas redes sociais encontrei o amigo Montiez Rodrigues, ex-colega de farda, componente da Tarjeta Verde que entrou na Escola de Especialistas em 1975 vindo a formar-se em dezembro de 1976. Montiez, de origem humilde, faz parte de um grupo que cumpriu apenas os seus cinco anos de serviços obrigatórios, conforme a legislação. Após esse período, sabiamente cascou fora da caserna, divorciando-se amigavelmente da Força Aérea. Fazendo uso do cérebro privilegiado que Deus lhe deu, toma, pois, destino em busca de horizontes mais abertos e menos — vamos pôr assim — limitadores. Uma vez no Banco do Brasil, não se acomoda no cargo — por sinal, segundo suas palavras, muito bem remunerado –, indo mais além até ser, não sem concorridíssimo certame, nomeado para o ambicionado cargo de analista previdenciário. Hoje, colhe os louros da polpuda aposentadoria que fez jus por quarenta anos de labor, fruto que, no Brasil, só uns poucos conseguem colher por seu próprio mérito. Parafraseando meu xará Valentim Magalhães, um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras, Montiez recolhe mensalmente o suficiente não apenas para o pão, mas também para a manteiga.

MONTIEZ Rodrigues 1

Montiez Rodrigues (fonte: Facebook)

Tornou-se-me hábito diariamente deleitar-me nas redes sociais com suas postagens inteligentes e bem-humoradas. Entre um gole e outro de café com leite adoçado artificialmente, leio com olhos curiosos e prescrutadores seus comentários acerca da vida e dos acontecimentos sociais.

Eis que hoje me deparo com esta:

“O HOMEM CORDIAL

Sérgio Buarque de Holanda, antropólogo famoso, em sua obra-prima, o clássico Raízes do Brasil, propagou o mito do Homem Cordial, agora destronado e desmascarado com a ascensão do truculento capitão Jair Bolsonaro, candidato à presidente da república, líder nas pesquisas de intenção de voto e também líder disparado na rejeição dos eleitores, cujos seguidores expuseram toda a podridão de nossa sociedade embutida no mais recôndito da alma nacional. Chico Buarque, compositor, cantor e escritor, filho do Sérgio, viveu para constatar o ledo engano de seu pai e comprovar que o Brasil é o país da delicadeza perdida. Espero que este exacerbamento não vá além das eleições porque senão enfrentaremos uma guerra civil, uma luta de classes, um Norte contra Sul ou uma irmandade qualquer a lutar pela derrubada de algum Bashar al-Assad tupiniquim.”

Procurarei aqui resumir.

A Sociologia brasileira tem em Gilberto Freyre (Casa-Grande & Senzala, 1933) e Sérgio Buarque de Holanda (Raízes do Brasil, 1936) os seus primeiros mestres.

Freyre, num país cuja sociedade procura espelhar-se na imagem do homem europeu e em sua cultura, culpando assim o mulato, o negro e o índio pelo atraso do país, apresenta-nos a miscigenação como fator positivo, como a grande característica peculiar do povo brasileiro. Pela primeira vez a miscigenação, fruto geralmente do cruzamento do português com a negra e com a índia, é visto como um processo elogiável, contrariando o senso comum vigente até ainda hoje em nossa sociedade, como, por exemplo, a preocupação de Dom Pedro II em “embranquecer” a população brasileira, daí favorecendo e incentivando massivamente a imigração europeia.

Também procurando explicar o porquê de o Brasil ser um país atrasado em relação aos da América do Norte, colonizados pelos ingleses, Sérgio Buarque de Holanda, numa obra mais realista inspirada em Max Weber, define, entre tantos outros conceitos, o brasileiro como o “homem cordial“, num contraponto à sociedade canadense e estadunidense.

No entanto, diferentemente do que se pensa, a expressão cordial em sua obra não significa exatamente a pessoa de bom coração, pacífica, boa-gente, camarada.

Não foi exatamente isso que quis dizer Sérgio Buarque de Holanda. A expressão foi deturpada.

Eis uma das acepções para a cordialidade do homem brasileiro.

Cordial significa “o que vem do coração”. Desde o Brasil colônia, segundo as ideias de Holanda, a sociedade foi se estruturando em função do senhor de engenho. A partir dele há uma gama de outros elementos, como a própria família, a escravaria, os demais homens “livres”, membros do clero e servidores públicos. O poder e influência do senhor vai além, muito além, dos limites de sua extensa propriedade, prolongando-se por toda uma região. É ele quem manda em tudo, é ele quem indica o delegado, o juiz, os políticos, os funcionários públicos. Diferentemente do que ocorre na América do Norte, no Brasil a lei é apenas fachada, servindo apenas para limitar as ações de quem não seja amigo do senhor. Antes senhor, depois barão, mais tarde coronel. Hoje o vereador, prefeito, governador, deputado…

O senhor passa então a ser o “amigão” de todos, que, de uma forma ou de outra, passam a lhe dever favores: um médico para um filho doente, um emprego para um genro, o cartório para um apoiador político, todos estes seus eleitores ou eleitores de seus correligionários. Caso um dos “amigos” ouse contrariar ou mesmo recusar a sua “amizade”, é devidamente castigado; da lealdade à submissão e eterna dependência.

Decorre disso a implantação na sociedade de hábitos simples e corriqueiros que normalmente não são vistos como desvios de conduta. Colar de um colega numa prova de colégio, furar a fila porque se é amigo do caixa do banco, estacionar no local privativo de deficiente por só um minutinho pois o guarda municipal é gente boa… coisas assim são toleradas e não vistas como prejudiciais, o tal “jeitinho brasileiro”. Tolerando-se o pequeno desvio, não há problema algum em se vender o voto por cinquenta ou cem reais, e, uma vez eleito, também não é crime pegar uma propina aqui ou outra acolá, pois, afinal, todo mundo faz assim. Desde é, claro, que não seja apanhado com a boca na botija, está tudo certo.

O “homem cordial”, preconizado pelo historiador Sérgio Buarque, é o habitante de um Brasil onde o importante é ser amigo de pessoas influentes, é necessário ser amigo do rei, por isso os normais os elogios, as bajulações, o tapinha nas costas e o cumprimento em praça pública. Vem também aí o tratamento de doutor e outros. Igualmente a subserviência ao poderoso, não importando se dessa “amizade”, a coletividade como um todo venha a ser, ao final, prejudicada, empobrecida, mantida na dependência eterna. Cria-se aí um círculo vicioso: para uma comunidade carente, um protetor, salvador, um chefe político, um “amigão” na praça; para problemas crônicos, soluções imediatistas (temporárias); para cada necessitado, um padrinho. As questões são solucionadas, mas — veja bem — solucionadas parcialmente, de forma que a necessidade se perpetue no tempo e no espaço. É necessário que haja sempre necessitados, dependendo de favores, enquanto o poderoso está aí, pronto para ajudá-lo, como ainda vemos nas campanhas eleitorais, mais visivelmente nas cidades do interior e nas periferias das grandes cidades.

Sempre um senhor; do outro lado sempre um subalterno a depender perpetuamente das benesses do “amigo” poderoso.

Um ano após a publicação de Raízes do Brasil, no país é implantado uma feroz ditadura, o Estado Novo, de inspiração fascista. Em consequência disso, a obra de Buarque é acolhida no meio intelectual de então de forma deturpada, para desolação do autor. O escritor Cassiano Ricardo promove uma interpretação deformada do termo “homem cordial” que, para contrariedade geral, acabou prevalecendo.

Portanto, o “homem cordial” nada tem a ver com o indivíduo boa-gente, camarada, e sim com o sujeito interesseiro (por índole ou por necessidade), uma vez que, desde o Brasil colônia, semelhante sistema foi sendo produzido e implantado, tornando-se algo cultural nocivo a todo um povo. É esse o modus vivendi, que, infelizmente para a Nação, sobreviveu até hoje nesta sociedade onde não existe pecado, pois está abaixo do Equador.

Mas a expressão também comporta outro significado.

É onde não divirjo do comentário postado pelo nobre Montiez. Do coração também emerge sentimentos ruins. É bem esse o caso do candidato ao cargo de presidente da República. Ainda candidato, o cidadão (sic) já dá margens do que há em seu coração, propagando o ódio, violência, mesquinhez e preconceitos. O fato de ter muitos seguidores é lamentável, mas também retrata a sociedade brasileira, muito violenta, a que mais pratica homicídios decorrentes de situações passionais, conforme se pode comprovar elencando uma série de dados estatísticos, facilmente recolhíveis na internet.

Também, sob essa acepção, há neles (no candidato e seus eleitores) muito do “homem cordial” estudado pelo genitor do igualmente genial Francisco Buarque de Holanda.

L.s.N.S.J.C.! 

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