IMPRESSÕES de um viajante brasileiro!

Parte 3 – Brasília

Se acaso você chegasse
No meu chatô encontrasse aquela mulher
Que você gostou
Será que tinha coragem
De trocar nossa amizade
Por ela que já te abandonou

Eu falo porque essa dona
Já mora no meu barraco
À beira de um regato
E um bosque em flor  

De dia me lava a roupa
De noite me beija a boca
E assim nós vamos vivendo de amor

(Lupicínio Rodrigues)  

DEPOIS de algumas voltas por lá, já ao final do período de visitação ao Congresso, entrei no museu do Senado, onde outro grupo visitava. Pedi ao meu amigo Luís Bartniski para tirar uma foto minha em que aparecesse ao fundo os quadros com a foto dos digníssimos ex-presidentes da casa (foto 10).

Foto 10 – No museu do Senado

Comentei sobre aqueles nobres senhores ali na parede retratados. Todos homens, todos brancos, nenhuma mulher, nenhum de raça negra ou índia. Deixei escapar que um dia gostaria de ver ali a imagem de uma mulher. Foi nesse momento que uma senhora pertencente ao nosso grupo e que passava por mim fez o seguinte comentário: “É, mas a que estava lá não deu muito certo”. coitado do eleitor brasileiro, que acredita cegamente no que propaga a grande mídia deste país. Falando do parlamento, e não somente do poder executivo, gostaria de ver ali de verdade representado o povo brasileiro, não composto só de homens ricos, brancos, poderosos, mas sim como um todo. Mas, para isso, teria que ser mudada a cabeça do eleitor, sobretudo com a educação libertária, que ainda está longe da nossa realidade.

Pobre povo!

À tarde, rodamos pela Praça dos Três Poderes e depois rumamos ao Palácio da Alvorada, que, por medidas de segurança impostas pelo atual governo, nada pudemos ver. Até a visita das quartas-feiras não existe mais. Voltando, passamos por uma via em que a ex-presidenta Dilma costumava exercitar-se de bicicleta. Passamos também por um hotel em que, segundo Raquel, a guia, a diária da suíte presidencial é em torno de 38 mil reais. Em seguida circulamos pelo Setor de Embaixadas Sul, mas antes disso a guia nos aponta a mansão do Romário, que ele pôs à venda por módicos vinte milhões de reais. Está apertado o pobrezinho, às voltas com suas dívidas de família.

Antes, quando ainda circulávamos pelo Plano Piloto, a guia nos aponta um museu. Era o Museu Honestino Guimarães, também uma obra de Niemeyer. Chamou-me a atenção quando a guia nos disse ter o museu esse nome em homenagem a um estudante “desaparecido” no período militar. Como desaparecido, minha senhora? Desaparecido se, largando a mão de sua mãe, tivesse ele sumido no meio da multidão e nunca mais fosse localizado, ou ainda numa excursão ecológica houvesse se desgarrado do grupo e desaparecido no meio da selva e nunca mais visto. A realidade cruel foi outra, porém. O estudante foi barbaramente torturado por agentes do Estado, morrendo em função em função disso e seu corpo ocultado em lugar incerto.

Ainda negando falar de política, Raquel discursa indignada sobre a presença no parlamento do deputado Tiririca, eleito para seu terceiro mandato legislativo. “O povo brasileiro não precisa de palhaço e sim de parlamentares sérios e preparados”. Continua: “Na primeira vez que foi eleito, tudo bem, pois era uma forma de protesto, mas agora! Sou totalmente contra e a presença dele no parlamento é pra mim um escárnio, uma zombaria ao povo. Um analfabeto, que não faz nada. Sou até a favor de que, para ser deputado ou senador, a pessoa tinha que ter formação universitária.”, finalizou.

Novamente concordo em parte com ela. Já estava pronto a dizer “Muito bem!”. No entanto, ela pisou feio ao final da fala quando condicionou o exercício do mandato parlamentar à existência de curso superior. Não é bem assim, querida. Existem pessoas sem ao menos o ensino médio que entendem mais de política, e além dessa qualidade, são muito mais humanos, que muitos doutores por aí. É evidente que não é o caso do deputado-palhaço. Assim como religiosidade não reflete caráter, diploma não significa saber, ainda mais o saber político.

Outra passagem.

Falou-nos ainda que “Em Brasília, graças a Deus, ainda há civismo, pois o brasiliense prestigia os desfiles de sete de setembro”. Outra bola fora. O nome de Deus não pode ser empenhado como juízo de valores positivos para a prática de civismo e patriotismo. Fazer continência à bandeira, cantar o hino, desfilar no dia sete de setembro, nada disso representa o verdadeiro cidadão, não garantindo o sentimento verdadeiro de patriotismo de ninguém. Com certeza, falou assim aludindo — ainda que inconsciente — ao mau uso feito dos símbolos nacionais pelo grupo político que venceu as últimas eleições. E ela que prometeu não falar em política.

O falar e o agir denunciam a natureza de cada indivíduo, como disse eu na primeira postagem desta série. Se fosse feita uma pesquisa sobre os eleitores que reelegeram Tiririca para o terceiro mandato, saber-se-ia que a maioria deles, com certeza, também elegeram o atual presidente. Mesmo padrão, mesmo pensar. Ambos tiraram proveito do analfabetismo político que grassa no país. Atribuem a Nelson Rodrigues, por sinal um simpatizante da direita conservadora, a frase: “Os idiotas vão dominar o mundo, não pela qualidade, mas pela quantidade. São muitos”. E eis que se vem cumprindo essa profecia.

Nas embaixadas, vimos que, por ironia do destino, a dos Estados Unidos da América fica próxima à da Rússia. Enquanto a dos ianques parece uma fortaleza, a de Portugal é cercada de tranquilidade.

Foi quando, por derradeiro, chegamos ao Núcleo Bandeirante para vista ao Museu Vivo da Memória Candanga (foto 11).

Foto 11 – Museu Vivo da Memória Candanga, Brasília, Núcleo Bandeirante – DF

Nem só de trabalho vivia o candango.

Lá, como é costumeiro, também tiramos muitas fotografias. Enquanto observarmos os quatros fotográficos em preto e branco daquele tempo, os objetos, os consultórios, as camas, as máquinas de escrever e até mesmo os utensílios domésticos de cozinha, uma história que a guia contava me chamou a atenção. Ainda falava em política, sem que ela percebesse, já que a política faz parte do nosso cotidiano.

Foi assim.

Em busca da sobrevivência e escapando da miséria crônica que assolava a região, a maioria dos 65 mil trabalhadores pioneiros que ergueram Brasília veio do Nordeste brasileiro. A ideia do governo era que, após concluída a construção da nova capital, todos eles voltassem à sua cidade de origem. Nem todas as consequências podem ser vislumbradas. Como, fugindo da miséria, exigir que a ela regressassem?

Foto 12 – Sob a efígie de JK, Praça dos Três Poderes, Brasília – DF

Por óbvio que aquelas almas foram ficando e as instalações provisórias, que inicialmente foram edificadas no Núcleo Bandeirante, serviram de base para as aglomerações urbanas que, mais tarde, ficariam conhecidas como cidades satélites. Nas horas de folga todos aqueles homens precisavam comer, dormir, consumir, divertir-se, viver. Além de açougues, farmácias, barbearias, bares, restaurantes e tudo o mais, instalaram-se também prostíbulos, as chamadas “casa da luz vermelha”, onde as pioneiras, sobrevivendo, exerciam seu trabalho. Foi assim, com a promessa de, assim que desse, buscar a família, muitos deles não deram mais sequer notícia aos seus. Diante disso, muitas esposas determinadas a não permanecerem no desamparo pegaram a prole e a trouxa, rumando a Brasília que seus homens construíam com a força de seus braços e regaram com suor e sangue. Muitas delas, ao chegarem, tiveram grande desapontamento: seus esposos já viviam com as mulheres das casas de luz vermelha, tendo constituído nova família. Diante dessa realidade, também elas foram logo assumidas pelo colega, pelo vizinho ou por outro operário, solteiro ou não, devido à carência de mulheres.

Isso me fez lembrar de pronto da composição famosa de Lupicínio:

… Eu falo porque essa dona / Já mora no meu barraco /
À beira de um regato / E um bosque em flor / De dia me lava a roupa / De noite me beija a boca / E assim nós vamos vivendo de amor.

Além de Lupicínio, um tema muito explorado por Nelson Rodrigues. É assim a vida. Diante de um fato consumado, a ex-mulher e os filhos não ficaram ao desamparo. Deus refaz o que o homem desfaz.

No entanto, Brasília não foi feita para os seus construtores. Os candangos tiveram que se refugiar nas redondezas; a nova capital foi construída para o poder e, de lambuja apenas, para os funcionários que vieram de avião do Rio de Janeiro, com salário em dobro e apartamento mobiliado. Aos candangos restaram se instalar precariamente nas futuras cidades-satélites, principiando assim inchaço populacional que, até hoje, incomoda as elites da cidade JK.

Está vendo aquele edifício, moço? / Ajudei a levantar / Foi um tempo de aflição / Eram quatro condução / Duas pra ir, duas pra voltar / Hoje depois dele pronto / Olho pra cima e fico tonto / Mas me chega um cidadão / E me diz desconfiado / Tu tá aí admirado / Ou tá querendo roubar? / (Zé Geraldo).

Termina a parte de Brasília e Raquel despede-se de nós recebendo da nossa organizadora seus honorários por mais um grupo guiado. Seguimos agora a Caldas Novas, última parte da excursão.

Continua…

IMPRESSÕES de um viajante brasileiro!

Brasília (1)

Foto 4 – Igreja de São Francisco de Assis, Complexo Arquitetônico da Pampulha, Belo Horinte – MG. Arquitetura de Oscar Niemeyer e engenharia de Joaquim Cardozo. O Complexo da Pampulha (1942/44), composto de cassino, clube náutico, restaurante circular, além da igreja, foi a obra inspiradora de Brasília.

“JUSCELINO consegue atrair o setor privado,  viabiliza recursos. Conclui a construção da barragem, de dezoito metros de altura, para formação da grande lagoa da Pampulha, com dezoito quilômetros de perímetro. Nas margens e cercanias, ergue cassino, clube náutico, restaurante circular. Joias arquitetônicas de Niemeyer.

Completa o conjunto a inovadora igreja de São Francisco de Assis, a primeira do Brasil realmente em estilo moderno, com abóbadas de concreto. Portinari decorou-a com painéis de azulejos, na parte externa, e pintura mural no interior.

Parêntese. Exatamente no painel de São Francisco, atrás do altar-mor, Portinari resolveu substituir o tradicional irmão-lobo por um irmão-cachorro brasileiro (por ser o lobo um animal pouco conhecido dos brasileiros). Ao visitá-la com Juscelino, o arcebispo de Belo Horizonte, Dom Antônio dos Santos Cabral, primeiro se encanta. Afinal, ele é também homem de ação, fundador do jornal Diário Católico, educador, semeador de escolas. Compreende e admira empreendedores e seus feitos. Sabe das dificuldades, da luta que executar obra como aquela. Mas tudo azeda quando ele vê o cachorrinho no lugar do lobo. Espanta-se, desaprova. Ou melhor, indigna-se. Diz a Juscelino que aquilo é inaceitável, um escárnio à religião. Atitude firme, rígida. Determinado, protetor das artes e dos artistas, o prefeito também bate o pé. Resultado: queda-de-braço que impede a sagração da igrejinha durante quinze anos. Como católico fervoroso, devoto de Nossa Senhora da Luz, coroinha e seminarista, prefeito, deputado federal, governador e presidente da República, JK faz o diabo para demover o obstinado arcebispo. Em vão. Ele só consegue arrancar a sagração quando Dom João Resende Costa se torna arcebispo coadjutor e administrador da sede plena da Arquidiocese de Belo Horizonte em julho de 1957. Vem de Brasília com dona Sarah, Maria Estela e Márcia exclusivamente para assistir à primeira missa, capítulo final da novela. Data: 11 de abril de 1959. O simpático cãozinho brasileiro ficou.  (COUTO, Ronaldo Costa. Brasília Kubitschek de Oliveira. Rio de Janeiro: Record, 2001)

***

AO ENTRARMOS no plano piloto, a parte planejada de Brasília, é-me inevitável retroceder mentalmente alguns anos no tempo (já lá se vão quase dezoito anos). Morei lá por seis, de 1995 a 2001. Na verdade, vendo e revendo a cidade, não sei como sobrevivi. É preciso estar atento e forte, como diz Gal Costa. Só posso dizer que eu sou um sobrevivente e minha história muito diz sobre isso.

Precisei muito do tal instinto de sobrevivência.

Foto 5 – Memorial JK, Brasília – DF. Projeto arquitetônico de Oscar Niemeyer, sua construção foi totalmente custeada pelo povo através de doações, é onde repousam os restos mortais do ex-presidente JK. Inaugurado em 1981, esse monumento foi duramente atacado por setores conservadores da sociedade brasileira, que viam elementos que lembram o Comunismo, ideologia do arquiteto.

O ônibus entra pelo Cruzeiro e segue pelo Eixo Monumental, que é exatamente a larguíssima avenida que, passando pela estação rodoviária central, cruza o no meio do Plano Piloto, fazendo o xis ou cruz. Tem como final exatamente a Praça dos Três Poderes. Ao rever o movimento e os monumentos, me volta um filme. Logo vamos entrar no Setor Hoteleiro Sul, e, para surpresa nossa, que tínhamos deixado a modesta pousada Monte Cristo em Trindade, hospedamo-nos no Saint Paul Plaza, um quatro estrelas.

Passamos uma noite de príncipes naquele décimo andar do Saint Paul, com direito a vista panorâmica da catedral, teatro nacional, rodoviária, conjunto nacional e demais prédios próximos. Muito emocionante para mim, que pedi para ser movimentado para lá por causa de uma música dos Engenheiros do Hawaii.

Ela pára e fica ali parada / Olha-se para nada / Paraná / Fica parecida paraguaia / Para-raios em dia de sol / Para mim / Prenda minha parabólica
Princesinha parabólica / O pecado mora ao lado / E o paraíso / Ele paira no ar / Pecados no paraíso / e a tevê estiver fora do ar / Quando passarem os melhores momentos da sua vida / Pela janela alguém estará / De olho em você / Completamente paranoica

Hospedagem e café-da-manhã incluídos no pacote, se bem que a janta — para mim, um peixe grelhado, arroz e alguns legumes; para a Alemoa uma sopa de legumes — me sai bem salgada. Resignado, algum preço tenho que pagar por bancar o ricaço, ainda que involuntariamente.

No dia seguinte, no roteiro de visitas o Santuário Dom Bosco, a catedral metropolitana, Congresso Nacional, pela manhã. Depois almoço, que foi no Setor de Indústrias Gráficas, e pela tarde Praça dos Três Poderes, passeio pelo Lago Sul, Embaixadas e, por fim, o Museu Vivo da Memória Candanga, que foi o primeiro conjunto de prédios (de madeira) edificados no Distrito Federal na década de 1950, onde funcionaram o primeiro hospital, hotel e outras instalações pioneiras.

Já a bordo, a organizadora do nosso grupo de viagens apresenta a todos nós a guia de turismo. Raquel (vamos dizer que seu nome seja esse) é a profissional de turismo incumbida de nos mostrar alguns pontos da cidade nesse dia. Raquel começa desculpando-se porque segunda-feira não é o melhor dia para visitações turísticas. Alguns locais nesse dia são fechados ao público por motivo de manutenção. Ainda assim, iria se esforçar ao máximo para que todos nós ficássemos satisfeitos. A guia, é bom que se diga, também uma sobrevivente, fazendo jus aos honorários do dia.

Com senso crítico, logo percebo, pelo seu discurso, que ela, além de sobrevivente, é também uma cidadã de bem e uma mulher de Deus.

Entendedores entenderão.

O Santuário Dom Bosco, com seu lustre de 450 luminárias, é o primeiro ponto visitado. Reza a lenda que o religioso profetizou a construção de uma cidade entre os paralelos 15 e 20 do hemisfério sul (leia aqui). Por essa razão, em homenagem a ele, foi construído um grande templo católico, que se localiza na quadra 702 Sul. Eu vivi — como já disse — seis anos em Brasília e, passando inúmeras vezes pela W3 Sul, de relance olhava para aquela igreja, mas nunca tive o capricho de estacionar e entrar lá. Essa é a primeira vez.

Ao dar as explicações de praxe, a guia se sai com esta: “Vocês vão entrar, fazer uma oração de dez minutos, sendo que sete deles vocês rezam por Raquel, pela saúde de Raquel, pela família de Raquel, pela vida financeira de Raquel, e nos três minutos restantes vocês rezem por quem vocês quiserem. Combinado?”

Era para ser uma piada, mas ninguém riu. Devo relatar uma passagem anterior, que me foi contada pela nossa organizadora.

Raquel, na primeira ocasião em que trava contato com a organizadora, comete a seguinte indiscrição:

“Que bom que o pessoal do Sul votou bem, só não gostei porque elegeram também uma pessoa indesejável”.

Era uma alusão à deputada paranaense Gleisi Hoffmann, presidenta do Partido dos Trabalhadores. Claro que, sendo o grupo oriundo do Paraná, Estado onde o presidente recém-eleito fez grande maioria de votos, a guia naturalmente infere que o comentário seria bem recebido pelo grupo. Tudo em casa. Entretanto, o que ela não sabia é que a maioria do grupo era composto de professores, posição política bem definida no campo progressista, diametralmente oposta às ideias do atual governo federal eleito e recém-empossado, que vê no educador um inimigo a ser combatido. “Peço-lhe um favor: não vamos falar de política aqui no ônibus”, cochicha ao pé de ouvido a nossa organizadora.

Então, nesta ocasião da visita ao santuário, o que era para ser uma piada inocente, é recebido com indiferença pelo grupo. Ademais, o humor dos sulistas é diferenciado em relação ao humor nordestino (Raquel é uma nordestina que mora em Brasília há quinze anos). Já sabendo do lado político da guia, passo a observar com mais atenção seus comentários e opiniões. Luz amarela ligada, prescrutava-a a partir daí sob mais forte senso crítico, como aprendi a fazer ao lidar com o gênero humano.

Foto 6 – Interior do Santuário Dom Bosco, Brasília – Distrito Federal

Finda a visitação ao santuário, seguimos em direção à Catedral Metropolitana de Brasília, que, por boa sorte nossa, encontrava-se aberta à visitação, contrariamente às previsões de Raquel. A exemplo do santuário Dom Bosco, apesar dos seis anos em Brasília, é a primeira vez que visito essa magnífica obra do ateu e comunista Oscar Niemeyer. Geralmente o morador local, no calor do dia a dia de luta, pouco se interessa por pontos turísticos da cidade em que reside, diferentemente do turista em visita.

Foto 7 – Catedral Metropolitana Nossa Senhora Aparecida, Brasília – Distrito Federal. Destaca-se na entrada as esculturas que representam os quatro evangelistas: Mateus, Marcos, Lucas e João.

Ao chegarmos ao local, ainda dentro do ônibus, Raquel, falando sobre as características e dados da igreja, me faz outro comentário preconceituoso (Olha a luz amarela acesa aí!).

“Ora, tem muito guia que viaja, fantasia dizendo ao turista que a igreja tem a forma de mãos postas em oração ou coisa do gênero, mas eu sou curta e grossa: Niemeyer era ateu! Infelizmente, era ateu! [Percebi que ela acentuou bem as palavras]). É apenas um círculo de dezesseis e só. Ele teve apenas uma visão de arquiteto, nada a ver com a fé e religião”.

Concordo com ela apenas parcialmente. Parcialmente.

De fato o centenário comunista Oscar Niemeyer declarava-se sem religião. Ninguém é obrigado a seguir nada, pois todos temos o livre-arbítrio — é a minha opinião. Até aí o fato é de conhecimento público. Raquel, sem perceber, também falava de política, ainda que o negasse; não a política partidária, mas certamente política. Brasília é uma cidade política por natureza, desde a sua concepção e construção, e assim até hoje. Niemeyer, ateu e comunista, era, como o mundo inteiro reconhece, um fabuloso arquiteto, um verdadeiro artista da Arquitetura, adepto das curvas de concreto armado. Apesar da genialidade inata, era também uma pessoa extremamente simples e desprendida, que aceitou sem delongas o convite de Juscelino Kubitschek para fazer parte da construção dessa grande obra chamada Brasília, feito que veio a tornar o país mais curto e integrado. Consultado sobre o salário, responde a Juscelino:

“Presidente, o senhor me paga o que paga a qualquer um dos diretores”.

Foi com Brasília que o brasileiro tornou-se efetivamente brasileiro. Antes havia só o paulista, carioca, cearense, mineiro, gaúcho… Foi a partir da nova capital, geograficamente cravada no cerne brasileiro, que são traçadas rodovias integradoras que unem o Norte e o Nordeste, além do próprio Centro-Oeste, aos demais pontos do país. Deve-se levar em conta que nos anos cinquenta a ideia de construir, no meio do nada, uma cidade inteira parecia pra lá de absurda. Muita gente boa, principalmente a elite da época e a classe política conservadora, ridicularizava Juscelino e sua equipe por essa teimosia, essa loucura, que é mudar a capital do Rio de Janeiro para o interior do país, onde só existia mato e bicho. Para piorar, o local é de clima seco, pouco recomendado ao elemento humano. Nessa aventura incerta embarcam Lúcio Costa, Israel Pinheiro, Bernardo Sayão, Oscar Niemeyer, além do próprio JK, que encaram o desafio de, do nada, erigir uma cidade moderna, bela, humana, sem precedentes no mundo.

Ouso afirmar.

Na prancheta de Niemeyer, ao ser traçado o desenho da catedral (assim igualmente em relação a todos os outros monumentos e prédios projetados pelo genial artista), há aí certamente inspiração divina — minha opinião. Quem tem fé sabe bem que uma natureza superior, um ente divino, age sobre as pessoas iluminando suas ações.

Ronaldo Costa Couto, em seu livro sobre JK e Brasília, atribui a Darcy Ribeiro:

“Deus estava de bom humor quando juntou no mesmo lugar e no mesmo momento Juscelino, Lúcio Costa, Israel e Niemeyer.”

Foi o caso.

Além do mais, alguém declarar que “infelizmente era ateu” não me parece coisa muito cristã. A depender dessa cidadã de bem, o centenário Niemeyer teria saído deste mundo diretamente para os braços do Cramulhão. Quem não tem pecado, atire a primeira pedra, bem disse o Divino Mestre — está lá nos Evangelhos. Quem é capaz de dizer que a igreja da Pampulha, com seu desenho inovador para os anos 1940, não estava nos planos de Deus? No entanto, a autoridade religiosa da época (Dom Cabral) nega sua sagração, o que veio só a ocorrer em 1957, quando JK já estava presidente. Durante quinze anos, o arcebispo nega à comunidade local o conforto religioso com a frequência dominical ao templo projetado por Niemeyer. Age assim talvez por preconceito, birra, aversão que disfarçadamente nutria ao prefeito da de Belo Horizonte (JK), e, quem sabe, mais ainda, aos comunistas Oscar Niemeyer e Cândido Portinari (Sim, Portinari era comunista de carteirinha). Ressalta-se que a arquitetura da igrejinha foge totalmente aos padrões anteriores, fato que tenha desagradado o religioso. Ao final, vem a prevalecer a genialidade de Niemeyer e de Portinari, cuja obra continua lá, firme e forte, a testemunhar a presença de Deus na vida de toda a comunidade local, bem como na visita de incontáveis turistas. Igualmente, no caso, a belíssima catedral, que valeu a Niemeyer o prêmio Pritzker, equivalente ao Nobel de arquitetura.

Entre essas duas personagens, uma autoridade religiosa e outra ateia, em quem você confiaria, caro leitor?

Continuo.

Na frente da igreja há quatro esculturas de bronze, obra do escultor brasileiro Alfredo Ceschiatti. Eu sei, por experiência de outros carnavais, que não se pode confiar cegamente em tudo que os guias de turismo dizem. Muita coisa por eles é dita para impressionar o turista, mas nem sempre corresponde à verdade dos fatos. O turista mediano acaba por engolir uma coisa ou outra apenas por falta de conhecimento.

Em relação às estátuas (foto 7), que representam os quatro evangelistas (Mateus, Marcos, Lucas e João), Raquel informa ao grupo que de um lado estão três (Mateus, Marcos e Lucas) e do outro lado está João. Até aí tudo certo, até porque as placas indicativas ao pé de cada uma das estátuas estão a identificar. Mas qual a razão?, alguém poderia perguntar. “Porque João era o discípulo que Jesus mais amava”, disse a guia, ainda que ninguém lhe tivesse perguntado, como que a justificar os trezentinhos de honorários no final da tarde. Ora, as esculturas não estão representando os discípulos. Lucas não era contemporâneo de Jesus, e foi o último evangelista a escrever sobre o Cristo. Se fosse sobre os discípulos, deveriam estar ali representados os doze, como no quadro da Santa Ceia. Eram os evangelistas, ou seja, os narradores da vida de Jesus. João está isolado porque, diferente dos três, a sua narrativa sobre Jesus é diferenciada, mais espiritualizada que a dos outros três evangelistas. A Igreja diz que os três primeiros evangelhos são sinóticos, ou seja, têm muita em comum e utilizam basicamente a mesma estrutura, sendo que às vezes até repetem as mesmas palavras e episódios. Já João, o discípulo que Jesus mais amava, escreveu um evangelho canônico, bem diferenciado em relação aos outros três evangelistas.

A guia, tão cristã — a julgar pelas suas palavras –, deixou passar essa bola. Não adianta rezar e fazer tudo errado, incluindo o ato de votar. Vamos estudar.

Como é natural, além de rezarmos, tiramos algumas fotografias. Em seguida, nos dirigimos ao prédio do Congresso Nacional. Nisso, já estávamos próximos das onze horas daquela segunda-feira, 21 de janeiro.

Foto 8 – Em visita ao prédio do Congresso Nacional – Brasília, Distrito Federal. Percebam a numeração do crachá

Depois da identificação e das normas de segurança do prédio, andamos a visitar as instalações onde funcionam a Câmara Federal e o Senado Federal. Dentre os visitantes, em outro grupo, estava um velhinho que disse ter participado da construção do Congresso. Bem, não sabemos se é verdade, mas, pelo benefício da dúvida, vamos dizer que sim, pois, sabemos que Brasília não foi totalmente concluída em 21 de abril de 1960. Muita coisa continuou em construção e as obras se prolongaram por ainda muitos anos. Então, vamos dar crédito ao velhinho, por sinal meu xará (Antônio também é seu nome), que, em busca da sobrevivência na nova capital, migrou do Piauí nos anos cinquenta ou sessenta provavelmente num caminhão pau-de-arara. Posto então a fotografia (nº 9) em homenagem a esse sobrevivente.

Mas há um detalhe nessa visitação que não quero deixar passar batido.

Foto 9 – Posando ao lado do sr. Antônio, octogenário, piauiense, um dos 65 mil candangos construtores da nova capital

Ao entrarmos na fila de identificação, coube a mim exatamente o crachá de número 24, que eu aceitei de pronto até com uma pontinha de orgulho. Havia algo de interessante nessa coincidência.

Sabemos que recentemente houve uma polêmica em relação aos gabinetes a serem distribuídos entre os nobres senadores. Por questão de puro preconceito, por superstição ou por burrice mesmo, foi abolido o gabinete de número 24. Do 23 passa para o gabinete 25 no Senado Federal. Antes, recentemente, houve a polêmica sobre a cor azul para meninos e o rosa para meninas, conforme assim falou, com a sensatez de uma criança de cinco anos, uma ministra do atual governo. Ora, eu só não fui com a camisa rosa porque a única que eu tinha estragou no colarinho. Mas, não tendo a camisa rosa, fui de vermelho (na verdade quase laranja. Laranja? Ops), além de ter deixado crescer a barba grisalha. Fui assim sem imaginar que caberia a mim exatamente o número 24.

Continua…

IMPRESSÕES de um viajante brasileiro!

Trindade e Goiânia

Andar com fé eu vou,
que a fé não costuma “faiá”
Andar com fé eu vou,
que a fé não costuma “faiá
Andar com fé eu vou,
que a fé não costuma “faiá”
Andar com fé eu vou,
que a fé não costuma “faiá”

(Gilberto Gil)

Foto 1 – Catedral metropolitana de Nossa Senhora Aparecida, Brasília – DF

MUITO tenho matutado nestas últimas horas sobre como iniciar este depoimento. Olhem que mentalmente já mudei várias vezes o título e a organização deste texto. É assim mesmo: nem sempre a inspiração chega de pronto, de forma que a gente vai pensando, imaginando, construindo e transformando, até chegar a um denominador comum. Pouco inspirado, o jeito é sentar em frente ao computador e iniciar a escrever. Muitas vezes as palavras e ideias fluem naturalmente.

É o que espero.

Dentro do possível, tentarei nesta narrativa seguir alguma ordem cronológica, salvo as divagações de cunho sócio-filosófico.

Ontem, 25 de janeiro, chegamos de viagem. Fazia tempo que não saíamos da região. A a anterior tinha sido para o Uruguai em 2014. No ano anterior, 2013, havíamos visitado a capital dos argentinos. Desta vez, porém, surgiu a oportunidade de conhecermos um pouco mais o nosso próprio país. Eu, a Alemoa e a pequena Alice Maria juntamo-nos a um grupo de 32 pessoas alegres e festeiras a partimos direção ao Estado de Goiás e Distrito Federal. Trindade, Goiânia, Brasília e Caldas Novas foram as cidades que escolhemos para visitar desta vez, numa espécie de turismo religioso, comercial, de conhecimento histórico, cultural e político, finalizando com três dias de lazer na famosa cidade do sul de Goiás.

Foto 2 – Ao fundo a Basílica-santuário do Divino Pai Eterno (parte posterior), Trindade, Goiás

Duas pessoas não enxergam a mesma coisa.

Em cada cabeça, um universo, como dizia o baiano Raul Seixas. Resumo aqui, para ilustrar a prosa, a anedota seguinte:

Num mesmo vagão de trem seguiam três profissionais quando em dado momento, por uma exigência da natureza que não isenta a ninguém, alguém compulsoriamente perfuma o ambiente. Diante do fato, cada um dos profissionais, à sua maneira, então principia a definir a flatulência inoportuna. O médico discorre tecnicamente sobre gases intestinais, enquanto um poeta declama um poema referindo-se ao suspiro de um fiofó apaixonado. O advogado, por sua vez, define os gases como “o brado desesperado de um sentenciado clamando por liberdade”.

Como vêem, cada ser pensante carrega consigo toda uma bagagem sociológica, que vem acumulada ao longo da existência. O agir e o falar, por conseguinte, revelam a natureza do indivíduo.

Assim sendo, eu, à medida que o ônibus, vencendo as distâncias, aproava rumo ao Centro-Oeste, ocupo-me a mirar a paisagem que a cada vez se apresentava diante de meus olhos.

Sem jamais divorciar-me do espírito crítico, durante o período da excursão, de tudo que vejo e observo três forças poderosas sempre me norteiam o pensamento: a fé, a política e a economia. Simultaneamente agem sobre cada um de nós os poderes espiritual, político e econômico, que, embora inconsciente, insistem em permear a alma humana, que, no meu caso, venho há mais de 58 carregando sobre este corpo miúdo de origens afro, índia e branca. Nem sempre tive consciência disso. Por longo tempo em minha vida onde via uma árvore, não conseguia enxergar a sombra, os frutos, os passarinhos…

Partimos então de Dois Vizinhos às 6 e 30 de 18 de janeiro, uma sexta-feira ensolarada. Enquanto dia o veículo trafega margeado de vastos campos do Paraná, com algumas escalas técnicas previstas: Quedas do Iguaçu, Cascavel, Campo Mourão e Maringá. Em cada um desses pontos, novos colegas de excursão se agregavam ao grupo. Pela janela observo as culturas da região: soja, milho, bovinos, além pinheiros, galpões, casas. Pelas placas indicadoras quilometragens e distâncias também me chamam a atenção. Como passatempo, mentalmente calculo a hora de chegada na próxima localidade. Assim vou me ocupando a mente, a fim de afastar o doutor alemão.

Ainda sob a luz do dia, cruzamos o rio Paranapanema, deixando para trás a Terra das Araucárias, adentrando agora pelo estado de São Paulo. Sob belo crepúsculo vejo transformar-se a paisagem anterior, que dá lugar a novos cenários, nos campos paulistas outras culturas. Não mais o café do norte paranaense e sim a cana-de-açúcar, lavoura predominante nas propriedades ao longo da rodovia Assis Chateaubriand. Coloco-me a meditar sobre a figura do cortador de cana, esse sobrevivente, a trabalhar duro de sol a sol para o largo lucro do usineiro.

Os boias-frias / quando tomam umas biritas / espantando a tristeza / sonham com bife-a-cavalo, batata-frita / e a sobremesa é goiabada-cascão com muito queijo / depois café, cigarro e um beijo de uma mulata / chamada Leonor (João Bosco)

Logo chega a noite e mais uma parada técnica. Jantamos em Presidente Prudente.

Muito embora relutante, logo cada um de nós, cedendo à força irresistível da natureza, nos rendemos ao descanso. Depois de atravessarmos o famoso Tietê, caímos nos braços de Morfeu.

A noite corre célere, ainda mais para um sujeito bom de sono como eu. Desperto notando pelas placas que agora por Goiânia. Já já vamos chegar ao primeiro destino acertado: Trindade.

A primeira missa do sábado — televisada pela Rede Vida — ocorre sempre as sete da manhã. Movidos pela fé, mal o ônibus estaciona,desembarcamos e subimos a extensa escadaria que nos leva diretamente a uma das laterais da Basílica-santuário do Divino Pai Eterno. O relógio digital posicionado em frente ao altar marca exatamente 7 horas e 3 minutos quando finalmente adentramos o templo. A missa já havia iniciado e o padre já estava no perdão. Para mim, em particular, foi um momento único, não conseguindo localizar nos arquivos da memória palavras exatas para expressar os sentimentos que, no momento, me povoam o espírito. Vejam que a ninguém é lícito sair de um templo religioso da mesma forma nele se entra. Digo mais: se a oração não te faz um ser humano melhor, para que serve? É o mesmo que comer mas não se alimentar. Não adianta ir à igreja rezar e depois fazer tudo errado, como dizia Fernando Mendes.

Somente depois da celebração vamos procurar o que comer, pois estamos em jejum. Em seguida nos hospedamos na modesta Pousada Monte Cristo. O dia seguiu. Logo chegaria o almoço, com a típica culinária de Goiás, à base de frango guisado, jiló, arroz e feijão, acompanhados do saboroso pequi, fruto típico da região.

Nem é preciso relatar a enorme quantidade de barracas e lojas em volta do santuário, onde se vende de tudo. De artigos religiosos às mais diversas bugigangas e quinquilharias, incluindo camisetas com os dizeres “lembrança de Trindade”, geralmente com a estampa da tradicional medalha da Trindade.

À tarde, depois da missa caipira das três horas, com direito a berrante, viola e tudo o mais, eu, a Alemoa e a pequena Alice fazemos um passeio para mais adiante, onde inevitavelmente acabamos por comprar algo para dar de lembrança a parentes e amigos. Como estamos com criança, as paradas são mais frequentes. De bom mesmo, acho pamonha, iguaria que há tanto tempo não degustava. Mais lojas, bares, barracas, pousadas e hotéis, além de três bondinhos de turismo.

Foi combinado que à noite haveria um bondinho — espécie de ônibus adaptado em forma de trem ou de bonde — para nos levarmos a passear pela cidade, sob a módica quantia de dez reais por cabeça. O passeio é bastante animado, com bastante música e motivações. A Alice Maria diverte-se a valer. Além da animação, a certa altura o guia principia a falar ao microfone a fim de apresentar aos turistas os principais pontos da cidade. Uma igreja pioneira ali, outra acolá, depois mais outra, que é dedicada ao padre Pelágio, um “alemão”, um religioso que se dedicou por décadas às causas do Divino Pai Eterno e cujo corpo se encontra sepultado no templo em questão. Na verdade, a julgar pelo nome, o religioso era descendente de italianos e não de alemães, mas para povo humilde de Goiás, qualquer um europeu, seja italiano, francês ou belga, é tudo alemão.

Chegamos a um ponto em que o guia conta-nos um pouco da história da devoção ao Pai Eterno, atividade econômica em torno da qual gira a cidade. O movimento religioso inicia-se (segundo pesquisei na Internet) lá pelo ano de 1840. Constantino Xavier e sua esposa, ambos muito religiosos, estavam capinando o roçado quando encontram uma medalhinha cunhada em que aparecia a imagem da Santíssima Trindade a coroar a Virgem Maria. Dois anos depois, pretendendo restaurar a relíquia, Constantino decide procurar um artista plástico afamado, que residente em Pirenópolis, a cento e tantos quilômetros distante de Barro Preto, o nome original da atual Trindade. Ocorre que o artista acaba fazendo um trabalho mais sofisticado, mais caro. Como Constantino não tenha dinheiro suficiente para pagar pelo trabalho, deu ao artista o próprio cavalo como pagamento. Assim, tem que vencer a pé os cento e tantos quilômetros chegar a Barro Preto, onde populares o aguardam com festa. Por atribuírem à manifestação divina pela fé do roceiro, que percorre a pé caminho tão longo, logo a notícia se espalha fortalecendo-se a devoção à Trindade Santa, que, ao longo dos anos, vai crescendo e crescendo, garantindo hoje e durante todo esse tempo a sobrevivência para muitos e o lucro para poucos. A religião, sabemos, vai além das obras religiosas, movimentando a economia local.

Dia seguinte, 20 de janeiro, um domingo ensolarado, partimos para Goiânia, distante dali apenas dezoito quilômetros. A razão da visita à capital dos goianos é, para a alegria do público feminino, no caso a maioria do nosso ônibus, fazer compras. Estacionamos no pátio de um grande centro de compras especializado em confecções. O estabelecimento, que abriga quase uma centena de pequenas lojas e praça de alimentação, fica no setor central, avenida Goiás, ao lado da estação rodoviária da capital goiana.

Depois das compras inevitáveis e do almoço, embarcamos novamente no ônibus com destino a Brasília. Enquanto aguardo o horário, quedo-me sentado ali observando o movimento em volta. A meu lado senta-se um companheiro de viagem, que logo puxa conversa. Observando a paisagem em volta, procuro sondar-lhe a alma, e lhe pergunto sobre o número considerável de hotéis estabelecidos nas proximidades.

“De que vivem todos esses hotéis? Será que em função deste centro de compras?”

O simpático colega responde-me que sim, certamente.

“Além disso, a própria rodoviária também é um bom atrativo para a hotelaria e o comércio local.”, acrescenta ele com outras palavras.

Sem que eu pretenda chegar a esse ponto, a dado momento da prosa, o amigo me cita a questão dos sem-terra. Mostra-se preocupado porque não longe da nossa região existem alguns assentamentos.

“Se o governo atual expulsar esses sem-terra, eles vem fazer arruaça na cidade”, prevê.

“Certamente”, respondo-lhe, aproveitando para dar a minha opinião a respeito do fenômeno social.

“Quanto mais gente fora do campo, mais cheia a cidade fica. Aí não tem emprego, escolas, postos de saúde, enfim, a cidade não está preparada para tanta gente, por isso também a maioria delas detém muitos problemas sociais”. E vou assim falando enquanto noto a expressão facial do colega de viagem. Pelo andar da prosa, percebo claramente seu lado político-eleitoral, que é diametralmente oposto ao meu. É claro que a conversa, para evitar discussões estéreis e atritos desnecessários, é por mim conduzida. Fica, portanto, evidente que o meu interlocutor, à semelhança da grande maioria dos brasileiros, é gente simples e honesta, porém um tanto manipulado pelos meios de comunicação social e por outros aparelhos ideológicos do Estado, entre eles certamente a própria Igreja. Para ele, “o Brasil não tem jeito e político é tudo igual; não se salva ninguém”. De nada adiantaria dizer-lhe que o problema maior está na qualidade, na consciência do eleitor, a ponta da corda.

Melhor deixar quieto.

Chegam os motoristas e abrem o ônibus salvando-me do mal-estar, a consciência pesada, pela impotência de não poder orientar o amigo, até por ser um brado no deserto. O silêncio às vezes é sábio. Quanto o nosso povo é ingênuo! A maioria, infelizmente, penso cá com meus botões.

Pegamos agora a estrada seguindo rumo à Capital Federal.

Foto 3 – Praça dos Três Poderes. Ao fundo o Palácio do Planalto, Brasília, Distrito Federal

Continua

PÁTRIA armada!

Para não esquecer. Bolsonaro, ex-militar do Exército, treinado e experiente em arma de fogo é assaltado. Imagina o cidadão comum (fonte: Internet)

SE o doente quer canja, canja pro doente! Era um bordão usado por um radialista famoso em Belém nos anos 70. Muita gente, muito cidadão de bem e muito homem de Deus votou no Bolsa de olho na possibilidade de ter uma arma de fogo.

Está aí.

Só digo o seguinte: de agora em diante, a chance foi dada a todo encrenqueiro de trânsito, a todo homem autoritário e machista de bater e matar a mulher com uma arma, e até mesmo ao bandido (e principalmente a este) de assaltar, roubar e matar por causa da arma de fogo que a vítima possui.

Não venham reclamar depois. Eu só direi uma coisa: eu avisei!

E as igrejas, sejam elas a católica ou as evangélicas, têm grande parte no que de pior pode vir.

Taí o que você queria, cidadão eleitor do Bolsa.

L.s.N.S.J.C.!

CLASSE Desunida!

MAIS uma vez voltei os olhos para o papel que estava ali deitado na mesa de trabalho. Ele olhava para mim como que dissesse: “Me assina logo! Quero virar um documento”. Havia datilografado aquelas palavras 24 horas antes. Eram letras bem elaboradas em português castiço. Sem coragem de assinar e dar termo à redação, lia e relia o expediente como a ganhar coragem. A cada vez que o relia, resolvia mudar uma palavra, substituindo-a por um sinônimo, acrescentava uma vírgula, invertia um termo ou até mesmo uma oração inteira.


Era uma forma de protelar a expedição do documento. Dirigia-se ao comandante da unidade e o teor era sobre a criação de dois descontos internos de cinco por cento do soldo, cada um deles.


Eu disse criação? Imposição.


Pela situação aflitiva em que vivíamos, vinha remoendo aquela situação.


Eram tempos duros naquela década de 1980. Governava o país o senhor Ribamar Sarney, ele e o doutor Maílson, que ditavam o rumo da economia, que, na verdade, vinha desgovernada e sem rumo desde não sei quando. Era o país da inflação fora de controle e dos escândalos financeiros, que impunha arrocho salarial à faixa mais sofrida da população brasileira. Cada ano que se findava era festejado de forma entusiástica pelo povo na vã esperança de que o próximo viesse a trazer melhores dias, já que na cabeça de todos o janeiro seguinte não tinha como trazer um ano pior que o seu predecessor. Qual nada! A situação do brasileiro ia a cada ano novo bem mais apertada que no outro. 


Tal era a conjuntura político-econômica nacional. Tais eram os problemas, que também se estendiam sobre as costas dos militares de baixa patente. 


Se, por necessidade, alguém decidisse comprar a crediário uma geladeira, um aparelho de tevê ou um fogão, além de ver comprometida parte de seu minguado salário por meses e semestres, era certo ser sumariamente humilhado ao preencher e responder uma série de perguntas  embaraçosas por parte do funcionário analista de crédito: salário, quantos filhos, se tem ou não bens imóveis, avalistas…


E agora essa decisão, que representava um golpe nas nossas já combalidas finanças. 


O boletim interno dizia sobre a determinação de sua excelência em descontar do soldo de cada um de nós, suboficiais e sargentos da localidade de Manaus, a importância financeira correspondente a dez porcento do soldo. Cinco destinavam-se à Prefeitura de Aeronáutica, a título de taxa de recolhimento de lixo da vila dos suboficiais e sargentos. Os outros cinco eram para ajudar as finanças do clube, o CASSAM, que frequentávamos. Os caixas de ambas as subunidades seriam, portanto, socorridos por nós, suboficiais e sargentos da área de Manaus.


Dez porcento! E em tempos de vagas magérrimas.



E por que sua excelência não pedia repasse ao comando superior em Brasília? Não, para que incomodar seus superiores com problemas que poderiam ser facilmente resolvidos internamente? Vai que aí prejudiquem a sua carreira. Não. Mais fácil onerar mais ainda a tropa, fazendo carga no soldo. A tropa não reclama, a tropa aceita, a tropa tem amor à Pátria, a tropa parece não ter família para sustentar… Ora pois!


Não tínhamos anuênios nessa época, tampouco adicional natalino. Precisávamos esperar sete anos para, se as fichas de avaliação estivessem conforme e o alto comando permitisse, obtermos uma promoção que, ao final, rendia poucos cruzeiros ou cruzados de aumento no salário. A cada cinco anos o quinquênio, e tendo dez anos (era o meu caso), dois quinquênios, ou seja, 10% sobre o soldo. 


E o CASSAM?


O CASSAM era o clube que congregava os suboficiais e sargentos da área. O clube dispunha do maior espaço físico na cidade de Manaus na época. Além disso, possuía uma privilegiada área de estacionamento. Os bailes que promovia eram bastante concorridos, uma vez que geralmente abertos à comunidade manauara. 


Concorridos e rendosos.


Falava-se que na temporada de carnaval o CASSAM chegava a admitir em suas dependências de cinco a dez mil pessoas, senão mais.  Nessas ocasiões, corria dinheiro à farta com ingressos, venda de bebidas e tudo o mais. Era o carnaval mais animado da capital amazonense. O estacionamento lotado e automóveis em fila indiana quilométrica do lado externo.


Havia — falavam à boca miúda — uma forte concorrência à sua diretoria na época de eleições. Muita gente boa querendo ser presidente ou diretor. As eleições eram raras na verdade; havia mesmo era indicação da autoridade, o brigadeiro de três estrelas; eleição era uma palavra considerada perigosa, mais ainda no meio militar. O fato é que havia muita vontade de se pertencer à diretoria do cassino. 


Por que?


Não sei. Havia colegas que, mesmo de férias ou até de licença especial, não abriam mão do cargo de diretor do clube. Eu sei de um suboficial da diretoria, que fora transferido para Anápolis, sendo desligado de sua unidade para seguir destino em janeiro, mas estranhamente só se desligou da diretoria do CASSAM um dia depois do baile de carnaval, já meados de fevereiro. Muito trabalhador certamente e a comunidade de suboficiais e sargentos, na época, lhe foi mui grata por tamanha abnegação.


Muita gente boa “brigava” para ser diretor do clube. 


E agora, sua excelência mandava fazer carga na tropa para tapar rombo do CASSAM?


Diante de todas as dificuldades e suspeitas,  após muito meditar e remoer tal decisão administrativa, e mediante detalhada pesquisa na lei de remuneração, decidi fazer um documento à autoridade, pedindo que revisse a determinação, pois não havia respaldo legal.


Ao chegar na mesa do chefe, ele me chamou: “Valentim, você tem certeza que quer despachar esse documento?”. (Não, Pedro Bó! É só pra gastar meu latim!) É claro que não disse essas palavras, mas deu vontade. É que o chefe, o chefe do chefe, o comandante, todos eles possuíam a seu favor um argumento fortíssimo: o regulamento disciplinar. Diante de minha negativa, o chefe mandou o documento em frente.


O documento circulava fisicamente de um setor para outro e, como não era sigiloso, veio a cair no conhecimento de todo o quartel. O soldado para o cabo, este para o sargento e o sargento para a todo o mundo. Correu o bizu inclusive para as outras unidades de Manaus que eu estava a encabeçar um movimento contra sua excelência, o brigadeiro de três estrelas, pela extinção da cobrança mensal daqueles famigerados dez porcento.


Eu ficara famoso na área.


Naquela noite quase não dormi. Virava pra cá, pra lá… quando finalmente adormeci já lá pela madruga, sonhei que me punham uma venda nos olhos e o oficial dizia ao pelotão de fuzilamento: “Preparar! Apontar! …”. Num sobressalto e com o corpo suado, acordei um pouquinho antes do “fogo”. 

Ufa!


Mas no dia seguinte o documento já, depois de tramitado por mais duas ou três mesas, estava nas mãos de sua excelência, que, sem se dar o trabalho de examinar seu mérito, o repassa para a resolução do chefe do estado-maior, que era um coronel no cargo remunerado de brigadeiro.


De todo o efetivo indignado, surgiram somente dois companheiros a me fazer companhia nessa reivindicação justa. Era o Soares, primeiro-sargento, e o Brandão, terceiro. Foi marcada uma data e hora para falarmos com o chefe do estado-maior, quando, gentilmente e com toda aquela boa-vontade, sua senhoria dedicaria uma parcela de seu precioso tempo para nos ouvir.


Chegou o dia. Na hora marcada, estavam lá o Brandão e o Soares na minha seção de trabalho a convidar-me para subirmos a escada e falarmos com a autoridade. Fomos lá seguindo a ordem hierárquica, com o Soares à minha frente e o Brandão, logo atrás de mim. 


Nesse caminho interminável, entre a base da escadaria e seu topo, mil pensamentos se passariam na minha cabeça. 


Claro, era uma decisão política e a autoridade não mudaria o que havia decidido. Eu era um renitente, um indisciplinado, um rebelde, um fora-da-lei. A autoridade era um coronel e nós, humildes sargentos, o que poderíamos fazer? Tinha contra nós e a favor dele um argumento fortíssimo, que era o tal regulamento disciplinar. Quantos dias de cadeia, caberia a mim, o cabeça do movimento? E se a punição que certamente me seria imposta me levasse a ser expulso da Força? No meio da escada me deu ímpeto de descer, sair correndo. Seja homem, eu dizia para mim mesmo. Éramos três e eu estava entre os dois companheiros. Do nada pensei: “Caramba! Caí numa cilada. Esses dois aí não estão do meu lado coisa nenhuma. É tudo uma conspiração para me levar ao verdugo. Eles são, na verdade, a minha escolta. Certamente sairei algemado da sala do homem”.  


Pensando assim e me imaginando um prisioneiro levado ao cadafalso, mirava a furto ao dois colegas, avaliando-os. Soares e Brandão eram bem fortes e altos. Não. Eu não teria chance de fugir. Sairia do gabinete direto para uma cela.


Chegamos à sala do coronel, que, após as continências regulamentares, nos mandou sentar nas poltronas que estavam ali para visitantes. Foi o Soares, sendo ele o mais antigo, que argumentou junto à autoridade, ficando eu e o Brandão todo o tempo em silêncio. Até então, tudo bem. Eu respirava aliviado, embora o meu semblante denunciasse a minha contrariedade com relação ao abuso de autoridade que o desconto ilegal revelava. A autoridade, embora falando baixo e calmamente, dava a entender nas entrelinhas uma ameaça velada, dizendo-nos diplomaticamente que teríamos, a partir de então, toda a má vontade do comando e coisas do gênero. 


Soltei um suspiro bem grande de alívio, quando saí da sala. Desci a escada com celeridade e voltei para a minha seção de trabalho. Foi quando o Barros, olhando para mim com curiosidade mórbida, fez uma indagação: “E aí, quantos dias de cadeia?”. Ora, minha cabeça a prêmio em nome de um prejuízo financeiro que se sobrepunha a toda uma coletividade. E o cara querendo saber se eu seria punido.


Isso para mim doeu forte. Que classe desunida, meu Deus! Hoje bem tenho consciência de que os comandos agem assim, contando com a desunião da classe em que cada um tenta levar vantagem em relação ao outro. É uma boca rica aqui, uma promessa de missão relevante ali, uma condecoração que pode abrir portas para uma missão futura no exterior, e assim vai. 


Nem me dei o trabalho de lhe responder. Dois meses depois fui transferido e só fiquei sabendo que o tal desconto foi reduzido à metade, cinco porcento. 


Sem perceber, envolvi-me numa ação política que, ao final, beneficiou (ao menos reduziu o prejuízo original) toda uma comunidade. 


Isso foi no segundo semestre de 1989.

Não permaneci na unidade para sofrer da parte do comando a ameaçadora má vontade. 


L.s.N.S.J.C.! 

A FACADA: mais um vídeo!

MAIS um vídeo produzido pelo ‘True or Not’ chama a atenção para outras perguntas sem respostas que se acumulam em torno da ‘facada’ sofrida pelo então candidato à presidência da república Jair Bolsonaro.

Desta vez, o vídeo destaca a presença do ‘homem da camiseta azul’, que tentou evitar a aproximação de Adélio ao candidato e que teve seu depoimento suprimido pelas investigações. As novas imagens divulgadas – com nitidez impressionante – corroboram a tese de que houve uma ação deliberada que contou com vários participantes e que houve mais de uma tentativa de ataque, antes da ‘facada’ propriamente dita. Pode-se ouvir a frase: “calma, tem que ter paciência”.

O documentário prossegue até o momento fatídico. Neste ponto, pode-se ouvir as frases: “não te falei?” e “Acertaram ele, porra”. As imagens mostram que havia uma expectativa ampla e generalizada por um ‘ataque’.

Os novos vídeos divulgados são elementos extremamente relevantes para as investigações que ainda correm sob responsabilidade da Polícia Federal.

O mais impressionante, no entanto, é que nem Bolsonaro, nem seus filhos e nem seus aliados pedem uma apuração mais rigorosa do caso. Tudo parece estar devidamente tranquilo para todos eles que, em tese, deveriam ser os maiores interessados em esclarecer a motivação e restituir a cena do ‘crime’ com fidedignidade técnica.

As imagens do atentado de 6 de setembro de 2018 que definiu as eleições nas próprias palavras de Bolsonaro ainda submergem em uma cortina de fumaça promovida agora, de maneira surpreendente, pelo governo liderado pela ‘vítima’.

As investigações ‘independentes’ do caso devem continuar até que a pressão popular pela busca da verdade factual do episódio ganhe o contorno dramático dos expectadores que perdem a cena principal de um filme. (Brasil247, acesso em 13jan2019)

Há mais coisas entre o céu a terra do que pode imaginar nossa vã filosofia. William Shakespeare

Mas nada é tão oculto que não venha a ser revelado.

L.s.N.S.J.C.!

MENSAGEM aos cristãos brasileiros de hoje!

Por Thomas James (*)

DIANTE da tanta incoerência e tamanha ignorância religiosa e política, diante da ingratidão de muitos que se beneficiaram com os programas sociais do governo PT e hoje cospem no prato que comeram, diante da falta de raciocínio lógico e convincente em argumentos apresentados, quero expressar meu repúdio contra certos cristãos que apoiam a violência, a tortura, a ditadura, a desigualdade social, a aniquilação dos menos favorecidos, a desvalorização da mulher e dos deficientes.

Minha indignação aumenta quando percebo que muitos desses cristãos andam com alguns símbolos religiosos: um crucifixo no peito, um símbolo da paz, uma medalha de Nossa Senhora, um escapulário, um terço, etc.

Minha indignação aumenta ainda mais quando observo que alguns desses cristãos recebem a santa comunhão de joelhos, usam roupas longas e véu na cabeça, fazem jejuns com pão e água nas sextas-feiras e ensinam a doutrina católica nas reuniões da catequese, mas ainda não entenderam que os dois amores que Deus exige é algo sério: amar a Deus e amar os irmãos. Como amar excluindo? Como amar discriminando? Como amar de verdade sem fazer uma opção pelos menos favorecidos? Como amar armados?

Minha indignação triplica quando percebo que esses militantes propagam mais fake news do que verdades. Insistem tanto nas meias verdades. Ai de você se discutir algo com eles! Estão tão manipuladas das meias verdades que não conseguem enxergar o mal que estão vivendo e propagando. Vou expor umas meias verdades. Se eu estiver errado, você tem toda a liberdade de me corrigir:

Kit gay!

Os pedagogos que dedicam a maior parte da vida na sala de aula há anos ainda querem conhecer esse kit gay, mas um capitão que dormiu 28 anos na Câmera Federal sem aprovar um projeto sequer conseguiu conquistar seus seguidores com esta mentira. Falta o quê? Discernimento? Sabedoria?

Um tal de Comunismo!

Um partido com plenos poderes por mais de uma década, mas que nunca tirou nenhum direito dos cidadãos deste país – nem dos menos favorecidos nem dos discriminados pela sociedade intolerante – é acusado de comunista!

Um partido acusado de comunista construiu milhares de cisternas nos sertões nordestinos que sofrem com a seca insuportável há mais de seis anos, garantindo pelo menos água de chuva para saciar-lhes a sede. Há cerca de 18 anos sou testemunha desta verdade.

Um partido chamado comunista colocou comida no prato de milhões de pobres, tirando o Brasil do mapa da fome, através do programa Bolsa-Família.

Um partido chamado comunista deu condições, através do Programa Universidade para Todos – Prouni, que o filho do pobre, do negro, do índio tivesse acesso às melhores Universidades do país.

Um partido chamado comunista possibilitou que milhares de brasileiros, por meio do programa Minha Casa, Minha Vida, realizassem o sonho da casa própria.

Um partido chamado comunista, por meio do programa Lua para Todos, realizou o sonho do habitante da zona rural de ter energia elétrica em casa, e poder, com isso, desfrutar de todos os benefícios que ela proporciona.

Um partido chamado comunista criou o Programa Farmácia Popular do Brasil com o objetivo de oferecer mais uma alternativa de acesso da população pobre aos medicamentos considerados essenciais, gratuitamente ou a preço reduzidos.

Tão estranho o slogan do capitão “Brasil acima de tudo”! Quais são os valores que ele tem a mostrar, seja na sua vida pessoal ou profissional?

Quero fazer uma pergunta para os intelectuais do capitão:

Este comunismo foi mal para o Brasil?

Colocar comida no prato do pobre, educar filho do agricultor, providenciar abrigo para os pobres e obrigar o patrão a assinar a carteira da empregada doméstica, para salvar seus direitos, foram os erros do PT?

Dom Hélder Câmera já afirmava nesta frase célebre: “Quando dei comida para os pobres, me chamaram de santo, mas quando mostrei a raiz da pobreza me chamaram de comunista”.

Esse tal de problema do ABORTO!

Eu vejo certos puritanos que defendam a “Vida”, mas apoiam armamento, ditadura e outros tipos de violência. Quero informar-lhes que a Igreja Católica defende a vida desde a concepção até a morte. Este é dever de todo batizado. O governo não vai obrigar nenhuma mulher a praticar o aborto. Ela abortará se quiser.

Tenho plena convicção de que, se cada família católica assumisse sua vocação batismal, nosso país seria diferente. Portanto cuidar da sua família é a melhor solução para salvar nosso país; ser fiel ao seu parceiro e sua parceira é o melhor testemunho para seus filhos. Educar seus filhos no caminho do bem ajuda a criar uma sociedade coerente e segura.

Não compactue com erros alheios!

Não seja conivente com mentiras. Preserve os valores e os princípios éticos e cristãos. Pague seu trabalhador bem. Não precisamos de armas nem de escolas militares para educar nossas crianças para o mundo. Basta uma educação da qualidade, dando vez e voz a todos os cidadãos. Madre Tereza de Calcutá alertava que a paz começa em família.

Minha indignação quadruplica quando vejo a indiferença ou silêncio de certas autoridades. quando vejo pessoas que têm a obrigação de estar ao lado da verdade, da democracia, do bem comum e dos pobres, mas, ao contrário, tentam conseguir seguidores para um capitão reformado que, na verdade, não tem proposta séria nenhuma para uma nação sucateada pelo golpe e pela maldade, a não ser armar a todos, acabar com classes menores e, pior ainda, oferecer a uma parte da nação “capim” e querer promover ensino à distância para a educação infantil. Pena que muitos ainda o seguem com unhas e dentes sem medir as consequências iminentes.

Eu, que vivi num ambiente multirreligioso na minha terra, nunca vi alguém seguindo conselho de outros credos com tanta facilidade como aqui. Acompanho com muita tristeza um fiel católico aderindo os conselhos de um pastor neo-pentecostal que fala mal da Igreja Católica e nega a autoridade do Papa. Minha indignação é profunda quando vejo um filho de Nossa Senhora, um vicentino, um ministro da comunhão, um consagrado ou uma consagrada, um catequista encontrar no pastor Edir Macedo modelo de honestidade, coerência ou testemunho.

Coerência custa muito, muito caro? A fidelidade à Igreja e ao Papa custa muito caro? Como rezamos na oração inicial da missa de hoje: “Ó Deus, sempre nos preceda e acompanhe a vossa graça, para que estejamos sempre atentos ao bem que devemos fazer”.

(*) Padre da Paróquia Nossa S. de Fátima – Boa Viagem (CE)

(BLOG do Gerson Nogueira, acesso em 12jan2019)

Concordo com o padre!

L.s.N.S.J.C.!