JOSÉ Augusto Moita!

Em todo lugar há um esperto

NA BRANCA, turma 167 (da Escola de Especialistas de Aeronáutica), havia vários, principalmente cariocas, que, além de ter como prato principal atazanar a vida dos aratacas com piadinhas de gosto duvidoso, se achavam os mais sabidos do mundo.

O alencarino José Augusto Moita, ex-aluno da Escola de Especialistas de Aeronáutica

No último encontro, perguntei pelo Müller. Ninguém soube do seu paradeiro, nem mesmo se havia se formado, que acho não ter conseguido. Mas o tempo em que permaneceu no CA foi profícuo em situações hilárias.

O Martinho da Vila ia fazer um show no Rio de Janeiro e uma patota da nossa tarjeta gostava do cara. Aí começaram os planos para irmos assistir ao sambista. Dentre os admiradores do ex-sargento do EB estava o Müller, que, por coincidência, estaria de serviço no final de semana em que ocorreu o espetáculo. Era o pessoal fazendo planos e o coitado a se coçar querendo ir também. Lá pelas tantas decidiu: eu vou também.

— Como? Você está de serviço. — disse-lhe um gozador igual a ele.

— Vou dar meu jeito. Vocês vão ver!

O encontros de veteranos geralmente acontecem a cada mês de julho, anualmente na Escola

O comandante da Esquadrilha dele era um tenente baixinho, que se vangloriava de tudo, um verdadeiro pernóstico, que agora esqueço o nome, parece-me que era Heitor. Dizia ter uma grosa de cuecas e ainda curtia com os que não sabiam que são doze dúzias. Possuía também um Maverick, um Puma e um salário de doze mil cruzeiros por mês, fato que o levou a ser batizado pelos alunos de O Baixinho de Doze Mil Cruzeiros, em alusão ao seriado americano.

Pois bem. Nosso querido e esperto Müller vai ao tenente com o intuito de permutar o serviço pelo do outro final de semana, imediatamente após o evento no Rio, nem que para tanto tirasse dois serviços em vez de um. Aí, para sustentar sua necessidade, resolveu aplicar em cima do Espirro de Pica (era o outro apelido do tenente Heitor — inclusive aconteceu comigo algo sobre esse epíteto, que contarei noutra oportunidade).– Tenente, eu vim falar com o senhor sobre a escala de serviço do fim de semana. É que estou nela mas vou ter que ir ao Rio. Minha vozinha está muito doente, talvez não passe desse fim de semana. Se o senhor me dispensar eu tiro duas escalas vermelhas seguidas.

Note-se que não era a primeira vez que a vozinha do Müller morria ou ficava gravemente doente.

— Não, Müller, não precisa de tudo isso. Você vá visitar sua vozinha e depois a gente vê como fica.

Quando Müller dá as costas após, com um grande sorriso e um ar de vitorioso, cumprimentar o oficial, é chamado de volta. Num passe de ator global, o aluno muda completamente o semblante, voltando a cara de “se acabando”.

— Müller, sua vozinha está internada onde?

— No Fundão. Não me lembro do nome oficial daquele hospital.

— Ah! Então você está com sorte, eu moro lá pertinho. Dou-lhe uma carona e aproveito também para fazer uma visita à sua avó.

— Mas, tenente, não precisa se incomodar. Eu vou de ônibus mesmo.

— Eu faço questão…

— Sabe o que é, tenente? Eu acho que não vou mais, não. Talvez até ela receba alta antes do fim de semana…

Ao desmanchar o plano do indigitado Müller, o tenente ficou possesso.

— Seu filho da puta, você vai ficar de serviço em todo fim de semana até eu me esquecer de você.

E o esperto Müller foi visto de décimo (uniforme) em várias sextas-feiras na hora do “bota-fora”.

Ao ler e digitar essa história do tal Müller, que J. A. Moita conta com uma pitada de humor nordestino, fico a me perguntar se o tenente Heitor não sabia do golpe desde o primeiro momento em que o esperto carioca abriu a boca para falar da saúde de sua vovozinha. 

Ingressei na Escola em 1977, sucedendo a turma do amigo Moita, que também tinha o branco por cor da tarjeta. Formei-me dois anos depois, permanecendo na Força Aérea por mais 28 anos, onde circulei por uma meia dúzia de quartéis. Durante essas três décadas quantas vezes soube de soldados ou mesmo de colegas sobre o golpe de “matar” a avó, com o fim de ser liberado e viajar a seu local de origem familiar. Golpe antigo, mais velho que a posição de, digo, golpe mais velho que andar pra frente.

Em todo lugar há gente de todo o tipo, boas, ruins, indiferentes. Levar vantagem em qualquer tipo de coisa e, claro, sobre as pessoas em volta, já que o mundo é uma concorrência, torna-se fato corriqueiro. É o que presenciei tantas vezes, inclusive na qualidade de vítima, vindo de colegas de farda. É aquela viagem remunerada, um curso, quem sabe uma missão no exterior ao final de carreira… Vale qualquer vantagem para que se minta, pise, diminua ou delate um colega pretensamente surpreendido em condição de irregularidade. Como disse o colega em seu texto, o tal Müller pode nem ter se formado na Escola de Especialista, porém se o fez, tinha todos os pré-requisitos para se tornar um indivíduo oportunista, trapaceiro, capaz de qualquer coisa para se dar bem na vida.

Sobre o tenente Heitor, não tenho boas recordações. Naquele tempo havia na Escola um grupo de oficiais egressos da Academia, unidade de ensino em que se formariam no quadro de oficiais-aviadores. Alguns deles, sendo julgados inaptos para o voo, acabaram por ser desligados, mas reaproveitados na escola de Curitiba (a extinta EOEIG), onde se formariam no quadro de oficiais de infantaria de guada. Era o caso do tenente Heitor José Miranda Perez, que, talvez inconformado por ter fracassado no projeto original, que era sair aviador,a elite, quem mandava (e manda) realmente da FAB, agia com prepotência em relação aos pobres alunos, não os tratando com bondade como mandava o juramento inicial. Era recalcado por ser uma espécie de oficial de segunda categoria.

É certo que, por ter tirado nota baixa em Matemática, fomos (eu e mais dois colegas) chamados à sua sala. Fomos aí severamente advertidos (essa não é bem a palavra, humilhados cairia melhor) sobre a possibilidade de sermos desligados por falta de nota nessa disciplina. Depois que saí da sala do oficial, a partir de então, procurei empenhar-me, esforçando-me ao máximo para que a premissa do tenente Heitor não se concretizasse. Graças a Deus, contei com alguns anjos como o Montanholi (já falecido) e o Jandir, que deram dicas valiosas sobre a Ciência de Pitágoras.

A outra recordação infeliz que a memória me conservou é que numa sexta-feira apresentei-me na formatura de final da tarde com o quinto uniforme em desalinho. Levei um baita esporro do oficial, que, segundo diziam, era formado em Psicologia. Como apresentei-me com atraso (já mencionado aqui neste blogue), fui encaminhado à alfaiataria da Escola, onde me deram um quinto de um outro aluno já desligado uma turma antes (quem sabe a peça de uniforme não tenha pertencido ao amigo Moita?). Talvez tenha sido malandragem dos taifeiros alfaiates, mas me empurraram aquele uniforme usado com a calça mais longa que as minhas pernas, o que era de se esperar pelo meu tamanho pequeno e meus 51 quilogramas de peso corporal. Inocentemente me propus a consertá-la, para tanto eu mesmo a cortei com tesoura e fiz alguns alinhavos que ficaram igual a minha cara, motivo pelo qual minha liberdade ficou sob risco.

— Se um caminhão de lixo passar por ti, vai te levar com certeza, aluno! — Bradou severamente o oficial que fazia a revista corriqueira.

Felizmente não me deixou impedido e pude gozar daquele final de semana sem formaturas, aulas ou outras chatices.

Mas, tendo agido por psicologia ou por soberba, grosseria mesmo, o certo é que a bronca que ele me deu quanto à nota baixa em Matemática veio a me motivar a superar as dificuldades, que, no início foram enormes. 

No entanto, jamais me esqueci daquela soberba figura.

L.s.N.S.J.C.!

2 comentários sobre “JOSÉ Augusto Moita!

  1. Seu texto, que iniciado com o intuito de esclarecer o meu em seu defict de informações esclarecedoras do contexto, acabou por não apenas cumprir sua missão, mas me tocar profundamente o coração. A possibilidade de terem lhe dado um uniforme pertencido a um “derrotado”, que envergonhou e deu um prejuízo financeiro àquela instituição de ensino, foi carinhosa ao extremo para comigo, o que me levou a meditar: por que os corações generosos estão sempre vestidos em gentes simples? E , já que em Deus vc acredita, fica com Deus, Irmão.

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  2. Obrigado, meu irmão.
    O seu texto mostra duas figuras que, infelizmente, o mundo está cheio. A do esperto, oportunista, mentiroso, capaz de até delatar um colega para salvar a própria pele ou para se dar bem na vida, e o de tantos outros arrogantes, como era o caso do oficial em questão.
    Não só na farda, mas no mundo em si.
    Paz e bem, meu irmão.

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