IMPRESSÕES de um viajante brasileiro!

Trindade e Goiânia

Andar com fé eu vou,
que a fé não costuma “faiá”
Andar com fé eu vou,
que a fé não costuma “faiá
Andar com fé eu vou,
que a fé não costuma “faiá”
Andar com fé eu vou,
que a fé não costuma “faiá”

(Gilberto Gil)

Foto 1 – Catedral metropolitana de Nossa Senhora Aparecida, Brasília – DF

MUITO tenho matutado nestas últimas horas sobre como iniciar este depoimento. Olhem que mentalmente já mudei várias vezes o título e a organização deste texto. É assim mesmo: nem sempre a inspiração chega de pronto, de forma que a gente vai pensando, imaginando, construindo e transformando, até chegar a um denominador comum. Pouco inspirado, o jeito é sentar em frente ao computador e iniciar a escrever. Muitas vezes as palavras e ideias fluem naturalmente.

É o que espero.

Dentro do possível, tentarei nesta narrativa seguir alguma ordem cronológica, salvo as divagações de cunho sócio-filosófico.

Ontem, 25 de janeiro, chegamos de viagem. Fazia tempo que não saíamos da região. A a anterior tinha sido para o Uruguai em 2014. No ano anterior, 2013, havíamos visitado a capital dos argentinos. Desta vez, porém, surgiu a oportunidade de conhecermos um pouco mais o nosso próprio país. Eu, a Alemoa e a pequena Alice Maria juntamo-nos a um grupo de 32 pessoas alegres e festeiras a partimos direção ao Estado de Goiás e Distrito Federal. Trindade, Goiânia, Brasília e Caldas Novas foram as cidades que escolhemos para visitar desta vez, numa espécie de turismo religioso, comercial, de conhecimento histórico, cultural e político, finalizando com três dias de lazer na famosa cidade do sul de Goiás.

Foto 2 – Ao fundo a Basílica-santuário do Divino Pai Eterno (parte posterior), Trindade, Goiás

Duas pessoas não enxergam a mesma coisa.

Em cada cabeça, um universo, como dizia o baiano Raul Seixas. Resumo aqui, para ilustrar a prosa, a anedota seguinte:

Num mesmo vagão de trem seguiam três profissionais quando em dado momento, por uma exigência da natureza que não isenta a ninguém, alguém compulsoriamente perfuma o ambiente. Diante do fato, cada um dos profissionais, à sua maneira, então principia a definir a flatulência inoportuna. O médico discorre tecnicamente sobre gases intestinais, enquanto um poeta declama um poema referindo-se ao suspiro de um fiofó apaixonado. O advogado, por sua vez, define os gases como “o brado desesperado de um sentenciado clamando por liberdade”.

Como vêem, cada ser pensante carrega consigo toda uma bagagem sociológica, que vem acumulada ao longo da existência. O agir e o falar, por conseguinte, revelam a natureza do indivíduo.

Assim sendo, eu, à medida que o ônibus, vencendo as distâncias, aproava rumo ao Centro-Oeste, ocupo-me a mirar a paisagem que a cada vez se apresentava diante de meus olhos.

Sem jamais divorciar-me do espírito crítico, durante o período da excursão, de tudo que vejo e observo três forças poderosas sempre me norteiam o pensamento: a fé, a política e a economia. Simultaneamente agem sobre cada um de nós os poderes espiritual, político e econômico, que, embora inconsciente, insistem em permear a alma humana, que, no meu caso, venho há mais de 58 carregando sobre este corpo miúdo de origens afro, índia e branca. Nem sempre tive consciência disso. Por longo tempo em minha vida onde via uma árvore, não conseguia enxergar a sombra, os frutos, os passarinhos…

Partimos então de Dois Vizinhos às 6 e 30 de 18 de janeiro, uma sexta-feira ensolarada. Enquanto dia o veículo trafega margeado de vastos campos do Paraná, com algumas escalas técnicas previstas: Quedas do Iguaçu, Cascavel, Campo Mourão e Maringá. Em cada um desses pontos, novos colegas de excursão se agregavam ao grupo. Pela janela observo as culturas da região: soja, milho, bovinos, além pinheiros, galpões, casas. Pelas placas indicadoras quilometragens e distâncias também me chamam a atenção. Como passatempo, mentalmente calculo a hora de chegada na próxima localidade. Assim vou me ocupando a mente, a fim de afastar o doutor alemão.

Ainda sob a luz do dia, cruzamos o rio Paranapanema, deixando para trás a Terra das Araucárias, adentrando agora pelo estado de São Paulo. Sob belo crepúsculo vejo transformar-se a paisagem anterior, que dá lugar a novos cenários, nos campos paulistas outras culturas. Não mais o café do norte paranaense e sim a cana-de-açúcar, lavoura predominante nas propriedades ao longo da rodovia Assis Chateaubriand. Coloco-me a meditar sobre a figura do cortador de cana, esse sobrevivente, a trabalhar duro de sol a sol para o largo lucro do usineiro.

Os boias-frias / quando tomam umas biritas / espantando a tristeza / sonham com bife-a-cavalo, batata-frita / e a sobremesa é goiabada-cascão com muito queijo / depois café, cigarro e um beijo de uma mulata / chamada Leonor (João Bosco)

Logo chega a noite e mais uma parada técnica. Jantamos em Presidente Prudente.

Muito embora relutante, logo cada um de nós, cedendo à força irresistível da natureza, nos rendemos ao descanso. Depois de atravessarmos o famoso Tietê, caímos nos braços de Morfeu.

A noite corre célere, ainda mais para um sujeito bom de sono como eu. Desperto notando pelas placas que agora por Goiânia. Já já vamos chegar ao primeiro destino acertado: Trindade.

A primeira missa do sábado — televisada pela Rede Vida — ocorre sempre as sete da manhã. Movidos pela fé, mal o ônibus estaciona,desembarcamos e subimos a extensa escadaria que nos leva diretamente a uma das laterais da Basílica-santuário do Divino Pai Eterno. O relógio digital posicionado em frente ao altar marca exatamente 7 horas e 3 minutos quando finalmente adentramos o templo. A missa já havia iniciado e o padre já estava no perdão. Para mim, em particular, foi um momento único, não conseguindo localizar nos arquivos da memória palavras exatas para expressar os sentimentos que, no momento, me povoam o espírito. Vejam que a ninguém é lícito sair de um templo religioso da mesma forma nele se entra. Digo mais: se a oração não te faz um ser humano melhor, para que serve? É o mesmo que comer mas não se alimentar. Não adianta ir à igreja rezar e depois fazer tudo errado, como dizia Fernando Mendes.

Somente depois da celebração vamos procurar o que comer, pois estamos em jejum. Em seguida nos hospedamos na modesta Pousada Monte Cristo. O dia seguiu. Logo chegaria o almoço, com a típica culinária de Goiás, à base de frango guisado, jiló, arroz e feijão, acompanhados do saboroso pequi, fruto típico da região.

Nem é preciso relatar a enorme quantidade de barracas e lojas em volta do santuário, onde se vende de tudo. De artigos religiosos às mais diversas bugigangas e quinquilharias, incluindo camisetas com os dizeres “lembrança de Trindade”, geralmente com a estampa da tradicional medalha da Trindade.

À tarde, depois da missa caipira das três horas, com direito a berrante, viola e tudo o mais, eu, a Alemoa e a pequena Alice fazemos um passeio para mais adiante, onde inevitavelmente acabamos por comprar algo para dar de lembrança a parentes e amigos. Como estamos com criança, as paradas são mais frequentes. De bom mesmo, acho pamonha, iguaria que há tanto tempo não degustava. Mais lojas, bares, barracas, pousadas e hotéis, além de três bondinhos de turismo.

Foi combinado que à noite haveria um bondinho — espécie de ônibus adaptado em forma de trem ou de bonde — para nos levarmos a passear pela cidade, sob a módica quantia de dez reais por cabeça. O passeio é bastante animado, com bastante música e motivações. A Alice Maria diverte-se a valer. Além da animação, a certa altura o guia principia a falar ao microfone a fim de apresentar aos turistas os principais pontos da cidade. Uma igreja pioneira ali, outra acolá, depois mais outra, que é dedicada ao padre Pelágio, um “alemão”, um religioso que se dedicou por décadas às causas do Divino Pai Eterno e cujo corpo se encontra sepultado no templo em questão. Na verdade, a julgar pelo nome, o religioso era descendente de italianos e não de alemães, mas para povo humilde de Goiás, qualquer um europeu, seja italiano, francês ou belga, é tudo alemão.

Chegamos a um ponto em que o guia conta-nos um pouco da história da devoção ao Pai Eterno, atividade econômica em torno da qual gira a cidade. O movimento religioso inicia-se (segundo pesquisei na Internet) lá pelo ano de 1840. Constantino Xavier e sua esposa, ambos muito religiosos, estavam capinando o roçado quando encontram uma medalhinha cunhada em que aparecia a imagem da Santíssima Trindade a coroar a Virgem Maria. Dois anos depois, pretendendo restaurar a relíquia, Constantino decide procurar um artista plástico afamado, que residente em Pirenópolis, a cento e tantos quilômetros distante de Barro Preto, o nome original da atual Trindade. Ocorre que o artista acaba fazendo um trabalho mais sofisticado, mais caro. Como Constantino não tenha dinheiro suficiente para pagar pelo trabalho, deu ao artista o próprio cavalo como pagamento. Assim, tem que vencer a pé os cento e tantos quilômetros chegar a Barro Preto, onde populares o aguardam com festa. Por atribuírem à manifestação divina pela fé do roceiro, que percorre a pé caminho tão longo, logo a notícia se espalha fortalecendo-se a devoção à Trindade Santa, que, ao longo dos anos, vai crescendo e crescendo, garantindo hoje e durante todo esse tempo a sobrevivência para muitos e o lucro para poucos. A religião, sabemos, vai além das obras religiosas, movimentando a economia local.

Dia seguinte, 20 de janeiro, um domingo ensolarado, partimos para Goiânia, distante dali apenas dezoito quilômetros. A razão da visita à capital dos goianos é, para a alegria do público feminino, no caso a maioria do nosso ônibus, fazer compras. Estacionamos no pátio de um grande centro de compras especializado em confecções. O estabelecimento, que abriga quase uma centena de pequenas lojas e praça de alimentação, fica no setor central, avenida Goiás, ao lado da estação rodoviária da capital goiana.

Depois das compras inevitáveis e do almoço, embarcamos novamente no ônibus com destino a Brasília. Enquanto aguardo o horário, quedo-me sentado ali observando o movimento em volta. A meu lado senta-se um companheiro de viagem, que logo puxa conversa. Observando a paisagem em volta, procuro sondar-lhe a alma, e lhe pergunto sobre o número considerável de hotéis estabelecidos nas proximidades.

“De que vivem todos esses hotéis? Será que em função deste centro de compras?”

O simpático colega responde-me que sim, certamente.

“Além disso, a própria rodoviária também é um bom atrativo para a hotelaria e o comércio local.”, acrescenta ele com outras palavras.

Sem que eu pretenda chegar a esse ponto, a dado momento da prosa, o amigo me cita a questão dos sem-terra. Mostra-se preocupado porque não longe da nossa região existem alguns assentamentos.

“Se o governo atual expulsar esses sem-terra, eles vem fazer arruaça na cidade”, prevê.

“Certamente”, respondo-lhe, aproveitando para dar a minha opinião a respeito do fenômeno social.

“Quanto mais gente fora do campo, mais cheia a cidade fica. Aí não tem emprego, escolas, postos de saúde, enfim, a cidade não está preparada para tanta gente, por isso também a maioria delas detém muitos problemas sociais”. E vou assim falando enquanto noto a expressão facial do colega de viagem. Pelo andar da prosa, percebo claramente seu lado político-eleitoral, que é diametralmente oposto ao meu. É claro que a conversa, para evitar discussões estéreis e atritos desnecessários, é por mim conduzida. Fica, portanto, evidente que o meu interlocutor, à semelhança da grande maioria dos brasileiros, é gente simples e honesta, porém um tanto manipulado pelos meios de comunicação social e por outros aparelhos ideológicos do Estado, entre eles certamente a própria Igreja. Para ele, “o Brasil não tem jeito e político é tudo igual; não se salva ninguém”. De nada adiantaria dizer-lhe que o problema maior está na qualidade, na consciência do eleitor, a ponta da corda.

Melhor deixar quieto.

Chegam os motoristas e abrem o ônibus salvando-me do mal-estar, a consciência pesada, pela impotência de não poder orientar o amigo, até por ser um brado no deserto. O silêncio às vezes é sábio. Quanto o nosso povo é ingênuo! A maioria, infelizmente, penso cá com meus botões.

Pegamos agora a estrada seguindo rumo à Capital Federal.

Foto 3 – Praça dos Três Poderes. Ao fundo o Palácio do Planalto, Brasília, Distrito Federal

Continua

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