NÃO dá para fazer filme de faroeste!

AO ESCRITOR é, além do conhecimento do conteúdo, necessária uma boa dose de inspiração. Há temas que precisam ser desenvolvidos na exata hora em que surge nalgum canto da mente a ideia do que se escrever. Há a motivação, que é o tema, o conteúdo, mas se deixar passar a oportunidade, as palavras podem não vir, ao menos parecidas às que se deixaram iluminar naquela exata ocasião.

É agora ou nunca, como dizia Elvis Presley.

Chamam isso de inspiração. Não sei. Mas sei que, ainda que música não seja a nossa especialidade, é o que provavelmente ocorre com os grandes compositores musicais. O mesmo acontecia a talentos do nível de um Chaplin, por exemplo.

Por muitas vezes desejei aqui nestas páginas eletrônicas rabiscar, teclar, digitar, escrever sobre as muitas experiências vividas, testemunhas e ouvidas do tempo em que vesti a farda azul barateia. E isso foi por um curto período de três decênios, um sopro, como bem definiu o centenário arquiteto Niemeyer.

Lá convivi com uma fauna variadíssima de artistas. Havia um bordão na caserna que dizia assim: “Não dá pra fazer filme de faroeste, porque só tem artista e nenhum bandido”. E este escriba viu e soube de muita coisa digna de filmes, livros, teatro. Tantos foram os personagens dignos dos mais diabólicos embusteiros participantes das novelas de tevê, em seus múltiplos e folclóricos personagens.

O título poderia ser “Calixto Wilson e outros picaretas”. Nem me perguntem a razão desse nome, pois nem mesmo este escriba sabe responder.

Adiantamos aqui três casos.

O primeiro deles é o do servidor civil exemplar que trabalhava fora de expediente e até aos sábados e domingos, não raramente. Esse cidadão foi homenageado com medalhas e até uma placa em que aparecia como o “funcionário do ano”. Trabalhava na seção de finanças na função de sacador, ou seja, era encarregado de lançar as alterações — direitos, vantagens e também descontos — nos contracheques. Isso foi em Curitiba. Há uma lei que limita o tempo do servidor em 70 anos de idade, passada a idade ele compulsoriamente é aposentado. O nosso amigo, chegando essa indesejosa data, foi ao comandante e, implorando, pediu para permanecer no trabalho, alegando não ter o que fazer em casa. Se fosse para casa, morria antes do tempo de tédio e tristeza, pois nutria grande amor pelo trabalho que exercia. Continuou nas mesmas funções. Não demorou muito, exatamente num final de semana, passou mal e morreu.

Passado algum tempo a família procura a unidade, devolvendo uma pequena fortuna que fora descoberta na conta do falecido. “Esse dinheiro não é do meu pai”. Fazendo uma sindicância, foi descoberto que o tal funcionário exemplar mantinha um servidor inativo, um primeiro-tenente reformado, num caso que se convencionou chamar de “funcionário fantasma”. Mediante procuração, todos os anos o tal tenente, que ninguém conhecia e ninguém via, apresentava-se como prova de vida e residência.

Outro caso.

Um militar reformado, este de carne e osso, que na verdade era outra pessoa. O dito dispunha de duas identidades, sendo que a primeira, provavelmente a verdadeira, dava-o como dispensado do Exército por incapacidade de saúde. O sujeito fora dado, isso ainda em sua juventude, como portador do mal de Hansen, vulgarmente conhecida por lepra.

Desempregado, engendrou a ideia de comprar outra identificação, que naquele tempo não era difícil. Com a nova identidade, em que alterava a idade e também o nome, logrou ingressar na Aeronáutica como soldado. Cansado da vida de milico, veio a mais tarde ser reformado por razão de: lepra. Mas, desta vez, com proventos no status de militar reformado no posto de segundo-sargento.

Lembro bem o nome do falsário: Antonio Matti, gaúcho. Seu alter-ego: Antoninho Mate, paranaense. Cabra inteligente, inventou um nome parecido de modo que, se alguém pronuncia na presença de um familiar ou conhecido, automaticamente vai ser assimilado como um diminutivo carinhoso.

São casos que deixo para detalhar numa outra oportunidade, com mais tempo e, sobretudo, mais inspiração. É certo que pouco este escriba sabe sobre os dois casos, mas, somado ao que se contém podem vir tantos outros detalhes que a imaginação e verosimilhança conseguem visualizar.

Há um terceiro, além de tantos outros casos que o velho escriba poderia desfilar aqui.

É o caso dos colegas que conseguiram ludibriar a Caixa Econômica e o antigo BNH. Lograram iludir, ainda que temporariamente, a essas repartições, mas não o comando da Base Aérea de Anápolis, que puniu severamente os caloteiros. Ou melhor, a quase todos. Um sobreviveu, enganando a todos: colegas e comando.

Mas esse é um assunto que reservamos para mais tarde.

Até lá, amigos.

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