IMPRESSÕES de um viajante brasileiro!

Parte 3 – Brasília

Se acaso você chegasse
No meu chatô encontrasse aquela mulher
Que você gostou
Será que tinha coragem
De trocar nossa amizade
Por ela que já te abandonou

Eu falo porque essa dona
Já mora no meu barraco
À beira de um regato
E um bosque em flor  

De dia me lava a roupa
De noite me beija a boca
E assim nós vamos vivendo de amor

(Lupicínio Rodrigues)  

DEPOIS de algumas voltas por lá, já ao final do período de visitação ao Congresso, entrei no museu do Senado, onde outro grupo visitava. Pedi ao meu amigo Luís Bartniski para tirar uma foto minha em que aparecesse ao fundo os quadros com a foto dos digníssimos ex-presidentes da casa (foto 10).

Foto 10 – No museu do Senado

Comentei sobre aqueles nobres senhores ali na parede retratados. Todos homens, todos brancos, nenhuma mulher, nenhum de raça negra ou índia. Deixei escapar que um dia gostaria de ver ali a imagem de uma mulher. Foi nesse momento que uma senhora pertencente ao nosso grupo e que passava por mim fez o seguinte comentário: “É, mas a que estava lá não deu muito certo”. coitado do eleitor brasileiro, que acredita cegamente no que propaga a grande mídia deste país. Falando do parlamento, e não somente do poder executivo, gostaria de ver ali de verdade representado o povo brasileiro, não composto só de homens ricos, brancos, poderosos, mas sim como um todo. Mas, para isso, teria que ser mudada a cabeça do eleitor, sobretudo com a educação libertária, que ainda está longe da nossa realidade.

Pobre povo!

À tarde, rodamos pela Praça dos Três Poderes e depois rumamos ao Palácio da Alvorada, que, por medidas de segurança impostas pelo atual governo, nada pudemos ver. Até a visita das quartas-feiras não existe mais. Voltando, passamos por uma via em que a ex-presidenta Dilma costumava exercitar-se de bicicleta. Passamos também por um hotel em que, segundo Raquel, a guia, a diária da suíte presidencial é em torno de 38 mil reais. Em seguida circulamos pelo Setor de Embaixadas Sul, mas antes disso a guia nos aponta a mansão do Romário, que ele pôs à venda por módicos vinte milhões de reais. Está apertado o pobrezinho, às voltas com suas dívidas de família.

Antes, quando ainda circulávamos pelo Plano Piloto, a guia nos aponta um museu. Era o Museu Honestino Guimarães, também uma obra de Niemeyer. Chamou-me a atenção quando a guia nos disse ter o museu esse nome em homenagem a um estudante “desaparecido” no período militar. Como desaparecido, minha senhora? Desaparecido se, largando a mão de sua mãe, tivesse ele sumido no meio da multidão e nunca mais fosse localizado, ou ainda numa excursão ecológica houvesse se desgarrado do grupo e desaparecido no meio da selva e nunca mais visto. A realidade cruel foi outra, porém. O estudante foi barbaramente torturado por agentes do Estado, morrendo em função em função disso e seu corpo ocultado em lugar incerto.

Ainda negando falar de política, Raquel discursa indignada sobre a presença no parlamento do deputado Tiririca, eleito para seu terceiro mandato legislativo. “O povo brasileiro não precisa de palhaço e sim de parlamentares sérios e preparados”. Continua: “Na primeira vez que foi eleito, tudo bem, pois era uma forma de protesto, mas agora! Sou totalmente contra e a presença dele no parlamento é pra mim um escárnio, uma zombaria ao povo. Um analfabeto, que não faz nada. Sou até a favor de que, para ser deputado ou senador, a pessoa tinha que ter formação universitária.”, finalizou.

Novamente concordo em parte com ela. Já estava pronto a dizer “Muito bem!”. No entanto, ela pisou feio ao final da fala quando condicionou o exercício do mandato parlamentar à existência de curso superior. Não é bem assim, querida. Existem pessoas sem ao menos o ensino médio que entendem mais de política, e além dessa qualidade, são muito mais humanos, que muitos doutores por aí. É evidente que não é o caso do deputado-palhaço. Assim como religiosidade não reflete caráter, diploma não significa saber, ainda mais o saber político.

Outra passagem.

Falou-nos ainda que “Em Brasília, graças a Deus, ainda há civismo, pois o brasiliense prestigia os desfiles de sete de setembro”. Outra bola fora. O nome de Deus não pode ser empenhado como juízo de valores positivos para a prática de civismo e patriotismo. Fazer continência à bandeira, cantar o hino, desfilar no dia sete de setembro, nada disso representa o verdadeiro cidadão, não garantindo o sentimento verdadeiro de patriotismo de ninguém. Com certeza, falou assim aludindo — ainda que inconsciente — ao mau uso feito dos símbolos nacionais pelo grupo político que venceu as últimas eleições. E ela que prometeu não falar em política.

O falar e o agir denunciam a natureza de cada indivíduo, como disse eu na primeira postagem desta série. Se fosse feita uma pesquisa sobre os eleitores que reelegeram Tiririca para o terceiro mandato, saber-se-ia que a maioria deles, com certeza, também elegeram o atual presidente. Mesmo padrão, mesmo pensar. Ambos tiraram proveito do analfabetismo político que grassa no país. Atribuem a Nelson Rodrigues, por sinal um simpatizante da direita conservadora, a frase: “Os idiotas vão dominar o mundo, não pela qualidade, mas pela quantidade. São muitos”. E eis que se vem cumprindo essa profecia.

Nas embaixadas, vimos que, por ironia do destino, a dos Estados Unidos da América fica próxima à da Rússia. Enquanto a dos ianques parece uma fortaleza, a de Portugal é cercada de tranquilidade.

Foi quando, por derradeiro, chegamos ao Núcleo Bandeirante para vista ao Museu Vivo da Memória Candanga (foto 11).

Foto 11 – Museu Vivo da Memória Candanga, Brasília, Núcleo Bandeirante – DF

Nem só de trabalho vivia o candango.

Lá, como é costumeiro, também tiramos muitas fotografias. Enquanto observarmos os quatros fotográficos em preto e branco daquele tempo, os objetos, os consultórios, as camas, as máquinas de escrever e até mesmo os utensílios domésticos de cozinha, uma história que a guia contava me chamou a atenção. Ainda falava em política, sem que ela percebesse, já que a política faz parte do nosso cotidiano.

Foi assim.

Em busca da sobrevivência e escapando da miséria crônica que assolava a região, a maioria dos 65 mil trabalhadores pioneiros que ergueram Brasília veio do Nordeste brasileiro. A ideia do governo era que, após concluída a construção da nova capital, todos eles voltassem à sua cidade de origem. Nem todas as consequências podem ser vislumbradas. Como, fugindo da miséria, exigir que a ela regressassem?

Foto 12 – Sob a efígie de JK, Praça dos Três Poderes, Brasília – DF

Por óbvio que aquelas almas foram ficando e as instalações provisórias, que inicialmente foram edificadas no Núcleo Bandeirante, serviram de base para as aglomerações urbanas que, mais tarde, ficariam conhecidas como cidades satélites. Nas horas de folga todos aqueles homens precisavam comer, dormir, consumir, divertir-se, viver. Além de açougues, farmácias, barbearias, bares, restaurantes e tudo o mais, instalaram-se também prostíbulos, as chamadas “casa da luz vermelha”, onde as pioneiras, sobrevivendo, exerciam seu trabalho. Foi assim, com a promessa de, assim que desse, buscar a família, muitos deles não deram mais sequer notícia aos seus. Diante disso, muitas esposas determinadas a não permanecerem no desamparo pegaram a prole e a trouxa, rumando a Brasília que seus homens construíam com a força de seus braços e regaram com suor e sangue. Muitas delas, ao chegarem, tiveram grande desapontamento: seus esposos já viviam com as mulheres das casas de luz vermelha, tendo constituído nova família. Diante dessa realidade, também elas foram logo assumidas pelo colega, pelo vizinho ou por outro operário, solteiro ou não, devido à carência de mulheres.

Isso me fez lembrar de pronto da composição famosa de Lupicínio:

… Eu falo porque essa dona / Já mora no meu barraco /
À beira de um regato / E um bosque em flor / De dia me lava a roupa / De noite me beija a boca / E assim nós vamos vivendo de amor.

Além de Lupicínio, um tema muito explorado por Nelson Rodrigues. É assim a vida. Diante de um fato consumado, a ex-mulher e os filhos não ficaram ao desamparo. Deus refaz o que o homem desfaz.

No entanto, Brasília não foi feita para os seus construtores. Os candangos tiveram que se refugiar nas redondezas; a nova capital foi construída para o poder e, de lambuja apenas, para os funcionários que vieram de avião do Rio de Janeiro, com salário em dobro e apartamento mobiliado. Aos candangos restaram se instalar precariamente nas futuras cidades-satélites, principiando assim inchaço populacional que, até hoje, incomoda as elites da cidade JK.

Está vendo aquele edifício, moço? / Ajudei a levantar / Foi um tempo de aflição / Eram quatro condução / Duas pra ir, duas pra voltar / Hoje depois dele pronto / Olho pra cima e fico tonto / Mas me chega um cidadão / E me diz desconfiado / Tu tá aí admirado / Ou tá querendo roubar? / (Zé Geraldo).

Termina a parte de Brasília e Raquel despede-se de nós recebendo da nossa organizadora seus honorários por mais um grupo guiado. Seguimos agora a Caldas Novas, última parte da excursão.

Continua…

2 comentários sobre “IMPRESSÕES de um viajante brasileiro!

  1. Brasília é um estado de depressão em concreto aparente, habitada por , com raras exceções, de um povo de extrema retrógrada opinião política. Lá só existe uma lei, a de gerson. Não troco Belém por seiscentas brasílias.

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  2. Não era essa intenção inicial.
    Brasília integrou o Brasil. Antes, Belém e outras capitais sofriam crônico desabastecimento. Quase tudo chegava de navio. A partir daí a Belém – Brasília e outras rodovias, unindo as cinco regiões.

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